Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio XLVII

Laços de Família

 

 

 

 

Sábado, 24 de Junho de 2028. 20h10min.

Mansão Nottingham.

Londres – Inglaterra.

 

Seus movimentos de defesa e contra-ataque foram perfeitos, até mesmo para quem nunca havia lutado daquela forma na vida. Sebastian pela primeira vez se mostrava completamente dominado pelo seu lado mais bestial e vampírico. Cabelos levemente arrepiados. Punho serrado e enrijecido. Olhos vermelhos e vorazes, prontos para destrinchar o inimigo. Ele finalmente tinha sucumbido ao seu verdadeiro instinto e agora o usava para sobreviver.

O inimigo pulou pra cima na intenção de rasgá-lo com suas garras. Mas Sebastian havia sido bem mais rápido, serrou o punho e explodiu um poderoso soco na boca do estomago do adversário. Deu até pra escutar as vértebras se quebrando. Quando o inimigo caiu no chão, o Portador da Dark Sword pode então vê-lo com mais nitidez: era apenas um vampiro qualquer, entretanto este estava entregue totalmente a sua fúria bestial. Era como um cão raivoso, babando, de olhos pouco focados e irascíveis. Bem diferente dos outros vampiros que Sebastian se socializava.

E não era o único. Um breve olhar ao redor Sebastian percebeu que estava cercado. Eram muitos vampiros contra apenas um. Em situações normais, seria impossível sair dali ileso. Mas uma coisa despreocupava a mente de Sebastian:

“Sem problema. Eu tenho a Dark!”

Sacando sua belíssima espada rubra, Sebastian se preparou para o combate. “Com certeza não seria difícil passar por estes obstáculos”, pensou cheio de si. Mas logo sua coragem foi por terra quando viu alguém que lhe balançou as memórias. A Dark Sword até pesou em suas mãos e sua lâmina desceu lentamente a medida que ele foi assimilando aquela visão.

“Júnior…”

Era o irmão mais velho de Sebastian e este estava atrás dos vampiros observando-o. Saindo correndo para dentro da mansão, bem longe da vista de Sebastian, só lhe restou os vampiros raivosos para matar. Fazia tempo que ele queria saber o paradeiro de seu irmão. Alguns meses atrás ele foi enganado por um holograma feito pelos Mandarins, mas agora era diferente. Aquele era definitivamente o seu irmão. O que ele estava fazendo naquela mansão? E por que sumira por tanto tempo? Estava na hora de Sebastian tirar algumas questões a limpo e seria agora!

Novamente a lamina da Dark Sword se levantou. Com sua determinação em alta, Sebastian não se deteve em deixar uma trilha de sangue e cinzas pela mansão, enquanto corria ao encontro de seu irmão.

 

*****

 

Ilchesters Place. 20h13min.

 

— Você não vai pra casa de seu pai e ponto final, Lilith!!!

— Eu tenho que ir, Danyael!!! Meu pai pediu pra que eu fosse e eu tenho que ir! Devo isso a ele!

— Mas você não vai levar o nosso filho pro Inferno!

— Pare de falar assim!!! Eu não estou indo pro Inferno! Eu vou pra casa de meu pai, vê-lo!

— E a casa de seu pai fica aonde?!? Não vai!

— Eu vou querendo você ou não!

— Porra, Lilith!!! Deixa de ser teimosa!!! Você não sabe os riscos que está correndo indo pra lá?!?

— Que riscos, Danyael?!? Estarei na casa de meu pai, protegida pelo meu irmão… O que mais pode acontecer?!

— Lá não é lugar pra uma mulher grávida.

— Então é melhor se acostumar com a idéia de que tem uma esposa demônio, Danyael. Por que eu não posso ficar fazendo só as suas vontades a vida toda. – disse Lilith séria, sem tirar os olhos de seu namorado.

A discussão começou com apenas uma fagulha. Mas perto de uma pólvora que era esse assunto, rapidamente se tornou um explosivo alarmante. Danyael não queria discutir com Lilith devido a sua frágil situação psicológica, mas era inevitável não bater de frente com a teimosia de sua namorada. Ela conseguia superar de longe a sua irmã Stephanie.

— Você não entende que na verdade eu estou preocupado com a sua situação.

— Eu entendo a sua preocupação, Dany. E eu juro que estou imensamente agradecida. Mas eu não posso deixar de visitar o meu pai. Não agora quando ele mais precisa de mim. É só isso que eu peço pra você entender.

Um breve silêncio. Mas totalmente inútil. Danyael continuava tão cabeça-dura quanto antes. Para ele não havia necessidade de Lilith ter que ir ao Inferno visitar seu pai, o demônio Hades. Por mais que os laços familiares sejam importantes, o antigo deus grego não precisava tanto assim da ajuda de sua filha caçula, vide que ele tinha dois poderosos demônios que o apoiavam – os irmãos de Lilith.

— Mesmo que eu não aprove essa sua ida você irá mesmo assim?

— Sim, irei.

— Pois então vá! Faz o que você quiser! – Danyael terminou a discussão saindo do quarto com a cara mais amarrada que ele podia fazer e bateu a porta com força. Segundos depois ficou claro o som da porta de entrada do apartamento abrindo e fechando.

Lilith respirou fundo desanimada. Ela sabia que essa discussão ainda ia render muita dor de cabeça. Mas ela não tinha escolha. Seu pai precisava da ajuda dela agora e ela não podia ignorar o seu pedido.

 

*****

 

Penitenciária de Black Hill. 20h15min.

 

O lugar estava mais frio do que ele se lembrava. Mesmo após tantas visitas, somente agora ele conseguiu perceber alguns detalhes perturbadores desta penitenciária sobrenatural. Sua estrutura estava cada vez mais forte e cheia de selos arcanos, para evitar qualquer tipo de fuga. A sela de alguns presos estava tão coberta de círculos de magia que não havia mais nenhum espaço em branco na parede. Os guardas também eram um fator peculiar. Alguns eram magos humanos, pelo menos os de alto-comando. Mas grande parte dos seguranças era formada por aparições, almas penadas que devido a fraca película sobrenatural de Black Hill era possível a interação deles com o mundo real. E como Diácono ele tinha plena certeza que as aparições eram sem dúvida a melhor escolha para agentes penitenciários de uma prisão sobrenatural.

Ao chegar à sela que veio visitar, um dos guardas humanos lhe ofereceu uma cadeira para sentar e em seguida Eriol esperou que seu único filho estivesse disposto a conversar hoje. Pelo menos hoje, o dia de seu aniversário.

— Voormas?

As grades da sela pareciam ser feitas de ferro enferrujado, mas eram bem mais do que isso. Eram forjadas com Pedras Infernais extraídas das margens do Rio Aqueronte, o rio que cruza o Inferno. Sua resistência era incrivelmente singular, pois eram capazes de resistir a grandes impactos e não se desgastavam com o decorrer do tempo (ou dos milênios). Além disso, eram totalmente imunes a magia servindo perfeitamente como material essencial para as celas de Black Hill.

— Por que você vem aqui todo o mês? – questionou uma voz escondida entre as sombras da cela.

— Hoje é o seu aniversário. Não podia deixar de visitá-lo.

Levantando-se calmamente de sua cama, Voormas finalmente veio até Eriol saindo das sombras que lhe ocultavam. Ele estava bem mais velho do que seu pai se lembrava. Voormas era imortal através do vampirismo, entretanto ele não era necessariamente um vampiro. Há muitos séculos atrás Voormas fazia parte de um grupo de magos que buscavam com grande entusiasmo a imortalidade. E encontraram nos vampiros a chave desta busca. Voormas foi o primeiro. Através de rituais profanos conseguiu assimilar a imortalidade vampírica ao seu corpo humano. Porém, um alto preço era cobrado por tal ato: o consumo periódico de almas vampíricas.

Eriol, como Diácono do Conselho, obviamente não podia permitir que Voormas em seu cárcere realizasse tal ato desumano. Porém, por ser seu único filho, o mago tentou encontrar meios para contornar essa fraqueza de seu filho. Graças ao seu vasto conhecimento em magia e alquimia, Eriol enfim conseguiu descobrir uma fórmula de ajudar seu filho com meios mais genéricos, que não tinham a mesma eficácia, porém eram suficientes para manter Voormas vivo.

Se bem que “vivo” não era uma palavra muito adequada para a situação do antigo terrorista naquele momento. Seu corpo estava bem mais fraco e magro do que antigamente. Seus cabelos estavam bem grisalhos e com uma longa calvície. As roupas de presidiário já estavam carcomidas de tão velhas e usadas que estavam. Preso em uma sela tão fria quanto às noites de inverno rigoroso, com as paredes totalmente cobertas por encantos e círculos de magia, sua situação era tão decadente que era digno de pena.

— Conveniente. Porém, desnecessário. – respondeu Voormas buscando a cadeira de sua escrivaninha e sentando-se de frente para seu pai.

— Trouxe seu composto alquímico semestral. – disse Eriol buscando dentro de seu sobretudo sua varinha prateada. Uma relíquia única, entalhada em alto-relevo em ouro, um presente valioso dado a Eriol por uma entidade dos Reinos Supernos.

— Hmm… Seu presente de aniversário. Seu ato semestral de pena por minha vida. Sabe que irei morrer sem isso e que não irei negar esse seu ato de “generosidade”. – debochou Voormas mesmo sabendo que Eriol não se ofenderia com aquelas palavras.

— Tente uma vez na vida ter um pingo de gratidão pelo que faço por você.

— Gratidão?!? Você quer que eu seja grato por me manter preso nesta jaula dependente de sua… “generosidade semestral”?

— Você estaria morto nesse momento, Will. O Conselho havia declaro Pena de Morte pra você se eu não tivesse me entreposto.

— Não… me chame… por este… NOME!!!

Eriol ficou calado. Nunca foi sua intenção provocar o seu filho, porém… Era difícil para ele chamar o único filho que Deus lhe deu nesses séculos de vida pela alcunha que todos temiam e odiavam. Ele preferia ainda vê-lo como o garoto que cheio de energia e ambições que ele foi um dia.

Sem ainda falar nada, Eriol desenhou com sua varinha um selo de magia bem simples no chão da sela. Depois de terminado, Voormas se levantou da cadeira e ficou agachado. Colocou a mão esquerda sobre o selo. Em seguida, começou a absorver as energias que estavam ali armazenadas. Quando terminou, o selo havia desaparecido por completo.

Levantando-se, Voormas mal encarou seu pai. Parecia que olhá-lo fazia emergir algum tipo de sentimento que ele odiava. Voormas ainda se lembrava dos tempos que o admirava. Que fazia de tudo pra ser igual a ele. Para conhecê-lo melhor. Principalmente… ele se lembrava de seus irmãos. Sim, Voormas já teve irmãos. Também filhos Eriol. E tais lembranças ainda atormentam tanto o irmão quanto o pai daqueles que já faleceram a muitos e muitos anos atrás.

— Não gosto de me lembrar deste dia. Você sabe disso. Por que ainda insiste?

— Por que você é a única pessoa neste mundo que posso ainda chamar de meu filho. Mesmo depois de tudo que você fez no passado, eu não consigo guardar mágoas de você. Podem me chamar de teimoso. Podem me chamar de coração-mole. Mas ninguém sabe o que é viver 600 anos sem ter ninguém pra chamar de família. E por mais que você negue isso, não há como fugir. O sangue que corre em suas veias, também corre nas minhas. Eu sei que errei contigo… William. Sei que também errei com Sam e com o Roy. Sei que vocês me odiaram por anos. Mas… Eu juro que tentei fazer o melhor que eu pude. E também confesso os pecados que cometi contigo, seus irmãos e com a mãe de vocês.

Novamente outro instante de silêncio. Chegava a ser incomodo alguns instantes ficar um de frente pro outro e o único som entre eles ser os lamurias dos outros prisioneiros de Black Hill.

— Você já deve saber que ela voltou à vida, não é?

— Sim. Ela reencarnou.

— E você já se encontrou com ela?

— Eu a vejo todos os dias.

— Ela sabe que é…?

— Não. Não sabe. E se depender de mim, nem vai saber. Não posso fazer isso com a Srta. Sloane.

— Sloane? Esse é o nome da atual reencarnação de minha mãe?

— Sim. Michelle Sloane. Ela é a minha secretária e atualmente é a namorada de meu neto Flávius.

— Neto?

— Spinel teve um filho. Eu o considero como meu neto, vide que Spinel me considera como seu pai.

— Isso é ridículo! Ele é seu familiar. E não seu filho!

Eriol esboçou um leve sorriso. As palavras de Voormas soaram nítidas como ciúmes. Ele não aceitava que Spinel se considerasse mais filho de Eriol do que ele.

— Isso se chama “Laços Familiares”, Will. Spinel vive comigo há anos e possui um grande apego comigo, tal como tenho com ele. Não vejo porque não considerá-lo como meu filho.

— Hunf! Faça como quiser. Eu não ligo. Mas, continuando… Quando foi que você soube que minha mãe havia reencarnado? Eu sei que isso é um processo muito difícil de descobrir.

— É verdade. Eu tive foi sorte. Em 2023, durante a invasão dos demônios em Oxford, tive que conjurar um gigantesco ritual de exorcismo para mandar os demônios de volta pro inferno. Porém, havia um efeito colateral nisso.

— As almas dos mortais ficariam expostas durante o ritual, estou certo?

— Exatamente, meu filho.

— E como foi que você não assassinou todos os mortais desta forma? Que eu me lembre, tal experiência de se ver etéreo fora de seu corpo provoca morte induzida.

— Eu sei. Por isso, previamente, coloquei toda a população para dormir.

— Hmm. Bem criativo. Então foi assim que você a encontrou.

— Sim. Exatamente assim. Ela veio até mim no inicio. Fiquei chocado no inicio, tentei falar com ela, mas… meu tempo era curto. O Choque de Retorno era inevitável.

— E desta forma perdeu a sua imortalidade.

— Sim. Perdi. Perdi mas ganhei o que tanto procurei por toda a minha vida. Poder me reencontrar com a única mulher que amei em toda a minha vida.

— Não dá pra voltar atrás e concertar toda uma vida de erros.

— Mas dá pra continuar em frente e tentar uma vida de acertos.

Desta vez, escondido no meio das sombras de sua sela, Voormas teve seu gelo quebrado. Suas emoções vieram à tona e engolindo seco por pouco não conseguiu se conter.

— Acho que já está na hora.

— Você quer que eu vá?

— Sim. Eu quero.

Levantando-se de sua cadeira, Eriol não disse nada, apenas atendeu ao pedido de seu filho. Ele pensou que talvez tenha sido novamente um dia sem rendimentos, mas se equivocou:

— Pai…

— Sim, meu filho?

— Obrigado por ter vindo me ver.

Uma lágrima brotou insistente no olho de Eriol.

— Eu sempre irei vir te ver… meu filho.

Eriol se retirou. Novamente a solidão e o frio de Black Hill voltaram a fazer companhia a esse velho criminoso. Porém, desta vez. Num raríssimo momento pessoal, as lembranças dos tempos em que seu nome era Will lhe fazem uma boa companhia.

 

*****

 

Mansão Nottingham. 20h20min.

 

Após circular por quase toda a mansão, e ainda se perder algumas vezes, finalmente Sebastian chegou ao local onde estava o seu irmão. A porta de madeira maciça, que resistiu por vários anos intacta, era o seu único obstáculo. A trilha de sangue e corpos vampíricos era a prova de que o Portador da Dark Sword iria até o fim em sua jornada.

Sem tempos para delongas, Sebastian desceu o pé na porta colocando-a imediatamente abaixo revelando o largo aposento que ficava no terceiro andar da mansão. Seus olhos vagaram por todo o local. Ao que parecia, originalmente isto não era um salão. Por causa de algumas paredes derrubadas e diversas variações do piso, ficou claro que este era um andar divido em diversos cômodos. Porém o atual “arquiteto” resolveu fazer um salão de festas bem espaçoso.

Quinze passos à frente e logo o portão se fechou. O susto veio seguido de ansiedade. O que será que ele encontraria naquele lugar? E por que seu irmão estava andando junto com esses vampiros satanistas? Teria ele sido seqüestrado por eles? Será que ele está sofrendo? Sendo torturado?

— Bem vindo, meu irmãozinho.

A voz de seu irmão ecoou por todo aposento fantasmagoricamente. Isso não o assustou, mas chamou ainda mais a sua atenção.

— Júnior? É você? Onde você está?

— Eu estou aqui. Eu estou lá. Eu estou… em todos os lugares.

— O que você está dizendo?

— Sebastian… Abre los ojos…

Espanhol. Sebastian se lembrou que seu irmão mais velho sempre gostou de falar essa língua. Desde pequenos ele gostava de misturar frases em espanhol em suas falas.

— Veja mais claramente… Siente em su corazón…

— O que, Júnior? O que você quer que eu veja?

Foi então que, deixando de focar sua atenção na voz de seu irmão e prestando mais atenção ao seu redor, Sebastian começou a entender. As sombras do aposento estavam se movimentando independentes.

 

Las Sombras, Sebastian!

 

O ar foi cortado pelo estalo de um chicote. Sebastian ardeu de dor e derrubou a espada no chão. Quando tentou pegá-la, algo lhe segurou pelo calcanhar. As sombras agora tinham forma e consistência capazes de segurá-lo com força sobrenatural. E não se absteve em segurar apenas seu tornozelo. Em poucos segundos, tanto braços como as pernas de Sebastian estavam firmemente amarradas por sombras que agora o envolviam com força impedindo completamente seus movimentos, por menores que fossem.

Ele gritou. Fez seu sangue correr por cada vazo sangüíneo no intuito de aumentar a sua força de modo sobrenatural. Uma tentativa que serviu por alguns instantes para ele se mexer. Mas não foi o suficiente. As sombras aumentaram ainda mais a força exercida sobre ele e agora parecia que havia centenas de homens segurando Sebastian.

— Sebastian… Meu irmãozinho.

— Por que está fazendo isso comigo, Júnior?

Novamente as sombras do salão se contorceram. Rastejando pelo piso feito gosmas abissais, elas se fundiram e começaram a crescer. Em poucos instantes uma forma humanóide surgiu. Eis que surge Henrique West Júnior, o irmão de Sebastian.

— Estava com saudades?

— Solte-me e eu vou te mostrar a saudade.

— Qual é irmãozinho? Pretende atacar o seu único irmão?

— Você não é o meu irmão.

— Ah sou… Sou com certeza! Sangue de seu sangue. Filho de Henrique e Vitória West. Ou melhor dizendo… Eu era filho deste casal.

— Como assim “era”?

— Continua tão ingênuo quanto quando era mais novo. Não sabe o que sou hoje? Não sente em seu sangue… em seu ser… o que me tornei?

— Você… é um vampiro!

— Bingo! Já matou a primeira charada!

— Por que você se tornou um vampiro?!? Te forçaram a isso?!?

— Chegou exatamente no assunto que, sinceramente, fere os meus sentimentos.

Aproximando-se feito um fantasma deslizando sobre o solo, Henrique ficou olho-a-olho com Sebastian até que ele pudesse ver claramente os olhos mudados de irmão. E como estavam mudados! Eram cadavéricos e vermelhos de tão fundos. As pálpebras estavam inchadas, e seu globo ocular cheio de veias visíveis. Sua íris brilhava uma tonalidade rubra tão intensa que lembrava sangue. Definitivamente, mesmo o rosto sendo o mesmo, esse não era o seu irmão.

Não mais.

— Foi tudo por sua culpa, Sebastian.

— O que…?

— Você matou a nossa irmã. Você destruiu a nossa casa. Você… me transformou… NISTO!!!

A raiva de Henrique se fez viva na força das sombras que prendiam e esmagavam Sebastian. O rapaz gemeu de dor, mas logo se agüentou. Precisava saber toda a verdade.

— E-eu… não entendo…

— Você não entende? Pois eu irei explicar. Terei o imenso prazer de cravar essa culpa em você.

— Culpa?

— Tudo começou muito antes de você nascer. Muito antes de eu nascer, pra falar a verdade. Quando um jovem rapaz chamado Mark foi escolhido pelos seres supernos do Mundo Inferior para ser o mais novo Portador da grande Espada das Trevas. Ele seria o General do exército do submundo e estaria destinado a enfrentar o seu arquiinimigo, o Portador da Espada da Luz, até que ficasse definido o destino de nosso mundo.

“Entretanto, algo aconteceu no passado e as coisas não saíram do jeito que os deuses das trevas planejaram. Maldito Livre-Arbítrio! Mas, a profecia do Escolhido continuou viva, porém apenas mudou de endereço. Anos mais tarde, em uma gravidez totalmente inesperada e sem qualquer explicação, nossa mãe deu a luz a você, Sebastian. O futuro Portador da Dark Sword.”

“Ao contrário do que pensa, irmãozinho, a vida de nossa família não foi um mar de rosas. Pelo contrário. Por causa de seu nascimento todos nós começamos a sofrer conseqüências graves, e em poucos anos, tudo que havíamos construído havia virado cinzas. Você deve estar lembrado. Nosso pai perdera o emprego e mais tarde contraiu um câncer maligno. Nossa irmã, infeliz… Sem querer se meteu com alguns desconhecidos e estes a mataram abrindo espaço para a entrada de um demônio, que ficou tomando o seu lugar durante anos. Nossa mãe, coitada. Morreu anos mais tarde de infelicidade após saber a desgraça que afundou a família e por causa de quem tudo isso aconteceu. Você nunca se perguntou o que aconteceu com nossos avós e outros parentes?”

“Mortos. Todos mortos. Cada um que se aproximou de você logo teve um destino tão trágico e infeliz quanto um diretor de Premonição poderia imaginar! E eu… Parece que eu dei “sorte”. Graças a sede de poder e ambição dos vampiros, uma das seitas que era opositora dos vampiros do Arcanorum me caçou e me transformou em um vampiro forçadamente. E você acha que a minha transformação teve os requintes dos vampiros menininhas do Arcanorum? Minha transformação teve todos os requintes de crueldade e sadismo que se pode imaginar.”

“Primeiro fui levado até um cemitério bem distante da capital onde minha seita geralmente realiza seus rituais. E não pense que estava lá por que queria estar, como foi sua belíssima transformação no metrô – eu estava lá porque Dominaram a minha mente e me forçaram a estar lá. Depois de um pequeno joguinho de medo e terror, meia-dúzia de vampiros sugaram meu sangue incontrolavelmente e, é claro, em poucos minutos eu já estava morto. Foi então que o líder do bando derramou seu sangue em minha boca. A partir daí você já conhece o processo, não? Errou.”

“Além de agonizar por estar com meu corpo atrofiando e se transformando, eles me encheram de porrada com Pás de aço e depois que perdi a consciência fui jogado dentro de uma cova funda e enterrado… digamos, ‘semi-vivo’. Daí começou o verdadeiro Inferno.”

“Meu corpo estava em mutação. Eu agonizava. Eu gritava. Eu me contorcia. Ou melhor, queria fazer tudo isso. Mas quilos e mais quilos de terra estavam sobre mim e eu não tinha força alguma. Totalmente fraco e perdendo a cada segundo a minha sanidade. Segundos, que começaram se tornar horas. Horas, que viraram dias. E na minha mente… uma única noite parecia uma eternidade. Uma eternidade que destruiu por completo qualquer resquício de humanidade que eu tinha, até sobrar apenas aquilo que vocês, vampiros do Arcanorum chamam de… Instinto Bestial.”

“Sem raciocínio. Sem lógica. Sem razão. Sem emoção. Totalmente insano e descontrolado, entregue totalmente ao frenesi. Você já deve ter se sentido assim, não? Pois então duplique aquele seu descontrole e triplique a fome que eu estava sentindo. Sim… Tal insanidade e descontrole foram que me deram forças pra cavar terra a cima até eu renascer novamente de uma cova que, mais tarde descobri, foi feita especialmente para mim, com meu nome gravado na lápide e tudo. Desde aquele dia o Henrique que você conheceu morreu. E hoje eu faço parte da seita mais poderosa e genuinamente vampírica. Eu sou um Demônio, vestido de vampiro. Eu sou um Orlock.”

— Júnior… eu… eu… me perdoe… eu não tive a…

— Intenção? Ah, sim. Teve sim, meu caro Sebastian. Quem é que grita pra quem quiser ouvir que “Tem a Dark Sword”. Quem é que se vangloria por ter sido o Escolhido pra ser o portador, e não fez qualquer objeção quando as entidades das trevas entraram em contato contigo. Ah, meu caro irmãozinho… No fundo, no fundo você não se arrepende em nada do que fez, mesmo sabendo que isso custou a vida de toda a sua família.

Lágrimas de sangue brotaram dos olhos de Sebastian. Sim, ele tinha razão. No fundo ele sabia que havia ocorrido uma desgraça em sua família, e que possivelmente isso teria sido sua culpa. Ele sabia disso desde a primeira vez que entrou em sua casa depois de sair da prisão. Depois de sentir aquela aura maligna no lugar. Mas, ele não se importou. Seguiu em frente e, como Henrique disse, sempre se vangloriou por ter a Dark Sword, a sua única coisa de valor. Até mesmo quando seus amigos e seu mentor Eriol o censuraram por ele ter decidido se transformar em vampiro, hoje ele não se arrependia de nada. Pelo contrário, estava até gostando do fato de ser um membro da Família Real.

Era verdade. A culpa era toda sua.

As sombras o soltaram letamente e Sebastian foi sendo largado no chão de joelhos completamente abatido e desalentado. Entregue as suas fraquezas, culpas e desgraças. Totalmente entregue nas mãos do inimigo. E este não tinha qualquer pena. Desembainhou sua espada longa de lâmina bem afiada e se preparou para dar o golpe de misericórdia.

— Eu poderia deixá-lo vivo e depois vê-lo ser destroçado completamente pelos meus senhores da seita. Entretanto, você um dia foi meu irmão e, pelo nosso laço familiar, lhe darei essa oportunidade de misericórdia, morrendo aqui em minhas mãos, sem dor ou sofrimento.

“Sabe, tem um fato irônico que me veio à mente agora. Nas semanas que se decorreram a minha transformação um de meus senhores havia dito para mim que minha transformação havia sido feita por sua causa. Eles queriam alguém de sua família para coagi-lo futuramente quando se tornar o Portador. Lembro-me perfeitamente de minhas palavras depois que fiquei sabendo disso: ‘Por um acaso sou o Guardião de meu irmão? ’. Só agora eu entendo o que levou Caim matar seu irmão Abel.”

A lâmina desceu feroz. O sangue rapidamente lavou o piso de vermelho. Sem seguida, algo pesado caiu no chão e saiu rolando pelo piso. Não demorou muito e aquele corpo entrou em combustão, tornando-se cinzas.

 

*****

 

Terceiro Círculo do Inferno. Hora Indefinida.

 

A viagem foi bastante segura para Lilith, mesmo em suas condições. Ela evitou passar pelos lugares mais assombrosos do Terceiro Círculo, parando perto do castelo de seu pai. Claro que, sabendo de sua gravidez, seu irmão mais velho ficou prontamente esperando por ela para que nada de mal lhe acontecesse.

Entretanto, ao contrário do que Tânatos esperava, seu reencontro com sua irmã foi bastante carregado de emoções. Sinceramente ele se espantou que estivesse com tantas saudades de sua “pequenininha”.

Lilith!

— Tânatos!!!

Ela queria muito ter pulado no pescoço de seu irmão e ficado ali pendurada como sempre fez, porém suas condições lhe impossibilitavam. Um abraço bem longo foi o suficiente. Tânatos era aquele cuidava da alma dos mortos nos tempos mitológicos. Sua altura ultrapassava os dois metros e tinha uma postura bem imperiosa. Seus longos cabelos eram lisos e bem negros contrastando com a pele pálida, porém sem sinal de fraqueza. Pelo contrário, tinha um corpo bem robusto, que era escondido pela bata preta que usava.

Como está a minha pequenininha?

— Estou ótima! E você? Parece que continua o mesmo tesão de sempre!

Ao contrário do que pensas, seu irmão aqui anda bem pior do que aparenta.

— Como assim?

Estou fraco. Estou perdendo meus poderes. Mas, minha situação não é nada se comparada a de nosso pai.

— Papai?!? O que tem ele?!? Esse é o motivo de vocês terem me chamado?! Tânatos, o que está acontecendo?!?

Calma. Irei levá-la agora para vê-lo. Lá você terá todas as suas perguntas respondidas.

 

A visão não foi nada agradável. A pessoa que ela mais amava nesse mundo, que lhe educou e a transformou na mulher forte que era hoje, estava completamente abatido, digno de pena, naquele trono imperial. Hades não era mais aquele deus poderoso e forte que um dia foi. Parecia que da noite para o dia o grande Deus do Tártaro havia envelhecido uns 100 anos, e agora estava esquálido, cheio de pelancas, sem forças até pra se levantar. Lilith estava prestes a chorar.

— Papai.

— Lilith… Minha linda filhinha.

— Papai, eu estou aqui. Diga-me… o que aconteceu?

— Lilith… - a voz de Hades agora vagava sem qualquer rumo. – Como está o meu neto?

— Ele está bem, meu pai. Ele ainda não nasceu. Estou cuidando dele.

— E-ele… precisa ser… batizado. Coroado como meu… sucessor.

— Não papai… não fale uma coisa dessas! Você ainda vai viver bastante para ver seu neto adulto!

Infelizmente Lilith não obteve uma resposta. Seu pai caíra no sono e talvez fosse demorar pra acordar. Beijando a sua mão, Lilith se levantou e foi até onde Tânatos estava. Ela limpou as lágrimas, recompôs a postura e em seguida foi levada pelo seu irmão até o salão de jantar onde os servos do castelo haviam preparado um delicioso jantar para a convidada.

Mas Lilith estava sem fome. Ela queria antes de mais nada saber o que estava acontecendo.

Isso é por causa das mudanças que estão ocorrendo aqui no Inferno.

— Que mudanças?

Danyael nunca te contou que a Roda dos Seis Mundos está girando?

— Sim, contou. Mas eu não sabia que isso ia afetar o nosso pai.

E não afetaria na teoria, entretanto… Parece que as coisas andam bem mudadas aqui embaixo.

— Como assim?

O Inferno agora parece que tem um novo líder. Com a ajuda de antigos e poderosos Anjos Caídos ele depôs o Terceiro dos Três, Belzebu. Em seguida, tomou posse do Quinto, Sexto e Sétimo Círculos, conseguindo aumentar significativamente o número de demônios que lhe apoiavam. Correm boatos de que seu próximo alvo é o Segundo dos Três: Lúcifer. Então… devido a essas mudanças o poder das almas e do poder espiritual que alimentava o Terceiro Círculo começou a enfraquecer, atingindo assim diretamente o nosso pai. E a mim também, só que em menor escala.

— E esse novo soberano do Inferno… Ele pretende depor o nosso pai também?

Não, Lilith. É de conhecimento de todos a fraqueza de nosso pai. Será uma questão de tempo até que o Terceiro Círculo fique sem um senhor e que eu seja morto quando suas tropas vierem invadir.

— Tânatos… - a simples menção da morte de seu irmão fez Lilith tremer. – Não há nada que possamos fazer?

Sinceramente? A meu ver, não. Eu só a chamei aqui, pois eu queria que você tivesse a chance de ainda nos ver vivos e que nunca mais volte pro Inferno.

— COMO É?!? Você está querendo que eu dê as costas para minha família, enquanto ela é morta e nossas terras invadidas por um déspota?!?

Lilith, eu não estou lhe pedindo isso. Estou lhe ordenando. Nosso irmão Hipnos, que não possui ligações com Inferno, está encarregado de cuidar de você e de nosso sobrinho para que nada de mal lhes aconteça. Não estou pedindo para nos abandonar. Só não queremos que participe desse nosso problema. Nosso Pai e eu te amamos tanto que queremos que você viva eternamente, longe desses problemas. Mesmo que esteja do lado dos Anjos da Cidade de Prata, pelo menos você estará protegida pelo Portador da Light Sword. Não íamos querer mais do que isso.

— O que você está falando… - Lilith não cosneguiu suportar as lágrimas. – Você fala como se já estivesse morto… Tânatos… eu não quero que você morra!

Mas será inevitável, minha pequenininha. Sou o guardião do Terceiro Círculo. Para invadir este local eles sabem que terão que me enfrentar. E mesmo ainda tendo grande parte de meus poderes, não tenho como competir contra dezenas de milhares de Anjos Caídos e Demônios milenares que estão sob comando desse novo Imperador do Inferno.

— Afinal de contas… Quem é esse novo Imperador?!?

Talvez você não o conheça, mas… ele era pra ter sido o verdadeiro Portador da Dark Sword anos atrás. Ele viveu sua vida toda aqui no Inferno e foi criado e educado por ninguém menos que Azazel, o anjo caído que ocasionou a guerra de Oxford em 2023. Hoje ele possui tanto poder que seu nome ecoa por todo Inferno gerando grande terror e medo em seus habitantes. Ele se chama, Mark Nottingham.

 

 

To be continued…