Episódio NÃO revisado.
Londres de Trevas
:: Terceira Temporada ::
Episódio LII
Existência
[Soundtrack: Crypts – Vampire Bloodlines Soundtrack]
Domingo, 25 de Junho de 2028. 01h30min.
Mansão Nottingham.
Londres – Inglaterra.
Um lobo uivava ao longe. Neblinas espessas cobriam a noite ocultando o luar. Uma forte tempestade ameaçava cair. No ventre pútrido das trevas o embrião do mal renascia. Sua presença alterava a realidade. Suas intenções eram palpáveis. A vida tornava-se sua escrava. A mansão, a manjedoura infernal, pulsava a ressonância do medo e da desgraça. Ser vivo nenhum tentava se aproximar do lugar.
Cada planta ou vegetal, num raio de quilômetros, foi transformada em versões macabras e malévolas. Árvores secaram e formas horrendas tomaram. A vegetação estéril e mortificada, aos campos tornava-se atroz. Nem os animais saiam ilesos. Algo os dominou. Adentrou em seus corpos, carne, sangue e ossos, como um vírus diabólico e os fez liberar o que havia de mais bestial e selvagem em suas naturezas. Ratos tornaram-se monstruosos. Gatos causavam horror. Cachorros lembravam Cães do Inferno. Nem insetos foram poupados. Tudo aos poucos foi se tornando insanamente maligno. Um câncer no âmago da terra. Se para entrar no Inferno abandona-se toda a Esperança, para seguir adiante na Mansão Nottingham deve-se hoje abandonar toda a bondade e suas virtudes.
Aposentos escuros, abandonados e fétidos percorriam os quatro cantos da mansão. Monstros vagavam errantes pelos corredores. Seres das trevas, conjurados pelo poder malévolo supremo, esperavam pela chance de sair em busca de suas vítimas. No trajeto, marcas combate revelavam os indícios da última pessoa viva que andou por ali. Nas paredes, cortes precisos feitos por uma lâmina afiada. No chão, cadáveres moribundos de criaturas abomináveis. No fim, uma porta arrombada revelava um salão escuro e de mau agouro.
Mark Nottingham, o verdadeiro Escolhido da Dark Sword. Que a quarenta e nove anos atrás perdeu sua alma e se tornou um errante no Inferno, agora retornou possuindo o corpo de Sebastian West, o atual Escolhido, tornado-se assim detentor da poderosa espada das trevas.
Desde que abriu um portal dimensional pra o Limbo e enviou o Portador da Light Sword para lá, Mark ficou num estado de concentração plena aguardando a chegada do momento de começar pra começar a agir. E isso não tardou para acontecer. A cada momento em que seu corpo e mente iam se adaptando aos poderes divinos da Dark Sword, seus sentidos sensoriais iam cada vez mais longe. Foi nesse momento que Mark descobriu algo que lhe chamou a atenção.
*****
Rodovia M20. 01h35min.
Alguns quilômetros de distancia, na interestadual que ligava Londres às cidades costeiras, dois carros fugiam desesperadamente da cidade. No primeiro carro estava Derek e Stephanie. Derek seguia no volante e Stephanie ainda estava desacordada no banco de passageiros. Logo atrás dele estava Dan Viper. Há pouco tempo, o mercenário descobriu que tinha ligações no passado com Derek. Ele era na verdade a reencarnação de um falecido colega de cabala do Grão-Mestre e, por sua vez, também foi um dia colega de Mark Nottingham. Viper desconfiava que Derek não apenas sabia da ascensão de Mark do mundo dos mortos como também tinha algo planejado para quando esse dia chegasse. Ele só não esperava que “fugir” fosse a solução.
Derek obviamente já tinha percebido desde Londres que estava sendo perseguido. Mas ele não se importava. Tinha que sair da cidade o quanto antes. Antes que Ele o encontra-se. Antes que fosse tarde demais para todos. A mulher desacordada ao seu lado carregava no ventre um filho seu. Diante de um problema desses, qual era a significância de um ex-colega estar lhe seguindo pela estrada?
O Grão-Mestre já estava vendo a placa que indicava a saída dos limites urbanos. Em poucos segundos, o carro de Derek pegaria o anel rodoviário, e nunca mais voltaria a Londres. Foi quando o volante virou pra direita e pegou o sentido litoral que de repente o mundo de Derek virou de cabeça para baixo. O carro foi, por uma força totalmente sobrenatural, arremessado no ar e girou várias e várias vezes até atingir o solo. Capotou mais uma dúzia de vezes até no fim explodir num cogumelo de fogo. Dan Viper viu tudo e o máximo que pode fazer foi frear seu carro antes que fosse atingido.
Viper saiu imediatamente de seu carro desesperado. Teria Derek e Stephanie morrido?! Eles foram pegos de surpresa, não tinha como escapar! O anel rodoviário da M20 era, em dias comuns, absurdamente movimentado tanto nas duas vias expressas onde aconteceu o acidente, quanto nos viadutos que passavam por cima dele. Mas não era o caso naquela hora. Misteriosamente Viper percebeu que a M20 estava absurdamente vazia, onde apenas o seu carro e a fumaça do carro de Derek eram os sinais de vida humana naquele lugar. O mercenário buscou sua arma no porta-luvas. A pesada Magnum .44 já estava engatilhada. Foi colocá-la na cintura pra ele sair do carro.
Ele percorreu a pé até o local do acidente. Ninguém estava próximo. Nenhum carro passava no local. Aquilo perturbava Dan Viper. No fundo da clareira, onde ficavam algumas árvores e arbustos entre as rodovias, uma enorme fumaça se erguia aos céus. Dan ainda se aproximou mais. “Afinal, ela era uma Anjo! Poderia ter sobrevivido!”. Mas antes que começasse a descer pelo barranco, seu sexto sentido o alertou, fazendo-o virar imediatamente para trás com a Magnum em punhos.
Mas diante daquela pessoa, Dan Viper nada fez. Mesmo sendo considerado um homem bastante frio e calculista, o mercenário sentiu algo que nos últimos dias o perseguia: Medo. Lá estava ele diante da última pessoa que ele gostaria de ver na Terra: Mark Nottingham. E o pior: empunhando a Dark Sword.
Da mesma forma que “Dan Viper” não passava de um receptáculo para o espírito reencarnado de Xavier (vulgo Anjo Abdiel), Viper percebia perfeitamente que aquele diante dele não era Sebastian West. Mark havia tomado seu corpo. Provavelmente, a essa altura, Sebastian deixou de existir completamente.
Os dois ficaram eternos segundos parados diante um do outro. Viper imaginava qual seria as reais intenções daquele menino para com ele. Mas ele tinha suas certezas de que dificilmente essas intenções fossem iguais ou piores do que as com Derek. Mark não tinha nada contra Xavier. Provavelmente não teria nada contra Dan Viper. Mas será que as coisas continuavam assim? Será que sua temporada no Inferno não mudou alguma coisa? Dan Viper sabia de uma coisa perturbadora: Um ano no Inferno equivalia a 100 anos na Terra, aproximadamente. Então, era certo que, pelos seus cálculos, Mark viveu no Inferno por, aproximadamente, 4900 anos. E esse tempo, com certeza, poderia mudar a personalidade de uma pessoa.
— Mark? – arriscou.
Mas ele não respondeu. Não diretamente. Apenas um sorriso discreto lhe foi retribuído. O Portador da Dark Sword caminhou em direção ao carro em chamas sem se importar com a presença de Dan Viper. Chegou até a beirada, observando tudo com uma contemplação quase mórbida. Em seguida, com apenas o movimento de uma das mãos, jogou o carro longe. Viper imediatamente se apavorou. “Será que a raiva de Mark com Derek era sem limites?”. Mas tal foi a surpresa do mercenário ao ver que, de baixo dos escombros do carro em chamas havia uma barreira de proteção ao redor de um casal bastante ferido.
Derek deixou claro que não era tão fácil matá-lo assim. Stephanie a essa altura já estava acordada e completamente apavorada. Mas antes que qualquer um deles pudesse fazer ou dizer alguma coisa, instantaneamente Mark os teleportou para longe dali. A Mansão Nottingham seria o melhor local para velhos reencontros.
*****
Mansão Nottingham. 01h40min.
Os passos do visitante pararam assim que chegaram às fronteiras que separavam o Mundo Vivo do Mundo das Trevas criado por Mark. Seus olhos azuis contemplaram com bastante seriedade o lugar. Aquele homem aparentava estar na casa dos trinta anos. Cabelos bem castanhos, curtos e indisciplinados. Poucas pessoas sabem de sua existência. E dentre essas pessoas, raríssimas são aquelas que realmente sabem quais são as suas atribuições. Ele é um Anjo Trono. Patrono da Cidade de Londres. Ele é Ieiael.
Desde que esta cidade dos homens foi colonizada pelo cristianismo, a prerrogativa de Ieiael era zelar pela mesma, incluindo seus habitantes. Ser Patrono era mais do que ser um Anjo da Guarda. Era ter os direitos e deveres que teria um prefeito, porém, sem alterar o fluxo da evolução natural das cidades. Ele podia ser totalmente onisciente e onipresente quando quisesse em Londres, porém não poderia interferir, pro exemplo, em sua política sobrenatural. Para isso havia o embaixador da Cidade de Prata no Arcanorum, seu irmão: Redael.
Mas este era um caso à parte. Tal como foi há 25 anos, quando Voormas invadiu Londres, a cidade novamente se encontrava diante de um perigo real e iminente. Agora era necessária uma interferência mais direta do Patrono Celestial. O anjo estava ciente dos fatos. Sabia que seu confronto contra o Portador da Dark Sword era de enorme desvantagem. Porém Ieiael tinha um plano. O anjo conhecia cada filho desta cidade como se fossem seus próprios filhos. Então, se ele estiver certo, ainda poderia haver uma luz de esperança nesta noite caliginosa.
Ieiael se preparou para avançar. Mas antes que seu pé direito seguisse em frente, uma voz o parou:
— Espere! Não faça isso, Ieiael!
O anjo olhou para trás. Como foi dito antes, o anjo conhecia cada pessoa, cada ser vivo, que nasceu em Londres. Aquele homem ele desconhecia. Era um forasteiro. Mas mesmo assim, ele morou por muitos anos na cidade pra que a memória de Ieiael o reconhecesse:
— Matthew Ferris. – e ele não estava sozinho. Ao seu lado estava uma jovem, esta sim “filha de Ieiael”: — E Keira Nanami Parker.
— Não. – respondeu Keira. – É: “Keira Parker Donovani”. Já sou casada!
— Mas não no religioso. – respondeu o anjo sério. Dando meia volta pra trás, Ieiael mostrou-se curioso em ver os recém-chegados. – Eu pensei que vocês estivessem mortos.
— Hehe! – sorriu Matthew. – Acho que “os rumores sobre nossa morte foram largamente exagerados”!
— “Mark Twain”, escritor estadunidense.
— Não. “Steve Jobs”, presidente da Apple!
— Por que vocês pedem pra que eu não siga em frente?
Keira foi a primeira a responder:
— Você não terá a menor chance contra os poderes da Dark Sword. E nós, falo em nome de todos que vivem nesta cidade, precisamos que você continue vivo!
— Eu entendo a preocupação de vocês, meus jovens. Mas infelizmente isto aqui faz parte de minhas atribuições como Patrono. Devo seguir em frente.
— Mas não precisa se preocupar! As coisas logo serão resolvidas!
— Como assim?!
Desta vez Matthew fez questão em entregar a noticia:
— O lorão já está lá dentro!
Ieiael ainda precisou de alguns segundos pra ligar o nome à pessoa.
— Danyael Kimble está lá? Mas ele…
— Como eu disse antes, brother: “Os rumores foram largamente exagerados!!”
Ieiael imediatamente voltou os olhos para a mansão. Naquele momento, o antigo Anjo Trono fez algo o qual sabia muito bem fazer: ter Fé!
*****
Derek, Stephanie e Dan Viper foram jogados no chão assim que chegaram do teleporte. Temeroso com a situação e bastante preocupado com a situação de Stephanie, Derek correu até Mark pra implorar um favor:
— Eu sei o que fiz a você. Eu sei que não mereço qualquer tipo de perdão ou misericórdia… mas por favor Mark… Stephanie está grávida, ela não tem nada haver com essa história… por favor, Mark… deixe-a ir! Eu irei ficar!
Mark, que até então estava apenas de pé de costas para o grupo, girou os calcanhares e olhou, na mesma altura, os olhos de Derek. Stephanie que estava sendo ajudada por Dan Viper a se levantar, assim que viu aquele rosto conhecido não conteve seu espanto:
— SEBASTIAN!!!
Ao escutar aquele nome, Mark, num olhar quase inorgânico, focou sua atenção naquela bela jovem. Há quantos anos ele não via uma bela mulher? Ignorando a presença de Derek, Mark foi até onde Stephanie estava. Dan Viper rapidamente se interpôs para impedi-lo, mas com um único movimento da mão, o mercenário foi jogado por uma força sobrenatural até o outro lado do salão.
— S-Sebastian… - Stephanie estava sem entender nada. Ela via o rosto de seu velho amigo, porém não era ele que estava ali. Havia algo de maligno nele. Derek o chamou de “Mark”. O que raios estaria acontecendo ali?!?
Derek, que observava tudo de perto, estava pronto pra explodir:
— MAAARRRK!!! O SEU PROBLEMA É COMIGO!!! DEIXE-A EM PAZ!!!
A explosão de raiva de Derek fez com que o salão inteiro tremesse com a ressonância dos poderes do Grão-Mestre da magia. Mark levantou um sorriso no canto do lábio. Para ele tudo aquilo era mais do que perfeito. Num pequeno movimento dos olhos… O Tempo completamente paralisado… O movimento feroz de Mark na direção de Derek… A Realidade volta ao normal e Derek estava preso sob o domínio dos poderes de Mark. Qualquer movimento agora, por menor que fosse, Derek seria completamente estripado.
— Quarenta e nove anos atrás… Cinco mil no Inferno, você me enganou. Levou-me até o Inferno e lá, inventou um seqüestro para que nós fossemos atrás de você. Tivemos que cruzar quase todos os Círculos. Passar por cada compartimento. Enfrentar demônios, dragões e anjos caídos. Pra no final… tudo ser uma armação sua com Azazel.
— Argh… M-mas v-você… Você ficou com ele… E-Eu não te o-obriguei a n-nada! V-você perdeu su-sua alma… sozinho! V-você matou a-a sua mãe! Você é que cometeu o Pecado!
— CALE-SE!!!
— A-agora n-não quer… argh… escutarrr a verd-verdade? Eu posso sssim… argh… ter te in-duzido ao pecado… te levado ao Inferno… M-mas você… Você tinha o direito… V-você tinha a o-opção… de NÃO... aaargh… de não pecar! Você tinha o Livre-Arbítrio!!!
[Soundtrack: Misere Mani – Era]
O ódio de Mark havia chegado ao seu limite. A explosão repentina da ressonância caótica e corruptora do Portador da Dark Sword foi tão grande que do lado de fora, Ieiael, Matthew e Keira viram a mansão desaparecer numa densa neblina negra por alguns instantes. Mas foi também nesse momento, quando as trevas cobriram tudo, que Mark sentiu uma estranha presença.
Largando Derek imediatamente, Mark olhou para trás. Depois olhou ao seu redor. Entretanto, a única luz divina remanescente naquele recinto provinha da aura angelical de Stephanie. Mark talvez tenha se enganado…
Sua atenção voltou imediatamente para Derek. Mas ao girar os calcanhares, a única coisa que viu diante dele foi um crucifixo prata por trás da gola de uma blusa listrada azul. Mark levantou os olhos e estes se encontraram estupefatos com outro par de olhos azuis.
O Portador da Light Sword estava de volta!
— BENÇÃO!!!
Pegando Mark desprevenido, Danyael lançou à queima-roupa seu Poder Angelical. Banhado pela luz divina, Mark sentiu toda sua pele queimar, e por milésimos de segundos, um instante que lhe pareceu eterno, uma voz longínqua escapou de suas cordas vocais. E essa voz, não era a dele!
Danyael havia percebido isso. E tinha bem claro o que deveria fazer agora:
— BENÇÃO!!!
Mais uma vez o corpo de Mark ateou fogo, mas ainda não o derrubou.
— BENÇÃO!!!
Aquele não podia ser “apenas” os poderes de Danyael. Mark tinha certeza que aquilo era coisa da Light Sword. Nada poderia feri-lo dessa forma!
— BENÇÃO!!!
Os gritos de Mark eram guturais e lembravam os gritos dos demônios do Inferno. E Danyael continuou:
— BENÇÃO!!!
Quando Mark ficou a mais de dois metros de distancia, Danyael deixou de usar as mãos para buscar sua espada e, com o poder dela, triplicar a sua força:
— BENÇÃO!!!
Um gigantesco brilho dourado banhou toda a mansão. Do lado de fora, aqueles que aguardavam, viram todo o terceiro andar resplandecer como se uma estrela tivesse entrado em Nova lá dentro. Graças ao poder da Luz, a barreira impenetrável ao redor da mansão foi destruída. Agora Ieiael, acompanhado por Matthew e Keira, puderam entrar.
Enquanto isso, Derek, Stephanie e Dan Viper, que só agora conseguiram abrir seus olhos, testemunharam algo inacreditavelmente sobrenatural. No centro do salão, urrando de dor, Mark e Sebastian duelavam pelo mesmo corpo. Banhados por uma luz dourada, os dois dividiam a mesma perna, porém seus troncos estavam separados na forma de “Y”. Entretanto, numa análise mais apurada, não era algo físico. Stephanie percebeu que, o lado que aparentava ser Mark Nottingham lembrava muito as escamas trocadas de uma cobra. Uma versão espectral e bizarra que refletia a própria imagem de Sebastian, só que velha e desgastada.
E era nessa situação conflitante que morava o desespero. Até Danyael não sabia como agir agora. O anjo tinha um plano. Antes de se despedir do futuro alternativo de 2053, Danyael teve uma longa conversa com seus amigos e familiares, sobre “como iria enfrentar Mark e a Dark Sword”. Ficou claro entre eles que um combate direto era totalmente descartado. Tanto em Oxford como no futuro alternativo ficou claro que um duelo entre as duas espadas não levava a nada, a não ser a morte de vidas inocentes. Foi então, acreditando em seus instintos, que Danyael encontrou uma possível solução: “Salvar Sebastian”.
Sebastian West era o verdadeiro Escolhido da atualidade, e não Mark. E Danyael tinha todas as suas apostas na bondade e na ética de seu parceiro de destino. Ele tinha a sua certeza de que, Mark não passava de um demônio invasor que tomou conta do corpo de Sebastian. Então, a único jeito de salvá-lo era exorcizá-lo.
Mas agora que ele conseguiu provar a sua teoria, como ele ia conseguir definitivamente tirar o fantasma de Mark do corpo de Sebastian? O pior disso tudo era ver o desespero de Sebastian para se livrar seu lado demoníaco.
— Alguém me ajude!!! Socorro!!! Danyael!!! Por favor… Me ajuda!!!
Estavam todos paralisados sem saber o que fazer. Mark estava aos poucos se recuperando. Os efeitos do atordoamento da benção da Light Sword iam sumindo pouco a pouco. Quando Mark finalmente recuperou os sentidos, ele segurou firme o cabo da Dark Sword que estava na sua mão e ergueu-se com tudo pra cima de Sebastian.
Foi então que Danyael arriscou seu ultimo palpite:
— SEBASTIAN! PEGUE!!!
Num ato espantoso, Danyael jogou sua espada para Sebastian e este, milagrosamente, conseguiu firme o cabo da Light Sword. Nos segundos que se sucederam as duas espadas novamente se chocaram. A força divina gerada pelo encontro foi tal que conseguiu separar Sebastian e Mark em duas pessoas distintas. Quando Sebastian analisou a situação, lá estava ele vestindo uma armadura e empunhando a Light Sword como se ele fosse o Portador da espada, e não Danyael. Do outro lado estava Mark.
Agora ficara evidente a identidade do garoto. Ao invés de ser uma copia bizarra de Sebastian, ele era ele mesmo, com a idade entre 25 a 30 anos. Seus cabelos castanhos iam até a altura de seus ombros, cheios e indisciplinados. Olhos azuis cheios de maldade encaravam todos que estavam naquele salão. Ele estava disposto a ir até o fim!
Sebastian, agora empunhando a única arma capaz de deter Mark, deu um passo a frente pronto pra enfrentá-lo. Danyael o impediu.
— Danyael?!?
— Não vá. Não entre em combate com ele.
— Eu sei que a espada é sua, eu irei lhe devolver, mas deixe eu acabar com a raça desse filho da puta!
— Não precisamos disso. – respondeu Danyael sério e taciturno. – Ele já está derrotado.
Ao escutar isso Mark explodiu de ódio:
— COMO ASSIM?!? Eu sou o Escolhido! Eu tenho a Dark Sword! A não ser que venha me enfrentar com a Light, nada e ninguém irá me impedir de trazer as Trevas para esse mundo!!!
— Você está errado em uma coisa, Mark. – replicou Danyael. – Você não é o Escolhido.
— O QUE?!? Hahahaha!!! O Limbo afetou seu juízo, Danyael?!? Eu tenho aqui em minhas mãos a Dark Sword. E somente o ESCOLHIDO pode tê-la em mãos!
— Isso você está certo. Somente o Escolhido.
Sem mostrar qualquer agressividade, Danyael apenas esticou sua mão direita em direção a Mark. No mesmo instante a Dark Sword desapareceu das mãos de Mark e surgiu reluzente nas mãos de Danyael. O anjo ficou ao lado de Sebastian e juntos cravaram as duas espadas no chão deixando claro “a quem pertencia” as espadas.
— MAS O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!?
— Não está enxergando direito, Mark? As espadas estão nas mãos de seus verdadeiros Portadores. E, como eu presumia, independente de eu ser o Escolhido da Light Sword, isso não impede de também ser o portador da Dark. O mesmo vale para Sebastian.
— O que…
— A Luz e as Trevas sempre caminham juntas. Uma não existe sem a outra. E nós, os Escolhidos, não viemos ao mundo para duelar. E sim pra Equilibrar. E agora que eu tenho em minhas mãos a Dark Sword posso ver claramente. Esta espada não é a personificação do Mal. Quem a possui não tem que obrigatoriamente se tornar um Ser maligno. A prova disso é o próprio Sebastian, que nos últimos meses usou os poderes da espada para ajudar seus amigos e lutar contra os inimigos. Agora eu entendo o que Metraton disse para mim anos atrás. Nosso destino não é lutar. É trazer a Ordem, a Paz e a Esperança pro nosso mundo!
— BOBAGEM! TUDO ISSO É UMA BESTEIRA!!! EU SOU O ESCOLHIDO! EU NASCI PRA SER O PORTADOR DA DARK SWORD!
— Mas você morreu.
— Como é?
— Mark… Você não está vivo. A prova disso é que Sebastian é a sua reencarnação nos tempos atuais.
— Você está querendo…
— Eu não estou querendo nada, a não ser te mostrar a verdade. Você não passa de uma “Forma-Pensamento” que se manteve consistente por duas únicas razões: Você ter morrido no Inferno, um lugar onde a Forma-Pensamento tem mais força e Azazel, um poderoso Anjo-Caído, ter lhe alimentado por todos esses anos. O verdadeiro Mark está enterrado ao lado de sua mãe num tumulo atrás desta mansão.
Aquelas palavras foram como uma bala na testa de Mark. Ele não queria acreditar, mas havia sentido nas palavras de Danyael. Se sua alma havia reencarnado nesta época como Sebastian West, então como ele poderia existir? Derek, agora recuperado de seus ferimentos, aproximou-se do trio com uma explicação ainda mais clara para Mark, afinal ele era o mais envolvido nessa história toda.
— Como eu não percebi isso antes? Acho que era por causa do Medo que você causava em mim todas as noites que não me faziam enxergar essa verdade.
— Derek… - sibilou venenosamente Mark. – Você estava lá! Você presenciou tudo! Você sabe que eu não estou morto!
— Pelo contrário, Mark. Por justamente ser o último que restou daquela cabala de 1979, eu sei que você está morto. Por um acaso você se esqueceu como eu derrotei Malfas, o demônio de Classe 5? Eu sei que eu não presto. Que naquela época eu havia feito um trato tanto com Malfas quanto com Azazel. Fiz um empréstimo com um Inferno pra pagar outro. E foi exatamente nessa transação que eu havia conseguido debitar Malfas. Aquele demônio queria tanto a Dark Sword que ele achava que se possuísse a sua alma ele se tornaria o Portador da espada. Tal foi a surpresa dele ao encontrar uma casca vazia que era o seu corpo.
“O que eu não parei pra pensar é justamente nisso que Danyael falou. Quando você matou sua mãe, conseqüentemente destruiu a sua própria alma, você apenas se manteve vivo por no Inferno isso é possível. Fantasmas são reais lá! Tal como Formas-Pensamento. E tudo isso era apenas parte do plano de Azazel. Ele sabia desde o inicio o que você era. Mas sabia também que você seria capaz, mais do que qualquer um no universo, influenciar e possuir a mente de Sebastian. É claro. A alma dele não iria se opor à antiga imagem dela. Seria o mesmo que dar um soco no espelho.”
Mark estava ofegante. Isso se ele realmente respirava. Ele sabia que não era humano. Que aquele corpo era apenas um avatar de suas emoções. Mas era justamente isso que o fazia manter-se vivo. Quanto mais emoções ele sentia, mais força ele tinha para se manter de pé.
— NÃO!!! NÃÃÃOOO!!! VOCÊ ESTÁ ERRADO!!! VOCÊS ESTÃO TODOS ERRADOS!!! EU… MARK NOTTINGHAM… ESTOU… VIVOOOO!!! EU PENSO, ENTÃO LOGO EU EXISTO!!!
Ainda tão sensato e parcimonioso, Danyael respondeu os gritos de Mark sem levantar a voz:
— Existência esta baseada numa mentira. Acabou Mark. Largue-se desse sentimento que só lhe faz mal e descanse em paz.
— NÃO!!!
Mark podia não ter mais a Dark Sword, mas ainda era tão perigoso. Ele tinha conhecimentos vastos de magia negra e esse era o momento para ele buscar uma saída. E não precisou pensar muito para achá-la.
Desaparecendo diante de todos como um fantasma, Mark reapareceu em outro ponto do salão, bem atrás de Stephanie, tomando a jovem como refém:
— AAAHHH!!! – gritou Stephanie. Enquanto à imobilizava como uma mão, Mark tinha a outra sobre o ventre da anjo. Imediatamente todos ficaram desesperados:
— STEPHANIE!!! – exclamou Danyael. – SOLTE-A, MARK!!!
— O que você irá fazer? O que vocês irão fazer? Se tentarem me atacar irão feri-la. Se não me atacarem, eu irei feri-la. E agora? O que irão fazer? He-he-he… - o sorriso maldoso e sarcástico de Mark encheu o peito de todos de raiva, principalmente de Derek que sabia exatamente o que ele pretendia.
— Eu posso ser apenas um eco do que um dia foi Mark Nottingham. Mas este eco irá vencer a voz. E minha vitória está aqui dentro. Afinal de contas, a Senhora Johannes aqui está grávida, não? He-he-he… O milagre da vida! Uma pequena existência brotando no ventre desta mulher. He-he-he. O que mais eu poderia querer?
— Mark… - rosnou Sebastian. – Não ouse tentar fazer qualquer mal a ela se não…
— Se não o que, meu Eu-reencarnado? Vai me atacar com a Light Sword? Vamos! Ataque! E lave essa belíssima lâmina dourada com o sangue desta brotinho que você, cá entre nós dois, sempre… foi… apaixonado!
— Maldito…
— Sabia que você era um covarde. Bom… no final das contas, acabaremos nos tornando parentes, não é, Tio Dany?
A mão de Mark começou a brilhar. Stephanie tentava com todas as suas forças reagir, mas o rapaz era mais de longe mais forte que ela. Danyael segurou forte o cabo da Dark Sword. Sebastian fez o mesmo. Dan Viper praguejava por estar desarmado. E Derek…
A mágica de Mark parou repentinamente. Não apenas isso. Seu corpo imediatamente começou a ficar mais fraco dando brecha para que Stephanie largasse dele e corresse para junto de Danyael. Mark olhava para todos incrédulo. “O que estava acontecendo?”. Olhando para sua própria mão, esta começou a se desintegrar como um castelo de areia soprado pelo vento. Todo seu corpo foi desaparecendo.
No final, Mark deixou de existir…
Todos ficaram atônitos com que acabaram de ver, mas só depois perceberam a real situação. Caindo de joelhos no chão vomitando um litro de sangue, Derek estava com a mão direita sobre o peito. Por baixo de sua mão, um círculo místico estava gravado em sua pele em feridas profundas. Derek havia se suicidado.
Stephanie foi rapidamente acudir o namorado.
— DEEEEREEEEEK!!!! NÃÃÃÃÃÃOOO!!!!
Todos se juntaram ao redor do Grão-Mestre sem entender o que tinha acontecido. Por que ele havia feito aquilo. Danyael ponderou um pouco e logo chegou a uma explicação:
— Ele fez isso pra acabar de vez com Mark.
— Como assim? – questionou Sebastian.
— Lembra que eu falei que Mark não passava de uma “Forma-Pensamento”? Então. Pra que uma Forma-Pensamento exista ela precisa se ancorar nas lembranças e nos desejos de uma ser humano. Neste mundo, haviam apenas duas pessoas que se lembravam que um dia existiu um garoto chamado “Mark Nottingham”: Azazel e Derek. Mesmo Dan Viper sendo a reencarnação de um dos amigos deles, não serve como ancora. Ele tem sua própria vida agora, assim como você Sebastian.
— Mas então… Se Mark deixou de existir é porque…
— As duas âncoras dele acabaram de morrer. Eu não sei como, mas isto talvez prove que Azazel esteja morto.
[Sountrack: Tears of The Dragon – Bruce Dickinson]
Deitado no leito da morte, Derek ainda estava preso à vida por um fiasco de força de vontade. Sobre os braços de sua amada Stephanie, ele pode dizer suas últimas palavras:
— Eu nunca pude ter a chance de me redimir pelo que fiz no passado…
Aos prantos, Stephanie negava-se que seu amado estava morrendo.
— Não… Não, Derek… Não fale… você não vai morrer…
— Minha princesa… É chegada a minha hora. Não chore. Eu… Eu estou muito feliz… por ter sido… desta forma.
— Não me abandone, Derek. Por favor… eu não conseguirei viver sem você!
— E-eu… que-ria… - Falar estava se tornando impossível… — ver… meu filho… - Seus olhos abandonavam o brilho… - …scer… Então… e-este é… o fim… da história… He! – Apenas um sorriso… - Que vontade… de beber… - E a despedida… - Sstephy… eu… sempre… irei… te… am*
— DEREK, NÃÃÃOOO!!!
[]
*****
Residência de Danyael Kimble. 05h00min.
Depois de tudo, voltar pra casa estava parecendo inacreditável. Danyael assim que entrou em casa, apenas fechou a porta e sentou em sua poltrona na sala. A morte de Derek havia deixado-o abalado. Era a segunda vez que via o cunhado morrer sacrificando-se em prol de um bem maior. Danyael sentia-se incapaz de pensar à respeito.
Sair da mansão também não fora uma tarefa fácil. Além de ajudar a levar o corpo de Derek até a casa de seu padrinho Eriol, onde ele está sendo velado, Danyael precisou, junto com Sebastian, colocar toda aquela região de volta à normalidade. Claro que era impossível trazer a vida das plantas, animais e pessoas que foram contaminados pelo poder das trevas, mas pelo menos a região onde fica a Mansão Nottingham não era mais um local de morte e desgraça. Mas o que mais espantou Danyael, além da morte de seu cunhado, foi o que veio depois disso.
Assim que Sebastian e ele trocaram as espadas, Ieiael veio até o anjo cumprimentá-lo por seu sucesso. Mais do que isso, veio lhe trazendo um recado diretamente dos céus: Que das 7 Missões de Danyael pra se tornar Arcanjo, ele havia completado mais duas!
Alguns meses atrás Danyael descobriu que as missões que Redael lhe entregavam testavam exatamente suas virtudes cardeais. A primeira delas em Liverpool foi fazer Justiça. Em seguida, na Fazenda do Sr. Contente, ele descobriu que uma das coisas que precisava mudar em sua personalidade era a falta de Temperança, ou serenidade, com a forma que lidava com os problemas. Agora, Ieiael lhe diz que mais duas virtudes foram provadas.
No futuro alternativo de 2053 Danyael conseguiu plantar algo que a muitos anos não existia naquela época: a Esperança. Ele não apenas demonstrou verdadeiramente ter esperança, como contagiou a todos com esse sentimento. Isso, para os Céus, foi uma prova inegável de sucesso. E agora, com seu retorno, mais uma virtude foi conquistada.
A Prudência foi a arma de Danyael contra os terríveis poderes de Mark. Por ter colocado a sabedoria e o comedimento acima das atitudes impulsivas e irrefletidas, Danyael mostrou-se incrivelmente pudente, mantendo seus princípios e evitando riscos desnecessários. Então, agora em sua jornada restavam apenas mais três virtudes à serem conquistadas. Assim que entregou o recado, Ieiael desejou boa sorte ao jovem anjo e seguiu seu rumo, onde voltaria ao seu trabalho como Patrono da cidade de Londres.
Então, depois disso tudo, Danyael voltou pra casa. Voltou pensativo e preocupado, principalmente com Lilith. Ao que tudo indicava, ela ainda não voltara do Inferno. Pior de tudo que ele tava com um péssimo pressentimento com relação aquilo. Não era pra ela ter ido pro Inferno. Não no estado em que está! Mas fazer o que agora? O jeito era esperar, afinal com certeza ela não iria demorar. Se demorasse, Andrew iria nascer lá embaixo por causa da diferença temporal entre a Terra e o Inferno. Mas, apesar de tudo o jeito era esperar…
Foi num estado de sono acordado, naqueles momentos onde a pessoa está pensando e ao mesmo tempo está cochilando, que Danyael tomou um baita susto acordando imediatamente. Em seu rápido cochilo, Danyael se lembrou do sacolejo violento que levou dentro daquela pickup em 2053. Agora acordado, Danyael ficou pensando no que passou naquele futuro alternativo. Mais precisamente, ele ficou se lembrando da explicação de Derek sobre a história daquele mundo.
— Derek… - pensou em voz alta. – Certas coisas nunca mudam…
Foi com base nesse pensamento que Danyael se lembrou da morte de Derek em 2053. E logo em seguida recordou da morte dele hoje. As lembranças daquele futuro lhe perturbaram novamente:
“— Pode dizer, Tia. Ele precisa saber.
Danyael olhou intrigado para os dois. Andrew o olhava de vez em quando pelo retrovisor e seus olhos demonstravam um verdadeiro misto de emoções. Respirando fundo, Stephanie respondeu:
— Ela morreu no parto do Andrew.”
Uma gota de suor frio rasgou-lhe a face. De repente tudo havia ficado negro diante de seus olhos pra depois voltar ao normal com profunda clareza. Danyael estava afundado naquela poltrona. O medo o havia lhe tomado por completo.
— LILITH!!!
Sua noiva havia acabado de chegar através de um portal aberto no meio da sala. E não era apenas isso. Ela estava claramente em trabalho de parto! A atitude de Danyael foi imediata. Buscou a mulher no colo e a levou correndo até a cama. Ajeitou tudo. Colocou vários travesseiros nas costas dela. Foi na cozinha buscar água quase na velocidade do som. E nesse meio tempo, os gritos e gemidos de Lilith deixavam claro que Andrew estava pra nascer. Danyael estava desesperado.
— Não está na hora! Não era pra ser assim! O que está acontecendo?!?
Com os olhos cheios de lágrimas, Lilith buscou a mão de seu amado:
— Dany… Por favor… Me perdoe… Me perdoe…
To be continued…