Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio XLV

Culpa

 

 

 

 

Sexta-Feira, 23 de Junho de 2028. 16h40min.

Cemitério de St. Louis.

Nova Orleans – Estados Unidos.

 

O céu estava limpo e claro em Nova Orleans, mas a tristeza nos corações daqueles ali presentes tornava o dia cinza e triste. Era difícil acreditar que um amigo tão próximo, tão cheio de vida e sempre alegre e sorridente havia partido para sempre. “Spark” era muito mais do que um simples apelido – era um sinônimo para a forma que ele levava a vida: sempre enérgico e espontâneo.

Muitos que ali estavam viajaram horas, cruzaram o atlântico, só pra prestar esta ultima homenagem ao amigo que nesse momento descia lentamente em seu caixão frio para dentro da cova profunda. Como Spark era americano, e toda sua família morava na América, após um breve velório na capital britânica, seu corpo foi mandado para sua cidade natal onde pudesse ser enterrado junto com seus familiares.

Danyael não tinha palavras para descrever o que estava sentindo naquele momento. Era tão estranho para ele lidar com a morte. Ele conhecia os segredos mais obscuros sobre a vida pós morte, porém nada disso iria servir para trazer de volta o seu amigo. Sua alma agora desencarnada seguiria seu caminho pelas estradas do mundo espiritual onde possivelmente, se ele realmente quiser, poderá se reencontrar com o amigo, mas o Spark espírito não será o Spark colega de quarto dos tempos da faculdade.

A alma pode ser eterna, mas a vida era única e preciosa.

Junto com Danyael veio também sua noiva, Lilith, e sua irmã Stephanie. Eles estavam posicionados perto da família Washington do lado esquerdo do caixão. Bem diante dos olhos de Danyael estava Matthew – este, que por sinal, em momento algum olhou ou cumprimentou o velho amigo. O anjo estava percebendo claramente que Matthew por algum motivo o estava evitando.

As rezas do padre chegaram ao seu fim, e aos poucos os visitantes iam deixando Spark descansar em paz. Mesmo com o pedido de sua noiva grávida, Danyael preferiu ficar mais um pouco e insistiu que Lilith e Stephanie, devido a evidente situação delas, voltassem para o hotel onde estavam hospedados. Poucas horas depois e apenas os membros da, ainda secreta, Sociedade de Prometeu e Danyael estavam ao redor do túmulo de Spark.

— Eu gostaria que vocês me dissessem a verdade. – disse o anjo com a voz ainda soturna sem tirar os olhos pro túmulo.

— Que verdade? – questionou James.

— Essa história ainda está mal-explicada. O que Spark estava fazendo em Londres, se tanto sua a vida profissional quanto pessoal eram aqui na América? Por que ele foi encontrado morto perto do corpo do Grão-Mestre dos metamorfos? E por que você, Matt, foi o primeiro a encontrá-lo?

Um breve silencio se seguiu as palavras de Danyael. James até tentou responder, mas Matthew foi mais rápido:

— Você quer saber a verdade, Kimble? Então eu irei te dizer a verdade!!!

Quando a voz de Matthew se alterou imediatamente a mão de Phillipp o segurou, mas não foi o suficiente para segurá-lo:

— Você quer saber a verdade, Kimble? Então escute bem o que eu irei dizer: Spark e eu somos agentes dos Iluminados! E você quer saber o que estávamos fazendo em Londres? Acho que é você que deve me dar a resposta…

— Como é? O que você está insinuando, Matt?

— O que você realmente está pensando, Kimble! Nós dois fomos para Londres a pedido de nosso Supervisor para investigar a morte dos anciões, e veja só: Adivinha quem é o nosso principal suspeito?!

Mesmo sabendo que Matt havia protegido o segredo da Sociedade de Prometeu, Phillipp não se conteve em fazer seu amigo diminuir o tom:

— Calma, Matt… Não é bem assim…

— É BEM ASSIM SIM, PHILL!!! COM EXCEÇÃO DE SEBASTIAN WEST, O ÚNICO CAPAZ DE MATAR TANTOS ANCIÕES SEM DERRAMAR UMA LÁGRIMA DE SUOR SÓ PODE SER O SUPERSTAR PORTADOR DA GRANDIOSA LIGHT SWORD!!!

— Como é?! E por que eu sou o suspeito?

— Pela mesma razão que Sebastian havia lhe julgado, Kimble: em todas as cenas do crime a ressonância da Light Sword é evidente! Mesmo você não querendo, ao usar sua espada ela deixa rastros na tessitura da trama! E NÃO FOI DIFERENTE DA ULTIMA VEZ!!!

Ficando olho a olho com seu antigo amigo, Danyael se enfureceu:

— VOCÊ POR UM ACASO ESTÁ ME ACUSANDO DE TER MATADO O SPARK???

— O SPARK NÃO REAGIU!!! MESMO ESTANDO DIANTE DO VERDADEIRO ASSASSINO ELE NÃO REAGIU!!! SÓ EXISTE UMA COISA QUE FARIA UM AGENTE EXCEPCIONAL COMO ALFRED WASHINGTON SEGUNDO VACILAR DIANTE DE UM INIMIGO: A AMIZADE!!!

Pegando Matthew pelo colarinho quase babando de ódio, Danyael se segura para não esmurrar o rosto de seu antigo amigo de faculdade:

— COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE SE QUER EXPECULAR QUE EU PODERIA TER MATADO O SPARK?!? O SPARK ERA O MEU MELHOR AMIGO, ELE SERIA O PADRINHO DE MEU FILHO, EU NUNCA… NUNCA… MATARIA… O MEU… MELHOR… AMIGO!!!!!

— INFELIZMENTE DANYAEL, NÃO SOU EU QUE ESTOU “ESPECULANDO” ESSAS IDÉIAS!!! SÃO AS PROVAS E AS EVIDÊNCIAS QUE ESTÃO CONTRA VOCÊ!!!

Nesse momento Danyael largou Matthew jogando-o feito um lixo:

— Você está louco! Acho que os Iluminados devem ter batido tanto na sua cabeça que agora você só está falando ASNEIRAS!!! Eu tenho provas e testemunhas que estava no Paradísia na noite em que Vincent Vaugh morreu. Também tenho provas e testemunhas que eu estava a MILHARES de milhas de distancia de Londres quando a Princesa Anne e Nin Soo foram mortos!!! O mesmo vale para Kravinoth e o Philox!!!

— E como você explica a ressonância da Light Sword nos locais dos assassinatos?!?

Nesse momento Danyael vacilou. Ele deveria ter a resposta na ponta da língua, mas alguma coisa o fez morder a língua e demorar a responder.

— Eu… não sei! NÃO SEI!!!

— Você quer saber o que eu acho? Lembro como se fosse ontem quando você ergueu essa espada pela primeira vez! Você foi enviado para o outro lado da Galáxia… há BILHÕES de milhas de distancia da Terra… e em apenas alguns minutos foi capaz de cruzar o universo mais rápido que a velocidade da luz!!! Agora me responda só uma coisa, Danyael Kimble: o que te impede de estar “virtualmente” em dois lugares ao mesmo tempo? O que te impede de num piscar estar na Paradísia e depois no apartamento de Vincent Vaugh? O que te impede de num milésimo estar na cama com sua esposa e depois estar em Wimbledon?

Todos esperavam por qualquer resposta, entretanto foi o punho de Danyael na face de Matthew que respondeu as acusações. Quase rosnando e com os dentes serrados, Danyael encerrou a discussão em poucas palavras:

— Eu… não sou… um assassino!!!

Furioso Danyael deu as costas pra todos e aproveitando que o cemitério estava vazio, arregaçou suas grandes asas angelicais e levantou vôo feito um míssel, desaparecendo no céu logo em seguida.

Soltando o fôlego, Matthew se recompôs ajeitando suas roupas e removendo as sujeiras mais pertinentes. O agente iluminado nem se deu ao trabalho de olhar para a possível censura de seus amigos da Prometeu – Ele tinha coisas mais importantes a se preocupar agora.

— Matt. – chamou James.

— O que é?

— Você sabe que exagerou!

— E daí?

— E daí que você pode ter falado besteiras e colocado uma amizade em risco.

— Falou certo. Eu “posso” ter falado besteiras.

— Você só pode acusar alguém quando tiver 100% de certeza!

— E eu terei! – os olhos de Matthew se mostravam felinos ao concluir seu julgamento: — Assim que sair o resultado de DNA do sangue encontrado naquele campo, eu terei o assassino em minhas mãos. Nem que ele seja o Portador da Light Sword!

 

*****

 

Pensão Le Fey – Oxford, Inglaterra. 20h40min.

 

Seus olhos pareciam estar pregados pelo esforço hercúleo que Nick fez para acordar. Não eram apenas seus olhos, mas seu corpo também não respondia direito as suas ordens. Ele se sentia absurdamente exausto e abatido – uma sensação comparável a ele ter carregado um peso nas costas enquanto subia uma longa ladeira.

Com o acalento de uma mão carinhosa e sensível, Nick pode relaxar um pouco mais:

— Você está bem, amor?

— Taw… Eu… estou bem. Onde estamos.

— Em nosso quarto em Oxford.

— Hmmmf… E o que aconteceu?

Erick, que estava presente no quarto, se levantou de sua cadeira e foi cumprimentar o amigo:

— Você não se lembra de nada, Nick? – perguntou mantendo um sorriso afável.

— Hmm… me lembro de algumas coisas. De nós iniciarmos o poder de visão temporal na estação, de vermos como tudo aconteceu naquela noite, do momento em que a princesa morreu, e depois… hmm… eu acordo aqui. Pela cara de vocês parece que perdi muita coisa!

— Você ficou desacordado por mais de 48 horas.

— Uau! Parece que não vou ter sono por um bom tempo então! – sorriu. – Diga-me, Erick, o que aconteceu?

— Eu resumo? Você havia chegado ao seu limite com relação aos seus poderes psíquicos e isso acarretou um choque paradoxal em você.

— Juro que não entendi nada do que você disse… Mas… - Nick mudou seu olhar e se virou para a janela para observar a paisagem noturna de Oxford. Mesmo a contragosto de Tawnee, o jovem jornalista se levantou de sua cama e foi até a janela. — Erick… Eu não sou mais o mesmo Nicolas Polansk de antes.

— Como assim?

— Sinto-me diferente… Como se… de alguma forma… o qual não sei explicar, eu estivesse enxergando o mundo com outros olhos.

— Nick… Você está bem? – perguntou Tawnee preocupada.

— Sim, Tawnee. – respondeu Erick no lugar de Nick. – Acho que ele está se sentindo melhor do que nunca, não é mesmo, Nick?

— Sim. Sinto-me muito bem. Na verdade… acho que nunca na minha vida me senti tão bem comigo mesmo! O que está acontecendo? Por que estou com essas sensações?

— Nick… - Erick então seguiu até onde Nick estava e pousou sua mão em seu ombro: — Você agora é como eu, como o Mestre VonBranagh, e como alguns dos maiores mestres da magia do mundo. Você, Nick, agora é um autêntico Mago.

— Um “mago”?

— Sim. O termo é em sua essência uma metáfora para nossa verdadeira situação. Você agora abriu os olhos para a verdadeira realidade. Uma realidade que, mesmo você conhecendo o mundo sobrenatural, é um mistério para muitas das criaturas que vagam por esse mundo. A verdade por trás da verdade. Pode parecer muito estranho e confuso no inicio, talvez você comece a ter diversos conflitos internos e externos. Talvez você comece a achar que está ficando louco, ouvindo vozes, vendo coisas que não existem (ou que os outros não vêem), mas na verdade, é você que está se implodindo se sentidos e sensações que nunca na sua vida você imaginou que ia presenciar.

“Antes você falava que usava Poderes Psíquicos, dons que se originavam de sua mente evoluída, geneticamente mudada, ou simplesmente de um sexto sentido aguçado. Talvez você estivesse certo, Nick. Depois da experiência no metrô percebi claramente que seus poderes eram tão incríveis quanto aos de um feiticeiro comum, porém tão limitados quantos a de um Mago verdadeiro. Então veio a dúvida: ‘o que seria então os seus antigo poderes?’. Eu o criticava quando dizia que ‘Poderes Psíquicos’ não existiam, mas você me provou que não havia outra explicação para a manifestação clara de poder que você manifestou.

“Tenho plena convicção agora que os, então denominados, Poderes Psíquicos são verdadeiros, porém nada mais são de o primeiro passo para o ‘Despertar de seu Eu Mágico’.”

— Meu “eu mágico”? Isto está parecendo título de livro de esoterismo de quinta!

— Sim. Parece! Mas seria a melhor definição para seu atual estado.

— Você pode explicar com mais clareza o que seria esse lance de “despertar” e “eu mágico”.

— Sinceramente? Isso é assunto para dias de estudo! O que você precisa agora é de um professor dedicado. Eu gostaria muito de poder te ajudar, mas na minha atual situação pode perceber que mal consigo cuidar de mim mesmo! Mas, pra não te deixar no escuro, irei te dar alguns ensinamentos básicos.

— Certo.

— Você já ouviu falar sobre a teoria da alma humana e que ela é imortal, não?

— Sim. Pra quem é espírita isso é prato cheio!

— Exatamente. O que estou querendo dizer é que, verdadeiramente a alma humana é imortal sim, e que apesar das contradições, o processo evolutivo conhecido como “reencarnações” é verdadeiro. Então, com base nisso o que posso dizer pra você é que: nesse momento sua Alma Imortal despertou dentro de você trazendo consigo a chave para controlar, alterar, criar ou até mesmo destruir o universo a sua volta. Esse é um conhecimento tão milenar que, mesmo indiretamente, os humanos tentaram de diversas formas alcançá-lo seja por meio da bruxaria, feitiçaria, taumaturgia, ou qualquer outra arte limitada que você conheça.

“Porém, somente o Poder da magia verdadeira tem a capacidade de alterar a realidade tão profundamente quanto qualquer outro poder. Isso é sem dúvida a chave do universo que está em cada um nós desde o Big Bang. Nós somos parte de um Todo. E o Todo é parte de Nós.”

— Sim… - Nick não desgrudava os olhos de Erick e agora pode sorrir: - Realmente precisarei de um professor agora!

— Hehehe! Bom, agora que está bem poderei seguir com minhas investigações.

— Sim, Erick! Como ficou a investigação? O que lhe serviu a viagem no tempo?

— Serviu muito, Nick! Você nem imagina! Vamos lá, então… - Erick se sentou na cama e junto com o casal começou a explicar o que concluiu após aquela viagem no tempo.

“Primeiramente, ver tudo por outra ótica obviamente ajudou e muito! Principalmente que eu da primeira vez não tive capacidade mental para prestar atenção nos detalhes. O assassino e Nin Soo Yan estavam no vagão logo depois do nosso e eu nem tinha percebido! Enfim, desta vez pude não apenas compreender tudo como também botar vários “pingos nos is” que estavam soltos. Minha primeira análise é sobre o próprio assassino”

— É verdade… - Tawnee interrompeu. – Mesmo com todo nosso esforço foi inacreditável (e frustrante!) não termos conseguido ver o rosto dele!

— Sim. – confirmou Nick. – Eu me lembro disso. O que aconteceu?

— Nick. Taw. O que vimos ali nada mai foi do que a magia de disfarce mais antiga engenhosa já criada por assassinos sobrenaturais. Aquilo era um feitiço conhecido como “a Máscara de Jack”.

— Jack?

— Sim. Jack, o Estripador.

— Ah… fala sério! O assassino milenar das histórias de Londres?

— Ele mesmo! Respondam-me: Para um Conselho que existe a mais de 600 anos, composto por magos poderosíssimos, como vocês explicariam que Jack, o Estripador nunca tenha sido pegue e/ou sua identidade revelada?

— Mas o tal Jack não era um cara perturbado da nobreza real? – questionou Tawnee.

— Provavelmente. Nada 100% comprovado. A verdade, meus caros, é que Jack, o Estripador parecia que conhecia os magos e o mundo sobrenatural tão bem quanto os mestres daquela época suspeitavam. Não apenas usava de feitiços de encobrimento de pistas, como também criou um dos mais incríveis disfarces mágicos já criado: a Máscara. De acordo com os registros, diversas vezes a polícia do Arcanorum tentou usar a magia do Tempo para descobrir a verdadeira identidade de Jack, mas sempre acontecia a mesma coisa…

— Seu rosto estava camuflado por feitiços contra a magia do tempo. – concluiu Nick.

— Exatamente. – afirmou Erick parabenizando a perspicácia de seu amigo. – claro que com a passagem dos séculos muitos rituais de contramágica já foram criados para inibir o uso desse feitiço. E isto é certo pois, até o incidente no metrô que presenciamos, acredito que esta seja a primeira vez que vimos esse feitiço ser usado atualmente em pleno século XXI. Acredito até que seja uma versão aprimorada.

— Sem dúvida! – afirmou Tawnee. – Lembro-me agora que durante uma das assembléias que ocorreu o professor VonBranagh havia dito que tentara usar seus poderes do tempo para ver o rosto do assassino, sobrepondo seus próprios poderes!

— É verdade!!! – disse Nick. – Ele mesmo já havia dito isto para nós! Então estamos lidando com alguém muito poderoso!

— Sim, sem dúvida. E isso é o segundo problema. Derek Johannes em seu depoimento no Arcanorum havia mentido para o Conselho. Atualmente ele é talvez a única pessoa que realmente sabe a identidade do assassino.

— É mesmo!!! Então devemos fazer alguma coisa!!! Vamos falar com o professor VonBranagh! Mandar pressioná-lo!!!

— Não, Nick. Não agora. Pelo que eu sei, Derek é muito mais esperto do que imaginamos! Mexer com ele é algo que teremos que fazer com cautela. Recentemente fiquei sabendo que ele andou lutando com um mercenário conhecido como Dan Viper e que os dois quase destruíram um quarteirão. Isso por que Dan Viper, pelo que descobri, é também um dos investigadores desses assassinatos. Acredito que talvez o mercenário tenha descoberto alguma coisa e Derek tenha ido lá pessoalmente.

— Mas pelo que sei, o tal de Derek não é de atitudes tão vulgares. – comentou Tawnee. – De todos os Grão-Mestres do Arcanorum ele é o mais sucinto em suas ações.

— Com certeza! Mas mesmo assim, ainda é melhor termos cautela. Já basta toda a Família dos Vampiros estarem na nossa cola.

— Isso sim é verdade… - comentou Nick.

— Bom, voltando pra conversa original, não apenas temo esse problema do assassino encobrir bem seus vestígios, como também é certo ele ser uma pessoa de grande poder. Então, na atual situação de Londres, quais são as pessoas que possuem nitidamente um poder possivelmente maior do que o maior arquimago do Reino Unido?

— Sebastian West? – respondeu Nick.

— Danyael Kimble? – respondeu Tawnee.

— Resposta: ambos. Todos os dois tem poderes suficientes pra sobrepor quaisquer poderes existentes neste e em outros mundos!

— Mas Erick… - interpôs Nick – É impossível ser o Sebastian. Ele estava conosco o tempo todo, principalmente naquele dia que ele estava “ocupado” sendo beijado por aquela vampiresa.

— Com certeza… só nos restou então…

— Danyael?!? – questionou Tawnee rapidamente. – Impossível, meninos! O Danyael nunca faria uma coisa dessas!

— E por que não, Taw? – perguntou Nick.

— Eu não o conheço bem, mas cá entre nós: alguém que foi escolhido pelos próprios Anjos para ser o Portador da Light Sword nunca seria o precursor de assassinatos, mesmo que as vítimas não fossem lá muito inocentes!

— Isso não é argumento, Tawnee. – argumentou Erick. – Temos que nos lembrar que, a história mesmo prova que uma das maiores atrocidades da humanidade que foi a Santa Inquisição foi arquitetada por esses seres sobrenaturais que se auto-denominam “Anjos Celestiais”. Para Danyael agora estar agindo feito um “Enviado de Deus” com a missão de “eliminar as forças do mal” que assolam esta cidade, não custa nada. E tem mais uma coisa…

— O que? – questionou Tawnee.

— Lembro-me perfeitamente das palavras ditas por Derek naquele metrô. Ele se referiu ao assassino como “jovem”, isto nos leva a crer que dificilmente o assassino seja alguém do Conselho do Arcanorum, o qual o Grão-Mestre iria tratá-lo como um igual ou… com o devido respeito.

— É verdade. E agora? Qual o seu próximo passo?

— Sendo Danyael um forte suspeito… Sabendo que Derek conhece a identidade do assassino, e por ser cunhado do anjo podemos supor que ele esteja acobertando-o, só me resta uma coisa a fazer. – Erick levou a mão até o bolso do casaco e buscou um pequeno objeto acrílico. – Descobrir o que é isto.

Ao abrir a mão e revelar o objeto para o casal, imediatamente Nick se manifestou:

— Um “D20”!

— Um o que?

— Um D20. Um Dado de 20 faces.

— Sim… percebi que isto é um dado. Mas por que este formato tão estranho? E por que tem 20 faces?

— Isto é um dado usado em jogos de “R.P.G.”.

— R.P.G.? Reeducação de Postura Global?

— Não… Role Playing Game! É um jogo onde um grupo de amigos interpretam diversos tipos de personagens e participam de diversas aventuras criadas por um dos jogadores, conhecido como Mestre ou Narrador, baseados em algum livro do gênero.

— E pra que serve esse dado?

— Basicamente, serve pra definir as regras do jogo, onde os personagens “testam” suas habilidades e vêem através dos dados se conseguem ou não concretizar suas proezas.

— Entendo.

— Mas o que um D20 tem haver com toda essa história?

— O assassino derrubou propositalmente esse dado lá na estação. Voltei lá na estação ontem e achei entre os trilhos.

— Propositalmente??? Então o assassino é jogador de RPG?

— Não sei. Mas por algum motivo ele deve ter feito isto. Estava esperando você acordar pra poder tirar uma dúvida.

— Qual?

— Não é certeza, mas… acredito que este assassino esteja deixando pistas.

— Pistas?

— É. Até então ele estava desafiando todas as regras de um assassino serial comum, até agora. Na maioria dos casos, todos os assassinos seriais fazem um tipo de ritual antes de um assassinato ou então, deixam pistas para desafiar a inteligência de seus perseguidores. Esse dado talvez seja a resposta primordial que precisamos. Se de alguma forma esse dado estiver dizendo alguma coisa e eu conseguir provar isso, não apenas irei convocar uma Assembléia e por Derek Johannes na parede, como também irei desvendar quem é esse tal Assassino de Anciões.

— Que massa!!! – alegrou-se Tawnee.

— E então? Qual será seu próximo passo.

— Irei agora até o apartamento de Vincent Vaugh fazer uma averiguação.

— Depois de quase 2 meses desde o assassinato?

— Sim. Sei que possivelmente encontre a cena do crime totalmente alterada, mas é o mínimo que eu posso fazer.

— Então eu vou contigo!

— Nick…

— Sem “mas”. É certeza de que o apartamento deve estar totalmente revirado.Você com certeza vai precisar de minha ajuda!

— Sim… é verdade, mas… - Erick olhou para Tawnee já prevendo que ela não estava gostando nada da idéia.

— Então está combinado. Deixe apenas eu me arrumar e logo iremos para Londres.

— Certo… Estarei lá no corredor te esperando.

— O.k.

Erick saiu do quarto percebendo que as palavras de Nick foram também uma indireta para que ele pudesse ficar à sós com sua noiva. A conversa com certeza seria difícil, mas Erick não iria negar que a ajuda de Nick era imprescindível, principalmente agora que ele se tornara um Mago.

De repente o celular de Erick tocou. Não era uma chamada e sim uma mensagem em SMS. Isso era estranho, por que depois dos incidentes com os Tecnomantes e os Vampiros Erick passou a ter cuidado com aparelhos celulares para não ser achado e eram pouquíssimas pessoas que possuíam esse seu número novo.

 

<Caro Sr. Russell. Aqui é do Hospital e gostaríamos que assim que puder viesse fazer-nos uma visita. Sua paciente provavelmente esteja precisando de sua ajuda. Atenciosamente.>

 

“E agora mais essa…”, pensou Erick preocupadíssimo. “Se não bastasse tantos problemas na minha vida…”. Infelizmente, para Erick não havia jeito. Ele precisaria ir até o hospital assim que chegasse em Londres, rezado desde á que não fosse nada sério.

 

*****

 

Mansão Thornham – Londres. 21h00min.

 

Esta era uma das clássicas reuniões de família. E não era um dia especial comum, nem muito menos esta era uma família normal. Eles se auto-denominavam Parentes, mas na verdade eram todos vampiros. Numa cidade populosa como Londres, a concentração de vampiros era enorme – uma estimativa de centenas, de todas as raças, clãs, seitas, e sociedades. E também, numa cidade milenar como esta, existiam ali vampiros com séculos de idade e com influencia e status capazes de derrubar nações inteiras. E nesse imenso ninho de cobras e lagartos, lá estava Sebastian que para muitos ali não passava de uma criança, porém tinha poder suficiente para nenhum ancião se meter a falar com ele.

E por esta razão, num misto de preconceito, desconfiança e medo por parte de seus iguais, Sebastian estava se sentindo isolado por todos da festa, sentado sozinho próximo das escadarias da mansão. Dali ele podia ver a tudo e a todos. No hall central da mansão, alguns vassalos humanos do senhor da festa recepcionavam a chegada dos convidados vampiros e seus respectivos vassalos que vinham dos quatro cantos do país. Assim que entravam, logo se encontravam com alguns conhecidos mais chegados e depois ficavam fofocando sobre a vida dos outros, especialmente o alvo das atenções daquela noite: o Portador da Dark Sword.

A mansão estava espetacularmente requintada, com música clássica, diversas luzes brancas e amarelas dando um tom em sépia e convidados em trajes à rigor, predominando o preto e o marrom. Mesmo com todo esse luxo, e diversas vampiresas com decotes de cair o queixo, nada atraía a atenção de Sebastian. Ele estava sem dúvida entediado.

Levantando-se de onde estava sem querer chamar a atenção, o jovem vampiro seguiu até o outro lado da mansão, onde poderia ficar um pouco sozinho, já que teria que agüentar tudo aquilo até que o verdadeiro evento em questão fosse anunciado. Buscando previamente uma taça de sangue fresco com um dos garçons, Sebastian foi até uma das varandas da mansão e lá ficou admirando a paisagem noturna com as luzes da metrópole no horizonte. Se ele ainda respirasse, com certeza iria abrir um grande bocejo.

Não conseguindo se socializar?

Sebastian olhou para trás e quase fez seu coração bater novamente com o susto. Diante dele estava uma criatura que com certeza personificava a monstruosidade que era a condição vampírica. Ele não se lembrava por menores das explicações de sua mentora sobre a Família, porém ele com certeza sabia que aquele ser terrivelmente monstruoso pertencia ao clã conhecido como Nosferatu.

— Não. Eu… não consigo me socializar com outros vampiros.

Eu entendo. Acredite! Entendo perfeitamente.

O vampiro nosferatu era, apesar de sua feiúra monstruosa, elegante. Um pouco maior que Sebastian, ele trajava um longo sobretudo cinza sobre um corpo terrivelmente macérrimo. Por de baixo, um conjunto de roupas sociais e colete com uma bela gravata vermelha. O vampiro era calvo e o que lhe restava de cabelo descia oleosamente até suas costas, não escondendo as orelhas pontudas e deformadas. Seu rosto era bem afinado, com os dentes incisivos bem compridos e em formato de presas. A pele era tão pálida que Sebastian podia ver claramente seu suprimento de sangue correr por algumas de suas veias e artérias.

Espantado em me ver?

— Eu nunca tinha visto um Nosferatu pessoalmente.

Aaahh… mas pode ter certeza que entre os de minha espécie, sou um dos mais bonitos!

— “Espécie”? sua espécie é igual a minha: você é um vampiro!

Depende do ponto de vista. Você está sendo bem cordial e educado com essas palavras, mas duvido que em alguns dias convivendo com outros nosferatus você acredite que sejamos de um mesmo espécime.

— Eu não me importo. – comentou Sebastian virando-se novamente para admirar as luzes noturnas.

Se estou te perturbando, irei me retirar.

— Espere… posso te fazer umas perguntas?

Depende… uma ou duas de graça. Depois iremos falar sobre trocas equivalentes!

— Certo. Dizem por aí que vocês nosferatu são aqueles que conhecem muito sobre a história e os acontecimentos mais recentes.

Apenas nos mantemos informados. Percebemos com nossa maldição que, independente do status, dos recursos, e da fama, todos sempre procuram por informação, e para nós a informação é a moeda corrente.

— Então vocês sabem de muita coisa.

Relativamente mais do que a CNN e a BBC!

— Então… gostaria de lhe fazer uma pergunta sobre minha senhora. Tirando o fato de que ela queria me manipular e ter-me como um poderoso aliado para a Família, qual foi o outro motivo de minha senhora ter me abraçado?

Você acaba de responder sua própria pergunta. Não havia outro motivo se não estes que citara. A vampiresa Anne Hannover sempre foi uma mulher muito ardilosa e ambiciosa, mesmo em seus tempos como mortal.

— Eu não acredito. Na verdade, não quero acreditar. Eu acho que exista algo ainda implícito nessa história toda.

Por que você não quer acreditar?

— Sei lá… Às vezes eu fico me lembrado da noite em que fui transformado em vampiro e me recordo de coisas tão detalhadas e vivas que parece que aconteceu ontem.

Isso é normal. Todos os vampiros se lembram com perfeição do dia em que morreram. Do dia em que venderam suas almas para o demônio e acordaram novamente como amaldiçoados predadores da humanidade.

— Eu me lembro dos pensamentos de minha senhora no momento que ela me beijou. Me lembro de mergulhar em seus sentimentos mais íntimos, e no fim… entender que tudo aquilo tinha um propósito mais profundo.

Hmmm… Você então diz que entrou num elo telepático com sua senhora no momento de sua transformação. Realmente isso pode ser considerado vide seus poderes obscuros da Dark Sword.

— Talvez.

Pensando melhor… acho que posso supor o que você está querendo descobrir.

— Sério? O que você sabe?

Anne e Anna sempre foram mais do que amigas…

— Anna?

Sim… Acho que já sei o que você está procurando.

— Sabe? E o que é?

Você terá que começar a fazer uma busca sozinho, meu rapaz. Nessa sua jornada, além de descobrir os segredos de sua condição vampírica, você irá descobrir também alguns dos segredos mais obscuros de sua vida. Antes que comece devo alertá-lo: abra sua mente para todas as possibilidades, por mais absurdas que possam parecer, e tome bastante cuidado: o caminho poderá ser árduo!

— Eu não estou entendendo. Por que de repente você começou a falar igual ao Mestre dos Magos?

Por quê, como mencionei antes, minha raça trabalha com a informação, esta é nossa moeda corrente. Boato, especulação e achismo não faz parte de nosso vocabulário. Então… não posso te fornecer mais do que isso.

— Então… por onde eu começo?

Comece primeiro pelas origens de sua progenitora, Anne Hanover. Quando, durante suas pesquisas você se esbarrar com o nome “Anna Nothingham”, comece então a investigar sobre esta mulher e suas ligações com sua senhora.

— Você parece que conhece mais do que aparenta dizer, porém não quer me dizer.

Pode ser. Mas sinceramente? Não quero ser o primeiro a te revelar certas coisas.

— Que coisas?!?

Seu estoque de perguntas já se esgotou. Até a próxima vez, meu rapaz. E lembre-se: você está em divida comigo agora.

— Qual o seu nome?

— Max Murnau, muito prazer. – o nosferatu estende sua mão esquálida até Sebastian e este retribui o aperto. Para sua surpresa, Max Murnau não era tão fraco quanto ele pensava.

— Sr. Murnau… Muito obrigado por esta conversa.

Não se preocupe, caro portador da Dark Sword. Um dia você irá me agradecer da forma correta. Agora… tenho que me retirar, o Príncipe Thornham logo irá se apresentar formalmente a toda Família.

Depois que o misterioso e tenebroso nosferatu Max Murnau se retirou, Sebastian voltou a mergulhar-se profundamente em seus pensamentos. Ele agora tinha um propósito maior para buscar em sua vida, uma missão que talvez abra novos caminhos e horizontes, que para ele hoje pareciam muito distantes e apagados pelas brumas da noite…

 

*****

 

Base Secreta da Sociedade de Prometeu. 00h00min.

 

Já tinha se passado mais de 48 horas desde a última vez que Matthew havia dormido e mesmo assim o cansaço nem de longe o havia abatido. Ele estava disposto a ir até o fim em seu trabalho, por mais árduo que ele seja agora que estava sozinho. Não era hora de ficar lamentando a morte de Spark – ele tinha um trabalho a fazer e como um bom agente iluminado ele iria fazer de tudo para cumprir.

Em uma das salas de pesquisa da base secreta, Matthew mantinha seu notebook ligado, várias papeladas sobre a Jupiter’s Corp, além de fotos tiradas agora a pouco pelo satélite dos Iluminados sobre a e enorme bancada, estudando minuciosamente como iria fazer para entrar lá e destruir completamente a fonte de maligna que havia se instalado lá. Era certo que forças das trevas estavam atuando secretamente no prédio e em suas proximidades, vide o fato de que foram Lobisomens corrompidos que os atacaram da última vez, e então, como primeira diretriz dos Iluminados, era obrigação de Matthew como agente iluminado varrer essa ameaça para longe dos civis inocentes.

Essa era a promessa que ele havia feito ao seu falecido amigo e iria fazer o que tivesse ao seu alcance para cumpri-la.

— Matt…

Keira chegou sorrateira na sala de pesquisas onde Matthew estava, mas infelizmente o amigo não parou o que estava fazendo para atendê-la.

— Diz, Keira.

— Nada… só estou preocupada. Você está com a mesma roupa desde que chegou de São Franscisco… Sei que não dormiu nada a viagem toda e pelo visto também não dormiu quando chegou a Londres.

— Não tenho tempo pra isso.

— “Isso” o quê? Dormir? Matt, pelo amor de deus homem! Você não é uma máquina! Precisa descansar!

— Não, não preciso. – e Matthew mostrou um fraco de remédios transparente contendo alguns comprimidos brancos.

Mostrando-se pronta pra ficar nervosa, Keira alargou os passos até o amigo e buscou o frasco pra poder ver e confirmar com mais clareza o que ela estava desconfiando:

— Você está tomando Supra-trimetilxantina pra se manter acordado??? Você está louco?

— Por favor, Keira, deixe-me sozinho, estou trabalhando.

— Eu não posso deixar você cometer esse assassinato consigo mesmo! Esse remédio ainda não foi totalmente liberado pelos biólogos da universidade iluminada! Você pode ter efeitos colaterais terríveis!

— KEIRA!!! – Matthew gritou apenas para fazer a amiga se calar. Ao olhar os olhos do amigo, Keira se aterrorizou: ele estava se suicidando: profundas olheiras e pretas, com as veias dos olhos tão vermelhas que pareciam que iam explodir. Até seus lábios estavam ressecados deixando claro que nem água ele estava bebendo.

Matt…

— Keira… por favor… vai embora. Eu preciso trabalhar.

Calada e profundamente triste por querer ajudar e não poder, Keira ia se retirando cabisbaixa quando Matthew parou o que estava fazendo e com um suspiro chamou a amiga novamente:

— Desculpe.

— Eu só quero o seu bem.

— Eu sei. Mas… eu não posso parar agora. Não agora. Não posso fazer isso depois do que aconteceu.

— Mas eu tenho certeza absoluta que não é isso que Spark gostaria de ver. Ele sempre foi uma pessoa alegre e cheia de vida. O que você está fazendo está denegrindo a imagem do nosso amigo.

— Mas… - Matthew baixou a cabeça até o queixo encostar nos peitos e amassando uma foto da Jupiter’s Corp, ele começou a chorar: – A culpa é toda minha…

Aos prantos e visivelmente abalado, Matthew desmoronou quando os braços de sua amiga os envolveu.

— Não, Matt… a culpa não foi sua. Por que diz isso?

— Fui eu que o chamei pros Iluminados… Fui eu que sempre colocava ele nessas missões suicidas… e… fui eu que pedi pra trocar de missão com ele. Era pra eu estar morto agora, e não ele! – voz embargada e muito choro, Matthew se desfazia nos braços de sua amiga. – A culpa é toda minha, Keira… Eu matei o meu melhor amigo.

— Pare de falar besteiras, Matt!!! – Keira engrossou a voz e como um menino de 5 anos Matthew olhava para ela com olhos lacrimejantes e engolindo o choro.

— Você não foi o culpado pela morte de ninguém! Você não sabia de nada! Spark sempre soube dos riscos quando aceitou entrar pros Iluminados, assim como todos nós aqui da SdP! Se existe um culpado aqui essa pessoa foi quem aprontou um revólver místico na direção de nosso amigo e tirou a sua vida!

— M-mas… eu devia estar do lado dele, Keira… Nós éramos uma dupla… um protegia o outro… por que fomos separados???

— Por que Deus quis assim, Matt. Nem sempre podemos estar do lado da pessoa que nós amamos. Eu sempre fico preocupada com o James, e agora com vocês também, quando estão em missão. Mas eu não nasci colada com vocês! Eu não posso ir contra as forças do destino e da morte…

— Não tem essa de “destino” aqui, Keira!!! Não era pro Spark estar morto! Foi um filho da puta egoísta que tirou a vida de meu amigo! – agora, recuperando-se quase completamente Matthew transformou seus prantos em ódio: — E eu vou descobrir quem é esse maldito assassino!!!

— Mas… nessas condições… - Keira sorriu, — você não vai conseguir nada, a não ser adiantar a sua morte com um ataque-cárdico ou um câncer!

Calmamente, os dois iam se sentando no chão e Matthew ia dormindo no colo de Keira, enquanto a amiga ia carinhosamente acariciando seus cabelos como uma mãe zelosa preocupada com seu filho.

Foi nesse momento de paz angelical que um dos computadores da sala começou a apitar informando que algum tipo de processo havia sido finalizando. Fazendo um grande esforço para esticar a mão até o papel que saía da impressora sem perturbar o sono de Mattew, Keira enfim descobriu do que se tratava: o exame de DNA do assassino coletado de seu sangue no último local do crime.

Seu coração disparou. Era quase 99% de certeza que naquele momento ela iria descobrir a verdadeira identidade do terrível assassino de anciões que também matara o seu amigo Spark. Dispensando os textos teóricos, ela foi logo pro final da página onde havia o resultado.

Eis que veio o choque!

 

*****

 

Mansell Street – Londres. 02h10min.

 

Após fazer com tranqüilidade e sucesso seu poder mágico “Visão Temporal”, Nick acompanhou Erick pelo aposento desse singular apartamento, onde no dia 30 de Março o Diácono do Arcanorum Vincent Vaugh fora assassinado.

Era de se esperar o que eles viram: Vincent procurando desesperadamente pela sua poção de rejuvenescimento, a chegada do assassino e o fatídico final dessa cena trágica que acarretou o início de toda essa saga. Entretanto, voltar no tempo trouxe novas pistas aos investigadores, e mesmo que a maldita Máscara de Jack estivesse ocultando o rosto de nosso protagonista, a principal pista daquele momento estava sendo discutida por eles agora:

— Ele não usou a mesma arma que usara em Anne Hanover. – concluiu Erick.

— Então como ele matou o Diácono a ponto dele virar poeira?

— Isso é natural. O Diácono era um homem que prolongava a sua vida através de poções alquímicas, que era a sua especialidade. Sem a poção ele estava condenado à morte. Com o tiro, ele simplesmente se tornou em segundos aquilo que ele já deveria ser a muitos anos: farinha.

— Entendo.

— Perceba… Vincent ainda deu seu último ataque! Ele atacou magicamente o assassino antes de morrer!

— Eu não estou conseguindo…

— Se concentre nessa cena, Nick. Agora que és um mago poderá ver com clareza o fluxo da magia. Vincent atacou com algum tipo de magia o assassino.

— Sim… estou vendo agora! Mas… o que foi?

— Não sei. E nem poderei saber! Só sabemos que o assassino é uma pessoa que está marcada de alguma forma pela magia de Vincent! Isso sim será o nosso Ás nesse jogo!

— Que bom! Ei, veja! Bem como você disse… Ele fez a mesma coisa que na estação!

— Eu sabia!

Estando diante da cena que eles aguardavam, os investigadores fizeram silêncio para observar com cautela toda aquela cena:

 

Acabou.

Todo o sofrimento de Vincent havia ficado para trás. Mas esta não foi a forma que ele quis que terminasse. Em poucos segundos, seu corpo começou a se reduzir a cinzas, juntamente com suas roupas e pertences. Juntamente com a bala, única evidência clara de assassinato. Friamente, o assassino guardou a arma do crime dentro da calça e em seguida se retirou do aposento.

Antes de sair, virou-se para as cinzas de Vincent:

— Era eu ou você, Diácono. – abaixando a cabeça chorou. — Mas eu escolhi por ela.

Saindo silenciosamente, o misterioso homem terminou ali o seu trabalho.

 

Antes de se retirar completamente do aposento, o assassino parou diante da porta e ficou alguns segundos pensativo. Ele levantou a cabeça, e como se tivesse fazendo uns cálculos matemáticos, ele buscou em seu bolso aquilo que trouxe Erick até a aquele lugar: o Dado multifacetado que o assassino anda deixando nos locais de seus crimes. Depois de jogar o dado no meio de toda aquela bagunça, o assassino enfim foi embora.

— Então é só procurar o dado aqui no apartamento! – comentou Nick.

— Não… a Policia do Arcanorum fez a limpa nesse apartamento. Levou tudo, inclusive os móveis. E como hoje estou afastado do Arcanorum, será impossível recuperar esse dado.

— Mas pelo menos poderemos ver que dado é!

— Mas não será o mesmo dado! Mesmo sem digitais, por ele estar usando luvas, é regra de todo perito ter a peça do crime original e não uma equivalente.

— Mas não temos como recuperar o dado original. Veja, é um D6!

— Você quer dizer: um dado de seis faces?

— Sim.

— Afinal de contas… o que esse cara quer nos dizer com esses dados?!?

 

 

To be continued…