Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio LI

Inferno

 

 

 

 

“Por mim se vai das dores à morada,

Por mim se vai ao padecer eterno,

Por mim se vai à gente condenada.

 

“Moveu Justiça o Autor meu sempiterno,

Formado fui por divinal possança,

Sabedoria suma e amor supremo.

 

No existir, ser nenhum a mim se avança,

Não sendo eterno, e eu eternal perduro:

Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”

(Dante Alighieri, A Divina Comédia.)

 

 

Domingo, 25 de Junho de 2028. 02h00min. (data e hora de Londres).

Reinos dos Sonhos.

Mundo Espiritual.

 

Ela acordou assustada de um terrível pesadelo. Havia tido sonhos terríveis com seu irmão, com seu noivo e principalmente… com seu filho. Foi inconsciente e imediato que Lilith levou sua mão até o ventre. Mas… não havia nada lá. Apenas uma enorme cicatriz curada.

— MEU FILHO!!!

— Calma…

Uma voz suave e quase etérea aproximou-se da jovem colocando-a para se deitar novamente. Apenas a presença dele era o suficiente para que Lilith o reconhecesse.

— Hipnos, cadê o meu filho? – sua voz embargou-se. – Onde está o meu filho? – as lágrimas foram inevitáveis. — Hipnos… eles… eles roubaram… ele roubou o meu…

— Sshh… - Hipnos carinhosamente abraçou sua irmã. — Calma, minha filha. Calma.

— Aquele desgraçado… - Lilith mal conseguia falar. Seus soluços atropelavam seu raciocínio. — Hipnos… Eu fui violada… eles violaram o meu ventre, Hipnos…

— Eu sei, filha…

— ELES LEVARAM O MEU FILHO!!! NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO…!!!

O desespero e a dor daquela mãe que perdeu seu filho eram indescritíveis. Nunca alguém poderia saber o que é perder um filho. Muito menos saber a dor de uma mãe em saber que seu filho lhe foi tirado à força. Lilith estava inconsolável.

Hipnos ficou com sua irmã até que o desespero passasse e o cansaço abatesse sobre Lilith novamente levando-a a dormir novamente. Como “Deus do Sono”, Hipnos usou seus poderes para dar tranqüilidade e paz aos sonhos de Lilith. Quando finalmente ela adormeceu, Hipnos se retirou do quarto reservado de seu Castelo deixando um guarda na porta.

Lilith voltou a sonhar. Sonhou com dias ensolarados. Amigas conversando sobre gravidez. Os dias em Nova York quando ainda namorava com Danyael. Sonhou com Danyael. Seus beijos, seus abraços, seu carinho… Lilith sonhou coma gravidez.

Sonhou com seu pai fraco.

Com seu irmão sendo decapitado.

Com seu filho…

Azazel.

Novamente Lilith acordou desesperada.

Ela ainda estava em estado de choque. Seus olhos vagavam pelo teto do quarto, sem se importar com os detalhes. Ela queria que tudo aquilo tivesse sido apenas um sonho. Mas não foi. Lilith se encolheu na cama, buscando um dos travesseiros, e o abraçou com força querendo poder fazer tudo aquilo que estava em sua mente fosse “exorcizado”.

Principalmente a imagem de Azazel. Ela começou a ter nojo e repugnância das lembranças que tinha dele. Mais do que isso: ela tinha ódio. Ele tirou tudo aquilo que era o mais importante da vida dela: Seu pai, seu irmão e, principalmente, seu filho.

Lilith volta a se remexer e, num surto psicótico, começa a se debater na cama socando e chutando tudo. Dentro dela diversas bombas atômicas explodiam diversos tipos de emoções devastando tudo que tinha anteriormente. O pior disso tudo era se lembrar dos Sonhos Despedaçados. Daqueles sonhos montados no quarto de dinossauros que aguardava pelo seu hóspede. Das promessas feitas entre ela e Danyael para o futuro daquela criança. Dos momentos in family com Tânatos e Hades da felicidade deles com o nascimento do novo Príncipe do Inferno.

Tudo isso destruído. Como um copo de vidro caindo no chão despedaçando em cacos as suas alegrias e esperanças. E sobre esses sonhos despedaçados, os pés de Lilith se feriam com esses cacos de vidro de suas lembranças.

Lilith então parou. Seu corpo ficou completamente imóvel. Seus olhos petrificados. Fixos no teto e no único sentimento que lhe restou. Aquele veneno verde que brotou de seus pesadelos correu por todo seu organismo, como um vírus devastador, contaminando cada centímetro de seu corpo. Esse veneno rasgava, queimava, e fulminava tudo aquilo que ela foi no passado. No fim, só restou ele, o fruto da dor e do desespero de Lilith: Vingança.

 

[Soundtrack: Imaginary – Evanescence]

 

A filha do falecido Deus do Mundo Inferior agora não tinha mais dúvidas sobre o que ela iria fazer a partir de agora. Girando seu corpo e levantou-se da cama. Sua compostura foi rapidamente recuperada. Alguns passos à diante, Lilith parou diante da penteadeira e se sentou. Ficou ali durante um bom tempo apenas olhando os próprios olhos do reflexo do espelho. Buscou uma escova. Colocou a aparência em ordem. Mas no fim, ela sentiu que isso não bastou. Ela precisava de mais…

Lilith sempre clareou o cabelo para que ficasse parecido com o de seu noivo. Tal atitude servia para mudar um pouco o visual tão usado por toda sua infância e se diferenciar de sua família: todos tinham com cabelos pretos. Mas desta vez, com a perda das pessoas mais importantes de sua vida, ela queria assumir a sua herança.

A escova foi colocada sobre a mesa. Sua mão direita foi automática até a segunda gaveta e de lá trouxe um frasco pequeno de vidro. Em seu conteúdo, havia um liquido etéreo de cor prateada, que pelos seus movimentos hipnóticos parecia ter vida. Lilith segurou bem forte o frasco e mentalizou: “Preto”. Em seguida jogou todo liquido sobre seus cabelos.

O líquido desceu sobre suas madeixas como um óleo bem viscoso. Lilith espalhou o líquido por toda cabeleira e, em poucos segundos, os longos fios loiros escuros foram substituídos pela negritude original dos descendentes do Deus Hades.

Alguns momentos depois, Hipnos havia retornado ao quarto. Tal foi sua surpresa em não ver mais Lilith deitada na cama:

— Lilith? – Perguntou esperando que alguém respondesse. Aquele era seu castelo. Era impossível Lilith ter saído sem que ele soubesse.

Mas ela estava lá. Camuflada pelas cortinas de seda próxima a quarta janela do aposento. O quarto era grande. Tinha o tamanho de um apartamento de dois quartos. E num dos ambientes, Lilith observava pensativa os movimentos das nuvens astrais dos reinos oníricos do Sonhar.

Hipnos foi caminhando até ela. Enquanto ia se aproximando ele percebeu que havia algo de estranho e diferente em sua irmã caçula, e não era simplesmente a cor de seus cabelos. Ela emanava uma aura que Hipnos nunca vira em sua irmã. A aura do ódio. O desejo de vingança. E isso preocupava o velho deus:

— Lilith… você não está pensando…

— Sim, meu irmão. E você não irá me impedir.

— Não. Não irei. Mas devo alertá-la: Azazel não é um oponente qualquer. O último que o enfrentou em pé de igualdade foi o Arcanjo Miguel, que é tão antigo quanto nosso pai.

— Eu não me importo. Ele matou o meu pai. Ele matou o meu irmão. Ele roubou o meu filho de dentro do ventre! Isso não vai ficar assim. Não vai!

— Lilith…

— Eu tenho que parar de esconder minhas origens atrás dessa máscara de ingenuidade. Tenho que começar a agir como uma verdadeira Daemon. Honrar o sangue de meu pai que corre em minhas veias. E assim como você e Tânatos, que são deuses, eu também sou. Eu vou mostrar pra’quela bicha angelical que ninguém… NINGUÉM… mexe com Lilith Daemon!

Lilith exclamou com tanta raiva e ódio que sua ressonância, algo que no Mundo dos Sonhos era quase palpável, explodiu com voracidade destruindo quase metade dos vidros ao seu redor. Hipnos conhecia bem o gênio de sua irmã e sabia que não tinha mais como argumentar com ela. Entretanto, com bom sábio que ele era, resolveu aconselhá-la:

— Se pretende invadir o Oitavo Círculo, pelo menos peça ajuda ao seu noivo. Ele é o Portador da Light Sword, com certeza…

— Não! O Dany tem outros problemas pra resolver. E além do mais, tudo isso só aconteceu por que eu o desobedeci. Se eu tivesse feito exatamente o que ele tinha dito, nosso filho não teria sido roubado. Pode me chamar de orgulhosa ou medrosa, mas eu não tenho cara pra olhar nos olhos de Danyael. Se eu fiz isso com o nosso filho, tenho que eu reverter isso.

— Entendo. Então, minha princesa eu só posso te dizer uma coisa agora.

— Eu já disse, Hipnos. Não tente me impedir.

— Eu te desejo boa sorte. E, como um único e talvez último conselho desse velho irmão, peço que procure uma pessoa em especial lá no Inferno, antes de ir direto para o Oitavo Círculo.

— Quem?

— Ela é um dos demônios que melhor conhece o Inferno e seus Nove círculos. Tem inúmeros contatos, possuindo uma rede de informação gigantesca. E como você bem sabe, melhor andar no Inferno com uma direção do que se perder. Tenho certeza que devido aos assuntos do passado, ela irá te ajudar.

— E quem é essa pessoa tão especial?

— Lilith, a Rainha de Sodoma, lar dos demônios Succubi.

 

*****

 

“De luxúria fez tantas demasias.

Que em lei dispôs ser lícito e agradável.

Para desculpa às torpes fantasias.”

 

De acordo com a bíblia judaico-cristã, Sodoma e Gomorra foram as cidades destruídas por deus com fogo e enxofre caindo do céu. As cidades foram destruídas por causa de seus habitantes, que praticavam atos imorais e pecaminosos. Então, devido a esse passado “glorioso”, no Inferno existem duas cidades que são replicas fidedignas das originais. Os antigos habitantes dessas cidades, os Cananeus, tiveram um lar pra se estabelecer e lá originou-se a uma nova raça de demônios infernais: os Incubi e Succubi.

À medida que se foram passando os anos na Terra, Sodoma e Gomorra acompanharam as evoluções das metrópoles, e hoje nem de longe lembra as cidades de 2 Mil anos antes de cristo. Suas grandes torres retangulares e disformes, lembram os arranha-céus das grandes metrópoles, tal como as ruas e os becos imundos. Sodoma, em particular, parece um bairro de prostituição em tamanhos colossais. A cada esquina podia-se encontrar um prostíbulo ou uma casa de dançarinas. O cinema também chegara a pouco tempo nos reinos infernais, e obviamente, os filmes pornôs são os grandes lançamentos.

Havia muito mais do que simplesmente “sexo e promiscuidade” nas cidades do pecado. Traição, violência, drogas, marginalização, prostituição, vandalismos, pedofilias, entre outras “qualidades humanas” eram práticas comuns nas ruas e praças dessas cidades. Ali, conceitos como respeito e compaixão, eram banalizados e mortos. Mas, como tudo no Inferno, existe alguém que manda naquela “putaria toda”. E era atrás desse alguém o motivo de Lilith vir a Sodoma.

No que poderia se comparar a um “Centro da Cidade”, havia uma enorme casa noturna, do tamanho de um estádio de futebol, onde era o centro das atenções. Uma fila com literalmente quilômetros de comprimento formava-se diante da porta de entrada. Não havia nada ali que indicasse “o que” realmente acontecia lá dentro, mas era de conhecimento de todo o Inferno que ali era “o paraíso”. Obviamente, Lilith não veio até aqui pra passar duas eternidades numa fila. Ela foi direto falar com o Leão de Chácara que era, obviamente, um enorme demônio de dois metros e meio de tamanho e cara de poucos amigos.

Vai pra fila!

— Vim falar com Lilith.

Vai pra fila!

— Diga a ela que sou Lilith, filha de Hades, irmã de Tânatos.

— E então? Ela está?

Pode entrar, Senhorita Lilith.

— Obrigada.

 

Aquilo era o inferno dentro do Inferno. Assim que o visitante chega, ele podia ter uma visão totalmente ampla do que rolava lá dentro. Sexo? Isso era o de menos. Ali acontecia literalmente de tudo. Pessoas eram torturadas, massacradas e mutiladas, tudo em nome do prazer. Os demônios incubi encarregavam-se de distribuir o máximo de perversão aos convidados, enquanto as succubi trabalhavam para que cada pessoa tivesse seu “limite sexual” aflorado. Eram facas, chicotes, roupas de couro, tentáculos, bastões de beisebol, furadeiras, entre outros brinquedos nas mãos de demônios da luxúria. A dor e o prazer andavam juntas.

Lilith olhou ao redor. Sabia exatamente onde deveria ir. Em seu caminho, obviamente alguns demônios se aproximaram dela. Sedutores, eles se esgueiravam entre as pessoas até chegarem na filha de Hades. O primeiro foi um incubus. Galante, bonito, usando roupas de couro apertadas, e com um enorme… chifre na cabeça.

— Olá… Vejo que ainda não saboreou os prazeres de nosso clube, deixe-me que eu… - sua língua foi se aproximando da orelha de Lilith. Ela rapidamente a pegou e apertou até começar a sair sangue:

— Encoste essa sua língua imunda em mim, e eu farei com que ela seja pregada no Terceiro Círculo pra servir de comida pro meu cachorrinho Cerberus.

O demônio arregalou os olhos em puro terror. Lilith o largou como um lixo qualquer e continuou. Seu caminho a levou até o local onde sua xará se encontrava. No alto do que poderia ser a “área vip”, uma mulher era cercada pelos mais belos homens e mulheres que dedicaram suas vidas mortais à luxuria ao seu lado. Muitos usavam mordaça, outros praticavam sexo, mas a maioria servia apenas para praticar parafilias.

Rapidamente, a estonteante mulher que encontrava-se em um trono real, percebeu a chegada de Lilith e a chamou para perto dela. O caminho de Lilith até a rainha foi um tanto complicado, pois mesmo se afastando, aqueles infelizes tentavam se aproximar dela ou no mínimo serem pisados pelos seus saltos finos. A rainha teve que dar um grito para que eles abrissem o caminha para sua convidada.

Assim que Lilith se aproximou de sua xará, a rainha esticou suas mãos para poder pegar o rosto da jovem e dá-lhe dois beijos no rosto.

— Minha querida, como você cresceu! Nem parece mais aquela menininha que corria pelos corredores do castelo de seu pai.

— Pra você isso deve ter sido ontem, não?

— Realmente… minha condição imortal faz com que eu não perceba a passagem do tempo.

— Sim, você continua bela e estonteante.

— Não tanto quanto você, minha doce perola. Acho que não preciso mais me preocupar caso um dia precise de uma substituta.

— Não se precipite. Tenho outros planos pra minha vida.

— Sim, certo. Então… o que a traz até Sodoma?

— Resumindo em uma única palavra? Vingança.

Lilith e a Rainha Lilith se entreolharam fixamente por eternos segundos. Parecia que tentavam ler a mente uma da outra. Nem a música, nem o barulho, nem os gritos e gemidos que a rodeavam as tirava daquela concentração. Foi um simples piscar que encerrou com aquilo.

— Você está querendo morrer. – disse a rainha.

— Pelo menos morrerei tentando.

A rainha sorriu.

— Parece que seu irmão estava adivinhando quando lhe deu esse nome.

— Você foi a primeira esposa de Adão. Entretanto, rebelou-se contra Deus por não aceitar “ficar de baixo” de um homem. Foi a primeira mulher a lutar por direitos iguais.

— Independente de que poderes eu fosse enfrentar. E olha que estamos falando d’O Criador!

— Você foi acusada de ser a “serpente” que entregou a “maçã” à Eva, e ainda foi exilada no Inferno.

— Sou também conhecida como demoníaca, noturna, devoradora de crianças, causadora de pragas, depravação, homossexualidade, vampirismo…

— Mas suportou e venceu tudo isso, se tornando a Rainha de Sodoma, uma das maiores cidades do Inferno. Nem a Tríade se coloca contra você. É por isso que eu vim até aqui, Lilith.

— Você quer que eu a ajude nessa sua vingança.

— Eu conheço minhas limitações.

— Que não são poucas. Azazel não é um adversário qualquer.

— Sei que o Inferno é gigantesco.

— Você irá levar séculos cruzando o Oitavo Círculo, lar do Caído.

— Sei que fui arrogante e orgulhosa em recusar a ajuda de Hipnos e do Dany, mas…

— Você não quer nenhum homem se metendo nos seus assuntos.

— Mas estou sendo humilde agora em dizer que preciso de sua ajuda. Sei que você não tem porquê me ajudar, e que nossa relação termina apenas em nossos nomes, mas peço que pelo menos pense em meu irmão, Tânatos, que foi assassinado.

A Rainha Lilith olhou séria para a jovem, porém manteve um sorriso escondido no canto dos lábios.

— Minha querida… você não precisa apelar pro relacionamento que tive com seu irmão pra me convencer a ajudá-la. Você já conseguiu isso no momento que entrou nesta casa noturna.

Lilith sorriu. E respirou mais aliviada. Mas a Rainha logo se antecipou:

— Mas, infelizmente, não poderei ajudá-la de forma direta, como espera. A segurança de minha cidade só está inabalável por causa do respeito que conquistei com as falanges de Azazel. E mesmo se eu quisesse entrar nessa guerra contigo, também não seria de muita ajuda, afinal nunca se quer levantei uma espada. Mas antes que você se desanime, tenho três coisas aqui que irão te ajudar.

A Rainha das Succubos buscou uma bolsa de veludo que estava ao seu lado e de dentro tirou dois objetos. O primeiro era um tipo de cristal roxo, triangular, do tamanho da palma de uma mão, com duas hastes metálicas em meia-lua opostas uma a outra. O cristal se prendia nestas hastes, que em suas pontas superiores sobressaiam duas pequenas lâminas, lembrando muito a letra “F”.

— Este é o “Daemonorus”. Ninguém sabe ao certo a origem deste fetiche, muito menos que tipo de espírito habita dentro dele, entretanto seu poder é lendário. Tão lendário que poucos no universo sabem da existência dele. Ao que parece ele já estava no Inferno muito antes de Lúcifer e sua legião caírem aqui. Isto é: ele seja o primeiro habitante deste lugar. Foi este cristal que ensinou às Sete Castas Infernais tudo que eles sabem sobre seus Poderes Demoníacos. Tudo sobre as Doutrinas Infernais dentro deste cristal.

— Pelos deuses…

— Ele foi tudo que eu tive no inicio do meu reinado e agora eu o dou a você.

— Lilith… - a filha de Hades não sabia o que dizer. — Eu não posso… Esse cristal é…

— Sim. É talvez o item mais poderoso do Inferno. E eu estou dando pra você.

— Mas e você?

— Eu já consegui tudo que queria. Não preciso mais dele.

— Mas se um dia precisar?

— Lilith, esse cristal não dá ou aumenta o poder de ninguém. Depois de um tempo usando você perceberá que ele na verdade “ensina” os poderes para você. E como eu sei que você está empenhada a fazer o impossível nessa sua jornada, tenho certeza que o Daemonorus irá ter algo especificamente pra você, no momento certo! Pode confiar em mim.

— Muito, muito obrigada.

— Eu ainda não terminei! – sorriu a Rainha. De dentro da bolsa ela tirou outro objeto. Este, ao contrário do anterior, era bem mais simples. Porém de beleza tão formidável quanto.

Era uma bússola de ouro. Em sua tampa, runas e escritas antigas dos reinos infernais adornavam em detalhes formidáveis. Era bem menor que o Daemonorus. Ao abrir a bússola, Lilith percebeu que ele também era diferente dos comuns. Não havia agulha. Não havia direções. Não havia nada dentro dele. Apenas um vidro de cristal com fundo preto. Na parte interna da tampa havia diversos dizeres em grego. Como sendo filha de Hades, o grego na verdade era sua língua materna.

— Esta é Bússola de Dante. Obviamente, mesmo séculos atrás, seria impossível para um mortal atravessar os 9 Círculos do Inferno. Como todos nós sabemos, cada Círculo pode ter dimensões quase planetárias, o que torna inviável para um mortal percorrê-lo. Entretanto, o que ninguém sabe é, que quando Dante chegou ao Inferno, mais precisamente nos Elíseos, um dos gênios infernais deu a ele essa bussola para que o guiasse em sua jornada. Não é a toa que o Inferno é comparado a uma cebola. Se você cortá-lo poderá ver todos os seus “anéis” subdivididos.

— Em resumo… ele poderá me guiar através dos “Atalhos”. – Lilith se referiu ao termo muito usado entre os habitantes do Inferno que seria um trecho “meta-espacial” que interligava dois pontos cujas suas distâncias reais eram absurdas. No Espaço, os astronautas chamam esses mesmos fenômenos de “Wormhole”.

— Exatamente. E com precisão! Ele funciona através de seus desejos. Queria estar no Oitavo Círculo e ele mostrará o Atalho mais próximo.

— Ah, Lilith… isso sim será de grande ajuda!

— Eu sei! Por isso eu estou te dando. Agora meu terceiro e último presente.

— Ah, Lilith… Não precisa…

— Não é nada material. Na verdade é um conselho. Mas como diz aqui no Inferno: “Se conselho fosse bom ele seria vendido e não dado”, você escolhe se irá segui-lo ou não.

— Certo.

— Existe um anjo aqui no Inferno que é dos tempos da Primeira Rebelião e não é um Anjo Caído. Seu nome é Azrael.

 

*****

 

Em toda a história… Em todas as culturas… Sempre existiu um “Anjo da Morte”. Aquele que é enviado pelo Ser Supremo pra levar a vida dos mortais. Um Ser onde a única razão de sua existência é o Fim. Ele não é aquele que julga. Não é aquele que conduz. Nem muito menos aquele que trás as respostas. Ele é, simples e unicamente, a morte, propriamente dita.

É claro que ele não está sozinho nessa missão. Com o passar dos séculos, outros Algozes foram surgindo, tal como o seu irmão Tânatos. Mas este foi o Primeiro. Foi aquele que o próprio Criador deu a vida, para ironicamente, ele tirar a vida. Azrael, este é o seu nome.

Poucos o conhecem no Inferno. Muitos nem sabem de sua existência. Eu mesma só o conheço por que estive presente pessoalmente nos dias da criação. Eu o via por todos os lados, tirando a vida dos animais, fazendo as folhas das árvores caírem, e nos rondando sempre, esperando a nossa hora. Eu já tive muito medo dele. Ainda tenho. Mas hoje é diferente.

Ele está diferente. Vive no Inferno não porque lhe foi ordenado, mas por que preferiu estar aqui. Num casebre bem humilde, às margens do Sétimo Círculo, é onde ele vive. Chegar até lá não será fácil. Você terá que enfrentar grandes obstáculos e não existe nenhum Atalho que leve até Azrael. Você terá que chegar por suas próprias pernas. Se pretende enfrentar Azazel, mesmo sabendo do risco acho que no mínimo você deveria conversar com a própria Morte para saber o que fazer.

É o que eu aconselho.

 

O Sétimo Círculo era um dos maiores do Inferno. Seria comparável a Júpiter no Sistema Solar. Colossalmente grande e deserto. Seus céus são cobertos de nuvens vermelhas, pesadas, cheias de relâmpagos e trovões. É neste Círculo que está a, sem sombra de dúvidas, a maior cidade do Inferno. Sodoma e Gomorra não passam de bairros de periferia comparados a Cidade Dite. É nesta cidade também onde reinava o Terceiro dos Três Senhores do Inferno: Belzebu.

Mas este foi deposto. De acordo com as informações que correm todo o Inferno, a Legião de Azazel dominou Dite e o próprio Anjo Caído depôs o Terceiro. Lilith sabia que o guardião do Sétimo Círculo era o Minotauro, filho de Zeus. Talvez ele não fosse um desafio muito difícil, pensou a jovem. Mas seus planos foram por terra quando viu que o caminho estava aberto.

O Grande Minotauro foi entalhado bem na frente da entrada do Círculo em meio a um campo cheio de cadáveres de demônios putrefatos. Pensando bem, analisou Lilith, aquilo era de se esperar. Colocar o Guardião do Sétimo Círculo, filho de Zeus, morto na frente da entrada era a melhor forma de Azazel dizer que ali estava “sob nova direção”. Lilith não iria perder seu tempo ali. A bússola já apontava sua agulha para o que seria, nos padrões da Terra, o noroeste. O jeito era seguir o caminho para encontrar Azrael.

A Rainha Lilith estava certa. Era um caminho muito difícil. Muitos penhascos, desfiladeiros e trilhas de florestas densas quase impossíveis de se atravessar a pé. Mas foi, graças a abençoada bússola, que Lilith encontrou o casebre onde o respeitável Anjo da Morte vivia. E era exatamente como a Rainha havia descrito: bem pobre e humilde. Parecia ter apenas dois cômodos. Mas, Lilith não sabia se era a Floresta ou os Céus rubros, mas a casa estava muito escura. Escura até demais.

O som de corvos ecoou na floresta. Lilith não se assustou. Seguiu em direção a casa em passos lentos e firmes. Cada uma de suas pisadas provocava o som de uma folha ou um galho sendo quebrado. O silêncio era tão imperioso que as batidas do coração de Lilith pareciam tambores. Ao ficar diante da casa, Lilith parou. Respirou fundo. E abriu os olhos novamente, na certeza que agora não estava mais sozinha. Atrás dela estava Azrael, o Anjo da Morte.

O que a trás aqui?

Lilith se virou. Azrael era bem como ela imaginava. Suas asas de corvo eram tão enormes que cobria toda a sua visão. Sem blusa, apenas de calças, o anjo era absurdamente pálido como o alabastro, além de ser absurdamente magro. Seus cabelos eram tão negros quanto suas asas e escorriam por sua cabeça até a altura do peito. O incrível silêncio que rodeava aquela área vinha da aura espectral sombria que circundava o anjo. Essa aura parecia uma névoa escura que se movia e contorcia a todo instante, refletindo ocasionalmente os pensamentos do anjo em formas simbólicas e estranhas. As sombras em seu corpo eram mais densas, ocultando assim grande parte de sua face.

— Meu nome é Lilith Daemon. Vim falar com o senhor.

Eu sei que é você. – respondeu o anjo com sua voz lúgubre e anciã. Sua atenção não estava focada em Lilith. – Mas à minha presença, visita nenhuma agrada.

— Mas eu vim. Eu preciso de sua ajuda.

Ajuda? – o anjo estava atento aos céus. Mas foi quando sua misteriosa aura tenebrosa tomou a forma de um feto sua atenção retornou para Lilith. – Você é irmã de Tânatos.

— Sim. Eu sei também que você foi o mentor dele nos tempos antigos. É em nome dele também que eu venho aqui.

Não. Você não vem em nome de Tânatos.

— …?

Você vem em busca de vingança.

— Sim.

Escute o que eu digo, Lilith Daemon. Você irá morrer.

Aquilo veio como uma sentença. Como discutir com a sabedoria do Anjo da Morte? Ele podia não saber sobre as nuances do destino, mas sabia com exatidão quando alguém ia morrer. Se ele estava dizendo isso era por que…

Mas Azazel morrerá antes.

As esperanças de Lilith, que por pouco não ficaram lá na entrada do Inferno, voltaram. No mesmo instante a jovem se ajoelhou perante o sábio Anjo:

— Azrael, por favor… Eu preciso de sua ajuda. – seus olhos agora estavam imersos em lágrimas. – Eu sou uma mãe desesperada. Eu não quero nada além de Justiça. Eu não estou pedindo nada que não seja contra aos Mandamentos de seu Deus.

E por que deveria lhe ajudar?

— Por que você é o único que pode! Azazel já ganhou poderes quase absolutos no Inferno. Hoje, talvez, nem o Arcanjo Miguel seja capaz de detê-lo. Você é o Anjo da Morte. Você sabe como derrotá-lo.

Lilith Daemon, você sabe que sua jornada não a levará a nada.

— Meu filho…

Você está se agarrando na possibilidade de seu filho estar vivo. Mas ele não está. Andrew Daemon Kimble infelizmente morreu antes de nascer.

As lágrimas de Lilith caiam vertiginosamente sobre a terra escura. Era verdade. Lilith só estava nessa jornada, pois ela achava que seu filho ainda estivesse vivo. Que Azazel de alguma forma ainda o mantinha vivo, mesmo fora de seu ventre. Mas a palavra de Azrael era a lei. Se Andrew estava morto, então não tinha mais nada que se pudesse fazer…

Mas Azazel ainda precisa morrer. Esse é o destino dele. Morrer em suas mãos.

— E se eu não aceitar esse destino?

Você vai aceitar.

— Eu não tenho mais razões para continuar.

Mas você terá.

— A única razão pra eu ter vindo até aqui era pra buscar o meu filho. Se ele não está vivo…

Ele não está. Mas poderá nascer.

As lágrimas de Lilith por um momento pararam.

— O que eu tenho que fazer.

Cumprir com seu destino.

— E se eu falhar?

Você não irá falhar. O destino de Azazel é morrer vitima de seu orgulho.

 

*****

 

“Tem o inferno, de rocha construído,

De férrea cor, do muro igual cercado

Um lugar: Malebolge, o nome havido.”

 

Encontrava-se Lilith agora no Oitavo Círculo do Inferno, chamado Malebolge. Este era uma das maiores regiões do Inferno e era separado por dez compartimentos onde, em cada um deles, eram punidos todos os tipos de pecadores, condenados ou fraudulentos. Os compartimentos lembravam enormes crateras, tais como as da Lua, e pontes de madeira era o único trajeto disponível para atravessá-los.

Com a ajuda imprescindível da bússola, Lilith acabara de deixar para trás o oitavo compartimento e chegou ao nono recebida por visão aterradora: o Castelo de Azazel.

Sua estrutura era bem similar a uma fortaleza. Seus muros rubros emanavam vapores quentes, enfatizando a idéia de que lá dentro o calor pudesse ser insuportável. A terra calcinada ainda trazia milhares de milhares de pegadas, que com certeza pertenciam ao exército do Anjo Caído. No centro da fortaleza, podendo-se ver pelo lado de fora, estavam as Torres dos Pesadelos, morada de Azazel. Toda sua estrutura era formada por ossos humanos e cimento espiritual originário das almas sem livre-arbítrio. O trajeto seria longo, se caso Lilith não encontrasse um obstáculo no caminho.

Talvez um dia ele tenha sido um valoroso soldado de guerra. Sua armadura agora tomara as formas infernais, com espinhos e curvas irregulares. Do peito desprotegido, duas flechas ele retirou como se fossem nada. Ao seu redor, aparentemente, havia acabado de acontecer um combate. Mas é pelos cadáveres de seus oponentes por onde ele caminha.

Lilith observa atentamente e reconhece quem foram os oponentes daquele demônio. Suas peles morenas, olhos amendoados, cabelos negros e lisos, e barbas fechadas e compridas logo denunciaram. Nem foi necessário perceber que alguns usavam turbantes e túnicas. Eram homens árabes. Mas não eram humanos. Suas asas de águia revelaram serem na verdade Anjos. Anjos Islâmicos.

E conhecendo a História do Inferno como ninguém, Lilith logo deduziu de quem se tratava aquele enorme demônio: Eblis, o Rei dos Demônios muçulmanos, um dos Duques infernais que vivem no Oitavo Círculo. Eblis tinha grande prestígio no Inferno, porém era difícil acreditar de que ele agora era um dos cães de guarda de Azazel. Se era o caso, Lilith teria que enfrentá-lo primeiro antes para pode entrar no castelo.

 

[Soundtrack: Aerials – System of a Down]

 

Aquele que entra nos domínios de Azazel, a morte encontrará.

 

Assim que Lilith nasceu, o primeiro presente que seu pai havia lhe dado não foi uma boneca. A Espada do Tartarus era a herança que recebera de seu pai, o deus grego do Mundo Inferior. A Tartarus era uma espada longa de dois gumes inteiramente da cor da pérola negra. Lilith sempre a carregava com ela, pois a espada podia-se magicamente tomar a forma de um pingente. Quando o demônio a desafiou, a filha de Hades buscou seu colar e o colocou delicadamente na palma da mão direita. Ela pressionou forte e orou: 

“Essa será por você, meu irmão”.

Numa explosão súbita de rapidez, Lilith partiu ao encontro do inimigo. Assim que se aproximaram, a filha de Hades conjurou sua espada e esta se chocou violentamente com a espada do demônio.

Uma onda de choque levantou uma onda de poeira.

As espadas faiscavam com o atrito. Separando-se por milésimos de segundos, Lilith girou graciosamente o corpo atacou novamente. Poderes divinos novamente entravam em colisão.

O solo rachou inúmeras vezes com o segundo impacto.

O olhar de Lilith era feroz. Cruel. Sanguinário. Essa era a diferença dela para com Danyael: o real demônio que se escondia dentro do casulo de uma frágil mulher. Sua força, sua coragem, sua destreza. Ela iria até o fim em sua vingança.

As almas condenadas que estavam próximas ao combate tiveram seus corpos dilacerados pelo poder do combate.

O demônio Eblis era também um mestre no combate. Durante séculos enfrentou as legiões dos anjos islâmicos, e foram as raras vezes que perdera. Somente sua força parecia ser capaz de causar grandes cataclismos.

O simples toque de Eblis no solo gerou violentos terremotos que destruíam toda a fundação geológica do Nono Compartimento.

Mas Lilith não era uma mulher qualquer. Seu legado era muito maior do que este demônio. Igual a ela estavam grandes heróis gregos como Hércules e Aquiles. E agora que ela possuía o Daemonorus, suas forças realmente pareciam ter alcançado limites infinitos.

Lilith saltou. Enquanto a terra era devastada, em suas costas asas negras surgiram dando a ela a chance de se manter no ar. Aquele era apenas o inicio do que o Daemonorus poderia lhe proporcionar.

Era exatamente o que a Rainha Lilith havia dito. O Daemonorus não aumentara os poderes de Lilith. Ele havia feito melhor! Lilith parecia agora apta a aprender qualquer poder demoníaco sem qualquer ensinamento prévio. Enquanto flutuava percebeu que havia um segundo poder que a acompanhava. Fechando os olhos, pode escutar a sua voz.

Sendo totalmente coberta por um simbionte negro, Lilith lançou sobre o inimigo o poder das Correntes dos Condenados.

Eblis já havia enfrentado todos os tipos de poderes infernais. Mas o que mais o irritava era os demônios que usavam simbiontes. Eles conseguiam ter a capacidade se mudar e se adaptar rapidamente, dificultado e prolongando ainda mais o combate. Ele já havia lidado antes com as Correntes dos Condenados antes, não seria problema por hora.

A força de Eblis, agora amarrado pelas poderosas correntes, lutava para se libertar. Quando os anéis começaram a ceder, o demônio buscou sua espada e deu fim nas correntes de uma só vez.

Lilith não apostava em suas correntes. Apenas precisava de tempo pra terminar seu próximo ataque. Sua espada ergueu-se aos céus e trouxe sua vontade até a terra. No instante seguinte, diversas estrelas brilharam nos céus rubros de Malebolge reverberando a fúria divina.

Uma chuva de meteoros cobriu um quarto do Nono Compartimento. Cada rocha flamejante que caía dos céus tinha a força de milhões de toneladas, e seus tamanhos variavam de um carro a uma casa. Se Eblis causou um cataclismo antes, Lilith trouxe o Armagedom com ela.

A chuva cessou. Uma gigantesca nuvem cobria quarteirões do Nono Compartimento. Lilith esperou. O silêncio era perturbador. Será que ela tinha conseguido? A força e o poder do Daemonorus foram essenciais. Lilith já conhecia o poder das tempestades, só não conhecia essa versão apocalíptica. As nuvens começaram se mover de forma estranha. A luta ainda não tinha terminado.

Eblis surgiu do epicentro da chuva vindo, subindo entre as nuvens, e atacando Lilith com força colossal. A jovem foi arremessada com ferocidade ao solo, caindo entre os pedregulhos.

O demônio havia sobrevivido, mas não saiu ileso. Sua armadura estava quase completamente rachada. Seu capacete havia quebrado em um terço, revelando uma face terrivelmente feia e asquerosa. Ele caminhava vagarosamente, como se esperasse que Lilith fizesse alguma coisa. Já que nada foi feito, Eblis riscou a lamina de sua espada no chão e esta imediatamente entrou em combustão.

Novamente o poder do Daemonorus deu a Lilith a chance única de se defender. A velocidade de seu bloqueio superou todas as suas expectativas. E enquanto ela suportava heroicamente o peso e a força da espada de Eblis, sua mente trabalhava freneticamente numa forma de sair dali. Foi então que seu simbionte mergulhou no solo por contra própria.

Lilith pouco sabia sobre os simbiontes infernais. Apenas sabia que eles agiam como um parasita no corpo do hospedeiro, mas que no Inferno era usado como arma eficaz. Eram poderosos, inteligentes e davam ao hospedeiro novas capacidades sobrenaturais. Lilith nunca teve um simbionte antes, mas este parece ter vindo de brinde com o Daemonorus. Ela conseguia escutar os pensamentos do parasita, que mesmo primitivos, tinham a intenção de ajudá-la.

Como vermes surgindo do solo, tentáculos negros saltaram por trás de Eblis e o agarraram com força. Eram meia-dúzia de tentáculos, sendo que a maioria prendia com força o pescoço do demônio no intuito de sufocá-lo. Eblis já estava de saco cheio desse simbionte. Sua espada girou no ar e cortou aquele parasita pela raiz. Lilith sentiu na pele a dor de seu simbionte ser mutilado.

Ela chegou até a chorar pela perda. Parecia que tinham lhe cortado um braço. Mas o sacrifício do simbionte do Daemonorus não seria em vão. A Tartarus ergueu-se e avançou audaciosamente contra Eblis. O demônio obviamente viu aquele ataque e tinha toda a capacidade do mundo para bloqueá-lo. Entretanto algo estranho aconteceu. Estranho e mortal. Seu corpo de alguma forma não respondia mais aos seus comandos ficando completamente petrificado. Naqueles milésimos de segundos que separam a vida e a morte, Eblis praguejou por sua hora ter chegado daquela forma tão lamentável. A Tartarus atravessou o pescoço de Eblis.

Sua cabeça apenas não foi decapitada por que um pedaço de carne ainda a segurava no corpo, mas o golpe foi seguramente fatal. A espada ficou alguns segundos ali parada, pra só depois retornar vagarosamente. Lilith até pensou que não precisava fazer mais nada. Mas então o ódio que ela nutria por Azazel inundou seus pensamentos e num rompante de fúria, fatiou o demônio em vários pedaços. Muito sangue jorrou, banhando o corpo de Lilith em seu rubro vingativo.

Ela precisava continuar.

Eblis foi apenas o porteiro.

 

*****

 

[Soundtrack: Bullet-Proof Skin – Institute]

 

“Essa alma, que de orgulho inda esbraveja,

Avessa ao bem, de raiva possuída,

Deixou em si memória, que negreja.”

 

Os portões do salão imperial abrem com fúria. Sentado em seu trono, Azazel observava a chegada de sua ilustre visitante. Duas filas de pilares em mármore negro separavam os dois. Entre eles, um tapete rubro-negro ornamentado os ligava.

Lilith segurou firme o cabo de sua espada.

Um piscar de olhos, e a fúria de Lilith atravessou o salão. Sua espada cortou o ar num som fino e agudo. Porém, por reles centímetros, a lâmina parou diante do pescoço. A respiração rápida e cansada de Lilith contrastava com a serenidade e despreocupação de Azazel. Nesses milésimos de segundos que o tempo havia parado, o ar deslocado movia-se através deles pintando um quadro da Caça e do Caçador.

— Mulher tola.

— De tolos atos a vida me conduz, e disso eu não me arrependo. Mas, se meus ideais se baseiam em tolos atos… Tola eu serei.

— Belas palavras. Tão belas quanto aquela que as pronuncia. Pena que tal beleza aos vermes será entregue.

— Esse é o seu problema, Azazel. Você sempre subestimou seus inimigos.

Ao terminar de dizer isso, imediatamente todo o salão foi coberto por uma assustadora escuridão. Azazel estranhou aquilo, mas nada fez. Acreditou o anjo caído de aquilo não passava dos truques mágicos Lilith. Entretanto, como a própria avisou, ele subestima demais seus adversários…

Uma sombra gigantesca surgiu por trás da filha de Hades. Quando a foice emergiu das sombras, e a figura lendária do Ceifeiro tomou forma, Azazel entendeu de quem se tratava. Agora sim ele tremeu.

AZRAEL!!! O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?!? – exclamou Azazel incrédulo.

Sua reação foi tardia e inútil. A foice se ergueu tal como uma guilhotina, e tão feroz quanto, desceu sobre Azazel arrancado aquilo que lhe havia de mais precioso. Mais precioso do que sua própria vida. A única coisa que restou aos Caídos após a Queda: sua imortalidade.

Azazel se afastou pavoroso. Ele não acreditava no que tinha acabado de acontecer. Isso era impossível. Mesmo sendo o anjo da Morte, Azrael nunca teria poder suficiente para fazer aquilo com ele. Azazel era superior. Ele era um General. Serviu ao próprio Lúcifer como seu braço direito. Enfrentou duas vezes o Arcanjo Miguel em pé de igualdade. Não! Isso não podia estar acontecendo com ele. Mas era a realidade.

Ele observava com pavor suas mãos. A coloração prateada quase perfeita de sua pele, agora ganhava uma tonalidade opaca. Rosada. Cheia de linhas disformes e relevos irregulares. Ele estava se tornando… mortal.

 

— NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!!!

 

Ver Azazel lamentando por sua perda, não podia ser mais do que magnífico para Lilith. Seu desespero. Sua dor. Seu ódio. Tudo aquilo que ele à fez passar trocado em equivalência. Lilith saboreava cada segundo de sua fria sopa.

Com um grito agonizante, Azazel sacou sua espada e partiu pra cima de Lilith. Primeiro um ataque pela esquerda. Em seguida o encontro de espadas por baixo e por cima da linha da cintura de repetiu diversas vezes, até que Lilith parou a luta com um chute em Azazel. O Anjo caído imediatamente se levantou e, de forma quase literal, babando de raiva:

 

— EU VOU ANIQUILÁ-LA!!! PODE TER ME TRANSFORMADO NUM RELES MORTAL, MAS MEUS PODERES CONTINUAM INTACTOS!!! IREI TRANSFORMÁ-LA EM CINZAS!! DEPOIS EM ÁTOMOS!! ATÉ EU ME CERTIFICAR QUE NÃO SOBROU NADA DE VOCÊ, SUA VACA IMUNDA!!!

 

Lilith não recuou, nem cedeu. Manteve-se em pé de combate. Mas algo lhe tirou a atenção. Algo que fez seus olhos recearem e seu coração palpitar. Azrael havia saído de sua camuflagem de sombras e surgido entre eles.

Os olhos de Lilith foram do Anjo da Morte até o Anjo Caído, e vice-versa, rezando para que o pior não acontecesse. Mas esse foi seu maior erro: ter rezado dentro do castelo de Azazel. O Caído percebeu a preocupação de Lilith e logo virou sua atenção para Azrael.

 

— AZRAEL, CUIDADO!!! – gritou Lilith, mas era tarde.

 

Azazel aproveitou a ingenuidade do Ceifeiro e lançou uma poderosa energia mística sobre ele. Flutuando palmos do chão, Azrael ficou conectado com Azazel através da energia que parecia que de alguma forma o matava. Lilith, mesmo temerosa pela vida de Azrael, pensou no pior: Azazel havia encontrado uma forma de ter sua imortalidade de volta.

Um gigantesco flash terminou com tudo. Lilith havia sido jogada pela onda de choque alguns metros de distancia e quando recobrou os sentidos pode ver com seus próprios olhos o que havia acontecido: Azazel, tão poderoso e imortal quanto antes, agora ria triunfante sobre o corpo desfalecido de Azrael.

 

— SEUS TOLOS!!! IGNORANTES!!! VERMES INFERIORES!!! PENSARAM MESMO QUE PODERIAM ME DERROTAR?!? ACHARAM QUE HAVIA TRIUNFADO SOBRE AZAZEL?!? IMBECIS!!!

 

Fraca, e tentando recuperar suas forças, Lilith ficou ajoelhada apoiando-se em sua espada. Ela não estava com medo. Ela não tinha perdido suas esperanças. Ela apenas aguardava o momento certo…

 

— E AGORA QUE VOCÊS VIERAM ATÉ AQUI, MOSTRAREI A VOCÊS POR QUE EU SOU O NOVO GOVERNANTE DO INFERNO!!! MOSTREI POR QUE NINGUÉM ENFRENTA AZAZEL!!!

 

Estirando a palma direita na direção de Lilith e Azrael, o Anjo Caído se preparou pra usar sua arma mais poderosa. A mesma que usara na Guerra em Oxford, capaz de gerar uma gigantesca explosão capaz de aniquilar todos átomos e moléculas que encostar. E desta vez, não haverá a proteção criada pelos Arcanjos de Miguel.

Um segundo flash ofuscante cobriu todo o salão. O brilho foi tão intenso que simplesmente engoliu suas vítimas dentro dele. Chão e teto se tremeram com a magnitude do poder e quando terminasse, Azazel tinha certeza de que agora sua Sala do Trono teria uma gigantesca varanda pro Malebolge. O anjo fechou a mão e o brilho eterno se defez. Seu sorriso era sádico só de pensar em como estaria os corpos dos dois.

Mas nada aconteceu. Tudo estava normal. Seu salão estava intacto. O corpo de Azrael estava intacto. E Lilith… Com a Tártarus ela atravessa o corpo de Azazel.

argh… - o sangue subiu pela garganta inundando a boca do Caído com um gosto que ele desconhecia. – O que…

— Eu disse, Azazel. Seu maior defeito é subestimar seus adversários.

Fora o fato da espada de Lilith estar-lhe matando, Azazel ainda olhou para a palma de sua mão percebendo que ainda continuava mortal…

— C-como…

Azrael nesse instante se levantou. Recuperando o brilho pálido perfeito de sua pele angelical, o Anjo da Morte explicou ao seu antigo irmão o que aconteceu:

Isso é o fruto de sua prepotência, Azazel. Você estava certo sobre eu não ter poderes para tirar sua imortalidade. Mesmo sendo o Anjo da Morte, não compete a mim tal juízo.

— M-mas então… argh… c-como…

Lilith fazia questão de não tirar seus olhos ferinos de Azazel.

— Você me subestimou tanto, Azazel que nem percebeu que eu vim até Malebolge acompanhada de dois deuses!

Eis que naquele momento surge Hipnos, deus do sono, e irmão de Lilith. Coube a ele explicar:

— Não foi fácil entrar em seus domínios sem ser detectado. Tive que vagar cautelosamente pelo mundo utópico dos sonhos para chegar até aqui. Mas mesmo assim, você percebeu a minha chegada.

— E-eu…

— A sombra que cobriu todo o salão. Aquilo não era exibicionismo de Lilith, nem muito menos a presença de Azrael. Aquele era eu, colocando você pra dormir.

— i-impos-sssível…

— Sim. Mesmo sendo conhecido como “O Deus do Sono”, meus poderes possuem limites quando se trata de imortais como vocês, Anjos e Demônios. Não sou capaz de conduzi-los ao sono profundo, entretanto, ainda sou capaz de afetá-los. Posso gerar ilusões quiméricas quase reais, nos quais eu os levo a um estado de “sonambulismo”.

Lilith teve o prazer de explicar a melhor parte:

— Você ainda era o Azazel, poderoso e imortal, quando duelamos. Mas sua soberba era tão grande, e seu orgulho estava tão ferido, que você caiu como um patinho em nossa armadilha.

Azrael concluiu:

Eu não sou capaz de tirar a sua imortalidade. Mas sou capaz sim de me tornar tão mortal quanto uma criança.

 

[Soundtrack: Swamped – Lacuna Coil]

 

Aquela situação era malignamente saborosa e excitante. Sua vingança estava feita. Lilith enfim sorriu:

— Você deliberadamente trocou sua preciosa imortalidade por um corpo frágil e fraco de um homem comum.

Os olhos mortais de Azazel nem tiveram tempo para se fecharem. Lilith arrancou a Tártarus dele e em seguida lhe cortou as penas na altura do joelho. Imediatamente o anjo ficou de joelhos no chão agonizante:

 

— Essa é pelo meu pai.

 

A Tártarus dançou novamente no ar. Agora foi a vez dos braços de Azazel ficarem separados do corpo.

 

— Essa é pelo meu irmão.

 

E por fim, a espada ficou virada de ponta-cabeça enquanto Lilith a segurava o cabo com as duas mãos:

 

— E esta, seu Filho da Puta, é pelo MEU FILHOOO!!!

 

Azazel terminou com uma espada cravada em seu crânio, que rachou em três partes por causa do ódio de Lilith. Hipnos assistiu aquela carnificina de camarote. E mesmo sendo contra aquilo, nada fez pra impedir. De certa forma… a vingança não leva a nada, mas traz paz àqueles que a buscam. Sua irmã merecia aquilo. A memória de seu irmão gêmeo e de seu pai merecia aquilo. O nome da família de Hades enfim foi lavada. Mesmo que tenha sido com sangue.

Mas Lilith não conseguia pensar daquela forma. Na verdade, ela não conseguia pensar em nada. Sua vingança estava concluída, mas… e agora? O que ela iria fazer agora? Pra onde ela iria? E Danyael? O que ela iria dizer para o Danyael quando voltasse a Londres?

Lilith simplesmente caiu em prantos. Sob o sangue de seu inimigo, a jovem desfazia-se em lágrimas. Ela chorava, chorava, e chorava… Lilith apenas conseguia chorar. Ajoelhada, com as mãos entrelaçadas sobre o ventre, ela suplicava por perdão ao pai daquela criança morta por não ter lhe escutado. Por não ter ficado quieta no apartamento e entendido que aquilo, não era apenas pro bem dela, e sim pelo bem da criança que ia nascer. O Inferno não era lugar pra uma grávida…

Lilith perdeu tudo e não via mais razões pra viver. Hipnos, seu único parente vivo, aproximou-se de sua pobre caçula e a abraçou. Abraçou forte desejando de alguma forma sugar aquela dor de sua irmã. Se ele pudesse, se ele tivesse o poder sobre a vida e a morte, ele traria o filho de Lilith à vida novamente. Mas isso era impossível para ele, mesmo sendo considerado um Deus. A túnica branca de Hipnos estava ensopado com as lágrimas daquela pobre mãe.

Uma voz soturna e fria foi o que os tirou daquele luto:

Lilith. Venha ver o que eu achei.

A jovem até estranhou. Ignorou, talvez. Mas depois se levantou. Viu que Azrael estava parado próximo a um enorme cortinado que ficava atrás do trono de Azazel. Lilith pensou em perguntar “o que é?”, mas ela havia chorado tanto que talvez tivesse perdido a voz momentaneamente. Suas pernas a levaram até Azrael quase involuntárias.

Abrem-se as cortinas. Atrás do trono havia um aposento. Este aposento provavelmente tinha apenas cinco metros quadrados. Por todas as paredes e teto, incluindo o chão, letras e símbolos obscuros e místicos estavam escritos e ainda brilhavam e pulsavam em rubro. O aposento estava vazio, tendo apenas uma coisa em seu centro. Uma coisa que fez Lilith quase desabar, se não fosse os braços de Hipnos para segurá-la.

Ali, dentro de um casulo feito de magia, um feto com prováveis oito meses era mantido em gestação artificial. Não havia dúvidas de quem era aquele feto. Lilith correu até o casulo e lá ficou, ajoelhada aos pés do altar onde ficava o casulo, chorando ainda mais agradecendo a todas as forças celestiais por seu filho ainda estar bem e…

Ele não está vivo.

Lilith ergueu os olhos. Era a segunda vez que Azrael lhe dizia isso.

— Então…

Um corpo não é nada sem uma alma. É apenas uma máquina biológica. É por isso que os vivos só nascem do ventre de outra criatura viva. É isso que os liga ao mundo superior e lhes dá a chance de serem vivos.

— Então por que azazel…? – questionou Lilith ainda sem entender.

Hipnos não precisou pensar muito para compreender:

— Lilith… Azazel não queria saber da alma, nem de seu filho. Ele queria o corpo dele. Com certeza ele considerava que o filho de um anjo e de um demônio seria a criatura mais poderosa do universo, e quis ter esse poder para ele.

É por isso que ele mantém esta gestação que é uma aberração e uma ofensa às leis da natureza.

— Então eu… perdi meu filho… para sempre? Não existe uma forma… Qualquer forma… Pra trazê-lo de volta à vida?!? Diga-me, Azrael! Por favor! Não me deixe sem esperanças. Não me deixe aqui mergulhada na culpa de ter trazido meu filho ao Inferno. Por favor, Azrael, diga que existe uma forma de trazer meu filho de volta à vida.

Azrael então ficou calado. Mesmo com Lilith suplicando aos seus joelhos por uma alternativa, ele por não responder. Não de imediato. Ele precisava analisar bem aquele feto que ali estava sendo gerado e pensar em todas as possibilidades. Em todas as alternativas. No que poderia ser feito. Mas, tal como ele suspeitava, todas as alternativas levavam a um único dilema:

— Lilith, existe sim uma alternativa.

— Qual?!?

Mas infelizmente, essa alternativa irá lhe cobrar um preço muito alto.

— Eu pago qualquer coisa. Eu faço qualquer coisa. Eu não me importo mais com nada. Apenas quero ter meu filho de volta ao meu ventre, de onde ele nunca deveria ter saído!!! Diga-me, Azrael. Que preço é esse no qual eu devo pagar?!?

— Você terá que fazer uma troca equivalente. Pra ter eu filho de volta. Pra fazê-lo nascer normal e saudável, você terá que trocar a  sua vida pela dele.

 

 

To be continued…