[Soundtrack: Vide Cor Meum – Bruno Lazzaretti & Danielle De Niese]
“Dany… Por favor… Me perdoe… Me perdoe…”
Ela segura a minha mão e eu a dela.
“Não Lilith. Não. Não me deixe. Por favor…”
Começo a sentir aquela forte dor no peito. Sinto meu coração sendo esmagado.
“É tudo culpa minha… aaaaAAAHH!!”
Meu Deus, ela está em pleno trabalho de parto. Nosso filho está prestes a nascer!
“Lilith! Lilith! Fale comigo, Lilith! Por favor, Lilith, não me deixe. Por favor… Por favor…”
Ajoelho-me à margem da cama e agarrando forte a mão de minha esposa. Choro copiosamente.
“Pelo amor de Deus, Lilith… não me deixe… não me deixe… O que será da minha vida sem você! Lilith…”
Com olhar distante e voz sofrida, ela me responde com os olhos em lágrimas:
“Dany… Meu amor…” Ela mal tem forças pra falar. “Me perdoe…”
Ela apenas diz isso. Ela só me pede perdão.
“Não há o que se desculpar, Lilith. Apenas fique comigo!”
Ainda mais dolorosamente ela responde:
“Eu não posso…” As contrações aumentam. Eu compartilho com sua dor. “E-Eu não posso… Me perdoe, Dany…”
Sua mão começa a me abandonar. Então sinto aquela fria sensação tenebrosa. A Morte se aproxima…
“LILITH!!!”
Londres de Trevas
:: Terceira Temporada ::
Episódio LIII
Até que a morte nos separe
Domingo, 25 de Junho de 2028. 06h00min.
Diário de Danyael Kimble.
A sensação que tenho é que estão me matando lentamente. Uma foice perfura meu coração, chega até minha alma, e fere o meu bem mais precioso. O que posso fazer neste momento? Pouco tempo tive pra pensar sobre esse assunto. Fiquei sabendo que minha esposa morre no parto de nosso filho no futuro alternativo de 2053. Eu pensei que quando voltasse pudesse dar um jeito, porém nunca pensei que fosse tão rápido!
A mão de Lilith recobra as forças quando as contrações aumentam. Novamente posso dialogar com ela. Mas infelizmente ela não está num estado bom para poder dialogar. As únicas palavras que ela diz são: “me perdoe”.
Afinal de contas… Perdoar o que?
Eu não quero saber se ela fez ou não algo de errado. Eu a quero viva. Eu a quero do meu lado. Quero que ela esteja comigo vendo nosso filho crescer. “Por favor, Lilith… não me abandone… Você é o meu tudo. Eu não sei viver sem você.” Suplicante, meus olhos parecem cachoeiras de lágrimas. “Você não pode morrer… não pode… por favor… por favor…” Novamente sinto um frio na espinha. O manto negro da morte aproxima-se de nosso quarto. “NÃO!” Eu não vou permitir!
Agarro minha Graça Angelical, abandonando completamente meu disfarce mortal, e nesse milésimo de segundo, quando atravesso véu para o mundo espiritual, o Tempo congela. Estou com minhas asas abertas, o manto angelical sobre meu corpo e minha pele brilha num tom dourado. Nesta forma eu encaro frente a frente o Algoz de minha esposa. O Ceifador. O Anjo da Morte.
— FIQUE LONGE DELA!!! VOCÊ NÃO VAI LEVÁ-LA!!!
Aquele anjo era completamente diferente de mim. Além de incrivelmente onipotente, sua presença sombria contrastava com sua posição de Arcanjo. Seu nome é Azrael, o Príncipe dos Anjos da Morte. Por que ele viria pessoalmente levar Lilith?!
— Danyael. Sua esposa já está morta desde o momento que trocara a própria vida pela do filho.
— O que?!?
— No Inferno, Azazel havia seqüestrado seu filho do ventre de Lilith, e assim o matou lentamente. Para que a criança nascesse saudável, ela aceitou a única saída: trocar a vida dela pela do bebê.
— Não… - então é por isso que ela me pede desculpas… é por isso que ela chora… ela acha que eu a culpo por isso. Não… Nunca! A vida dela e a de nosso filho significa mais do que isso! Novamente me ajoelho na beira da cama. Meus olhos não conseguem ficar secos por um segundo. – Azrael… por favor… não leve minha esposa… Não leve a pessoa que eu mais amo nesse mundo…
Nos prantos do leito da morte, lembranças começam a surgir. Lembranças boas. Como no dia em que juramos nosso amor um pelo outro. O dia em que no reencontramos na boate. A vez que ela me salvou do espírito obsessor. Dos incontáveis dias que ela me esperou chegar do trabalho tarde da noite. De seus telefonemas fora de hora e em momentos inconvenientes. De nossa alegria mutua em saber que teríamos um filho. Oh Meu Deus… Tudo está se tornando lembranças… Como numa triste ópera, o momento final está se aproximando. Não… Não… Por favor…
Eu levanto a Light Sword e a coloco diante de Azrael.
— EU NÃO VOU DEIXAR QUE VOCÊ A LEVE!!! Não vou… não vou…
Com sua voz mórbida e robótica, sem expressar qualquer emoção, Azrael me responde:
— Danyael. Você sabe muito bem que não estou aqui pra levar sua esposa à força.
Mal escuto suas palavras…
— Era isso que Vocês queriam desde o início… nos separar… eu não vou… - lágrimas - Eu não vou deixar… não…
— Sua esposa já está morta, Danyael. Até você sabe disso. Ela apenas está tendo seus minutos de vida pra poder dar a luz ao pequeno Andrew.
A Light Sword cai no chão. Assim como minhas esperanças vão ao chão. Seu tilintar metálico ecoa pelo apartamento. Sinto todo meu corpo fraquejar. Novamente estou na beira da cama aos prantos. De que adianta ser o Portador da arma mais poderosa do universo e não ser capaz de salvar a vida da mulher que eu amo? Eu sou um inútil. Um completo inútil. É tudo minha culpa.
Largo a inutilidade de minha Graça para trás e volto a ser o simples Danyael que também não presta para nada. A culpa começa a me corroer por dentro como ácido. Todas as minhas emoções estão sendo mutiladas. Todos os meus sonhos despedaçados e jogados ao vento. A minha vida se vai junto com minha mulher.
As contrações de Lilith chegam ao seu momento crítico…
— AAAAAHHHHHHH!!! DANY!!! VAI NASCER…!
Em meio a todo esse furacão, ainda tem o nascimento de meu filho, o qual cabe a mim fazer o parto.
— Vamos, amor… Força!
Fico posicionado entre as pernas dela esperando pelo nascimento de nosso filho. Muito sangue começa a jorrar. Instintivamente uso meus poderes angelicais para amenizar a dor, tanto dela quanto do bebê. Ele está vindo!
— Força, Lilith!!! Força!!!
Agora minha voz se mistura com os gritos de Lilith. A cabeça de Andrew já saiu quase completamente. Logo terei meu filho em minhas mãos.
— Força! Força! Força!
Meu Deus, quanto sangue!
— Falta só mais um pouco!
[Soundtrack: A Song for Sleeping – Stone Temple Pilots]
Num momento de silêncio, o choro agudo e vibrante de Andrew enche o apartamento de vida. Ele chora com força. Ele chora com saúde. Ele chora alto para que o mundo inteiro saiba que ele nasceu. Como está frio! Novamente uso meus poderes angelicais para aquecer aquele pequeno inocente. Minha aura angelical o enche de paz e sossego. Calma, bebê… Papai está aqui. O papai estará sempre aqui.
Ele é tão pequenininho. Tão frágil. Ainda está de olhinhos fechados. Cabelinhos dourados como os meus. Busco toalhas. Limpo cuidadosamente. Com alguns lençóis, ele está protegido em meus braços. A mãozinha dele segura meu dedo. Nunca pensei que fosse ficar tão feliz com breves momentos.
— Dany…
Fico ao lado de minha esposa. Com cuidado passo o pequeno Andrew para os braços de sua mãe.
— Essa é a mamãe, Andrew.
Ela chora. Mas não de tristeza. Ela está feliz. Tão feliz quanto eu. Ela passa os dedos sobre o rosto de Andrew parecendo querer memorizar cada detalhe. E nesse momento, quando o quadro de nossa família é pintado, Andrew abre os olhinhos. Devagar, o jovem Kimble vai descobrindo o novo mundo. Ele primeiro olha para Lilith.
— Este é o papai… - Lilith o mostra para mim.
Eu sei que ele acabou de nascer e que ainda não define bem seus sentimentos, mas tive certeza absoluta em vê-lo sorrir para mim. Foi então que me lembrei do homem forte e confiante o qual ele se tornará. Lembrei-me do Andrew de 2053. Do orgulho que ele me dará. Mesmo que esse Andrew possa ter uma vida diferente, em essência ele será tal como seu outro alternativo. Minha aura está sobre eles. Tento mantê-los protegidos. Guardados em meu coração para que ninguém os machucasse.
Mas foi nesse momento de felicidade que me esqueço por segundos do que está prestes a acontecer…
[Soundtrack: Letting The Cables Sleep – Bush]
— Dany… beije-me…
Ela me pede e eu obedeço de coração. Sinto seus lábios quentes encostarem-se entre os meus. Por um segundo nossas línguas se tocam. Fechamos os olhos e sentimos nossas mentes se fixar nesse contato. Esquecemos de tudo e mergulhamos um no outro. O Tempo congela para nós. O mundo inteiro pára. Apenas o nosso beijo é importante. Um momento que se torna quase eterno. O cheiro de nossos corpos gravados à ferro em nossas mentes. Esta sensação de plenitude e êxtase em nosso beijo. Nosso último beijo…
Naquele beijo reafirmamos o que sentimos um pelo outro. Naquele beijo está tudo o que fomos, somos e seremos. Com o mesmo calor do primeiro e a mesma paixão dos anos seguintes, em nosso ultimo beijo selamos nossos votos matrimoniais: Amar e respeitar, até que a morte nos separe…
O lábio de Lilith perdeu sua força. “Não…” Eu ainda tento chamá-la, mas não há resposta. “Não…” São minhas lágrimas que molham nossos lábios. “Por favor… Lilith…” No fim sinto aquele pequeno frio na ponta de sua língua. “Oh Meu Deus…” Não sinto mais a presença de sua alma. “Não…” Meu corpo começa a tremer. Não abro os olhos. Ainda tenho medo. Tenho muito medo. Isso não pode estar acontecendo…
— Lilith… Lilith… NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOO!!!
[]
*****
Diário de Eriol VonBranagh. 08h00min.
A tristeza de meu afilhado parece ter sido propagada por toda a cidade. Quem não era sensitivo, sentiu algo estranho, como se tivesse perdido algo muito importante. Mas pra quem era, compartilhou a mesma dor de Danyael. O dia ia nascer com sol, mas em respeito à sua dor, Londres amanheceu de luto. Naquele momento eu estava em meu apartamento acudindo minha outra afilhada que também havia acabado de perder seu amado consorte. Todos em minha casa sentiram a tristeza de Danyael. Tentei acalmá-los. Disse que eu mesmo iria checar o que havia acontecido.
Mas eu já sabia. Eu sempre sei. Da mesma forma que a matéria e os elementos que regem nosso mundo obedecem as minhas vontades, o Tempo e o Destino não são segredos para mim. Mas eu juro que gostaria de poder fazer algo por meus afilhados. Eles não merecem esse sofrimento.
John e Gabriela já estão à caminho de Londres. Assim que souberam da morte de Derek, Gabriela abriu dois portais astrais que ligava São Francisco até a Cidade de Prata, e da Cidade até Londres. Mas tal noticia também não foi surpresa para meus amigos. Eu os deixei informados do que iria acontecer. Claro que Gabriela foi a primeira a exigir que eu fizesse alguma coisa. Ela queria que eu de alguma forma interferisse nos destinos de seus filhos. É claro, ela é mãe. Não quer ver seus filhos sofrendo.
Infelizmente, tive que deixar claro que não podia fazer nada. Principalmente por que o Futuro não é algo certo e imutável. As decisões dos seres humanos, seus livre-arbítrio, tornavam o futuro algo completamente mutável, sujeito a diversas vertentes. Foi de decisão de Lilith em ir para Inferno ajudar sua família que resultou esse trágico final.
E, ao chegar ao apartamento de Danyael, tive uma tarefa nada fácil. Retirá-lo dos braços de sua falecida mulher e convencê-lo de que esta estava morta foi um trabalho árduo e sofrido. Ao mesmo tempo, meu afilhado não queria largar o pequeno Andrew em hipótese nenhuma. Em constante, Danyael mantinha sua aura angelical sobre a criança. Aquela aura, ao meu ver, dava calor e saúde ao pequeno Andrew, porém, consumia bastante o vigor de Danyael.
Sem condições físicas e emocionais de tomar qualquer decisão, eu assumo todas as obrigações pendentes da casa. Primeiro era necessário levar o corpo de Lilith para o velório. Em seguida, mesmo sendo o pai da criança, Danyael não podia cuidar sozinho de seu filho. Não agora. Busquei meu telefone e acionei alguns de meus comandados da Ordem de Salomão para que trouxessem tudo que fosse necessário para um recém-nascido, inclusive um pediatra e uma enfermeira particular. Por fim, pedi para que Stephanie, e o restante da família Kimble, viesse para o apartamento ajudar o Danyael.
Parece que o dia vai ser bem longo e triste.
*****
Diário de Matthew Ferris. 10h00min.
Fiquei sabendo da trágica notícia enquanto trabalhava na Base. Foi Keira que me deu a noticia. Stephanie havia ligado e pedido pra que Keira e eu os ajudasse nesse momento tão triste na vida dos Kimble. De uma só vez, os dois conjugues dos irmãos Kimble morreram tragicamente. Infelizmente não consigo nutrir pesares pelo Sr. Johannes, mas Lilith era uma pessoa incrível! Danyael e Stephanie, que tanto fizeram para ajudar as pessoas, não mereciam passar por isso.
E ainda tínhamos nossos próprios problemas. Keira estava aflita, principalmente agora com essas noticias. Não temos qualquer sinal do paradeiro de James. Sabemos que ele não morreu na explosão da Jupiter’s Corp. Entretanto, seu sinal desapareceu por completo. Assim que chegamos à Base tratamos de fazer varreduras por todo o Globo atrás de qualquer sinal de James. Até agora nada.
Além disso, outro de nossos oficiais também desapareceu: Phillipp. Mas infelizmente, pouco tenho a fazer por ele. Keira e eu estamos muito desconfiados de nosso companheiro. Seu sinal também desapareceu, mas eu duvido muito que ele tenha morrido. Phill tem muitas respostas pra nos dar sobre seu comportamento. A começar pelas explicações sobre o que de fato aconteceu ontem, antes da meia-noite na Jupiter’s Corp. Depois, dizer tudo sobre sua misteriosa ligação com Almirante Washington, este que por sua vez deixou bem claro sua cumplicidade nos assassinatos dos Grão-Mestres do Arcanorum. E ainda, por que diabos ele fraudou seus exames de DNA. Keira tem uma resposta na ponta da língua. Eu, infelizmente em prol de nossa amizade, custo a acreditar.
Enfim. Como Keira, de modo sobrenatural, está, à medida do possível, tranqüila com relação ao seu marido (ela diz que “sente que ele está bem”) seguimos para o apartamento de Danyael. Já busquei meu sobretudo preto, por que além de estar fazendo frio (um assombro, vide que estamos no verão), era claro que de lá iríamos para dois velórios.
Só espero que meu amigo Danyael esteja sendo forte, tal como sua irmã.
*****
Diário de Nick Polansk. 12h00min.
Pra variar acordo tarde novamente. Já virou rotina desde que conheci o Erick. Noite passada não foi diferente. Depois de resolvermos os assuntos dos dados, nos despedimos e eu voltei pra Oxford. Cheguei aqui por volta das duas da manhã. Foi uma viagem conturbada, onde mal consegui dormir direito no ônibus. Eram pesadelos constantes. Lembro-me de ter sonhado com o Sebastian, com Erick, até mesmo com o Sr. VonBranagh, que já tem um bom tempo que não o vejo.
Chegar a Oxford não foi problema. O ruim mesmo foi ter que aturar a cara carrancuda de minha sogra por me ver chegar altas horas da madrugada. Mas, depois de alguns anos casado você já se acostuma. Agora, um novo dia nasce e possivelmente devo ter muitos afazeres.
A primeira coisa que faço é telefonar para o Erick. Ele disse que passaria a madrugada toda estudando o segredo daqueles dados, e como ele é um excelente detetive, a essa altura já deve ter descoberto. Pena que ele não me ligou de imediato. Deve ter esquecido. Nunca conheci um cara tão avoado como Erick! Parece que as antenas dele vivem sintonizadas em outras realidades.
“Hmm… O celular dele está desligado.”
Isso é estranho, mas tudo bem. Bom, mais tarde então eu entro em contato com ele. Tem mensagens não-lidas na minha Caixa de Entrada do celular. Tenho que conferir logo, pois deve bem ser o The Sun querendo saber por que estou faltando tantos dias. A verdade é que se Tawnee e eu não chegarmos com um furo de reportagem pro nosso Editor-Chefe, já podemos ir começar a distribuir currículos na rua!
Aaahh!!! Sabia que ele não ia se esquecer de mim!”
Vibro ao ver que a mensagem mais recente, das dezenas que tenho, e era justamente do Erick. Abro rapidamente pra ler, já me corroendo de ansiedade pra saber do que se tratava. Será que ele conseguiu decifrar o significado dos dados?! Tomara que sim!!!
<<Nick, preciso falar com você urgente, mas não de forma convencional. Estou no terraço da Tower 42 às 00h50min do dia 28. Esteja lá, por favor. Abraços, Erick.>>
“Não de forma convencional?”, o que ele quis dizer com isso? E o pior é que não tenho mais como estar no local onde ele marcou, pois já se passaram mais de 12 horas! Não, espere… Essa mensagem foi enviada no mesmo horário em que ele marca o local de encontro. E nesse horário ele sabia bem que eu estava cruzando a intermunicipal voltando pra Oxford. Não tinha como eu estar em dois lugares ao mesmo tempo!
“A não ser que…”
É claro, cabeção! Ele quer que eu use meus poderes psíquicos de Visão Temporal pra conversar com ele. Conversar, não! Apenas escutar o que ele tem pra me dizer. Hmmm… Isso não ‘tá me cheirando bem! Enfim, finalmente levanto-me da cama e vou atrás pra saber onde se encontra a minha esposa.
Ao chegar ao refeitório do pensionato, encontro Tawnee. Infelizmente, não a encontro muito bem…
— O que foi, amor? Por que está triste? – pergunto levantando o rostinho dela. Ela havia chorado um pouco.
— Acabei de receber um telefonema da Keira.
— O que aconteceu? Ela está bem?
— Sim, ela está. É que estamos sendo convidados para um velório.
— Minha nossa!!! Quem morreu?!?
— Lilith, a noiva do Danyael Kimble.
— Meu Deus… Mas como isso aconteceu?! Ela foi assassinada?
— A Keira não entrou em muitos detalhes… Parece que ela também está abalada. O James está desaparecido!
— Minha nossa… Será que ele…?
— A Keira acha que não. Enfim… parece que aconteceram muitas coisas nessa madrugada.
— É exatamente isso que eu falar agora! Acabei de receber uma mensagem do Erick. Ele quer que eu vá ao encontro dele lá em Londres.
— Agora?
— Mais ou menos. Nosso encontro está marcado pro “Passado”, entendeu?
— Ele quer que você use seus poderes, é isso?
— Sim. Ele também não falou muita coisa no celular, mas eu acho que é importante.
— Entendo… Então irei me arrumar!
— Amor, eu queria na verdade de pedir outro favor.
— Já sei! Quer que eu fique presa aqui em Oxford por causa dos vampiros!
— Não, pelo contrário. Está cedo ainda. Eu queria que você fosse pro velório primeiro. Que representasse a gente.
— Você não vai?
— Vou, mas não agora. Vou atender o chamado do Erick primeiro.
— Ele talvez esteja no velório, afinal o Erick parece que conhece o Danyael.
— Eu sei. Mas se ele pediu isso, deve ser mais importante. Eu acho que ele quer que eu saiba de algo secreto antes de nos encontrarmos pessoalmente. Pra que tudo fique “implícito” entre nós. Lembra que ele nos disse que não dava pra confiar em mais ninguém?
— Entendo.
— E além do mais, sem querer menosprezar a memória da falecida, mas eu quase não tive tantos contatos com Danyael e sua noiva. Prefiro mandar meus pêsames mais tarde.
— Tudo bem! Eu vou ao velório. Mas deixe-me informada de tudo que ficar sabendo!
— Com certeza!
— Vamos agora?
— Na hora!
Assim que deixamos o pensionato seguimos até a estação, onde o próximo trem para Londres sairia em 10 minutos. Fizemos a viagem juntos, porém assim que chegássemos na capital iríamos descer em estações diferentes. Durante a viagem conversamos muito, mas um assunto que mais me intrigou foram os sonhos de Tawnee.
Ela me contou que desde que teve aquela experiência com os Iluminados/Mandarins ela vem tendo sonhos esquisitos, que pareciam estar relacionados de alguma forma aos seus novos poderes psíquicos. “Psíquicos”, não. Erick teria me corrigido agora. Meu amigo teimava em dizer que tanto os meus poderes, quanto os de Tawnee são na verdade Magia. Nós sempre debatíamos sobre isso!
Estranho… Peguei-me agora falando, e pensando, no Erick no passado, com um certo tom de saudade nas palavras. Talvez essa história de velório e desaparecimento tenha mexido com minhas idéias.
Mas verdade seja dita, querendo o Erick ou não, enquanto eu não ver nenhuma diferença significativa nos meus poderes, continuarei afirmando que são Poderes Psíquicos. Afinal, quem garante que não são? Os próprios Arquimagos do Arcanorum já se confundiram diversas vezes comigo achando que meus poderes eram mágicos, isso até eu conhecer o instituto P.S.I. Lá conheci outros psiônicos como eu e pude ver claramente a diferença entre Magia e Psiquismo. Enfim… deixando esse papo besta de lado, já chegamos à capital e como combinado, Tawnee e eu seguimos por caminhos opostos.
Tower 42, um dos prédios comerciais mais famosos do centro de Londres. No Terraço deste prédio irei saber o que tanto Erick quer me dizer. A entrada foi fácil. Identifiquei-me como jornalista a trabalho e peguei o elevador direto para o último andar. Lá segui de escadas até o terraço. O local era enorme, e estava fazendo muito frio por causa da ventania. O cheiro de fumaça e a fuligem ainda tomavam conta dos quarteirões vizinhos da Jupiter’s Corp. Nem acredito que o prédio virou uma bola de fogo da noite para o dia. Com certeza tem dedo dos Sobrenaturais nisso tudo!
Tive que caminhar por quase todo o terraço até encontrar algo estranho no lado noroeste. Fui me aproximando devagar até perceber de que se tratava de um homem deitado no chão. Mais alguns passos e então meu sangue congela.
— Oh Meu Deus… ERICK!!!
Corro desesperadamente ao seu encontro, mas de repente algo me faz parar. “Oh, Deus… não!!!” – Erick estava morto. A imagem dele estirado ali no chão, sobre uma poça de sangue coagulado, me fez parar e desviar a visão. Eu queria ter forças, mas sou tão fraco nessas horas… Oh, Deus… comecei a chorar…
Respirei fundo e então encaro o corpo de meu amigo novamente. Meu Deus do céu, ele foi assassinado! Tem exatamente a marca de um tiro em seu peito. Aproximo-me mais até ficar perto de sua face. Ele está de olhos fechados. Parece que ele não morreu de imediato. Deve ter tido alguns segundos de vida pra poder fechar os olhos. Mais que isso! Ele ainda usou esses poucos segundos pra pensar em algo bom, pois morreu esboçando um sorriso…
Por um segundo fiquei aliviado, mas não me conformei. Não mesmo! Que droga, Erick!!! Por que fez isso consigo mesmo?!? Sua mãe lhe avisou tanto! Você mesmo desconfiou de que estava num caminho sem volta e ainda assim, seu estúpido, você seguiu em frente!!!
— MALDIÇÃO, ERICK!!!
Ao baixar os olhos vejo o que tem em suas mãos. Cinco dados. Os malditos dados que possivelmente tiraram a vida de meu melhor amigo. Pego cada um deles e fico observando-os com desdém. Toda essa investigação. Toda essa loucura por trás dos assassinatos dos Grão-Mestres acabaram por vitimar meu tão precioso amigo.
“Foi por isso que ele me chamou aqui.”
Ele, inteligente como sempre, sabendo que posso ver e ouvir coisas que aconteceram no passado, deixou sua ultima mensagem. Um post-mortem exclusivamente para mim. Uma prova inegável de confiança e amizade.
Busco sua mão, agora um tanto enrijecida, e seguro com toda minha força:
— Está certo, meu amigo. Eu irei fazer o que me pediu. Não vou te deixar na mão. Não vou! Você pode descansar em paz.
Fecho os olhos e inicio meus procedimentos para poder ver o passado.
*****
Diário de Dan Viper. 14h00min.
Mesmo depois de tudo, a morte de Derek me atingiu profundamente. Durante os últimos anos, ele vinha sendo meu nêmesis. O inimigo mortal, o qual eu mesmo deveria fazê-lo pagar por todos os crimes que cometeu. Mas, com sua morte, encontrei uma lacuna vazia em minha vida.
A verdade é que desde o inicio eu devia fazer algo pelo Derek. Em minha outra reencarnação, Xavier havia recebido uma ordem superior pra que ficasse de olho em Derek, porém nem ele mesmo sabia o porquê desta ordem. Agora, volto novamente à vida sentindo um ódio profundo por tudo que Derek fez todos nós, mas todo esse ódio infelizmente caiu por terra.
“Talvez essa seja minha herança angelical.”
Ainda acho ridícula essa história. Eu, que já fui um demônio andando sobre a terra, a reencarnação de um antigo anjo. Claro que, hoje em dia eu não tenho nada de angelical. Abdiel já foi um rebelde. Lutou ao lado de Lúcifer. Mas quando Deus deu a chance do perdão, ele não conseguiu recusar. Entretanto, nunca mais ele seria um Anjo novamente. Muito menos Cairia como aconteceu com Lúcifer e os demais. O perdão se transformou num tipo de castigo brando, onde ele se tornaria um humano comum, sem qualquer ligação com o Céu ou o Inferno.
Mas claro que, quem um dia já fez parte da Abóboda Celeste, não será um reles mortal. Meu sangue, ou melhor dizendo, meu DNA, não é igual ao dos outros. Os Agentes Iluminados bem que me falaram sobre isso. Dentre minhas “especialidades” está a condição de me lembrar de minhas reencarnações passadas sem perder minha própria identidade.
Eu sou, e sempre serei, Dan Viper, o matador de aluguel.
Claro que pra mim essa historia toda de anjos e perdão divino não passa da historia de um covarde. Eu concordo com o Azazel nesse ponto. Homem de verdade não tem duvidas. E se tomou alguma atitude errada, que arcasse com as conseqüências. Voltar atrás com o rabinho entre as pernas sem dúvida foi algo ridículo.
Tenho nojo só de pensar que faço parte desta historia.
Enfim, mudando de assunto, me lembrei agora de como tudo isso começou. Do dia que eu estava bem quieto na minha em Dublin, quando recebi o telefonema Dele. Aquele velhote com cara de “Jonas Brothers” achava que podia me enganar ou me fazer de otário. Saquei toda a jogada logo quando Kravinoth foi assassinado. Ainda penso em que fim levou aquele pobre detetive. Ele era bom. Muito bom, aliás. Nos encontramos momentos antes do prédio da Júpiter’s Corp. ir pelos ares…
14 horas atrás.
— Aonde vai com tanta pressa, Detetive Russell? – questionei, escorado em meu carro, assim que o vi pulverizar uma dúzia de vampiros com apenas o estalar dos dedos.
— Quem é você?
— Você sabe quem sou eu.
— Viper! Dan Viper!! O assassino de aluguel mais procurado do país!!!
— Heh! Sabia que ia me reconhecer!
Claro que eu não esperava menos daquele escoteiro do Arcanorum. Assim que me reconheceu, ele ergueu sua arma na minha direção, como se quisesse esquecer tudo e prender um “perigoso bandido”.
— Você não irá fazer isso. Tem assuntos mais importantes pra tratar agora, não?
É claro que eu acertei em cheio em meu palpite. O escoteiro do Arcanorum logo baixou sua arma e respirou fundo. Sabia que não podia perder tempo ali comigo.
— O que você quer?
— Quero te dar algumas informações.
— Como é?
— Sinta-se honrado. – aproximo-me dele acedendo um cigarro. Eu ofereço e ele recusa. – No meio onde eu trabalho, informação vale dinheiro. E esta que quero lhe dar poderia custar uma fortuna, mas… estou entregando de graça pra você.
— Eu não estou entendendo.
— Está. Está sim! Você acaba de descobrir quem é o Mandante dos assassinatos dos Grão-Mestres, não é?
Os olhos esbugalhados dele valeram a noite! Ainda não consigo me acostumar com esse tipo de reação.
— C-como você sabe?
— Eu disse que você é um bom detetive. Mas eu sou melhor. Assim que percebi que você e seu amiguinho psíquico estavam juntando os “dadinhos”, imaginei que a essa altura você logo descobriria. Só não pensei que fosse tão rápido.
— Eu ainda não sei de nada. Falta um dado ainda pra confirmar minhas suspeitas…
— Hahahahahahahahaha!!! Você só pode estar brincando!!! Faltando apenas uma letra no joguinho e você ainda duvida que não possa ser essa pessoa?!?
Ele desviou o olhar. Sabia que eu estava certo, mas queria por que queria acreditar que não. Coitado.
— Escuta aqui garoto. Quem você pensa que é o mandante, É o mandante! Não tente achar que está vivendo um conto de fadas e que isso pode ser apenas um sonho ou uma ilusão, por que não é. Vê se acorda pra vida!
— E o que você tem haver com isso?!? Por que está aqui falando essas coisas pra mim? O que você queria tanto me dizer?!?
Nessa hora dou um bom trago no meu cigarro. Mesmo com tantas perguntas, esse escoteiro realmente chegou onde eu queria.
— Eu também fui enganado. Eu também fui usado por ele, assim como você. Alguns meses atrás esse homem me contatou pra realizar um serviço secreto pra ele. Queria que eu também investigasse os assassinatos. É claro que, diferente de você, eu não dormi no ponto. Não apenas investiguei os assassinatos como investiguei todos os envolvidos, inclusive o meu contratante. E foram nessas investigações que encontrei algumas perguntas pertinentes: “Como pode um homem, considerado o maior mago da nossa geração, não saber quem é o assassino?!?”
Se ele tinha alguma esperança, joguei tudo por terra agora. Seu olhar pro chão pensativo confirma o que to pensando. Estou sem tempo. Tenho outro assunto pra resolver do outro lado da cidade. Mas antes de ir coloco minha mão sobre o ombro dele.
— Boa sorte.
E isso é tudo que falo. Queria ter dito mais, mas não era necessário. Aquele escoteiro não era burro. Eu só espero que ele consiga fazer algo sobre esse assunto. Por que se ele não o fizer, eu o farei!
Agora.
E foi isso. Mesmo conhecendo-o tão rápido, fiquei preocupado com o rumo que ele seguiu. Aquele escoteiro estava prestes a entrar na toca do leão – e pior, sozinho! Eu espero mesmo que ele tenha conseguido fazer alguma coisa, pois se ele não conseguir, eu mesmo faço o trabalho sozinho. E meus trabalhos não são nem um pouco ortodoxos!
Afinal, ninguém tira uma com a minha cara!
Nesse momento estou observando o velório de Derek no apartamento onde o Diácono mora. Observo de longe, com meu binóculo especial. Claro que minha visão está focada em uma única pessoa. A única pessoa que esses anos todos foi capaz de desnortear meus pensamentos. Sei que posso parecer um canalha agora, e pouco me importo também, mas estou louco pra ir lá consolar a jovem viúva. Mas claro que de todos os recintos de Londres, o último que eu colocaria meus pés seria aquele apartamento.
Meu binóculo desvia a visão de Stephanie e recai novamente sobre o corpo de Derek:
— Não é que o canalha morreu mesmo?!
*****
Diário de Flávius VonBranagh. 16h00min.
“Eu não pretendo ser babá de marmanjo!!!”
Ela disse isso e depois saiu. Me deixou falando sozinho enquanto a porta fechava com força. “Pois bem… que vá!” Sou eu que estou cansado de ficar pagando papel de bom moço pra uma mulher que não me dá valor. Essa é a verdade!
Estou em meu apartamento. Aqui está um caos. Meu colega apê Phill até agora não voltou da rua. Disse que ia resolver uns assuntos e até agora nada! “Que merda…”, logo agora que eu queria trocar idéia com ele sobre se mudar pra Mônaco. Cansei desta vida. Cansei desta cidade. Cansei de tudo!
E vai ser até bom mesmo eu ir pra bem longe, pois estou cansado do meu avô e dos meus pais ficarem pegando no meu pé! É “tome cuidado” daqui. “Sai dessa vida”, dali. “Vá buscar algo melhor pra fazer”, do outro. “Aaahh!!”, eu cansei!!
Após catar algum copo “mais ou menos” limpo na pia, busco a minha ultima garrafa de vodka na geladeira (que só tem isso) e inicio mais um dia de pé pra cima e copo na mão assistindo corridas na tevê à cabo. Isso sim que é vida boa!
Obviamente, eu tinha que esperar que alguém viesse jogar lama na minha felicidade!
— Você tem celular pra que? Pra enfeitar sobre a mesa?`
Ele aparece das sombras como de costume, invade minha casa e minha privacidade e ainda por cima vem dando bronca?!
— Qualé, pai! Não tem coisa melhor pro senhor fazer, ao invés de vir aqui me dar bronca?!?
Rapidamente ele muda de sua forma original, um gato siamês preto, e se transforma no homem carrancudo que tanto conheço.
— Você é um imprestável mesmo!!! Até quando acha que vamos ficar bancando essa sua vidinha, Flávius?!?
— PERAE!!! Ninguém me banca não! Eu me viro sozinho!!!
— Sozinho?!? Você se esqueceu que eu tenho ligação espiritual com o Eriol? E que por causa disso sei exatamente o que ele faz?? Sabe quanto ele depositou só este mês na sua conta? CINCO MIL LIBRAS!!!
“Puta que pariu… Vai começar toda aquela lenga-lenga denovo!”, pensei entediado.
— Não, Flávius. Não vai começar “lenga-lenga” nenhum.
— PORRA, PAI!!! VOCÊ ESTÁ LENDO A MINHA MENTE?!?
— Lilith morreu.
O balde de água fria realmente funcionou. Pareceu que ele havia jogado uma bomba entre nós.
— Co-como é…?
— Isso mesmo o que você escutou. Lilith faleceu esta manhã assim que deu a luz. Foi por isso que eu vim aqui, moleque. Não vim discutir. O assunto é sério.
— E-eu entendo. E o Dany?!? Como ele está?
— Como que tu acha que ele está, Flávius?! Mal acabou de se tornar pai e já é viúvo!
— Cara… eu não sabia…
— E não é só isso. Derek também faleceu!
— O Derek?! Ah! Esse daí foi tarde!
— NÃO FALE ASNEIRAS, FLÁVIUS!!! Ele era o namorado de sua prima por cinco anos! Querendo ou não já fazia parte desta família! Tenha um mínimo de respeito com a dor que Stephanie está passando!!!
— É verdade… Foi mal. Tinha me esquecido que a Stephy era doida por ele. Meu Deus… O Dany e a Stephy perderam os parceiros ao mesmo tempo! Que coincidência!
— Não foi coincidência.
— O que…? Como assim? Foi premeditado a morte deles ao mesmo tempo?!
— Não foi premeditado. Mas “nós” já sabíamos…
— Ah é! Tinha me esquecido. O vô Eriol previu isso tudo!
— Mais ou menos. Agora quer fazer o favor de tomar um banho, se arrumar decentemente, e colocar uma roupa preta? Só ‘tá faltando você no velório.
— O Vô John veio?
— É claro que ele veio! Agora chega de papo e vai logo se arrumar!
— ‘Tá legal.
*****
Diário de Sebastian West. 18h00min.
Acordei a menos de uma hora atrás. Aos poucos estou me acostumando com minha condição de vampiro. O interessante é que na época em que me transformei, Kravinoth havia dito que eu era um vampiro diferente. Que eu tinha alcançado a Transcendência, provavelmente com ajuda da Dark. E que por causa disso eu iria me diferenciar dos outros vampiros. Eu poderia necessitar bem menos de sangue, poderia controlar melhor a insanidade do Frenesi e, principalmente, poderia andar à luz do dia.
Bobagem. Nos últimos dois meses nada disso aconteceu! Preciso me alimentar todos os dias, pois a fome me dilacera por dentro toda vez que acordo. Foi só por causa do poder da Light Sword que eu não entrei em Frenesi na mansão. E o principal: Ai de mim se eu tentar me encontrar com o Astro-Rei! Aquele velhote estava já caducando quando disse aquilo. Não é a toa que morreu, já ‘tava na hora!
Pensei que eu ia aproveitar a noite pra resolver algumas pendências, porém não consegui evitar vir ao enterro do Derek. Stephanie está arrasada! E não é apenas o enterro do namorado dela. Parece que a esposa do Danyael também faleceu esta manhã. Só fiquei sabendo disso agora, assim que cheguei, pois vi dois caixões sendo enterrados. Foi uma surpresa. Não muito boa, mas foi! Vindo do “onipotente” Danyael, perder a esposa logo no parto do primeiro filho era tudo o que eu não esperava.
Afinal… Quem podia atingir o “poderoso e invencível” Danyael Kimble?!? Até então nem a morte era problema para ele. Sempre tinha uma saída. Sempre tinha um jeitinho de dar a volta por cima. Pois é, meu caro irmão de armas: da verdadeira Morte você não passa a perna!
Parece que está todo mundo aqui no enterro! Nossos colegas de Oxford, a família Kimble, os amigos mais próximos de Lilith… Até o tal irmão “Deus” da defunta veio. Olho um pouco mais atento e parece que alguns anjos também vieram. Acho que é pra prestar condolências ao viúvo.
Isso tudo do meu lado direito. Do lado esquerdo, na cova número dois, estão aqueles que vieram prestar homenagens ao Derek. “Dois, quatro, seis, oito… He!” Apenas nove pessoas vieram prestar homenagens ao falecido. Parece que ele não era tããããooo querido assim! Não conheço nenhum deles. Espere… um deles eu conheço! É o tal Grão-Mestre dos Templários que me interrogou mês passado. Não me lembro do nome dele!
“Ele percebeu que eu estava olhando para ele!”
Trocamos olhares por alguns segundos. Por um momento pensei que ele pudesse ler a minha mente, mas logo essa idéia me escapuliu quando lembrei que a Dark me protege desse tipo de coisa. Principalmente depois do que aconteceu ontem com o tal Mark!
Ele parece sério. Não está triste, nem com raiva. Apenas monotonamente sério. Sabe quando ficamos observando um céu estrelado, pensativos sobre a vida? Pois então! É desta forma que ele me encara agora. Quando isso começou a me deixar desconfortável, eu desviei o olhar.
Começou a chover. Típico. Dizem que está fazendo mais frio que o normal em Londres. Que o clima endoidou de vez, um verão com cara de outono. Com direito a chuvas e muita ventania. Eu não sinto nada disso. Na verdade eu não sinto nada. Eu nem mesmo sei por que estou aqui. Pensei que fosse por causa da Stephanie, mas quer saber? Ela não me encanta mais os olhos. Aqueles dias de Oxford ficaram pra muitos anos atrás.
Muita coisa aconteceu de lá pra cá. Muita coisa já mudou. Pessoas mudam. Vampiros também. E no fim, todos nós teremos o mesmo destino: virar terra novamente. Do pó ao pó. Essa é a única coisa imutável. Não tem por que eu ficar perdendo meu tempo aqui. Dou meia volta e vou embora.
No caminho que levava até a entrada do cemitério, tenho outra surpresa. Uma pessoa que não vejo há muito tempo: Michelle Sloane. Na verdade, desde que sai da prisão ela vem me ignorando. Nós cruzamos os olhares. Ela pareceu ficar conturbada ao me ver. Dane-se! Eu sigo em frente. É como eu disse antes: as pessoas mudam. Eu mudei. E estou pouco me fudendo pra quem achar ruim.
Enterro aqui o antigo Sebastian West.
*****
[Soundtrack: Inside us all – Creed]
Diário de Stephanie. 20h00min.
O padre já terminou as orações. Os caixões já foram colocados na cova. Chuva de flores cobriram a sepultura. Muitas já foram embora. Restou apenas Danyael e eu aqui. O pequeno Andrew foi levado por seus avós para um lugar mais quente e longe da chuva. Não há mais nada que se possa fazer. Eles estão mortos e não tem mais como voltar atrás.
Mas… Mas…
Meus olhos já estão roxos de tanto chorar. Eu não consigo evitar.
Ele morreu… Ele morreu…
E eu nem pude me despedir direito. Oh, Deus… Como eu queria poder ter dito que o amava. Ter aproveitado nossos últimos momentos pra dizer tudo aquilo que eu realmente sinto por ele. O quanto ele foi e é importante para mim.
Como eu queria… Como eu queria…
Agora não tem mais volta. Ele se foi. Perdi meus últimos dias que tive com ele ficando emburrada e sem falar com ele. Enquanto isso ele fazia de tudo pra me proteger. Estava sempre preocupado comigo, não importando quantas vezes eu fechasse a porta na cara dele. Quantas vezes eu o deixasse falando sozinho… Ele sempre estava lá do meu lado.
Sempre estava ao meu lado. Agora…
Como eu sou IDIOTA!!!
Ele sacrificou sua vida pra me proteger, e eu… e eu… nunca fiz nada por ele! Nada! Derek… Oh, Derek… Por favor… me perdoe… me perdoe…
Sinto uma mão sobre meus ombros. Nem tinha percebido que já estava de joelhos no chão. Dany, meu irmão… Coloco minha mão sobre a dele e aperto. Aperto com força tentando buscar em meu mano forças pra me levantar. Forças pra poder continuar vivendo.
— Stephanie…
Eu olho para ele. Ele também está chorando. Mas está de pé olhando fixamente para a lápide de Lilith.
— Dany…
Eu não consigo se quer juntar palavras pra poder expressar o quanto estou sofrendo. Talvez por que não existam palavras para serem ditas. Nada se compara a dor de perder alguém que amamos muito.
— Não se culpe. – disse meu irmão.
— É que eu… eu estou me sentindo… péssima! Terrivelmente péssima. Eu julgava o caráter dele pela sua religião e conduta, mas nunca pude enxergar que ele dedicava tudo… absolutamente TUDO por mim.
— Eu sei.
— Ele só pensava em mim. Ele fazia as coisas por mim. Ele mudou por minha causa! E eu… - o choro rasga a minha voz. – E-eu… eu nem pude dizer adeus!!! Oh, meu deus! Ele morreu achando que eu não o amava mais! Ele morreu pensando que eu o culpava de seus atos do passado. Derek… Derek… Me perdoe…
— Pode ter certeza que ele já te perdoou, minha irmã. – Danyael também engasga um pouco. – Pode ter certeza.
— Oh, meu deus… Como vou conseguir continuar vivendo? Como vou conseguir me levantar daqui?!
Então meu irmão, meu sangue, meu verdadeiro e único melhor amigo, esticou sua mão até mim:
— Eu te ajudo a se levantar.
Levanto com ajuda dele e logo o abraço. Abraço forte. Tento buscar em seu calor alguma força pra poder resistir a tudo isto. Mas… Eu não posso exigir tanto de meu irmão. Não agora. Tal como eu, ele também está sofrendo. Está sofrendo muito! Seu coração bate tão forte que posso sentir através da roupa. Ele parou de chorar. Não sei se suas lágrimas já secaram. Se ele é tão forte quanto eu imaginava, mas… Agora, mesmo sem olhar pro seu rosto, sei que ele esta olhando fixamente pra lápide de sua esposa.
— Dany… O que foi? – murmuro perto de seu ouvido.
— Stephanie… Eu estou com algo em mente.
— O que você pretende fazer?
— Eu não te contei ainda, mas nesta madrugada eu tinha acabado de vir de uma realidade alternativa onde tudo foi mudado por causa de uma pequena mudança na história.
Eu me afasto de seus braços pra poder olhá-lo nos olhos.
— Dany… o que você pretende fazer?
— Eu vou tentar… Digo, eu vou fazer minha esposa sorrir novamente e te dar a chance de poder se desculpar com o Derek.
— C-como?
Antes de me responder, Danyael desviou seus olhos do meu e focou na lápide escrita “Lilith Daemon Kimble”.
— Eu tenho a Light Sword.
*****
Diário de John Kimble. 22h00min.
O pior é que eu já sabia que tudo isso ia acontecer. Eriol havia me avisado. Tanto a morte do Derek, quanto da Lilith. Ele só não sabia como seria e quando iria acontecer. Mas, nem em meus piores pesadelos, pensei que fosse ser tão cedo e ao mesmo tempo! Isso sim foi a pior coisa que já aconteceu em nossa família.
Depois do enterro, como avós, Gabriela e eu tomamos de conta do pequeno Andrew assim que começou a chover e esfriar muito. Sinceramente não estou mais reconhecendo a minha cidade. Pleno verão e esse frio de rasgar a pele. Independente dos “ventos frios que vem do Atlântico” que os metereologistas tanto falam, eu acredito que isso é algo sobrenatural. Cosmicamente sobrenatural, pra ser mais exato. Danyael e Eriol alertaram sobre a Roda dos Mundos e seu movimento inevitável, que levaria a Terra para o Submundo. Com certeza esse frio é apenas o prenuncio de algo pior.
Voltamos ao meu antigo apartamento, atual residência de meu amigo Eriol. Logo que chegamos tivemos um problema e uma magnífica surpresa. Andrew estava com fome, é claro, era recém-nascido. Até agora só estava se alimentado da aura angelical de seu pai, que o mantinha quente e saudável. Só agora a fome bateu. Entretanto, onde iríamos arranjar leite? Eriol havia dito que ordenou um de seus discípulos da Ordem de Salomão buscar leite no Banco de Leite. Entretanto, o pobre Andrew não teve muita sorte, pois o Banco estava esgotado. Obviamente havia outro em Londres, porém era muito longe de onde estávamos. Iria demorar.
Quando pensamos em comprar leite em pó especial foi que um milagre aconteceu. Não sei se foi o instinto de avó, ou sua condição de Anjo, ou os dois, mas simplesmente Gabriela começou a produzir leite e, obviamente, deu de mamar pro pequeno Andrew. Mesmo respeitando a lembrança de Lilith, eu juro que fiquei feliz em saber que assim como meus filhos, o primeiro alimento de meu neto foi o leite angelical de Gabriela. Com certeza isso é um bom sinal.
E pensar que este rapazinho vai se tornar aquele homem que conheci vinte anos atrás!
Dany e Stephanie chegaram a poucas horas do cemitério. Minha filha logo foi buscar um ombro quente pra chorar com sua mãe. Já meu primogênito… é triste, mas ele se trancou no quarto. Lá ficou por quase uma hora. Pela ausência total de movimento, pensamos que ele estivesse dormindo.
Era de se esperar, depois de tudo que ele passou. De acordo com o que me disseram, Dany estava a mais de 48 horas sem dormir, incluindo o tempo que passou no Futuro Alternativo. Era obvio que eu estava preocupado com meu filho. Queria muito poder ajudá-lo, mas infelizmente isto estava longe de minhas capacidades.
Ou não.
Quando me aproximo da porta do quarto, receoso se entrava ou não, eu então escuto uma voz vinda de dentro:
— Pode entrar, pai.
Envergonhado, abro a porta e entro. Juro que pensei que ia encontrar meu filho, triste, é claro, mas resistindo bravamente à dor. Foi totalmente o contrário. Danyael estava agachado no canto do quarto, encolhido abraçando as pernas, chorando copiosamente. Eu nunca, desde que ele era um bebê, vi meu filho chorar tanto.
— Dany…
— Eu sei, pai. Você está assustado por me ver chorar.
— Como você…
— Eu já vivi este momento. Várias e várias vezes.
Eu sento ao lado dele. Ele se ajeitou e fez o mesmo. Fico olhando pro seu rosto ainda sem entender nada. Seus cabelos compridos estão bagunçados, com fios grudados em seu rosto molhado. Eu tento ajeitá-lo.
— O que foi, filho?
Puxando ar com o nariz entupido, ele me respondeu:
— Eu tentei pai. Já até perdi as contas de quantas tentativas foram! Sei que foram mais de uma dúzia de vezes.
— Tentou o que?
— Trazer a Lilith de volta.
Inicialmente eu me espantei, mas depois me acalmei. Já fiz isso uma vez, por que meu próprio filho não podia ter essa chance?
— O que você fez exatamente, Dany?
— Primeiro tentei ressuscitá-la. Mas novamente Azrael apareceu pra mim e disse que era impossível. Lilith havia feito um trato de sangue com ele e isso não poderia ser quebrado.
— Azrael?
— O Anjo da Morte.
— Que trato ela fez?
— Nosso filho havia morrido. Azazel havia matado. Ela trocou a vida dela pela de nosso filho. Esse foi o trato.
— Meu deus…
— Claro que eu o mandei ir se fuder e pensei em outras alternativas. Foi então que eu me lembrei de você.
— Da época que salvei a vida de sua mãe.
— Exato. Na primeira tentativa eu volto no momento exato em que ela e eu estávamos discutindo e impeço-a de ir pro Inferno, contando tudo que aconteceu.
— E ai?
— E ai que, como inevitavelmente eu tinha que ir pro futuro, se não nossa Linha Temporal deixaria de existir, quando retornei descobri que Azazel havia invadido nossa casa e atacado Lilith da mesma forma. Ela, querendo salvar nosso filho, fez o trato novamente.
— E como você voltou pra esta Linha Temporal, já que havia alterado? Você com certeza criou uma linha de tempo alternativa!
— Não. É claro que eu aprendi a lição quando fui pra 2053. Pra evitar Linhas Temporais Alternativas, usei o poder da Light Sword pra três coisas: primeiro, criei um “ponto de fuga”, que era exatamente este tempo e este quarto, para que se algo desse de errado, eu voltasse pra cá, até mesmo se eu morresse. Segundo, fiz um tipo de selo temporal, no qual se algumas de minhas viagens desse certo, eu juntaria os dois tempos: o novo e o do Ponto de Fuga, formando um só. E Terceiro, a viagem no tempo propriamente dita.
— MEU DEUS, Danyael!!! Você tem TODO ESSE PODER com a Light Sword?!?
— Eu também não sabia que tinha, até agora… Não é a toa que a espada foi forjada no Paraíso dos Deuses, bem acima da Cidade de Prata, e apenas os Príncipes Arcanjos sabiam de sua existência e seu poder.
— Obviamente estou abismado. Eu sempre fiquei receoso em ter novamente o poder divino de Elohim, justamente por causa dessa “onipotência” desenfreada, mas parece que a Light Sword supera isso tudo!
— É… Mas mesmo tendo em posse uma espada onipotente, eu não consegui salvar a minha esposa.
— Você disse que tentou outras vezes.
— Várias vezes. Como meu plano de “Ponto de Fuga Temporal” era perfeito, pude ficar fazendo varias viagens e varias tentativas até ver qual daria certo. Mas nenhuma deu. Parece que era o destino de Lilith morrer no parto de Andrew. Até mesmo na vez que eu consegui salvá-los de Azazel, após nove meses, algo terrível acontece e leva a vida dela durante o parto.
“Em outra realidade, eu deixei tudo acontecer normalmente, porém seria eu que trocaria a minha vida pela de meu filho, e não Lilith. Naquele instante descubro que Azrael não dá ponto sem nó, e que o “Mundo dos Mortos” existe num local atemporal no qual ele não era afetado nem pelo poder da Light Sword. Mesmo gritando e ameaçando-o, não tinha como. O Trato já tinha sido assassinado e lá estava o nome da Lilith.”
— Então, como um bom Ceifador, ele já sabia quando e como Lilith iria morrer, independente do que acontecesse.
— Exatamente. Mas é claro que eu não desisti. Tentei destruir o contrato. Tentei evitar até mesmo que ela fizesse o contrato. Eu sei, eu sei. Troquei a vida de minha esposa pela de meu filho. Andrew morreu e Lilith caiu numa depressão que beirava a morte! Ela estava tão infeliz que nem tive coragem de contar o que tinha acontecido realmente em meu Tempo real.
— Mas filho… veja o lado bom. Pelo menos você teve uma dúzia de vezes de poder rever e conversar de novo com sua mulher. Veja o caso da Stephanie. Ela perdeu o Derek sem ao menos ter a chance de dizer que o amava.
Novamente vejo Danyael se entregar às lágrimas. Desta vez eu o abraço.
— E-eu sei, pai… Você não sabe o quanto foi terrível pra mim vê-la morrer tantas vezes, e sempre da mesma forma. O-o quanto foi difícil tentar convencê-la de que ela iria morrer e que eu não conseguiria viver por causa disso. Tê-la em meus braços uma dúzia de vezes, e em todas, todas as vezes ela morre enquanto me beija.
— Meu filho…
Eu fico sem palavras. Eu sempre soube que Danyael amava muito a Lilith, só não sabia que era algo tão profundo. Suas lágrimas parecem não ter fim. Eu sei como é essa dor. A imagem de Lilith ainda está viva em sua mente e isso é o que mais lhe destrói por dentro.
— M-mas o-o pior… n-não é isso!
— O que aconteceu?
— Na minha última tentativa, após conversar francamente com ela contando tudo o que acontece, Lilith resolveu fazer o seu testamento. Como o desejo dela é imutável, independente do tempo alternativo, ela anotou numa carta e pediu que eu entendesse os motivos do Testamento dela.
Ele busca uma carta aberta dentro do bolso da calça e me mostra. Fico até temeroso em ler, mas ele insiste. Após alguns segundos de leitura, aquelas poucas palavras me congelam da cabeça aos pés.
— E-eu não acredito…! Dany… o que ela te pediu é… você vai…?
Imediatamente ele se levantou e me encarou diretamente nos meus olhos:
— Se este fosse o último desejo de minha mãe, o que você faria, John Kimble?
Touché. Realmente não pensaria duas vezes. Mas… meu filho! Danyael é meu filho! Eu não devo… eu não posso… Deus! Como que Lilith pede um negocio desses?!? Ele vai jogar no lixo toda a vida dele! A chance de se tornar Arcanjo, sua reputação, seu respeito, tudo pro espaço!
— Mas Dany…
— Não tem “mas”, pai. Eu já me decidi.
— Dany!!! E a sua vida? E sua chance de se tornar Arcanjo?!?
— Infelizmente terei que largar, tal como larguei a faculdade…
— Isso não é hora de fazer piada, Danyael! Faculdade pode ser reaberta e refeita a qualquer hora! Título de Arcanjo, reputação e respeito não!
— Eu não vou perder o Respeito, pai. Ele apenas irá ser desfocado.
— Desfocado pro Inferno!
— É.
— Como a Lilith pode ter pedido uma coisa dessas?!?
— PAI!!! O pai dela morreu. O irmão dela morreu. A Herança e a responsabilidade dela eram óbvios! O Terceiro Círculo do Inferno precisa de um Senhor, e este senhor existe: Lilith! Com sua morte, obviamente essa herança seria passada pro seu primogênito, no caso Andrew. Mas ele é apenas um bebê!
— Daí então, como pai…
— Exato. Eu sou o tutor de Andrew até que ele complete a maioridade. Até lá, eu sou o novo Senhor do Terceiro Círculo do Inferno! Goste você ou não, meu pai.
— Mas… e o outro irmão dela? O tal Deus do Sono.
— Por leis cósmicas, Hipnos não pode ser dono de dois Mundos ao mesmo tempo. Já conversei com ele. Se ele se tornar o Senhor do Inferno, o mundo dos Sonhos se tornará um Inferno. E vice-versa. Um Mundo Espiritual é exatamente o reflexo de seu Senhor.
— Mas, Dany… e seu filho? Você pretende levar o pequeno Andrew pra ser criado lá no Inferno??
— É claro que não, meu pai. Que pergunta mais idiota! Por que você acha que estou chorando? Eu não perdi apenas a minha mulher. Eu perdi a minha família!
— Lilith sabia disso quando fez esse testamento. Por que ela lhe pediu isso, sabendo que seria tão terrível quanto a morte dela?
— Por que ela não quer, e nem pode, deixar o “terreno sem dono”. Sem dono não! Tem o Hipnos, que é também filho de Hades. Mas como eu disse, Leis Cósmicas o impedem de ser o dono, mas se mesmo assim ele conseguisse só ia causar problemas. Imagine transformar os sonhos dos 6 Bilhões de Seres Humanos num pesadelo todas as noites. Um “Freddy Crugger” eterno. Em pouco tempo a Terra ia se tornar um Inferno também! Suicídios, assassinatos, guerras, desespero… Os seres humanos precisam dormir e sonhar, isso é uma necessidade tanto física quanto mental e espiritual.
“Se não pode ser o Hipnos, tem o Andrew. A não ser que Lilith deserdasse nosso filho, Andrew é indiscutivelmente o sucessor do trono infernal. E como são Leis Cósmicas, não haveria nada que se pudesse fazer, a não ser colocar um recém-nascido lá nas entranhas do Terceiro Círculo. Pai, não foi apenas ela que tomou esta decisão, fui eu também! Como eu disse, tivemos uma conversa muito franca e nessa conversa, como marido e mulher, não vimos outra alternativa se não esta.”
“É por isso que eu queria ter essa conversa em particular contigo, antes de anunciar isso pro mundo. Preciso pedir pro senhor e pra mamãe que cuidem do Andrew para mim.”
— Que pedido mais idiota! É claro que iremos cuidar dele! Ele é o nosso neto! Meu primeiro neto! Ele irá crescer e ter uma vida como a sua: com uma família sempre por perto!
— Obrigado, pai.
— Mas, filho, o que me preocupa é… Você está se abdicando de tudo que tem, de tudo que será, até de seu filho, em prol de um bem maior?!?
— Estou me abdicando por causa do mundo ideal que prometi ao meu filho, em 2053, que daria a ele nesse Tempo. Eu não vejo escolha melhor. E sinceramente? Eu estou feliz que seja assim.
— Dany… e os Anjos? Digo… Com certeza a Alta Hierarquia Angelical não vai gostar nada de sua decisão! Um anjo dos céus, Senhor do Inferno, e ainda por cima Portador da Light Sword! Eles com certeza vão se intrometer!
— E eu não sei? E eles já sabem disso tudo. Por isso mandaram a Ângela e sua trupe atrás de minha família.
— Você irá Cair? Irá se tornar um…
— Não, pai. Eu ainda não me informei com o Tio Miguel, mas duvido muito que eles me expulsem do Céu. Seria o mesmo que entregar de bandeja a Bomba Atômica pro inimigo! No máximo irei me tornar um Anjo Rebelde – não irei fazer mais parte da Hoste Angelical, mas também não engrossarei as fileiras de Satan.
— Ah, Dany… Nem nos meus piores pesadelos esperava que isso acontecesse com você! Claro que eu pensei que meu neto um dia se tornaria um Senhor do Inferno, até mesmo um demônio! Mas nunca que isso fosse acontecer com meu próprio filho!
— Pai… menos! Você fala como se eu tivesse virado um drogado nazista alcoólatra, que ainda por cima é gay!
— ‘Tá… Não é isso tudo, mas… Se tornar um Senhor do Inferno, não é uma boa coisa também não! Você terá que torturar pessoas! Julgá-las durante anos seus atos, e ainda por cima vai estar esporadicamente na mesma sala de reuniões com os maiores inimigos de nossa família!
— Não se preocupe pai! - suas lágrimas secaram e meu filho volta a sorrir: — Em poucos dias, um dos Círculos do Inferno estará sob nova direção!
É nessas horas que, mais do que tudo, eu sinto orgulho de meu filho.
— Eu só posso te desejar boa sorte, meu filho. Mas saiba que, você sempre poderá voltar pra casa quando quiser!
— Eu sempre soube disso, pai!
Depois de um abraço, veio a dúvida cruel:
— Você vai contar pra mamãe, não é?
— Você está doido?!? Eu tenho amor a minha vida!!!
— Eu também não posso morrer, ainda! Tenho um filho!
— Vamos ter que decidir isso de alguma maneira…
— Vamos lá…
— Jan, Ken, Pô!
— Jan, Ken, Pô!
— Ah-há! – exclamou ele vitorioso. – Tesoura corta papel!
— Ah droga…
Saímos do quarto, ainda tristes, porém um pouco melhor do que quando entramos.
*****
[Soundtrack: Lonely Day – System of a Down]
Segunda-Feira, 26 de Junho de 2028. 00h00min.
Avenida Hamilton – Brooklyn.
Nova York – EUA.
Assim que terminou sua conversa com a família, Danyael precisou ficar um pouco sozinho. Mesmo depois de todo o apoio familiar, e de tudo que passou viajando constantemente pelo tempo, ele sentia que algo o estava incomodando naquela casa. Ele precisava sair.
Voando até o máximo que pode, Danyael chegou a alcançar a estratosfera, e de lá buscou o silencio e a paz que tanto queria. Porém ainda não era o suficiente pra amenizar a sua dor. Por um momento, Danyael pensou que não conseguiria chorar mais. Que ele não tinha mais lágrimas pra derramar. Mas isso era um mero engano. Após atravessar um oceano e voltar até o local onde ele e Lilith se encontravam escondidos, foi uma facada no coração.
O anjo observou o local do alto morbidamente. Aos poucos foi descendo. E a cada metro em que se aproximava, mais seu peito doía. O local não havia mudado em absolutamente nada em quase oito anos. Parecia uma pintura velha de um quadro esquecido no fundo do porão. Triste, sujo e deprimente. Mas extremamente carregado com emoções daqueles que o pintaram.
E são as lembranças de Danyael que pintam aquele cenário. Que acresciam cenas tão felizes, mas ao mesmo tempo tão sofríveis para ele. O carro estacionado. Eles dois deitados no banco de trás. Dois jovens que não sabiam nada da vida observavam as estrelas. Danyael olhava para os seus próprios olhos no passado.
“Eu era tão inocente…”
“Não sabia nada da vida.”
“Era um louco varrido guiado apenas pelas emoções.”
Emoções estas que agora o corroíam por dentro. Seus pés descalços encostaram-se à calçada e logo foram seguidos pelos joelhos. Depois suas mãos encontraram o chão. Uma gota d’água caíra.
Não era chuva.
O céu estava limpo.
Mas Danyael se convencia de que era.
Ele tinha que se convencer disso…
To be continued…