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“Deus… Será esse o meu fim?!?”
Estou sendo puxado
por uma força descomunal. Estou caindo. Perdi totalmente o senso de direção. O
vórtice ao meu redor parece interminável. Será que estou mesmo indo para o
Limbo???
“O que será de mim?!? Como
irei escapar de lá???”
Londres está um
caos. Sebastian está completamente dominado pela Dark
Sword e os anjos, que deveriam estar do meu lado, irão atrás da Lilith para
matar o nosso filho.
“Lilith… Será que nunca mais iremos nos reencontrar???”
O vórtice parece
interminável. Posso ter perdido a noção de tempo também, mas com certeza estou
a mais de meia-hora caindo nesse túnel. Será que o Limbo é tão distante assim?
Com certeza deve ser. Ele é o Fim de tudo. Se o Big Bang é o inicio do universo, o Limbo
é o seu fim. Devo ter ultrapassado bilhares de anos-luz, diversos Planos
Astrais e camadas do Mundo Espiritual. Estou indo em direção ao mais profundo
abismo. E de lá, nunca mais poderei voltar.
“Esse é o meu fim…”
O vórtice está
mudando. Começo a ver coisas estranhas passando por mim. Parecem telas de vidro
enormes que exibem imagens parecendo telas de tevê. Eu não estou conseguindo
visualizar direito… Vejo rostos conhecidos. Vejo cenas que parecem a Guerra de
Oxford… Porém todas um tanto diferentes. Começo a ver mais rostos conhecidos.
Eu me vejo em uma dessas telas…
“São imagens da minha vida!”
O que é isso? Será
que, à caminho de minha Prisão Perpétua e,
provavelmente, meu destino fatal, estou começando a ver imagens de minha
vida?!? Mas se for, tem algo de errado nisso tudo… Posso não estar conseguindo
visualizar direito essas imagens por estar mergulhando nesse vórtice, mas elas
não são, e nunca foram, cenas da minha vida! Aquele homem, mesmo parecido
comigo, não sou eu.
“Pelo menos, não nessa vida…”
O vórtice começou a
desacelerar. Talvez eu esteja me aproximando da Estação final. E, ao contrário do que eu esperava, meu
“desembarque” está sendo bem doloroso! Meu corpo está sendo esticado como uma
goma de mascar. Sinto meu estômago se contorcer e encolher. Meu cérebro começou
a latejar de dor, tal como meus olhos estão em brasas.
“AAAARRRGGGHHH!!!”
Este é o meu fim.
E eu pensava que a ultima coisa que viria em mente antes da minha morte fosse a imagem de Lilith e todo o amor que sinto por ela. Eu
estava enganado…
“AAANNNDREWWWW!!!”
*****

Data e Hora Desconhecidas.
Parliament Square.
Londres – Inglaterra.
Seu corpo estava
totalmente dolorido. Ele tentava respirar, mas o ar era bastante poluído, e
ainda era misturado com o cheiro de capim queimado. A grama estava tão seca que
espetava a sua face. Abrir os olhos era apenas o começo.
Danyael havia
acabado de chegar de sua viagem. Ele não sabia onde estava, nem muito menos
tinha noção do que era aquele lugar. Até sua mente estava bastante confusa. A última
coisa que ele lembrava com clareza era a imagem de Sebastian West lhe apontando
a Dark Sword e disparando um raio que aparentemente
iria lhe jogar no mais profundo abismo do universo: O Limbo. E se aquele era o
Limbo, então seus problemas estavam apenas começando.
Levantando-se,
ainda com algumas dores musculares, Danyael olhou no que havia ao seu redor.
Tal foi seu assombro ao descobrir. Não havia nada de estranho naquele lugar.
Ele sabia exatamente onde estava!
Porém, da ultima vez que ele viu aquele lugar, não era daquele jeito…
Danyael estava na Parliament Square,
a famosa praça que ficava em frente ao Parlamento inglês. Esta era uma das
praças mais famosas do país, e todos a conhecia. Entretanto, muita coisa estava
mudada, a começar pela própria cidade.
Londres parecia um
campo de guerra. O Parlamento estava 50% destruído, com seu relógio do Big Ben
pegando fogo. O enorme gramado que ficava no centro da Parliament Square estava completamente queimado, com suas árvores
cortadas ou derrubadas no chão. E não era só esta área, a cidade toda estava
destruída.
Destruída e
deserta.
Carros
abandonados, lojas depredadas, sinais de transito derrubados, prédios demolidos
ou ainda soltando enormes colunas de fumaça preta. Até o poderoso Rio Tamisa
estava seco, com quase todas as suas inúmeras pontes derrubadas. Era uma
Londres abandonada e totalmente morta.
Danyael queria se
perguntar “o que era isso tudo”, mas talvez ele já tivesse as respostas. Talvez
as histórias sobre o Limbo fossem um tanto exageradas. Aquilo era o Inferno. O
Inferno de Danyael. E talvez fosse naquele lugar vazio e desesperador que ele
iria viver por toda a eternidade.
Mas o anjo mal
teve tempo pra pensar no que fazer. De repente, como uma forte onda de agonia,
Danyael escutou um zumbido tão forte em seu cérebro que rapidamente ele perdeu
o equilíbrio, ajoelhando-se no chão angustiado. Não lhe causava dor, porém
aquele zumbido estava lhe matando. E não era um zumbido qualquer… Era
simplesmente o som do silêncio.
E em meio a sua
agonia, Danyael perdeu completamente seu senso de perigo não percebendo que em
sua direção um objeto gigantesco e ardendo em chamas vinha em sua direção. Ele
até que conseguiu enxergar o perigo, mas não tinha forças para sair do lugar.
Aquele zumbido estava lhe matando – literalmente.
— CUIDADO, PAAAIII!!!
O tempo parecia
ter havido parado, mas não foi o que aconteceu. Simplesmente tudo aconteceu
muito rápido. Quando Danyael deu-se por si, ele havia sido salvo por um homem
que correu em sua direção e lhe tirou do caminho da morte certa. Danyael ainda
estava muito desorientado. Mal conseguia enxergar o rosto daquele que lhe
salvou. Apenas percebeu que ele ainda o segurava e que não tirava os olhos
dele.
Outras pessoas
vieram atrás dele.
— Vamos!!! Temos que tirá-lo daqui! Logo os demônios irão aparecer!!!
Danyael reconheceu
de imediato essa voz, mas dizer uma única palavra estava tão difícil quanto se
manter em pé:
— S-Ssstephanieee…
— Sim, meu irmão.
Sou eu. Vamos, tente fazer um esforço pra ficar de pé. Temos que tirá-lo daqui!
Ele bem que havia
tentado, mas logo desmaiou.
E ainda sim,
zumbido continuou…
*****
“Será que é ele
mesmo?”
“É claro que é, Andrew! Eu reconheceria meu irmão mesmo à quilômetros de
distância!”
“Mas ele está
diferente…”
“É verdade. Nunca
vi o Danyael de cabelos compridos…”
“Ei, olhe. Ele está acordando…”
O zumbido
continuava em sua cabeça, só que desta vez bem mais fraco. Danyael abriu os
olhos e a primeira coisa que viu foi um rapaz de cabelos loiros escuros lhe observando.
Em seguida, ao seu lado esquerdo ele viu sua irmã Stephanie. Tentando se
levantar com bastante dificuldade, Danyael foi auxiliado pelos dois.
— Stephanie…
— Sim, irmão. Sou
eu.
— Onde eu estou?
Nesse momento
Stephanie e Andrew se entreolharam. Parecia que aquela pergunta de Danyael era
bastante difícil de responder.
— Danyael… Qual é
a ultima coisa que você se lembra?
— Eu mal consigo
raciocinar direito com esse zumbido na minha cabeça. Stephanie, Eu não estou
escutando o som do Coro Celestial…
Stephanie ficou
séria e pasma com aquele comentário, fazendo-a se afastar de seu irmão.
Preocupado, Andrew foi atrás dela.
— O que foi, tia?
— Andrew… Tem algo
de estranho nisso. Acho que esse pode não ser o nosso Danyael.
— Como assim?
— Fora o fato dele ser esteticamente diferente de meu irmão, ele mencionou
algo que há muitos anos eu não escuto falar.
— O que?
— Andrew… Existe
algo, que no momento é irrelevante, sobre a raça angelical. Por nascermos
conectados com o Divino Espírito Santo, desde sempre escutamos constantemente o
som da melodia do Coro Celestial, cantado pelos Serafins, Querubins e Tronos. É
o que nos liga com Deus.
— Caramba! E como vocês não ficam malucos?
— Nós nascemos assim,
Andrew. Para nós, escutar o som do Coro é o mesmo que enxergar ou respirar.
Algo natural. Mas tem um problema…
— Qual?
— Todos os anjos
que ficaram na Terra não escutam o som do Coro Celestial desde o fim da Guerra.
— Mas isso foi
antes d’eu nascer!
— Exatamente…
Percebendo que os
dois estavam cochichando sobre ele, Danyael lhes chamou a atenção:
— Ei! Posso saber o motivo da fofoca?
Olhando para o
rosto de Danyael, Stephanie e Andrew estavam sem saber o que fazer. Fazia
muitos anos que eles não o viam, gerando assim um sentimento forte de saudade,
entretanto eles tinham que ser cautelosos.
— Danyael, tente
se concentrar. Não dá mais pra escutar o som do Coro Celestial. Você sabe
disso!
— Eu sei?
— Irmão… Você sabe
onde você está?
Só quando
Stephanie lhe fez essa pergunta foi que Danyael pode olhar em volta e perceber
o lugar onde se encontrava.
Parecia ser o
subsolo de uma fabrica abandonada. Muita umidade, paredes se descascando com as
infiltrações, teias de aranha e muitas baratas, alem do indescritível cheiro
forte de esgoto no ar. Danyael estava deitado sobre um tipo
bancada feita de aço e ferro, porém não encontrava nada ao seu redor que
indicasse que pessoas vivessem ali. Pelo contrário: aquilo era uma base de
guerra. Diversas armas estavam guardas em caixas de madeira bem próximas a ele.
E sua análise não
terminou por ai. Ele havia reconhecido sua irmã apenas por instinto, mas só
agora ele conseguiu colocar os olhos nela com clareza. Stephanie estava
completamente mudada. Seus longos cabelos loiros que eram sua marca registrada
agora estavam bem curtos, na altura de sua orelha, mantendo uma franja lateral
que lhe caia até o olho direito. Seu corpo também estava diferente. A Stephanie
que Danyael se lembrava era bem magra, tinha a pele lisa como um pêssego,
lembrando uma Barbie. Agora ela
estava mais para a filha do Schwarzenegger! Braços tonificados, abdômen
definido, cicatrizes em diversas partes do corpo… fora a roupa e a armadura que
parecia ter saído de um filme de guerra futurístico.
Danyael nem perdeu
tempo analisando o rapaz que estava ao lado dela. Ele nunca o tinha visto na
vida, entretanto ele lhe era bastante familiar. Tinha algo nos traços dele que
lhe lembrava alguém.
— Eu nem imagino
onde estou. Melhor dizendo… Eu não estou nem te reconhecendo! O que foi que
aconteceu nesta cidade? O que foi que aconteceu contigo? Isso tudo foi obra do
Sebastian?
— Sebastian? –
Stephanie e Andrew se entreolharam novamente confusos. – Quem é Sebastian?
— Como assim “Quem
é Sebastian?”!? ‘Cê ‘tá de
brincadeira comigo?
— Não! Na verdade
até nós estamos espantados com você, Danyael.
— Por quê?
— Irmão… era pra
você estar… morto!
Aquela noticia lhe
atingiu em cheio, porém numa dose bem menor. Talvez
houvesse uma explicação para aquilo tudo…
— Eu… eu acho que não
estou no Limbo…
— Limbo? Do que
está falando?
— Aonde é que eu
estou?
— Você está em
Londres, Danyael. Na base secreta da Resistência.
— Resistência? Do
que?
— Danyael… Do que
você se lembra?
— Eu me lembro de
estar enfrentando os anjos Captare que queriam matar
o meu filho por ordens do Conselho. Depois senti uma forte ressonância maligna
vinda de uma mansão abandonada e quando eu cheguei lá encontrei o Sebastian
completamente mudado e falando como se fosse outra pessoa. No fim ele disse que
não iria me matar, pois era impossível, mas com o poder da Dark
Sword ele disse que me jogaria no Limbo! Quando eu acordei estava lá no meio da
Parliament Square onde quase fui morto por um… o que
era aquilo mesmo?
— Um carro. Ele
foi jogado a milhares de quilômetros de distancia por um Demônio Classe 3, e
que por azar, você estava justamente no local onde ele iria cair. – respondeu
Andrew.
— Entendo… Um
demônio? ‘Pera ae… Acho que
não estou no Limbo… Acho que isto daqui, na verdade, é o futuro!!! Acho que vim parar no Futuro!
— Futuro? –
questionou Stephanie. – De que época você é então?
— 2028. E em que
ano estamos?
Como se uma peça
fundamental de um quebra-cabeça tivesse sido encontrado, todos se sentiram um
pouco aliviados:
— 2053, Danyael.
Você está 25 anos no futuro!
— Agora sim tudo
faz sentido! Alguma coisa aconteceu que, ao invés d’eu ter sido jogado no
Limbo, vim parar aqui, no Futuro! Eu preciso voltar pro meu tempo e impedir que
tudo isso aconteça! Preciso impedir o Sebastian West!
Nesse momento,
Danyael então prestou atenção no rapaz que estava o tempo todo ao seu lado. Ele
podia estar passando por uma forte falta de concentração antes, mas ele escutou
perfeitamente esse rapaz chamar a Stephanie de tia, que seu nome era Andrew, e
principalmente: ter-lhe chamado de pai.
— Você deve ser o
Andrew, o meu filho.
Levantando um
largo sorriso, Andrew respondeu positivamente:
— Sim!
Erguendo os
braços, Danyael pediu um abraço e rapidamente foi respondido.
— Eu nem te vi
nascer ainda e já estou te conhecendo adulto e forte!
— É…
— Você tem os
olhos de sua mãe.
Depois do abraço,
Danyael quis se levantar, entretanto sua viagem pelo túnel do tempo havia sido
bastante desgastante.
— Falando nela…
Cadê a sua mãe? Cadê a Lilith?!
Tal pergunta
imediatamente fez todos ficarem calados. Danyael percebeu isso e notou que
havia algo que eles estavam evitando lhe contar.
— Fique deitado,
pai. Eu tentarei buscar um pouco de água e comida pro senhor. – desconversou
Andrew, saindo do recinto.
— Stephanie…
— Sim?
— Andrew
desconversou e você até agora nada de me responder. Onde está a Lilith?!? Eu exijo ver a minha esposa.
— Danyael…
— E pare de me
chamar de Danyael! Me chame de “Dany”.
Stephanie levou um
susto.
— Como assim? Você
sempre odiou que qualquer um te chamasse de Dany!
— Qualquer um sim,
mas meus familiares não! Você sempre me chamou de Dany!
— Não mesmo! Nem
quando éramos crianças!
— Tem algo de
estranho aqui!
— Danyael… digo, Dany… Eu também tenho que
dizer que tem algo de estranho em você. Por exemplo, eu nunca te vi de cabelos
compridos! Pra falar a verdade, nunca soube desses eventos que você disse que
aconteceu em 2028. Eu não sei quem é Sebastian West, muito menos os Anjos Captare tentaram matar o Andrew! Pelo menos não os nossos Captares.
— Como assim?
— Pra falar a verdade,
você mesmo está bastante diferente. Você sempre foi um guerreiro. Tinha uma
postura mais robusta e tal… e nem de longe parecia um…
— Um…?
— Um modelo de uma
grife de cuecas masculinas!
Danyael sorriu. De
tudo que poderia estar estranho hoje, pelo menos o sarcasmo de sua irmã
continuava inabalável!
— Você também não
está bem condizente com a Stephanie que eu conhecia!
Interrompidos com
a chegada de Andrew, o jovem rapaz trouxe uma garrafa de água e um pouco de
pão. Danyael agradeceu ao filho pela gentileza, entretanto não pode deixar de
desconfiar da procedência daquela água. Num mundo apocalíptico como aquele, talvez água limpa fosse um luxo.
— Não se preocupe
pai. A água está limpa.
Envergonhado por
ter deixado ser percebido, Danyael abriu a tampa da garrafa e botou pra dentro
a água que Andrew trouxe. E não era que ele estava certo mesmo! A água parecia
tão purificada quanta uma água engarrafada comprada em supermercado.
— Como…
— Nós usamos magia
pra poder purificar as águas da chuva. – respondeu Andrew prontamente. – Fazemos
o mesmo com a comida. Com um pouco de transmutação conseguimos transformar
algumas plantas em frutas e cereais.
— Que
interessante!
— Devemos tudo
isso graças ao Tio…
Nesse momento
Andrew é interrompido. Uma voz surgiu em meio às sombras das máquinas
abandonadas e aos poucos veio revelando sua identidade.
— Esse não é o
Danyael que conhecemos.
— Derek! – mesmo
mais velho, Danyael logo reconheceu seu cunhado. Pela
reação de Stephanie com a chegada de Derek, parece que as coisas não mudaram
muita coisa.
— Olá, Danyael.
— O que você quer
dizer com isso, Derek? ‘Tá me chamando de impostor?
— Não. Você é
legitimamente Danyael Kimble, mas não dessa Linha Temporal.
— Eu não estou…
Danyael iria
continuar, porém logo se perdeu nas palavras quando visualizou direito a face
de seu cunhado. Derek não apenas estava mais velho, como também revelava uma
enorme cicatriz que lhe cruzava na diagonal a face,
deixando-lhe cego do olho direito. E não era só isso. O grande satanista também aparentava estar manco e com diversas
manchas escuras pelo braço. Parecia que a idade finalmente havia chegado pra
valer para o antigo Negociador dos Infernos.
— Sentem-se,
todos. Eu tentarei explicar. Andrew… Faça uma cadeira pra mim, por favor.
— Sim, tio.
Acatando a ordem
sem discutir, Andrew foi até perto de seu tio e esfregou as mãos. Danyael
estranhou o que Derek havia pedido, mas não demorou pra entender. Com apenas um
tocar de seus dedos no chão, Andrew conjurou uma cadeira feita do mesmo
material do solo, como se o chão fosse feito de barro e ele um escultor.
— Obrigado, filho.
Sentando-se, Derek
olhou pausadamente para Danyael. Parecia que o velho satanista
estava analisando-o friamente esperando encontrar algo nele que lhe desse o
sinal para suas explicações.
— Ao contrário do
que muitos pensam o Tempo não é mutável como um fio de um barbante. O Tempo,
tal como toda Força da Natureza, é como a trajetória de um rio. Se o Homem vem
e modifica seu curso em algum ponto, ele irá criar uma segunda trajetória, sem
influenciar na primeira. Se caso ele tentar (o que é impossível pra qualquer
força existente) fazer uma barreira para que o primeiro curso não siga em
frente, mais a diante ele ocasionará verdadeiros desastres ambientais.
“Desde a guerra em
2028, você e seu outro “Eu” dessa linha temporal discutimos a hipótese de
voltarmos no tempo e impedir que esse desastre acontecesse. Entretanto, tal foi
nossa surpresa ao saber que essa ‘Linha de Tempo’ alternativa já existia, e que
era exatamente como imaginávamos. Pior foi a nossa descoberta que, independente
do que fizéssemos, esta realidade nunca deixaria de
existir.”
“Você vem dessa
outra Linha do Tempo, Danyael Kimble. Uma linha onde
os Demônios não venceram a guerra e que o mundo não vive uma Terceira Guerra
Mundial. Infelizmente, nós não sabemos em que momento o seu tempo foi
realinhado, apenas sabemos que outros já a alteraram (e pra melhor) a realidade
onde você vive.”
— Então você está
dizendo que, trocando em miúdos, esta aqui é a verdadeira realidade de Londres?
— Não existem
“verdadeiras” ou “falsas” Linhas Temporais. As águas do rio sempre serão as
mesmas e terão a mesma nascente. Mas, sim, esta é a Linha original.
— Então a única
coisa que preciso fazer é voltar para o meu tempo?
— Exatamente.
Uma bandeja desceu
lentamente até uma bancada sem que eles percebessem. Stephanie percebeu. Andrew
havia ficado apático com aquela conversa. Ela sabia que “um lado dele” deve
estar muito triste com a notícia.
— O que eu não sei
é como irei fazer isso.
— Da mesma forma
que você veio, Kimble.
— É exatamente
isso que estou querendo dizer. Momentos atrás eu estava em Londres tendo um
confronto com Sebastian, o Portador da Dark Sword no
meu Tempo, e com o poder da espada ele disse que me enviaria para o Limbo.
Entretanto, aqui estou eu no futuro de uma linha do tempo alternativa.
— Isso é estranho.
Fora alguns detalhes em discrepância que mencionou,
pelo que eu sei os poderes das Espadas são quase divinos. Se ele quis te enviar
para o Limbo, seu destino era certo! Aconteceu alguma coisa nesse conflito em
especial?
— Que eu me
lembre… Espere! Acho que sim! Exatamente no momento em que ele me atacou, eu me
defendi com a Light Sword. Pensei que era um ataque letal e direto, entretanto
um Portal abriu mesmo assim.
— Então, é de se
concluir diante dos fatos que, foi a Light Sword que te salvou.
— Acho que sim.
— Quando o poder
das duas se chocou, a Light deve ter tentado encontrar um meio de te salvar.
Não imagino o porquê, mas a escolha dela foi te enviar numa viagem temporal.
— Tudo leva a crer
que sim. Então… Acho que pra voltar pra casa só precisarei da Light Sword.
— Isso é certeza.
Sem falar mais
nada, Danyael se levantou da bancada onde estava deitado e se preparou para
conjurar sua espada. Sua mão direita foi até as costas e num brilho repentino,
a espada surgiu. Mas tal foi a surpresa de todos,
principalmente de Danyael, ao perceberem que havia algo de errado com a Light
Sword. Andrew foi o primeiro a questionar, mesmo sem nunca ter visto a espada
na vida:
— A Light Sword
não era pra ser dourada e reluzente?
— Sim. – respondeu
Danyael incrédulo. – Eu nunca vi minha espada desse jeito!
A Light Sword
continuava brilhante como sempre, entretanto o dourado de sua lâmina foi
substituído pelo prateado, como se a espada inteira fosse feita da mais pura
Prata. Derek já teorizou o que poderia ser esse problema:
— Sua espada está
sem poderes. Assim como os anjos, a Light Sword também precisa manter um canal
direto com os Reinos Supernos. Sem ele, ela não passa de uma espada comum.
— Então eu estou
preso aqui.
Rapidamente uma
voz que tentou não transparecer suas esperanças se levantou:
— Mas você pode
ficar aqui, pai! Quem sabe pode até nos ajudar!
— Mas ai é que
está o problema, meu filho. Como eu disse antes, o Sebastian está estranho. Eu
não sei o que aconteceu com ele, mas parece que a Dark
Sword o dominou. Se eu não voltar talvez o meu tempo fique igual ao seu.
Nesse momento um
homem veio até o grupo. Ele parecia alertado, precisando imediatamente entregar
uma mensagem para Derek:
— Senhor! Outro sinal
de vida foi encontrado!
— Os demônios
estão cientes disso?
— Uma Horda já se
movimenta em direção.
— Quanto tempo temos?
— Menos de 10
minutos, senhor.
Danyael passou os
primeiros segundos ainda perdido em pensamentos, até que finalmente ele viu um
rosto conhecido. O homem que veio falar com Derek era nada menos que um velho
conhecido dele:
— Erick? Erick
Russell?
Erick respondeu ao
chamado de seu nome, entretanto seu olhar de estranheza esfriou os ânimos de
Danyael.
— Nós nos
conhecemos?
— Sim! Quero
dizer… não sei…
Percebendo a situação
complicada, Stephanie logo se adiantou:
— Desculpe, Danyael! Mas o Erick se juntou à Resistência
depois que você morreu. Digo… depois que o nosso
Danyael morreu.
— Ah… Entendo.
Então eu que peço desculpas pelo equívoco!
Derek logo se
levantou e cortou a conversa:
— Não temos tempo
para isso! Andrew, prepare o Hummer! Stephanie e Erick peguem as armas.
Danyael, eu gostaria que você viesse conosco. Talvez a sua ajuda seja
necessária.
— Tudo bem.
O caminho até o
carro foi rápido. Danyael foi levado até um estacionamento subterrâneo onde um Jeep com design pós-moderno, com grandes rodas pra off-road o aguardava. Assim que
entrou, sentando-se ao lado de Derek, o carro partiu em alta velocidade,
subindo uma rampa e revelando uma passagem secreta que levava até um dos túneis
do metrô londrino, obviamente desativado nesta época.
No volante estava
Andrew que parecia conhecer aquele caminho muito bem. Ao seu lado esquerdo, no
passageiro, estava Erick que estava concentrado em um aparelho moderno que
lembrava os celulares do tipo “smartphone” com um avançado sistema operacional. No
banco de trás estava Danyael, Derek e Stephanie.
O percurso era bastante
acidentado. Danyael e Stephanie se apoiavam nas portas, enquanto Derek pouco se
importava. O carro seguiu veloz pelo túnel até uma luz surgir no final. Era a
subida para a superfície. Andrew rapidamente alertou a todos:
— Segurem-se!
O carro deve ter
saído do túnel a mais de 150km/h e nessa velocidade
ele acabou saindo do solo por alguns segundos, retornando com força no instante
seguinte. Pegando uma curva absurdamente fechada, Andrew levou o carro até a
rua mais próxima. Durante a viagem, aproveitando que o sacolejo havia
amenizado, Danyael resolveu tirar uma dúvida persistente com Derek:
— Afinal de
contas… O que aconteceu aqui? O que levou esta cidade a ficar nesse estado?
— Eu irei resumir
a história pra você. Eu não sei exatamente em que momento nossas linhas
temporais se dividiram, mas irei falar sobre os fatos mais importantes de nossa
história.
— Ok.
— Tudo começou em
2023 quando um demônio foi invocado por um estudante de Oxford. Esses garotos
não sabiam com o que estavam se metendo e acabaram por invocar um demônio que
era servo de um General do Inferno. Seu nome era Azazel.
Danyael ficou
pasmo. Novamente havia o dedo de Azazel nessa história toda. Talvez não era de se espantar, afinal até então as duas histórias
temporais estavam fieis, entretanto ele nem imaginava quais seriam as mudanças.
— Esse demônio
conhecido como Warden ficou disfarçado entre os
humanos durante todo o ano, fingindo ser professor da Universidade.
— Eu sei disso.
Mas… O meu outro eu não havia percebido isso?
— No seu tempo Warden também se infiltra em Oxford?
— Sim, mas eu
descubro e acabo por desmascará-lo.
— Entendo. E o que
você fazia em Oxford?
— Eu estudei lá.
Digo… Nós estudamos. Stephanie e Eu.
Stephanie
imediatamente reage àquele comentário com estranheza.
— Nós nunca
fizemos faculdade, Danyael.
— Não? Como assim?
— Depois do que
aconteceu com nosso pai, a mamãe nos levou direto pra Cidade de Prata e só
retornamos durante a guerra.
— O que aconteceu
com o nosso pai?? Nós o deixamos aqui sozinho?!? O velho John nunca ia permitir que fôssemos 100% educados
lá na Cidade de Prata!
— Dany… o nosso pai…
Sem avisar, Derek
interrompeu Stephanie:
— Isso fica para
outra hora. Vamos voltar ao assunto.
— Certo. – afirmou
Danyael.
— Como ia dizendo,
esse demônio conhecido como Warden conseguiu, sob
ordens de Azazel, transformar os 200 mil habitantes de Oxford em Possuídos – humanos dominados por
demônios. E quanto mais alunos iam para lá, mais pessoas eram possuídas, e até
o inicio de 2024, Oxford havia sido tornado a capital dos demônios na Terra.
“É claro que não
tardou para os Anjos descobrirem isso e no final do Inverno estava declara a
Guerra das Trevas. Até então Londres, como sede do Arcanorum, não estava ciente
da situação até que dois anjos vieram trazer o alerta. Eram você e Stephanie.
Vocês dois haviam se tornado os embaixadores do Céu aqui no país, e coordenaram
todas as táticas para o início desta Guerra.”
“Como você bem
deve saber, com a ajuda do regulamento da Guerra, Azazel
pôde vir pessoalmente até o nosso mundo e de lá trouxe seu terrível exército. O
exército demoníaco per se não seria problema para as fileiras do Arcano Miguel,
se caso Azazel também não tivesse trazido para o seu lado a única fraqueza dos
Anjos: Inocentes Humanos.”
“Engrossando as
fileiras demoníacas estavam os inocentes possuídos nos quais muitos Anjos
tinham receio em matá-los, pois sabiam que seus corpos e suas almas, caso
fossem mortos pelas armas celestiais, deixariam de existir para sempre. Naquela
época Miguel estava em um grande dilema e o pior é que não havia nada do que se
pudesse fazer. Quando o último floco de neve caiu sobre Oxford, a guerra havia
terminado com a vitória dos Demônios.”
“Eles agora
poderiam vir até o nosso mundo livremente através de um Portal fixo criado sob
a cidade e Oxford em pouco tempo foi remodelada tornando-se assim uma Fortaleza
Demoníaca, com suas Catedrais profanas. Hoje ela atende pela alcunha de “Bastião de Dudael”,
numa alegoria sarcástica de Azazel à prisão eterna de seu antigo General, Samyaza. Para terminar, o trajeto que leva até
a Fortaleza tem em seu percurso diversos corpos dos anjos mortos durante a
guerra fincados em postes formando um corredor de insanidade e terror. No
final, você encontrará o corpo dos cinco
Arcanjos que lutaram na guerra crucificados de cabeça para baixo e com suas
asas arrancadas.”
“É mais do que
claro que com esse fato a “máscara” do sobrenatural havia sido destruída. E da
pior maneira possível. A notícia de que os monstros andavam entre nós percorreu
os quatro cantos do globo como um furacão deixando os Mundanos totalmente
desesperados e transtornados. Com toda essa exposição não havia mais por que o
Arcanorum se esconder do público, e assim, os Diáconos junto com o Parlamento
inglês conseguiram reunir diversos aliados por todo o mundo para atacar o
Bastião de Dudael.”
“Entretanto, como
era de se esperar, as Forças Armadas da União Européia e dos Estados Unidos
tentaram fazer alguma coisa contra o poder daquela cidade. Em setembro de 2024,
uma medida drástica foi tomada. Com o apoio dos tecnocratas Illuminatti,
foi autorizado o lançamento de uma Bomba
Nuclear de Energia Primordial, pouco se importando com o que isso poderia
ocasionar tanto no Mundo Material quanto no Espiritual.”
“Se você me
questionar se tal ação funcionou, eu irei levá-lo mais tarde até o local onde
antes era a cidade de Oxford para ver com seus próprios olhos. A Fortaleza não sofreu nenhum arranhão.
Em contrapartida, as coisas não ficaram nada boas nos dois mundos…”
“No Mundo
Material, as conseqüências trágicas foram apenas físicas. Como toda a região de
Oxfordshire foi evacuada, não houve mortes. O que
restou foram apenas quilômetros de terra árida e clima hostil à vida humana. Já
no Mundo Espiritual é que a situação ficou crítica. O impacto da bomba no Mundo
Material foi tão devastador que a Película que separa os dois mundos foi completamente dilacerada em toda a
região. E isso foi o de menos. Todos os espíritos, almas, fantasmas,
transeuntes do Reino Espiritual foram mortos, tendo seus periespiritos
pulverizados. Diversos vales espirituais, tal como Pontes e Portais, foram
destruídos, e tal como está a região de Oxfordshire, o Mundo Espiritual do Reino Unido se tornou
uma vasta imensidão árida, com verdadeiras tempestades e furacões totalmente
hostis a qualquer um que se atreva a se aventurar.”
“E se por aqui as
coisas estavam feias, pelo mundo não estava diferente. Nos quatro cantos do
globo, verdadeiras guerrilhas foram iniciadas. Eram os ‘simples humanos’ que se
cansaram de serem ‘ovelhas’ de ‘lobos’ famintos e
resolveram erradicar da Terra os monstros sobrenaturais. Foi dado inicio ao que
hoje chamamos de “A Caça às Bruxas”. Vampiros, lobisomens, fadas, múmias,
fantasmas, demônios, e até nós, os Magos, fomos caçados por todos os lados, e o
pior: não tínhamos o apoio de ninguém! Sociedades secretas caíram. Cabalas
inteiras foram dizimadas. Seitas e Tribos de vampiros e de lobisomens totalmente
massacradas. Era a reação dos Humanos contra os monstros que lhes trouxeram o
Inferno à Terra.”
“Mas ao contrário
disso tudo, aqui em Londres pelo menos as coisas fluíram um pouco melhores. Foi
graças ao seu trabalho e empenho, Danyael, que você se tornou o mais novo
Diácono Superior do Arcanorum londrino. E isso foi por puro mérito. Você havia
conseguido trazer a aliança entre os dois lados, mundanos e
sobrenaturais, contra um inimigo comum: os Demônios.”
“Nos anos que se
seguiram, diversos confrontos foram realizados contra o Bastião de Dudael e suas legiões. Com a ajuda dos poucos Arcanjos que
ainda estavam vivos, Londres conseguiu manter-se de pé mesmo com o forte ataque
inimigo. Entretanto, devido a esses confrontos, infelizmente nós não havíamos
percebido as reais intenções de Azazel. Desde muitos anos atrás um terrível
plano vinha sendo articulado pelo arcanjo-caído, e esse plano envolvia um
garoto conhecido como Mark Nottingham.”
“Mark foi o
predestinado a ser o Portador da Dark Sword no
passado. Entretanto, por causa de alguns eventos até então desconhecidos, ele
chegou a falecer antes mesmo de cumprir com o seu destino. Sua alma foi parar
no Inferno, e pelo que fiquei sabendo, havia se aliado ao Azazel. Anos se
passaram e o arcanjo-caído descobriu que nasceria outro predestinado, de
identidade até então desconhecida, nos tempos atuais. Foi focando nisso que
Azazel preparou todo o seu jogo. Ele não havia escolhido Oxford por acaso.
Seria nesta cidade que o novo Portador iria iniciar sua fase adulta, fase esta
que iniciaria os primeiros sinais do Escolhido.
Então, desde 2023, que Azazel vinha preparando esse
rapaz para que, em meados do segundo semestre de 2028, ele pudesse concretizar
seu verdadeiro plano: Conquistar a Dark Sword.”
“Assim que o
espírito demoníaco de Mark Nottingham possuiu o rapaz, uma poderosa energia
negativa foi gerada e canalizada, abrindo assim o caminho entre o Escolhido e
seu Destino. Quando Mark ergueu a Dark Sword toda a
galáxia foi tomada por alguns segundos de Escuridão e Medo. Mas foi nesse
momento que a luz da esperança surgiu…”
“Como era de se
esperar, você também estava predestinado a ser o Portador da Light Sword, e foi
quando as Trevas banharam o mundo, que uma luz surgiu no fim do túnel,
revelando o seu destino. Assim que você ergueu a Light Sword pela primeira vez,
nossas esperanças foram renovadas. Você era a nossa única salvação.”
“O confronto entre
os dois foi inevitável. Vocês lutaram exatamente por 7 dias e 7 noites. Nós
conhecemos aquele tempo como ‘A Semana do Confronto Final’. E vocês dois não se
limitaram a lutarem ‘apenas’ em solo britânico. A luta entre vocês foi tão
épica que os dois cruzaram o globo se enfrentando. Você tentava o máximo
possível evitar desastres e mortes no percurso, mas era quase impossível. Mark
não tinha qualquer senso de humanidade e moral com ele. A cada cidade que vocês
se enfrentavam, no mínimo metade da população era morta, isso quando a cidade
não era totalmente varrida do mapa.”
“Eu ainda tenho
pesares dos que morreram no Rio de Janeiro – Mark fez questão de mergulhar a
cidade inteira em um enorme cogumelo de fogo e destruição.”
“Mas foi no sétimo
dia que o pior aconteceu. Mesmo muito exausto e ferido, você lutou até os
últimos instantes, até que, por puro azar do destino, você recebeu uma noticia
que imediatamente abalou seu emocional, fazendo-o assim abaixar a guarda. Tal
ato lhe custou um preço alto. Aproveitando-se da situação, Mark lhe atravessou
a lâmina da Dark Sword e em seguida tirou de você a
Light, jogando-a em algum lugar do Espaço. Mesmo sabendo que você dificilmente
iria morrer, afinal és um Anjo e seu espírito em pouco tempo iria renascer,
Mark lhe sentenciou a um castigo sem volta: Ele te mandou para o Limbo.”
“Depois daquele
dia nunca mais ouvimos noticias suas. Perdão, do seu outro ‘Eu’.”
“A noticia da
vitória de Mark veio até nós como uma sentença final. Nossa única esperança
havia morrido, e não havia nada que pudéssemos fazer. Se você, que tinha em
mãos a única arma capaz de deter o poder de Mark, havia morrido, que chance nós
teríamos? Foi então que nos veio nossa última esperança…”
“Revelando-se
apenas a Stephanie e a mim, o Rei dos anjos, Metatron, nos trouxe uma mensagem.
Ele havia nos dito que não era para desistirmos desta batalha, pois ainda nos
restava uma última esperança. O Rei dos Anjos referia-se a nada menos do que
Andrew, que tinha acabado de nascer.”
“E durante esses
exatos 25 anos, Stephanie e eu viemos cuidado e educando seu filho esperando
que um dia ele viesse a se tornar o nosso salvador. Sinceramente, ‘como será isso?’, eu não sei! Mas, estamos fazendo o nosso trabalho
dia após dia. É evidente que não tinha como protegermos a cidade como antes. Os
demônios estavam conseguindo ganhar território, e nós apenas fazíamos o
possível para sobreviver e continuar lutando, sem perder as esperanças. Isso,
até hoje. Não irei ser modesto, Danyael, mas sua chegada inesperada acendeu em
todos nós aquela luz de esperança que estava se apagando pouco a pouco.”
Danyael escutou
atentamente tudo que Derek havia dito e agora não sabia o que responder. Tudo
ainda estava sendo aos poucos processado em sua cabeça e a visão do estado que
havia ficado a cidade, lhe confirmava de que seu destino poderia ser muito
maior do que ele pensara. Mas, nessa história toda, uma pergunta ficou sem resposta
e intrigava Danyael:
— Que notícia foi
essa que meu outro Eu recebeu para abalar o emocional a ponto dele abaixar a guarda?
A pergunta atingiu
a todos com espanto, seguido pelo pulo brusco que o Hummer deu numa
rua acidentada.
— Desculpe. –
disse Andrew no volante. – Não vi o quebra-molas.
— Bem, Danyael… -
Iniciou Stephanie bem cuidadosa para escolher as palavras. – A notícia
infelizmente foi sobre a morte da Lilith.
— O que?!? – os olhos de Danyael imediatamente se arregalaram. – E
como ela morreu? Sofreu um acidente? Foi assassinada? Eu bem que eu percebi que
ela não foi mencionada em momento algum! O que aconteceu com ela?
— Então no seu
tempo você e Lilith também tiveram um caso.
— Claro! Acho que
tem coisas na vida que são imutáveis, como é o caso de vocês dois.
— É verdade… Aqui
no nosso tempo foi bem complicado o relacionamento de vocês. Você tinha acabado
de vir da Cidade de Prata quando a conheceu e a recebeu como aliada dos
Celestinos Olimpianos, afinal ela era a filha do Deus Hades.
— Sim. Eu imagino
que nesse tempo talvez tenha sido mais complicado. Não tão pouco foi no meu
tempo! Mas, não enrole Stephy! Diga-me como foi que
ela morreu?!
Realmente
Stephanie estava fazendo rodeios para responder. Ela queria que o carro
chegasse logo ao destino para tentar evitar responder aquela pergunta. Pelo
menos, não naquele local tão próxima do Andrew. Mas veio do próprio envolvido a
liberação da resposta:
— Pode dizer, Tia. Ele precisa saber.
Danyael olhou
intrigado para os dois. Andrew o olhava de vez em quando pelo retrovisor e seus
olhos demonstravam um verdadeiro misto de emoções. Respirando fundo, Stephanie
respondeu:
— Ela morreu no
parto do Andrew.
Aquela noticia
atingiu Danyael como uma bomba. Para ele aquilo não veio como um conto do
passado e sim como um prenuncio de seu próprio futuro. Diversas coisas vieram a mente do anjo naquela hora e nenhuma delas era boa.
— M-mas… Por que ela morreu? O que aconteceu?
— Infelizmente
ninguém sabe explicar o motivo. Ela apenas faleceu assim que deu à luz.
A tristeza e a
revolta de Danyael foram visíveis em seus olhos. Agora sim ele entendeu por que
seu outro Eu havia abaixado a guarda. Com certeza uma noticias dessas iria lhe
abalar drasticamente. Levantando os olhos, pai e filho cruzaram olhares pelo
retrovisor. Andrew estava prestando atenção na reação de Danyael. Ele estava
bastante sério e calado. Mas não houve qualquer intenção de Danyael em magoar
seu filho, mesmo que seu transtorno com a morte Lilith transparecesse isso.
“Mas droga!” – Era a mulher que ele amava. A primeira e única. Não tinha como
ele não ficar revoltado!
O carro finalmente
havia chegado ao local. Só assim que todos desceram foi que Danyael percebeu
onde estavam:
— Aqui é o centro
da cidade?
— Sim. – respondeu
Derek.
Concentrado nas
leituras que seu aparelho mostrava, Erick deu um sinal a todos:
— Ele está aqui!
Em algum lugar entre os escombros.
— Quanto tempo até
os demônios chegarem? – questionou Derek em voz alta.
— Cinco minutos e
contando!
— Então vamos ser
rápidos!!!
Stephanie foi até
seu irmão. Em suas mãos ela lhe trouxe um rifle pesado.
— Mas o que…
— Por precaução.
Este é o Shock Rifle. Dispara
tiros seqüenciais de laser capaz de destroçar qualquer demônio de Classe 1 ou
2. Acima disso, se não tiver sorte, irá causar pelo menos algum dano. Você sabe
usar uma arma de fogo laser, não sabe?
— Posso não vir de
um Tempo de guerra, mas sei usar uma arma sim! Nosso pai nos ensinou. Falando
nisso…
— Depois! Vamos
encontrar esse outro sobrevivente!
Demorou um pouco
pra reconhecer, mas Danyael conseguiu saber o local exato onde estava. Ali era
onde ficava o prédio St. Mary Axe
n.30, ou “O Pepino”, como chamavam os londrinos. Era ali também onde era a sede
da multinacional Jupiter’s Corp.
Entretanto, hoje era apenas um prédio desmoronado com suas estruturas
abandonadas. Era quase impossível de se imaginar que alguém poderia ser
encontrado ali com vida.
O grupo foi se
adentrando pelos escombros com calma e cautela. Havia muitos anos que esse
prédio havia desmoronado e possivelmente sua estrutura estivesse precária. Na
frente estava Erick e Andrew. No meio Danyael seguia Derek, e Stephanie vinha
logo atrás dando cobertura. Todos estavam bem armados. Andrew carregava uma
poderosa arma conhecida como Flak Cannon: Um tipo
de mini-canhão que disparava estilhaços de chumbo, semelhante a uma escopeta só
que bem maior ou então um único tiro como um canhão de navio. Já Derek e Erick tinham
em mãos uma Enforcer:
uma pistola de grosso calibre, que devido ao seu design e tecnologia
semelhava-se a uma submetralhadora. E Stephanie carregava o mesmo rifle de
Danyael.
— Ali! – apontou
Erick para um amontoado de escombros, que de acordo com suas leituras havia um
tipo de sala soterrada. Eles já estavam tão fundo no
prédio que não havia mais como voltar atrás. — De acordo com meus dados, o cara
parece estar bem, só que desacordado.
— Certo pessoal.
Vamos tirá-lo de lá! – afirmou Derek. – Andrew! Já sabe o que fazer, não?
— Sim, senhor!
Como um soldado
obediente, Andrew colocou sua arma no chão e ficou bem diante dos escombros que
os separava da vítima. Ele esfregou as mãos e invocando poderes mágicos
poderosos e em seguida tocou no entulho o transmutou em uma passagem segura e
confiável. Danyael assistiu aquilo tudo com uma fisgada de orgulho.
Entrando primeiro,
Andrew percebeu que estava muito escuro ali dentro. Novamente usando sua magia,
o rapaz estalou os dedos e uma pequena luz surgiu em sua mão. Ele a soltou,
deixando-a ficar flutuando, servindo como uma lâmpada no teto. Perto de uma
mesa de madeira acabada com tempo, havia um homem deitado no chão. Ele
aparentava estar muito bem de saúde.
— Aqui, eu o
encontrei!!!
Em particular,
Derek questionou Erick:
— Quanto tempo nos
resta?
— Menos de três
minutos, senhor.
— Ok, Andrew! Traz ele e vamos embora daqui depressa!
— Sim, senhor!
Assim que Andrew
veio à luz com o homem em seus ombros, Danyael rapidamente o reconheceu:
— MATT!!!
— Você o conhece,
pai?
— Claro! É o
Matthew! Meu… - Danyael resolveu se esquecer das discussões passadas: — …melhor amigo dos tempos da faculdade.
— Eu também estou
reconhecendo ele… - comentou Derek soturno, com ar bastante desconfiado. –
Andrew, solte esse homem no chão.
Com um sinal,
Derek ordenou que todos apontassem a arma na direção de Matthew. Danyael
rapidamente se intrometeu:
— EI, ESPERE!!! Por que isso?!?
— Danyael, não se
esqueça que você não está mais no seu Tempo. Aqui nesse mundo as pessoas que
você conheceu podem não ser mais as mesmas. No caso desse homem, eu me lembro
perfeitamente de seu rosto. Ele foi um dos Possuídos! Ele era o hospedeiro de
um demônio muito poderoso conhecido como Abadom.
Danyael mesmo
relutante, concordava com as palavras de Derek. Aquele
não era o seu mundo. Seus amigos de Oxford com certeza não seriam mais os
mesmos. Foi então que Matthew acordou. Assim que viu o cano de várias armas
apontadas para a sua cabeça ele logo reagiu:
— EI, EI, EI!!! CALMA AE!!!
— Espere, Derek!!! – gritou Danyael.
— O que está
acontecendo aqui?!? Onde eu estou?!?
Danyael??? Stephanie???
Sentindo um alívio,
Danyael logo percebeu que aquele poderia ser o seu verdadeiro amigo.
— Matt, você se
lembra de mim?!
— Claro, Kimble!!! Como poderia me
esquecer de você!? Mas por que estão todos apontando
uma arma pra minha cabeça?!?
— Espere, Derek. Acho que ele deve ser do meu tempo!
— Outro? –
questionou Andrew.
— Isso pode ser perigoso,
Danyael. Demônios mentem. Lêem mentes e podem dizer exatamente o que queremos
ouvir! – advertiu Derek.
— Sou um anjo,
esqueceu? Ler minha mente não é tão fácil!
Totalmente
perdido, Matthew questionou:
— Alguém pode me
dizer o que está havendo?
Danyael se
aproximou e ficou bem diante de Matthew. Só havia uma forma de saber se ele era
ou não o seu melhor amigo.
— Como foi que a
gente se conheceu?
— Por que…
— Apenas responda, Matt. Isso pode estar valendo a sua vida.
— Certo… Na
verdade nós nos conhecemos assim que chegamos em
Oxford, pois fazíamos a mesma cadeira de Língua Inglesa na faculdade. Mas foi
só numa festa que rolou no posto da rodovia M40 que realmente nos tornamos
amigos, quando disputamos um racha pra saber qual de nossos carros era o mais
veloz. Você me venceu por apenas alguns centímetros à frente, que depois fiquei
sabendo que você usou os seus poderes pra fazer o carro andar mais rápido! Como
sempre você sempre é um ladrão!
Danyael sorriu.
Certamente esse era o Matthew que ele conhecia. Eles ainda se lembravam da
discussão que tiveram alguns dias atrás (ou há alguns anos, em outra linha
temporal…), mas por puro desespero de terem pensado que tinham morrido minutos
atrás, um abraço foi a trégua entre os dois.
— Cara… foi mal! –
disse Matthew baixo perto do ouvido de Danyael quando eles se abraçaram. – Não
queria ter dito aquilo tudo pra você no cemitério. Eu estava transtornado e
muito revoltado com a morte do Spark.
— Eu também fiquei
revoltado. Tem nada não! Amizade é assim mesmo! Dias você abraça,
dias você bate. É normal.
Depois de se
separarem Matthew estava ávido por respostas:
— Ei! Onde eu estou?!? E por que a sua
irmã ‘tá parecendo uma personagem do filme Tropas
Estelares?!?
— Senhor, temos menos de dois minutos!!! – alertou Erick.
— Vamos embora
logo daqui! – ordenou Derek que foi prontamente atendido.
— Eu te explico no
caminho… - disse Danyael.
Assim que chegaram
até o carro, Matthew estava tal como Danyael horas atrás: não acreditando em
tudo que tinha ouvido e visto. Era como um sonho (ou pesadelo) muito doido, do
tipo daqueles quando se está com febre e delirando.
— Impossível! Eu
não posso estar no futuro!! Muito menos no Futuro de
uma Linha Temporal Alternativa!!! Isso ‘tá parecendo
uma doideira de série Sci-Fi!
— Mas é a mais
pura verdade! – respondeu Danyael. – E como você veio parar aqui?!?
— Não era pra eu
estar aqui! Era pra eu estar morto!!
— Morto?!?
— Sim! O Phill… - foi então que a ficha caiu para Matthew. – Então…
aquele calhorda não me traiu…! - pensou levantando um sorriso de alívio. – Mas
por que ele fez isso?
— Phill? ‘Tá falando d’O Phill?!? Eu não estou entendendo nada! Explique isso direito!
— Nós estávamos…
— DEREK!!! – chamou Erick alarmado, interrompendo a conversa entre
os dois. – Os demônios não estão vindo para
cá!!!
— Como é?!?
— Veja…
Mostrando seu
aparelho para Derek e Andrew, havia um mapa de Londres em 3D mostrando uma pequena
mancha vermelha que vinha na direção deles, só que havia parado no meio do
caminho.
— Que estranho…
Algo os deteve lá.
— Isso é um PHDA?
– questionou Matthew. (nota de tradução: “Personal High-Digital Assistent”)
— Não… É um PDA
comum. - (n.d.t.: “Personal
Digital Assistent”)
— Eu tenho um PHDA!
Só não sei se está ultrapassado comparado ao seu.
Matthew tirou seu
aparelho tecnocrático do bolso e mostrou que os dois eram bastante parecidos.
— Diga-me quais são as leituras.
E Erick passou
todas as informações técnicas. Assim que o aparelho de Matthew sintonizou, ele
mostrou ser bem mais avançado e com uma interface mais sofisticada do que o
aparelho de Erick. No mapa do PHDA de Matthew ele pode determinar exatamente o
que eles queriam saber:
— Os satélites
lunares dos Iluminados ainda estão lá, mesmo 25 anos depois! Pelos meus dados
eles estão na… Oh Meu Deus! É onde
ficava nossa Base Secreta!
— Que base
secreta? – questionou Danyael.
— Esqueceu que eu
te disse que sou um agente Iluminado?
— Verdade…
— Tem exatamente
seis demônios no local. Tem um sinal bem fraco de vida também… É uma mulher!
— Outro?!? Três no mesmo dia? Será que também é outro viajante no
tempo?! – questionou Andrew.
— Meu Deus!!! Danyael, é a Keira!!! –
alarmou-se Matthew. Sem saber o que fazer o anjo olhou para Derek.
— Nosso veículo
não chegará lá a tempo de salvá-la. Ela irá se tornar uma Possuída!
— Possuída?!? – repetiu Matthew ainda mais alarmado.
— Eu irei lá! –
disse Danyael.
— Mas como?! –
questionou Derek.
— Voando, é claro!
Chegarei lá em segundos! Não posso perder tempo aqui!
— Eu vou contigo!
– exclamou Stephanie.
— Mas…
— Sem “mas”! Eu
conheço os demônios de 2053 muito melhor do que você! Eu vou!
Assim que
levantaram vôo, os dois anjos foram interrompidos:
— Então eu também
vou! – agora foi a vez de Andrew querer ir. – São seis
demônios e meu pai ‘tá sem seus poderes! Vão precisar de ajuda!
— E você sabe
voar, Andrew?!?
Andrew apenas
sorriu e sem a ajuda de asas angelicais levantou vôo facilmente. Entretanto,
tal feito exigiu que ele revelasse um detalhe que ele estava escondendo: Sua
brilhante e dourada auréola. Isso obviamente chamou a atenção de Danyael, fora
o fato de seu filho voar como se fosse o Super-Homem:
— Então você
nasceu Nimbus.
— Sim. Algum
problema?
Danyael percebeu a
rispidez nas palavras de Andrew, mas ignorou:
— Não, não. Vamos!
E como três
mísseis sendo lançados por caças aéreos, os três cruzaram os céus de Londres.
*****
— AAAHHHH!!!
O grito de Keira
ecoou desesperado na cidade abandonada. Ela nem conseguia imaginar onde estava
e nem o que estava acontecendo. Simplesmente acordou com dois monstros lhe
atacando ferozmente.
O primeiro golpe
veio de um demônio que lembrava
uma mistura de cobra gigante com corpo de macaco. Entretanto, seu copo era todo
em cor de ferrugem, com manchas rochas, e espinhos salientes nos ombros e nas
costas. Seu olhar não era muito ameaçador, porém suas ações se faziam valer o
contrário. Keira recuou do ataque ainda se arrastando no chão, depois se virou
dando as costas para o inimigo e correu, à tropeços,
tentando buscar sua única chance de salvação: a pistola laser tecnocrata que
estava caída ali perto.
Assim que empunhou
a arma, a Tenente da Sociedade de Prometeus se virou
e disparou tantos tiros quanto pudesse dar. Os lasers rompiam-se da arma feito
estrelas verdes e atingiram o monstro com ferocidade. O demônio até que recuou
um pouco para trás ferido, e Keira viu que possivelmente essa seria sua única
chance de fugir dali. Mas tamanho foi seu susto quando um segundo golpe lhe
pegou desprevenida e lhe desarmou.
O segundo demônio era frágil,
porém parecia ter grande destreza. Era apenas um esqueleto animado, onde no
lugar dos braços havia asas de morcego vermelhas e rasgadas. Foi com seu rabo
pontiagudo que ele desarmara a jovem, que agora não tinha mais como se defender
de seus agressores do Inferno.
O esqueleto deu um
grito feroz para apavorá-la e em seguida partiu pra cima, pronto para matá-la.
Keira serrou os olhos e protegeu a cabeça. Um forte estrondo se rompeu.
Descendo flamejante dos céus como um cometa do tamanho de uma bola de boliche,
um projétil atingiu em cheio o demônio voador. Seu
corpo explodiu imediatamente com o impacto. No alto, Andrew estava com sua Flak Cannon recém usada apontada para baixo. Danyael
imediatamente desceu para ajudar Keira, enquanto Stephanie partiu furiosa ao
encontro do outro demônio:
— KEIRA!!!
— DANY!!!
O anjo assim que encostou no solo abraçou a amiga. Ela estava claramente
assustada e apavorada:
— O que está acontecendo?!? Onde é que eu estou?!?
— É uma longa
história! Primeiramente iremos tirá-la daqui.
Assim que ele
terminou de falar, uma labareda veio em sua direção. Graças ao seu dom natural de
pressentir o perigo, Danyael conseguiu agarrar sua amiga e pular para o lado
evitando assim serem atingidos.
— Fique aqui!
— Ok!
Levando a mão até
as costas, Danyael conjurou novamente a Light Sword. Respirando fundo, o anjo
se conformou que sua espada estava sem poderes, entretanto continuava sendo uma
excelente espada: afiada e leve.
O demônio que os atacou
lembrava muito aquele no qual Andrew destroçou, porém seu corpo estava
totalmente em brasas. Um esqueleto animado, com longo rabo pontiagudo, mas com
o corpo totalmente em chamas, tal como uma tocha humana. Usando-se dessa
vantagem, esse demônio parecia não ter medo de atacar abertamente, e pulou pra
cima de Danyael com tudo.
Suas garras
flamejantes seguiram direto até o rosto do anjo, entretanto ali pararam, centímetros antes de atingi-lo. Danyael havia
esticado o braço completamente e usou-se do longo comprimento da Light Sword
pra atingir o inimigo sem ter que se aproximar dele. Com o demônio flamejante
espetado em sua lâmina, o anjo o cortou ao meio, finalizando com outro corte na
diagonal.
Enquanto isso,
Stephanie descarregava potentes tiros lasers com seu Shock
Rifle no primeiro demônio meio-símio. O que restou não dava nem pra
identificá-lo. Quando tudo pareceu ter se acalmado, o grito de Keira alertou
Andrew e Stephanie:
— Pai!!!
Danyael havia sido
pego desprevenido por um demônio-múmia que,
mesmo com as pernas e braços enfaixados, atacava com uma espécie de asas, só
que em puro osso, que usava como braços sobressalentes. As faixas pareciam ter
vida própria também e aos poucos iam enforcando o anjo.
Andrew estava sem
ter como agir imediatamente. Sua arma era muito destrutiva, e se ele atirasse
com certeza ia acertar o seu pai. Jogando a Flak
Cannon no chão, Andrew resolveu usar-se de outro artifício: seus poderes
mágicos. Levando os dedos indicador e médio até a
testa e focalizando-se no alvo, Andrew começou a bombardear com ondas mentais
tentando possuir a mente do demônio.
Tal tarefa não foi
nem um pouco difícil. A mente daquele demônio era tão simplória e vazia quanto a de um boneco, e obrigá-lo a largar o seu pai foi
relativamente fácil. Assim que se soltou, Danyael girou a Light Sword e fatiou
o demônio em dois.
— Vamos embora
daqui!!! – exclamou Danyael.
Sorrateiramente,
uma poça de liquido rubro que lembrava sangue veio se rastejando por trás de
Stephanie. Crescendo veloz e virando uma onda mortal, o líquido também pegou a
irmã de Danyael, e começou a enforcá-la com um enorme tentáculo de espinhos.
Stephanie derrubou sua arma e começou a se contorcer para não morrer.
— NÃÃÃOOO!!! – Danyael veio em disparada na direção do demônio e
saltou com tudo descendo a espada em sua direção. Mas não havia “o que”
atingir. A lâmina da espada simplesmente mergulhou-se na bolha vermelha e logo
em seguida Danyael recebeu uma rajada fortíssima desse líquido nos peitos
fazendo-o cruzar veloz aquela casa abandonada.
Andrew sabia que
se não agisse imediatamente, sua tia iria morrer. Mas também não havia como
atacar fisicamente. O jeito foi usar-se novamente do mesmo ataque mental que usou
antes. Concentração alta e os dedos tremendo sobre a
testa, Andrew criou uma onda psíquica ainda mais poderosa que a anterior.
Entretanto, mesmo com potência máxima e usando-se de toda sua força de vontade,
aquilo parecia não surtir efeito algum contra aquela criatura líquida.
“Será que ela não
possui uma autoconsciência?”
Foi então que a
bolha líquida começou a se mexer muito, alterando sua estrutura até tomar a
forma de uma mulher-demônio
belíssima, de pele rósea, ruiva e de vestido vermelho. Seu vestido não tocava
no chão. Ao invés disso, era formado por correntes d’água rubra e de delas saía
o tentáculo que estrangulava Stephanie.
Sabendo que não
podia perder tempo, Andrew deixou de lado seus poderes e partiu pra cima da
mulher com socos e chutes. Tudo inútil. Era o mesmo que lutar com a água de uma
piscina. Foi então que Danyael se interpôs novamente. Ficando diante da demônio fluídica, o anjo usou-se de sua ultima reserva de
energia celestial para salvar sua irmã. Fazendo rápido um enorme sinal da cruz onde, em cada uma das pontas, ia surgindo um Selo Sagrado
angelical. Ao terminar lançou sua última arma:
— BENÇÃO!!!
Uma forte onda
prateada se estendeu por todo o local atingindo feito uma onda a demônio que
não teve como resistir. Ela não havia sido morta, entretanto a Benção do anjo
Danyael foi tão poderosa que seu padrão corporal perdeu completamente a resistência,
tornando-se novamente uma poça de sangue.
E não apenas a
demônio reagiu mal com aquele poder. Como a película do mundo espiritual estava
fraca, os pequenos espíritos peçonhentos foram um a um sendo vitimados
pelo então raríssimo poder divino. Aquela talvez tenha sido a primeira vez,
depois de anos, que o brilho sagrado emergiu naquele mundo.
Mas isto custou
muito de Danyael. Se antes ele já se sentia desconcentrado e fraco por não ter
mais o canal com o Divino, ao usar suas ultimas reservas de energia lhe
derrubou por completo. Andrew foi imediatamente ao seu encontro.
— Você está bem,
pai?
— Não muito… Estou
me sentindo fraco.
— Temos que ir
embora agora!
— Sim. E Stephanie?
— Está
desacordada.
— Vamos embora
daqui.
Usando-se de uma
força hercúlea pra ficar de pé, Danyael mostrou-se capaz de andar sozinho,
porém Keira foi até ele para ajudá-lo. Andrew imediatamente pegou sua tia no
braço e foi caminhado atrás pronto pra levar todos embora dali.
Mas aquela
história ainda não tinha terminado. Tanto Andrew quanto Danyael sentiram uma
forte presença demoníaca surgir perto deles e ao olharem para cima suas
esperanças de saírem dali em segurança se esvaíram. No alto do telhado daquela
casa desmoronada, um homem de prováveis dois metros e trinta os observava do
alto com seu enorme machado que lembrava um cutelo. Era outro demônio, provavelmente
mais forte do que esses outros.
— Pai… Leve a tia
e vão embora daqui.
— E você?
— Vou ficar e
cuidar do grandalhão.
— Você ‘tá maluco?!? Eu não vou te abandonar aqui!!!
— Isso não é um
pedido!!! – respondeu Andrew rispidamente com os olhos
dourados e a auréola ainda mais brilhante. – Por favor. Vá embora! Eu sei me
virar sozinho.
Danyael não
aceitou aquilo. Mas ele estava em desvantagem pra discutir. Tinha uma irmã
desacordada e uma amiga inocente pra tirar dali. O jeito era confiar e
acreditar em seu filho.
— Nem me invente
de querer morrer!!!
— Heh! Não se preocupe!
Assim que se
despediram, Danyael segurou firme sua irmã e Keira e partiu voando para bem longe
dali. Agora só restaram Andrew e seu rival pra terminar com aquele assunto
pendente. Do alto, o demônio reagiu com ironia com a atitude do rapaz:
— Andrew… Como você é idiota. Acha mesmo que
pode me derrotar sozinho? Aqui será o seu túmulo.
Andrew apenas
baixou a cabeça, fechou os olhos e sorriu:
— Todo filho tem
algo que esconde dos pais. Eu precisava que ele fosse
embora…
[Soundtrack: Evil Angel – Breaking Benjamin]
Uma forte aura de
ressonância dinâmica começou a se elevar do corpo de Andrew e no instante
seguinte sua auréola mudou de cor: de dourada para cor de fogo. Seus olhos
também haviam mudado de tonalidade. O dourado de origens angelicais foi
imediatamente substituído por um vermelho escarlate bem demoníaco. Elevando sua
mão esquerda que ardia uma chama azul espectral, Andrew começou a conjurar uma
longa espada negra que foi emergindo do solo aos poucos. Quando esta ficou
completamente no ar, Andrew a buscou com a mão direita, deu alguns cortes no
ar, e voltou a cravá-la no chão. O misterioso filho de Lilith e Danyael agora
estava pronto pra lutar de verdade!
O olhar de Andrew
irritou o demônio de tal modo, que ele foi o primeiro a tomar a iniciativa.
Saltando do alto do telhado, seu machado descia como um meteoro furioso na
direção de Andrew. Com aquele peso e velocidade, com certeza Andrew seria
partido e esmagado em dois se caso não saísse do caminho. Aquele momento de
milésimos de segundo pareceu durar eternidades, e sem ver a reação do inimigo
em sair do caminho, o demônio teve como certa sua vitória.
Entretanto, os
planos de Andrew eram outros. “Deixe-o
ganhar bastante velocidade e peso…”, pensou. Quando a distancia entre os
dois já se tornara impossível para uma possível esquiva, Andrew bateu as duas
mãos e em seguida lançou um feitiço sobre o demônio. Andrew aprendeu com seu
mentor Erick Russell a controlar todas as Forças que regem a Física, entre elas
a Massa e a Velocidade. Mais do que isso! Andrew atualmente era capaz de
transmutar qualquer força em outra equivalente. E foi isso que ele fez. A
“Massa” que o demônio ganhou com sua queda, ele transformou em Energia Térmica.
Se aquela massa, em igual valor já era absurda, ao ser
transmutada em ondas de calor, o demônio entrou em combustão espontânea!
Com a Aceleração, ele simplesmente a inverteu, fazendo-o retornar ao ponto de
origem, porém muito mais rápido quanto sua partida inicial.
O grito do demônio
ecoou por quase cinco quarteirões, e as chamas demoravam em apagar. Assim que
buscou sua espada, Andrew partiu em disparada já realizando outro ritual.
Estalando os dedos, Andrew se agachou rápido batendo as duas mãos no chão e
logo depois disso saltou tão alto a ponto de conseguir pular um prédio com um
simples impulso.
Nessa forma,
Andrew não conseguia voar, mas isso não era problema. Ele apenas queria estar
fora do alcance de seu próximo ataque. Ele não havia batido as mãos no chão à
toa. Agora todo aquele quarteirão estava sobre seu controle. Era apenas questão
de estalar os dedos.
O demônio
finalmente havia conseguido apagar as chamas de seu corpo, mas não conseguiu tempo
pra se proteger da próxima investida do filho de Danyael. Controlando todos os
átomos daquela área, ele as fez implodirem, gerando assim uma pequena explosão
atômica no local. Voltando a cair, Andrew ativou novamente o Controle de Forças
Menores, e foi desacelerando sua queda até aterrissar na esquina da rua suave e
em segurança.
Aquele combate
estava terminado. Andrew deu as costas e se preparou para ir embora. “Não…” O combate ainda não havia
terminado! Girando em parafuso, preparando sua espada para o bloqueio, Andrew
agüentou toda a força do machado que veio em sua direção.
“O maldito era resistente!”, pensou.
[Soundtrack: Indestructible – Disturbed]
Mas o inimigo não
estava nas melhores condições. Seu corpo estava completamente ferido e com
diversas fraturas, porém o ódio que ele nutria por aquela “maldita aberração
mestiça” era o suficiente para mantê-lo de pé. A fricção entre as duas armas se
manteve por alguns instantes, até Andrew invocar outra de suas rotinas mágicas.
A lâmina de sua espada ganhara um brilho surreal vermelho, tornando-se ainda
mais afiada e mortal, com isso ele contra-atacou o inimigo cortando seu machado
ao meio e lhe aplicando um potente chute que os afastou.
Nenhum dos dois
esperou o outro tomar a iniciativa: o choque titânico entre suas forças foi
imediato. Andrew, que nem de longe era idiota, lançou outra magia sobre seu
corpo aumentando consideravelmente seus atributos físicos. Agora tanto sua força,
destreza e resistência estavam sobre-humanos graças ao
rito do “Corpo Aperfeiçoado”.
Andrew se esquivou
magnificamente do soco hercúleo que veio pela esquerda e na sua vez, sua espada
dançou no ar e no fim arrancou o braço do demônio fora. Mas o que o mago não
esperava era que aquele demônio tivesse uma grande resistência a ponto de
contra-atacar com o braço restante e aplicando um soco
ascendente tão forte que seria capaz de derrubar uma casa com aquele golpe.
Ao ser jogado aos
céus, Andrew percebeu que naquele combate ele teria que ser mais objetivo em
seu ataque.
— Se esse Filho da
Puta conseguiu resistir ao poder das Forças e da Matéria, vamos ver o que a Trama Vital poderá fazer!
Girando sua espada
em diversos movimentos diagonais, Andrew conjurou outro de seus ritos, só que
agora mais direcionado ao alvo: “O Dilaceramento dos Padrões Vitais”. Ao
apontar sua espada para o demônio, um raio vermelho partiu da lâmina e este
atingiu o demônio em cheio.
A princípio não
foi um tiro mortal. Mas aquela energia adentrou-se por todo seu corpo e começou
a transmutar todo o demônio, mas ao invés de mudar ele simplesmente iria
destruir. Numa última reação, o demônio ainda tentou uma última investida
contra Andrew, mas foi quando seus olhos explodirão que ele percebeu que a luta
já tinha sido encerrada! Andrew aterrissou, se virou rápido e deu as costas
para o demônio, cravando a espada no chão esperando o inevitável. O corpo do
demônio implodiu de forma bizarra e espetacular, voando tripas e sangue por
todos os lados.
*****
Do alto de um
prédio, a poucos quarteirões de distância, Danyael e Keira observaram o combate.
Keira estava completamente espantada, enquanto Danyael observou tudo àquilo
seriamente.
— Seu filho é com
certeza um homem excepcional.
—
… - Danyael
pensou numa reposta franca, porém desistiu da idéia: — Vamos embora. O pessoal
está nos esperando.
*****
— Como assim não
puderam??? – exclamou Danyael revoltado.
— Danyael… Sem a
conexão com o Coro Celestial como eu iria ensinar Poderes angelicais para o
Andrew?! – argumentou Stephanie enquanto se recuperava.
— Mas o Derek
podia pelo menos ensinar-lhe alguns Poderes Demoníacos!
— Eu sou um mago e
não um demônio!
Danyael havia sim
ficado contente com a grande performance de Andrew
horas atrás, mas estava insatisfeito ao saber que seu filho, o único Ser do
universo meio-anjo e meio-demônio que não conhecia nenhum dos magníficos
poderes de suas heranças. Mesmo manipulando a magia de forma inigualável, ele
acreditava que seu filho podia ser bem mais do que aquilo.
— Danyael, por
favor, entenda… - iniciou Stephanie com a voz pausada. — Nós tentamos tudo que
estava ao nosso alcance pra criar e educar o Andrew. Você nem imagina como foi
difícil os nossos dias aqui com um bebê recém-nascido e uma verdadeira guerra
acontecendo lá fora!
— E, aliás, este
Andrew não é verdadeiramente seu
filho. – completou Derek. – Ele é o filho do Danyael que morreu.
Bufando de raiva,
mas mantendo a compostura, Danyael replicou:
— Derek, não força
a barra, ok? De onde eu venho nós não somos “tão
amiguinhos” a ponto d’eu confiar a guarda do meu filho a você!
— Eu até imagino o
porquê! – respondeu Derek encerrando a conversa saindo
do aposento.
Danyael ficou
calado observando a atitude de Derek. Independente de que época ele estivesse, sua
relação com cunhado parecia não mudar.
— Eu entendo que
foi complicado criar o meu… o Andrew, nesse mundo onde vocês vivem. Mas droga,
Stephanie! Se Metatron disse que ele era a única esperança no mundo, com
certeza ele se referia a natureza dele!
— Nós sabemos
disso, Danyael!!! Mas é o que eu volto a te dizer:
Como iríamos ensinar os poderes das duas linhagens nessas condições?!?
Nesse momento
Erick, que até então preferiu não se meter naquela discussão familiar, deu a
sua opinião:
— Ele é um grande
Mago, Sr. Danyael.
— Eu percebi!
— Não estou
falando nesse sentido. Desde que Derek e eu resolvemos ensiná-lo as Artes
Arcanas, Andrew se mostrou muito além de todas as expectativas. Desde muito,
mas muito novo ele já conseguia realizar feitos mágicos de dar inveja a
qualquer aprendiz! Eu estou na Resistência há exatos 25 anos, exatamente a
idade dele, e desde então tenho sido o Mentor dele e o tenho também como um
afilhado. Desde então venho acompanhando a fantástica evolução dele. Se o
senhor queria que ele fosse excepcional como herdeiro do Céu e do Inferno,
talvez você devesse perceber as outras qualidades de seu filho, que como Mago,
muito antes de se tornar um Arquimago, já é capaz de
realizar feitos desse nível sem qualquer dificuldade! Se você o observou em
combate, com certeza deve ter percebido que, diferente de muitos magos humanos
comuns, Andrew se indispõe de focos ou fetiches pra realizar a sua magia.
Depois de seus dezoito, a única ferramenta que Andrew usa em sua magia é a
simples Teoria.
— Claro!!! Isso com certeza é graças a
herança dele!
— Sim. Pode ser. –
comentou Stephanie. — Mas é isso que estamos tentando te dizer desde o inicio!
Andrew pode não ter alcançado as suas expectativas, mas como Mago ele vai muito
além delas!
Danyael enfim
havia entendido. Mas o que ele não sabia era que Andrew estava o tempo todo do
outro lado da parede escutando tudo. Aquela conversa havia entristecido o jovem
rapaz. Ele sempre imaginou e idealizou o seu pai como um homem incrível e que
ele ficaria bastante orgulhoso com sua evolução. Mas parece que não foi bem
como ele imaginara. E ainda tinha aquele “outro assunto” que ele ainda escondia
dele. Andrew pensou bem e viu que o melhor era continuar mantendo em segredo
sua verdadeira personalidade.
Dentro do aposento,
Erick continuou a conversa:
— E Andrew é o
único homem que conheço na história, que não é Arquimago,
mas manipula 7 das 9 esferas de conhecimento da magia!
— Sete?!? Mas como?!? Tio Eriol disse que
só aqueles que alcançam a longevidade conseguem alcançar cinco, que dirá sete!
— Sim, isso é
verdade! Mas tem aquele “lance” do Andrew.
Pra interromper a
conversa, Stephanie dá uma tossida forçada e olha feio pra Erick. Danyael
percebera:
— “Lance”? Que
lance??
Erick ficara
visivelmente constrangido. Não sabia que tinha levantado um assunto que não era
de conhecimento de Danyael:
— Bem…
— Deixe que eu explico, Erick. Danyael, o que acontece é o seguinte… O
Andrew é muito mais… “excepcional” do que ser um híbrido de anjo e demônio.
— Como assim…
“excepcional”?? ‘Tá dizendo que ele tem algum
problema? Algum distúrbio mental???
— Quase isso!
— Impossível!!! Ele é a pessoa mais sã e normal que eu conheci! Que tipo
de distúrbio ele tem?!? Ele não é “Down”
ou altista é?!? Isso seria impossível!
— Claro que não é
isso, Danyael!! Andrew tem um distúrbio mental que se desenvolveu
durante a sua infância. Ele tem… Dupla
Personalidade.
—
… -
boquiaberto, Danyael tentou racionalizar aquilo direito. — Ah… Como assim??
— Andrew tem duas
personalidades dentro de si mesmo. Uma ele atende pelo nome de “Andrew Kimble”, o anjo. E a outra é o “Andrew Daemon”,
o demônio.
— Mas… eu nem
percebi isso!
— Percebeu sim!
Reparou que desde a hora que vocês se viram pela primeira vez, o menino alterna
em suas emoções com relação a você? Não reparou que assim que você chegou ele tava um doce de garoto, super prestativo e
momentos depois, na hora que saímos pra salvar sua amiga Keira, ele foi
bastante ríspido?
— Sim, mas… isso
pra mim é normal. Devido ao estresse da situação, ele podia ‘tá nervoso! Pensei
que pelo fato dele nunca ter me conhecido, seria difícil manter um
relacionamento de pai e filho com ele!
— Mas não é isso.
Andrew tem duas personalidades que alternam sem qualquer aviso. A única
vantagem que ele tem é que não é um problema “sério”. O que estou querendo
dizer com isso é que ele não tem duas personalidades, digamos, “distintas”, que
nem conhecem a existência uma da outra. Pelo contrário! Ele sabe da existência
das duas e ainda se lembra de tudo que fez quando muda de personalidade. Nós já
passamos anos tentando entender o porquê disso, mas a única coisa que
descobrimos é que o Andrew não é, em sua essência, um misto de Anjo com
Demônio. Pelo contrário! Em momentos ele é apenas Anjo, em outros ele é apenas
Demônio.
Erick complementou
a explicação:
— Por isso que ele
é excepcional com a Magia. Devido a essas personalidades múltiplas, cada uma
delas tem um aprendizado diferente, tanto na magia quanto em suas habilidades.
Das Sete esferas da magia, Quatro estão sobre domínio do lado angelical, e as
outras Três do lado demoníaco.
— E parece que ele
se familiarizou exatamente com as esferas que eram de acordo com sua
personalidade. No lado angelical, por exemplo, o Andrew é um mestre da
Dominação e da Mente. Ele também conhece as Artes dos Espíritos e do Destino,
além do profundo conhecimento sobre a Magia Primordial. – explicou Stephanie.
— Enquanto isso, o
demônio é um mestre nas Artes Padrões. Controla a Matéria, a Vida e as Forças
universais como ninguém!
Danyael parou pra
pensar e se lembrou:
— Realmente eu
percebi isso. Vi que no primeiro embate nosso com os demônios ele estava muito
mais recuado e usando de poderes mais passivos, mesmo sendo absurdamente
agressivos. Depois que fui embora ele mudou completamente. Até sua ressonância
tomara outra forma. Daí ele começou a lutar de forma bem mais agressiva,
explodindo tudo e transformando demônios em bolas de fogo!
— E como você deve
ter percebido, independente de qual Linha do Tempo
você seja, certas coisas não mudam. – frisou Erick. – Isso significa que, é
certeza que quando você voltar o seu filho daquele tempo também terá esse
mesmo… “probleminha”.
— Não! – disse
Stephanie. – Sinceramente eu não vejo como problema. Andrew será um garoto
normal como qualquer outro! Apenas terá suas peculiaridades. Ele também será
bem ambíguo em suas decisões, gostos, emoções e atitudes. Ele pode ser capaz de
gostar e odiar uma mesma pessoa em igual intensidade. Tal como ele ter horas de
gentileza e afeto e de repente se tornar arrogante e ignorante. Ah…! Como
tivemos problemas com o lado angelical dele!
— Angelical?!?
— De “anjinho” ele
não tem nada! É super mal-educado, respondão, arrogante e desobediente! Ele só
escuta o Derek aqui! Já quando ele ‘tá com a personalidade demoníaca é um doce
de rapaz! É aquilo que você viu quando chegou. Emotivo, prestativo, atencioso,
preocupado com a situação alheia, e de grande coração. Você nem imagina como
ele ficou feliz em te ver! Seus olhos brilhavam de alegria.
— Que paradoxo!
Parece que você está falando de suas pessoas diferentes!
— E estou! Com o
tempo de convivência você vai começar a enxergá-lo como duas pessoas distintas.
Eles são muito diferentes! E é aquilo que eu te disse: a única vantagem é que
as duas personalidades se conhecem e sabem o que a outra fez. Houve muitos
problemas na adolescência dele, mas hoje as duas conseguem conviver em
harmonia.
A conversa parecia
que ia continuar, afinal Danyael tinha várias
perguntas a fazer, entretanto o assunto se encerrou com a chegada repentina de
Matthew e Keira que queriam poder conversar com Danyael em particular. Foi
nesse momento que ele percebeu que, independente do que estava acontecendo ali,
existiam coisas muito mais importantes agora e uma delas era voltar pro seu
tempo para impedir Mark Nottingham.
— Dany… Matt e eu temos muitas coisas pra conversar contigo.
— Pois é.
Precisamos voltar pra casa!
— Esse é um dos
nossos problemas!
— Como assim,
Keira?
— O que a Keira
‘tá querendo dizer, Kimble é que nós não temos mais
“uma casa” pra voltar!
— Como assim?!?
— Eu não sei bem
direito, passamos horas analisando as linhas temporais nos quais o Sr. Johannes nos explicou, e infelizmente não encontramos a
nossa!
— Impossível! Primeiro, como vocês conseguiram fazer isso?!
— Kimble… Nosso computador portátil é um dos instrumentos
mais avançados dos Illuminados. É só dar os comandos
certos que logo temos as repostas. Claro que também precisamos da ajuda dos
computadores dessa época, mesmo que eles estivessem um pouco atrasados do que
usávamos em nossa base.
— “Atrasados?!” Matt,
nós estamos no Futuro!!!
— Eu sei! Mas a
tecnologia dos Illuminados é mais de cinqüenta anos
na frente de seu tempo atual. Se em 2028 usávamos tecnologia que só seria vista
no final do século 21, em 2053 com certeza temos acesso a tecnologia do século
22!
— Sim, e o que
isso tem haver?!?
— Tem haver que,
com a ajuda dos computadores dessa época e de meu PHDA consegui me infiltrar na
Rede Universal de Informações usada
pelos Illuminados, e mesmo com uma grande
dificuldade…
— Dificuldade?
— Sim. Nessa época
ficamos sabendo que os computadores se tornaram obsoletos para a tecnologia illuminada. Eles agora usam uma rede de informações
conhecida como “Neuronet”.
Seria algo como se a Internet agora fosse acessada apenas com a mente das
pessoas. Essas pessoas, claro, disponibilizando de uma Inteligência bem
superior e com dons Telepáticos.
— Minha nossa!
— Certo… voltando
ao assunto, nós fizemos de tudo pra encontrar pelo menos a nossa Linha
Temporal, para que com o “destino da viagem” definido, o restante fosse mais
fácil. Foi então que descobrirmos que ela não existe mais!
— Como que ela não
existe?!?
— Acho que a
melhor pessoa que pode te explicar isso é o Sr. Johannes.
— Certo, vamos
falar com ele agora!
— Dany, tem outra coisa que queremos te falar também.
— O que foi, Keira?
— É sobre o nosso
tempo. Acho que começamos a descobrir certas coisas importantes.
— Como assim?
— Por um acaso
você ainda não se perguntou como o Matt e eu viemos
parar aqui?!?
— É verdade…
estava tão absorto no lance do meu filho, que me esqueci desse detalhe. E então?
Como vocês vieram parar aqui?
— Acho melhor o
Matthew narrar primeiro.
— Certo! Bem… Tudo
começou quando nós da Sociedade de Prometeu e uma pequena alcatéia de
Lobisomens formos fazer um ataque contra a sede da Júpiter’s
Corp. – Depois de alguns minutos explicando
detalhadamente o que aconteceu, Matthew encerrou: — Daí, sem entender nada do
que estava acontecendo, eu levo um tiro de minha própria arma laser! Momentos
depois eu acordei aqui nesse mundo!
— E-eu estou sem ter o que dizer… O Phill?!? Você está falando do nosso Phill?? Phillipp O’Connor?!?
— E tem outro?
— Mas isso é
impossível! Ele não seria capaz de fazer mal a uma mosca!!!
Que história é essa da Keira berrar que você e o James estavam em uma
armadilha?!
Desta vez foi a vez de Keira relatar o que aconteceu com ela. Ela
descreveu em detalhes minuciosos tudo que aconteceu, falou bastante, relembrou
de assuntos como o caso da discussão entre Danyael e Matthew, e a forma que o
Matthew tava lidando com a morte do Spark. Depois ela
relatou, também em minuciosos detalhes, o momento em que foi fazer o exame de
DNA de comparação com o sangue do assassino. Do momento em que ela teve certeza
absoluta que não vira a gota de sangue de Phill
pingar na Lamínula. Relatou também que o Relógio da Base estava alguns minutos adiantado com relação ao relógio dela, que no caso,
o relógio dela era que estava atrasado. E por fim relatou sobre o exame
de Phill, que não era o dele e sim o de Léia.
— Léia?!? Mas por quê?
— Phill queria esconder o resultado do exame. Ele sabia que
nossos computadores iriam identificar se o sangue da lamínula era ou não de um
Draconiano. Daí ele deve ter usado o de sua esposa. Só que ele esqueceu que a
Léia estava grávida! Nossos computadores identificaram imediatamente isso!
— E você deduziu
que fosse o sangue de Léia por causa da herança draconiana e da gravidez.
— E por que era o
único sangue draconiano de mais fácil obtenção que ele tinha no momento.
— Sim… mas então?
Como você veio parar aqui?
— Da mesma forma
que o Matt, eu também pensei ter morrido. Naquele momento de desespero tentando
falar com o Matt, afinal em nossos computadores havia a informação de ele
havia… não vou dizer “morrido”, afinal ele não morreu, mas que “o sinal dele
desapareceu”. Em todos os casos, quando há um aviso desse alerta, significa que
o agente veio a falecer. Então, quando eu pensei em ir para a Júpiters tentar saber o que estava acontecendo, o alarme de
intruso de nossa Base entrou em alerta vermelho. Logo fiquei desesperada. Já
tínhamos um possível traidor em nosso grupo e estávamos enfrentando inimigos
poderosos. Realmente confiávamos demais na segurança de nossa Base a ponto d’eu
mesma aceitar ficar lá sozinha. Me armei. Me preparei. E enquanto aguardava a chegada do invasor, só
ia observando que ele estava invadindo cada uma de nossas alas, todas
fortemente protegidas, sem a menor dificuldade. No final, acho que não tenho
palavras pra descrever minha reação ao ver quem era aquele estava invadindo.
— Quem?
— Pior que por um
segundo pensei que aquilo tudo fosse um engano. Mas ele estava lá sério. Falou
coisas que eu nunca imaginaria que ele soubesse. Pior! Ele fez exatamente
aquilo que esperávamos que o verdadeiro
mandante dos assassinatos faria: Acabaria conosco!
Éramos sem duvida o grupo que estava mais avançado nas investigações, e assim
que batêssemos de frente com o inimigo, fosse ele quem fosse,
ele iria tentar nos eliminar.
— Sim, Keira…!
Quem estava invadindo a sua Base?!? Quem é o
verdadeiro mandante dos assassinatos dos anciões?!?
— Seu tio, Dany. O Diácono Eriol VonBranagh.
Ao escutar aquilo
Danyael teve um misto de incerteza, espanto e ironia. Não podia ser! Seu tio? O
Tio Eriol?!? Aquele que realmente não seria capaz de fazer mal a ninguém?!?
Aquele que recebeu até a segunda chance dos Céus pra poder livrar a sua alma de
Satan?!? É claro que a Keira
havia se enganado!
— Impossível.
— Danyael, eu
estou falando sério!
— Eu sei que está,
mas é impossível! Keira. Presta a atenção! Você está morta?
— Mas…
— Me responde!
Você está morta?!?
— Não…
— Então assunto
encerrado! Seja lá qual fosse os planos do meu tio, que eu assumo que ele é bem
esquisito em suas atitudes, ele nunca, nunca,
seria o mandante dos assassinatos! Ele sabia desde o inicio que tais
assassinatos estavam destruindo o Arcanorum, instituição esta que ele defende
com unhas e dentes! Ele não te matou, Keira. Ele te enviou para esse Futuro
Alternativo, porque acreditava (ou sabia, não sei) que você tinha algum tipo de
missão especial aqui.
— E quanto a mim?!? – questionou Matthew.
— Provavelmente o Phill trabalha pro Tio Eriol.
— Como é?!? Impossível! Ele é um dos nossos!
— E ele também é o
representante legítimo da raça dos Draconianos no Arcanorum. Não é surpresa pra
ninguém ver meu tio tendo conversas em particular com o Phill!
— Sei não… ‘Tá
muito mal explicada essa história! E o nosso Almirante?!
— Almirante?
— Grão-Mestre,
como preferir. O Dorje Washington. Porque ele agiu
daquela forma??? Ele falou como se fosse…
— O mandante?
— Sim! Ele falou
que a morte dos Grão-Mestres era inevitável!
— Então ele é que
é o Mandante! Gente, ‘tá tudo nítido! Phill
provavelmente desconfiava de Dorje e preparou, com a ajuda do Tio Eriol, uma forma de te salvar.
— É… - Matthew e
Keira se entreolharam. – Faz mais sentido.
— O que temos que
fazer agora é tentar voltar para casa! Se vocês estão aqui, e ainda por cima
foram enviados pelo meu Tio, é porque a participação de vocês será imensurável!
Vamos lá falar com o Derek! Não podemos perder mais nenhum segundo aqui!
Enquanto
caminhavam em direção a ponte de comando, onde com certeza estava a maioria dos membros da Resistência, Danyael reparou numa
cena curiosa. Em um dos corredores, meio escondidos, estava seu filho Andrew e
uma linda mulher, por volta de seus vinte e poucos, conversando bem próximos um
do outro. Danyael até diminuiu o passo pra poder ver mais e acabou por flagrar
um beijo entre os dois. Um sorriso logo brotou na face de Danyael:
— Este é o meu
garoto!
A Ponte de Comando
da Resistência lembrava a ponte de um submarino. Num local um pouco escuro,
alguns homens estavam diante de computadores que rastreavam a movimentação dos
demônios. Em um dos monitores, Danyael pode ver a imagem de satélite de como
estava Oxford nesses dias. Era literalmente a visão do Inferno. Pior. Nem o
Terceiro Círculo, onde ficava o Castelo de seu sogro, era tão tenebroso e
obsceno quanto o lugar que Oxford se tornou.
— Derek. – chamou
Danyael. O chefe da Resistência estava analisando as informações que seu aliado
estava lhe mostrando em um dos computadores.
— Estou um pouco
ocupado agora, Danyael.
— Não vim falar
sobre aquele assunto.
— Pela presença
desses dois, você veio falar sobre sua volta pra casa.
— Sim. Exatamente
isto.
— Pois é. Mas vai
ter que esperar um pouco. Estamos um tanto atarefados aqui.
— O que foi?
— Parece que as
Nações Unidas estão pretendendo atacar novamente os demônios com as bombas
nucleares de energia primordial.
— Você está
brincando!!!
— Não. Podem ver
vocês mesmos! – e Derek mostrou um vídeo na internet para Danyael e seus
amigos. No vídeo aparecia o que seria o Presidente dos Estados Unidos afirmando
sua decisão de contra-atacar os demônios.
— Isso é loucura!!! Se da ultima vez eles não conseguiram nada a não ser
destruir o Mundo Espiritual, agora então…
— Eles vão
destruir todo o Reino Unido, mesmo que isso cause um verdadeiro desastre
ambiental em escala mundial. E mal sabem eles que, com a Dark
Sword sob o poder de Mark, essas bombas não serão nada.
Um silêncio
sepulcral seguiu logo depois das palavras de Derek. Todos já sabiam que viviam
nos tempos do Apocalipse, só não imaginavam que o armagedom
estivesse tão próximo.
— Por isso,
preciso pedir pra que vocês se retirem e esperem um pouco lá fora. Minha equipe
e eu precisamos trabalhar agora.
— Certo.
Em fila indiana,
Danyael, Keira e Matthew se retiraram da Ponte de Comando. Nem era necessário
falar nada. O que iriam dizer um ao outro? O Tempo deles não existe mais e o
Tempo onde eles estavam podia a qualquer momento ser totalmente destruído. E
eles não tinham nem a esperança da Light Sword para salvá-los.
Se ao menos eles
tivessem uma grama de energia celestial disponível…
— EI!!! Espere!!! – exclamou Danyael.
— O que foi?!? – questionou Keira assustada.
— Cadê a minha
irmã?!? Cadê a Stephanie?!
Nesse momento surgiu
Andrew, vendo o nervosismo de seu pai:
— O que foi, pai?!?
— Andrew, cadê a
sua tia???
— Nos aposentos
dela.
— Chame-a lá pra
mim, por favor! Diz que é urgente!
— E do que se
trata??
— Faça o que estou
mandando, porra!!! Vai lá chamar a sua tia!!!
Fechando o
semblante, Andrew deu as costas e foi buscar por sua tia. No caminho foi bufando
de raiva com a forma que foi tratado por Danyael:
— O que ele pensa
que é?!? Ele nem é o meu pai!!!
*****
— Stephanie, de
uma vez por todas… Quer me responder onde está o nosso pai?!?
Novamente se
repete aquela situação constrangedora no qual já estava irritando Danyael:
— De novo a mesma
cara?! Pode dizer: ele morreu? Pode falar! Não me espanto com mais nada nesse
mundo!
— Não, ele não
morreu.
— Não?!? Então… Cadê ele?!? A mamãe eu
sei que está na Cidade de Prata e que não pode vir pra cá, mas e ele?!? Cadê o nosso pai, Stephanie?!?
— Ele está
internado, Danyael.
— Internado???
— Sim. Preso e
internado em Black Hill, a prisão sobrenatural. Eu pensei que em seu tempo
tivesse acontecido a mesma coisa, afinal…
— Não! Conte logo
o que aconteceu!!!
— Danyael… quem
sabe melhor… digo, quem sabia melhor dessa história
era o seu outro Eu. Isso foi antes d’eu nascer.
— Conte.
— Pelo que eu sei,
nos meses que se antecederam ao meu nascimento, nosso pai vinha tendo problemas
psicológicos e fortes abalos emocionais. Até que certo dia, no meio da
madrugada…
—
…Ele tentou
me matar.
— Sim! Exatamente
isso! Então você conhece…
— Continue, Stephanie! O que mais aconteceu?!?
— Eu não sei
direito, parece que naquela época ele também matou o seu padrinho Eriol e foi
caçado pelas autoridades. No fim teve que ser preso pelos anjos antes que ele
matasse a nossa mãe e a mim, que tinha acabado de nascer.
Todos ficaram
abismados com aquela narrativa. Pelo menos os três que vieram do passado. Mesmo
não conhecendo muito da família de Danyael, Matthew e Keira sabiam muito bem
que não foi bem assim que aconteceu. Tanto que o Sr. Kimble
era a pessoa longe de qualquer suspeita, que até lutou ao lado dos anjos
durante a guerra de Oxford. Keira tentou argumentar com Danyael, mas este se
esquivou e pareceu bastante pensativo. Parecia que ele estava descobrindo
alguma coisa…
— Dany…
— Keira. Eu já sei
por que nosso tempo não existe mais.
— Sério?!
— Também sei
exatamente em qual momento as linhas temporais se dividiram.
— Então fale, homem! – exclamou Matthew ansioso.
Ao invés de
responder, Danyael levou sua mão até o bolso traseiro de sua calça e tirou sua
carteira, agora bem molhada e gastada devido ao que ele passou o dia todo. De
dentro, ele buscou por um papel bem envelhecido, mas que durante oito anos ele vinha guardando consigo
sem saber seu verdadeiro significado.
Era um simples cartão de visita. Nos últimos dias
ele havia percebido com estranheza e surpresa a grande coincidência do nome que
Lilith e ele escolheram para o filho deles era o mesmo que tinha no cartão,
incluindo o sobrenome! Aquele cartão foi dado por seu pai há muitos anos atrás,
pouco depois dele ter conhecido a Lilith. Nessa ocasião o Sr. Kimble havia lhe dito pra ele guardar e levar sempre com
ele independente da situação, e que um dia ele entenderia o significado
daquilo. O tempo passou, e agora, exatamente numa situação como aquela, Danyael entendeu qual era o significado daquele cartão.
Virando-se para
seu filho, Danyael questionou:
— Você sabe o que
é isso??
O espanto de
Andrew foi imediato. Tal como a troca de personalidade que foi evidente, pelo
menos aos olhos atentos de Danyael. De anjo arrogante, pra demônio passional,
Andrew segurou o cartão com espanto:
— C-como você tem
isso?!?
— Primeiro me
responde o que é isso.
— Bem… - Andrew
estava nitidamente envergonhado. – Esse é o meu… Cartão de Visitas!
— O seu o que? –
questionou Stephanie sem entender nada.
— É apenas uma
brincadeira de criança! Quando eu era mais novo eu imaginava os meus parentes e
amigos como heróis, e que formávamos um tipo de “Liga” conta o mal. Daí,
inspirado nos filmes de policiais e detetives, eu fiz esse cartão. Fiz até
escondido do Tio Derek, pra que ele não brigasse comigo por usar a impressora
por besteiras…
— E o que
significa “S.C.U.”? – perguntou Danyael.
— Special Crime Unit. – (tradução:
Unidade de Crimes Especiais). – Hehehe! Eu sei… É
meio brega, mas eu tinha apenas 10 anos!
— Agora sim, tudo
está explicado… - sorriu Danyael para seu filho pousando a mão sobre seu ombro.
— Mas… Como você
conseguiu esse cartão? Mesmo se na outra Linha Temporal eu tivesse a mesma
fantasia de infância, você veio de um tempo no qual eu nem nasci!
— Eu sei disso!
Mas foi você mesmo que me deu esse cartão. Digo… Você deu ao seu avô, John Kimble.
Naquele momento,
Derek saiu da Ponte de Comando e finalmente veio conversar com o grupo.
— O que está
acontecendo?
— Derek… Eu já sei
em que momento a sua Linha Temporal foi alterada e a minha criada.
Danyael dedicou as próximas horas explicando detalhadamente o que aconteceu
em 2005, em sua Linha Temporal, no dia em que Stephanie nasceu. Explicou que em
seu tempo, John nunca foi acusado de assassinato, e que todos os possíveis “crimes”
realizados por ele, foram justificados onde até mesmo o seu compadre Eriol saiu
vivo na realidade. Ele também explicou a origem daquele cartão em seu Tempo. O
grupo conversava em particular numa mesa retangular onde os soldados da
Resistência faziam suas refeições.
— Então… -
raciocinou Derek friamente. – Aquele que salvou o seu pai e assim criou uma
nova Linha Temporal foi o nosso
Andrew.
— Com certeza que
sim! – respondeu Danyael.
— Mas… E se não
tiver sido o Andrew do seu Tempo?
— Derek, me admira
você falando isso!!! Vai me dizer agora que é
“coincidência” eu estar 25 anos no futuro, ter conhecido o meu próprio filho
adulto, descobrir que estou numa Linha Temporal alternativa, que a minha por
sinal deixou de existir e, além disso, que trago um cartão no bolso no qual o
próprio Andrew admite que foi ele mesmo que fez?!
— Realmente,
Danyael. Você escolheu bem seu argumento. Como Mago eu não acredito em
“coincidências”. Nada acontece por acaso. Realmente está pulando nos nossos
olhos as evidências. Mas se é isso… como iremos fazer isso?
Nesse momento
todos olham para Andrew, que até então estava calado e observando toda aquela conversa espantado:
— Aaahh… Nem olhem para mim!!! Eu
não conheço as esferas do Espaço e do Tempo! Esse tipo de Metamagia
não é comigo!
Com os dedos
entrelaçados sob o nariz, Derek questionou:
— E então?
O silêncio veio
sem uma resposta, principalmente de Danyael que nem imaginava como fazer pra
ele mesmo voltar pro seu Tempo.
— Eu entendo a
preocupação em voltar pro Tempo de vocês, mas infelizmente nós aqui não podemos
fazer muita coisa pra ajudá-los. Nós estamos prestes a sermos dizimados por 66
mísseis nucleares que irão cair por todo o Reino Unido. Sei que vocês querem
muito voltar pro paraíso perdido de vocês, mas esta é a nossa realidade. E não
será um esforço do Andrew que irá mudar esta realidade aqui!
Derek se levantou
encerrando aquele assunto e se retirou do refeitório. Danyael ficou sem ter o
que dizer. E a situação ficou ainda mais complicada quando foi a vez de Andrew se levantar e se retirar do recinto. Danyael
também percebeu que durante as palavras ríspidas de Derek, seu filho havia
mudado de personalidade e com certeza a atual estava concordando plenamente com
seu tio. Sem ter o que dizer, Stephanie se retirou também dando os seus
pêsames:
— Desculpe.
Sozinhos, Danyael,
Matthew e Keira ficaram sem ter para onde ir. Danyael não tinha como levá-los
de volta ao seu tempo, por que este além de não existir mais, ele também não
possuía os poderes celestiais da Light Sword à sua disposição. Já Matthew e
Keira estavam completamente perdidos sem saber a razão deles
estarem ali. Eles apenas sabiam que, se não fosse feito algo, logo não
haveria nem um Tempo pra eles ficarem. Foi então que Danyael se lembrou que ele
se esqueceu de sua verdadeira idéia, que por causa da história do cartão, foi
jogada pra escanteio. Imediatamente Danyael se levantou e foi correndo atrás de
Stephanie. Matthew e Keira foram atrás.
— Stephanie,
espere!
— Diga.
— Só uma última
pergunta. Você sabe onde está o “Elohim”?
— Como é?!
— Antes de
nascermos, nosso pai e o Tio Eriol guardaram a consciência do arcanjo Elohim, aquele o qual nosso pai é a reencarnação, dentro de
uma esfera de cristal. Você sabe onde está essa esfera?!
— Eu nem sei do
que você está falando! Será que não é um evento exclusivo do seu Tempo?
— Não! ‘Tá mais do
que certo que qualquer coisa que aconteceu antes do seu nascimento é igual nos
dois Tempos! Essa esfera existe! Ela ficava lá na nossa casa!
— Mas… mesmo que
essa esfera realmente existisse hoje, eu nem imagino onde ela esteja!
Principalmente por que depois da morte do Eriol e da prisão de nosso pai, nós
nos mudamos daquela casa.
— E as nossas
coisas?!?
— Sei lá, Danyael!
Eu era recém-nascida! Como eu vou me lembrar dessas coisas?!? Os únicos que talvez soubessem disso eram
você, nossa mãe e…
— E…?
— E o Spinel.
— Tio Spinel!!! É claro!!! Cadê ele?!? Só falta me dizer
que ele também morreu! Todas as pessoas que eu te pergunto ou você diz que
morreu ou que estão num asilo!
— Nem uma coisa,
nem outra. Mas é quase isso! O antigo Familiar do arquimago
Eriol, assim que perdeu o seu dono, ficou meio maluco e se perdeu nos Reinos
Espirituais. Nem imagino onde ele esteja agora, só sei que ele não está muito
bem…
— Nos Reinos
Espirituais, é? Acho que eu sei onde ele está!
*****
Danyael poucas
vezes já foi aos Reinos Espirituais. Mas das poucas vezes que ele fez a
baldeação, ele se lembrava perfeitamente que as coisas eram bem diferentes do
que ele encontrava naquele lugar. Toda Londres estava no que os Anjos chamavam
de “Umbrais”. Os Umbrais eram áreas do Mundo Espiritual que foram maculadas pelas
ações negativas geradas no Mundo Material. Em locais onde houveram
atrocidades e genocídios, no mundo espiritual se encerra uma ressonância terrivelmente
negativa e gera espíritos da pior espécie. Muitos desses Umbrais eram vistos
pelos anjos como “Tumores” no Mundo Espiritual que deviam ser eliminados a todo
custo. E Danyael estava em um deles. Andar por ali era o mesmo que caminhar
numa selva fechada à noite, sabendo que por todos os lados existiam predadores famintos
por carne fresca. Mas não tinha outro jeito. Se sua única esperança estava
naquele lugar, era ali que ele deveria procurar.
O local por onde
Danyael caminhava no mundo espiritual era bem mais tenebroso que a região do
castelo da Bruxa de Pendle, em Lancaster. As árvores
estavam bem secas e mortas, porém movimentavam-se fantasmagoricamente como se
tivessem vida. O céu era pura escuridão sem estrelas e as únicas fontes de luz
eram dos espíritos primitivos e irracionais que vagavam pela floresta como vagalumes. Por todo lado, Danyael esbarrava-se com a imagem
de um túmulo e um espírito devorador por perto dele. Sim, ele estava caminhando
por um cemitério, afinal que outro lugar Spinel estaria
se não perto do túmulo de seu criador?
Ao se aproximar da
suntuosa lápide, Danyael finalmente havia encontrado o local onde erroneamente
seu Tio Eriol foi enterrado. No mundo material não havia mais nada do corpo de
Eriol e no mundo espiritual Danyael sabia exatamente onde a alma de seu tio
estava: em cativeiro no inferno particular do anjo Nimbus
Pyriel. Quando o movimento da relva se espalhou por
toda a área, o anjo entrou em alerta: ele não estava sozinho…
— Quem
é você que invade o meu território?!?
Sua voz ecoou como
um rugido de um leão. Mas mesmo com tanta alteração, Danyael pode reconhecer
essa voz familiar:
— Tio Spinel!!! Sou eu, Danyael!! Danyael Kimble!!!
— Eu
não conheço você!!!
— Sou eu, tio!
Filho de John Kimble. Afilhado de Eriol VonBranagh.
— NÃO
MENCIONE ESSE NOME!!!
O grito de Spinel veio seguido por um feroz ataque de uma enorme
pantera. Danyael foi imediatamente pro chão e Spinel
rosnava sobre ele mostrando suas enormes presas e bafo de animal.
— TIO!!! SOU EU!!! O DANY!!!
Foi nesse momento
que Spinel deu uma aliviada. Mesmo com sua mente
mergulhada num frenesi ensandecido, o nome daquela criança que ele viu nascer
ainda martelava em suas memórias mais profundas.
— Tio… Sou eu… Não
se lembra de mim? Você me levava pra passear na Legoland, vivia me enchendo de
presentes caros e de guloseimas. Sempre ficava assistindo desenhos comigo,
mesmo sabendo que tinha que ajudar o meu pai no gerenciamento da Paradísia. Lembra quando você me levou pra boate pela
primeira vez? Eu tinha apenas 1 ano e minha mãe e o Tio Eriol tinham ficado uma
fera contigo! Sou eu, Tio Spinel…
— Dany…
— Sim, Tio. Sou
eu.
Saindo de cima de
Danyael, a grande pantera fez sua metamorfose e tomou uma forma que a muitos e
muitos anos ele não assumia: a forma humana. Ao ver a situação que estava o seu
amado tio, Danyael ficou com o coração partido. Spinel
estava completamente largado às traças. Suas roupas eram velhas e imundas. Seu
cabelo estava na altura dos ombros e totalmente emaranhado. Aquele velho porte
físico invejável agora era magro, quase raquítico, com rosto chupado e ossudo.
Seus olhos estavam tão fundos e pretos que parecia que ele não dormia há anos.
— Tio…
— Eu tentei
avisar… O Eriol não morreu… O John não é um assassino… Eu tentei avisar… Eu
tentei… Eu…
Dando um abraço
bem forte em seu tio, Danyael deixou que ele se debulhasse em lágrimas enquanto
se ressentia pela morte de seu criador e pelo mundo onde vive. O problema era
que Stephanie realmente estava certa. Spinel não
estava nas melhores condições psicológicas para ajudá-lo. Talvez ele tivesse
passado todos esses anos aqui, velando o corpo de Eriol, sem poder sair de
perto afinal, como Familiar, ele era preso à conexão espiritual com seu
criador. E assim teve que ficar até o corpo de Eriol se desfazer por completo e
sua liberdade, ao custo da morte de seu amado “pai”, viesse. Mas então veio a
questão: “Com a liberdade, o que ele faria agora?”. Foi então que veio a
loucura.
— Dany… Por que você veio até aqui? Você é apenas um menino.
Esse lugar é muito perigoso pra você ficar andando sozinho…
— Tio… - o que
dizer pra uma pessoa doente que te vê como uma criança? — Tio… não tem
problema. Eu vim aqui ver o se o senhor estava bem.
— Sim… agora estou…
- e talvez, pela primeira vez em anos, Spinel
conseguiu fechar os olhos e tirar um cochilo nos braços de Danyael.
O jeito era ir
embora. Não tinha como Danyael conseguir qualquer informação com seu tio
naquele estado. Mas ele ia esperar mais um pouco. Seu tio precisava dormir.
Precisava relaxar. E Danyael não ia abandoná-lo agora.
Mas foi o próprio Spinel que salvou o dia de Danyael:
— Você veio atrás
disso, não?
Levando a mão até
o bolso, Spinel mostrou para Danyael uma esfera de
cristal brilhante, do tamanho de uma bola de golfe. Com certeza era aquilo que Danyael tanto procurava.
— Tio Spinel… você…
— He! Posso estar
maluco, Dany… Mas ainda posso saber o que se passa
nessa sua cabecinha!
Levantando-se, Spinel deixou Danyael poder ir embora.
— Vai filho. Salve
este mundo que já está condenado.
— Mas Tio… Como eu
irei salvar este mundo?
— Por que você
veio atrás dessa esfera?
— Bem… Por que eu
desconfio que, mesmo sendo apenas uma consciência, esta esfera contém uma parte
do poder celestial de Elohim, e isso será capaz de
pelo menos energizar minha espada.
— Mais do que
isso, Danyael. Essa esfera será capaz também de trazer de volta a Luz para esse
mundo.
— Como assim?
— A Light Sword
não foi destruída. Ela apenas está em algum lugar desse universo esperando ser
convocada.
— Eu estou
entendendo…!! E essa será a única esperança desse
mundo!
— Vá Danyael! Você
tem dois mundos pra salvar!
— Obrigado, Tio! –
Danyael foi até ele e lhe deu um abraço.
— E lembre-se
Danyael… Independente de quais sejam as ações de seu Tio Eriol, ele nunca teve
a intenção de fazer o mal.
— Por que o senhor
está dizendo isso?
*****
De volta pra base
secreta da Resistência, Danyael é rapidamente recepcionado pelos amigos de seu
tempo:
— Kimble, acho que sabemos o motivo
de estarmos aqui! – disse Matthew assim que viu Danyael chegar.
— Sério? Como?
— Enquanto você
estava fora, Keira e eu ficamos pensando do porque
estarmos aqui nesse futuro com você, até que de repente nós nos deparamos com
isto do daqui.
Matthew fez sinal
para que Danyael o acompanhasse. Passando por alguns corredores escuros, eles chegaram
até uma porta de metal onde na placa ao lado dizia: “Holoroom”.
Abrindo a porta do local, Danyael é levado para um aposento com prováveis 10m²
e totalmente vazio. A sala tinha paredes bem estranhas, como se fosse toda
feita de azulejos pretos e as linhas de separação entre eles tinha uma cor azul
clara florescente chamativo. Danyael logo fez a
pergunta óbvia:
— Que lugar é
esse?
— É um Holoroom. Não existe no nosso tempo, pelo menos não fora de
uma base Illuminada, e aqui dentro é possível se
criar de tudo através de hologramas. De acordo com o Erick e o Andrew, a
Resistência usa essa sala pra simular combates e treinamentos.
— Num espaço desse
tamanho?!?
— Espaço é
relativo aqui dentro! – respondeu Keira. – Essas linhas que você vê trabalham
com essa noção de espaço. Você pode entrar num carro e achar que estar viajando
por uma estrada aqui dentro, sendo que na verdade você não está saindo do
lugar.
— É como se fosse
uma escada-rolante ao contrário. Ao invés de você subir, é o mundo que desce! –
complementou Matthew.
— Sim, mas o que
isso aqui tem haver com a missão de vocês no futuro?
— Você tinha dito
no refeitório que no nosso Tempo seu pai disse que teve um encontro com um
rapaz misterioso. Tão misterioso que apenas ele o via, e mais ninguém, não é
isso?
— Mais ou menos…
Ele disse que o Andrew até interagiu com as pessoas e com o mundo a sua volta,
porém até os Anjos juraram que nunca ouviram falar de um Andrew caminhando ao
lado dele. Era como se apenas ele pudesse vê-lo e ouvi-lo.
Antes de responder
as dúvidas de Danyael, os dois agentes iluminados sorriram concordando com a
idéia que tiveram:
— Temos agora
certeza absoluta do que aconteceu, Kimble! Vou ser
bem resumido. Nós os illuminados temos uma
tecnologia, ainda experimental, conhecida como “Observadores do Tempo”. “O que
seria isso?” Nós usamos a tecnologia do Holoroom para
viajar no tempo, entretanto nós apenas somos observadores. Não podemos
interagir com nada do passado, ou do futuro. Somos que nem fantasmas, que
apenas vêem os acontecimentos.
— Sim… e vocês
acham que foi assim que o Andrew foi para o passado?
— Exatamente!
— Mas se você está
dizendo que quem faz esse tipo de experimento não tem qualquer interação com o
mundo exterior, como o meu pai conseguiu vê-lo?!
— É ai que entra a
inteligência e perspicácia de nossa amiga aqui! – disse Matthew trazendo uma
envergonhada Keira à frente da conversa.
— Ah, Matt… menos!
Bom… eu pensei nesse fator, e então me lembrei de uma certa
aula que tive em meu treinamento com os Illuminados.
Como faço parte de uma divisão diferente de Matthew, talvez seja por isso que
só eu saberia disso! Em resumo… Nessa aula o nosso professor disse que existe
uma teoria de que a nossa subconsciência, aquela que possivelmente os místicos
chamam de “alma” seja atemporal. Como
assim? Bem, existem diversas teorias de que, independente da passagem do tempo,
nosso subconsciente não vive nesse continuum que é o Tempo Linear. Talvez essa
teoria é a que melhor explica o porquê que algumas
pessoas tem sonhos premonitórios, Déjà vus, ou
conseguem ver o futuro através de oráculos e premonições.
— Sim, e?
— E daí, que… Seu
pai, mesmo nesse tempo, ele está vivo! Ele será o nosso link com o passado! Se
conseguirmos ter sucesso em poder colocar esses dispositivos aqui, – então ela
mostrou um par de aparelhos que lembravam fones de ouvido – conseguiremos fazer
o Andrew ir para o passado e, obviamente, interagir apenas com o seu pai.
— Ele também
conseguirá interagir com o meio ao redor?
— Pensamos nisso
também. Acreditamos que tal interação no qual seu pai jurou que ele teve talvez
tenha sido graças aos poderes mágicos de Andrew. De certa forma, mesmo sendo
hologramas, o Andrew estará sim no passado. Com um pouco de conhecimento
arcano, talvez ele consiga refletir sua “vontade mágica” no passado. Mas isso é
o que nós deduzimos.
— Que é
praticamente uma certeza de que vai dar certo, afinal só o fato de estarmos
aqui já é uma prova disso! – comentou Matthew eufórico.
— É verdade.
— E ai? Conseguiu
encontrar o que queria? – perguntou Keira.
Nessa hora,
Danyael colocou a mão no bolso e deixou que a imagem valesse mais do que mil
palavras.
— Nossa!!! Então esta é a consciência de Elohim?
— Sim.
— E isso poderá
nos levar de volta para casa?!? – questionou Matthew.
— Aqui dentro tem
algo tão raro neste mundo quanto um diamante lapidado: Fé. E será essa Fé que irá energizar novamente a minha espada.
— E assim
poderemos voltar pra casa!!!
— Em termos… Na
verdade o que tem aqui dentro não dá pra nos levar de volta pra casa.
A notícia bateu
entre Matthew e Keira como um soco na boca do estômago:
— Cara… Se tiver
que ficar um de nós, eu fico! Eu já sei que não sou
muito significante na história do mundo!
— Não, Matt… -
sorriu Danyael. – Ninguém vai ficar pra trás. O que eu estou querendo dizer é
que com o poder que tem aqui dentro eu irei abrir novamente
o caminho até o Horizonte e buscar a Light Sword deste mundo!
— Como assim?
— Nesse exato
momento existe duas
Light Sword no universo: a minha que eu trouxe e a do meu outro Eu que
morreu. Quando ele morreu, sua espada voltou ao seu ponto de origem, o lugar
mais distante do universo, às margens do Éden, O Horizonte. E, como ela está lá
há muitos anos, eu acredito que deve estar bem “carregada”, se é que me
entende.
— E assim você
poderá nos levar de volta pra casa!
— Exatamente. Mais
do que isso, eu tenho outra obrigação a fazer.
— E qual é?
— Ajudar a salvar
este mundo. Mas como eu não posso ficar aqui, eu irei tomar a única atitude
racional que existe: passar a Light Sword para o meu filho Andrew.
— Aaah… Então ‘tá tudo resolvido!
— Não, não está.
— Por que essa
cara de preocupação, Dany? – questionou Keira.
— Tem um pequeno
problema nesse nosso plano.
— E qual é?
— A Dark Sword. Vocês não repararam que em momento algum o
atual Portador da Dark veio atrás de mim?
— É… nós não
tínhamos reparado nisso… mas já que falou…
— Eu estou
pensando nisso desde o minuto que Derek me explicou a história desse mundo. A
todo o momento fiquei pensando que o tal Mark Nottingham poderia chegar pra
tirar satisfações. Mas não foi exatamente o que aconteceu, e eu sei o por quê.
— Por quê?
— Ele não sabe que
estou aqui. Não sabe por que minha espada está sem poderes e a Dark Sword não o alerta. Entretanto, tenho quase 99% de
certeza que assim que eu energizar a minha espada…
— Ele virá
correndo pra cá pra saber “o que ‘tá pegando”. – completou Matthew.
— Exatamente isso,
meu amigo! Então… sei que esse nosso plano é o certo a se fazer, porém como
iremos fazer isso?!?
— E ainda tem
mais, meninos… Estamos correndo contra o tempo!
— Como assim,
Keira?
— Dany, você se esqueceu do que o Sr. Johannes
disse no refeitório? Em pouco mais de 6 horas vários mísseis nucleares estarão
sobrevoando os céus do Reino Unido. E nós ainda temos que esperar o Andrew
voltar do passado com tudo resolvido.
— Mas não será
rápido? Tipo… Um dia lá no passado pode ser um minuto aqui!?
— Não Danyael! O
Andrew não irá fazer uma viagem no tempo! Ele será um telespectador! Tudo
acontecerá em tempo real! Então, uma hora que ele passar no passado será uma
hora aqui também. É como assistir televisão.
— Que merda,
Keira… Agora complicou tudo! Eu me lembro perfeitamente da narrativa do meu pai
sobre o ocorrido em 2005, e ele disse que precisou exatamente de 24 horas pra
realinhar toda a sua vida!
— ‘Tá de
sacanagem, Kimble?!? –
exclamou Matthew. – ‘Tá dizendo que o Andrew vai passar um dia inteiro lá
dentro?!?
— De acordo com a
história… sim, ele vai ficar um dia no passado!
— Mas se for
assim, quando ele voltar vai encontrar só o Oceano Atlântico por todos os lados!!! Isso SE ele puder voltar pra casa! Essa Holoroom não é à prova de mísseis nucleares!
O nervosismo logo
se abateu entre eles. Como eles iam conseguir fazer tudo isso em tão pouco
tempo? Foi então que Keira pensou na única resposta plausível que se poderia ter:
— Mas… nós vamos
conseguir!
— Keira, sei que você é bastante otimista, mas…
— Danyael, você
não está entendendo! Estou falando que nós VAMOS conseguir! A própria história
comprova isso! Se no nosso tempo o Andrew conseguiu voltar no tempo, ajudar o
seu pai, e ainda voltou pro seu próprio tempo são e salvo, é por que ele terá
sucesso na sua jornada!
— É verdade…
— Gente, nós
estamos exatamente seguindo um roteiro que já foi escrito! É só confiarmos em
nós mesmo, que tudo vai dar certo!
— Eu sei Keira, mas…
- Matthew respirou fundo antes de terminar a frase. — É que eu estou com
bastante medo de errar as “falas” desse roteiro!
Com a confiança
renovada, os três resolvem seguir em frente. Mas, falta o ator principal
naquela história: o Andrew. Danyael saiu da holorrom e
caminhou por toda a base, procurando e perguntando pra quem quer que fosse, o
paradeiro de Andrew. Ele até perturbou o Derek na Ponte de Comando e nada.
“Onde será que ele estava?”. Com certeza a única pessoal que poderia saber era
a sua irmã:
— Stephanie, viu o
Andrew?
— Não, por quê?
— Estou rodando a
base inteira atrás dele e nada! Preciso falar com ele urgentemente!
— Já foi falar com
a Bárbara?
— A namorada dele?
Já-já. Ela também não sabe onde ele está.
Stephanie parou um
pouco pra pensar e de repente teve uma vaga certeza onde seu sobrinho pudesse
estar:
— Você se lembra,
mesmo com a cidade em ruínas, onde ficava o seu antigo apartamento?
— Mas é claro que
eu me lembro!
— Ele sempre fugia
pra lá quando era pequeno. Talvez certas coisas nunca mudem…
Danyael deu um
sorriso e foi embora logo em seguida.
******
[Soundtrack: Guide Me Home – Freddie Mercury
& Montserrat Caballe]
Andrew estava
sozinho num quarto que deveria ser seu em alguma época perdida. O apartamento
estava completamente destruído, onde até em alguns pontos era se possível ver o
céu aberto. Mas o quarto de Andrew estava intocado. Ele fez questão desde que
aprendeu a usar a magia de transformar aquele lugar em seu santuário pessoal.
Um local onde ele pudesse vir e refletir sozinho sobre sua vida. Um local de
paz, único naquele mundo, onde seus sonhos e fantasias podiam se tornar
realidade. Em suas mãos estavam o único objeto que o fazia pensar no amor que
sua mãe provavelmente tinha por ele: um par de sapatinhos de bebê, que foram
esquecidos no apartamento, até então vazio.
Danyael observava
aquilo tudo com muito pesar. Ele podia não ser verdadeiramente o pai daquele
Andrew que estava ali, mas ele tinha por ele o mesmo amor que teria pelo seu
filho que irá nascer. Aproximando-se lentamente, o anjo sentou-se ao lado de
Andrew no chão. Mesmo sabendo que tinha pouco tempo, Danyael quis poder ter um
diálogo legal com o seu filho.
— Este daqui seria
o seu quarto.
— Hm-rum.
— Mas no meu tempo
ele não é assim!
—
…
— Sua mãe tem bom
gosto, mas minha irmã é melhor. Foi ela que decorou todo o seu quarto! Colocou
nuvenzinhas nas paredes e comprou dinossauros pra contrastar com sua natureza
híbrida.
—
…
— Andrew, meu
filho… Eu sei que eu não sou o seu verdadeiro pai. Mas… Mesmo assim, quero que
saiba que te amo muito, por que pra mim você é o meu verdadeiro filho! Você é
aquele que na hora que eu pensei que ia morrer chamei pelo nome. E que
coincidência! Logo em seguida lá estava você pra me ajudar!
Uma lágrima
solitária desceu pelo rosto de Andrew. Seus olhos estavam centrados na janela
mostrando o nascer do sol. Seus pensamentos estavam um verdadeiro caos de
emoções.
— Filho… Eu não estou
querendo te obrigar a nada… Eu apenas…
— Pai… O problema
não é te ajudar! O problema é essa minha vida! Eu não vou mentir: eu não quero
que você vá! Eu perdi meus pais logo assim que eu nasci. E logo agora que eu
pensei que você estaria de volta, terá que ir embora. E será
logo eu que irá ajudar nisso! Por que isso acontece conosco? Por que não
podemos ter uma vida normal, como qualquer família? Por que eu tive que nascer
nessa época? Será que eu não tenho o direito de ser feliz?
“Não vou mentir
que sinto inveja do seu filho. Aquele que irá nascer e crescer nesse quarto com
seus pais ao seu lado… Esse Andrew que não terá que brincar sozinho trancado no
subterrâneo da cidade. Que não terá como bichos de estimação ratos e insetos.
Não precisará ter que aprender a matar aos 8 anos de idade pra poder
sobreviver. Eu não ‘tô querendo ser egoísta meu pai… Mas você não tem idéia de
como você fez falta na minha vida. Aqueles filhos que desprezam seus pais é por que não sabem o que é ser órfão de pai e mãe. Não
sabem como é duro viver anos sem ter alguém que se preocupa de verdade contigo
e que lhe dá carinho e atenção sem pedir nada em troca. Eu amo meus tios e tudo
que fizeram por mim, mas a verdade no fritar dos ovos, é que eles foram meio
que obrigados a me adotar… - já sem voz e imerso em lágrimas, Andrew terminou
sem concluir o pensamento, mas com um mensagem que vinha lá do fundo de seu
coração: — Eu quero a minha mãe…
[Soundtrack: How Can I Go On –
Freddie Mercury & Montserrat Caballe]
Danyael se
aproximou de seu único filho e lhe deu um abraço. Mas não foi um simples
abraço. Foi um abraço de um pai pra com seu filho. Ele apertou bem forte
mostrando que aconteça o que acontecer ele sempre estaria lá pra ajudá-lo. Que
ele não estava sozinho.
— Eu sei que é
difícil nessas horas saber como você irá continuar. Vivendo nesse mundo de
tristeza e sofrimento, como contar com alguém que possa lhe fortalecer em sua
jornada? Como saber se está seguro? Como esquecer os nossos sonhos, que mesmo perdidos,
continuam em nossos corações? Andy,
meu filho… eu não vou usar da ignorância em dizer que você já é um homem e não
pode ficar desse jeito, por que a verdade é que os homens também choram! Mas o
que eu irei te dizer agora é que por favor, não desista.
Não dê esse gosto aos inimigos. Eu preciso de sua força! O Mundo precisa de sua
força!
“E era nisso que
sua mãe acreditava. Ela demorou pra me contar que estava grávida, pois tinha
medo dos riscos. Mas assim como eu não a abandonei, ela também encontrou forças
pra continuar com a gravidez, pois ela sabia que dentro dela ela carregava um
homem que seria forte e capaz de superar qualquer problema. Na verdade, Lilith
sabia que mesmo não estando presente na sua vida, ela queria que você fosse o
melhor do que pode ser! Ela queria que você fosse um
valoroso guerreiro dos céus ou um Imperador do Inferno. E isso era sua escolha.
Essa era a herança que ela estava deixando pra você. E eu também, quando morri,
tenho certeza que deixei minha herança pra ti também.”
“Andrew, como eu
não posso ficar nesse mundo, eu lhe deixarei a Light Sword. Assim que eu
conseguir conjurá-la dos Horizontes, eu a passarei pra você, e caberá a você dá
um rumo no destino deste mundo. Foi isso que Metatron disse para Derek e
Stephanie, e agora tudo faz sentido. E… como um último
pedido, não como pai, mas como um amigo, por favor… assim como um
misterioso homem ajudou o meu pai a dar ao seu filho um futuro melhor, eu te
peço pra que me ajude a dar um futuro melhor ao meu filho também!”
[Soundtrack: Rewrite – Asian
Kung-Fu Generation]
Limpando todas as
lágrimas dos olhos, Andrew se separou de seu pai e se levantou imponente. Nem
parecia mais o homem frágil que estava ali segundos atrás. Danyael o seguiu e
ficou frente a frente com ele. Andrew deu uma última espiada pela janela e viu
o sol nascer tímido entre as pesadas nuvens. Depois seu olhar se encontrou com
o de seu pai e desta vez, recuperando sua vontade de viver, ele estava mais
confiante:
— Pai. Vamos
reescrever essa história!
Danyael sorriu.
Firmando um acordo, os dois apertaram as mãos, que se seguiu com um abraço.
— A minha mãe
sempre foi uma guerreira. Você sempre lutou com todas as suas forças pelos seus
ideais. Eu não posso me esquecer de quem sou filho. Não posso esquecer esse
sangue que corre em minhas veias. Se este mundo onde eu vivo. E se ele não é
bom para mim… Eu farei com que ele seja!!!
Danyael estava sem
palavras pra responder ao renascimento da moral de seu filho, entretanto ele
quis fazer uma pergunta:
— O “Daemon” deixou de chorar e agora o “Kimble”
veio pra nos ajudar?
Andrew riu. Ele
era seu pai. Não tinha como esconder isso por muito tempo dele:
— Não, pai. Que
estava chorando era o “Kimble”. E quem se levantou
continua sendo ele. Meu lado demônio nunca teve dúvidas sobre o que fazer!
— Você não sabe o
orgulho que eu tenho de vocês dois!
Num breve segundo,
algo que só mesmo um pai poderia perceber, Danyael teve a nítida certeza de que
naquele momento, tanto a personalidade angelical de Andrew quanto a demoníaca
estavam lado a lado na mesma hora e felizes por saberem que tinham conseguido o
orgulho de seu pai.
*****
Voltar para base
não foi tão fácil quanto Danyael imaginou. Assim que chegou lá, teve que bater-se
novamente de frente com fortes emoções: Seu pai John Kimble
estava lá lhe aguardando. Mas, diferente do que ele podia imaginar, seu pai
estava completamente fora de realidade.
Sentado em uma
cadeira de rodas, o velho John parecia um homem em estado vegetativo. Os quase
cinqüenta anos de clausura em Black Hill lhe deixaram tão pior quanto se ele
tivesse morrido. Danyael ficou ajoelhado diante dele e segurando sua mão disse
as únicas palavras que poderiam ser ditas:
— Pai… Aconteça o
que acontecer, vai dar tudo certo!
Stephanie estava
em lágrimas bastante abalada. Afinal foi ela mesma que foi até a penitenciária
buscar o seu pai. Um pai que ela nunca conheceu de verdade como Danyael o
conhecia. Só sabia histórias dele e de como ele foi injustiçado no passado. De
certa forma ela tinha uma raiva dele por tudo isto estar acontecendo, mas hoje
o perdão veio à cavalo. Ela se lembrou que ele era
apenas um homem, com suas fraquezas e defeitos.
— Está tudo
pronto? – perguntou Danyael firme para Matthew e Keira, que passaram as últimas
horas preparando a Holoroom para a viagem temporal.
Tudo isso graças ao fantástico aparelho que Matthew carregava. Danyael até
brincou com a ironia da situação:
— Ei Matt! Não quer trocar esse seu aparelho pela minha Light
Sword?
— Hmm… Acho que não! Sua espada não vale isso tudo!
— Certo, pessoal! – veio Keira cortando a brincadeira. – Está
tudo pronto! Tudo está ocorrendo exatamente como planejamos. Lá dentro da Holoroom, é exatamente a data e a hora de hoje, só que em
2005. Por não ser uma viagem no tempo, o que estiver acontecendo lá dentro será
em tempo real aqui fora.
— Então está tudo
certo, pessoal! – afirmou Danyael. – Andrew, acho que já
te explicaram tudo, não? Você irá lá e tentará fazer o possível pra ajudar o
seu avô.
— Certo.
— Lembre-se de uma
coisa: Não revele suas origens. Não revele de onde você veio. E principalmente:
Não abandone o seu avô! Ele será ignorante contigo, com certeza vai te fazer
muitas perguntas, mas lembre-se sempre de ajudá-lo! Olha… o velho Kimble podia ser um ranzinza cabeça-dura, arrogante, chato,
e egocêntrico, mas ele tem um coração enorme e é de um humor sarcástico sem
igual! É só você saber lidar com ele!
— Tudo bem, pai.
Keira se aproximou
e deu também o seu recado:
— Andrew, faltam menos de doze horas para os mísseis estarem
sobrevoando os céus do Reino Unido. Nós precisamos que você retorne antes desse
prazo, para que seu pai lhe passe a Light Sword e com o poder dela você possa
nos levar de volta para casa. Volto a repetir: Mesmo você estando vivenciando
cenas do passado, você estará em tempo real com relação a 2053. Então esteja
sempre atento às horas!
— Certo, Keira.
— Tome. – Keira
entregou um aparelho que lembrava um music player portátil. – Este aparelho é um controle de
link sináptico com seu avô Kimble. Apenas quando você
ativá-lo, ele poderá te vê-lo. Mas lembre-se: Somente ele por te ver! Tente
usar somente quando estiver sozinho com ele, pra evitar constrangimentos das
pessoas verem seu avô conversando sozinho.
— Ah, ‘tá certo!
— Ei, espere!!! – alertou Matthew. –
Ele não pode ir pro ano de 2005 vestido igual ao Harrison
Ford em Blade Runner! Temos
que conseguir roupas adequadas para ele!
Nesse momento
Derek se aproximou do grupo com uma muda de roupas.
— Eu já pensei
nisso e pedi pro Erick transmutar as roupas dele em roupas daquela época. Aqui
está, filho. Se vista.
— Obrigado, tio.
Depois de bem
vestido, cabelo penteado, e bem apresentável, Andrew estava pronto para entrar
na “Porta do Tempo”. No segundo antes de dar seu primeiro passo, ele ainda
olhou para trás buscando por seu pai, que lhe retribuiu com um sorriso e um
piscar dos olhos. Sem mais qualquer dúvida ou receio, Andrew entrou na Holoroom e foi transportado pra uma época que ele nunca
imaginou que iria conhecer.
*****
Terça-Feira, 19 de Julho de 2005. 09h15min.
Pier Road.
Londres – Inglaterra.
Para sua surpresa,
Andrew estava exatamente onde ficava a sua base no futuro, porém ele mal
reconheceu o lugar. O dia estava bem limpo e ensolarado, bem diferente de como
é na sua época. Ele nunca imaginou que poderia ver um céu tão azul na sua vida.
Como a Keira explicou, ele parecia um fantasma para as pessoas daquela época. Ninguém
reagiu com sua repentina chegada.
Dando uma
averiguada no local, ele percebeu que estava próximo do Rio Tamisa e que algo
de muito importante estava acontecendo nas margens, pois havia um aglomerado de
curiosos e de policiais no local. Aproximando-se um pouco mais pra saber o que
estava acontecendo, Andrew tentou ficar bem atento a tudo que via e escutava.
Foi um dos curiosos que conversando com outro em voz alta, lhe informou o que
poderia ser:
“Encontraram um
corpo de uma jovem boiando no Tamisa. Que atrocidade! Nosso mundo está
perdido!”
Andrew observou
aquele comentário e respondeu:
— Ainda não, meu
caro.
Mas obviamente o
cara não lhe escutou. De repente algo lhe chamou a atenção. Um homem bem sério
e de porte imponente acabara de chegar e estava sendo acompanhado por alguns
outros policiais. Ele lembrava bastante a forma que seu pai andava e agia. Será
que ele era…
“Kimble!!!” – chamou um outro homem que vira quem acabara de chegar.
— Kimble? John Kimble?!? – Andrew estava pasmo de como seu avô era bem diferente e
cheio de vida quando era mais novo.
“Sim, Sr. Taylor…” – atendeu John com a voz rasteira
não gostando de ser tratado publicamente daquela maneira. Nem que seja de seu
superior.
“Sabe muito bem que isso está em sua
jurisprudência!”
“Não precisa me lembrar de meus deveres, senhor.”
“Mas é meu dever lembrá-lo que deve encontrar o
quanto antes o motivo desta mulher estar boiando no Tâmisa! A imprensa ainda está pegando pesado conosco depois
de alguns equívocos que aconteceram nos últimos dias. Do que está rindo?”
“Acho interessante a forma que a Metropolitan Police trata o ‘equívoco’ daquele pobre
brasileiro no metrô.”
“Enfim… Pouco me importo com que pensa, quero esse
caso solucionado pra ontem!!!”
“Não se preocupe. Quando eu descobrir como se
regride o tempo eu lhe entrego pontualmente!”
Andrew sorriu com
a piada de seu avô. Bem como seu pai lhe disse que seu avô tinha um senso de
humor bem sarcástico. Ele acreditava que não teria nenhum problema de
relacionamento com ele!
Chegando mais
perto da cena do crime, Andrew estava eufórico. Era a primeira vez que ele via
uma cena de crime pessoalmente, sem ser pelos filmes antigos gravados na
memória de seu computador. O filho de Danyael era bastante observador. Pegou
cada detalhe do local, das pessoas. Percebeu que havia dois tipos de unidades
policiais envolvidas ali: a Metropolitan Police, que
seria algo como a Polícia Civil de Londres, e a Sctoland
Yard, onde seus policiais eram acadêmicos graduados
especializados em diversos tipos de crimes. Seu avô, pelo que ele percebeu, era
o Inspetor-Chefe da Scotland Yard, provavelmente um
cargo de chefia alto, pois muitos dos policiais ali presentes o respeitavam e
obedeciam.
A mulher
assassinada de alguma forma lhe chamou a atenção. Não era alguém que ele
conhecia, porém havia algo nela que ressoava um tipo de energia bastante
familiar para ele. Enfim, como os amigos de seu pai lhe informaram, mesmo ele
na verdade estar dentro da Holoroom, sua magia
poderia se refletir naquele tempo de alguma forma. Ele só precisava ser bem
cauteloso. Então, chamando sua personalidade angelical, deixando à mostra sua
auréola dourada, Andrew focou sua magia das esferas mentais e espirituais na
vítima, tentando buscar informações que pudessem ajudá-lo com aquele
assassinato.
Foi nessa hora que
Andrew tomou um susto! Seu avô havia percebido sua presença ali:
“Minha vista escurece por alguns instantes e
novamente, como hoje pela manhã, sinto novamente “aquela presença”. Olho para os lados à procura da origem dessa
ressonância que tanto me incomoda, mas nada encontro. Apenas policiais, equipe
de emergência, jornalistas e um ou outro curioso inofensivo. Estou tonto,
cambaleante. Meus colegas me ajudam a ficar de pé.”
Andrew ficou
estático. Ele tinha certeza de que o velho John havia olhado fixamente para
ele, mas era algo quase impossível, afinal o aparelho que ele carregava estava
desativado ainda. Seria impossível ele vê-lo. Mas… mais tarde ele percebeu.
John não o viu. O John sentiu a sua presença. Talvez fosse melhor o Andrew
começar a evitar bastante usar os seus poderes, pensou cauteloso. Observando
seu avô se afastando e indo embora, Andrew percebeu que sua aventura em 2005
estava apenas começando.
[Nota do Autor:
Confira todo o desenrolar desta aventura na saga REALIGN, no site: http://www.londresdetrevas.com/realign]
*****
Londres, 2053.
Stephanie
impaciente novamente consultou o relógio.
— Já são quase
oito horas da noite e nada do Andrew sair lá de dentro! Nós temos que tirá-lo
de lá!
— Calma, Stephanie! – disse Danayel.
– Confie no rapaz. Eu sei que ele ‘tá ligado do nosso problema aqui. Não
podemos forçar nada. Neste exato momento a história está sendo reescrita.
Quando todos já
estavam com o coração na garganta de tanto esperar, finalmente Andrew saiu do Holoroom. Todos rapidamente se levantaram e foram até ele pra
saber das novidades. Andrew foi o primeiro a acalmá-los:
— Calma pessoal!
Eu ‘tô aqui! As coisas realmente não
tão muito fáceis pro velho John! É um assassinato, tem alguém realmente
poderoso, que eu desconfio ser o tal anjo Nimbus que
meu pai mencionou perturbando a paciência dele… ‘Tá meio mundo atrás dele…
Nossa! Moh inferno! Mas sim, vamos resolver isso
rápido, por que eu acho que tenho pouco tempo até ele voltar a me procurar!
— Você não está
andando o tempo todo com ele? – perguntou Danyael. – O que você disse pra poder
vir aqui?
— Eu aproveitei
que ele foi pra casa deu um tal colega dele da
Scotland Yard conversar, e disse que ia dar um
telefonema pra minha família. Que vocês estavam todos preocupados.
— Ôh!!! – exclamou Matthew. – Se
demorasse mais um pouco você só ia encontrar nossos esqueletos aqui esperando
por você!
— Certo pessoal…
qual é o plano?
Danyael tomou a dianteira e falou para todos:
— Como eu disse
antes, vou usar o poder que tem nessa esfera pra energizar a minha espada. É
quase certeza de que a Dark Sword vai ser alertada da
minha presença, então… Serei absurdamente rápido! Vou Energizar minha espada,
ir até o horizonte, buscar a Light Sword deste tempo e quando voltar vou passá-la imediatamente para o Andrew.
Todos escutavam
com atenção, entretanto havia ainda algumas dúvidas, principalmente sobre a
idéia de Danyael em não lutar com Mark.
— Então meu filho,
o plano é o seguinte: Mark Nottingham, em sua cegueira por ódio e destruição
não irá ver nada na frente dele a não ser eu. Com certeza ele vai achar que eu
só voltei a vida pra enfrentá-lo. É ai que você irá
entrar! Você deve estar preparado para dar o golpe final! Olha, falo por
experiência própria, a Light Sword irá elevar seus sentidos e capacidades pra
muito além do que você pode imaginar! Se você acha que com a magia é capaz de
fazer tudo, com a Light você vai achar que é um deus! E você será sim um deus!
Então não se limite no que irá fazer! Quer se movimentar na velocidade da luz, faça! Quer que a espada destrua Mark para sempre, faça!
Não hesite em momento algum!
— Sem problema,
pai!
Derek veio então à
frente e encerrou a conversa:
— Vamos logo então
lá pra fora. Com certeza o melhor lugar pra esperar pelo nosso convidado
especial, é lá fora!
*****
[Soundtrack: Daylight Dancer –
Lacuna Coil]
Parecia um agouro,
mas de repente começou a chover pesado por toda cidade. E ainda por cima, por
causa das bombas atômicas, a chuva era ácida e quente. Parecia literalmente o
presságio do confronto final da Luz e das Trevas.
Danyael ergueu a
esfera que continha a consciência de Elohim e com sua
espada na outra mão rogou por seu pai:
— ELOHIM!!! EU LHE SUPLICO!!! ATENDA AO MEU
CHAMADO E DÊ FORÇAS À NOSSA ÚNICA SALVAÇÃO!!!
Imediatamente a
esfera brilhou intensamente atendendo ao chamado de Danyael e se transformou
numa figura incandescente envolta numa coroa iridescente. A figura magnífica
revelava um anjo resplandecente e imperioso que irradiava a majestade divina e
autoridade.
Aquela era a
verdadeira forma de Elohim.
Danyael teve a
impressão por alguns instantes de ver no semblante de Elohim,
o rosto de seu pai John. Entretanto, mal ele teve tempo para pensar quando a
gigantesca figura angelical se transformou em pura energia e mergulhou
inteiramente dentro de sua espada. Após um brilho que se estendeu por toda
cidade, a Light Sword de Danyael voltara a brilhar reluzente e imperiosa.
E nem foi
necessário Danyael avisar. Todos sentiram a vinda de alguém terrível, banhado
de ódio e destruição, vindo na direção deles. Era Mark e sua Dark Sword. Ele vinha atravessando o país como um turbilhão
negro que tragava e destruía tudo a sua volta. E seu ódio aumentava cada vez
mais que se aproximava de Londres. Sem dar atenção a isso, Danyael
imediatamente ergueu sua espada e realizou a segunda parte do plano: conjurar a
Light Sword deste Tempo!
— LIGHT SWORD!!!
ATENDA O CHAMADO DE SEU ESCOLHIDO E VENHA ATÉ MIM!!!
Outro brilho
incandescente varreu todo universo pela segunda vez na história. E diante de Danyael,
que também irradiava um brilho celestial, surgiu a
magnífica Light Sword, tão poderosa e magnífica como nunca foi. Atrás de
Danyael, todos já podiam ver no horizonte o turbilhão negro se aproximando. O
anjo não perdeu tempo. Sem pegar na espada, ele emitiu a sua ordem:
— ESPADA QUE
PERTENCEU AO MEU OUTRO EU, A PARTIR DE HOJE O SEU NOVO DONO SERÁ O MEU FILHO:
ANDREW DAEMON KIMBLE!!!
A espada acatou
imediatamente a ordem e desapareceu diante de Danyael, levando consigo até a aura
que lhe revestia, e foi imediatamente parar nas mãos de Andrew, que estava tão
estupefato quanto qualquer um ali. Por trás de Danyael, a lâmina da Dark Sword já trilhava em seu encalço:
— MOOOOORRAAA, DANYAEEEELLL!!!
Naquele milésimo
de segundo, Danyael sabia que dificilmente conseguiria se defender da investida
direta da Dark Sword. Ele apostou que ainda houvesse
um pouco de energia dentro de sua própria espada, entretanto não foi exatamente
como esperado. Ele apenas teve tempo de virar o corpo, mas se quer conseguiu
evitar que uma desgraça se abatesse entre eles:
— DEREK!!! – exclamou Danyael.
Para dar tempo a
todos e evitar que Danyael fosse atingindo, Derek não pensou duas vezes: se
interpôs entre Mark Nottingham e Danyael e recebeu em cheio toda a fúria do
poder da Dark Sword. A lâmina da espada
atravessou-lhe com tanta facilidade, que mais da metade dela já havia
transpassado o corpo de Derek.
Com um olhar
vazio, porem banhado de satisfação, Derek deu suas últimas palavras:
— Eu nunca pude
ter a chance de me redimir com o mundo pelo que fiz no passado… Eu espero que
vocês consigam trazer a luz… de volta… para este… mundo… - descendo a cabeça,
Derek ainda balbuciou palavras que vieram do fundo de seu coração: — Me… perdoooee… Ssstepha… nie…*
— NÃO, TIO!!!
NÃÃÃÃOOO!!!
O grito de Andrew
ecoou pela cidade devastada levando seu ódio e desespero pela morte daquele que
lhe era como um pai. Andrew realmente nunca imaginou como iria fazer para
enfrentar a Dark Sword, mas foi no desespero que ele
conseguiu cravar a vitória bem no centro do coração de Mark. Sua raiva era tão
grande que ele tremia de tanto nervoso.
Com o desejo e a
angustia de bilhões de pessoas de todo o Mundo que sofreu por causa dos planos
malignos daquele demônio, Andrew segurou firme o cabo da espada, e na
velocidade da luz literalmente dilacerou em milhões de pedaços o corpo de Mark.
No fim, vendo a cabeça partida do inimigo flutuar no vazio deu a sua sentença
final:
— AGORA É A SUA
VEZ DE IR PARA O LIMBO, FILHO DA
PUUT******!!!!
Quando tudo
terminou, o sol voltou a brilhar nos céus de Londres.
*****
[Soundtrack: Lost Heaven – L’Arc~en~Ciel]
Quarta-Feira, 20 de Julho de 2005. 06h10min.
St. Thomas Hospital.
Londres – Inglaterra.
Andrew apenas
pediu um abraço e logo foi retribuído. A sensação de abraçar uma pessoa que,
mesmo nunca tendo conhecido, fazia grande parte da sua vida era o mais
importante de tudo! Aquele era seu avô. O pai de seu pai. E independente
daquele não ser o “Paraíso” no qual ele iria viver, ele estava eternamente
grato “às forças superiores” por ter lhe dado a chance única de ver e conhecer
aquelas pessoas que eram as mais importantes do que tudo em nossas vidas: a
Família.
— Andrew… -
questionou John ao perceber que Andrew estava em lágrimas depois de abraçá-lo.
— John… Foi um
prazer te conhecer!
Seguindo em
frente, dizendo adeus ao Paraíso Perdido, Andrew acendeu seu último cigarro.
Como o tempo
passava rápido.
Mas ele desejava
boa sorte àqueles que ficavam.
Pois iria se
lembrar para sempre daqueles dias…
— Papai! – chamou
o pequeno Danyael com sua voz de bebê.
— Diga, Dany. – atendeu John
atenciosamente pegando seu filho no colo.
— Quem era o cara
que você estava abraçando?
— Você viu o rapaz
com quem estava conversando?
— Sim. Vi sim,
papai. Quem é ele?
John retribuiu um
sorriso para seu filho e antes de respondê-lo ele olha para o cartão que Andrew
deixou para ele:
— Era apenas um
amigo do papai, filho. Um grande amigo!
Fim.
:: Créditos ::
|
Autor: “Eriol” Carlos Eduardo. Projeto do vídeo
“Anteriormente”: Luís
Marcelo Arevalo. Desenvolvimento
do vídeo “Anteriormente: “Eriol” Carlos Eduardo. O Episódio 50 foi inspirado no Net-Book “Londres 2053”. Londres 2053 é uma criação de “Eriol”
Carlos Eduardo. Crédito de
imagens:
Crédito das Músicas:
Agradecimentos
Especiais: à
todos vocês que chegaram até aqui, é para vocês que eu dedico este Episódio
tão marcante na história do Londres de Trevas! O meu MUITÍSSIMO OBRIGADO!!! Até o próximo episódio! Abraços, Eriol |
“Lost Heaven” L’Arc~en~Ciel Woah! Carregue nos braços os sonhos amontoados Em direção a
um inacabável paraíso Nem as coisas
perdidas são mais encontradas Passei a
correr numa estrada distante Você não
tinha nenhuma suspeita, né?
Nós diremos
adeus, paraíso perdido Como desejávamos
um paraíso Nós estamos
nos soltando de algo que nós nunca tivemos O tempo passa
tão rápido, o paraíso está perdido Os sonhos que
nós agarramos são castelos de areia que vão
desmoronando silenciosamente Só ficamos
parados numa encruzilhada por muito tempo Deixamos para
trás os sorrisos Você, que foi
sumindo, desenha Ao paraíso Nós diremos
adeus, paraíso perdido Como
desejávamos um paraíso Nós estamos
nos soltando de algo que nós nunca tivemos O tempo passa
tão rápido, o paraíso está perdido Não pode ser
a poeira das estrelas que flutuaram No fim de um
espetáculo um buquê de flores vermelhas Mesmo em uma
miragem o meu olhar começou a correr Nós diremos
adeus, paraíso perdido Nós diremos
adeus, paraíso perdido Como
desejávamos um paraíso Nós estamos
nos soltando de algo que nós nunca tivemos O tempo passa
tão rápido, o paraíso está perdido Nós diremos
adeus, paraíso perdido Como
desejávamos um paraíso Nós estamos
nos soltando de algo que nós nunca tivemos O tempo passa
tão rápido, o paraíso está perdido Eu te desejo boa sorte Eu ainda
lembro todos os dias |