Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio XLIX

Zero Hora

 

 

 

 

00h00min.

 

As cinzas mortuárias espalhavam-se pelo salão da mansão abandonada de Nottingham com o sopro dos ventos que se adentravam pela porta arrombada. Seus olhos iam aos poucos se abrindo. Mesmo estando virtualmente morto, ele sentia o mármore gelado do piso em sua face. Havia sangue ali também. Bastante sangue. Porém, não era o dele. Por quanto tempo ele havia ficado desacordado? O nome daquele que tentou lhe matar explodiu em sua mente fazendo-o acordar definitivamente:

“Júnior!”

Seu corpo estava dolorido, porém conseguia se levantar. Sebastian limpou os olhos. Ele estava vivo. Seu irmão, Júnior, havia tentado lhe matar. Ele não tentou resistir, a culpa ainda lhe amargurava. Afinal de contas, o que aconteceu?

 

Você esteve desacordado por quase quatro horas.

 

A voz ecoou pelo salão tão tenebrosa quanto a de seu irmão momentos atrás. “Que mania desses caras de só falarem na escuridão!”, pensou Sebastian agoniado. Desta vez ele não ia responder. Ficar calado era a melhor alternativa pra saber o que estava acontecendo ali. Entretanto, diferente de seu irmão, um ser humanóide surgiu das sombras e veio caminhando silenciosamente em sua direção. Ele não fazia questão de se esconder – pelo contrário! Devido a elegância que andava e a exuberância de suas vestimentas, com certeza esse homem se atinha em descrições.

— Olá, Sebastian.

Ele demorou pra responder. Agora, não por orgulho, e sim por espanto. Por um momento ele pensou estar vendo um vampiro nosferatu, mas uma visão mais apurada ele percebera que não havia nada repugnante na figura daquele cara. Pelo contrário, ele estava mais pra “demoníaco” do que “monstruoso”.

A primeira impressão que Sebastian teve era de que se tratava de um homem calvo, de meia-idade que usando um tipo de máscara de Halloween. Entretanto, ao percebê-lo melhor, pode compreender que, mesmo com diversas deformidades, aquele era seu verdadeiro rosto. Uma espécie de “M” circundava toda a cavidade orbital indo até o final do osso nasal, formando ondas ósseas. Suas orelhas eram bem coladas a face, aparentando não ter cartilagem e a partir delas até quase o final do queixo precipitava da mandíbula pequenos espinhos terminando num queixo bem enrugado e fino. Seus olhos eram sem duvida a parte que mais tenebrosa. Seus globos oculares eram completamente negros, como duas bolas de ônix e sua expressão era pura maldade e arrogância.

Sebastian sentia em seus instintos sobrenaturais de que aquela criatura se tratava de um vampiro. Porém, para seus olhos, estava mais para um demônio acabado de sair da boca do Inferno. Até suas vestimentas lhe afirmavam tais pensamentos. Um vestido elegante vermelho escuro com detalhes em ouro lhe cobria do pescoço, com golas altas e imponentes, até a cintura, onde se abriam revelando uma calça branca também com detalhes em dourado.

— O que foi, Escolhido? O gato mordeu a sua língua?

— Q-q-quem é você?

— Eu sou o Arcebipo Arkdocez. Sou o emissário do novo senhor das trevas que surge nas fronteiras do Inferno.

 

*****

 

00h05min.

 

Essa era a milésima vez que Keira tentava entrar em contato com Matthew. De seus olhos, corredeiras de lágrimas desciam vertinosamente que inundavam a alma da jovem em temor e desespero. Não adiantava checar novamente os computadores – o sinal de Matthew havia desaparecido por completo. Ela ainda tentava encontrar especulações para a falta de sinal, entretanto eram todas caídas por terra. O chip que indicava a localização e o estado físico dos agentes ficava localizado internamente perto do coração. A menos que ele tivesse sido retirado cirurgicamente, não tinha como ter acontecido alguma coisa com o chip. Só tinha uma resposta para a falta de sinal e essa resposta Keira não queria aceitar: Matthew estava morto.

Todos sabiam dos riscos desta operação, mas não era pra ter sido dessa forma! Não morrer desse jeito – traídos pelo seu melhor amigo. Infelizmente, por mais que ela não acreditasse, era fato que Phillipp havia traído a Sociedade. Não apenas a Sociedade de Prometeu, como também a toda uma nação.

E ela descobriu isso muito fácil. No exame de sangue de Phillipp deu como positivo o resultado de gravidez. Ora, obviamente Phill não poderia estar grávido, então quem mais poderia ser? Obviamente, pra encobrir o seu resultado, Phillipp havia trocado o sangue dele pelo de sua esposa, a também Meio-Dragão, Léia. Inocente, obviamente, ele conseguiu camuflar a sua identidade. Mas uma pergunta não quer calar: Por que ele faria isso?

Por que razão ele iria parar o tempo, arte tecnomágica no qual ele se tornou especialista, para trocar os resultados dos exames. Só havia uma resposta: Ele não queria ser descoberto.

Tal afirmação arrepiou todos os pelos do corpo de Keira. Seria mesmo Phillipp o Assassino de Anciões?? Mas… como? E porque?? Isso estava errado! Ele não poderia ser! Entretanto… pensando melhor… Algumas coisas começaram a fazer sentido…

 

<<Intruder Alert. Intruder Alert.>>

 

O alarme soou por toda a base subterrânea, mudando automaticamente o alerta de amarelo para vermelho. Keira não pensou duas vezes: Buscou sua pistola laser e se preparou para matar quem quer que estivesse invadindo a sua base. No fundo, ela esperava que o invasor fosse quem ela esperava que fosse.

Ele veio caminhando calmamente pelo corredor até surgir na entrada da ponte de comando. Seus olhos vagaram por quase toda a base admirados. Ele nunca estivera antes dentro de uma base secreta iluminada. Diante dele estava a frágil ser que lhe apontava um tipo de arma estranha, porém a incredulidade em ver sua identidade a fazia vacilar em seus movimentos.

— O… o que… O que o senhor faz aqui?!

— Infelizmente, minha pequena dama, eu vim dar um fim a esta sociedade.

— Então era exatamente como imaginávamos! O assassino não está agindo sozinho! Ele tem um mandante!!! O senhor é o verdadeiro inimigo da sociedade sobrenatural!!!

— Inimigo? Que visão mais estreita… Mas não cabe a mim ter que expandi-la pra você. Certas coisas na vida só se aprendem vivenciando.

— Do que você está falando?

— Eu falo do Passado. Do Presente. E do Futuro. Eu falo sobre escolhas. Sobre decisões. E principalmente, sobre amor.

— Nem mais um passo!!! – ameaçou Keira seriamente ao ver o intruso se aproximando. – Esta pistola está em potencia máxima. Mesmo sendo o Senhor, não há como escapar!

— Eu estou certo disso.

Keira estava convicta que iria atirar para se defender, mesmo que isso resultasse na morte daquele homem. Entretanto, o movimento da mão do intruso foi mais rápida e junto com ela a arma saltou da mão de Keira indo se espatifar na parede. Agora lá estava ela sozinha, acuada e indefesa. Seu coração começou a palpitar rapidamente. Suas mãos estavam soadas. Seus pensamentos dispersos, confusos e aleatórios.

— P-por que… por que vocês estão fazendo isso?

— Infelizmente vocês se meteram em assuntos muito perigos, pequena dama.

— E por causa disso terá que nos matar.

— Saiba que estamos fazendo isso apenas por amá-los.

— Isso não é amor. Isso é loucura!

— Que seja.

Erguendo sua mão na direção de Keira, uma forte luz começou a surgir. Era tão intensa que parecia que ia cegá-la. Não havia qualquer lugar para onde ela pudesse fugir, a luz já cobria todo o recinto. Era sem dúvida, o fim.

Nesse ultimo instante Keira gritou pelo nome de seu amado:

 

— JAAAAAAAMEESSS!!!!

 

A casa que servia como esconderijo da Sociedade de Prometeu desapareceu por completo sob um enorme feixe de luz ascendente que vaporizou por completo tudo que havia naquele terreno.

Era o fim da Sociedade de Prometeu.

 

*****

 

00h10min.

 

Olhar para o movimento de sua boate era como olhar para um quadro de um museu. Admiração, sentimentos, reflexões, mas tudo isso sem obter respostas de seu estado de espírito. O tempo parecia ter parado para o anjo Danyael enquanto ele observava o movimento dos clientes do nightclub Paradísia. Apenas pessoas boas estavam naquele recinto. Ele sabia disso. Eram todos adultos, longe de serem inocentes, porém havia uma paz de espírito em todos ali presentes, mesmo que o álcool os alterasse. Talvez fosse por causa da presença de Danyael. Um local onde tinha um anjo como patrono, com certeza seria um local de paz.

Ali era seu trabalho, seu santuário, sua casa e seu refúgio. Era para lá que Danyael sempre ia quando precisava espairecer. Ver pessoas, ver rostos antigos, rostos novos, escutar assuntos triviais, tal como pensar melhor na vida. Em sua vida. Ele não tirava a Lilith de seus pensamentos. Estava ele muito preocupado. Entretanto, poderia ser uma preocupação tola, vide que ela estava sendo protegida por dois grandes deuses: seu irmão e seu pai, e nada iria lhe acontecer.

“Mas o Inferno não é lugar pra ela ficar passeando com meu filho!”, pensava angustiado.

Após trocar algumas palavras com os fregueses e funcionários, e tirar umas duas ou três fotos pra revista de fofoca da cidade, Danyael se recolheu a noite toda em seu escritório particular. Cansado de ficar ali parado, o anjo resolveu descer um pouco. Talvez estando no meio da pista de dança, junto com seus clientes e bebendo um pouco, ele poderia encontrar uma fuga de seus problemas.

Mesmo em meio a dezenas de pessoas, seus pensamentos estavam totalmente submersos em um lago de preocupações, entretanto, não tardou em ele ser rapidamente emergido das dessas profundezas para a realidade. E não foi nada agradável isso para ele.

Quem está ai? – questionou Danyael na língua angelical em direção as pessoas que estavam na pista de dança. – Este é meu santuário. Eu exijo que apareça.

Era evidente para seus sentidos angelicais que havia alguém entre a multidão que não era um ser humano comum. Entretanto, esse “alguém” também não aparentava ser inimigo. Só podia ser um tipo de criatura…

Surgindo entre as pessoas, caminhando em sua direção sem se importar com nada, um homem de calças e terno pretos e blusa branca veio até ele revelando sua identidade:

— Olá, Danyael.

— Vehuiah? O que faz aqui?!? – questionou Danyael intrigado. Aquele não era um anjo qualquer. Era um dos 72 anjos cabalísticos, general de uma hierarquia de anjos. A presença dele ali com certeza não era bom sinal.

— Danyael, por hora, nós viemos em paz.

— “Nós”? E tem mais?

Não precisou o anjo dos cabelos cacheados cor de jambo responder a pergunta. Danyael logo sentiu outras presenças e em poucos segundos estava cercado por sete anjos. Desses novos anjos que estavam junto com Vehuiah, três Danyael teve que fazer um esforço pra saber o nome deles, dois eram novatos suficientes pra que ele nunca os tivesse visto na vida e os últimos foram o que mais chamaram a sua atenção.

Trajando um sobretudo preto liso gola padre, cabelos da cor de mel e olhos inquisidores brancos, diante de Danyael estava o Domínio Reyel, que assim como Vehuiah, também era um general da Casta dos Protetore. Ao lado dele estava quem mais chamara a atenção de Danyael, não apenas pelo fato de ser uma lidíssima mulher como também pela sua fama e hierarquia na sociedade angelical. Seu nome era Ângela.

Ela era bastante alta para uma mulher comum. Em seus um metro e setenta e sete, cabelos castanhos escuros até a altura dos seios, e roupa totalmente branca, ela se destacava na multidão. Seus olhos eram fixos em Danyael. Lembrava os de um felino pronto para atacar uma presa. E não era pra menos, visto de que se tratava de uma anjo da temível casta dos Captare.

Quando a Guerra entre os anjos de Miguel e as tropas de Lúcifer estava em seu auge, a hoste angelical estava em uma terrível desvantagem em comparação aos Caídos rebeldes, pois na época eles não eram capazes de matar outro ser vivo, que dirá um antigo irmão. Vendo este problema, foi criado na época a maior e mais poderosa força de defesa do Céu com ajuda da alma dos humanos: os Captare. Esta casta era formada pela alma dos guerreiros valorosos que morreram na Terra ou daqueles que foram assassinados brutalmente pela força das trevas. Suas almas foram arrebatadas pelo Arcanjo Miguel e delas surgiu uma nova raça de anjos, capazes de lutar em pé de igualdade com as tropas de Lúcifer.

E Ângela com certeza fazia jus a reputação de sua Casta. Em seus poucos anos como anjo já enfrentou tantos inimigos e já mandou de volta pro Inferno tantos demônios quanto muitos anciões da época da Primeira Rebelião. Por todo o Céu ela era conhecida como a Dama de Ferro. Sua presença ali não era nada boa. Se ela estava ali é por que algo muito sério estava acontecendo, e o pior de tudo: Danyael suspeitava que esse assunto era em particular com ele.

Principado Danyael da Casta dos Protetore, estamos todos aqui em missão sagrada e é de vital importância que você nos acompanhe. – disse Vehuiah na língua angelical e em tom de comando.

Compreendo a importância da presença de vocês aqui. Mas volto a repetir: este é o meu Santuário e exijo que o respeitem. Se quiserem falar comigo, sugiro que seja em outro lugar.

Os anjos trocaram olhares, principalmente os de maior hierarquia, e finalmente chegaram a um comum acordo:

Está bem. Será como desejares. Estaremos esperando por ti do lado de fora, no alto dos arranha-céus, longe dos olhares humanos.

Irei logo atrás de vocês.

Após sumirem entre os clientes da Paradísia, Danyael deu um tempo, seguiu até o bar e chamou sua bartender:

— Simonne!

— Sim, querido?! – atendeu a bela moça francesa que gostava de atender seu chefe de forma carinhosa.

— Sabe aquele meu coquetel favorito?

— Aquele veneno que nem o diabo bebe?

— Faz um duplo pra mim. – nesse momento ele desviou o olhar. – Acho que vou precisar de mais do que isso esta noite.

 

Havia algumas vantagens para as criaturas sobrenaturais preferirem a cidade de Londres. O fato de ser absurdamente cosmopolita e por ser uma das cidades mais antigas do mundo ela possuia alguns aspectos que se preservaram desde os tempos elizabetanos e vitorianos: o conglomerado absurdo de prédios nas áreas mais centrais da cidade. E isso, certamente, colaborava com a quantidade de terraços que garantiam discrição e privacidades dos que procuravam.

Danyael pousou lentamente sobre o terraço onde os anjos que lhe abordaram esperavam. Ele não havia nem se adiantado e nem se atrasado. Havia chegado no momento certo. Havia um certo clima diferente no ar. Antes de qualquer coisa todos eles eram anjos, um dos seres quase perfeitos do universo, e por causa disso um confronto entre eles era algo mais cerebral do que físico. Não precisava de palavras para que Danyael soubesse de que se tratava de uma equipe de ataque, vide detalhes que só um inocente não perceberia. Enviar uma das Captare mais famosas e selvagens da Cidade de Prata, acompanhada por dois generais de infantaria, deixava mais do que claro o propósito da missão deles: capturar Danyael.

Entretanto, como eles mesmo já previram, tal tarefa não seria muito fácil. Mesmo sendo um anjo bastante novo, Danyael já mostrou seu valor ao enfrentar um grupo de criaturas das trevas sozinho e sem a total ajuda da Light Sword. E ainda tinha a Light Sword. Com certeza Danyael tem poder suficiente pra colocar todos ali no chão se quiser e sem muito esforço. “Foi por isso que mandaram dois generais.”, pensou.

[Soundtrack: I Fade Away – Pillar]

Antes de começar o dialogo, Danyael apanhou todos os seus longos cabelos loiros com as mãos e deu um único nó. Depois da luta em Lancaster, ele aprendeu que cabelos compridos não combinavam com combates. Reyel foi o primeiro a se pronunciar:

— Você sabe por que viemos, não?

— Acredito que seja por causa de minha recusa a obedecer as ordens do Conselho Prateado.

— Você ainda pretende manter a sua desobediência?

— É claro. Antes de ser Anjo eu também sou Pai. E nada e nem ninguém irá fazer-me matar meu próprio filho! Isso eu aprendi com o meu pai. E se isso significa perder tudo que tenho e tudo que sou, que assim seja.

— Você não sabe o que está fazendo. – comentou Ângela.

— Aaah… Sei sim, Captare. E se pretendem me punir por causa disso, é melhor fazerem isso bem, por que eu pretendo dar tudo de mim! – terminou estalando todos os dedos do punho direito.

Fechando o sembante e tomando a dianteira do grupo, Ângela sacou sua espada e tomou sua postura de combate:

— Que no final disto, Deus te perdoe pelos seus pecados.

Danyael também tomou sua postura de luta kung fu preferida, entretanto não sacou a Light Sword:

— Se for assim, que seja.

[]

 

*****

 

00h15min.

 

Desde as oito horas da noite, Nick já havia voltado para Oxford a pedido de Erick e agora o detetive estava sozinho no único lugar em que ele acreditava ser seguro naquele momento: a antiga casa de Sebastian, onde tudo começou.

Antes de realmente se fixar na casa e durante as próximas horas se concentrar nas soluções dos enigmas dos assassinatos dos anciões, o experiente mago da Ordem de Salomão circundou toda a casa com proteções e barreiras místicas. E não se absteve em ritos simples. Na atual conjuntura, ele iria precisar estar 100% tranqüilo sobre sua segurança, fazendo assim altos níveis de proteção ao redor da casa, impedindo até que intrusos viessem até ele pelos reinos espirituais. Magia vulgar ou não, ele não tinha tempo pra ficar pensando nas leis do Arcanorum.

Não havia qualquer lugar para se sentar ou uma mesa para colocar as evidências. Tudo foi feito no chão mesmo. Sentado em posição de lótus, Erick primeiramente buscou um saquitel onde guardava as maiores evidencias dos assassinatos e os colocou diante de seus olhos. De dentro do pequeno saco de veludo preto foram caindo um a um, um pequeno jogo de dados multifacetados que de acordo com as deduções de Erick, seriam a chave de todo esse mistério.

Inicialmente a idéia central é de que esses dados são na verdade um tipo de mensagem criptografada no qual o assassino deseja se comunicar. É pensando nisso que vem as maiores perguntas: “Por que ele faria isso?”. Seria ilógico deixar tais pistas tão sobressalentes dos assassinatos que com certeza, mais cedo ou mais tarde, iriam revelar a sua identidade. Era óbvio que tinha algo mais por trás disso.

Erick então colocou cada um dos dados enfileirados diante de si e então começou a organizá-los de acordo com seus aparecimentos.

“Eu posso ter encontrado primeiro esse dado de 20 faces, porém, este dado de 6 faces foi deixado na casa de Vincent, a primeira vítima, pelo assassino. Então o primeiro dado seria este, o D6.”, pensou o detetive.

“Depois do D6 vem o D20, encontrado na estação de metrô onde a Princesa e Nin Soo foram mortos.”, Em linha horizontal, o dado de 20 faces se posicionou ao lado do de seis. “Em seguida vem este dado, o de 10 Faces encontrado no Hotel onde Kravinoth foi assassinado.”, igualmente ao 20 faces, o dado de 10 faces entrou na fila. “Restou agora este último dado, o de 12 faces, onde encontramos no meio do mato do clube de golfe onde o Philox foi a próxima vítima.”

Erick respirou fundo. Seu coração estava calmo, mas a qualquer momento sua adrenalina poderia explodir. Havia muita tensão nesse momento. Simplesmente o detetive do Arcanorum estava diante da única, evidente e incontestáveis provas sobre o assassino e ele precisaria de muita calma para solucionar.

Primeiramente ele prestou atenção em um detalhe curioso. Todos os dados são da mesma cor. Eles são de cor roxo, perolados, com os números em dourado. Isso não poderia ser uma simples coincidência. Coincidência seria se fossem todos brancos com números pretos, tipos de dados mais comuns no mercado. Esses eram sem dúvida especiais, escolhidos a dedo pelo assassino com algum tipo de propósito. A partir daí ele começaria a sua pesquisa.

Buscando seu celular, Erick entrou na página de pesquisas da internet e buscou informações sobre a cor roxa. Logo de cara deparou a com a seguinte descrição:

 

“O violeta e o roxo são cores de transformação ao mais alto nível espiritual e mental, capazes de combater os medos e contribuir paz. Eles têm um efeito de limpeza nos transtornos emocionais. Eles nos conectam também com os impulsos musicais e artísticos, o mistério e a sensibilidade à beleza e os grandes ideais, inspirando-nos sensibilidade, espiritualidade e compaixão.’

‘A cor roxa está sócio com a proteção psíquica.”

 

“A cor de transformação?”, pensou Erick intrigado. Outro ponto que lhe chamou a atenção foi: “efeito de limpeza nos transtornos emocionais”.

— Isso pode fazer algum sentido se formos investigar a psiquê do cara, mas não é exatamente isso que estou procurando. – disse em voz alta pra si mesmo.

Retornando as pesquisas ele se esbarrou em outro site sobre o significado das cores, porém bem mais simples que o anterior resumindo o significado da cor em uma única linha:

 

“- Roxo: Equivale a um pensamento meditativo e místico, mistério. Assim como o preto, remete a nobreza e poder. Ex: Sonho, mistério, egoísmo, nobreza, fantasia, profundidade, doença.”

 

— Interessante. – disse Erick. — Essa cor realmente expressa esses adjetivos apresentados. “Nobreza”… Hmm… Interessante. Com certeza esta foi umas das cores mais usadas pela nobreza nos tempos antigos, principalmente aqui na Inglaterra. Entretanto, se bem me recordo das aulas de história, não era uma cor muito representativa. Como diz na descrição, “mistério e profundidade”, eram a chave daqueles que a usavam.

Então, sem precisar de muito esforço, Erick se lembrou de um outro detalhe importantíssimo. Essa tal lembrança o fez fechar o semblante com olhos felinos para os dados:

— Desde os tempos medievais as cores das vestimentas cerimoniais dos Diáconos e Conselheiros do Arcanorum sempre foram Roxas. Com certeza essa cor foi escolhida a dedo. Mas, daí vem a segunda questão: Se o assassino é um dos membros do Conselho, então por que ele estaria se entregando tão facilmente?

Nesse momento veio em mente a lembrança as palavras de Derek no metrô, o único que realmente sabia da verdade:

— De todos do Conselho, Derek é o único que conheceu cara-a-cara o assassino e escondeu isso em seu depoimento. Mas, eu me lembro muito bem de suas palavras naquela estação:

 

“Você não pode fugir de mim, garoto! Eu já sei de seu crime! Por que você está fazendo isso?!?”

 

— Nunca Derek Johannes iria tratar um dos membros do Conselho como sendo um “garoto”, principalmente neste Conselho onde todos no mínimo tem mais de 50 anos de idade.

Agora se tornou fato: independente do que aquela coleção de dados roxos perolados quisessem dizer, a idéia de que o assassino é um dos Grão-Mestres é totalmente descartada.

— Entretanto, existe algo que me chamou a atenção… Essa cor faz uma nítida referencia a um tipo especial indivíduo, vendo pelo ponto de vista sobrenatural. Se eu quisesse falar de vampiros usaria a cor Vermelho, que é a cor do sangue, a maldição dos vampiros. Se eu quisesse me referir aos lobisomens talvez escolheria… a cor pérola, tanto pra representar a Lua quanto a idéia de que a cultura da maioria dos metamorfos se baseia em ossos. Poderia escolher também o vermelho perolado, afinal os Lobisomens são sempre guiados por sua Fúria Bestial.

Erick novamente pegou um dos dados, o D10, e o examinou bem próximo:

— Mas se eu fosse escolher uma cor para representar todos os místicos, adeptos de toda e qualquer tipo de magia, eu escolheria o exatamente o roxo. Principalmente por causa de seus adjetivos: “meditativo, místico, misterioso, sonhador, egoísmo, nobreza, etc…”. Esta sim é a cor dos Magos.

Devolvendo o dado para a fileira indiana, Erick voltou seus pensamentos agora para outra questão, obviamente a de maior importância: decifrar o significado dos dados.

— Primeiro temos este D6. Por que um dado de seis faces foi deixado na cena do crime? Por que não um de 20, ou de 10? Eu não acredito que a única coisa importante nos dados sejam sua cor, pra significar nobreza ou os místicos. Os números tem que significar algo, caso contrário ele teria colocados números repetidos ou dados sem número.

Erick novamente voltou a pensar…

— 6, 20, 10 e 12. – silencio… e outro estalo nas idéias: — Se eu fosse o assassino, por que eu usaria esses dados? Pra deixar uma mensagem, é claro. Mas que tipo de mensagem? Uma mensagem curta e direta seria o mais lógico. Um nome, talvez.

Erick ficou pensando… pensando… e pensando um pouco mais, até que então ele teve uma idéia. Entretanto ele precisaria de um papel e uma caneta. Ele logo praguejou lembrando-se que não tinha nada com ele, principalmente numa casa abandonada e vazia. Como ele sentia falta o seu quadro negro. Segundos depois ele bateu a mão na testa lembrando-se de que seu celular era também um palmtop touch-screen. Com a pequena caneta digital, Erick começou a escrever no bloco de notas de seu aparelho uma seqüência na horizontal do alfabeto ocidental. Em seguida ele escreveu na linha logo abaixo uma seqüência de números que iam do 1 ao 26, sendo então “A” o número “1” e “Z” o número “26”.

Continuando seu raciocínio ele começou a ponderar na seguinte questão: “Por que o uso de Dados”? Os dados iam de 1 a 6, 1 a 20, 1 a 10 e 1 a 12, resultando uma possível seqüência de palavras quase infinitas. Porém, é de se perceber que nenhum dos dados ultrapassava o número de letras do alfabeto.

“E existe algum dado com mais de 26 faces?”, pensou intrigado, porém sem mostrar surpresa afinal pra quem nunca tinha visto dados multifacetados ver um D50 não seria surpresa!

— Certo… Então vejamos… Vou trabalhar apenas com números fixos das faces: 6, 20, 10 e 12. Daí… comparando com o alfabeto temos: “F”, “T”, “J”, e “L”. Hm… curioso. Mas ainda sem dar nenhuma resposta. Seria um anagrama? Se fosse é bem complexo. – de repente vieram as lembranças dos tempos de academia de Erick: — Droga!!! Por que eu não prestei mais atenção nas aulas de anagramas e simbologia?

“F, T, J, L. Não são as iniciais de ninguém que eu conheço. Nem dos suspeitos principais envolvidos. Também não são as iniciais de nenhum dos assassinados.”

Erick estava se sentindo perdido, confuso e com uma sensação horrível na garganta de que tal enigma poderia ser tão fácil e simples quanto ele imaginava. Na verdade, ele tinha plena convicção de que era ele que estava complicando. Sacolejando os dados entre os dedos Erick retornou aos pensamentos originais:

— Quatro dados foram deixados nos locais do crime. Um “D6” foi deixado quando Vincent Vaugh foi assassinado. Um “D20” foi deixado quando Nin Soo Yan e a Princesa Hanover foram mortos. Um “D10” quando Kravinoth foi a bola da vez, e um “D12” na vez de Philox. Em resumo: Um dado pra cada menos uma morte.

Como uma lâmpada sendo acesa, Erick teve um lapso inspiratório: “Será que…”. Não demorou muito pra ele pegar novamente o seu celular e voltar a fazer anotações. O que ele pensou era simples e talvez “meio” lógico. Pelo menos mais lógico do que pensar na “influencia dos dados nos livros de rpg e sua utilidade”. Enquanto seu pensamento fervilhava as idéias, ele escrevia rápido sob a tela de seu celular com a canetinha adequada, e falava em voz alta o caminhar de seus pensamentos:

— Vincent Vaugh. Dado: 6. Lista de Assassinatos: “-1”. Então… 6 menos 1 é igual a… 5. E “5” no alfabeto é a letra… “E”.

Minutos de pensamento lógico se passaram, até que finalmente Erick chegou na única resposta que esses dados poderiam significar. Entretanto, tal resposta parecia estar incompleta, mas ao que tudo indica, era a única resposta lógica nisso tudo, mesmo que tal estivesse indo de encontro com tudo aquilo que ele nunca poderia imaginar:

— NÃO PODE SER!!! - exclamou Erick derrubando o celular no chão. – Não pode ser ele!!! Não pode!!! Ele não pode ser o assassino!!! ‘Tá errada essa minha dedução!! Derek nunca trataria ele como se fosse um “garoto”. E também… o homem que eu vi na estação… não poderia nunca ser Ele!!! – passando um pouco a euforia, Erick começou a se lembrar da idéia de Nick dias atrás: “E se o assassino não estivesse sozinho?”, “E se ele tivesse alguém lhe protegendo? Um mandante, talvez?”.

Foi ai que a dedução de Erick se fundamentou de vez no chão. Não havia lógica no assassino ficar deixando pistas para se auto-incriminar. Não pistas tão simplórias, que qualquer leitor de “Código Da Vinci” poderia solucionar! Ele não estava SE incriminando. Ele estava querendo incriminar AQUELE que armou tudo isso. Por isso os dados são roxos! A Nobreza inerente dessa pessoa faz tornar-se lógica tal dedução!

— Mas e se eu estiver errado? Pra que seja realmente esta pessoa ainda faltaria um dado a ser jogado. Um dado que ficaria entre o D10 e o D12. E por que esse último dado está fora de ordem? Será que não era pro Philox ter morrido naquela vez? Será que os planos foram mudados? Mas se for verdade… Que dado resta pra fechar o anagrama?

Olhando novamente para o alfabeto em seu celular, um raio de espanto cortou sua cabeça ao meio:

— Falta 1 “D20”. Para isso precisariam morrer… Cinco pessoas de uma só vez.

 

“Oh… meu… Deus…”

 

Catando suas coisas e os dados, Erick não podia ficar mais nenhum segundo naquele lugar. Ele nem se preocupou em cancelar os ritos de proteção que havia criado. Simplesmente ele saiu da casa às pressas e, mesmo sem carro, ele deveria ir o mais rápido possível para o único lugar onde era certeza onde ocorreria o próximo atentado: A reunião de Grão-Mestres na Jupiter’s Corp.

Mas foi chegando na altura da esquina que Erick foi surpreendido por doze vampiros sedentos por sangue querendo cumprir com as ordens do Conselho Vampírico em caçar sem piedade o “mago suspeito por ter matado sua Princesa”. Eles sabiam desde o inicio que ele estava na casa de Sebastian, porém a magia de Erick realmente tinha surtido efeito. Eles pensaram que ele só sairia dali pela manhã, mas: “se o policial não tem medo da morte, então daremos isso a ele com prazer”.

Erick estava com sua paciência no limite. E sem tempo pra perder com aqueles infelizes o mago explodiu toda a sua raiva sobre eles:

 

SAIAM DO MEU CAMINHO!!!

 

Com apenas um estalar dos dedos, Erick manipulou todas as energias primordiais ao seu redor, e sem qualquer necessidade de ritos ou focos iniciais, o mago transformou doze vampiros em fogueiras humanas. Os poderes de Erick, sem que ele percebesse, haviam aumentado consideravelmente.

Seguindo seu caminho, o mago detetive da Ordem de Salomão foi deixando para trás sua trilha de cinzas e corpos carbonizados.

 

*****

 

00h20min.

 

James não parava de tentar entrar em contato com a Base. A mais de vinte minutos ele não tem contato nenhum com Keira. A última coisa que ele escutou de sua esposa foi algo que o deixou perturbado:

“JAMES… MATT… SAIAM JÁ DAÍ!!! É UMA ARMADILHAAA!!!”.

O que ela quis dizer com “armadilha”? O que a deixou tão desesperada? Ele já havia conseguido pegar a chave de lítio que precisavam, mas antes disso James resolveu conferir o que aconteceu com Matthew e Phillipp. De acordo com o PHDA o sinal dos dois havia desaparecido. Isso não significava boa coisa.

Dando a volta no prédio, subindo e descendo escadas, finalmente James, acompanhado dos lupinos Slayer e Rocky, chegou até a sala de reuniões onde pela ultima vez foi visto o sinal de Matthew e Phillipp. Ao abrir a grande porta de madeira, o agente iluminado teve uma grande surpresa: Havia um cadáver largado no meio da sala.

Com a adrenalina indo a mil, pensando logo na pior coisa possível, James correu até o cadáver e acendeu a lanterna de seu PHDA. Uma nova surpresa veio a galopes até ele:

— Quem é esse cara? – perguntou o lupino Slayer que estava ao seu lado.

— É o nosso… chefe. O Almirante Dorje Washington.

— Então mataram o líder de vocês. Será que foi o mesmo assassino que matou o meu ancião?

— E-eu não sei. Provavelmente sim.

Dorje Washington estava inegavelmente morto. Para os lupinos era incompreensível a forma que ele morreu, mas para James estava claro: ele foi morto por uma pistola laser em nível mortal. Seu tórax foi completamente estraçalhado pela rajada fulminante e o que restou estava jogado por toda a sala. Uma terrível perda, mas não era hora pra perder com isso. James estava preocupado com Matthew e Phillipp.

O agente logo se prontificou em colocar seu PHDA pra trabalhar. Ele iria procurar analises espectrais e biológicos de seus amigos. Se eles estiveram naquela sala com certeza…

— Encontrei. – afirmou James rapidamente indo até um outro ponto da sala, um pouco próximo ao corpo de Dorje. Naquele local as leituras de seu PHDA fervilhavam. Ele simplesmente não encontrou nada a olho nu, porém seu computador portátil afirmava que ali, naquele local, havia resíduos microscópicos de um dos agentes da Prometeu.

— O que você encontrou ai?

— Provavelmente… o que restou do meu amigo Matt.

— Como assim??

— Está vendo esta minha pistola aqui? – e James mostrou sua pistola laser. – Colocada em potencia média ela faz aquilo que você ‘tá vendo ali. – disse apontando pro cadáver do Almirante. – Já na potência máxima… o alvo é totalmente carbonizado não sobrando nada da vítima…

— Mas não é só vocês que possuem essas armas futuristas?

— Sim, e não. O que te impede de tirar essa arma de minha mão e me fulminar? O que impede de encontrarmos aqui Iluminados corrompidos pelas forças das trevas? Tudo é possível!

— Entendo.

— Espere! Tem mais leituras aqui nesta sala…

Quando James disse isso, os lobisomens também detectaram algo de estranho, porém era algo espiritual que com certeza o aparelho do agente não perceberia. Existe algo de muito terrível prestes a acontecer…

— Tecnomante! Nós precisamos sair daqui desse prédio agora! – informou Slayer.

— Só um instante… - James estava absorto em sua busca mexendo constantemente em seu PHDA tentando decifrar o que eram aquelas estranhas leituras que ele estava detectando. De repente ele encontrou algo estranho no chão. Em um ponto específico da sala, indo na direção oposta onde ele encontrou vestígios do Matthew, o carpete estava queimado, como se uma granada tivesse explodido ali. Entretanto, não havia sinais de pólvora no recinto.

Aproximando-se melhor do local, novamente James encontrou outras leituras biológicas, que o fizeram cair em uma tristeza profunda. Eram também resíduos microscópicos humanos, só que desta vez eram de Phillipp. Agora estava claro o que aconteceu ali. Tanto o Almirante, quanto seus dois amigos foram pegos numa armadilha e foram mortos um a um. Pelas mortes, estava claro que foi um agente iluminado que os eliminou.

— TECNOMANTE! NÓS PRECISAMOS SAIR DAQUI AGORA!!!

James mal teve tempo pra entender o por que da atitude desesperada dos lobisomens. O agente foi agarrado pelos colegas que já estavam em sua forma bestial de mais de dois metros e em seguida foi levado diretamente para além da película, indo direto para os Reinos Espirituais.

 

*****

 

00h25min.

 

Mesmo sem a presença do Grão-Mestre dos Iluminados, os quatro Grão-Mestres que estavam aguardando a chegada do Diácono resolveram que já estava ficando muito tarde e que era melhor dar por encerrada esta reunião que nem havia começado. Quando todos se levantaram para sair, foi então que Ludmilla Reevers, da Escola Cabalística de Luft escutou algo de estranho vindo do interior da sala. Parecia o som de um relógio apitando algum tipo de alarme. Ao olhar por baixo da mesa, a Grã-Mestra só teve tempo pra prender a respiração, enquanto seus olhos arregalavam em puro terror.

No instante seguinte, o prédio da Jupiter’s Corp explodiu num cogumelo de fogo e metal retorcido, causando uma onda de choque que abalou todos os edifícios da região, matando todos aqueles lá estavam.

 

*****

 

00h30min.

 

Com o baque da explosão, novamente Sebastian caiu no chão desfalecido e bastante ferido. Enfrentado a quase meia-hora o vampiro Arkdocez, mesmo usando a Dark Sword ele não conseguia se quer tocar no inimigo. O verdadeiro confronto mal havia começado e Sebastian estava perdendo.

Não era pra menos. Mesmo sendo um vampiro igual ao Sebastian, Arkdocez tinha diversos tipos de poderes sobrenaturais e ele parecia ser de um nivel muito mais elevado que o do jovem neófito. Dentre seus inúmeros poderes estavam a capacidade de se transformar numa criatura bestial que era meio-homem e meio-morcego, velocidade incrivelmente espetacular, garras, e por ultimo, o que mais irritava o portador da Dark Sword: a Explosão de Energia. De alguma forma ele conseguia por alguns momentos focalizar a sua energia e depois dispersá-la em forma de explosão derrumando imediatamente o inimigo que não tinha para onde escapar. Só nessa luta, Sebastian foi pego nessa umas dez vezes.

Quando é que você vai perceber que nesse nivel você nunca irá me vencer.

Sebastian teve que concordar. Se continuasse daquele jeito ele ia acabar com a cabeça separada do pescoço, isso mesmo usando a espada. Entretanto, ele não estava usando realmente os poderes da Dark Sword. Se Sebastian usasse o poder máximo da Dark Sword, como quando na vez em que enfrentou Danyael e a Light Sword pela primeira vez, esse vampiro não teria a menor chance.

Mas havia um problema nisso… Além de fazer muito tempo que ele não usava esses poderes, da ultima vez ele quase fez uma merda irreparável. Sebastian estava com medo de fazer besteira de novo.

Novamente o vampiro veio para o ataque, e a galopes. O jovem vampiro bloqueou o ataque com a espada, porém teve seu braço rasgado pelas garras afiadas de Arkdocez. Urrando de dor e sentindo a sua carne queimar, Sebastian enfim se decidiu: Ou ele colocava um fim naquilo, ou esse seria o seu fim:

— Agora chega!!!

Segurando firme o cabo de sua espada, Sebastian concentrou-se no poder da Dark Sword e na ligaçao espiritual que ela tinha com ele. Naquele momento ele sentiu as fortes vibrações de energia tomarem todo o seu corpo. Seus cabelos começaram a tornar-se vermelhos. Sua pele foi escurecendo pouco a pouco. De suas costas brotavam protuberancias que de dentro emergiram enormes asas negras de corvo.

De qualquer canto da cidade podia se escutar o trovejar dos relâmpagos, mesmo hoje sendo uma noite sem nuvens. O filho das trevas estava ressurgindo após muitos anos. A Mansão Nottingham agora era banhada por uma onda de ressonância que ia crescendo infinitamente. Uma espiral de energia negativa surgira sobre a mansão. Era evidente o que ia acontecer a partir dali. Sebastian não ia perdoar o assassino de seu irmão. Arkdocez também sabia que não tinha a menor chance perante os poderes da Dark Sword. O embate seria decidido em poucos instantes, caso não fosse um detalhe que perturbava Sebastian: A tranqüilidade de Arkdocez.

E já chegando no fim de sua transformação, naqueles milésimos de segundos que se transcorreram, Sebastian pensou consigo mesmo preocupado: “E se ele tivesse me forçado a isso?”

Foi no instante me que bateu a dúvida no consciente de Sebastian que Arkdocez agiu. Ao contrário do que podia-se pensar, ele não atacou e nem muito menos fugiu. Simplesmente voltou a sua forma original e tirando um pedaço de giz que estava guardado, o vampiro demoníaco da Mansão Nottingham riscou o chão concluindo assim o Circulo Ritualístico que ele havia deixado propositalmente inacabado.

Sebastian havia percebido isso e se viu preso dentro da armadilha. Imediatamente ele pensou em parar a transformação, porém já era tarde. O jovem portador da Dark Sword imediatamente caiu em inconsciência.

 

“Onde estou…” – questionou Sebastian em meio ao oblívio total onde se encontrava sua mente.

“O que aconteceu aqui?”

Observando melhor, Sebastian agora se via num local totalmente vazio e branco. Não havia paredes, não havia horizonte, não havia nada. Apenas o eterno branco.

 

“Olá.”

 

Sebastian teve que piscar duas vezes até ver direito a origem dessa voz que ecoou no vazio. Aquilo não era humano. Também não era um espírito. Formado apenas de uma energia escurecida que circundava todo o seu corpo, um garoto estava bem diante de Sebastian. Ele tinha o porte físico de um garoto de doze anos, magrinho e com apenas um sorriso visível no que seria sua face. Ele era o “nada” circundado por essa energia negra que formava o seu corpo. Ele estava  sorridente. Até parecia que ele estava esperando por aquele momento…

 

“Quem é você?” – questionou Sebastian.

“Eu? Nós já nos conhecemos antes.”

“Antes?? Quando??”

“Na vez em que a luz da Light Sword varreu o mundo e você foi escolhido pelas trevas. Na vez em que mergulhou nas Sombras do mundo espiritual. Quando foi abraçado pela princesa. Eu sempre estive te observando. Eu sempre estive ao seu lado. Eu… Sou Você.”

“D-Do que você está falando…?”

“Durante muitos anos estive preso nas trevas esperando o momento certo pra retornar. Durante anos eu neguei aquilo que era o meu destino. Daquela vez eu perdi tudo: minha família, meus amigos, meu corpo e minha alma. E agora… Eu quero tudo de volta. Tudo que é meu por direito!

 

A energia negra que o circundava ficou absurdamente agitada até que, como se fosse uma passagem, um garoto real saiu de dentro daquela imagem e mesmo sem nunca tê-lo visto na vida, no fundo Sebastian sabia quem ele era:

 

“Mark…”

 

O jovem Mark Nottingham surgiu do vazio profundo e parou diante de Sebastian com um sorriso maquiavélico no rosto. Ele esperou por muitos anos e finalmente havia conseguido tudo o que mais queria: Voltar do Inferno.

 

“Eu, o verdadeiro Portador da Dark Sword, estou de volta. O jogo acabou pra você, Sebastian West.”

 

*****

 

00h35min.

 

Dos sete, quatro estavam inconscientes, dois quase aleijados e o último ainda lutava com todas as suas forças para derrotar o poderoso inimigo: o Portador da Light Sword. Poderia se pensar que Danyael havia feito tudo isso graças a ajuda de sua poderosa espada, mas era mero engano. Como ele pode provar pro grupo de anjos que veio lhe enfrentar, Danyael não era limitado apenas a sua espada. Ele sabia lutar, e agradecia imensamente ao seu pai por isso.

Ele não conhecia apenas as artes de Kung Fu (aprimoradas pra sua condição angelical), seu poderes haviam aumentado e agora conseguia realizar seqüências de manobras altamente eficazes. Mas isso ainda era pouco para derrubar Ângela, a Captare.

A anjo vinha pra cima de Danyael feito uma leoa feroz. Com sua lança dourada e sua força sobrenatural já havia feito um estrago por quase todos os telhados da região e, ainda nos céus, os dois travavam um combate feroz. Já com quase três quilometros de distancia do local inicial da luta, Danyael e Ângela chegaram a um ponto onde já estavam no corpo-a-corpo. Obviamente Ângela tentava atacá-lo de qualquer forma, porém Danyael estava desconfortável com aquela luta, afinal ele nunca tinha lutado com uma mulher antes, preferindo apenas tentar pará-la.

Laçando sua perna esquerda entre as pernas da adversária e segurando firme seus braços colocando entre eles a lança da Captare, Danyael finalmente conseguiu imobilizar a furiosa anjo. Sem forças pra poder sair dali e a apenas um palmo de distancia dos olhos de Danyael, era a vez de Ângela se sentir desconfortável:

— Acabe logo com isso e me mate.

— Você ficou louca? Mesmo me tratando como um inimigo, tanto você quanto eu ainda somos Anjos e não podemos matar uns aos outros.

— Solte-me!!!

— Só se você parar de querer me atacar e aceitar a minha vitoria.

Ângela estava bufando de ódio. Nem em seus piores pesadelos ela cogitou a hipótese de lançar o pano branco sobre um combate. Aquilo era sem dúvida uma ofensa para a Captare.

— Prefiro morrer a ter que me dar por vencida.

Sério, Danyael olhou bem no fundo dos olhos de sua rival:

— Então será do jeito que você quer.

Com bastante força, Danyael empurrou a anjo de perto criando um grande espaço entre eles. Em seguida, levando a mão direita até as costas, Danyael sacou a sua poderosa espada. A Light Sword brilhava resplandecente como ouro banhado pela luz do sol.

— Até agora eu estava apenas te evitando. Mas estou vendo que você é que nem a Lilith nesse aspecto: cabeça-dura. Então é o seguinte: Você sabe que qualquer movimento seu contra mim agora será totalmente inútil, e você só não morrerá se eu quiser. Então, ou você decide parar com essa babaquice e encerrar esse combate, levando minhas condolências ao Conselho Prateado, ou eu juro que no mínimo você terá uma morte honrosa.

As palavras de Danyael agora surtiram efeito. Ângela sabia bem que não tinha menor chance contra o poder da Light Sword nas mãos de Danyael, mas seu orgulho ainda falava mais alto. Entretanto, antes que qualquer um dos dois pudesse dar mais um passo em direção ao outro, novamente o som de um trovão atípico rasgou os céus da cidade. Danyael e Ângela instintivamente pararam o combate e olharam para a situação:

— Sentiu isso? – questionou Danyael.

— Sim… parece uma forte ressonância de energia das trevas. Nunca senti nada igual.

— Mas eu já. – e realmente ele já havia visto algo parecido, porém isso foi a cinco anos atrás na Guerra em Oxford. – Ângela, querendo você ou não, nosso assunto terá que ficar pra uma próxima ocasião.

— Como é…?

— Até mais!!

Dando as costas para a adversária, Danyael rasgou os céus de Londres feito um míssil abandonando o combate e indo direto na direção dessa terrível energia que ele sentia. Em seus pensamentos ele rezava com todas as forças para que não fosse o pior:

— Sebastian… O que você está fazendo?!?

 

*****

 

00h40min. (Horário de Londres.)

 

Ela aguardava em seus aposentos aflita. A Guerra já havia começado. Tudo começou com fortes tremores que lembrava terremotos, mas nada mais eram que o exército inimigo vindo invadir as terras de sua família. Lilith teve que concordar com Tânatos que ela estava sem condições de lutar, mas seu coração estava lá com ele desesperado. Ela sempre soube que seu irmão era bastante poderoso, algo que era indiscutível para muitos, mas… será que ele seria forte o suficiente para parar o exército que havia derrubado o Terceiro dos Três Líderes do Inferno?

Tânatos também não estava sozinho nesta guerra. Desde as épocas mitológicas, todos os guerreiros e soldados gregos que lutaram nas guerras do passado faziam parte do exército do poderoso deus grego Hades. Eram soldados troianos, atenienses, arcadianos, espartanos e muitos outros que estavam agora ao lado do Deus da Morte Tânatos contra o exército inimigo que já derrubara dois quintos do Inferno.

Do alto da torre onde ficava o seu quarto, Lilith escutava perfeitamente o som dos gritos de homens morrendo, de espadas dilacerando a carne e o perispirito dos derrotados, as flechas e magias que voavam de um lado para outro causando grandes desastres. A filha caçula de Hades foi alertada para não ficar próxima as janelas, para que nada lhe acontecesse. Porém, foi impossível não resistir  curiosidade quando após horas de combate incessante veio um breve silêncio.

Lilith se levantou de sua cama com o coração apertado e, andando calmamente com a enorme barriga que carregava (um fato estranho, vide que estava apenas no quarto mês de gestação), se aproximou da janela olhando apenas com cuidado para o lado de fora. Não precisou de binóculo para que Lilith pudesse ver claramente seu irmão Tânatos sendo degolado e sua cabeça levantada como um troféu por um demônio.

O desespero tomou conta de Lilith. Num estado emocional absolutamente frágil, a jovem caiu de joelhos no chão em prantos sem saber o que fazer. O que ela poderia fazer? Do nada, essa barriga começou a crescer absurdamente, como se a criança quisesse nascer logo pra poder vingar a morte de seu tio. “E agora, o que seria dela??” Não havia mais dúvidas, ela precisava do socorro de Danyael urgentemente, pois com certeza ela seria a próxima!

Foi no arranque que ela se levantou do chão indo correndo até sua bolsa onde estava guardado o seu celular. Graças aos poderes mágicos do Tio Eriol o aparelho era capaz de fazer ligações para o telefone do Danyael mesmo estando no Inferno.

Estava chamando…

Por que ele não atendia??? Será que Danyael estava ainda chateado por causa daquela discussão que eles tiveram? Isso era um absurdo devido a condição terrível o qual ela se encontrava. Chamou várias vezes até cair na caixa postal. Não tinha o que fazer: era apertar redial, e tentar falar com o Danyael de qualquer jeito. Mas antes que Lilith escutasse o segundo toque, a porta de seu quarto foi arrombada.

Derrubando o celular no chão, a jovem rapidamente arrancou seu colar do pescoço e, num rápido movimento, a pequena cruz de prata se transformou numa belíssima espada herdada de seu pai. Mesmo estando grávida, ela não iria se entregar tão facilmente…

Eis que aquele que derrubara a porta apenas com a força do pensamento surgiu dentro do quarto. Seus passos eram lentos e serenos, como se nem estivesse afetado pela guerra que acabara de vir. Suas vestes de couro de dragão negro arrastavam as pontas pelo chão e aos poucos se aproximavam da indefesa Lilith. Com seus cabelos brancos cheios e pontiagudos, rosto de menina, olhos de serpente e voz de trovão, era impossível não reconhecer quem era.

E foi só a noção de saber de quem se tratava que por um instante Lilith vacilou e baixou centímetros a sua espada, sua única arma de defesa.

 

Azazel…

 

O nome do inimigo saiu da boca de Lilith quase como um sopro, de tão baixo. Mais rápido que o piscar dos olhos, Azazel, o anjo caído, levantou a mão direita e junto com ela a espada de Lilith saiu de sua mão e voou para bem longe indo para do outro lado do aposento. Após desarmar sua vitima, o anjo veio caminhando lentamente em direção a ela sem qualquer demonstração de sentimentos perante uma grávida.

Lilith tentou fugir. Mas Azazel foi mais rápido e prendeu os movimentos dela com seus poderes telepáticos. Em seguida ele a arremessou contra a parede com tanta violência que a jovem urrou de dor. Ela queria muito proteger o seu ventre, no puro extinto materno de proteção do filho, mas era impossível para ela resistir ao tamanho poder daquele anjo.

Ele continuou se aproximando dela lentamente. Quando finalmente estava frente a frente, Azazel passou delicadamente seus dedos sobre o ventre de Lilith:

— TIRE SUAS MÃOS DE MIIIIIMM!!!

O grito de Lilith em nada o abalou. Parecia que Azazel ignorava completamente a presença dela ali. Com a voz pausada e serena ele se pronunciou:

— Então você carrega aqui em seu ventre uma criatura meio-demônio e meio-anjo.

— “CRIATURA” É VOCÊ SEU VIADO!!! – em seguida ela cuspiu no rosto de Azazel.

Limpando o rosto, Azazel apenas pode sorrir com tamanha inocência de sua vitima. “Como se uma saliva fosse me matar”.

— Não se preocupe, minha cara. Não tenho interesse em te matar. Entretanto… - ele olhou novamente para o ventre da jovem, desta vez maquiavélico. — O que você carrega em sua barriga será a chave de minha vitória!

— NÃO OUSE TOCAR EM MIM SE NÃO…

— Se não o que?

— O meu marido vai fazê-lo em pedaços com a Light Sword!!!

Como um homem afeminado, Azazel levou os dedos até os lábios e soltou sua risada sarcástica:

— Hahahahahahahaha!!!

— DO QUE ESTÁ RINDO, SUA BICHA?!?

— De sua inocência, minha cara. Você acha mesmo que eu não tenho nada planejado para isso? Eu aguardei e me preparei para este momento por 49 anos, e nada e nem ninguém irá me deter. Nem o seu namoradinho com a Light Sword. Aliás… você teve uma boa conversa com ele da última vez que se viram?

— Do que você está falando?

— Espero que sim, afinal aquela foi a última vez que vocês se virão na vida!!!

Escutar aquilo secou a garganta da Lilith, mas nada se comparou com o que aconteceu logo em seguida. Sem qualquer aviso, Azazel enfiou sua mão dentro do ventre de Lilith rasgando a barriga da jovem fazendo jorrar sangue por todos os lados. Mas sua intenção não era de matá-la. Usando algum tipo de magia, Azazel conseguiu retirar de Lilith seu tesouro mais precioso. Por causa da dor e do desespero, a jovem por uns instantes ficou desacordada.

 

Agora no chão, Lilith se encontrava sozinha e totalmente desfalecida, com a mão sobre seu ventre. Ela estava em meio a uma verdadeira poça de sangue e com os olhos cheios de lágrimas e ódio ela gritou tão alto que provavelmente todo o Inferno pode escutar.

Não foi o grito de dor. Foi o grito de desespero de uma mãe:

 

— NÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!!! NÃÃÃÃOOOOOO!!! LEVARAM O MEU BEBÊ!!!

 

*****

 

00h45min.

 

— NÃO DISCUTE COMIGO, STEPHANIE!!! VENHA JÁ COMIGO!!!

O grito de ordem de Derek ecoou tão alto pelo prédio onde Eriol morava, que até os vizinhos acordaram com a barulheira.

— Mas o que está acontecendo?!?

— Depois eu explico!!! Você tem que vir comigo agora!!!

— Derek, você está ficando louco!!! Já disse que demos um tempo pra pensar!!!

Chegando no limiar de sua paciência, Derek tomou uma atitude drástica. Lançando um feitiço poderoso sobre a mente de Stephanie, a jovem imediatamente caiu em sono profundo. Pegado-a nos braços, Derek não se preocupou em levar absolutamente nada, apenas a carregou até o elevador onde a levaria até seu carro.

— Perdoe-me. Mas depois eu explicarei tudo…

 

Da esquina onde ficava a residência de Eriol, um homem observava de seu carro atentamente Derek levando uma Staphanie adormecida nos braços e a colocando dentro de um carro. Aquilo tudo estava muito estranho para Dan Viper. Quando o carro de Derek deu a partida e seguiu em frente, o mercenário fez o mesmo e seguiu atrás de Derek mantendo-se bastante furtivo no transito.

— Eu sei que algo está pra acontecer, e se você está fugindo da cidade com a mãe de seu filho, com certeza é algo muito foda! Diferente da última vez na outra vida, desta vez não pagarei pra ver, Derek Johannes!

 

*****

 

00h50min.

 

Erick havia acabado de chegar no local da explosão. Como na área próxima ao prédio havia muitos bombeiros, policiais e curiosos, o investigador decidiu ir até o terraço de um dos prédios vizinhos para poder ter privacidade. Ele precisava confirmar as suas suspeitas e para isso ele ia fazer um ritual mágico.

Era difícil se concentrar nas rotinas de magia quando seus pensamentos estavam fervilhando. Mas por mais que ele tentasse negar, talvez tudo começasse a fazer sentido agora. Só havia uma coisa que faltava explicar: “Por que ele faria tudo isso?”. O pior talvez nem fosse descobrir a verdade. O pior certamente era saber que durante todos esses meses ele vinha sendo enganado desde o inicio…

Pronto. Estava concluído seu rápido ritual de convocação. Ele já tinha 4 dados, se houvesse um quinto no meio dos escombros ele iria conseguir convocá-la até ele com o poder empático dos outros quatro. No exato momento em que ele colocou a mão no circulo de invocação desenhado no chão, Erick não conseguiu deixar de rezar:

“Deus, por favor… Não seja o que eu estou pensando que é…”

A magia foi um sucesso. Por ser bem pequeno e estando camuflado por causa da enorme nuvem de fumaça, o pequeno dado roxo perolado veio até a mão de Erick voando. Ao olhar para o dado, sua suspeita enfim foi encerrada: Erick sabia quem era o mandante de todos esses assassinatos.

 

Um barulho estranho surgiu por trás de Erick e imediatamente ele se levantou. Quando viu quem era, tomou um susto. Mas… sabendo exatamente de quem se tratava, não era na verdade nenhuma surpresa que ele soubesse exatamente quando, como e onde Erick descobriria o seu terrível segredo.

Era uma sensação muita estranha estar diante daquele homem naquele momento.

— Você me enganou. Esse tempo todo você me enganou.

— Era necessário.

— Se você sabia que eu ia descobrir, por então no inicio me ajudou e me confiou as investigações desses assassinatos?

— Volto a dizer, Sr. Russell. Era necessário.

— Você sabe que mesmo sendo o Senhor, eu não me calarei.

— É justamente por isso eu estou aqui.

Num instante, as emoções de Erick flutuaram. Como ele queria acordar daquele pesadelo…

— Eu não entendo, Mestre… Por que? Por que você vem fazendo isso tudo desde o inicio? Por que dessa forma tão radical?

— Há certos momentos em nossa vida que nós precisamos ser radicais.

— Eu não entendo… Se era você por trás disso tudo desde o inicio, por que existe uma certa falta de ligação entre os primeiros assassinatos?

— Eu não ordenei o assassinato de Vincent. O assassino fez isso a mando de outra pessoa.

— Quem?

— Nin Soo Yan. Que mais tarde pagou com a vida por ter exagerado em suas chantagens.

— E a Princesa?

— Ela sim estava no lugar errado e na hora errada. O assassino também tinha suas razões para eliminá-la.

— E depois?

— Foi a partir daí que eu entrei no jogo, vendo que somente dessa forma eu poderia dar um jeito nessa cidade tão corrupta e sem esperança.

— Então desde o inicio você sabe da verdade. Desde o inicio, quando você foi pela primeira vez no apartamento de Vincent Vaugh, você sabia quem era o assassino.

— Mas é claro. Até parece que um ritual como a “Máscara de Jack” iria se sobrepor a minha magia.

— Eu não entendo… o que há de tão necessário em você me enrolar todos esses meses nessa investigação?

— Por que… ao contrário do que os outros pensam, eu não evito ficar longe de saber o que acontece no passado, no presente e, principalmente, no futuro. Eu já tinha previsto esta nossa conversa antes e pra que esses benditos dados desaparecessem ou não caíssem em mãos erradas…

Foi nessa hora que Erick se lembrou de sua mãe doente no hospital…

— …Você armou tudo isso para que eu descobrisse os dados e depois pudesse apagar as provas.

— Exatamente.

Erick agora respirava fundo.

— Eu juro, Erick Russell, que eu não queria ter que fazer isso. – o mago agora sacava a sua varinha prateada com entalhes dourados e apontava para o investigador. – Mas é tudo para um bem maior. Perdoe-me.

 

[Soundtrack: Bohemian Rhapsody – Queen]

 

Não havia pra onde ir. Não havia o que fazer. Ele até pensou em resistir, mas… pra que? Fazer um Certame contra aquele homem era tão loucura quanto ficar parado sem fazer nada.

A verdade era que ele não queria fazer nada.

Esta era a vida real?

Esta era apenas sua fantasia?

Seu mundo desmoronou completamente e agora só lhe restava o maior arrependimento que todo homem sente uma vez na vida: “eu devia ter escutado a minha mãe.”

Tão cego com seu compromisso com a verdade. Tão inocente em acreditar na bondade desse mundo. Na bondade na alma dos homens.

Tão inocente…

Seus olhos levantaram lentamente apenas pra ver a luz vermelha sair da ponta daquela arma e vir em sua direção. Foi tudo tão rápido. Foi tudo tão lento. Apenas uma fisgada no peito. Sua mão foi involuntária até essa fisgada e quando voltou estava lavada em rubro.

Seus olhos foram perdendo o brilho…

Lentamente Erick foi caindo para trás…

No seu ultimo pensamento ele se lembrou de Nick e Sebastian…

“Eu os desejo boa sorte.”

Das lembranças das aventuras que passou junto com eles…

“Eu lembrarei para sempre daqueles dias…”

.

.

.

 

*****

 

00h55min.

 

Percorrendo os corredores daquela enorme mansão, finalmente Danyael chegou até a origem daquela ressonância maligna. No trajeto, o anjo percebeu que algum tipo de combate se desenrolou até ali, mas não foi um combate qualquer. Ele viu vários pedaços de corpos humanos putrefatos pelo caminho, tal como em muitos pontos da casa, as paredes cortadas por laminas bem afiadas. Não precisava ser o Portador da Light Sword pra perceber que a assinatura energética daqueles cortes foram da Dark Sword.

Danyael logo se prontificou em estar com a Light Sword em mãos quando entrou no salão. O local era bem grande e aparentava estar vazio, até que ele rapidamente parou de caminhar. Seus sentidos sobrenaturais haviam lhe alertado para um poderoso circulo mágico desenhado no chão. Com certeza ali não estava acontecendo boa coisa.

— Estava a sua espera, Portador da Light Sword.

Aquela voz era familiar. Porém, havia algo de estranho nela.

— Sebastian? O que está acontecendo aqui?

Saindo das sombras, carregando em punho uma Dark Sword que brilhava feito rubi sob a luz do sol, Sebastian veio se aproximando de Danyael. “Não, aquele não era o Sebastian”, pensou Danyael preocupado.

Aquela era sim a face de Sebastian, porém estava absurdamente mudada. Sua pele estava negra e com tatuagens em letras demoníacas, igual daquela vez em Oxford. Seus cabelos também estavam totalmente vermelhos e bagunçados, deixando evidente que algo de estranho havia acontecido.

— Sebastian… Você se deixou levar pelo mal?

Danyael não sabia, mas aquele ali não era mais Sebastian West:

— “Sebastian” não existe mais, Portador da Light. E em breve, você será o próximo! Arkdocez!!!

Obedecendo cegamente ao chamado de seu senhor, o vampiro demoníaco avançou contra Danyael usando seus braços que se esticavam feito elásticos para agarrá-lo e trazê-lo para dentro daquele círculo.

Percebendo a intenção do inimigo, além de cortar os braços dele fora, Danyael cravou sua espada no chão e em seguida a levantou como uma foice gerando uma onda cortante vertical. Tal poder criou uma fenda no meio daquele circulo cortando seu poder mágico. Despreocupado com isso o anjo avançou até o vampiro e o transformou em cinzas em poucos instantes. Retornando sua atenção agora para Sebastian, Danyael queria saber qual era a razão daquilo tudo:

— SEBASTIAN!!! O QUE DEU EM VOCÊ?!?

Com um sorriso sarcástico, o Portador da Dark Sword respondeu:

— O Começo do Fim.

Levantando sua espada, Sebastian, sob domínio total domínio de Mark Nottingham, se preparou para atacar Danyael. O anjo percebeu claramente isso, mas tentou alertá-lo, ainda acreditando que ele era o seu velho colega:

— NÃO FAÇA ISSO SEBASTIAN!!! SE NOS ENFRENTARMOS PODEREMOS DESTRUIR ESTA CIDADE COMO FIZEMOS EM OXFORD!!!

— E quem disse que eu irei tentar te matar? Eu não posso te eliminar, tal como a Escuridão não existe sem a Luz. Entretanto, eu posso obscurecer para sempre o brilho da Luz. EU TE MANDEREI PARA O LIMBO!!!

 

“O que?!?”, desesperou-se Danyael sabendo que o Limbo é um local do Reino Espiritual onde o Nada e o Vazio predominam, e que nada que ali entra um dia sai.

 

Um trovão escarlate varou o salão e sem chance de se esquivar, Danyael apenas se defendeu atrás de sua espada. A Light Sword brilhou forte quando o poder das duas se chocou, entretanto um buraco negro se abriu logo atrás de Danyael sugando-lhe para dentro com tamanha força que o anjo mal teve tempo pra pensar.

Caindo num abismo sem fim, Danyael estava desesperado com a idéia de nunca mais poder voltar para casa…

 

— NÃÃÃÃÃÃOOOO… LILITIIIIIIHHHH!!!!

 

 

 

***Fim do Terceiro Arco***

 

 

To be continued…