Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio XLIV

Determinação

 

 

 

 

Este é o meu mundo. O mundo das trevas. Por onde eu olho só vejo destruição e morte. A terra calcinada; A cidade demolida; Os céus em chamas. Talvez nunca mais o sol volte a brilhar. Eu tento entender, de alguma forma que não sei explicar, por que não me lembro de nada. Por que tudo isso aconteceu. Por que Londres está destruída.

Estou vivendo nos Dias do Juízo.

Continuo a minha caminhada sozinho pelas ruas desérticas. Carros abandonados, estabelecimentos destruídos, jornais voando enunciando a catástrofe: “Armagedom”; “Apocalipse”; “Os Monstros Estão Entre Nós!”. E nesse minuto de silêncio que vejo o possível causador disso tudo. No centro dos céus da cidade, ela girava e brilhava intensamente interligando os dois mundos.

Aquilo que Metraton me alertou…

O Inferno estava nos invadindo!

Hipnotizado pela imagem do portal, algo grande, brilhante, e em alta velocidade veio em minha direção. Aquilo será mortal, mas eu não consigo me mexer… sair do lugar. Eis então que escuto um grito. Uma forte exclamação. Alguém me alertando desesperadamente do perigo.

“CUIDADO, PAAAAAIII!!!”

Eu me viro e olho para aquele que corre em minha direção.

Eu acordo.

 

Quarta-Feira, 21 de Junho de 2028. 06h10min.

Ilchester Place.

Londres – Inglaterra.

 

Danyael estava soando frio. Tivera talvez o sonho mais estranho e bizarro desde muito tempo. Antes de se levantar ele olha para o lado. Lilith dormia bem sossegada prensada por dois travesseiros – que de acordo com ela ajudava por causa da barriga. Um beijo carinhoso em sua amada, evitando acordá-la, e Danyael se levantou da cama.

O estranho sonho ainda estava martelando em sua mente. A sensação era que algo de muito ruim estava pra acontecer. Mas… o que? Seria outra invasão demoníaca, tal como foi em Oxford? “Isso era impossível…”, pensou. Depois da guerra em Oxford os exércitos das trevas estavam fracos e os anjos se certificaram de fortalecer bem as barreiras!

“Ou será que não?”

Danyael lembrou-se agora do que Metraton, o Serafim-Rei havia lhe dito cinco anos atrás…

 

“O que está pra acontecer nos próximos anos deve ser um fato único na historia do universo. O bolsão astral conhecido como 'Inferno' chegou hoje a proporções tão colossais que, quando a Roda dos Mundos girar, haverá uma inversão cósmica entre os mundos e, ao invés da Terra descer, o Inferno tomará o lugar de Ark-a-nun tornando-se assim, oficialmente, um mundo.”

 

Talvez fosse mesmo isso, mas quem sabe seus sonhos não fora apenas besteiras de seu subconsciente? Quem sabe, devido aos terrores que vivenciara nos dias de guerra isso não tenha ficado em suas memórias? Verdade seja dita: Os dias em Oxford serão impossíveis de se esquecer com facilidade!

Após lavar o rosto e fazer sua higiene pessoal no banheiro, o anjo saiu do quarto silenciosamente e caminhou foi até a janela que ficava na sala. Contemplando os outros prédios e observando que seus vizinhos também acordavam esta hora da manha para trabalhar, Danyael ficou bem pensativo com relação ao futuro desta cidade. E não apenas isso, como também o seu futuro como Arcanjo. As coisas mudaram muito nos últimos meses. Redael não entrou mais em contato com ele e todas as vezes que ele ia até a casa do arcanjo, não encontrava ninguém por lá.

Ele sabia claramente que ainda faltava cumprir outros ensinamentos e treinar bastante para ser nomeado como Arcanjo, mas ele não podia fazer nada se seu próprio mentor havia desaparecido. Danyael já pensou algumas vezes ir falar com seu tio, o Arcanjo Miguel, mas desistira toda vez que lhe vinha em mente a possibilidade de Redael ter abandoná-lo. “Melhor ficar sem saber do que se irritar de graça”, pensou consigo. Nesse momento ele sorriu. Percebeu que o treinamento em Hoenburgh sobre ter temperança e parcimônia tivera grandes resultados!

Danyael sentia-se outro agora.

O anjo havia fechado os olhos por breves segundos. E nesses breves segundos ele não tinha percebido que o Tempo havia parado. Quando viu os pombos parados nos céus foi então que a percepção sobrenatural de Danyael disparou, revelando que havia outra pessoa além dele naquela sala, naquele momento.

— Hazee-el.

— Peço permissão para entrar em seu Lar, Danyael.

— Fique à vontade.

Surgindo entre brumas roxas e azuis, um imponente anjo postou-se diante de Danyael. Ele tinha longos cabelos eram verdadeiramente azuis, olhos que lembravam o brilho do luar e portador de beleza digna de um ser superior. Suas asas eram tais como as de um enorme cisne branco. Sua presença ali era algo que obviamente Danyael não esperava, mas tinha o pressentimento de que coisa boa não era.

— Danyael você está sendo convocado a comparecer no Conselho.

— Conselho de Londres?

— Não. Vim em nome da Cidade de Prata. Você está sendo convocado a comparecer no Conselho de Júpiter.

O susto foi imediato. O que o Conselho Superior dos Arcanjos queria com ele?

— Sobre que alegação?

— Você saberá!

 

*****

 

Estação de Metrô de Southwark – Londres. 10h00min.

 

Eles fizeram o possível para chegar cedo e em segurança. A distância Oxford/Londres não era grande, mas na atual situação deles perante a atual sociedade independente dos vampiros, nem mesmo com sol a pino no céu havia certeza de segurança para aqueles que estavam sobre o julgo da Caçada de Sangue.

Erick, Nick e Tawnee corriam contra o tempo (e contra a aglomeração de transeuntes passageiros) para realizarem a tarefa pelo qual vieram fazer. O que tava tudo certo seria que, mesmo numa estação cheia de pessoas mundanas, a Lei do Segredo seria mantido perfeitamente. De acordo com Nick, toda vez que ele usava seu poder (que ele denominou como) Visão Temporal, ninguém percebia que houve qualquer tipo de fenômeno sobrenatural. Seria como um piscar de olhos – num milésimo de segundo eles estariam ali e depois sumiriam, voltando ao ponto de partida no milésimo seguinte. Em resumo: Apenas seres sobrenaturais com poderes relacionados ao Tempo irão perceber!

 — Vamos ficar aqui. – disse Erick. – Aqui é o centro da estação. Como você disse que não poderemos fazer nada a não ser assistir o que aconteceu, quero então ter visão VIP daquela noite!

— Certo. Agora, só vou lembrar… mesmo com a ajuda Tawnee, não garanto nada por quanto tempo irei conseguir manter a Visão Temporal.

— Ah, ‘tá certo. Farei o possível pra virar uma águia e enxergar tudo!

— Eu confio em você, Erick!

Erick sorriu muito agradecido:

— Eu também confio muito em você, meu amigo! – respondeu colocando a mão no ombro de Nick.

Nick se afastou um pouco dos companheiros. Relaxou os músculos, estalou o pescoço e quando se sentiu completamente bem, fechou os olhos e entrou em estado meditativo ignorando totalmente o barulho externo e deixando a mente vazia. Para começar o poder da Visão Temporal, Nick usa um certo método que de acordo com o psiônico ajuda muito: massagem nas têmporas.

Ainda em estado meditativo, ele chamou por Tawnee:

— Amor. Assim que você quiser, estou pronto.

— Certo.

Erick respirou fundo e lá no fundo começou a rezar.

 

*****

 

Sudoeste da Inglaterra. 10h00min.

 

— Assine aqui, por favor. – o mensageiro entregou o formulário para Keira assinar o recebimento.

— Certo. Pronto.

— Obrigado.

— Obrigada, você! - Após pegar o envelope, Keira fecha a porta do templo.

Em algum lugar do sudoeste da Inglaterra ficava o templo maior da Ordo Sancti Graal, ou comumente conhecida como Ordem do Graal. Mesmo sendo uma das Escolas de Mistérios mais antigas do país, a Ordem sempre se manteve longe dos assuntos políticos do Arcanorum focando sua atenção unicamente na doutrina do cristianismo. O local exato onde fica o templo maior é segredo absoluto, até mesmo pro membros internos do Arcanorum, pois dizem que o local onde hoje fica o templo é o mesmo lugar onde um dia esteve erguida a cidade lendária de Camelot - que neste mundo é “tão lendária” quanto os vampiros, lobisomens e bruxos!

E era nessa sagrada ordem que Keira e James eram membros honorários. Claro que a proposta de afiliação veio primeira do que a dos Iluminados, porém devido aos acontecimentos de 2023 por motivos pessoais o casal viu que a Ordem do Graal não supria todas as suas expectativas. Hoje, entretanto, eles eram fieis às duas sociedades, porém tinha momentos como esse que a fidelidade era posta em cheque!

Keira estava nervosa. Em suas mãos estava nada menos do que uma carta do Arcanorum assinada pelos Diáconos que deveria ser entregue nas mãos de seu Grão-Mestre Richard Connery. Mas ela estava em dúvida… De acordo com sua ética no Graal ela deve entregar a carta imediatamente. Porém, na atual situação em que estava a política sobrenatural londrina, uma carta destas vinda logo no dia das festividades do Solstício de Verão era algo que sua intuição iluminada mandava investigar.

A quem ela seria fiel agora?

Sem pensar duas vezes, Keira já se decidiu: será fiel aos seus amigos!

Correndo com o envelope no bolso, aproveitando que ninguém percebera que um mensageiro havia aparecido – todos estavam ocupados com os ritos do Solstício – a jovem se esgueirou pelos corredores do castelo medieval e entrou em uma sala que aparentemente parecia ser segura: o depósito da limpeza.

Buscando um giz novo da cor marrom que representava as Forças da Matéria, Keira desenhou um selo de magia bem feito no chão de mármore e se preparou para fazer um ritual simples e rápido, mas de grande complexidade. Ela iria transmutar folhas de papel higiênico usando a lei da Troca Equivalente numa cópia exata da carta, em todos os detalhes e escritas. Assim, poderia ler seu conteúdo sem violar a original.

Juntando as mãos a jovem maga confiou em sua sorte e encostou os dedos no chão, com a carta e as folhas de papel já devidamente colocadas sobre o selo de magia. O selo imediatamente reagiu à vontade de Keira e suas linhas brilharam intensamente mostrando que o ritual estava indo bem. Demorou alguns segundos e no fim o resultado: nada.

Nada seria eufemismo: as folhas de papel higiênico até que mudaram sua forma original transformados agora em uma folha de papiro. Nesta folha a surpresa (e desespero) de Keira: em letras garrafais escritas em pena com tinta preta havia um aviso: “Tolo. Não tente fazer isso!”

De repente a porta do depósito se abriu dando um grande susto na jovem. Para seu alivio era seu marido, James Donovani.

— O que você está fazendo aqui?

— O que você está fazendo aqui!?

— Estava te procurando! Quando senti sua ressonância mágica foi então que te achei aqui dentro. O que é isso?!? Magia?!?

— Sim!

— Deixa o nosso Supervisor saber disso!

— Ah… falou o inquisidor do século XXI! Até parece que não sabe fazer magia também!

— Eu faço Alquimia, é bem diferente!

— Alquimia nada mais é que a ciência sendo aplicada com o uso da magia!

— Não. A alquimia é a magia sendo aplicada e explicada com a ciência! Você sabe disso! Mas, sim… o que está fazendo?

— Acabamos de receber este envelope do Arcanorum. É pro Mestre Connery. Estava tentando copiá-lo.

— Você estava tentando copiar uma correspondência sigilosa?!?

— Jim… eu estou com um mau pressentimento sobre essa carta. E estou falando sério!

— Sério tipo… Sexto Sentido apurado?

— Exatamente.

Conhecendo a mulher dele como ninguém, James entendeu que Keira estava realmente falando sério. Principalmente que não era do feitio de Keira bisbilhotar a correspondência dos outros. Fechando e trancado a porta do depósito, James ficou ao lado de sua esposa e entrou na tarefa:

— Primeiro… - começou o rapaz pegando a carta do Arkanorum – O Arcanorum obviamente deve ter colocado sobre esta carta diversos tipos de Contra-Mágica para evitar que a mesma seja violada ou lida por outra pessoa que não seja o destinatário. Posso até apostar que seja impossível para nós violar o selo.

— ‘Cê vai apostar?

— Claro que não. Vai que eu estou enganado! Continuando… Pra podermos ler esta carta sem ter que violar o lacre teremos que ser mais espertos que os milênios de experiência do Arcanorum burlando seus sistemas de segurança.

— Já sei… é impossível! Se esta carta foi mesmo redigida por um dos Diáconos, ai mesmo que não temos nem capacidade de sonhar em burlar a magia deles!

— É ai que você se engana, minha linda! Como no inicio de nossa conversa… A Magia, muitas das vezes, nada mais é do que a ciência mal explicada. É esta filosofia que os Iluminados promovem. Então, podemos não superar os séculos de conhecimento arcano que algum membro do Arcanorum tenha, mas convenhamos que nenhum deles será capaz de superar a hiper-tecnologia que nos tempos medievais que o Arcanorum foi fundado nunca sonharia existir um dia.

Quando James buscou seu celular no bolso, Keira logo começou a entender o que seu marido iria fazer. O celular de James, como sendo da Sociedade de Prometeu, obviamente não era um celular comum. Tinha funcionalidades e comandos muito avançados e incríveis do que a tecnologia atual – como, por exemplo, usá-lo para fazer teletransportes.

Colocando a carta diante do aparelho, no que seria a lente da câmera-digital o celular emitiu um laser verde que lembrava os scanners de retina dos aparelhos de segurança. Segundos depois, James devolveu a carta nas mãos de Keira.

— O que você fez?

— Ora, amor…! Eu escaneei a carta com uso também de raios-x e o converti para um documento em “pdf”. – respondeu prontamente com um largo sorriso. Imediatamente Keira deu um beijo em seu inteligentíssimo namorado:

— É por isso que eu te amo!!!

— Por ser inteligente?

— Não. Por salvar sempre estar disposta a donzela em perigo! Então vou correndo entregar a carta ao Grão-Mestre, depois iremos ler o conteúdo!

— Então seja rápida, pois ainda temos alguns afazeres pendentes antes de começar os ritos da cerimônia do solstício!

— Certo. Espere-me lá no chafariz do pátio.

— O.k.! Vai lá. Beijo.

 

Minutos depois no pátio interno do castelo…

 

— É um convite para uma reunião. – disse James lendo a versão digital da carta na tela de seu computador holográfico hiper-avançado gerado também pelo seu celular.

— Mas, veja que estranho… Nunca na história do Arcanorum houve casos de reuniões extraordinárias logo após as festividades do Solstício.

— Sim, mas temos que perceber que estamos vivendo em dias complicados!

— Uma reunião secreta somente com os Grão-Mestres das Ordens minoritárias e os Diáconos? Realmente você não acha isso estranho.

— Em minha opinião sincera, acho que o Sr. VonBranagh está prevendo que as Ordens minoritárias estão se preparando para se desligarem do Arcanorum assim como os Vampiros fizeram. Se isso acontecer pode ter certeza que toda a força política que o Conselho tem no país estará com seus dias contados.

— E se essa carta for uma farsa?

— Como assim?

— James, eu sei que você está pensando na lógica dos fatos e que eu estou movida por minhas emoções… Mas quando recebi esta carta em minhas mãos, não parecia que estava sendo entregue por um enviado do Conselho, parecia que estava recebendo das mãos do próprio Ceifador! Eu senti a presença da morte no momento em que toquei nesta carta.

Assustado com as palavras de sua esposa, James desligou o computador e ficou olho-a-olho com ela:

— Você acha que esta reunião pode ser uma farsa?

— Não sei… talvez.

— Keira, pode ser sincera em seus sentimentos. Não irei julgá-la com meu martelo da lógica. Vamos, diga-me o que você está pressentindo sobre tudo isso?

Keira fechou os olhos e depois de “escutar a voz de seu coração” ela respondeu a pergunta de seu marido:

— Eu acho que é uma armadilha do Assassino de Anciões. Acho que na verdade o que ele quer é matar “dois coelhos com uma cajadada só”.

— Se é isso que você pensa, só nos resta fazer uma coisa agora.

— O que?

— Uma reunião urgente com a “SdP”.

— A maioria deles estão ocupados com os lupinos.

— Mas tenho certeza que estão lá na Base.

— Temos quanto tempo livre até o início da reunião de solstício?

— Hmm… - conferindo o relógio, James respondeu: — Se terminarmos tudo que temos pra fazer aqui até o meio-dia e deixar de almoçar temos exatamente 4 horas. Será que vai ser o suficiente?

— Com certeza! Vamos então agilizar logo o nosso trabalho aqui!

— Certo.

— Vai mandando a mensagem de reunião pra galera do SdP. Não se esqueça de frisar a urgência!

— Já estou… fazendo… isso. – respondeu James digitando uma mensagem em seu celular enquanto andava de volta ao castelo. Com certeza o dia seria bem longo e trabalhoso para o casal.

 

*****

 

Estação de Southwark – Londres. 10h10min.

 

O poder combinado do casal psíquico era realmente impressionante. Naquele momento Erick tinha plena certeza que sua escolha por pedir a ajuda dos dois foi mais do que certeira! Segundos atrás, Erick e o casal foram envoltos por uma esfera de energia esverdeada que, pelo que o mago entendeu, removeu os três do continnum espaço-tempo e os fez regredir nas ondas tempo até o momento exato em que tudo aconteceu. Para estarem cientes do tempo exato, Nick explicou durante a viagem Oxford-Londres que se deixarem um relógio marcando a hora e a data ele iria retroceder junto com o tempo e os deixarão cientes de quanto tempo estão regredindo.

E foi justamente o que Erick estava fazendo (era a tarefa dele ali): tirando seu relógio do pulso, antes do ritual começar, ele deixou o aparelho do lado de fora da bolha, assim pode perceber claramente que o relógio regredia rapidamente em horas e dias esperando atentamente para avisar ao Nick o momento certo de parar.

— Nick falta pouco. Já estamos no dia 3 de Abril. Vai com calma, pois foi na madrugada que tudo aconteceu.

— Avise-me exatamente quando o momento chegar.

— Falta pouco… só mais um pouco… Pronto, pare!

Parando no tempo, Nick e Tawnee abriram os olhos e perceberam que conseguiram mesmo regredir dois meses no passado com perfeição…

 

Segunda-Feira, 03 de Abril de 2028. 03h59min.

Southwark Station.

Londres – Inglaterra.

 

A estação estava vazia. Não havia nada lá a não ser as luzes acesas (ou quase todas, algumas piscavam numa seqüência quase hipnótica), os cartazes de propaganda rasgados, a sujeira típica das estações londrinas, a pichação tomando conta das paredes e um mendigo dormindo perto das escadas. De acordo com os relógios (tanto o de Erick quanto o da estação) faltava apenas 1 minuto para as 4 da manhã.

Fazia muito frio e mesmo fora do espaço-tempo, o grupo podia sentir o que acontecia do lado de fora. Nick mantinha-se concentradíssimo para manter seu poder ativo, mas agora com menos esforço podendo até dialogar com mais facilidade:

— Tem certeza que esse é o horário certo?

— Sim. De acordo com os registros da companhia, o trem o qual estávamos chegou à estação exatamente às Quatro e cinco da manhã. Fiz com que você nos levasse alguns minutos antes, pois não quero perder nada – essa pode ser minha única chance.

— Entendo.

— Ei, meninos. – chamou Tawnee. – Não acham estranho ter um mendigo dormindo aqui dentro?

— Hã? – Erick não entendeu, mas depois compreendeu o que a amiga queria dizer: — Verdade. Mesmo o metrô metropolitano estando decadente, não se permite a entrada de mendigos aqui dentro. E também… não houve nenhuma menção nos laudos da presença de qualquer outra pessoa na estação a não ser os passageiros do trem.

— Será que ele não fugiu quando a confusão começou?

— Não sei… eu acho que…

Erick é imediatamente cortado por um terrível barulho. Parecia ser o som de trovões que ecoavam estrondosamente dentro dos túneis. Era sem dúvida o trem que trazia Sebastian e a Princesa.

— Meu Deus!!!  - exclamou Nick. – Que barulho é esse?!?

— É o momento em que a vampiresa Anne Hanover transforma Sebastian em vampiro. Lembram-se? Houve trovões, relâmpagos e um prenuncio de uma terrível tempestade. Uma forte ressonância negativa avançou por toda a cidade e foi sentida por todos os seres sobrenaturais e pessoas sensitivas. Foi um momento que até os anjos tiveram pena dos humanos.

— Tinha que ser o Sebastian… - ironizou Nick. – Até pra fazer cagada ele faz de forma apoteótica! Vejam! O metrô chegou!

Erick confere o relógio – pontualmente 4h05min da manhã.

— Ei, vejam!! – chamou Tawne. – O mendigo se levantou.

— Ele deve fugir. – comentou Nick.

— Mas com essa calma? – contra-argumentou Erick mantendo-se agora altamente vigilante a tudo.

O mendigo realmente estava estranhamente calmo. Até parecia que ele estava esperando pela chegada do metrô. Assim que o trem parou completamente na estação, totalmente borrado de medo o maquinista abandonou sua cabine e fugiu pelas escadas. Depois que o maquinista estava longe, o mendigo se dirigiu até a cabine onde pressionou o botão que abria as portas do trem.

— Eu sabia!!! – exclamou Tawnee – Tem algo de podre com esse mendigo!!!

Nesse instante Erick fez menção de se mover para fora da esfera temporal, mas imediatamente foi segurado por Nick:

— Não saia da esfera!!! Eu não consigo mover a esfera e como não viajamos no tempo e sim estamos apenas vendo o passado, você vai fazer besteira!

— Mas não tem nada que você possa fazer? E se você se mover junto?

— Eu também saio da bolha! Imagine essa bolha como a sala de uma casa e que você está assistindo o passado através de uma janela. Se você sair não irá para o passado e sim voltar pro nosso tempo presente.

— E quanto ao meu relógio?

— Sinceramente… Acredito por ser apenas um objeto e ter um tamanho insignificante seja a única coisa que eu realmente consiga transportar através do tempo.

— Caramba, que droga!!! – praguejou Erick. – Não contava com isso!

— Vejam! O mendigo entrou no primeiro vagão. – apontou Tawnee.

— É o vagão onde estava o Grão-Mestre Nin Soo Yan. -  explicou Erick. – Meu Deus… Talvez o mendigo seja na verdade…

— O assassino!!! – concluiu Tawnee. – Caraca!!! Precisamos ir até lá!

— Mas não dá!!! – respondeu Nick já suando pela testa – Eu não consigo mover a bolha!

— Droga! – praguejou Erick – Vamos perder não apenas a identidade do assassino como também seu diálogo com Nin Soo! As portas se fecharam. – de repente Erick explode de raiva: — POR QUE AGORA OS METRÔS DA CIDADE VIRARAM UM ENORME CARRO ALEGÓRICO DE PROPAGANDA?!?

— Capitalismo? – respondeu Tawnee também incrédula – Se não fosse essa enorme propaganda de refrigerante desenhada por todo o trem e tampando as janelas, poderíamos no mínimo ver quem é o assassino! Vejam, alguém se levantou pra falar com o mendigo.

— É Nin Soo.

— Eles estão discutindo! Mas falam muito baixo… Por que não discutem que nem casal aos berros?!? Ajudaria muito!

— Por que são pessoas civilizadas. Isso de certa forma já dá uma pista de nosso assassino: ele não é do tipo de pessoa que perde a paciência fácil.

— Mas parece que a discussão é calorosa… Eles estão apontando o dedo um para o outro. Devem estar se xingando!

 Nesse momento Tawnee e Erick tomam um susto: Todo o primeiro vagão é tomado por uma tremenda energia que o ilumina internamente, mas se apaga tão rápido quanto apareceu. Pela luz e pelo som pareceu um relâmpago.

— O… o que foi isso? – perguntou Nick agora visivelmente cansado e fazendo grande esforço pra manter o poder ativo.

— Parece que alguém atacou alguém lá dentro. – supôs Erick. – Vejam. Apenas o assassino está de pé.

— Quem é aquele que vem correndo nas escadas? – perguntou Tawnee. Ao olhar, Erick teve a resposta na ponta da língua:

— É o familiar do Mestre VonBranagh, Spinel.

— Mas o familiar dele não é um gato preto?

— Um gato metamorfo capaz de se transformar em um homem. Foi ele que me ajudou quando fiquei desacordado. Galera… o Show começa agora!

Bem como Erick se lembrava, porém visto por outro ângulo: Spinel foi até o vagão onde o detetive e Sebastian estavam. Em seguida, usando algum tipo de poder, fez a porta do vagão se abrir e revelar um Erick desacordado.

— Estranho… - comentou Erick. – Pensava que Spinel é que tivesse me salvado das criaturas umbrais que haviam surgido da energia gerada por Sebastian e a princesa. Mas pelo visto ele encontrou tudo em paz!

— Talvez aquela energia do primeiro vagão tenha matado eles também. Como foi que você ficou desacordado?

— Eu… - pensando na pergunta de Tawnee, só agora Erick buscou essa lembrança tão enterrada em suas memórias: — Eu tinha levado uma bordoada elétrica. Sim! Agora eu me lembro! Inicialmente pensei que tivesse sido essa misteriosa energia criada por Sebastian, mas vendo por outro ângulo posso perceber que foi o primeiro vagão que me atingira em cheio! E pelo visto, também matou as duas criaturas umbrais que iam me atacar.

— Erick veja!!!

Observando as sombras de dentro do primeiro vagão, ficou nítido como Nin Soo Yan foi assassinado. O assassino agora estava apontando uma pistola para o chão, numa postura como se tivesse pronto para atirar em alguém. A suposição se fez verdade quando dois tiros foram vistos (porém, não escutados) pelos investigadores temporais.

— Eu estava certo. – tais palavras saíram da boca de Erick como num misto de orgulho e esperança. – O assassino usa uma arma de fogo para matar suas vítimas!

— Ele vai sair do vagão agora! Iremos finalmente ver quem é o assassino!!

A euforia da expectativa duplicou nos corações de Erick e Tawnee, finalmente eles conseguiriam descobrir quem era o assassino que assolava a sociedade londrina. Quem era o monstro capaz de matar tão facilmente grandes mestres das sociedades sobrenaturais londrina. Aquele que fez Erick perder várias horas de sono e gastar muito neurônio tentando descobrir sua tão misteriosa identidade. Faltava apenas alguns segundos… poucos e talvez gigantescos segundos que acompanhavam cada passo que aquele homem dava em direção a saída do vagão.

Era agora!

Finalmente!

Ele ia sair do vagão!

Já está saindo!

Erick finalmente poderia ver com seus próprios olhos!

O assassino dos anciões era…

 

O espanto foi imediato. Tanto Erick e Tawnee estavam mudos sem ter o que dizer. Estranhando o silencio, Nick fez muito esforço para poder abrir os olhos e tentar entender o que estava acontecendo.

— O-o q-que foi, p-pessoal? Q-quem é o a-assassssino?

— Ele… Eu não… Erick? – Tawnee mostrava nitidamente confusa. Erick entretanto apenas estava boquiaberto até que respondeu com uma única coisa que lhe veio em mente:

A Máscara de Jack.

— O-o que?  - questionou Nick agora visivelmente cansado. – D-descobriu o assssassssino? O-o nome dele é… Jack? Jack… O estripador?

— Não. Não dá pra ver o rosto dele.

Tal como Erick afirmou, Nick pode comprovar com seus olhos. O assassino de Nin Soo estava ali, bem diante deles de pé diante do vagão. Mas, algo (que Nick e Tawnee só puderam definir como) incrivelmente bizarro escondia a face do assassino. Era como se seu rosto tivesse pintado em um quadro em óleo e o mesmo tivesse sido borrado por água a ponto da tinta estar completamente deformada deixando totalmente irreconhecível.

— O que é isso? – questionou Tawnee. – Por que não podemos ver o rosto dele???

— Shh. Espere. Ele está falando.

 

“Nem tente me impedir, Johannes. Ou terá o mesmo destino que Nin Soo!”

 

— Johannes? Derek Johannes? – questionou Tawnee ao Erick frio e pensativo.

— Maldito Derek! Ele mentiu em seu depoimento no Arcanorum! O filho da puta estava dentro do vagão o tempo todo! Ele sabe quem é o assassino!

— Ei… quem é aquela mulher?

Ao mudar sua visão para o segundo vagão, Erick percebeu que agora estava vendo que aconteceu na hora da morte da princesa:

 

Quando finalmente o metrô parou na estação, a princesa começou a se dirigir até a saída sem dizer uma só palavra com os dois rapazes, passando do lado deles cruzando olho a olho com cada um.

Num rompante de fúria, Spinel se “expressou” abertamente:

— Você vai deixar-la sair assim na moral?!?

— E você quer que eu faça o que?!? Ela é a Princesa Vampiro de Londres!

— Sei lá! Só não fique ai parado!! Você é um policial! Um agente do Arcanorum!!

— E você quer que eu a pare como?!? Com minha arma?!? Assim?

 

Este era o momento que Erick esperava. Tawnee estava boquiaberta vendo o Erick do passado deliberadamente levantando a sua arma para a princesa. Mas, em segundos que eles não perceberam devido a euforia, tudo havia parado diante de seus olhos.

E Nick finalmente relaxou completamente como se o peso e a pressão por manter aquela bolha temporal tivesse desaparecido:

— O que foi que aconteceu? – questionou o rapaz psiônico.

— Nick, você está se sentindo bem? – perguntou Tawnee.

— Sim! Estou ótimo! Não está mais sendo difícil nos manter no passado. Não sei por que, mas parece que to conseguindo levar de boa! É você, amor?

— Não. Eu acho que não.

— Não é a Tawnee. – respondeu Erick friamente. – Vejam. O tempo lá fora também parou.

— É verdade!!! – exclamou Tawnee. – Mas quem fez isso?

— Ele. – apontou Erick para o assassino.

O misterioso assassino tinha em mãos um aparelho celular, que pelo que Erick entendeu, foi capaz de paralisar o tempo. Aquilo era Tecnomagia sem sombra de dúvida!

Pelo que deu para entender, o assassino tinha percebido a presença da vampiresa somente agora e tomara um susto. Seu susto foi maior quando vira o braço de Erick empunhando uma arma na direção dela. Ele imediatamente parou o tempo e seguiu andando até o segundo vagão onde ficou entre o Erick do passado e a princesa.

O Erick do passado, tal como Spinel, nem olhava na direção da princesa, mostrando total desinteresse em acertá-la. Entretanto, parece que o assassino se aproveitou dessa situação inusitada. Erguendo novamente sua pistola (o qual Erick a identificou imediatamente como sendo uma Magnum Desert Eagle prateada com entalhes em dourado) o misterioso homem deu um tiro perfeito na cabeça da princesa. Movimentando o braço de Erick para outra direção (não muito angular, pois o próprio tinha que pensar que acertara a princesa) o assassino então, com sua missão cumprida, guardou a arma e buscou outro objeto em seu bolso – uma pequena bolsinha de corda, comparável àquelas que usavam nos tempos medievais para se guardar moedas, e de dentro retirou um objeto ainda menor, o qual Erick fez um esforço tremendo com a vista para ver o que é. Foi então que um cansado e abatido Derek Johannes surgiu na estação dando um susto no assassino:

 

“Você não pode fugir de mim, garoto! Eu já sei de seu crime! Por que você está fazendo isso?!?”

 

Assustado, o assassino se desesperou e saiu correndo pela estação. Ainda se sentindo abatido, Derek também tentou correr, mas teve que respirar um pouco e recuperar suas forças. Quando já estava nas escadas, foi que o tempo voltou ao normal, entretanto Erick havia visto algo importante naquele exato segundo. Algo que somente os olhos de águia de um verdadeiro detetive poderiam ver.

Mas a sorte não colaborou novamente…

— E-Eeeerick!!!

O poder temporal de Nick de repente começou a falhar e Erick se viu de volta a estação de Southwark do presente no meio de uma multidão de passageiros que embarcavam em plena hora do rush no trem que acabava de chegar. Mas não era um retorno completo. Erick se via intercalando entre o passado e o presente ao mesmo tempo como se Nick estivesse aos poucos perdendo seus poderes.

— NIIICK!!! NÓS TEMOS QUE VOLTAR!!!

— E-e-eu não c-consiiigo… E-eu não a-aguento ma-is!!!

Pegando Nick pelos ombros, Erick se desesperou:

— Por favor, Nick… Por favor!!! Eu preciso ver o que aconteceu! Eu preciso ver o que o assassino derrubou no chão!

Tawnee, mesmo apoiando o namorado, tentou segurar Erick:

— Pare, Erick!!! Não vê que o Nick está cansado? Ele não agüenta mais!

— Ele precisa agüentar!! Por favor! Só mais um pouco!

— Mas você já conseguiu o que queria! Sabe que não foi você o assassino da tal princesa!

— Eu sei!!! Mas eu sou o investigador especial do caso indicado pessoalmente pelo próprio Diácono! Eu tenho que saber tudo sobre esse assassino!!!

— E-Erick… - Nick já estava com lágrimas nos olhos e com a expressão muito abatida. O suor frio descia feito laminas sobre sua testa e nuca.

— Por favor, Nick. Por favor. – agora era Erick que estava com lágrimas nos olhos implorando ao amigo que fizesse só mais esse favor. Só mais esse esforço.

— E-eu… vou… tentar!

Serrando os olhos com toda sua força, Nick forçou todos os seus poderes psíquicos a alcançarem além dos limites que ele era capaz de conseguir. Tawnee também estava se sentindo exausta agora, mas o esforço foi recompensador: os três voltaram ao passado justamente no momento em que o assassino fugia.

Erick travou sua atenção total no assassino e tentou, além de decorar todos os detalhes como altura, porte físico e vestuário, enxergar aquilo que ele deixou cair. O minúsculo objeto que ele tirou daquele saquinho e que sem querer derrubou nas escadas do metrô.

— Um Dado. – sussurrou consigo mesmo. E não era um dado qualquer. Era um dado diferenciado que por não ser um cubo costumeiro, quicou com diversas vezes pelos degraus e depois saiu rolando até cair nos trilhos do trem.

Foi nesse momento que Derek também disparou atrás do assassino, porém foi impedido de seguir em frente por Spinel e Erick. O restante dos acontecimento, Erick se lembrava perfeitamente.

— Nick você já pode… Nick? NICK!!!

Desesperado, Erick correu para socorrer um Nick que estava tendo algum tipo de convulsão. Tawnee estava desmaiada entre os dois e pelo que Erick percebeu, o poder limitado de Nick só estava sendo mantido por ele mesmo, sem a ajuda de sua namorada. Mas tal poder estava cobrando terrivelmente do esforço da mente de Nick e isto o estava fazendo sofrer muito a ponto de sangrar pelo nariz.

— NICK!!! ACORDE!!! NIIIICK!!!

Uma repentina explosão de energia foi expelida do corpo de Nick, tao poderosa que chegou a empurrar Erick para fora da bolha. De volta ao tempo presente, Erick (e alguns transeuntes presentes) viram Nick flutuar sozinho alguns centímetros no ar emitindo uma luz verde intensa de seus olhos e de sua boca. Depois de alguns segundos de uma incrível apresentação sobrenatural, Nick voltou ao normal caindo no chão desmaiado.

Erick então se desesperou, logo se culpando caso algo de terrível tenha acontecido com Nick:

— NIIIIIICKIII!!!!!

 

*****

 

Conselho Supremo de Júpiter – Cidade de Prata. Hora Desconhecida.

 

Danyael, Portador da Luz. Irás contrariar as regras celestiais que vos rege, mesmo sabendo de que o Castigo Divino cairá sobre ti?

Sozinho, ajoelhado sobre um colossal pilar branco rodeado por uma forte luz branca, Danyael respondeu:

— Sim. Independente do que vocês decidirem, nada irá me fazer mudar de idéia.

Entao uma segunda voz mais branda e serena, diferente da primeira que parecia o som de trovões questionou:

Você prefere manter esta postura mesmo sabendo que está pondo em risco a vida de sua mulher?

Empunhando a Light Sword com a lamina deitada atrás dele e vestindo sua vestimenta angelical romana que ganhou quando levantou a espada pela primeira vez, Danyael ficou alguns segundos sem ter o que responder, entretanto manteve-se firme em sua palavra:

— Continuo afirmando a minha decisão. Eu repito: Nada irá me fazer mudar de idéia. E principalmente: Eu não deixarei que Lilith morra. Não enquanto eu viver!

Então está consumado, Danyael Kimble! Você agora tomou a sua decisão, agora terá que arcar com suas conseqüências!

 

*****

 

Base Secreta da Sociedade de Prometeu – Londres. 15h30min.

 

— Keira acredita… Nós acreditamos que possivelmente esse convite tenha sido enviado com outra finalidade.

— E que finalidade seria essa? – questionou o Supervisor do grupo iluminado.

— Acreditamos que isso seja uma armação do assassino. – respondeu James sendo bem direto. – O assassino de anciões. Isso pode ser uma armação dele para matar todos esses Grão-Mestres de uma vez só.

— Isso é loucura. Vocês estão se baseando em apenas “achismo”?

— Não é “achismo”, senhor. É… presentimento. Não meu, mas de Keira.

— Keira?

— Senhor… - ao ser chamada, a jovem demonstrou não ter a mesma convicção que seu marido, mas tentou dialogar sem gaguejar. – Bem… Quando recebi esta carta eu… Senti… que algo de muito ruim estava sendo trazido com ela.

— E isso a fez violar um documento oficial do Arcanorum.

— Bem… sim.

— Keira. Todos nós aqui da Sociedade de Prometeu admiramos esse seu dom empático para pressentir as coisas, principalmente ler as emoções humanas, mas você há de convir comigo que não podemos fazer nada a respeito com relação a isso. Que provas concretas nós temos que realmente essa carta seja apenas um Cavalo de Tróia do assassino para atrair os Grão-Mestres numa cilada?

— Senhor. – chamou Phill levantando a mão. – Eu, sinceramente, falando como tanto como amigo como membro da SdP tenho que admitir que nunca tivemos um caso de falha com relação aos pressentimentos de Keira. Talvez seja por isso que James, o mais “lógico” de todos nós, está do lado da mulher.

— Sim. – agradeceu James. – Não irei negar que de inicio pensei igual ao senhor, Supervisor. Mas quando me lembrei que esse Sexto-Sentido de Keira é ativado, é quase certeza que vem chumbo grosso vindo ai.

— Mas Keira nunca pressentiu algo relacionado à outras pessoas. Não é mesmo? – questionou o Supervisor.

De repente todos na mesa ficaram calados e por um momento James baixou a cabeça pensativo até que respondeu com franqueza:

— Sim. Geralmente os pressentimentos de Keira são relacionados a…

— …As pessoas próximas a mim. – completou a jovem.

Novamente um silencio imperou. Mas, Matthew logo se afobou pra tentar quebrar o gelo:

— Aaahh… Qualé galera!?! Todos aqui são unânimes em acreditar nos poderes sensitivos de Keira. Agora, se isso está relacionado a nós de alguma forma, temos que ver isso como uma vantagem! Vamos pegar esta carta e investigar! Vamos meter o bedelho nessa reunião e ver o que vai acontecer!

— Será que devemos mesmo investigar esse caso? Será que não é arriscado? – questionou Keira já quase sem voz. – Eu estou com medo!

— Keira… - Phill esticou o braço e pegou na mão da amiga. – Acho que falo por todos nós. Estamos nessa desde o inicio pra ajudar as pessoas. Pra tentar expor os podres da política sobrenatural e principalmente ajudar aqueles que lá dentro ou fora trabalham para o bem a lutar contra o mal. E por esse ser nosso princípio básico, acredito que devemos sim investigar essa carta. Se de acordo com seus pressentimentos essa carta tem haver com o assassino, então vamos cair de cabeça nessa!

— O que você acha, Supervisor? -  questionou Matthew.

Demorando um pouco pra responder, logo o Supervisor daquele grupo levantou um sorriso:

— Agora eu entendo por que vocês foram grandes amigos do Dany.

— Como assim? – questionou Spark.

— Geralmente as amizades se constroem com base em algum tipo de interesse mútuo. Seja ele material, sentimental ou ideológico. E observando cada um de vocês eu encontro o pouco de meu sobrinho aqui.

— Vejo que sente muita falta de sua família, Supervisor. – diz Matthew sabendo que mesmo não sendo sua família de sangue, Edward Muller, o supervisor e líder-chefe da Sociedade de Prometeu, os considerava mais do que amigos.

— Sim. É por isso que eu também acredito em você, Keira. Pode ser a vida das pessoas que eu amo e respeito que podem estar em perigo!

— Então quais são as suas ordens, senhor?! – questionou Matthew agora em tom militar.

— Hoje é o dia das festividades do Solstício de Verão. Por todo o país, quase 80% das sociedades sobrenaturais irão dedicar esse dia a diversos tipos de liturgias, principalmente o Arcanorum. Mas acima de tudo, hoje é um dia de paz. Um dia de confraternização entre os membros dessas mesmas sociedades secretas. Por isso, é praticamente impossível contar hoje com a ajuda de James, Keira e Phillipp. Os três tem deveres a cumprir com suas sociedades, por isso por enquanto estão liberados de qualquer ordem, porém estão d sobre-aviso. Recomendo que fiquem on-lines 24 horas em nossa rede Skynet.

— Sim, senhor! – respondeu os três membros ao mesmo tempo.

— Então, novamente devo admitir, o trabalho pesado sobrou pra vocês dois, Spark e Matthew.

— Tudo bem… já estamos acostumados! – sorriu Spark.

— Matthew, você estará responsável pela investigação dessa reunião. Enquanto você, Spark dará continuidade aos nossos esforços na investida contra a Jupiter’s Corp. junto com os lobisomens de Philox.

— Senhor! – levantou a mão Matthew. – Posso trocar minha missão com a de Spark? É por que estou mais engajado na missão da Júpiter’s Corp e gostaria de manter-me na linha de raciocínio. Até por que, o Spark é melhor do que eu em investigações!

— Bom, por mim tanto faz. Depende de você, Spark.

— Tudo bem! – sorriu Spark. – Eu sei que o Matthew sempre quer jogar pra mim as missões “chatas”. Eu pego a investigação.

— Então está resolvido. Vamos voltar aos nossos afazeres, pois… o dia promete ser bastante longo para todos nós!

 

*****

 

St. Loo Avenue – Londres. 17h00min.

 

Ele discava pela enésima vez o mesmo número em seu telefone fixo, entretanto sua angustia aumentava ainda mais ao perceber que a linha sempre caía na secretária eletrônica. A essa altura Phillipp já estava atrasadíssimo para pegar seu vôo para Escócia, mas ele queria tentar pela última vez.

<<— Deixe seu recado após o sinal.>>

— Essa será minha última mensagem. É sério, eu preciso revê-la. Onde você está?

Colocando o telefone no gancho, Phill finalmente desistiu de sua tentativa de encontrar sua ex-esposa e foi buscar suas malas, previamente prontas, no quarto. Nesse instante, a porta da rua foi aberta anunciando a chegada do colega o qual ele divida o apartamento:

— Phill… ‘Cê ‘tá em casa?

— ‘Tô aqui no quarto, Flávius.

— Vai sair?

— Vou. Eu te falei. Vou viajar pras minhas terras na Escócia. Volto amanhã mesmo.

— Entendo. E as corridas, bro? Vai largar mesmo?

— Eu estou muito ocupado, Flávius. Esse meu novo emprego é muito desgastante, você sabe disso.

— É… eu sei. Não entendi direito que emprego novo é esse que você tem…

— Eu sou gerente de operações, desenvolvimentos e projetos de uma empresa multinacional.

— Tá-tá… só perguntei. Mas poxa… Vai ter corrida mês que vem! Agora que a temporada de frio passou, vão ser corridas quase todo o verão.

— Eu não sei como você ainda está metido com esse lance de corridas clandestinas, Flávius. Você não precisa disso! Veio de família rica, pode ter o carro que quiser e ser corredor em qualquer corrida legal, mas prefere andar no fio da navalha!

— Mas é ai que mora a adrenalina! E você sabe que nosso patrocinadores pagam melhor que os “oficiais”. Afinal… quem é que realmente  testa os equipamentos deles?

— Ao custo da vida de vocês! Veja o que aconteceu com o Bolt.

— Aquilo foi um acidente. E outra: eu sou sobrenatural. Não morro com facilidade!

— Você se vangloria de uma vantagem que você mesmo sabe não ser de total confiança.

— Ah Phill, vai logo embora! ‘Cê ‘tá muito chato hoje!

— Foi mal. Estou um pouco estressado.

— Trabalho?

— Não. Estou preocupado com ela.

— Ela quem? Léia? Cara, pensei que depois de todos esses anos você já tivesse desencanado dela!

— Eu não “desencanei” dela, Flávius. É impossível eu fazer isso! Somos casados!

— Só no Mundo Encantado dos Dragões! Aqui no mundo real vocês estão separados!

— Eu sei. Mas mesmo assim não podemos cortar totalmente os laços!

— Não… Você não está com essa cara só por causa disso… Qual é cara, fala ae o que ‘tá acontecendo!

— Não está acontecendo…

E então a conversa é interrompida pela campainha do apartamento.

— Deve ser a Michelle. Combinei pra ela vir aqui hoje.

— Eu tenho que ir mesmo. Já estou atrasadíssimo pro aeroporto. Vou ter que ir do “meu jeito” pra chegar a tempo!

Os dois caminharam até a sala e quando Flávius abriu a porta do apartamento, logo chamou a atenção do amigo, estando ele mesmo pasmo:

— Phill… acho melhor você ligar pro aeroporto e cancelar sua viagem.

— Você está doido! Não posso fazer isso…

Quando a visita surge aos olhos de Phillipp, ele entendeu o porquê da atitude de Flávius. Léia estava na porta e demonstrava visivelmente sua enorme barriga de gravidez.

— Léia…

— Phill.

Sentindo-se mal, Flávius abriu passagem para Léia passar (estando literalmente boquiaberto com a barriga de Léia) e em seguida resolveu sair:

— Hã… Se Michelle aparecer diga pra ela que estou na garagem.

— Não precisa se incomodar, Flávius. – argumentou Léia, porém logo Flávius abriu um largo sorriso em resposta:

— Não, que isso!!! Eu precisava mesmo calibrar os pneus do meu carro e trocar o óleo! Podem ficar à vontade! Bom… vou nessa.

Quando a porta se fechou um clima de estranho e incomodo ficou sobre o apartamento. Nenhum dos dois sabia por onde começar aquela conversa, entretanto eles sabiam que precisavam falar. Conversar sobre tudo que está acontecendo e que iria inevitavelmente acontecer.

— Você está indo…

— Pro vale. Tentei te ligar. Pelo visto ia ser impossível mesmo te achar em casa.

— Sim.

— Há quanto tempo chegou a Londres?

— Cheguei ontem pela manhã.

— E onde você passou a noite?!

— Na casa de umas amigas.

— Amigas?

— Stephanie.

— Hm… Entendo… Você… Você está bem? Sente-se, por favor. Nesse estado você não pode andar por ai.

— Phill…

— Léia, eu andei pensando em tudo, e tomei uma decisão muita séria sobre nós.

— Decisão? Que decisão?

— Léia… eu não quero mais que você more longe de mim. Principalmente agora que carrega um filho meu na barriga.

— Eu vim justamente pra conversar contigo sobre isso.

— Falar sobre o que? Está mais do que decido esta situação.

— Está?

— Claro que está, Léia. Chega de agir feito um moleque. Já está na hora d’eu agir feito um homem e assumir meus compromissos e deveres, tanto como patriarca de nossa Família, como marido… - Phill buscou a mão de Léia e a trouxe pra perto dele. – e principalmente, como pai.

O beijo entre eles foi inevitável.

— A partir daqui nada de ficarmos nos enganando. Vamos criar a família que já deveríamos ter criado há muito tempo!

— Ah, Phill… Eu estou muito feliz com sua decisão!

— Eu também estou!

 

*****

 

Ilchester Place – Londres. 17h00min.

 

A sensação que ela tinha era de que o sol não tinha nascido naquele dia. Mas ela sabia que na verdade era ela que tinha dormido demais. Levantando-se da cama, Lilith percebeu que estava sozinha na cama. Ela já mal dizia o nome de seu namorado por não tê-la acordado mais cedo.

— Danyael? Danyael!

— Oi! Estou aqui na sala. Espere, que eu vou até ai.

Ao entrar no quarto o anjo trazia consigo um belo sorriso. Passara a tarde sentado na sala e nem vira também o dia passar. Era pra ser um dia alegre e comemorativo, porém ele não estava com ânimo para isso. Mas em hipótese nenhuma ele queria que Lilith percebesse que ele estava preocupado.

— Dormiu feito uma pedra, hein?

— Podia ter ao menos me acordado! Perdi um dia inteiro da minha vida deitada nessa cama!

— Não… você estava cansada. Eu queria que você descansasse.

— Dany. Estive pensando ontem com a Stephanie e acho que já está na hora de pensarmos naquele assunto.

— Que assunto?

— O nome do bebê, Dany. Já que sabemos o sexo, está na hora de escolhermos o nome.

— É verdade.

— Eu estive pensando em alguns…

— Diga então.

— Que tal: Tânatos Daemon Kimble?

— O QUE? De jeito nenhum!!! Eu não vou por o nome do meu cunhado no meu filho! Prefiro que ele seja júnior, do que ter o nome de um cunhado!

— Tá, tá, não precisa se irritar. É por que eu gosto do nome do meu irmão! Acho imponente. Parece o nome de um Deus!

— Seu irmão É um deus.

— Por isso mesmo! ‘Tá certo então… Que tal Ícaro? Ícaro Daemon Kimble.

— O nome do moleque que tentou voar até o sol? Não. Os nomes influenciam muito o que a pessoa será na vida. Dar o nome de alguém que não soube medir suas ambições não é uma boa idéia!

— Verdade… E que tal Radamântis?

— Não vou por o nome de um dos juízes do Inferno no meu filho.

— E Leonardo?

— É também outro nome de um demônio.

— Asmodeus?

— Anjo Caído: definitivamente, não!

— Olivier?

— Demônio. Não.

— Dante?

— A Divina Comédia. Não.

— Milton?

— Paraíso Perdido, não.

— Shaitan

— ‘Cê ‘tá de sacanagem!!!

— E você tem alguma idéia melhor?

— Que tal Rafael?

— Ah não! Nada de nome terminado em “el”!

— Agora lascou! Você só pensa em nomes relacionados a demônios e eu não tenho a menor idéia pra nomes!

— Mas se você não me ajudar não conseguiremos arranjar nunca um nome pro nosso bebê! Temos que entrar em um acordo!

— Que tal pensarmos em nomes normais? De pessoas mundanas. Afinal, será nesse mundo em que ele irá viver.

— Verdade.

— Que tal “Diego”?

— “de La Veja”? Eu não vou por nome do Zorro no meu filho! Ah! Que tal Clark?

— Pra ele passar cinco anos depois de completar dezoito virgem, babando uma morena e ficar agindo feito um viado fugindo de uma loirinha gata? Definitivamente não!

— Alphonse?

— Muito antiquado! E que tal, Augusto?

— Pra passar a vida toda sendo chamado de “Guto”? Nem pensar! Que tal Brunnel?

— Parece nome de bolo.

— Verdade! Estou pensando agora em comida!

— Hmm… Anthony?

— Nada de nomes que podem ser diminuídos pra “Thony”! Que tal Willian?

— O último Willian que conheci era gay.

— Marcel?

— Gay.

— Mauro?

— Gay.

— Você só tem amigos gays?

— Pensando bem…

— E John?

— É o nome do cabeça-dura do meu pai. Não.

— Raniëre?

— Nome francês? Um nome FRANCÊS??? Só falta você querer que ele torça pro Lyon, não tome banho e fique falando feito uma bicha!

— Certo! Certo! Não está mais aqui quem falou! Que besteira essa rixa entre ingleses e franceses!

— Ah… vamos deixar pra pensar no nome depois.

— Dany… Acho que eu enrolei muito aqui, mas na verdade eu já escolhi um nome.

— Sério? E por que não disse antes?

— Tava querendo brincar um pouco e também queria saber umas idéias suas!

— E qual é o nome?

— Eu tive um sonho esta noite. Um sonho muito lindo, onde eu via você carregando um bebê. E esse bebê se chamava Andrew.

Nesse instante, Danyael se lembrou que também teve um sonho estranho esta noite e que escutava perfeitamente a voz de alguém lhe chamando de “pai”.

Andrew Daemon Kimble.

Danyael pela primeira vez na vida se sentiu muito feliz em escutar um nome. Não era um nome qualquer, era o nome de seu filho, o seu primogênito. A felicidade na verdade era mais focada na idéia de ser pai, que agora pelo simples fato de seu filho ter um nome ele deixava de ser “um ser dentro da barriga de sua mulher” pra se tornar o seu filho – alguém que um dia irá falar, andar, ter suas qualidades, defeitos, seus gostos e desgosto.

Alguém que terá sua opinião própria e formada e, mesmo que se passem anos, sempre irá chamá-lo de “Pai”. Essa sim era a verdadeira felicidade e plenitude que Danyael e Lilith sentiam naquele momento.

 

*****

 

West Wimbledon. 19h00min.

 

Em Londres, muitos dos parques florestais ao redor do centro urbano foram transformados em campos de um esporte muito popular entre os londrinos – pelo menos, da classe média-alta: o Golfe. Esse era o caso do parque de Wimbledon, que em seus quase cinco quilômetros de extensão foi todo reformulado para se tornar um incrível cenário de golfe. Entretanto uma grande parte de sua reserva natural – árvores, campos e mata fechada, foi mantida para não ferir mais a Mãe Natureza.

Ninguém sabe ao certo quem é o verdadeiro dono do clube de golfe, a única coisa que sabem (além dele ter muito dinheiro) era que ele era um cara bastante preocupado com as questões ecológicas do mundo. O que ninguém sabia, e nem saberá se depender do Arcanorum, era que o verdadeiro dono daquele clube era na verdade um dos Grão-Mestres mais importantes do país, responsável pela sociedade sobrenatural de maior poder (físico) do Conselho: os Metamorfos, e seu líder era Philox, o lobisomem que era conhecido pela alcunha de Presa de Prata.

Nesse momento, Philox estava sozinho em meio a mata fechada de Wimbledon onde previamente havia fechado o clube para que mais tarde recebesse a visita de seus ilustres convidados: quase todos os Lobisomens da região, para iniciar a sagrada cerimônia dos ritos do Solstício de Verão. Para o mestre da sociedade lupina, as liturgias do solstício eram muito trabalhosas e árduas, mas principalmente, honrosas, pois era nessas datas que os lupinos se reuniam para glorificar a Mãe Natureza e pedir a ajuda e proteção dos Espíritos Guardiões.

Sobre o solo sagrado Philox desenhava inúmeros pictogramas que representavam a cultura e a tradição de seus antepassados. Muitos daqueles símbolos eram apenas demonstrativos, sendo que alguns eram de cunho místico e de grande poder. Foi no momento em que desenhava um símbolo que representava a “luz” e o “poder ancestral” que Philox foi abordado por um homem misterioso.

— Se veio até aqui para me matar, recomendo que faça isso logo. Se eu me levantar daqui pode ter certeza que não sobrará nada de você.

— Já nos enfrentamos antes, Philox. Sabes muito bem que sou superior a você.

— Verdade. Um grande poder o acompanha. Mas… - Philox então se levantou, mantendo-se ainda de costas. – Será que este Poder irá estar do seu lado agora? Principalmente quando pretende usá-lo para tal fim.

— Acredite. Não irei matá-lo usando essa minha vantagem. Possuo outros meios muito mais eficazes, inclusive contra você, um Lobisomem ancião.

O assassino então retirou de dentro de seu sobretudo uma arma. Uma linda pistola Desert Eagle, toda prateada com diversos entalhes em ouro. Realmente era uma arma de grande poder, pois sua simples presença revelada foi capaz de arrepiar os pelos do corpo de Philox.

— Philox… Eu juro pra você que eu não gostaria de fazer isso. Mas eu não tenho alternativas. Não posso arriscar perder mais nada em minha vida. Provavelmente irei perder a minha mulher. Não quero perder também o meu filho.

— Esse fardo é só teu, meu jovem. Se pretende mesmo colocá-lo sobre teus ombros, saiba bem o que está fazendo.

— Eu sei.

Imediatamente o assassino levantou sua pistola e apontou na direção de Philox. Mesmo que o lobisomem se movimente numa velocidade sobrenatural, primeiro ele teria que se transformar em lupino e isso iria lhe custar alguns segundos – segundos estes que seriam vitais para sua sobrevivência.

— Adeus, Philox.

 

— O que está acontecendo aqui?!?

 

O assassino e Philox foram surpreendidos pela chegada de uma terceira pessoa. E para a terrível surpresa do assassino, essa pessoa era ninguém menos que Spark, o membro da Sociedade de Prometeu.

— O que está acontecendo aqui, Philox? E você, *******? O que está… - Foi observando a cena inusitada que então que Spark entendera tudo que estava passando, entretanto ele não queria acreditar nisso.

— Spark? O que está fazendo aqui?!?

— *******… Você… Você é que é o Assassino de Anciões?

Aproveitando a chance inusitada, Philox aproveitou esses breves segundos e completou sua transformação em lupino, se tornando um enorme e branco lobisomem. Armando suas poderosas garras ele saltou para cima do assassino que rapidamente teve que se esquivar quase na velocidade do pensamento para não ser transpassado por aquelas lâminas nos dedos de Philox. Não foi uma esquiva perfeita: o braço do assassino teve sua carne rasgada e muito sangue jorrou sobre o solo de Wimbledon.

Quando caíra no chão, o assassino voltou a apontar sua arma na direção de Philox agora tendo certeza que deveria atirar, ou então era ele que iria morrer ali. O lobisomem podia ser rápido, mas não era tão rápido quanto uma bala.

O primeiro tiro foi certeiro, mas não foi fatal. Acertou uma das pernas do lobisomem que rapidamente perdeu toda sua destreza caindo no chão completamente baqueado sentindo uma dor tão intensa que seus uivos ecoavam pela noite londrina.

Ele preparava agora o segundo tiro. O tiro fatal. A sentença de morte.

— NÃÃÃOOO!!!

O tiro foi dado. Entretanto, alguém havia aparecido entre o assassino e Philox:

— SPARK, NÃO!!!

O tiro foi mortal. Mais do que isso: ele havia não apenas atingido Spark em cheio como também o atravessou destruindo seu corpo e sua alma. Agora, naquele milésimo de segundo entre a vida e a morte, foi que o membro da Sociedade de Prometeu entendeu como uma arma de fogo era capaz de matar os anciões. E apenas uma arma era capaz de tal feito.

Mas agora era tarde. Spark agora apenas rezava para que seus amigos conseguissem… conseguissem…  “Me desculpe… Matt…”

 

O Agente Washington “Spark” morre.

 

Não acreditando que havia matado um inocente, o assassino se exalta em fúria e, não podendo mais perder tempo ali, descarrega três tiros furiosos em Philox, também dando fim a essa sua missão ingrata.

Com os olhos cheios de lágrimas, sem poder agora compartilhá-los com seu amigo que acabara de falecer, foi então que, somente agora, o peso desses assassinatos recaiu pesadamente sobre seus ombros. Ele não estava mais suportando ter que fazer isso.

Não mais…

Buscando a pequena sacola onde guardava um conjunto estranho de dados multifacetados, o assassino buscou dentre eles um dado em especial. Um dado que tinha exatamente 10 faces e jogou esse dado perto do corpo de Philox, sem ter o cuidado de escondê-lo como fazia das últimas vezes.

Ele não estava se importando mais com nada.

— Espero que descubram a verdade.

Quando os outros lobisomens chegaram ao local onde escutaram os tiros, não encontraram nada e nem ninguém, a não ser os corpos Philox e de Spark inertes no chão.

 

 

To be continued…