Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio XLVIII

Assalto à Júpiter´s Corp.

 

 

 

 

[Soundtrack: You Shook Me All Night Long – AC/DC]

 

“Diário de Missão, data atual: Vigésimo quarto dia de Junho. Ano: 2028. Finalmente chega o dia de nosso assalto contra a Jupiter’s Corp. Nesta missão estão comigo o Tenente-Comandante James T. Donovani, encarregado de monitorar todos os aspectos científicos da missão e o Tenente Phillipp O’Connor, nosso Chefe de Segurança que tem em suas obrigações a responsabilidade tática de nossa missão. Monitorando a nossa missão da Base, está a Tenente Keira N. P. Donovani”.

“Três Lobisomens, aliados ao falecido Philox, também estão conosco nessa empreitada. São eles: Rocky, Slayer, e Arthur. Nesta missão a ajuda dos três é imprescindível, vide o teor da dificuldade quase mortal de nosso desafio”.

“Tudo começou quando nosso Supervisor descobriu indícios de que uma empresa-fachada dos Iluminados estivesse sendo controlada por seres demoníacos. Na época, apenas o falecido agente Comandante Alfred Washington II e eu fomos designados para a tarefa. Tal foi nossa surpresa quando esbarramos com Lobisomens da Tribo dos Nefandos – tipos de Lobisomens corrompidos pelas Trevas. Havia apenas um indício de tribos nefândicas nas Ilhas: no condado de Lancaster, onde o próprio Portador da Light Sword se encarregou de eliminá-los. Como esses lobisomens trabalham fielmente as Forças das Trevas e seus únicos propósitos são a total aniquilação de toda a Vida deste planeta. Eles não nos deixam outra opção a não ser eliminá-los. Bad Guys/Good Guys: simples assim”.

“Entretanto, eles continuam sendo Lobisomens. Da última vez, por pouco o Agente Washington e eu não saímos com vida desse prédio. Desta vez estamos bem mais preparados, usando toda a Hiper-tecnologia que a União Iluminada pode nos oferecer. Passamos as últimas semanas treinando arduamente em salas de simulação holográfica. Além disso, viemos armados com pistolas de tiro laser 32x; uniformes com tecido ultra-resistente, capaz de resistir até um tiro à queima-roupa; lentes de contato com visores espectrais, nivelados para revelar todos os tipos de espectrogramas que possam surgir, PHDA’s (Personal Hiper-Digital Assistents) de última geração; e Comunicadores Moleculares, para mantermos contato mesmo se nossos inimigos nos pegarem”.

“Nosso esquema tático é aparentemente simples, porém exige uma precisão profissional na forma que será aplicado. Como não podemos entrar pela frente, nem muito menos queremos arriscar ir pelos esgotos – previamente confirmados que estão fortemente protegidos, resolvemos atacar por cima. Entretanto não podíamos ir de helicóptero, então a única alternativa viável foi aceitar a sugestão de nosso Chefe de Segurança: usar Jatos de Propulsão Pessoais. Uma das iguarias das corridas clandestinas, usamos esses jatos para chegar até o topo da Jupiter’s Corp.,  para depois invadirmos. Mesmo com o terrível medo de altura que alguns de nossos membros tiveram (principalmente nossos aliados lupinos) a chegada foi um sucesso”.

“Estamos agora nos preparando para a invasão propriamente dita. Iremos nos dividir em dois grupos de três: Phillipp, Arthur e eu iremos pelas escadas do lado sul. James, Rocky e Slayer irão pelas escadas sociais no centro do prédio. O plano é nos encontrarmos na entrada da galeria de esgotos que nos levará até o covil desses seres nefandos. Tenho total confiança em minha equipe, mas mesmo assim eu desejo que Deus esteja conosco nessa nossa missão”.

“Ass.: Cmdt. Matthew Stephen Ferris”.

[]

 

Sábado, 24 de Junho de 2028. 22h58min.

Sede da Jupiter’s Corp.

Londres – Inglaterra.

 

<— Matt. Estou dentro.> - comunicou James pelo radio.

<— O.k. Lembre-se de nosso plano: sejam rápidos! Se pegarem qualquer lupino pela frente podem matá-lo!>

<— É… sabe que não sou muito adepto ao lance de “matar”, mas acredito que meus companheiros irão me ajudar!>

<— Certo. Matt desliga.>

A equipe do Comandante Ferris caminhava a passos largos pelos corredores da cobertura até onde ficavam as escadarias do lado sul. O lobisomem que os acompanhava, Arthur, também estava armado, porém levava um tipo diferente de adaga que, de acordo com ele, era bem poderosa e tão eficaz contra seus primos nefandos quanto as armas futurísticas dos agentes iluminados.

Enquanto corria, Phillipp constantemente mexia em um aparelho que lembrava um PalmTop, porém com funções tão avançadas, que somente o agente iluminado entendia. Era um PHDA, um “Assistente Hiper-Digital Pessoal” que servia como um computador portátil, porém com tecnologia de 100 anos na frente da atual. Foi mexendo nesse aparelho que algo chamou a atenção do Chefe de Segurança:

— Matt.

— Diz.

— Estou captando leituras peculiares no vigésimo andar.

— Que tipo de leituras?

— Padrões humanóides, senhor. São pessoas.

— Estranho. Pleno sábado, tarde da noite. Não era pra ter nenhum civil neste prédio a não ser os seguranças!

— Não são civis, Matt. São…

<— James para Matthew.>

A voz de James era apenas escutada por aqueles que estavam com os comunicadores implantados (no caso, todo o grupo avançado). Para se comunicar, precisava apenas falar.

— Matt na escuta. O que foi James?

<— Temos visitas inesperadas no prédio, Matt.>

— “Leituras Peculiares” no PHDA?

<— Sim, senhor!>

Matthew imediatamente olhou para Phillipp esperando a resposta:

— São Místicos, senhor. E pelo scan de longo-alcance já identifiquei suas identidades.

— Quem são?

— Os Grão-Mestres do Arcanorum, senhor.

Se o comandante da Sociedade de Prometeu já estava diminuindo o passo por causa do chamado de seus oficiais, agora ele parou completamente na escada. Matthew estava completamente estático com o cérebro à mil. Eles haviam planejado isso a semanas, revisaram todos os tipos possíveis de variáveis, porém eles nunca esperavam que haveria uma reunião secreta de grão-mestres nessa noite. E como poderiam imaginar? As reuniões do Arcanorum são de cunho altamente secreto, impossível de se prever. A todo instante Matthew se perguntava: “O que o Spark faria numa situação dessas?”.

— Arthur, espere. – chamou Matthew.

O lobisomem, que estava na frente do grupo, parou. Arthur era um lobisomem bem diferente dos demais. Usava roupas bem casuais e vivia no centro urbano, diferente da maioria de seus irmãos. Também diferente dos outros lobisomens, Arthur só se transformava em um Lobisomem propriamente dito quando necessário, do contrário preferia ficar na forma humana.

— Phill.

— Sim, Matt.

— Refaça o scanner. Quero saber exatamente quem são nossos convidados inesperados.

— Certo. – foram necessários apenas alguns segundos para que Phill atendesse a ordem de seu amigo. – Pronto. São exatamente 5 pessoas. Abraham Wernek, Ludmilla Reevers, Luna Moraes, Richard Connery, e… - antes de dizer o último nome, Phillipp fitou os olhos de Matthew apreensivo: - Dorje Washington.

O espanto de Matthew foi imediato. Seus amigos também partilharam da mesma preocupação.

— O Almirante está aqui?!

— A análise confirmou que sim.

— Merda! Isso pode por tudo a perder!

O lobisomem Arthur, já impaciente, intrometeu-se na conversa:

— O que está acontecendo?! Por que paramos?

— Calma, chapa. O que está acontecendo é simples: Nosso chefe está no prédio e possivelmente nosso assalto pode estar comprometido.

— Espere… Você tinha me falado que seu foi o seu chefe que ordenou isso!

— Sim. Foi meu chefe que ordenou isso. Mas não estou me referindo a ele. Estou me referindo ao Chefe de meu Chefe! Esse sim não ‘tá’ sabendo de nada! Ei… espere um instante… James, você está na linha?

<— Pode falar.>

— O Connery não é seu Grão-Mestre? Você e a Keira não sabiam dessa reunião?

<— Sim e não. Sim, nós sabíamos da reunião, porém, não sabíamos nem quando ou onde ela seria!>

Assim que James terminou de falar, uma quarta voz se intrometeu na conversa. Monitorando toda a missão da base secreta, Keira queria expressar sua opinião, que já vinha levantando a algum tempo:

<— Meninos, eu estou com um mau-pressentimento quanto a esse lugar. Eu recomendaria que vocês saíssem daí o quanto antes!>

— Calma, Keira. Não vamos nos precipitar. – disse Matthew mantendo a postura calma. – Keira, tem como você fazer uma varredura de satélite no perímetro do prédio?

<— Tem como sim. Qual raio de cobertura?>

— Uns quatro quarteirões está bom.

<— Certo. Irei demorar só alguns instantes.>

— Estamos aguardando.

Mesmo não demonstrando, a cabeça de Matthew estava uma pilha. Ele não parava de pensar nas probabilidades que tudo isso poderia causar. Poderia ser apenas um nervosismo generalizado, mas não algo a ser ignorado. Keira alertou seu mal-pressentimento antes sobre essa reunião. E se ela estiver certa?

O lobisomem estava inquieto. E não era pra menos. Ver os agentes Iluminados entrando em contato era frustrante, pois você apenas escutava uma parte da conversa: as vozes daqueles que estão próximos. Era como se eles conversassem telepaticamente.

— Afinal de contas, o que está acontecendo?!? – questionou Arthur.

— Tenha calma, brother. – respondeu Phillipp. — Deixe apenas nossa tenente lá da base conseguir umas informações para nós.

— Que informações? Não está tudo planejado? O que irá influenciar a presença desses grão-mestres?

— Simples, meu caro. Estamos tendo uma forte desconfiança de que o próximo ataque do assassino de anciões hoje. E aqui!

— Como é?!? Você está me dizendo que o filho da puta que matou o meu Ancião provavelmente esteja aqui hoje?!?

— Não estou afirmando nada. Apenas falei que estamos “desconfiando”. Não é certeza. Deixe-nos analisar primeiro a situação pra depois saber o que iremos fazer.

— Isso é um absurdo! É lógico que ele irá atacar hoje! Só um cego não pensaria nisso! Se ele quer acabar com todos os anciões do Arcanorum, essa reunião é um prato cheio! Não podemos ficar aqui parados!

— Já chega!!! – exclamou Matthew. — Arthur, nós agradecemos sua preocupação, mas eu peço em nome da alma de Philox que vocês se acalmem e deixe-nos trabalhar. Não irá demorar pra tomarmos uma decisão.

<— Matt? Terminei com a varredura.>

— Excelente. Pode repassar os resultados.

<— Acredito que você já imaginou isso: 15 equipes da Policia do Arcanorum estão espalhadas pelo perímetro. Todas fortemente armadas. A barreira no subterrâneo da Júpiter continua ativa e impede nossos sensores de saber o que tem lá embaixo. Tem também dois vampiros na redondeza – um caminhando pelo quarteirão, provavelmente caçando e o outro dentro do prédio, parado no térreo.

— Vampiros? Aqui nessa área? Estranho…

— O que?!? Vampiros aqui?!? – exclamou Arthur sentindo seu sangue ferver. Era de conhecimento de todos a eterna guerra entre vampiros e lobisomens. Matthew se recriminou por ter falado em voz alta. Agora ele esperava que seu colega se acalmasse e não colocasse tudo a perder!

— Sim, mas tenha calma! Por favor, em nome de Philox, deixe-nos terminar nosso trabalho.

— Hunf…! – bufou o lobisomem indignado com a atitude do agente. Matthew era realmente esperto. Ele sabia que o nome do ancião ainda tinha um peso forte na consciência desses lupinos. A questão era: por quanto tempo isso ia durar?

<— Matt, os vampiros talvez não sejam problema. Tem algo de estranho acontecendo.>

— O que é, Keira?

<— Matt… Não há um único civil mundano num raio de 10 quarteirões!>

— Como é?!?

<— Não sei como explicar, mas os sensores não estão falhando. Não tem nenhuma assinatura não-sobrenatural nessa área. Até o trafico foi desviado. Sinceramente? Acho que isso é coisa do Arcanorum!>

— Com certeza! Eles estão preparados pra essa reunião e já imaginaram tudo aquilo que nós desconfiamos. O problema é: Cá estamos nós no meio de um ninho de monstros prestes a pegar fogo.

— E o que iremos fazer? Abortar a missão? – questionou Phillipp.

<— Seria a melhor opção.> - afirmou Keira.

Pensativo, Matthew se viu numa encruzilhada.

— Ok, pessoal. Opiniões.

<— Eu acho muito perigo vocês ficarem ai. Pelo menos hoje. Se já não bastasse ter que enfrentar uma horda de lobisomens nefandicos, agora podem se esbarrar com o Assassino de Anciões. Lembre-se: ele matou o Spark sem qualquer peso na consciência. Nada o impede de fazer o mesmo com vocês!> - explanou Keira a sua opinião.

— Eu concordo com a Keira. – disse Phillipp. – Essa missão pode esperar. O que irá acontecer hoje pode estar além de nossas capacidades! Eu voto por abortar a missão.

Matthew fez uma cara de que não gostava da idéia, porém seus amigos pareciam estar certos. Mas ainda faltava a opinião de James.

— E você, James? Vai concordar com a Keira?

<— Sabe… Infelizmente, pela primeira vez aqui na SdP, eu terei que discordar da Keira. Mas, minha discordância não está negando o pressentimento ruim de minha esposa. Pelo contrário! Por acreditar cegamente em seus pressentimentos, acho que devemos prosseguir! Estamos justamente no local onde o Assassino poderá atacar, e o melhor: Talvez ele não saiba de nossa presença aqui! O pegaremos de surpresa e conseguiremos enfim acabar com essa história que já vem se desenrolando há meses! Pessoal, nós estamos preparados pra tudo! Já entramos aqui sabendo que possivelmente não iremos voltar! Não podemos recuar. Não agora!>

Phillipp ficou pensativo com as palavras de James e por um instante começou a mudar de idéia. Entretanto Keira, mesmo acreditando nas palavras de seu marido, estava convicta que alguma coisa estava dando errado naquela missão. Matthew enfim se pronunciou. Independente da opinião de cada um

— Eu compreendo a preocupação de cada um. Infelizmente o Spark não está aqui para desempatar essa votação. Então, cabe a mim como oficial superior decidir. Keira, eu realmente entendo a sua preocupação, mas terei que concordar com o seu marido. Nós já viemos pra cá sabendo de todos os riscos, mesmo os imprevisíveis! Então, não será por causa de uma suspeita que iremos voltar. Entretanto, devo salientar que: também é de nossa preocupação a segurança desses anciões, principalmente do Almirante Washington, e que a captura do Assassino é, desde o inicio, nossa principal meta. Vocês sabem mais do que ninguém o quanto eu quero pegar o cretino que matou o Spark, então, repetindo novamente, concordo com James que nossa presença aqui poderá ser crucial nessa missão! Vocês estão de acordo?

Em uníssono eles respondem: “Sim, senhor”.

— Certo, então estas são as novas ordens. O nosso Plano C. James, você continuará com o plano inicial. Irá descer até o térreo, encontrar uma passagem que leve para o subterrâneo da Jupiter’s Corp, e descobrir o que diabos eles estão escondendo de nós. Qualquer indicio de atividade de forças malignas você já sabe…

<— Detonar com tudo.>

— Exatamente. Já Phill e eu iremos falar com o Almirante. Já que somos os únicos publicamente conhecidos como agentes iluminados, então, cabe a nós pelo menos ter uma conversinha com ele. Eu preciso saber se ele realmente está ciente do perigo que está correndo. E Keira, sua tarefa será dobrada.

<— Estou ouvindo.>

— Não apenas você terá que ficar coordenando as duas equipes, como também terá que ficar atenta a toda e qualquer atividade ocorrida no perímetro desse prédio. Estamos contando com suas informações externas!

<— Certo, Matt! Irei fazer o melhor!>

— Excelente. Mais uma coisa…

<— Matt…>

— Diz, Keira.

<— Enquanto conversávamos tive a curiosidade de buscar uma certa informação. Infelizmente minhas suspeitas estavam corretas.>

— O que é, Keira?

<— O Diácono VonBranagh está a caminho da reunião.>

— O que? Sério?

<— Sim. Não sei se isso é sorte ou azar, mas ele irá se atrasar na reunião. Ele ficou preso em um engarrafamento a caminho da City.>

— Certo. Então provavelmente isso é um bom sinal. Se o assassino realmente está disposto a entrar em ação hoje, com certeza ele irá esperar o Diácono chegar. Ok, pessoal. Todos já têm as suas ordens! Vamos acabar logo com isso!

<— Certo! James desliga.>

<— Ok, Matt. Keira desliga.>

Voltando sua atenção agora para os dois companheiros que estavam com ele, Matthew se preparou para dar sua última ordem:

— Arthur, eu preciso que você continue nessa missão sozinho. Os Grão-Mestres não podem saber que você está andando conosco, principalmente nosso Almirante. Será que tem algum problema?

— Não. É só seguir o plano inicial, certo?

— Exatamente. No prédio não há nenhum inimigo presente no mundo real. Acreditamos que os lupinos nefandos estejam escondidos atrás das Brumas no Reino Espiritual prontos pra atacar. Como você é um lobisomem, acredito que não será pego de surpresa por esses merdas.

— Claro que não.

— Siga até o local combinado e espere a chegada de James. Lembre-se: independentemente do que você encontrar lá no subsolo do prédio, NÃO siga sozinho até o James chegar!

— Hunf. Certo.

— Estou falando sério, Arthur. James irá chegar depois de você, pois ele agora está indo resolver o primeiro objetivo desta missão. É vital pra missão que você não faça nada até que ele consiga concluir esse objetivo. Estou claro?

— Claríssimo.

— Ok, então. Vá lá.

O lobo Arthur, mesmo engolindo sua insatisfação em receber ordens de uma “ovelha” como Matthew, seguiu em frente descendo as escadas velozmente. Ele aproveitou que estava sozinho e se metamorfoseou em um lobo onde sua agilidade era duplicada.

— Você acha mesmo que ele irá seguir as suas ordens? – questionou Phillipp.

— Eu espero que sim.

— Desde que eu me entendo como gente, meu povo sempre teve contato com os Licans e nesse contato eu aprendi muitas coisas, uma delas era que os lobisomens são absurdamente orgulhosos. Talvez receber ordens de um simples humano como você seja quase uma ofensa para eles.

— Eu sei. Entretanto, eu tenho a vantagem do ancião Philox, que em vida, sempre me deu voz de respeito. Não só a mim, como a você também que é tratado como um igual.

— Eu sei. É por que também faço parte das raças metamórficas.

— É verdade, Phill. Sempre tive essa dúvida… Você pode se transformar em Dragão? Ou Meio-Dragão?

— Meio-Dragão não. Meu sangue é puro, sou de Primeira Geração, esqueceu?

— Certo. Isso significa que…

— Significa que eu posso me transformar em um Dragão-Azul completo.

— Wow!!! Isso é sério? Você já fez isso antes?

— Ah já! Mas é raro. Afinal, ando muito na civilização e não tem como ficar zanzando por ai como um Dragão!

— É verdade. Mas cara, por que você não disse isso antes?! Você é com certeza a nossa chave pro sucesso dessa missão!

— Como assim, Matt?

— Independente do que iremos encontrar hoje, podemos contar com o seu poder para derrotar o inimigo.

— Hmm…

— Ah qual é! Vai dizer que não pode?

— Na verdade… poder até posso, mas existem regras.

— Regras? Que regras?

— Leis, pra ser mais exato. As Leis do Dragão me impedem de me transformar no mundo dos homens. “A visão de um Dragão a muito foi proibida aos homens”.

— Ok. Mas nada te impede de se transformar na frente de seres sobrenaturais e para se defender!

— É… nada impede. Wow, Matt! Você está buscando brechas nas leis draconianas?

— É pra isso que me formei em advocacia! – sorriu. – Certo, chega de papo. Eu conto com você nessa, Phill!

— Pode ficar tranqüilo!

— É hora do show!

 

*****

 

Hellfire Night Club – Londres. 23h00min.

 

<— Senhor Johannes? Desculpe incomodá-lo, mas tem uma pessoa aqui na recepção que deseja ver o senhor.>

— Que merda, Margareth! Eu não deixei bem claro que não quero receber a visita de ninguém?!

<— Eu estou ciente disso senhor, mas… a pessoa que deseja vê-lo nesse exato momento… está apontando uma arma para mim.>

Nesse momento Derek parou de ler o livro que lhe distraía e voltou sua atenção para o interfone acoplado à sua mesa. Clicando em um discreto botão touch-screen camuflado sobre a mesa de vidro, Derek ativou um monitor holográfico que surgiu palmos de distancia dele.

A imagem transmitia em tempo real as gravações das câmeras de segurança de sua boate, incluindo a área da recepção onde sua funcionária estava sendo coagida por um intruso. E não era um intruso qualquer. Pela careca brilhante e o sobretudo preto, era óbvio de quem se tratava.

Ele não podia arriscar a vida de sua funcionária nem a imagem de seu patrimônio. A decisão era clara:

— Srta. Margareth. Pode deixar o nosso convidado subir. Não será necessário que os seguranças o sigam até o meu escritório. Apenas o indique o caminho.

<— Sim, senhor.>

Derek sinceramente nem imaginava o que trazia Dan Viper até aqui em sua boate para vê-lo. Se fosse pra brigar, ele estava em desvantagem. A boate era o santuário de Derek, principalmente seu escritório, onde seus poderes mágicos fluíam com muito mais facilidade do que nas ruas. Mas Derek sabia que o mercenário não seria tão amador a ponto de ignorar tal fato. Com certeza ele veio aqui em paz, pra conversar. Não havia qualquer outra explicação.

Entretanto o “seguro morreu de velho”, como diz o velho ditado e Derek não perdeu tempo de ativar alguns mecanismos arcanos antes que seu convidado entrasse por aquela porta. Coisas simples, já previamente preparadas. Era necessário apenas as palavras certas e o toque sobre os círculos de magia.

Dan Viper então bateu na porta.

— Entre.

A porta se abriu. O mercenário deu alguns passos e seguiu adiante até ficar frente a frente com Derek, que já estava de pé no meio do escritório esperando o seu convidado. Mesmo depois do ocorrido recentemente, havia ainda muito respeito entre os dois. Um dia, numa outra encarnação, eles já foram irmãos de armas. O que mais inquietava Derek era o fato dele saber as origens secretas daquele homem. Origens estas que remota desde os tempos da Criação.

Dan Viper tinha alma angelical, porém não era um anjo. E nem um demônio. Ele era a reencarnação daqueles que não ficaram nem do lado dos Céus, nem do lado de Lúcifer durante o combate. “O castigo divino foi esse… tornar-se um mortal. Um simples, ridículo e pacato mortal”, palavras ditas por Azazel em 1979 quando conheceu a reencarnação de Abdiel, o nome angelical, pela primeira vez. Se bem que muito tempo já se passou e antes o homem conhecido como Xavier, hoje era Daniel Scott, vulgo Dan Viper.

— O que devo a honra de sua oferecida visita?

— Vim discutir uns assuntos. Assuntos que acredito dizer respeito a nós dois.

— Espero que essa conversa não esteja envolvendo a mulher dos outros no meio.

— Pode ficar tranqüilo. Não é minha especialidade ficar cuidado da vida alheia.

— Vá direto ao ponto.

— É sobre o Mark.

— Que Mark?

— Não se faça de desentendido. Assim como eu, tenho certeza que nos últimos dias você não vem dormindo com paraísos verdejantes e mulheres nuas.

Derek nesse momento sentiu-se desconfortável, porém era verdade. Faz muitos dias que Derek não vem tendo bons sonhos a noite. Sempre sonhando com buracos sem fim, lagos flamejantes, céus de fogo, etc. Um cenário bem familiar para aquele que já visitara o próprio Inferno diversas vezes. Entretanto em suas visitas não havia um espírito demoníaco furioso querendo arrancar a carne de Derek de dentro para fora.

— Nottingham.

— Nosso bom e velho guri. – quando o clima baixou, Dan deu meia-volta e se sentou em um dos sofás do escritório. Observando cuidadosamente o seu anfitrião, Dan Viper deu prosseguimento ao assunto o qual ele veio falar. — Mark está causando grandes problemas lá embaixo.

— Eu estou ciente disso.

— Pois é. Dizem até que ele destronou o Terceiro dos Três.

— Não é boato. Ele fez isso.

— E dizem também que ele quer a cabeça de Lúcifer.

— Eu acredito que sim.

— Derek isso é impossível. Nunca um pivete conseguiria ter o poder suficiente pra destronar o Segundo dos Três. Isso é impossível.

— Ele não está sozinho, Viper. Se você bem se lembra, Azazel ficou com a guarda dele durante todos esses anos.

— Azazel é aquele anjo caído que invadiu Oxford?

— E enfrentou o Arcanjo Miguel em pé de igualdade. Sim, ele mesmo.

— Mas ainda sim tem algo de errado nessa história toda. Como um ser quase divino como Lúcifer deixaria uma rebelião acontecer bem debaixo de seu nariz?

— Essa rebelião nunca aconteceu debaixo do nariz de Lúcifer justamente por que Lúcifer não existe. Ele não passa de uma lenda.

— Como é?!?

— Eu pensei que as lembranças de seus tempos de glória angelical tivessem aflorado recentemente.

— Não. Pelo contrário. Eu só consigo me lembrar vagamente de minhas vidas passadas, como se fossem sonhos ou flashs repentinos. Aliás, lembranças recentes e não lembranças tão remotas, como os da época da Rebelião. Mas, deixe de embromação e me explique logo essa história direito!

Derek lançou um olhar perspicaz para Dan Viper. Era claro que não havia qualquer possibilidade ali de amizade entre eles. Porém, mesmo com a evidente situação desesperadora que está crescendo feito uma bola de neve desde 1979, o orgulho de Derek superava qualquer coisa.

— Retire-se de meu escritório.

— Derek, você não está enxergando as coisas direito. Estamos presenciando uma revolução do Inferno e ao que tudo indica outra invasão, muito maior e mais poderosa, está se preparando para atacar Londres. Se Mark Nottingham de alguma forma está envolvido nisso, grande parte do que está acontecendo é por nossa causa. Estamos envolvidos nisso desde aquele tempo.

— Eu não me importo. Não me importei antes, não me importarei agora. Agora, faça o favor de se retirar.

Frisando os olhos e deixando de lado sua antiga personalidade Xavier pra trás, Dan Viper só teve uma coisa a dizer:

— Quando os céus pegarem fogo e milhões de vidas pagarem por essa sua atitude, não lhe restará mais nada nesta vida que poderá te salvar. Nem mesmo a anjinha.

O mercenário virou os calcanhares e se retirou do escritório batendo a porta com força. Derek serrou os dentes com força. Queria ter respondido na ponta da língua aquele comentário, mas desta vez ele deixou passar. Realmente Derek estava mudado. Ele sentia isso. Mas ao contrário do que Dan Viper pensa, ele sabe que não pode negligenciar o que está acontecendo no Inferno.

Entretanto, existem segredos que lhe foram guardados que são muito mais importantes do que qualquer coisa nesse universo. Segredos estes que se fossem revelados este mundo ia sofrer coisas bem piores do que uma “simples” revolução no Mundo Inferior. Derek não podia ficar parado. Ele sabia o que ia fazer naquele exato momento.

Indo até sua mesa, o Grão-Mestre ligou o interfone:

— Srta. Margareth?

<— Sim, senhor?>

— Prepare meu Rolls-Royce, eu irei sair.

<— Sim, senhor.>

 

*****

 

[Mission Objectives]

/Incoming Transmission…

 

<James, estas são suas ordens. No 36º andar da Jupiter´s Corp. é onde fica localizada a subintendência de segurança do prédio. É lá onde está localizada a chave de lítio, objeto necessário para entrada no subsolo do edifício. O 36º andar aparentemente está vazio, porém é quase certo de que há uma segurança reforçada no local. Tenha cuidado. Keira desliga.>

 

Após conferir suas ordens em seu PHDA, James, que está no comando da segunda equipe de assalto, finalmente chegou ao trigésimo sexto andar. Antes de sair da escadaria, os dois lobisomens que acompanhavam o agente tiveram que alertá-lo a um fator no qual ele já desconfiava:

Tecnomante… - chamou Rocky, um dos lobisomens que já estava em sua forma de batalha meio-lobo. – É melhor tomar cuidado. O Manto espiritual desse andar é bastante fraco. É capaz de que existam inimigos escondidos no Plano Astral prontos para atacar os invasores.

— Nós já desconfiávamos disso. Estou remodulando meu PHDA para analisar ondulações espectrais dos planos dimensionais.

— Você está dizendo que com esse aparelho será capaz de saber o que acontece nos Reinos Espirituais?

— Sim. Em termos. Se eles realmente estiverem apenas no Plano Astral, que é uma dos planos mais próximos de nosso mundo, eu poderei localizá-los. – enquanto explicava James ia clicando em vários botões na tela de seu PHDA até conseguir o que queria: — Pronto, consegui. Tem três seres metamórficos escondidos atrás da película espiritual. Entretanto, um deles não está sozinho. Estou capturando freqüências de distorção extra-planar na área D-5, próximo a um deles. Acredito que seja um portal para as regiões mais profundas do Plano Espiritual.

Sim… já até imagino o que eles fizeram. – comentou o lobisomem Slayer que tinha uma forte paixão por caça e combates espirituais. Ele também estava em sua forma de batalha lupina. – Os licans da Espiral Negra são criaturas sem honra. É capaz deles terem feito tratos com espíritos corrompidos do Umbral e já deixaram as portas abertas caso precisem da ajuda deles.

— Certo. Faremos o seguinte. Eu preciso que vocês me dêem cobertura. Tenho que chegar até este armário que fica no terceiro corredor da ala oeste. Nesse cruzamento aqui entre os corredores sul e norte é onde eu estarei mais vulnerável. Eu só preciso que me dêem pelo menos 3 minutos até eu atravessar os corredores, chegar até o armário e pegar a chave de lítio.

Em três minutos a cabeça desses desgraçados já vai estar separada do corpo! – disse Rocky confiante em sua força.

— Ok, então. Vamos lá!

 

[Soundtrack: Hearts on fire – Hammerfall]

 

A porta do 36º andar foi derrubada com um único golpe. Os dois lobisomens imediatamente correram ao encontro de seus inimigos. Eles estavam despreparados e foram pegos totalmente de surpresa, pois não esperavam que os invasores soubessem suas posições. O primeiro a atacar foi Rocky, que com sua pata de mais de meio-metro de largura rasgou a película espiritual e arrancou a criatura nefandica dali de dentro.

O lobisomem corrompido era uma das criaturas mais horrendas que poderia ser vista. A muito ele deixara de ser um lobisomem comum, pra se tornar uma criatura demoniacamente modificada. Ele tinha apenas 20% da pelagem lupina e sua pele lembrava a de um inseto superdesenvolvido, cheio de chagas e protuberâncias, que lembravam tumores. Um de seus olhos, que eram grandes e vibrantes, estava branco coberto de pus e sangue. Assim que trouxe essa criatura Rocky se prontificou de trucidá-lo com suas garras.

O golpe foi violento. Porém, o lobisomem corrompido primeiro se desvencilhou das patas do inimigo e avançou sobre ele em altíssima velocidade. Rocky que não sabia se movimentar velozmente acabou tendo seu ombro esquerdo perfurado pelas presas do inimigo. Após seu urro de dor, Rocky pegou com força o pescoço do adversário e novamente com uso das garras girou em sentido horário, rasgando de tal modo que quase decapitou o lobisomem corrompido.

O sangue dos lupinos agora pintava o corredor de vermelho. Sentindo-se energizado pelo calor da batalha, Rocky lançou um rosnado pra criatura das trevas e em seguida se preparou para o próximo ataque. Longe do calor da batalha, James observava perplexo o combate titânico entre os dois lobisomens. Mas aquele não era o momento pra ficar admirando combates bestiais. Ele tinha que seguir em frente.

Slayer estava bem atrás de James dando cobertura enquanto o agente atravessava o corredor. O 36º andar era bem largo, composto por várias salas importantes, dentre elas a sala das câmeras, o escritório de segurança e, o alvo principal, o escritório da subintendência. Sempre atento às leituras de seu PHDA James parou e fez sinal para o companheiro lupino. Não foram necessárias palavras para o Lobisomem entender o havia de ser feito.

Usando o mesmo dom que seu colega realizou para perfurar a película espiritual, Slayer puxou violentamente pra fora o lobisomem nefandico deixando-o totalmente desprevenido. A surpresa foi tal, que nem em forma de combate o lobisomem corrompido estava. Seja qual fosse a tribo que pertencesse, um lobisomem dificilmente ficava o tempo todo em sua forma de batalha, e esse era o caso do inimigo que agora estava completamente vulnerável em sua forma humana. Levaria três segundos para ele assumir a forma lupina. Três segundos que lhe custaram a vida. Sem pensar duas vezes, Slayer atravessou o peito do lobisomem nefandico com suas garras arrancando-lhe as vísceras, pulmões e o coração.

“Ainda bem que atualmente fiquei com o estomago forte…”, pensou James que assistiu de camarote esse show de estripação humana.

Falta muito pra chegar até o objetivo?

— Não. É aquela porta logo ali na frente. Só tem um problema. O último inimigo está bem diante da porta e aquela distorção extra-planar que lhe falei, está cada vez maior e bem atrás da porta.

Aqui no mundo físico tem algum perigo você atravessar aquela porta?

— Acredito que não.

Então eu irei atravessar o véu e enfrentar o inimigo no Plano Astral. Até lá, vê se seja rápido.

— Como irei avisá-lo quando tiver conseguido a chave?

Não se preocupe. Não irei demorar.

— Ok, então. Vamos lá!

Slayer tomou a dianteira. Mesmo na forma meio-homem/meio-lobo, ele galopou veloz até o final do corredor onde ficava a porta da subintendência e deu um salto como se fosse dar o bote numa presa. Por um breve segundo, uma fenda entre o mundo físico e espiritual se abriu e lá dentro o lobisomem nefandico se preparava para sair e enfrentar o inimigo. Ele só não esperava que o invasor fosse partir pra cima com tudo e iniciar um feroz combate ali mesmo, nos reinos espirituais.

James não se deteve. Respirou fundo e saiu correndo até a porta da subintendência. Ele pensou que algo fosse acontecer, mas graças a deus (ou aos lupinos que lhe deram cobertura) ele conseguiu chegar até ali em segurança. Obviamente a porta estava trancada. A tranca era um leitor de digitais, mas isso com certeza não era problema para o agente iluminado. Seu PHDA conseguia fazer um scanner infravermelho capaz de ler a digital do último que entrou ali e em seguida reproduzi-lo com feixes lasers capaz de simular a pressão de um dedo.

Alguns cliques no PHDA, dois feixes de luz verde, e a porta se abriu. Agora era só encontrar a chave. Seria fácil, se caso um ser de mais dois metros, metade mulher, metade aranha não estivesse esperando por ele dentro da sala. James tomou um susto, porém tal encontro era esperado.  Só restava saber se ele estava preparado.

[]

 

*****

 

[Mission Objectives]

/Incoming Transmission…

 

<Matthew, estes são seus objetivos. A reunião dos Grão-Mestres ocorrerá no vigésimo andar da Jupiter’s Corp. Acreditamos que a reunião ainda não tenha começado, pois o Diácono está atrasado devido a um congestionamento no trânsito. Para não levantar suspeitas de nossa missão, é recomendável que vocês tentem não ser vistos por ninguém, principalmente os seguranças do Arcanorum que estão por todo o andar, inclusive os dois andares acima, e os dois andares abaixo, inclusive nas escadas. Depois de passar por esse obstáculo, procurem pelo Almirante Dorje Washington e repasse o diálogo combinado. Lembre-se da diplomacia e da astúcia com as palavras. O almirante é um homem bastante esperto e sagaz, tome cuidado com que irá dizer e/ou fazer. Tenha cuidado. Keira desliga.>

 

— Ela ‘tá’ parecendo a minha mãe. – comentou Phillipp.

— Pelo menos isso conta pontos no currículo dela. – respondeu Matthew.

A dupla já havia chegado a mais de dez minutos no vigésimo andar, porém esperavam conseguir ultrapassar a forte segurança. Nesse exato momento eles estavam ainda nas escadas, porém usavam um dispositivo de camuflagem que desviava a luz externa de seus corpos deixado-os claramente invisíveis. Porém, sem poderem sair do lugar. Enquanto trocavam idéias sobre como iriam chegar até o Almirante sem serem detectados, o PHDA de Phillipp vibrou alertando a chegada de uma mensagem.

— É a Keira. Ela acabou de hackear as câmeras do andar. Agora sabemos exatamente onde estão os guardas do Arcanorum.

— Certo. Alguma idéia de como iremos chegar até o Almirante?

— Hmm… Sabe, estive pensando em usar nosso Desacelerador Temporal Continuum. Acredito que mesmo sendo místicos, os guardas não irão perceber que o tempo foi manipulado.

— Eles não. Mas os Grão-Mestres sim. Como é um procedimento de grande escala, eles irão perceber assim que ativarmos o PHDA e é capaz de nos atacar acreditando ser o assassino.

— Verdade. Então estou sem idéias.

A dupla ficou calada por alguns minutos até Matthew assustar seu parceiro com um repentino tapa que deu na testa:

— Cara!!! Como fui esquecer?!? Ficamos tão atolados pensando numa forma hipertecnológica e super-criativa de passar pelos guardas e esquecemos da forma mais simples!

— E qual é?

— Dar um telefonema. “Se Maomé não pode ir à montanha…”

Matthew pediu o PHDA de Phillipp emprestado e com alguns toques no visor o transformou em um aparelho celular. Entretanto, para não por em risco o segredo de Phillipp como agente e da Sociedade de Prometeu que era secreta até para os próprios Iluminados, ele redirecionou o sinal a partir de sua linha de celular pessoal. Tal como Matthew esperava, na bina do celular de Dorje Washington surgiu o seu número de celular, mesmo este estando a quilômetros dali desligado.

<— Alô?>

— Almirante Washington? Aqui é o Agente Comandante Matthew Ferris, da divisão dos Operativos dos Iluminados. Eu poderia te ruma palavrinha com o senhor?

<— Comandante, infelizmente eu estou ocupado agora. Pode deixar pra uma outra hora?>

— Infelizmente não, senhor. Eu sinto muito em perturbá-lo em sua reunião, mas eu preciso falar com o senhor. E se possível, agora.

<— Como sabe que estou em uma reunião, comandante?>

— Por que estou exatamente agora na escadaria do Saint Mary Axe nº30, no vigésimo andar. Como quero manter a discrição, estou evitando me esbarrar com os guardas.

<— Como você…> - houve uma pausa de silencio, era óbvio que Dorje estava desnorteado olhando para todos os presentes naquela reunião que já esperavam impacientes pela chegada do Diácono. <— Certo. Irei agora ao seu encontro. Não saia daí.>

— Sim, senhor. E, muito obrigado pela atenção, senhor. – desligando e virando-se para o amigo e Matthew sorriu: — Consegui. Tome, leve a minha pistola laser contigo. Já que será uma conversa diplomática com o Chefe, não quero parecer armado.

— Certo.

 

Assim que encontrou o agente de sua sociedade, Dorje Washington nem questionou a presença de Phillipp e levou os dois até um escritório vazio que ficava dois andares acima, bem longe dos guardas do Arcanorum. Ao acender a luz, Matthew descobriu que aquele lugar possivelmente era um escritório de Call-Center, com diversas escrivaninhas separadas por divisórias com computadores desligados. Dorje seguiu em frente, seguido pelos agentes até um segundo aposento que era separado por uma grande porta de madeira. Ao entrar, os dois se viram em uma enorme sala de reuniões, com vista panorâmica e uma enorme mesa de reuniões, com 20 lugares, retangular, feita em madeira e com as cabeceiras em couro preto no formato triangular.

Matthew fez menção em acender as luzes, mas Dorje logo o impediu. Provavelmente ele não queria que outros soubessem que eles estavam ali. As luzes noturnas da City, sombreadas pelas neblinas de Londres, iluminavam precariamente o aposento, deixando-o frio e abandonado.

— Sim, Agente Ferris. O que o senhor queria tanto falar comigo?

— Antes de mais nada, senhor. Este aqui ao meu lado é o Sr. O´Connor. Phillipp O’Connor. Ele, e outros metamorfos como ele, estão me ajudando numa missão importante que está acontecendo neste exato momento aqui na Jupiter´s Corp.

— Missão? Que missão? Eu não fui informado de nada!

— É uma missão secreta de nossa Agência, senhor. Autorizada apenas pelo nosso supervisor, o Agente Müller.

— O Capitão Edward Müller autorizou uma missão sem me consultar?

— Nós acreditávamos que esta era uma missão de Prioridade Baixa, senhor.

— E do que se trata esta missão?

— Após alguns meses de investigação junto com os lobisomens, descobrimos que esse prédio é sede de uma cabala de transgressores da realidade potencialmente perigosos. Temos provas de que aqui seja um dos covis de uma cabala conhecida mundialmente como “Irmandade de Tenebras”.

— Tenebrianos?!? Aqui!?! – sua voz foi de espanto, entretanto, devido à iluminação precária, Matthew não pode ver a reação facial de seu Almirante.

— Sim, senhor. Como bem sabe, a Irmandade é inimiga universal de qualquer sociedade secreta, desde o Arcanorum até os Iluminados, incluindo é claro a sociedade dos Metamorfos, que possui naturalmente uma fúria contra esses nefandos corrompidos.

— Se estamos falando da Irmandade, provavelmente estamos encarando inimigos em potencial. O que vocês descobriram?

— Senhor, de acordo com nossas pesquisas, até agora só tivemos certeza que essa cabala da Jupiter’s Corp. abriga lobisomens nefandos, conhecidos como Cães do Inferno. Chamá-los de “lobisomens” seria até um elogio. Eles estão mais para Demônios.

— Então a missão de vocês aqui é…

— Inicialmente seria de exploração. Entretanto, devido à periculosidade desta missão, estamos agindo tanto como exploradores quanto assaltantes. Pretendemos penetrar até o mais profundo labirinto desse covil e se possível destruir com tudo.

— Primeiro atirar, depois perguntar.

— Sim, senhor. Acredito que nessa situação, a diplomacia não é bem vinda.

— E por que o senhor me chamou até aqui, agente?

— Senhor, infelizmente (e obviamente) fomos pegos de surpresa por essa reunião que está acontecendo aqui no prédio.

— Como você ficou sabendo dessa reunião?

— Escaneadores moleculo-espectrais de nossos PHDA’s, senhor.

— Hmm… Entendo.

— Senhor, eu o chamei aqui principalmente para alertá-lo para dois fatores importantes que irão ocorrer nessa noite de hoje. A primeira delas é com relação a nossa missão, que possivelmente, na pior das hipóteses, nós iremos colocar esse prédio à baixo. O senhor deve saber que, se tratando da Irmandade de Tenebras, qualquer medida extremista é passível de perdão.

— Eu estou ciente.

— E o segundo fator, senhor, seria o perigo de uma nova ameaça do Assassino de Grão-Mestres hoje. Ao que tudo indica, hoje será um dia perfeito para ele atacar.

— Você não precisa se preocupar.

— Mas senhor, nossos especialistas…

— Agente Ferris! Mesmo que você acredite que o assassino irá atacar hoje, você não precisa se preocupar com isso. Esse assunto já está resolvido.

Matthew naquele momento sentiu um frio na barriga. Algo estava bastante errado ali.

— C-como assim…?

 

*****

[Soundtrack: New Wars Come Up – Saint Seiya Original Soundtrack]

 

Base Secreta da Sociedade de Prometeu. 23h57min.

 

Keira imediatamente afastou o teclado de perto dela e se levantou da cadeira. Algo a estava incomodando. Algo muito, mas muito ruim. Não era uma sensação física. Não era uma sensação psicológica. Era algo mais… espiritual. De repente, olhando para a planta tridimensional do prédio da Jupiter´s Corp., uma sensação muito ruim lhe subiu pela espinha.

Algo que a fez respirar fundo.

Algo que fez sua adrenalina subir.

Algo que tinha a intenção macabra de lhe dizer que alguma coisa estava errada. Muito errada.

A mesa de operações táticas ficava na sala de reuniões. Sobre a mesa de reuniões recentemente usada pela equipe da Prometeu estavam algumas papeladas jogadas aleatoriamente. Keira ainda respirava rápida e profundamente.

“O que é isso que estou sentindo…?”, pensou aflita. “Tem alguma coisa dando errado aqui. Tem alguma coisa que irá acontecer…”.

Nesse momento, como se um pequeno vagalume lhe chamasse, um dos papeis sobre a mesa lhe chamou a atenção. Ela foi até ele levada apenas pelo instinto. Ao pegar e ler, Keira não viu nada demais a princípio.

“É apenas o hemograma do Phill…”, pensou.

Entretando, numa análise mais minuciosa, Keira encontrou algo… peculiar:

— Resultado de HCG… Maior que 20,00mUI/ml??? Mas isso é impossível… o Phill é homem. A não ser que…

 

Cinco horas atrás…

Sem pestanejar, Matthew deixou que sua equipe trabalhasse. Phillipp voltou a esticar a manga de seu blusão e Keira logo se prontificou em buscar a amostra com a seringa. Levando a amostra até a máquina que iria fazer os testes, Keira buscou uma lamínula de microscopia virgem e outra lamínula no qual havia a amostra do sangue do assassino.

Quando estava realizando seu trabalho, de repente Keira fez um comentário estranho que chamou a atenção dos amigos:

— Que estranho…

— O que foi, amor? – perguntou James.

— Não é nada. Acho que estou ficando cansada. Vamos terminar logo com isso…

 

“Naquele momento eu tive certeza de não ter visto o sangue pingar da seringa para a lamínula.”, pensou. — Oh, meu Deus será que…

 Novamente aquele frio na barriga que faltou corroer-lhe por dentro voltou. Seu suor estava frio. As mãos estavam trêmulas. Sua respiração agora seguia um ritmo frenético. Ela tinha que fazer algo… e AGORA! Desesperada e sozinha naquela Base, Keira correu até o computador e ligou imediatamente para os seus amigos querendo dar a única mensagem que seu pressentimento quase sobrenatural gritava dentro de si:

 

— JAMES… MATT… SAIAM JÁ DAÍ!!! É UMA ARMADILHAAA!!!

 

*****

 

— C-como assim…? – questionou Matthew intrigado.

— A reunião irá prosseguir normalmente e a sua missão terá que ser abortada. A morte dos Grão-Mestres aqui presentes é inevitável.

— A-Almirante… v-você…

— Comandante Ferris, você, tal como o seu colega, o Tenente-Comandante Spark, está se metendo em assuntos que não lhes dizem respeito. Isso, infelizmente, lhe custará caro.

Inconscientemente Matthew levou a mão até a cintura em busca de sua pistola laser. Novamente aquela sensação ruim na boca do estomago voltou quando lembrou que ele estava desarmado. Dorje Washington sorriu:

— Você é tão inocente, Comandante… - em seguida, ele desviou a atenção: — Sr. Phillipp O’Connor!

— Sim, senhor?

Phillipp respondeu ao chamado como um cão obediente.

“O que está acontecendo aqui?!?”, desesperou-se Matthew.

— Mate o Comandante Ferris.

— O QUÊ?!? – exclamou Matthew acuado. Phillipp agora lhe apontava a sua própria pistola laser. – Phill!!! Eu não acredito… Eu não acredito…!!!

— Sim, senhor.

A arma estava ligada.

— Phill… não…

Os disruptores de energia estavam prontos pra atirar.

— Phiiiilll…

— Me perdoe… Matt.

Um feixe vermelho e bem luminoso iluminou toda a sala panorâmica.

— NÃÃÃOOOOOO…

 

To be continued…