Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio XLVI

A Mácula do Demônio

 

 

 

 

Sábado, 24 de Junho de 2028. 18h00min.

Barrier Gardens Pier.

Londres – Inglaterra.

 

Ele havia tentado entrar na barca antes que pudessem pegá-lo. Mas seu perseguidor era bem mais rápido e sagaz. Entre a grande quantidade de civis que se moviam feito formigas até a embarcação, lá estava ele, vestido de terno preto e seus óculos escuros Ray-ban. O agente estava camuflado e protegido entre os civis. Seu alvo estava sem ter para onde fugir. Desesperado, o homem perseguido avançou contra os civis e rumou às pressas até o estaleiro que ficava vizinho a estação das barcas.

Depois de alguns poucos minutos correndo, ele se certificou de que não estava sendo seguido e se escondeu entre os becos onde ficavam os compartimentos de carga dos navios. Londres estava mais fria que o normal naquele início de noite, e para um homem comum que havia acabado de correr, o sensação térmica era ainda maior. Buscando uma caneta de marcar CDs, ele desenhou uma estranha runa na palma de sua mão esquerda, fechando as mãos logo em seguida. Depois de uma breve concentração, o homem soprou dentro de suas mãos em formato de concha e tal feito ativou um ritual mágico que serviu para esquentar o seu corpo.

— Deveria ter continuado a fugir. – disse o homem de preto estando a poucos metros dele.

Desesperado, o homem quase caiu pra trás e tentou novamente fugir, mas desta vez o agente iluminado havia se cansado desse jogo de gato e rato. Um poderoso raio laranja-fogo atravessou um das pernas do fugitivo, dilacerando seu joelho e aleijando-o imediatamente.

Depois de seu amargo grito de dor, o mago olhou para trás e percebeu que o agente iluminado estava armado. Ele riria da arma do agente se não tivesse sido a mesma que lhe arrancara a perna. Literalmente ela parecia uma máquina de barbear comum, porém seus três discos metálicos estavam vermelhos como se tivessem acabado de sair de uma fornalha deixando claro que tinham acabado de serem usados.

— Por que está nos perseguindo???

— Vocês possuem informações de que preciso. Se cooperar, prometo que não terá o mesmo destino de sua namorada. – intimidou o agente que ao sair das sombras retirou os óculos revelando sua identidade: Matthew Ferris.

— Filha da Puta!!! Você matou a Keithy!?!

— E você será o próximo se não começar a abrir a boca.

— O que você quer saber?!?

— Você é um dos infelizes que estavam na festa da Jupiter’s Corp meses atrás. Há também relatos que você cooperava aqui em Londres com um grupo de seguidores das trevas que atuavam em Lancaster. Em resumo: Quero que me conte tudo que sabe sobre o que está acontecendo de verdade no prédio da Jupiter’s Corp.

— Você é um homem de preto! Deve saber melhor do que eu!

A sobrancelha direita de Matthew se ergueu e nesse mesmo instante um dedo era decepado da mão do inimigo por sua arma laser.

— Eu não estou pra brincadeira. Fala logo ou meu próximo alvo será a sua testa.

— Aaahh… Argh… Eu… juro que não sei de nada! Sei pouca coisa… Nunca tive autorização para entrar nas internas do prédio.

— Grampeei uma de suas conversas com sua namorada. Nelas você revelava informações sobre lobisomens e criaturas abissais.

— Como assim grampeou?!? Eu nunca conversei com minha namorada sobre isso sem ser pessoalmente!!!

— Mas noite passada, quando vocês foram fazer sexo, você deixou seu celular em stand-by perto da cama. Suficientemente perto pra escutar cada gemido seu e sua broxada na primeira tentativa.

Agora sim o mago infernalista estava intimidado. Aquele agente realmente sabia muito mais do que ele suspeitava e certamente enrolá-lo lhe levaria a morte certa! Mas sem que ele soubesse, Matthew que havia acabado de por os óculos novamente, estava lendo cada um de seus pensamentos mais superficiais.

— Você está certo. Se me enrolar seus miolos irão lavar esta calçada de vermelho.

— Você pode ler a minha mente?

— Posso fazer bem mais do que imagina! E então, vai cooperar? Ou prefere perder a outra perna?

— E-eu… - o infernalista fechou os olhos e naquele instante se lembrou de seus superiores. – Vai pro inferno! Pode me matar. Eu não tenho nada pra te contar!

Frisando os olhos, Matthew então não viu outra alternativa a não ser fazer o que ele queria. Clicando um segundo botão que havia em sua arma de lasers uma pequena tela de cristal surgiu na parte superior mostrando comandos simples que poderiam ser executados. Com um simples toque no símbolo “+”, Matthew aumentou a potência de seu laser até o limite máximo. Nesse momento o computador interno da arma lhe alertou:

<<Potência de Lasers proibida. Por favor, diminua a carga.>>

— Código de Liberação: “Ferris-20-23-07-04”

<<Permissão Concedida. Comandante Matthew Ferris. O Comandante está ciente das leis de utilização de hipertecnologia?>>

— Perfeitamente.

Em seguida, a telinha se fechou e Matthew ficou encarando o olhar de assustado de seu interrogado que não entendeu nado do que aconteceu.

— Irei explicar. Essas armas de laser são uma obra-prima da hiper-tecnologia dos Iluminados. Entretanto, existe um limite para serem usados. Usá-los em sua potencia máxima acarreta uma das mais gravíssimas transgressões das leis de Direitos Humanos. Uma baboseira se é o que quer saber. Mas, você quer saber por que é proibido usar essa arma em potencia máxima? Se eu atirar em você com esta arma agora não apenas você irá inevitavelmente morrer, como seu corpo irá se desfazer lentamente numa dor e agonia tão grandes que, nos breves minutos que estiver vivo, você irá desejar morrer logo. Nem o Inferno irá lhe proporcionar tamanha dor como este laser será capaz de fazer.

“Ele não apenas irá queimar os seus órgãos, carne, e ossos, ele também irá amplificar a dor em seu cérebro dando a sensação tão terrível que pra você, esses minutos irão durar uma eternidade. Nunca ficamos sabendo sobre a potencia máxima que essas armas eram capazes até alguns testes serem realizados. E acredite: Deus tenha piedade dos cientistas que criaram esta arma, pois nem em um milhão de reencarnações eles irão pagar pela vida inocente dos animais que serviram de cobaias. Irei perguntar novamente e desta vez espero ter uma resposta, pois eu te garanto que a morte não será uma escolha nada agradável. O que você sabe sobre a Jupiter’s Corp?!”

Se antes Matthew havia conseguido fazer aquele homem de mais de trinta anos se tremer de medo, agora ele se urinava nas calças. Ele nunca tinha encontrado antes um Homem de Preto, mas as histórias que rondavam eram todas absurdamente aterrorizantes! Dizem que eles na verdade fazem magia e que seus aparelhos tecnológicos não passam de artefatos mágicos, porém poucos foram capazes de voltarem vivos de uma batida iluminada, e dos que voltaram suas psiques estão tão abaladas que era melhor eles estarem mortos.

O aparelho de Matthew chegava a zumbir e vibrar de tão energizado que estava.

— C-certo! Eu conto… O prédio na verdade é uma Torre do Pesadelo. Devida a grande concentração de energia primordial no local oriunda de outros Planos, nosso Mestre das Trevas está concentrando seu poder para trazer o terror de volta a Londres.

— “O terror de volta”? De quem você está falando?

— Infelizmente, nem nós os membros da cabala sabemos sua verdadeira identidade. Apenas nos dirigimos a ele como “Lorde”.

— Sua cabala já possui uma alcunha?

— Somos os Seguidores da Estrela-Rubra

— Hm. Bem criativos. É só isso?

— Sim.

— Não. Você acabou de pensar em algo que evitou me contar. Quem são esses seus líderes?

— Os maiores Grão-Mestres das sociedades das trevas estão se reunindo na Torre do Pesadelo. E, caso você não saiba, um dos maiores mestres de nossa cabala, é um Iluminado.

— Como é?

— Hahahaha!!! Fico surpreso por você estar tão fora d’água dos assuntos de sua própria sociedade! Hwahahahaha!!!

— Então é isso. Têm magos, lobisomens, vampiros e Iluminados trabalhando para uma entidade das trevas conhecida apenas como “Lorde”.

— Exato. Satisfeito agora? Se pensa que poderá fazer ou impedir alguma coisa pode ir desistindo. Esse seu barbeador pode ser poderoso, mas as criaturas que estão reunidas na Jupiter’s Corp. São tão superiores a vocês que não há nada que se possa fazer agora! Londres está perdida!!! - O Infernalista terminou a frase com um olhar tão insano e deturpado que chegou a dar calafrios em Matthew.

Tais palavras lhe fizeram lembrar o que aconteceu cinco anos atrás em Oxford…

— “Não há nada que se possa fazer”? - Matthew baixou a cabeça e a arma e por um instante ficou calmo com relação à situação. Ele agora precisa racionalizar direito e tinha muita coisa ainda pra fazer. Era inevitável uma próxima reunião da Sociedade de Prometeu. Olhando para seu relógio, o agente apertou um botão e em seguida passou uma mensagem direta a todos os seus oficiais da Sociedade:

— Reunião hoje na Base. Estejam todos presentes.

Imediatamente vieram as respostas:

<— Afirmativo.>

<— Sim, senhor.>

<— ‘Tá, certo!>

— Ferris desliga.

Respirando aliviado agora, mesmo aleijado, o infernalista percebeu que a integridade daquele agente era grande e que ele ia cumprir com sua palavra em deixá-lo vivo. Só restava saber como ele iria deixá-lo ali, se esvaindo em sangue sem uma perna e dois dedos…

— Bem… vou indo. – disse Matthew com a voz pausada. — Mas… só mais uma coisa…

O tiro na velocidade da luz atravessou o crânio do infernalista no meio fazendo espirrar sangue arterial por todo parte. Matthew estava tão radicalmente mudado que não demonstrara qualquer tipo de reação ao fazer aquilo – “Era um servo das trevas, merecia morrer”, pensou. Aumentando novamente a carga de sua arma, elevou até 90% onde poderia pulverizar o corpo por completo deixando apenas sangue e algumas cinzas pros peritos forenses quebrarem a cabeça tentando decifrar – Uma tarefa impossível, para os meios mundanos.

Novamente outro tiro e não sobrara mais nada daquele mago. Guardado a arma novamente em seu coldre, Matthew percebeu uma bela paisagem. Mesmo em meio a densa neblina que veio do mar e se instalou na cidade, a luz da lua iluminava as águas do Tamisa dando um cristalino quase surreal. Um cenário azul e preto que banhava a alma manchada de sangue deste Agente Iluminado.

“Está na hora de trabalhar.”

 

*****

 

Base Secreta da Sociedade de Prometeu. 18h30min.

 

— Veja. Aqui está o resultado de DNA do sangue encontrado no local do crime onde Philox foi assassinado. – entregou Keira a papelada de exames nas mãos de seu marido James.

— Você já leu?

— Já. Mas leia você também.

James achou todo aquele suspense muito estranho, mas mesmo assim fez o que sua noiva lhe pedira. E claro que ele ia ler mesmo sem ela pedir, afinal a ansiedade já lhe matava aos poucos.

— Hm… Resultados, Hemograma, Hemácias… Hemoglobinas… Leucócitos… Bastões… Hmmm… Hum-rum… Certo, cheguei. Resultado Final de DNA… Desconhecido? – Com a sobrancelha erguida, James buscou as respostas com sua mulher: — Como assim: “Desconhecido”?

— James… O computador só pode mostrar resultados com base nos dados que ele conhece. Ele não pode dar um parecer sobre aquilo que ele desconhece.

— Você está dizendo que o sangue do assassino é de origem desconhecida?

— E por que o espanto?

— Você é a doutora aqui, me explique.

— Certo. Com certeza o Banco de Dados dos Iluminados é um dos maiores do mundo! Não apenas temos os dados da maioria dos seres que habitam nosso mundo, como também podemos identificá-los com precisão quase cirúrgica suas identidades. Por exemplo, como quase metade dos seres humanos de alguma forma já fizeram algum tipo de inscrição cadastral, doou sangue, tomou vacina, fez exames, nós temos os dados exatos de todas essas pessoas. E numa cidade cosmopolita e moderna como Londres, temos exatamente os dados de todos os habitantes desta cidade, sejam ingleses ou não. Se por um acaso esse assassino fosse um homem comum, e veja que incluo nesta categoria não apenas os Mundanos, como também os habitantes do Mundo das Trevas, nós saberíamos não apenas o seu nome, como também seu endereço atualizado, CPF, ID, genealogia, família, se é casado, tem filhos, etc. Mas, pelo que podemos ver nos resultados, descartamos 99,9% dos habitantes da cidade.

— Então… Quem são os outros 0,1%?

— Os Sobrenaturais.

— O que?!? Então todo esse teste, horas de pesquisa, só pra saber o que nós já desconfiávamos: que o assassino é na verdade um Ser Sobrenatural?!?

— Infelizmente.

— Mas espere… Isso inclui também os Místicos, como o Sr. VonBranagh?

— Inclui. Mesmo os magos mais poderosos e imortais da cidade, eles continuam sendo seres humanos normais, com hemoglobinas e leucócitos iguais a de uma pessoa normal. A diferença é o “Fator X” que os faz ser diferentes, como por exemplo, a imortalidade de nosso Diácono e também a Paranormalidade de Nick Polansk.

— Fiquei sabendo que agora ele é um Mago.

— Esquece! Uma vez Psíquico, sempre Psíquico!

— Mas, amor… Eu ainda quero entender… Mesmo com tantos avanços tecnológicos e a Hiper-Tecnologia a nossa disposição, você quer dizer pra mim que não temos os dados dos seres sobrenaturais?

— Bebê… Já demorou décadas conseguirmos decifrar o genoma humano, você acha que vai ser rápido descobrirmos o genoma de outras raças tão fantásticas e bizarras que existem? Veja os vampiros por exemplo… Mesmo eles tendo sua origem nos seres humanos, quando se transformam em vampiros se tornam criaturas totalmente diferentes, no ponto de vista genético. Afinal, desde quando sangue é fonte de energia?!? Claro que, por enquanto, a única explicação que temos para as propriedades sanguíneas dos vampiros é que sejam fatores místicos, mas você sabe tal afirmação não convence um cientista de verdade!

“Então, tal como o sangue dos vampiros se transforma em algo totalmente diferente e desconhecido para nós, o mesmo vale para o sangue de outras criaturas como os Demônios e os Celestinos. Existe em nosso universo uma infinidade tão grande dessas criaturas que se tornou um desafio enorme catalogá-los e pesquisá-los! Os seus colegas da Frota do Hiper-Espaço que o digam!”

— Mesmo sendo uma mesma facção, sou de uma divisão diferente da Frota.

— Eu sei disso! Você é Biólogo, faz parte da Divisão de Pesquisa e História Natural da Terra. Mas até você há de convir que ainda falta muito pra “sabermos tudo”.

— É verdade. Então voltamos à estaca zero.

— Nem tanto. Veja pelo lado positivo: reduzimos as possibilidades para 0,1%!

— Sim, Keira… Mas 0,1% de 11 Milhões de habitantes dá milhares de suspeitos!

— Mas milhares é melhor do que milhões! Ou centenas de milhares, se contarmos os humanos do mundo sobrenatural.

— Certo… Desses milhares, vamos subdividir os grupos. Em Londres, quais as criaturas sobrenaturais que residem na cidade?

— Vejamos… Temos os Vampiros, os Lobisomens…

— Os anjos. Os Demônios.

— Hmm… pelo que me lembro essas são as principais. Os Draconianos contam?

— Em Londres só temos o Phill e a Léia como meio-dragões.

De repente, uma terceira pessoa se juntou ao casal:

— Opa! Escutei meu nome?!

— Sim, estamos falando de você. Na verdade, indiretamente falando. – respondeu James.

— Phill, você já fez um exame para entrar nos Iluminados, não foi?

— Sim, fiz.

— Então o computador tem os dados específicos de sua hemograma e seu DNA, certo?

— Errado. – encostando-se na mesa Phillipp cruzou as pernas e respondeu com um sorriso: — Esqueceram que nos Iluminados só se admitem seres humanos? Meus testes foram alterados pelo Supervisor.

— É verdade… Então, não temos sua genealogia no Banco de Dados.

— Sim. Mas, por que essa pergunta agora, Keira? Aconteceu alguma coisa?

— Phill, acabou de sair o resultado do exame de DNA do sangue encontrado no local do assassinato de Spark.

— Sério?!? E ai? Quem é o filho da mãe?!?

— Não sabemos. – respondeu James entregando a papelada para Phillipp. – Os resultados deram como “desconhecido” o DNA do assassino.

— Isso quer dizer então que o nosso assassino é um ser sobrenatural!

— E você também sabe que nosso Banco de Dados não possui informações sobre seres sobrenaturais?

— Claro, James! Sou um Engenheiro da Hiper-Tecnologia! Já tinha uma certa suspeita com esse resultado. Só esperava que, se fosse um membro das inúmeras sociedades secretas que fazem parte do Arcanorum, teríamos uma margem de 90% de chances de descobrir o assassino, vide que a maioria são humanos normais. Mas parece que o resultado caiu nos 0,1566% da população londrina.

— Pois é. Parece que você ‘tá mais a par da situação do que eu. – comentou James.

— Agora entendo seus questionamentos, Keira. Você quer fazer um exame com meu sangue e comparar manualmente com as amostras do assassino.

— É só pra descartar 100% qualquer tipo de suspeita contra você.

— Tudo bem! – esticando o braço, Phillipp arregaçou a manga de seu blusão. — Pode coletar!

 

— DEIXEM DE BABAQUICE!!!

 

O berro de Matthew ecoou tão alto na base subterrânea que por alguns segundos ainda dava pra escutar sua voz ao longe.

— Que idiotice é essa de testar o sangue do Phill?!? Ele não é o assassino!!!

— Mas não é isso, Matt… - tentou explicar James. – Estamos querendo apenas eliminar qualquer suspeita, mesmo que seja de um amigo nosso!

— Isso é um desrespeito contra nossa confiança no Phill!!!

— Tudo bem, Matt… Eu estou me oferecendo a fazer o exame. – respondeu Phillipp tentado contornar a situação.

— Phill, isso não está certo! Você é nosso amigo, nós nunca iríamos desconfiar de você!

— Mas nós não estamos desconfiando! – comentou Keira.

— Olha só que está falando sobre “amizade”. – ironizou James. – Cadê aquele “Matthew” do cemitério que disse: “suspeito é suspeito mesmo que seja um amigo”?!?

Matthew, ao contrário do que todos pensaram, não respondeu na ponta da língua a crítica de James. Pelo contrário, baixou a cabeça e buscou um copo d’água. Observando criteriosamente os sinais e sintomas de Matt, Keira chegou à conclusão do que estava acontecendo: abstinência farmacológica. Um dos maiores efeitos colaterais da Supra-trimetilxantina, ou como era conhecida entre os técnicos iluminados: “Café Expresso Plus”, era a irritabilidade, o estresse contínuo, e a falta de discernimento lógico depois que o efeito some. Além disso, o remédio tem altas probabilidades de dependência química. Não era a toa que ele foi proibido de ser distribuído, mas mesmo assim existem “lotes ilegais” rolando solto até mesmo dentro da poderosa Illuminatti.

Depois de beber sua água, Matthew fez uma declaração que, mesmo em tom baixo e soturno, deixou todos ali presentes chocados:

— Danyael Kimble não é o assassino.

— O quê?!? Como assim??? – replicou James. – Por que está com essa certeza agora?

Sem responder, Matthew abriu uma gaveta metálica da escrivaninha onde ficava um dos computadores do laboratório e dali retirou um pequeno maço de folhas. Eram um resultado de exames iguais as que estavam na mão de Phillipp. Matthew entregou a papelada nas mãos de James e o mandou ler.

— Isto daqui é… um exame de DNA. Um exame de comparação. A Amostra principal é o sangue do assassino… a amostra de comparação é… “Kimble, Danyael”? Resultado… Negativo. O que é isso, Matthew? Como você conseguiu fazer isso?

— Isso é o que você vê. Keira está certa. Podemos não ter decifrado os códigos genéticos da maioria dos seres sobrenaturais, porém… podemos no mínimo fazer comparações com a amostra que temos, e foi o que eu fiz esta manhã assim que vi os resultados do exame. Eu já esperava que o nosso computador desse o resultado como “desconhecido”.

— Mas… Como você conseguiu amostras de DNA do Danyael? – questionou Keira.

— Arranquei da cabeça dele. Naquela discussão que tivemos no cemitério… Eu puxei os cabelos dele e trouxe comigo as amostras.

— Você armou aquela discussão pra conseguir amostras de DNA??? – perguntou James já se mostrando incrédulo com as atitudes de Matthew.

— Em partes… inicialmente não vou mentir que agi por impulso emocional. Aquilo que falei pro Danyael no início eram apenas desabafos, mas… quando as coisas esquentaram e ele me pegou pelo colarinho, comecei a raciocinar direito… a lembrar que Danyael é… ou foi, meu amigo e que… realmente eu podia estar exagerando. Mas para isso, eu precisaria ter 100% de certeza. Agora não restam dúvidas. O Danyael não é o assassino.

— E é por isso mesmo que você tem que deixar eu também fazer o exame, Matthew. – disse Phillipp pousando a mão no ombro do amigo. — Suas atitudes no fundo são nobres e eu fico muitíssimo grato em tê-lo como meu melhor amigo. Da mesma forma que você quis ter certeza de que não era o Danyael o assassino, me dê essa chance de te provar também.

— Mas você não precisa me provar nada, Phill!

— Por favor.

Sem pestanejar, Matthew deixou que sua equipe trabalhasse. Phillipp voltou a esticar a manga de seu blusão e Keira logo se prontificou em buscar a amostra com a seringa. Levando a amostra até a máquina que iria fazer os testes, Keira buscou uma lamínula de microscopia virgem e outra lamínula no qual havia a amostra do sangue do assassino.

Quando estava realizando seu trabalho, de repente Keira fez um comentário estranha que chamou a atenção dos amigos:

— Que estranho…

— O que foi, amor? – perguntou James.

— Não é nada. Acho que estou ficando cansada. Vamos terminar logo com isso…

Deixando a maquina trabalhar na análise do sangue de Phillipp, o grupo se reuniu na mesa de reuniões e enfim James questionou aquilo que todos ali estavam se questionando momentos atrás:

— Sim, Matt… Qual é a urgência pra você ter marcado uma reunião hoje? Se esqueceu da vigília da Jupiter’s Corp junto com os lobisomens de Philox?

— Não. Não me esqueci. E é justamente sobre isso que quero falar.

 

*****

 

Casa de Retiro St. Edwiges. 18h30min.

 

— Não é um pouco tarde para entrarmos em uma casa de repouso? – questionou Nick que acompanhava Erick enquanto caminhavam pelos corredores da Casa de Retiro. – Principalmente à noite, em nossa atual situação?

— Eu sei. Mas eu preciso fazer é isso. É minha mãe.

— Está certo.

[Soundtrack: On More Day – Eisley]

Erick então parou diante da porta de número 197. Bem devagar o investigador foi abrindo lentamente a porta do dormitório. Mesmo sendo uma porta de madeira antiga, ela não rangeu ou fez qualquer barulho. Nick estava no fundo sentindo-se apreensivo. O cenário era tão escuro e sombrio que por alguns momentos dava a impressão de ser mal-assombrado. Entretanto, era na confiança de Erick em andar por ali que Nick mantinha-se calmo.

Na cama, deitada em grossos edredons, estava a mãe de Erick. Ela sofria do terrível Mal de Alzheimer e atualmente metade de sua memória já estava comprometida, restando apenas as lembranças de seu único filho, Erick.

Buscando a mão de sua mãe, Erick a chamou:

— Mãe? Sou eu, Erick.

— Erick, querido… Que bom te ver! Veio me visitar?

— Sim, mamãe. As enfermeiras do hospital disseram que você estava tendo problemas… que chamava por mim…

— Sim, sim… Mas… Quem é o bonito rapaz que brilha em cor pura?

Nick não entendera, mas Erick se prontificou a responder:

— Ela enxerga auras, Nick. Por isso não se preocupe, se ela te elogiou é por que gostou de você.

— C-certo. Eu me chamo Nicholas Polansk. É um prazer conhecê-la, Sra. Russell.

— Ooh, meu querido! O prazer é meu! Adoro conhecer pessoas com o coração ao puro quanto o de meu filho.

— Sim, mãe. Nick é um rapaz de bom coração.

— Hoje fez um lindo dia. Deu pra sentir a brisa do verão trazendo os olores das flores do campo. Mesmo estando tão longe, eu o senti aqui perto de mim. Sempre presente. A criança que correu pelo gramado trazendo a alegria do viver em seus olhos. Um dia tão lindo… Sem dor, sem magoas, sem rancor, sem ódio, sem vingança… Apenas o calor do sol revivendo nossas almas e esperanças. É muito triste viver longe do sol. Principalmente aquele que opção e não por obrigação. Meu filho… por favor… saia desta escuridão!

— O que foi, mãe? Por que a aflição?

— Filho… meu menino… - sua voz se perdeu em suas memórias esburacadas pela doença. Quando retornou, já tinha perdido a linha de raciocínio anterior: —Você fez aquilo que eu te pedi?

— O que, mamãe?

— Você parou de querer completar o quebra-cabeça?

Erick então se lembrou. Ela mencionava um momento de meses atrás quando ele veio visitá-la momentos depois de chegar da base militar do ártico, horas antes do evento no metrô de Southwark. Infelizmente, depois de todos esses meses e após os últimos acontecimentos ele entendera perfeitamente o que ela havia lhe pedido:

— Sim, mãe. Eu parei com o quebra-cabeças.

— Aaaah… que bom, meu filho. Eu tenho tido sonhos estranhos de novo… Filho, por favor… Eu só tenho você nesse mundo. Eu quero ver você casado, me dando netos, e sendo um dos maiores oficiais que a Scotland Yard já tivera.

Mesmo com um aperto no coração e na consciência por saber que quase 90% dos desejos de sua mãe serão quase impossíveis de se cumprir, Erick continuou a dizer aquilo que sua mãe gostaria de ouvir naquele momento:

— Sim, mamãe. Logo-logo tudo isso irá acontecer! Bom, mamãe… vejo que senhora está bem e em segurança. Vou deixá-la descansar. Eu volto aqui amanhã pela manhã, está bem?

— Tudo bem meu filho. – esboçando um sorriso tenro ao filho, a senhora Russell relaxou entre as cobertas e foi dormir.

Quando se retiraram do quarto, Nick pode perceber claramente que o amigo estava mais abalado do que o normal. Pousando a mão sobre seu ombro, Nick tentou consolá-lo:

— Pode desabafar comigo se quiser.

— Valeu, Nick. Mas não é nada.

— Se não é nada, por que está com essa cara de quem está prestes a chorar?

— Sabe… é que é muito duro ter que mentir pra uma pessoa que só não se esqueceu de você porque o coração não deixou.

— Eu… entendo.

Removendo de seu olho a lágrima solitária que tentou inutilmente gritar a dor que ele sentia por dentro, Erick continuou em frente. Ao mesmo tempo em que suas lembranças vagavam por sua infância, Erick sentia a dor das feridas deixadas por ter sido separado de sua mãe antes de completar 11 anos devido a doença. Foi difícil para ele viver em um lar onde seu pai não existia como pai, sempre amarrado em mulheres e bebida, e mesmo depois de adulto teve que procurar nos outros referenciais como amizade, respeito, atenção, carinho, companheirismo e amor verdadeiro. Referenciais estes que para muitos podem ser banais, mas pra quem nunca os teve pareciam tão indecifráveis quanto um quebra-cabeças.

Ele tinha a chance de voltar atrás naquele instante. De tentar refazer sua vida, de construir de novo tudo aquilo que ele havia perdido, mas… ele não podia deixar tudo para trás agora. Não agora. Não quando toda a confiança de seus amigos e mentores estavam depositadas nele. Ele precisava seguir em frente, em detrimento do que seu coração quisesse.

[]

 

*****

 

Base Secreta da Sociedade de Prometeu. 19h00min.

 

— Você acreditariam na possibilidade do assassino de anciões tenha um mandante? – questionou Matthew.

— Mas é claro! – confirmou Phillipp. – Esse sempre foi nossa principal suspeita, desde o assassinato de Vincent Vaugh! Tanto é que na época começamos a chamar esse possível mandante de “Rei Negro” depois do e-mail enigmático que James redigiu para o Sebastian West.

— Sim, mas até agora nada fizemos pra constatar esse fato.

— É claro. – respondeu James. – Nada foi feito, porque simplesmente estava impossível realizar qualquer tipo de investigação até que Spark e você retornassem dos Estados Unidos e criassem esta Base! Eram dias muito complicados para nós que tínhamos que manter o sigilo absoluto.

— Mas… - com um olhar sagaz e o dedo indicador levantado, Matthew interrompeu: — As coisas mudaram!

— O que tem em mente, Matt? – questionou Keira.

— Não tenho nada em mente, Keira. Ainda! O que tenho são provas! Vejam esse mapa da cidade em 3D. - Clicando uma tecla na tela touch-screen camuflada na mesa de mogno Matthew executou um arquivo que estava trabalhando: — Computador, carregar arquivo “Matthew_Jupiter01”.

Seguindo a ordem, uma luz verde esmeralda surgiu no centro da mesa e esta tomou a forma do centro comercial e financeiro de Londres, onde exatamente ficava o prédio onde era sede da Jupiter’s Corp.

— O que nós sabemos até agora: Toda a área ao redor do prédio está sofrendo uma forte perturbação sobrenatural o qual está atraindo diversos seres das trevas, tais como vampiros, lobisomens, bruxos, aparições e poltergeists. Nas diversas inspeções que Spark e eu fizemos, podíamos constatar que muitas dessas criaturas não faziam parte do Conselho do Arcanorum e muitos eram criminosos procurados. Era evidente que algum tipo de culto ou seita estava sendo formada naquele local, entretanto o que mais intrigava eram seus propósitos.

“Desde daquele dia que fomos quase mortos por lobisomens das trevas, Spark e Eu vínhamos tentando encontrar todos e quaisquer vestígios de atividades sobrenaturais na região que tivessem alguma ligação com a Júpiter. Infelizmente, ou nós dois fomos incompetentes demais ou apenas não havia nada para se encontrar. Sim colegas, pode parecer incrível, mas nosso então inimigo chamado “Jupiter’s Corp” nada fez de mal para a sociedade, a moral e os bons costumes.”

“Claro que Spark e eu não ficamos satisfeitos com isso, afinal nós é que estávamos designados na investigação da corporação e seu possível envolvimento com os Mandarins, principalmente quando Tawnee, Nick, Sebastian e o detetive Russell foram vítimas de suas ciladas. E, finalmente, depois de três meses, finalmente descobri a verdadeira razão desses merdas estarem se reunindo naquele prédio. Observem o mapa. Computador, comandos “Matthew_Jupiter01.1”

Novamente o computador atendeu as ordens de Matthew e assim, sobre o mapa holográfico de Londres foi sobreposto diversas linhas azuis que mais pareciam o mapa do metrô.

— Computador, reduzir zoom do mapa para 50%. 40%. 30%. – nesse momento a visão do mapa sobre a mesa era a milhas de distancia da cidade. — Hehe! Exagerei! Aumentar zoom em… 43%. Está ótimo! O que vocês vêem?

Sobre a cidade de Londres, agora vista por completo, o grupo pode enxergar perfeitamente as diversas linhas azuis sobre o mapa que formavam juntas quando se cruzavam diversas formas geométricas, como triângulos, trapezóides, quadrados…

— São as Linhas de Ley. – comentou James. — As linhas de Energia Primordial da Terra.

— Exatamente, pequeno Jim! Agora, prestem atenção numa coisa curiosa que descobri… Computador, destacar os pontos D24, E36, G48, H17, H33, I24, K9, K39, M24, N33, O17, P48, Q36, e R24. - Nesse instante, como pequenos brilhos surgiram entre as centenas de linhas, entretanto elas pareciam ter certo tipo de padrão entre elas. Tal suspeita se confirmou no próximo comando de Matthew: — Computador, agora interligue todos os pontos.

O queixo de todos foi parar no chão. Como num truque mágico, as Linhas de Ley, justamente nos pontos onde elas se cruzavam, formaram figuras poligonais gigantes que ficavam sobrepostos inteiramente a cidade de Londres. A maior figura era um Pentágono, que simplesmente tinha dentro de si toda a cidade, inclusive seus distritos. Dentro dele, em cada um de seus ângulos, saíam outros cinco raios que formavam perfeitamente um Pentagrama, que se não bastasse, havia outro pentagrama de cabeça para baixo sobreposto ao anterior.

— O Pentágono maior, como podem observar, engloba toda a região metropolitana de Londres. Mas, se observamos melhor, veremos que existe outro Pentágono dentro do Pentagrama maior. E, por sua vez, existem outras linhas de Ley cruzando seu interior formando mais dois Pentagramas menores. Esses pentagramas menores ficam justamente ficam exatamente sobre a região central de Londres. Vocês sabem o que são esses pontos de encruzilhada de Linhas de Ley, não sabem?

— São Nodos. - respondeu James. – Centros de grande poder de Energia Primordial.

— Correto novamente. Mas, há de se convir que, numa cidade com milhares de anos como Londres, a maioria desses Nodos já possuem seus próprios donos. Vejam:

Clicando em um botão, Matthew fez surgir diversos balões de informações sobre cada um dos pontos e neles haviam endereços e informações detalhadas sobre a localidade. Eram todos residências ou sede das grandes sociedade secretas de Londres, incluindo a sede do Arcanorum que ficava estrategicamente no centro do macro-pentágono. Nem todos eram sedes de cabalas, eram também residências ou construções do patrimônio histórico da cidade, como a Biblioteca Britânica e a London Tower. Entretanto, era de conhecimento de todos ali que, a maioria dessas construções tinha como regente algum dos maiores Grão-Mestres da sociedade sobrenatural.

— Sim, Matt… Mas o que isso tem haver com a Jupiter’s Corp? – questionou Phillipp.

— Essa também foi meu questionamento, meu caro amigo, até que recentemente eu trouxe o seguinte resultado de minha última inspeção no local: lá também é uma concentração de Energia Primordial.

— Impossível… - disse James. – De acordo com este mapa, nenhuma Linha de Ley passa pelo prédio da Júpiter.

— Olhe direito. Repare no pentagrama menor que fica de cabeça para baixo. Computador… Elimine todas as Linhas de  Ley do mapa exceto as do quarto pentagrama.

E mais uma vez o queixo de todos caiu. Era evidente que o quarto pentagrama tinha em um de seus cruzamentos o prédio da Júpiter’s Corp.

— Mas mesmo assim, Matt… Se ali é um nodo, por que então ninguém nunca tomou posse dele? – questionou Keira.

— Por que ali nunca foi um Nodo. Não nos tempos antigos.

— Estamos todos boiando se você não explicar, Matt.

— Irei explicar, Phill. Vocês certamente acreditam em Dimensões e Linhas de Tempo Paralelas, não é? James?

— Eu sei que minha escola nos Iluminados é a casa da Ciência Dimensional, mas eu faço parte dos que ficam com os pés no chão.

— Mas, mesmo assim, todo sabem que em nosso universo o Tempo e o Espaço são fatores bastantes relativos.

— Sim…

— E se eu dissesse pra vocês que, o tempo atual que vivemos na verdade é um tempo alterado? Uma linha de tempo alternativa que foi modificada por terceiros?

— Sim, mas até aí tudo bem, afinal de que adianta ficar pensando em linhas de tempo alternativas se nós não a vivemos?

— Eu sei, mas escutem. A exatos 25 anos atrás um grande evento abalou esta cidade.

— 25 anos atrás? Mas…

— Tenha calma. Deixe-me concluir. Como eu ia dizendo, um evento catastrófico abalou a cidade, tão pior quando foi em Oxford. Um mago satânico, que hoje sabemos que ele é um vampiro de linhagem diferente, juntamente com sua poderosa Cabala, atacou abertamente a cidade de Londres, escravizando toda a população e transformando a cidade num dos cenários de Resident Evil.

“Após isolar a cidade do resto do mundo graças a enorme domo mágico e revelar escancaradamente pro mundo inteiro a existência do mundo sobrenatural, ele resolveu por em prática seu terrível plano ambicioso: transformar a Terra num segundo Inferno. Com a ajuda dos poderes infernais que ele dominava tão bem, ele aproveitou das energias Primordiais negativas que circulavam por esse pequeno Pentagrama, conjurou diretamente do Inferno cinco construções heréticas, conhecidas como Torre dos Pesadelos, e criou o maior ritual satânico já visto no mundo!”

“Ele pretendia, além de querer dominar o mundo, calcinar a terra, destruir a natureza, apagar a luz do sol… Ele sem dúvida era um louco… Mas um louco muito poderoso. Seu nome era Voormas. Ele é considerado no “rank” do Arcanorum como um dos seres mais poderosos da Inglaterra, perdendo apenas para o Sr. VonBranagh.”

— Peraí… Ok que tudo isso tenha acontecido, mas o Prof. VonBranagh não fez nada? – questionou James.

— Acredito que ele tenha tentado, mas dificilmente ele o mataria.

— Por quê?

— Por que Voormas é seu filho. – alguns segundos de silencio e Matthew continuou. – Entretanto, pra hoje não estarmos vivendo em um mundo pós-apocalíptico é por que algo aconteceu. E põe “algo” nisso! Parece que um ser com poderes quase-divinos interferiu no destino de nossas vidas e, por sua vez, alterou o espaço-tempo, fazendo tudo voltar como era antes. Voormas? Foi detido muito antes de tentar fazer qualquer coisa! Até hoje ninguém sabe a identidade desse Ser divino. A única coisa que sabemos é que possivelmente ele seja um anjo. Talvez um Arcanjo, como o Arcanjo Miguel. Mas isso são só suposições.

— Sim, Matthew, mas e o que isso tem haver?

— Tem haver que, depois de várias pesquisas utilizando nossos conhecimentos tecnológicos sobre a Ciência-Dimencional, eu consegui descobri que existe uma linha de tempo alternativa paralela a nossa, no qual esse tal anjo nunca apareceu para nos ajudar. É um mundo pós-apocalíptico, como é de se imaginar e do pouco que pude observar através da Janela Dimensional, o tal Voormas talvez tenha sido detido, mas o mundo de hoje é totalmente diferente: humanos e seres sobrenaturais caminham juntos, entretanto numa verdadeira guerrilha sangrenta, numa mistura de X-Men com o Exterminador do Futuro!

— Então você está dizendo que, provavelmente, sem ter nada certo, uma guilda de seres das trevas está tentando refazer o que o tal Voormas fez em 2003? – concluiu James.

— Ou pior, galera. Eles já podem ter conseguido, só que agora estão sendo mais sutis e cautelosos. Alguns dos membros que eu andei interrogando andou falando de “Lorde Negro”, “Seguidores da Estrela-Rubra”, etc. Acredito que, como o tal ser divino voltou no tempo e impediu os planos de Voormas de se quer começaram, talvez sua ambição, hoje em nosso tempo, nunca tenha desaparecido!

— E se por um acaso ele for o mandante dos assassinatos? – questionou Phillipp.

— Isso é uma das alternativas mais viáveis, Phill! Andei considerando as suposições e cheguei a conclusão que, mesmo ainda preso em Black Hill, ele pode estar muito bem coordenando esses assassinatos para algum tipo de plano maléfico.

— Você fala dele como se estivesse falando do Darth Vader! – comentou James.

— Mas é isso mesmo! Já foi definido o psique desse sujeito! Ele é tão alouprado e perturbado quanto o Anakin Skywalker! Ele é simplesmente o Agente da Destruição. Ele só pensa em matar, pilhar e destruir! Bem no estilo dos inimigos de Jack Bauer!

— E então? O que devemos fazer, Comandante Ferris? – questionou Phillipp num tom de seriedade e respeito.

— Bem… sinceramente não irei negar que os riscos de uma missão dessas são praticamente suicidas, porém…

— Porém nós fizemos o juramente de Servir à Humanidade e lutar contra as forças externas que tentam destruir o nosso mundo. – respondeu Keira na ponta da língua.

— Mas…

— Matt… Nós entendemos a sua preocupação, mas além de não deixarmos você ir sozinho nessa, você não perdeu esse tempo todo falando tudo isso pra nada! Você, no fundo, quer a nossa ajuda!

— Sim, mas… Eu tenho medo. Nem eu tenho mais certeza se vou aceitar esta missão. Depois do que aconteceu com Spark… eu… eu não quero perder outro amigo!

— Você não vai nos perder, Matt! – sorriu James. – Estamos aqui, não estamos? E sempre estaremos! Mesmo que os riscos sejam grandes, nossa amizade, nosso espírito jovem e, principalmente, nossa confiança um no outro é o que nos fará fortes para enfrentar qualquer tipo de ameaça e obstáculos. Vamos lá, Comandante. Dê a ordem! Estamos aqui pra te ajudar!

Olhando seus três e únicos amigos, sua verdadeira família, diante dele, Matthew não teve como não resistir. Respirando fundo, ele tomou a postura ereta e ordenou com sua voz firme e grave a ordem que todos esperavam:

— Senhores! Como membros da Sociedade de Prometeu, uma divisão dos Iluminados, vocês tem uma nova missão! Vocês devem invadir o prédio da Jupiter’s Corporation e chutar todos os traseiros demoníacos que virem pela frente!!!

Com um sorriso eles concordaram em coro:

— Sim, senhor!

 

“[Teste Concluído]”

 

— É o computador do exame de Phill!! – exclamou Keira já se apressando até o laboratório.

— Vamos lá ver se eu sou o Assassino de Anciões! – ironizou Phillipp.

— Eu tenho minhas suspeitas, Phill! Essa cara de Menina da Escócia nunca me enganou! Sempre achei que você tinha um lado obscuro! – tirou Matthew com a cara de Phillipp.

— Com certeza é obscuro! Mas é suuuuuper popular! – brincou Phill imitando uma bixa.

Ao chegarem ao laboratório, Keira já os esperava com um sorriso:

— Negativo!

— Que droga! Tava doido pra ter um motivo pra encher alguém de porrada!

— Hã! Te enxerga, Matt! Você nunca ganhará de mim! Já são 8 disputas e 8 vitórias minhas!

— Há-há-há! Deixe eu te pegar na próxima! Você nem vai ver de onde vem a bordoada!

— Vem garotão!

— É… Pois é galera! – interrompeu James. – Chega de brincadeiras e vamos trabalhar!!!

 

*****

[Soundtrack: Dangerous Places – Vampire Bloodlines soundtrack]

 

Mansão Nottingham. 20h00min.

 

Sebastian finalmente havia chegado ao local. Sua pesquisa sobre o passado de Anne Hanover, sua procriadora, o levara até esta mansão abandonada que ficava fora do centro urbano da cidade. Nos diários que ele encontrara no antigo aposento da Princesa no castelo de Buckingham havia diversos relatos da princesa, ainda em seus tempos mortais, sobre esta mansão. Sebastian não encontrou nenhuma ligação real da vampiresa com este lugar, mas sabia que, já que ele é do tempo em que sua criadora era humana, seria ali onde começaria suas buscas.

Outro fator importante era a menção de um nome em quase todas as páginas do diário de Hanover. Observando novamente o diário, Sebastian releu o nome: “Anna Nottingham”. Obviamente ele percebeu que essa mulher era (ou foi) a dona desta mansão, que levava o mesmo nome, porém não havia menções também de sua ligação com a procriadora de Sebastian. A única coisa que se podia observar no diário era o evidente ódio que Anne Hanover nutria por esta tal Nottingham. De algum modo elas pareciam que se conheciam bem, pois em diversas passagens Hanover mencionava detalhes como “(…)Comemorando ser Senescal de uma sociedade medíocre… que hipócrita!”, “Agora está noiva de um bastardo… Com certeza nascerá outro bastardo!”, “Agora a vagabunda se tornou Grã-Mestra! Tudo isso graças a mim e eu nunca recebi um cartão-postal!”, “Seu filho agora se tornou um prodígio… mas anda com pessoas de nível inferior. Ele não nega o sangue-ruim que herdou do pai!”.

De qualquer modo, sua busca apenas havia começado.

Depois de pular pelo portão metálico que estava fortemente trancado, assim que pisou nos terrenos da mansão, Sebastian teve uma péssima sensação. O que antes poderia ter sido uma mansão riquíssima e suntuosa, hoje era um local abandonado e desolado no topo do pequeno cume. Sua visão remota aqueles castelos assombrados, com suas fundições mescladas ao solo parecendo feridas sobre a terra. A mata fechada já havia crescido horrores, e diversas árvores, que antes pareciam ser podadas, hoje exibem figuras tenebrosas de galhos secos e folhas sujas, lembrando garras demoníacas. Por entre as árvores o vento sopra uma melodia assombrosa que convidava a sua pretensa vítima para a entrada do Inferno.

Entrar na mansão não se mostrou muito fácil. Em seu portão principal, vigas de madeira foram postas a fim de deixar claro que não era permitida a entrada de invasores naquele local. Mas o portador da Dark Sword estava convicto em seus objetivos, e entraria naquele local mesmo que tivesse que arrombar aquela porta. Sacando sua poderosa espada, Sebastian fez um leve movimento entre as vigas e como manteiga, as cortou sem dificuldades. A entrada agora estava liberada.

Ao abrir lentamente o portão principal, novamente Sebastian teve aquela sensação incomoda passado pelo seu corpo. Era uma sensação estranha para ele em sua atual situação. Parecia que seus pelos se eriçavam, sua boca secava, e suas presas ficavam ainda maiores, sempre em estado de alerta. Ele não sabia o que o fazia ficar daquela forma, mas era algo muito perturbador.

Seguindo seus passos, um após outro, o jovem vampiro pode observar melhor o local. Lembrava em grande parte a mansão do atual Príncipe Thornham, onde havia um alto teor neogótico em sua arquitetura interna. Muita poeira, sujeira, teias de aranha e de sua infinidade de janelas, muitas estavam quebradas e fechadas fortemente com vigas de madeira.

Novamente aquela sensação perturbadora o incomodou novamente e desta vez veio seguida por uma voz macabra que parecia ter saído de um túmulo:

 

“Sssebaaassstiannn”

 

Um assobio alto e macabro do vento passando pelas frestas rasgou-lhe a alma. Então diversos olhos vermelhos surgiram na escuridão. Todos sedentos pelo sangue do intruso. Sons guturais agora ecoavam por toda a mansão. Passos ligeiros agora vinham até ele. Sebastian se preparou para o bote deixando-se tomar pela fúria vampírica em seu sangue.

O monstro das trevas saltou  contra Sebastian e a única coisa que o vampiro pode ver era as enormes garras e presas da criatura.

E seu sangue jorrando de suas feridas.

 

To be continued…