Episódio Não Revisado!
Londres de Trevas
:: Terceira Temporada ::
Episódio LIV
Brother
“Não sei bem por onde começar. Eu sei que você deve estar com muitas dúvidas, mas infelizmente não posso esclarecer muita coisa. Se você estiver vendo isto quer dizer que eu deva ter morrido. Quero que saiba que sua amizade foi uma das únicas coisas boas que tive na vida.’
‘Estou com pouco tempo… Logo ele estará aqui. Gostaria muito de pedir pra que não continue as investigações, mas sei que isso será impossível. Por isso, escute atentamente o que eu irei lhe dizer. Primeiro: Nunca mencione o nome Dele. Em lugar nenhum e em hipótese nenhuma! Segundo: Não confie em ninguém! Entenda bem: ninguém. E por último: Confie em seus Poderes Psíquicos!’
‘Nick, descubra quem fez isso comigo. Você é o único capaz!”
Domingo, 27 de Setembro de 2028. 19h00min.
Oxford, Inglaterra.
O garfo e a faca pousam lentamente sobre o prato. As últimas palavras de Erick ecoam todos os dias na mente de Nick. Já se passaram exatamente dois meses desde que ele morreu, e mesmo querendo muito, o jornalista não conseguiu se quer começar as investigações. A imagem do verdadeiro mandante dos assassinatos ainda o assombra todas as noites. Tawnee, sua esposa, obviamente percebeu que Nick estava estranho:
— Não vai terminar de jantar?
— Estou sem fome. – respondeu soturno, sem tirar os olhos do prato.
— Aff… - suspirou Tawnee. – Nick, por favor… Eu sou sua mulher! Se você não confia em mim, em quem mais poderá confiar?!?
— A questão não é confiança, Taw. É promessa. Eu fiz uma promessa e vou cumpri-la.
— Deus!!! – exclamou a moça levantando-se da mesa. O refeitório do pensionato estudantil estava cheio e muitos alunos perceberam a exaltação de Tawnee. Mas mesmo doida pra explodir ali mesmo com o marido, ela respirou fundo e retrucou terminando a conversa: - Ótimo! Faça o que achar melhor!
— Aonde você vai?!?
— Vou para Londres.
— O que?!? Está maluca?!?
— Faz mais de dois meses que venho e volto de Londres e nada acontece. Não vai ser agora que irá acontecer!
— Você só pode estar brincando!!!
— Aaahh! Você se preocupa comigo?!
— É claro que me preocupo! Que pergunta mais besta!
— Pois não parece! Se se preocupasse não faria isso comigo!
— Isso o que?!?
Ela teve que conseguir juntar muitas forças para não chorar:
— Deixar de confiar em mim…
Nick baixou a cabeça novamente. Só Deus sabe como ele queria poder contar. Mas não podia…
— Taw… por favor… não faça isso comigo… Eu fiz uma promessa.
— Dane-se sua promessa. Estou indo para Londres.
— Eu vou com você.
— Ótimo!
Ao saírem do refeitório o casal foi seguido pelos olhares dos alunos da faculdade. A mãe de Tawnee, dona da pensão, também viu e ouviu tudo e estava completamente desgostosa com aquilo. Juntos, Tawnee e Nick foram para o quarto. Ao chegarem lá, ela foi logo arrumar uma pequena mala e ele apenas trocar de roupa. Claro que o silencio não poderia durar muito tempo:
— Taw…
— Diz.
— O que você irá fazer em Londres à essa hora da noite?
Ela estava louca pra ficar calada e deixá-lo sem resposta, tal como ele vinha fazendo nos últimos meses, mas decidiu o contrário:
— Vou pra casa da Keira.
— Já tiveram algum sinal do James?
— Não.
— Ela te ligou pra que você fosse pra lá?
— Sim.
— E você pode ajudar em alguma coisa.
— Eu acho que não.
— Então porque você vai pra lá logo hoje em especial?
— Por que ela me ligou e ela é minha amiga.
— Certo. ‘Tá certo…
Colocando a pequena mala sobre a cama e fechando, Tawnee concluiu:
— E também por que quero ficar um pouco longe desse seu eterno luto pela morte do Erick.
— Falando assim até parece que está insinuando algo!
— Você está assim desde que descobriu que o Erick morreu na explosão da “Júpiter’s”! Você quer que eu pense o que?!
— Ele não mo… - Nick ia dizer. Ia quebrar a promessa. Mas se conteve.
— “Ele não” o que Nick? O que você ia dizer?!
— Nada. Esquece. Vamos logo porque eu quero voltar à Oxford no último trem.
O relacionamento entre os dois não poderia estar pior. Logo Nick e Tawnee, que falavam pelos cotovelos, calados que nem velório. Tawnee se despediu de sua mãe e juntos, sem falar nada um com o outro, seguiram até a estação de trem.
*****
Mesmo durante a viagem, a voz de Erick ainda ecoava na mente de Nick. A paisagem noturna dos campos da Inglaterra faziam-no ir e voltar constantemente no passado. Nos momentos em que Erick e ele investigavam sobre os assassinatos. Sobre suas suposições. E, mais do que isso, sobre quem deveria se confiar ou não. Claro que Tawnee era de extrema confiança, mas… Erick pediu pra que não falasse nada para ninguém. Nick ainda não sabia o porquê disso, mas ele iria cumprir com sua promessa. Apesar disso, Tawnee tinha todo o direito de ficar chateada com ele. Ele devia confiar nela, mas sabe lá Deus porquê ele não podia contar pra ninguém.
Nick tava começando a ficar tão paranóico quanto o Erick era. Ele olhava em volta. Observava outros passageiros e começava a imaginar uma terrível conspiração ao seu redor. “E se tivessem agentes disfarçados?”. “E se o ‘Inominável’ tivesse controlando a distancia cada uma dessas pessoas?”. “E se ele já sabe que ele sabe de tudo e fizer com que esse trem descarrilar num trágico acidente?”. “E se na verdade Nick mal levantou da cama. Está vivendo um sonho produzido pela mente poderosa do ‘Inominável’ como no filme Matrix?”
“Oh Deus…”, suspirou o jovem jornalista. Ele já estava pra enlouquecer. E Tawnee nem prestava atenção em seu sofrimento. Estava ela desligada do mundo escutando seu iPod. Ainda faltava algum tempo até chegar à capital. Até lá Nick queria poder ter alguma idéia pra começar as investigações.
— Que frio! – exclamou Tawnee.
Nick também havia percebido isso. De repente o clima havia baixado. Sua esposa logo se levantou e buscou a mala. De dentro tirou dois casacos. Um deles ela entregou para o marido.
— Você…
— Como sempre, só eu me lembro de trazer agasalho.
— Ah… obrigado.
Novamente o fantasma do silencio ficou entre eles. Mas Nick tentou afastá-lo:
— He! Estranho né? Pleno verão e esse frio.
— É…
— …
— …
— Clima doido. Sabia que nevou no Brasil?
— Nossa!
— É… Também está fazendo calor de 30 graus na Rússia.
— O pessoal lá deve estar fritando.
— Com certeza.
— …
— …
— Você vai ficar muito tempo na casa da Keira?
— Não sei.
— Tome cuidado.
— Terei.
Na estação final, Nick e Tawnee se despediram. Nick reforçou pra que sua esposa tivesse cuidado, mas logo sua preocupação foi reduzida quando viu que Matthew e Keira vieram pessoalmente buscá-la. Eles eram Agentes Iluminados e com certeza saberiam tomar de conta de sua esposa. Depois de uma breve despedida, Nick fez menção de que iria retornar a Oxford no próximo trem.
Mas ele havia mudado de idéia.
Seguindo por um caminho oposto, Nick pensou que esta seria uma ótima oportunidade pra começar as investigações. Tawnee estava segura. Ele precisava de uma vez por todas por um fim naquela história. Mas ao chegar na rua ele parou. Afinal de contas, por onde ele iria começar?!
Nick tinha poucas informações. Claro que ele sabia exatamente quem era o Mandante dos assassinatos, afinal ele viu toda a cena da morte de Erick. Mas o que ele poderia fazer agora? Ele não tinha provas. Ele não tinha argumentos. Ele se quer tinha forças para competir com o “inominável”.
“Por que não se pode mencionar o nome Dele?”, questionou-se Nick.
Talvez esse fosse o primeiro passo a ser dado. Investigar o mandante, mesmo que fosse de longe. Mas primeiro ele deveria seguir exatamente o que Erick lhe aconselhou. Nick não podia, em hipótese nenhuma, mencionar o nome do Mandante. Por quê? Era o que ele teria que descobrir.
Entrando no primeiro táxi vago que encontrou, Nick sabia exatamente para onde iria:
— Regency Street, por favor.
— Sim, senhor.
*****
Regency Street. 22h00min.
Após cruzar meia cidade, finalmente Nick estava no “covil do dragão”. Chegar até lá foi fácil. O problema agora era saber o que fazer agora. Com certeza ele não iria bater na porta do apartamento da família Kimble a essa hora da noite pra fazer qualquer tipo de pergunta. Ele até perdeu as contas de quanto tempo ficou ali para na calçada da Regency Street observando o prédio de 21 andares onde o Inominável morava.
“Será que ele sabe que eu estou aqui?”, pensou intrigado. “Ele é um arquimago. Pode ter um senso de premonição apurado!”. Inconscientemente Nick fechou os olhos. Encostou-se no muro do prédio atrás dele e se concentrou. Era como se algo tivesse pra vir à tona. Algo muito secreto e misterioso. Algo que estava dentro dele. Dentro de sua mente.
Como uma bolha emergindo na superfície de um lago, uma estranha imagem lhe veio à mente. Não parecia um sonho, nem muito menos uma lembrança. Era algo mais nítido e real, porém nunca antes visto por Nick. Era uma imagem que se prendia em detalhes. E esses detalhes mostravam coisas muito próximas daquilo que estava ao redor de Nick.
“Um carro preto.”.
“Uma família atravessando a rua.”
“Uma senhora reclamando do frio.”
“Um rapaz de mochila escutando música num iPod.”
Nick então abriu os olhos. Ele literalmente não entendeu nada do que acabou de experimentar. Mas foi algo incrivelmente surreal. Porém, a verdadeira surpresa ainda estava por vir…
Como num déjà vu, diante de Nick passou exatamente o carro que ele tinha visto em sua mente. O mesmo carro preto. Parecia cena de um filme repetido. Parecia que tinham rebobinado da fita e mostrado a mesma cena duas vezes. E pareceu que não ia terminar por ai. Os pelos de seu braço logo se arrepiaram com a estranha cena que acontecia ao seu redor.
Uma família, exatamente como ele viu em sua meditação, duas senhoras, uma moça e um menino atravessaram a Regency Street assim que o carro preto passou. Logo em seguida, um rapaz de mochila passou ao lado de Nick escutando um iPod. Do outro lado da esquina uma senhora praguejou: “Maldita cidade! Até no verão faz frio…”. Tudo aconteceu exatamente como ele previu. Assustado, Nick foi até um carro que estava estacionado e escorou sobre o capô.
— O que está acontecendo aqui? O que foi que aconteceu comigo?! Será que…
Com um pouco de calma e lembrando-se das palavras de seu falecido amigo, Nick encontrou a única resposta plausível:
“Confie em seus poderes psíquicos.”
— Será que… Será que agora… além de poder ver eventos do passado eu também posso ver eventos… do futuro?!?
Quando a idéia de ter novos poderes veio à tona, Nick então recordou de seus colegas do grupo P.S.I., pra pessoas especiais. Ele se lembrou do Robert, que podia conversar com animais. Da Jenny, que tinha o poder de hipnotizar as pessoas. O Saulo, que com sua psicocinese, movia objetos apenas com a força da mente. E tinha o Johnny. Esse era o mais perturbado de todos, pois ele não conseguia viver junto com a sociedade, pois ele simplesmente sabia tudo que ia acontecer. Absolutamente tudo. Ele tinha um avançado poder de Precognição.
Talvez seja isso que Nick esteja desenvolvendo. O próprio mentor do grupo, o senhor Scott, tinha dito a ele que Nick poderia ser muito mais especial que os outros, pois sua mente era a mais desenvolvida. Ele poderia ter muito mais capacidades psíquicas do que qualquer outro, graças a sua incrível talento de aprendizado rápido.
— Se é isso… - disse consigo. — Então está na hora de por em prática esse poder.
Fechando os olhos novamente, Nick se concentrou naquela sensação que teve minutos atrás. Aquela sensação de poder transportar sua alma para fora de seu corpo e deixar que ela seja carregada pelas correntezas do Tempo. Entretanto, ele precisava se concentrar num foco. Ele tinha que ter algo fixo em mente se não poderia ver coisas que não ajudariam em nada.
Nick se concentrou durante alguns segundos. Um momento que pode ter sido rápido, mas que pareceu eterno para ele. Mas, acima de tudo, incrivelmente produtivo. Nick sabia exatamente qual seria o seu próximo passo.
*****
Numa das esquinas da Regency Street, perto de uma bifurcação com a Rutherford street, havia um mercado. Não era de grande porte, porém atendia as necessidades dos moradores da região. Nick foi levado até lá único e exclusivamente por sua precognição. Era exatamente como ele tinha previsto: um mercado com portas azuis, algumas pessoas fazendo compras, o caixa atendendo os clientes e… o principal… a família Kimble lá dentro fazendo compras.
Nick seguiu exatamente o roteiro. Seguiu até o mercado, buscou uma cesta, e dentro colocou uma garrafa de refrigerante, pão e um enlatado de salsichas. Terminara ali a sua previsão. Ele estava no corredor oposto da Família Kimble. Nick seguiu até eles. Reparou que estavam todos concentrados nas compras. Discretamente, e quase inaudível, Nick se arriscou em fazer seu primeiro teste:
— Eriol.
Ele mal tinha pronunciado o nome. Nem ele mesmo escutou direito. Entretanto, pra sua surpresa, aconteceu aquilo que ele esperava: o Diácono Eriol VonBranagh desviou a atenção e olhou diretamente para ele. Parecia até que Nick o havia chamado em voz alta.
Pra não ficar constrangido, entrou em cena “Nick, o ator”:
— Professor VonBranagh?!?
Abrindo um sorriso, Nick se aproximou deles. Junto com o Diácono estavam Danyael, Stephanie e o pai e a mãe dos dois. Nick praticamente não conhecia os pais de Danyael, mas tinha um bom contato com Stephanie por causa de Tawnee.
— Polansk? Nick Polansk?! Que surpresa em vê-lo aqui, meu jovem!
— Digo o mesmo! Estava indo pra Oxford e resolvi levar umas comprinhas lá pra casa.
Nick não podia mentir. Ele sabia muito bem que o Diácono era capaz de detectar mentiras. Talvez tenha sido por isso que ele pegou exatamente o que tava faltando em sua dispensa particular.
— Olá, Danyael. Olá, Stephanie. – cumprimentou o rapaz. – Vocês devem ser o Senhor e a Senhora Kimble, correto?
— Sim.
Stephanie então se adiantou:
— Este é o Nick. Amigo nosso de Oxford. Parece que ele também ajudou bastante durante a Guerra!
— Ah… que nada! Eu não fiz nada demais. Ah… eu sei que é difícil tocar no assunto, mas… eu gostaria de oferecer meus pêsames aos dois.
Stephanie esboçou um sorriso:
— Obrigada.
Danyael apenas fez um sinal com a cabeça.
— Bem… hã… Então eu já vou indo.
— Espere, Nick. – chamou Eriol. – Eu fiquei sabendo recentemente o que aconteceu com o Erick.
— É…
Pra surpresa de todos, Danyael se pronunciou:
— O que foi que aconteceu com o Erick?
Nick não sabia que Danyael e Erick se conheciam, mas não vinha ao caso agora...
— Bem… Sabe a explosão do prédio da Jupiter’s Corp.?
— Sim.
— Ele morreu nesse dia. – Ele tomou todo o cuidado na escolha das palavras. Não podia mentir. Mas podia “omitir” alguns detalhes.
— Até ele morreu nesse dia. – disse Danyael bastante soturno, deixando todos sem jeito. — Eu espero que ele descanse em paz. Queria me desculpar por não ter ido ao enterro, mas… eu não sabia.
— Ah… Tudo bem, Danyael. Nem eu mesmo sabia que vocês se conheciam! Mas tenho certeza que esteja onde estiver, ele ficará agradecido pelos seus pêsames.
Antes de Nick fazer sua despedida, Eriol o chamou:
— Nick… Você por um acaso sabe como anda as investigações? Eu fiquei sabendo que Erick e você estavam juntos descobrindo pistas sobre o assassino de anciões.
— Não, senhor. Infelizmente o que eu sei é pouca coisa. Erick me contava algumas coisas, mas nada demais. Muito por causa d’eu morar em Oxford por causa dos Vampiros.
— E o que você sabe?
— Fiquei sabendo do padrão do assassino. Que o objetivo dele é desestabilizar o Arcanorum e… - Nick tinha que tomar muito cuidado agora. – E que ele estava deixando pistas estranhas. Um tipos de dados.
— Dados?
— Sim. Erick estava atrás desses dados. Parece que no dia da explosão ele teria encontrado uma pista muito boa, porém… o resto vocês já sabem. Ele não teve a chance de me contar muita coisa. Eu estava à caminho de Oxford nesse dia.
— Entendo.
— Bom… se me dão licença, já vou indo. Tenho um trem pra pegar.
— Tchau, Nick. – despediu-se Stephanie.
— Falou! – seguido por Danyael.
E Nick se enfim se afastou do grupo. Após pagar suas compras, pegou um táxi, deixando a Regency Street para trás.
— Qual o destino, senhor?
— Eu… - ele não sabia pra onde ir. – Leve-me para a City.
— Você é quem manda!
*****
Leadenhall Street. 22h50min.
Ainda era impossível se aproximar da região onde ficava o prédio da Jupiter’s Corp. A St. Mary Street Axe, rua onde se situava o edifício, era bastante estreita com vários outros edifícios fazendo vizinhança. Mesmo depois de dois meses, o cenário era de destruição, muita fumaça e bombeiros trabalhando dia e noite pra apagar as persistentes chamas. O número de vitimas desse atentado já alcançara a quinhentos, mesmo tendo sido considerado um “acidente de sorte” pelos especialistas.
De acordo com as informações coletadas, a explosão, mesmo com proporções colossais, só não foi pior por causa do horário do ocorrido. Pouquíssimas pessoas andavam pelo centro financeiro de Londres àquela hora da noite, ainda mais naquele dia considerado “estranho” pra muitos que investigam o caso. Mesmo que a movimentação urbana da região caia mais de 50% depois das vinte e três horas, naquele dia, por alguma razão inexplicável, caiu pra quase 90%. Literalmente não havia uma alma viva perambulando naquela região entre a zero hora do dia 24 de Junho até a uma hora da manhã do dia seguinte. Mistério ou não, muitos consideraram “muita sorte”. Por toda a rua, cartazes informativos avisavam que haveria um show beneficente no Wembley Arena em prol das vítimas da explosão. O Show seria com uma das bandas de rock mais famosas do momento: Snow White in Poison. Nick não curtia muito a musica deles, achava um tanto “moderna” demais, mas pelo menos a causa era nobre. Mas para ele aquela catástrofe tinha outro significado.
Até umas semanas atrás Nick estava tão atônito quanto os investigadores, mas hoje o seu palpite é outro. Após se reencontrar com o Diácono ele se lembrou da pessoa boa e altruísta que ele era. Obviamente ele não o perdoou pelo assassinato de seu melhor amigo, mas ele tinha que levar alguns pontos em consideração.
Era uma certeza para Nick que o Diácono nunca iria colocar em risco a vida de pessoas inocentes, independente do que fossem seus planos. Com certeza a explosão era direcionada apenas para matar os Grão-Mestres. E, obviamente, ela não foi arquitetada por ele. Talvez prevendo o terrível desastre que ia ocorrer, ele deve ter jogado um feitiço poderoso no bairro capaz de afastar as pessoas mundanas. Nick já tinha visto o Erick fazer algo parecido, porém em menor escala. Claro que era impossível evitar que algumas pessoas morressem nesse atentado, mas com certeza ele evitou que um “11 de Setembro” ocorresse na capital britânica.
Mas, voltando ao assunto, se ele é tão altruísta assim, por que ele assassinou Erick à sangue frio? Não tinha explicações. Ele podia muito bem explicar seus motivos, contar qual era o seu plano mirabolante como um bom vilão, mas não simplesmente chegar e matá-lo sem qualquer explicação. Isso era o que mais perturbava a mente de Nick. Por que o Inominável matou o Erick?
Será que o Erick iria frustrar tanto assim seus planos que se ele não o eliminasse logo seria difícil mais tarde? Ou será que o Diácono não é nada disso que as pessoas pensam que ele é. Será que ele na verdade esconde um lado negro, vil e egoísta, e que toda essa história de bom moço, defensor da verdade, o Paladino de Londres, não passa de uma encenação? Se for isso, decididamente Nick o consideraria o pior tipo de Ser Humano que poderia existir.
Depois do teste no mercadinho da Regency Street, Nick entendeu perfeitamente o porque de não poder mencionar em hipótese nenhuma o nome do Inominável. Fossem seus incríveis poderes mágicos ou algum tipo de ritual antigo, a verdade era que, se em algum lugar do mundo, em qualquer momento, fosse pronunciado em voz alta o seu nome, ele saberia quem o chamou.
Talvez tenha sido assim que ele tenha descoberto que Erick sabia que ele era o Mandante. Com certeza ele deve ter pronunciado o nome dele e assim atraído a atenção do Diácono. E, por isso também, que Erick alertou para que Nick não mencionasse o nome dele. “Em momento algum e em hipótese alguma”. Isso, Nick entendeu perfeitamente. E também deixou o jovem mais tranqüilo. Ele poderia falar sobre as investigações e seus planos, apenas teria que tomar cuidado em não mencionar o nome dele.
Foi caminhando ao redor da faixa amarela da policia que de repente algo chamou a atenção de Nick. Não era algo normal. Era como se fosse um sexto sentido avisando-lhe que algo perigoso estava por perto. O jovem psíquico imediatamente olhou na direção exata de onde emanava essa sensação.
Um homem bem apresentável surgiu das sombras e se aproximou:
— Boa noite.
— Boa.
— Não sei se me conhece, mas eu me chamo Nathaniel Thornham.
— Eu sei quem você é. É o Primus do Conselho Vampírico de Londres. Foi o senhor que decretou a Caçada de Sangue a mim e meus amigos.
— Sim, isso é verdade. Mas vim em paz. Só pra adiantar, a exatamente um mês eu removi os seus nomes da Caçada. Caso algo aconteça à você e sua esposa, pode ter certeza que não terá sido por ordens minhas.
— Isso devia me sentir melhor?
— Eu não sei. Estou apenas informando, meu jovem rapaz psíquico.
— O que você quer comigo agora, Sr. Thornham?
— O mesmo que você, meu rapaz. Que a Verdade venha à tona.
— Não sei do que está falando.
— Sabe. Eu sei que sabe.
Nick então desconfiou.
— Naquele dia seu melhor amigo Erick havia descoberto quem era o Mandante desses assassinatos. Possivelmente também havia descoberto quem era o Assassino. Entretanto, tal conhecimento trouxe a sua morte. Eu também sei de muitas coisas, rapaz. Eu mesmo ajudei o seu amigo em suas investigações. Estou aqui fazendo esse favor novamente à ele, ajudando-o.
Nick não respondeu de imediato. Ficou pensativo. Era verdade o que o vampiro dizia. O próprio Erick confirmou dizendo que ele só voltou à Estação de metrô onde tudo começou por causa de uma pista dada por Nathaniel. E pensando bem, vendo pelo lado político da situação, denunciar o Diácono de assassinato seria a cartada perfeita de Nathaniel colocando assim os Vampiros numa posição de destaque dentro da sociedade sobrenatural.
Mas se tal informação é tão valiosa, por que ele já não fez isso antes? “Ele está blefando”, pensou Nick convicto. “Provavelmente ele acredita que eu sei quem é o Mandante. Que de alguma forma o Erick me avisou antes de morrer e está aqui agora querendo tirar essa informação de mim.”
“Não confie em ninguém!”, foi isso que Erick lhe disse em seu post-mortem. E é isso que ele irá fazer.
— Infelizmente, Sr. Thornham, eu não sei de nada. Bem que eu queria saber. Bem que eu queria poder denunciar o filho da puta que matou o meu melhor amigo, mas infelizmente eu não sei. É por isso que estou aqui. Eu não acredito que o Erick morreu por causa da explosão. Eu acho que algo “mais” aconteceu. E eu irei descobrir.
Mesmo sendo mentira, o argumento banhado de interpretação quase artística de Nick tinha dado certo. O vampiro até cogitou em ler a mente dele, mas desistiu. O olhar de Nick era firme, verdadeiro e completamente inocente. Com séculos de experiência nas costas, com certeza o garoto não estava mentindo para ele.
Bem… era o que ele pensava.
Nick vibrava por dentro. Mas o mérito não era apenas de sua interpretação. Nick não sabia, mas seus poderes psíquicos haviam evoluído de tal modo que sua barreira mental contra invasões era quase impenetrável. Essa era a maior diferença entre magia e psiquismo, e que só vésperas da morte Erick foi se dar conta. Seu amigo tinha uma vantagem enorme sobre os outros e apenas precisava confiar mais em si mesmo.
— Eu entendo. Eu pensei que você soubesse. Afinal os dois andavam sempre juntos.
— Corrigindo: “Nem Sempre”! Por causa da Caçada de Sangue imposta pelo senhor tive que me esconder durante meses em Oxford. Erick agia praticamente sozinho aqui na capital. Eu apenas ficava sabendo dos resultados. Infelizmente, parece que ele não teve tempo de contar as novidades naquele dia.
— Sim. Então deixo meus pêsames e meus sinceros votos de desculpas. Acho que terei que descobrir por meus próprios meios, se não o futuro da Família estará em sério risco.
— Os vampiros estão em risco? Por quê?
— Acho que por morar numa cidade de interior acabou deixando-o desinformado, meu caro jornalista.
— Infelizmente.
— Neste exato momento estamos em plena Guerra Civil.
— O que?!?
— Pode não parecer, afinal estamos de falando de uma Guerra Secreta, mas nos submundos do sobrenatural todas as facções estão lutando entre si pra tentar evitar a própria extinção. Os assassinatos dos anciões chegaram ao seu nível mais critico. Sem qualquer pista de quem possa ser o assassino, as Sociedades Secretas estão destruindo umas as outras numa tentativa quase ensandecida pra evitar o pior. Os Grão-Mestres estão apavorados. Os Conselheiros do Arcanorum que ainda estão vivos temem noite e dia por suas vidas. E no meio de todo esse desespero, eles colocam todos os neófitos e discípulos pra guerrearem. As pessoas não vêem, mas todos as noites as ruas de Londres é lavada com sangue.
Nick estava perplexo. Ele sabia que os assassinatos poderiam causar tudo isso, mas não tão depressa. Foi exatamente como Erick previu. O assassinato dos anciões foi apenas estopim. A bomba já explodiu e ninguém mais está seguro nesta cidade. Agora, sem duvida nenhuma, era preciso descobrir quem era o verdadeiro assassino.
— Já está em boa hora. Agradeço sua atenção.
— Ah, tudo bem. Tome cuidado por ai.
— Eu tomarei. Passar bem, Sr. Polansk.
*****
Edifício Tower 42. 23h20min.
Sua mão direita pousou lentamente até o chão. Concentrado, Nick precisava fazer mais um teste. O ultimo teste. Já foi provado o porquê de não poder mencionar o nome Dele. Também ficou entendido o recado sobre “não confiar em ninguém”. Restava agora testar o último conselho.
Quando sua concentração psíquica chegou ao seu ápice, Nick foi banhado por uma aura verde néon. Em poucos instantes ele retornaria praquele dia e horário fatídico. O dia em que a verdade veio à tona.
O show já estava pra começar...
Domingo, 25 de Abril de 2028. 00h50min.
A magia foi um sucesso. Por ser bem pequeno e estando camuflado por causa da enorme nuvem de fumaça, o pequeno dado roxo perolado veio até a mão de Erick voando. Ao olhar para o dado, sua suspeita enfim foi encerrada: Erick sabia quem era o mandante de todos esses assassinatos.
Um barulho estranho surgiu por trás de Erick e imediatamente ele se levantou. Quando viu quem era, tomou um susto. Mas… sabendo exatamente de quem se tratava, não era na verdade nenhuma surpresa que ele soubesse exatamente quando, como e onde Erick descobriria o seu terrível segredo.
Era uma sensação muita estranha estar diante daquele homem naquele momento:
— Você me enganou. Esse tempo todo você me enganou.
— Era necessário.
Pela décima vez Nick observava aquela cena do passado. Como numa peça de teatro, Nick sabia exatamente quais seriam as falas e movimentos dos dois personagens. Esse era o momento chave quando, mesmo sabendo dos riscos, Erick enfrentou seu superior:
— Se você sabia que eu ia descobrir, por então no inicio me ajudou e me confiou as investigações desses assassinatos?
— Volto a dizer, Sr. Russell. Era necessário.
— Você sabe que mesmo sendo o Senhor, eu não me calarei.
— É justamente por isso eu estou aqui.
O Inominável sabia de tudo. Sabia que naquele dia e naquele horário seu segredo seria revelado. Talvez isso fosse óbvio. Ele é um Arquimago. Controla poderes inimagináveis. Com certeza seu jogo de Tarot deveria dizer muito mais coisas do que predizer sua sorte no amor e no trabalho.
— Eu não entendo, Mestre… Por que? Por que você vem fazendo isso tudo desde o inicio? Por que dessa forma tão radical?
— Há certos momentos em nossa vida que nós precisamos ser radicais.
— Eu não entendo… Se era você por trás disso tudo desde o inicio, por que existe uma certa falta de ligação entre os primeiros assassinatos?
— Eu não ordenei o assassinato de Vincent. O assassino fez isso a mando de outra pessoa.
Nick não sabia dessa. Não sabia que não havia ligações entre os primeiros assassinatos. Erick era bom. Talvez já soubesse disso faz tempo, apenas não tinha como provar. Mas então, quem matou Vincent Vaugh?
— Quem?
— Nin Soo Yan. Que mais tarde pagou com a vida por ter exagerado em suas chantagens.
Um nome a mais no jogo. Porém esse foi o segundo à ser empacotado. Com certeza tinha caroço nesse angu.
— E a Princesa?
— Ela sim estava no lugar errado e na hora errada. O assassino também tinha suas razões para eliminá-la.
— E depois?
— Foi a partir daí que eu entrei no jogo, vendo que somente dessa forma eu poderia dar um jeito nessa cidade tão corrupta e sem esperança.
É nesse ponto que Nick ficava intrigado. Nessa fala absurdamente Paradoxal do Inominável. Que ele era considerado um Paladino todo mundo já sabia. “Limpar a cidade”, mesmo que fosse de forma pouco ortodoxa, também poderia ser aceitável vindo dele. Afinal, todos em Londres depositavam suas esperanças nele. Então… por que a história terminou dessa maneira:
— Eu não entendo… o que há de tão necessário em você me enrolar todos esses meses nessa investigação?
— Por que… ao contrário do que os outros pensam, eu não evito ficar longe de saber o que acontece no passado, no presente e, principalmente, no futuro. Eu já tinha previsto esta nossa conversa antes e pra que esses benditos dados desaparecessem ou não caíssem em mãos erradas…
Foi nessa hora que Erick se lembrou de sua mãe doente no hospital…
— …Você armou tudo isso para que eu descobrisse os dados e depois pudesse apagar as provas.
— Exatamente.
Erick agora respirava fundo.
— Eu juro, Erick Russell, que eu não queria ter que fazer isso. – o mago agora sacava a sua varinha prateada com entalhes dourados e apontava para o investigador. – Mas é tudo para um bem maior. Perdoe-me.
E Nick novamente assiste de camarote seu amigo ser assassinado sem poder fazer nada. Um sentimento culpa e ódio misturava-se dentro dele vertiginosamente. Como ele queria poder fazer alguma coisa. Tirar o Erick do trajeto da arma. Pular em cima do Inominável. Ou no mínimo evitar que Erick fosse praquele edifício naquela noite. Mas não tinha nada que se pudesse fazer. Nick não podia viajar no tempo. Não podia alterar o passado. Ele era apenas um espectador dos fatos.
Depois que Erick enfim tomba e seu sangue se esvai junto com sua vida, Nick fixou sua atenção no assassino. Prestou atenção em cada detalhe. Em cada gesto. Em cada nuance de sua face. E isso frustrou ainda mais o jovem jornalista:
— Esse filho da puta matou o Erick sem um pingo de remoço.
O assassino de Erick já havia guardado sua varinha prateada quando começou a se retirar do local. Essa era a chance de Nick por em cheque suas duvidas e suspeitas. Era tudo ou nada:
— ERIOL!!!
Ele gritou. Precisava gritar. Suas emoções borbulhavam em lava fervente. Ele tinha que saber. Tinha que por em cheque sua maior dúvida: Magia versus Psiquismo. Era tudo ou nada.
Eriol seguiu seu caminho até a saída e fechou a porta deixando Erick (e Nick) sozinho na cobertura da Tower 42. Parecia que o tempo havia parado. E realmente havia, pois a duração do poder temporal de Nick havia acabado. Como um castelo de areia o passado foi se desmanchando sendo substituído pelo presente. Ele ainda estava pasmo.
— D-deu… deu certo. Deu certo. Deu certo!!! – dando um soco no ar, Nick não conseguiu segurar sua euforia: — DEU CERTO!!!
“É por isso que o Erick voltou atrás com suas palavras e assumiu que existia diferenças entre magia e psiquismo!”, pensou ainda enérgico. “Por isso ele mandou eu confiar em meus poderes!”, com a mão na boca e olhando para o céu concluiu:
— É por isso que ele disse que sou o único capaz de descobrir quem é o assassino!
Estava claro e evidente agora. Nick sabia que o “Inominável” era poderoso. Que ele tinha poderes capazes de deixá-lo praticamente onipresente. Mas por causa do pouco crédito dado aos poderes psíquicos pela sociedade sobrenatural, que sempre a julgou como sendo apenas “magia mal utilizada”. Agora estava provada a diferença entre as duas. O maior arquimago da atualidade é incapaz de pressentir a presença de um poder psíquico sendo utilizado, mesmo este estando debaixo de seu nariz.
Agora chegou a hora de trabalhar. Já que ele não tinha mais que se preocupar com os vampiros e nem com o Inominável (claro que mantendo o cuidado), Nick podia enfim iniciar as investigações. Não apenas isso, ele precisava terminar aquilo que Erick começou. As palavras de seu amigo ainda ecoavam em sua mente:
“— Você sabe que mesmo sendo o Senhor, eu não me calarei.”
Não havia mais dúvidas. Sozinho, Nick respondeu à memória de Erick:
— Não meu amigo, você não irá se calar. Eu serei a sua voz.
*****
— Eu preciso de sua ajuda, Sebastian.
— Já falei que não estou interessado.
— Não é pra mim, cabeção! É pro Erick!! Nós devemos isso a ele!!!
— Nós?! Eu não me lembro de ficar devendo nada a ele.
— A menos de cinco meses atrás nós estávamos juntos enfrentando os Iluminados. Éramos amigos! Te ajudamos várias vezes!
— Eu não me lembro de ninguém ter me ajudado. Pelo que eu saiba, fui EU que ajudei a tirar o traseiro de vocês dois do perigo! Fui eu que fui atrás do Erick quando ele foi seqüestrado. Fui eu que dei cabo daquele exército sozinho. Eu que tive que lutar contra os vampiros.
— Sebastian… O Erick fez tudo pra te ajudar. Na Assembléia do Arcanorum ele testemunhou em sua defesa.
— Não foi ele que me defendeu. Foi o Sr. VonBranagh.
Nick já estava perdendo a paciência. Ele sabia que Sebastian tinha um Gênio muito complicado de se lidar, mas ele já estava passando dos limites. Talvez tenha sido realmente uma péssima idéia tê-lo procurado.
— ‘Tá certo, Sebastian. Esquece tudo o que eu falei. Passar bem.
Nick passou ombro a ombro com Sebastian sem trocar se quer um olhar. Quando se aproximou da porta de entrada do apartamento ele parou. Naquele momento várias lembranças dos dias que os três compartilharam vieram à sua mente.
— Desde o inicio ele estava designado a ficar te vigiando. Ele foi o único que acreditou em você, mesmo quando todas as evidências diziam o contrário. Ele arriscou a própria vida pra provar que você não foi o causador da explosão do ônibus em Covent Garden. Arriscou mais ainda pra provar que você não matou a Princesa Vampira. E morreu, acreditando que mesmo você sendo o portador da Dark Sword, era a pessoa mais boa e fiel que ele conhecia.
Antes de sair uma troca de olhares finalizou a conversa:
— Meus parabéns, Sebastian. Você é agora um legítimo filho das trevas: sozinho e sem amigos. Que a benção dos vampiros lhe faça bem. E não se arrependa, pois não terá ninguém pra correr atrás de você arriscando a própria vida pelos metrôs da cidade pra impedi-lo de fazer besteira.
Nick saiu fechando a porta com força.
Descendo pelo elevador, Nick não conseguia tirar as palavras frias e egoístas de Sebastian da cabeça. E isso ainda entrava em conflito com as boas lembranças de quando os três passaram por grandes aventuras enfrentando desde tecnomagias até vampiros ensandecidos. Nick sentia-se traído. E pensar que um dia ele considerou aquele homem seu melhor amigo.
Realmente não havia algo mais complicado de se entender do que o relacionamento dos seres humanos. Na natureza é bem simples: existem predadores e presas. Carnívoros e Herbívoros. Aliados e inimigos. Tudo é bem simples, no preto e branco. Já com os homens a coisa muda. Existe o que chamam de “cor cinza” – não é nem preto e nem branco, é o meio termo. A humanidade toda é formada por pessoas que não são nem totalmente boas ou totalmente más. E é essa ambigüidade que destrói os laços de amizade.
Como saber se o que aquela pessoa quer é somente amizade? E se esta amizade estiver baseada apenas em interesses egoístas e fúteis? Ou ainda pior. Se podemos realmente acreditar que o que fazemos pelas pessoas elas fariam o mesmo pela gente. Nick não sabia responder essas perguntas, mas sabia que Erick tinha a resposta certa pra tudo.
Talvez fosse sua criação solitária como filho único de uma mãe doente. Sua infância muito pobre e que se não fosse a carreira policial não teria tido qualquer esperança de futuro. Talvez fosse isso, ou talvez não, mas era fato que Erick pensava sempre de forma positiva. Ele não pensava duas vezes antes de sair pra ajudar alguém. Ele não teve duvidas em pegar o carro e salvá-los dos ataques dos vampiros, muito menos em correr atrás de Sebastian pra evitar que algo de ruim acontecesse com ele. Ele acreditava piamente que o que ele fazia por seus amigos eles fariam por ele também. Esse era Erick Russell. Ele morreu acreditando nisso.
Quando as portas do elevador se abriram, Nick teve uma surpresa. Sebastian estava bem diante dele.
— Hã… Bem… Por aonde iremos começar?
Nick tomou um susto. Em seguida esboçou um sorriso. O espírito de Erick com certeza estava entre eles.
— Ok. Vamos voltar ao seu apartamento. Tenho algumas coisas pra lhe explicar.
*****
O tempo passou e três semanas se foram. Apesar de ter que se acostumar com os hábitos noturnos de Sebastian, Nick utilizou cada minuto empenhando-se na investigação. Claro que a essa altura dos acontecimentos, saber quem era o assassino e seu mandante nos assassinatos dos anciões era o de menos. Nick, como um bom jornalista, precisava de respostas. Ele precisava saber o porquê desses assassinatos.
Por mais que estourasse os miolos, Nick não encontrava razões no mínimo coerentes para o que o Senhor VonBranagh estava fazendo. Assassinar misteriosamente cada um dos Grão-Mestres do Arcanorum e ainda por cima jogar a culpa um nos outros apenas arrastou a sociedade sobrenatural para uma inevitável Guerra Civil. E falando nela, Nick teve grandes problemas nessas semanas que se passaram.
Apenas da ajuda de Sebastian, tinha ficado praticamente impossível andar por Londres. O terror estava solto em cada esquina. Eram carros explodindo misteriosamente. Prédios pegando fogo. Pessoas anônimas sendo encontradas mortas todos os dias pelos becos da cidade. Assaltos, seqüestros, violência em bares e pubs… o número de civis desaparecidos havia aumentado em mais de 100%. Todos os dias os jornais e redes de televisão noticiavam as mesmas catástrofes. E o pior disso tudo é que a verdade por trás da verdade jamais será revelada para a população.
E a guerra continua.
Foi apenas agora que Nick entendeu com amplitude todo aquele desespero de Erick com relação a esses assassinatos. Ele sempre falou em “Conspiração” e “Jogos de Poder”. Sempre acreditou que nada acontecia “por acaso” ou simplesmente “por capricho de um lunático”. Ele acreditava que esses assassinatos tinham um propósito maior e que certamente levaria a um destino trágico. Mas que destino seria esse?
Um remake da Guerra em Oxford? Era isso que a misteriosa Sociedade de Prometeu pregava no inicio dessa historia. Enviava misteriosamente a cada uma das Sociedades Secretas do Arcanorum mensagens falando sobre “A Guerra ainda não terminou…”. “De que guerra ele mencionavam?!”. Isso intrigava Nick todos os dias, pois por mais que eles estivessem em pleno momento de guerra, nada igual aquilo já havia acontecido na historia!
Ou será que não? Se formos analisar pelos fatos, a guerra em Oxford foi travada por duas entidades sobrenaturais. Independente de “bem” e “mal” naquele momento duas sociedades sobrenaturais com opiniões contrárias entraram em conflito e acabaram por causar grandes danos irreparáveis à população inocente que vivia na cidade, no caso Oxford. Talvez seja isso que esteja se repetindo em Londres: grupos de sociedades sobrenaturais contrárias entrando em conflito colocando em risco a população.
Outra coisa também intrigava muito o jovem jornalista. Ele tinha ficado agradecido à Deus por terem criado a internet, pois só assim ele pode guardar de forma segura alguns documentos importantes que foi coletando e um deles, que era sim muito importante, foi o e-mail que Sebastian recebeu diretamente da Sociedade de Prometeu cinco meses atrás.
Dentre os tópicos mais importantes destacavam-se os conselhos da Sociedade para o Sebastian:
- Cuidado com quem confia. (…)Muitas acreditam que você deveria se unir a elas para se opor aos Anjos que possuem o Portador da Light Sword como aliado - tolos. Queremos também afirmar que deveras permanecer ao lado de seus companheiros, Nicholas Polansk e Erick Russell, pois estes talvez sejam seus únicos e verdadeiros aliados.
Nesse conselho ficou claro que a Sociedade de Prometeu estava ciente dos acontecimentos e ainda conhecia com intimidade Nick e Erick pra poder indicá-los como confiáveis. Outra coisa que chamou a atenção, mas até agora está sem resposta é o fato deles acharem “tolice” uma aliança entre Sebastian e Danyael. Isso apenas afirmava mais que o portador da Light Sword pudesse ser o assassino dos anciões. Erick acreditava que isso fosse impossível, mas não descartava a hipótese.
E levando em consideração de quem é o mandante, Nick tinha fortes suspeitas que essa hipótese tivesse um fundo de verdade. Não tinha lógica, mas poderia ser verdade.
- Derrube o Rei. Neste exato momento, com a morte do Diácono Vincent Vaugh, todos nós estamos vivenciando um imenso jogo de xadrez onde nós somos os peões. Como foi dito anteriormente tenha cuidado com os outros, pois eles não terão pena em lhe derrubar para fora do tabuleiro, mas principalmente descubra quem é o Rei Negro. Ele é quem está articulando tudo que está acontecendo, tanto contigo, como para todos nós que vivemos na sociedade sobrenatural de Londres.
Essa segunda mensagem ficou bastante clara agora. Certamente eles estavam em imenso jogo de xadrez. Infelizmente, para que os peões pudessem seguir em frente teve que haver o sacrifício do Cavalo, que era o Erick. Ninguém sabia naquela época, obviamente, que estavam sendo manipulados pelo Diácono. Entretanto, agora cientes disso, a situação ficou um tanto arbitrária. De que lado estava o Diácono nesse jogo? Era claro que eles precisavam fazer o Xeque-Mate, mas quem era o Rei Preto nesse jogo? E se o Diácono tiver boas intenções (por mais que sejam questionáveis)?
A dúvida continuava…
- Resgate Erick (…).
Na época essa afirmação era bastante direta. “Resgate-o dos Iluminados” ponto. Mas com os atuais acontecimentos, ficou mais do que óbvio que a “preservação dos magos detetives em extinção” tinha um objetivo mais intricado. Talvez, agora que Nick também possuía esse poder, os membros dessa Sociedade já soubessem que Erick seria o primeiro a descobrir os segredos sujos do Arcanorum.
Nick estava decidido que precisaria descobrir a identidade desses caras o mais depressa possível.
- Não use a Dark Sword. Através de contatos com outros planos, temos nossas suspeitas que o uso de sua espada seja prejudicial tanto para você quanto para todos nós. Não se esqueça que a espada que você carrega é o símbolo físico da corrupção e do caos. Infelizmente é só isso que podemos lhe informar sobre a Dark Sword.
Isso sempre foi o que mais incomodou Nick. Ele sempre pensou isso. Para ele, Sebastian deveria largar a Dark Sword no Espaço Sideral pra ser engolida por um Buraco Negro. Mas claro que isso era impossível. Sebastian nunca ia largar de mão a sua preciosa “Darky”. E isso com certeza estava o afetando. Suas mudanças de temperamento. Seu envolvimento ainda mais aprofundado com a natureza vampírica. Tudo isso levava Sebastian ao um destino sem volta: a de ser eternamente o Príncipe das Trevas.
E falando em “príncipe”, Sebastian estava aproveitando mesmo a idéia de ser descendente da Família Real Britânica. Comprou um apartamento em dos bairros mais ricos de Londres, tem um carro esporte do ano, sempre tinha dinheiro em sua carteira. Era espantosa a ascensão social que ele havia tido. Ainda bem que dinheiro não era mais problema.
Largando o computador um pouco pra poder relaxar os olhos, Nick lembrou-se de que deveria ligar pra sua esposa. Celular em mão, discagem rápida, e rapidamente ele estava entrando em contato com ela:
<— Alô, Nick?>
— Hãã… Oi. Você está bem?
<— Bem?!? Como é que você quer que eu esteja bem com meu marido fora de casa por três semanas?!?>
— Nós já discutimos isso, Taw. Estou ocupado.
<— Por que você não me deixa ajudá-lo, Nick? Por que você precisa fazer tudo sozinho? Pra que carregar esse fardo nas costas?>
Nick então pensou. Ele iria falar de Sebastian, mas desistiu. Isso obviamente ia ferir o orgulho de sua esposa. Mas, o que ele poderia fazer? Sebastian tinha a Dark Sword, podia se cuidar sozinho! E ele… era melhor ele do que ela no paletó de madeira.
— É melhor assim, Taw. Confie em mim. – percebendo que Sebastian estava acordando de seu sono matinal, Nick se apressou. – Amor, terei que desligar.
<— Mas…>
— Lembre-se: Londres está mais perigosa do que nunca! Não saia de Oxford por nada!
<— Certo, mas…>
— E mais uma coisa. Eu te amo.
<— Eu também te amo.>
E Nick desligou. Ele apertou forte o aparelho entre os dedos na esperança de que ela pudesse entender seus sentimentos. Como aquilo estava sendo árduo para ele.
— Era a Tawnee no telefone? – perguntou Sebastian.
— Sim.
— Ainda não entendo por que você não conta nada para ela.
— Não quero envolvê-la nisso.
— Mas ela já está envolvida, esqueceu?
— Não, Sebastian!!! – exclamou Nick. – Não vou pô-la em risco de novo. Não vou entregá-la de badeja pra ser usada como refém pra me atingir. Melhor ela ter raiva de mim do que deixá-la correndo riscos.
— Se é assim que você pensa.
— É assim que eu penso. No dia que você se apaixonar de verdade saberá o que estou querendo dizer.
— Agora você me ofendeu. Você acha que eu gosto de ser solteirão?
— Eu não sei por quê! Você sempre foi melhor do que eu em termos de sociabilidade, mas até agora não arranjou uma única namorada. Está à meses só no “cinco contra um”. Por que? Fez voto de celibato?
— Não. Não fiz voto nenhum. E também não estou no “cinco contra um”. Você se esqueceu que eu sou um vampiro agora?
— Sim, e daí?
— E daí que… - Sebastian travou antes de responder. Estava difícil pra ele assumir aquela verdade.
— E daí…?
— E daí que eu não sinto mais o mesmo tesão que eu sentia antes pelas mulheres.
Nick até que tentou, mas não conseguiu. Sua risada explodiu como uma bomba dentro de si.
— DO QUE VOCÊ ESTÁ RINDO?!?
— Você virou gay! – respondeu em meio à risadas frenéticas.
— EU NÃO VIREI GAY!!! VOCÊ NÃO ENTENDEU NADA DO QUE EU DISSE?
— Sim, entendi perfeitamente. “Não sinto mais tesão por mulheres”.
— Não nesse sentido que você está pensando!!! Eu estou me referindo à minha condição de morto-vivo. De Vampiro!!!
— Ora… eu pensava que os vampiros eram a própria personificação da Luxúria na Terra.
— Esquece esses livros de romace-vampirescos que você anda lendo! Ser Vampiro não tem nada daquilo!!! Somos monstros. Criaturas das Trevas. A Personificação do Terror Humano!!!
— E Gay. Hehehehehe!
— Ah, vai te catar, Sra. Jean Grey!
— Pode me chamar de Jean Grey o quanto quiser, pois tenho uma esposa e estou muito bem casado! Já no teu caso…
— Não enche!!! – exclamou Sebastian furioso buscando uma bolsa de sangue na geladeira.
— Não é à toa que o Erick gostava de você! Uma estrela sempre reconhece a outra.
— O quê?!? Você ‘tá dizendo que o Erick era…
— Homossexual? Você não sabia?
— Ah… não! Nunca reparei.
— Tão inocente… - comentou sarcástico.
— Sério, explica isso melhor! Como você ficou sabendo? Fez o teste?
— Claro que não, imbecil. Ele mesmo me contou. Mas Tawnee e eu já desconfiávamos. Mas… ele não é bem o típico “gay”. Digamos que ele era meio “Bissexual”.
— Como assim “meio”. Não existe “meios” nesse assunto. Ou é, ou não é.
— Esse é o problema. Ele era “meio” sim. A verdade que o fato de ser homossexual o perturbava muito. E ele também já tinha tido outros casos com mulheres antes. Ele até gosta de mulher, na real. Mas ele tinha uma inclinação meio “freudiana” pelo sexo masculino.
— E como você ficou sabendo disso tudo? Usou seus poderes pra fazer “Psicanálise”.
— “Psicanálise” não é um poder psíquico, energúmeno! E não. Não usei meus poderes. Cara… ele apenas se abriu pra nós nos vários momentos em que ele ia nos visitar em Oxford. O cara era muito sozinho, saca? Seu único parente vivo estava numa clínica psiquiátrica. Ele queria muito se abrir com alguém.
— Entendo. Realmente ele era muito estranho.
Um momento de silencio instalou-se entre os dois. Mas logo foi interrompida quando a campainha do apartamento soou. Sebastian achou aquilo muito estranho, afinal ele morava em um condomínio e o porteiro teria avisado sobre a chegada de visitas. Por ser algo muito estranho, Nick resolveu se esconder. Mas antes, usou seus poderes de precognição pra saber quem era.
— Sebastian, pode atender na boa. É o Grão-Mestre dos Templários.
— Como você…
— Sem perguntas, porra! Vai lá e atende. Vou me esconder. Ele não pode saber que estou aqui!
— Certo.
Sebastian esperou um pouco e logo em seguida atendeu a porta:
— Quem é?
— Sr. West? Será que eu poderia ter uma conversa em particular contigo? Sou Julien Rieger, dos Templários. Vimos-nos no velório do Derek Johannes.
O portador da Dark Sword estava receoso, mas se Nick disse que podia atender sem problemas… Sebastian abriu a porta. O convidado entrou logo em seguida.
— Muito obrigado.
— Pode ficar à vontade. Ah… não tenho nada pra lhe oferecer, pois…
— Eu sei. Você é um vampiro. Não se preocupe.
Os dois seguiram calados até os sofás. Sebastian sentou em sua poltrona preferida e o Grão-Mestre se contentou em ficar no canto do sofá. Sem ter idéia de como começar a conversa, o portador da Dark Sword esperou que o Sr. Rieger tomasse a iniciativa. Se possível logo.
— Desculpe aparecer assim de repente. Fiquei receoso em encontrá-lo em casa já que possivelmente precisaria sair pra… ‘cê sabe… se alimentar.
— Hã? A não! Eu me alimento em casa na maioria das vezes.
— Ah! – impressionou-se Julien. — Que bom ouvir isso.
— “Bom”? Por quê?
— Você não conhece muito sobre a história das Sociedades Secretas, né?
— Com certeza não. Eu fui arrastado pro mundo sobrenatural. Nos últimos anos faço um “intensivão” sobre esse assunto.
— Nós os Templários somos inimigos declarados dos vampiros desde as Cruzadas.
Escutar aquilo paralisou Sebastian. Nick, que estava escondido na cozinha, também escutou e ficou chocado.
— Mas pode se acalmar. Não vim aqui pra brigar com você.
— E veio pra que?
— Bem… - Julien já estava meio nervoso quando chegou. Agora seu nervosismo aumentou e ficou um tanto evidente. Suas mãos pareciam suar bastante. – Vim pedir ajuda. Não. Vim aqui implorar que você me ajude. Que me proteja.
Boquiaberto Sebastian questionou:
— Hã? Como assim?
— Eu sou o próximo da lista, Sr. West.
— Me chame de Sebastian.
— Certo. Sebastian. Eu pago o quanto você quiser. Posso dar-lhe tudo que estiver ao meu alcance. Eu estou desesperado, Sebastian. E só você pode me ajudar!
— Ajudar em que?
— Eu sou a próxima vítima do Assassino de Anciões.
Se Sebastian e Nick haviam ficado chocados, agora tiveram que buscar seus queixos caídos no chão.
— Co-como você sabe disso?
— E-eu era o encarregado principal das investigações. Inicialmente estávamos focados apenas no assassino. Acreditávamos que era alguém agindo por conta própria. Depois, de forma bem engenhosa, tivemos nossas atenções desviadas por um Biltre que invadiu a cidade.
— Um… Biltre?
— “Biltre” é como se chama uma criatura sobrenatural raríssima que se alimenta de outras criaturas sobrenaturais. É um tipo de parasita que precisa se alimentar de Sorvo, e encontra nas criaturas sobrenaturais o prato perfeito.
— Espere… Como disse eu sou meio leigo nesse assunto. “Sorvo”?
— “Sorvo” é como os estudiosos místicos chamam a Essência Primordial em seu estado físico. Ela é imensamente útil pra qualquer tipo de individuo sobrenatural, desde os magos até os lobisomens, incluindo vampiros.
— Sim, entendi. Então esse tal de Biltre pode ter matado os Grão-Mestres.
— Não, você não entendeu. Nós fomos enganados. No inicio fomos feitos à acreditar isso que você concluiu, mas nunca foi um Biltre.
— E ai?
— E ai que as investigações se arrastaram por mais algumas semanas até aquele terrível desastre na sede da Jupiter’s Corp acontecer.
— Mas o que isso tem haver comigo?
— Serei sincero contigo. Eu sou um Templário. Tenho ao meu dispor centenas de homens incrivelmente hábeis, treinados com ensinamentos que passam de geração por geração. Você acha mesmo que nós seríamos tão inaptos pra não descobrir quem é o assassino desses anciões?!?
— E vocês sabem QUEM é o assassino?
— Sim. E é uma pessoa no qual ninguém do Arcanorum estará protegido. Alguém com poderes imensuráveis que, sabe lá Deus porquê, está assassinando seus próprios companheiros.
— E quem é?
— Ninguém menos que o Senhor Er… - Nesse exato instante Julien é abruptamente interrompido:
— WOW!!! VOCÊ TÁ COM VISITAS, SEBASTIAN!?!
Nick surgiu tão de repente e gritando que todos tomaram um susto. Só que mais assustado mesmo era o próprio recém-chegado que estava suando frio pra que nenhuma merda acontecesse.
— Quem é você? – questionou Julien sem entender nada.
— Meu nome é Nickolas Polansk. Sou jornalista e trabalho também no Arcanorum.
— E você estava escondido?
— Não. Quer dizer… Estava. Eu pensei que fosse perigoso o senhor saber que eu estava aqui.
O Templário ignorou o que Nick havia dito. Olhando para Sebastian ele questionou:
— É seu amigo?
— Sim.
— É de confiança?
— Pode confiar mais nele do que em mim!
Um estranho silêncio imperou entre eles. Nick, mesmo sabendo que possivelmente tenha atrapalhado o caminhar de suas investigações, ele não podia deixar que o Sr Rieger mencionasse o nome Dele. Sentando-se em outra poltrona, e agora bem mais sério, Nick cortou o silêncio.
— Senhor Rieger. Eu não sei exatamente se posso confiar ou não em você. A única coisa que eu sei é que não posso simplesmente vê-lo andando pelo corredor da morte e ignorar. Isso não faz parte de meus princípios. Então, se o senhor tem certeza que será o próximo, devo lhe informá-lo sobre algumas coisas.
— Você também está investigando?
— Sim e não. No momento estou querendo saber o porque que meu amigo Erick foi assassinado.
— Erick? Você ‘tá falando do Detetive Erick Russell que morreu na explosão da Jupiter’s Corp?
— Ele não morreu na explosão. Isso foi o que Ele disse pros outros acreditarem. Foi Ele que matou o meu amigo.
— Mas… por quê? O que ele tinha feito?
— Ele sabia demais. Foi o primeiro a saber quem era o Mandante dos Assassinatos.
— “Mandante”?! Como assim??? ‘Tá me dizendo que o Diácono Er--
— EEEEIII!!! Não fale o nome dele! Não pense no nome dele!!
— Não falar?
— Pra um Templário você ‘tá desinformado não? Nosso inimigo tem a capacidade de saber exatamente Quando e Quem está falando o nome dele. E mais. Tenho minhas certezas que se ele quiser ele pode focar toda atenção dele, mesmo à distancia, na conversa e/ou nas ações daquele que mencionou seu nome. Quando Erick morreu ele me alertou sobre isso. Não mencione o nome dele em momento algum e em hipótese nenhuma.
— Foi por isso que você entrou berrando aqui na sala.
— Sim. O Sebastian é tão tapado que ia deixar você dizer o nome sem impedi-lo.
— Então… Acho que nesta circunstancia eu devo é te agradecer.
— Tudo bem. Estou fazendo exatamente o Erick faria no meu lugar.
— Certo. Você disse que está investigando e ao mesmo tempo não está. Como assim?
— Cara… a partir do momento que sabemos quem é o Mandante, independente de quem seja o assassino, acho que o que importa agora são os motivos do Inominável.
— Mas não podemos deixar esse assassino solto por aí.
— Eu entendo que você está preocupado é com o Assassino. É normal. Não o culpo. Mas me responda: Se o assassino for mesmo alguém de grande poder, do “nível” do Sebastian, será que teremos alguma saída se toparmos de frente com ele?
— Bem… Peraí… Você disse “no mesmo nível” do Sebastian. Você desconfia que…
— Sim. Desconfio dele sim.
Nessa hora Sebastian se pronunciou:
— Nick, você tá dizendo que o Dany possa ser o assassino?
— Eu disse que “desconfio”, Sebastian. E não que tenho certeza. Vamos ver os fatos. Quem mais tem um contato tão intimo com o Mandante? Quem poderia fazer “Por um Bem Maior” esses tipos de serviços? E mais! Veja o caos que está acontecendo na sociedade sobrenatural e no Arcanorum. E se por um acaso os dois estivessem planejando criar uma “Ditadura Sobrenatural”? Afinal de contas, eliminando todos os Grão-Mestres só restará…
— Imperador Palpatine e Darth Vader. – disse Sebastian.
— Exatamente.
Julien manteve-se calado. Aquela hipótese claro que tinha se passado pela cabeça dele, porém tinha algo que o fazia descartar essa idéia:
— Mas não dá.
— Como assim?
— Não dá pra fazer uma Ditadura na sociedade sobrenatural. Pra que isso aconteça, o mundo das sombras terá que ser revelado pros mundanos.
— Por quê?
— Por causa do poder dos mundanos. Pode não parecer, mas nós “simples” seres humanos temos mais força do que toda essa sociedade sobrenatural. Na verdade o sobrenatural não passa de uma margem da sociedade humana. Então, pra que Londres se tornasse uma ditadura sobrenatural ela precisaria ser igual à Transilvânia nos tempos do Conde Vlad Teppes, o Drácula.
Curioso Nick questionou:
— ‘Cê ‘tá falando do famoso vampiro Conde Drácula? E ele existiu?
— Sim. Ele até morava aqui em Londres depois dos eventos da Segunda Guerra Mundial.
— E como era no tempo dele?
— Pra que ele pudesse ter o poder sobre toda a região da Transilvânia. Saber exatamente quem entrava e quem saia, o Conde precisou transformar o país num feudo onde todos sabiam que “quem mandava na verdade era um vampiro”.
— Mas o Arcanorum não é meio que imperialista?
— Não. O Arcanorum foi criado justamente pra poder unir essa sociedade tão marginalizada que é o Sobrenatural. Depois da Inquisição o mundo pertence aos homens. É a velha lei dos mais fortes. E pra que vampiros, magos, lobisomens, etc não desaparecessem para sempre da história, foi necessário a criação de uma organização que protegesse uns aos outros e ainda cuidasse de seu sigilo.
— De acordo com a história os Templários foram os maiores caçadores de bruxas.
— Sim. Nós fomos. Mas depois da traição da Igreja que nos condenou como hereges e servos do demônio, não tivemos escolhas a não ser pedir ajuda aos nossos antigos companheiros de pensamento.
— Quem?
— A Ordem de Salomão.
— A Ordem do Inominável.
— Exatamente. E como a Ordem de Salomão foi uma das fundadoras da Grande Fraternidade do Arcanorum, acabamos nos afiliando também. Porém, nunca nos consideramos membros de verdade. É por isso que trabalhamos apenas como “policiais”. É a melhor forma de manter intactos nossos ideais.
— Prendendo e punindo outros seres sobrenaturais.
— É por isso que é impossível pro “Inominável” querer ser ditador sem ter que revelar ao mundo (sim, porque com a globalização dificilmente será possível recriar um feudo como na Transilvânia do século 18) a existência do Sobrenatural. Isso acarretará uma serie de fatores que, com certeza, levaram o Inominável a nada. Ele trará pra si apenas mortes, loucuras, guerras e o fim da sociedade atual.
— Bem… isso não me parece ser do feitio dele.
— Pelo contrário. Tem que saber que o “Paladino” que vocês conhecem um dia foi um dos piores inimigos da sociedade. Ele já foi membro dos Magos das Sombras, uma cabala hoje extinta que reunia apenas adeptos das Artes das Trevas. Acreditar na total redenção dele será pura inocência de nossa parte.
— Mas pelo que me contaram ele foi perdoado por Deus pelos seus atos.
— Por “Deus” não. Pelos Anjos. Os Anjos é que deram a ele uma segunda chance.
— Mas os anjos não trabalham à mando de Deus?
— Você tem muito que aprender ainda, meu rapaz. O que você chama de “Anjos” nada mais são do que Seres Alienígenas de um Plano Astral superior ao nosso. Dizem eles que os anjos possuem contato direto com o Criador. Mas isso nunca pode ser comprovado de fato. O que temos de real aqui é o fato deles terem sido os principais causadores da Santa Inquisição. Que aquela atrocidade que ocorreu na Idade Média com a tortura e morte de milhares de inocentes nada mais passou de maquinações desses seres que se dizem “Celestiais”.
— A cada dia que passa fico mais abismado com o mundo em que vivemos.
— Como eu ia dizendo… Não desconsidero a hipótese de uma Ditadura, entretanto, considero muito improvável.
Apenas uma resposta veio à mente de Nick naquele momento:
— Você agora só fez aumentar ainda mais minha convicção em tentar descobrir o porquê da morte de Erick.
— Mas o porquê você já não sabe? – questionou Sebastian. – Ele não morreu porque sabia demais?
— Não falo desse motivo. Refiro-me num sentindo mais amplo. Por que todos esses assassinatos? Por que causar uma guerra civil? Isso sim são perguntas que até agora estão sem respostas.
Os três ficaram um tempo calados pensativos. Julien então se lembrou de um fato:
— Aquele tal Erick era um investigador bastante empenhando, não era?
— Sim.
— Será que ele por um acaso já vislumbrou toda a razão desses assassinatos, além de ter descoberto o nome do Mandante?
— Se vislumbrou ele não teve tempo de me contar.
— Mas com certeza ele deixou muitas pistas de seu progresso nas investigações. Papeis, anotações, suspeitas…
— Eu também pensei nisso. Semana passada, fomos até o antigo apartamento dele, só que infelizmente este havia sido esvaziado. Acreditamos que o Inominável havia se encarregado de fazer a limpeza.
— Com certeza ele fez isso. Mas você não tem qualquer acesso à qualquer banco de dados que ele tenha acessado?
— Na verdade… Ei… Espere ai! – Nick se levantou de repente deixando os outros sem entender nada. – Meu Deus como eu sou burro!!! Como pude me esquecer?!?
— O que foi Nick? Esqueceu o quê? – questionou Sebastian.
— Esqueci de usar meus poderes dentro do apartamento do Erick!!!
— Seus pode… aaahhh!!! Caramba!!! Você é mesmo burro!!!
— Ok, Sebastian. Só eu posso me ofender aqui!
Intrigado, Julien se intrometeu:
— Podem me explicar?
Nick parou então pra analisar a situação. Erick havia deixado bem claro pra ele para que não confiasse em ninguém. O Sebastian foi a única exceção. Porém, o Templário era uma pessoa diferente. Seu nome estava na lista das próximas vítimas e certamente ele não teria qualquer contato com o Inominável. Mesmo assim, Nick estava com um pé atrás. A voz póstuma de Erick ecoava alto em sua mente. Mas ele precisava de ajuda. Ele precisava de alguém de peso ao seu lado. No fim, ele decidiu arriscar.
— Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não estou aqui pra ajudá-lo a tirar o seu da reta.
— Sim.
— Principalmente agora que, para que eu não tenha o mesmo destino de meu amigo Erick, não posso confiar em ninguém, principalmente em alguém que tem aliança com a Ordem secreta do Inominável.
— Compreendo perfeitamente.
— Mas… mesmo assim… Eu estou precisando de uma ajuda. Uma ajuda de peso.
Sebastian logo se levantou:
— Eeeii! ‘Tá dizendo que minha ajuda não é de peso? Eu tenho a Dark!
— É exatamente por causa disso, Sebastian! Você SÓ tem a Dark. Sem querer ofender, mas você está ajuda mais como segurança do que como parceiro nas investigações.
— Aaahh… - voltando a se sentar, Sebastian respondeu: — Tudo bem. Sem ofensas.
— Então é isso, Sr Rieger. Espero que não leve a mal minhas palavras.
— Não. Tudo bem, Polansk. Eu compreendo perfeitamente sua posição, tal como você compreende a minha.
— Ótimo. Então, a primeira coisa que precisamos fazer é o seguinte: Não podemos ser vistos juntos. No caso do senhor e o Sebastian tudo bem, afinal o Inominável talvez tenha certeza absoluta que o Sebastian não representa nenhuma ameaça.
— Sim, é verdade. E o que iremos fazer precisamente?
— Iremos voltar ao apê do Erick.
— Mas você disse que não tem mais nada lá.
— Eu irei usar meus poderes pra voltar no tempo. Daí, irei exatamente nos momentos exatos quando Erick estava investigando.
— Você é um Mago?
— Não. Pra sua sorte eu sou um Psiônico!
Quando se levantaram pra sair, Sebastian de repente levantou uma risada:
— Sr Rieger…
— Sim?
— Por um acaso o senhor é parente do vocalista da banda Snow White in Poison?
— Ah, sim! Está falando do Layne Rieger? Sim, ele é meu filho caçula.
— Aaah! Bem que eu reparei!
*****
Brunel Road. 21h00min.
O ponteiro do relógio primeiro parou. Em seguida, começou a rodar ao contrário. A cada segundo sua giratória ia aumentando a velocidade. Enquanto isso, tudo ao redor parecia um filme sendo rebobinado. Sebastian já tinha visto Nick fazer isso, mas Julien, como muitos da sociedade sobrenatural, que não botava fé nos poderes psíquicos estava incrivelmente espantado. A última vez que ele viu algo parecido foi quando o próprio Diácono fez.
— Estamos voltando no tempo?
— Mais ou menos. Nós ainda estamos no apartamento, porém fora do Continuum Temporal. Agora somos apenas espectadores do Tempo.
— Você pode fazer isso pra ver o futuro?
— Se pudesse eu não estaria me matando de investigar, não é?
— Ah, sim…
— Mas eu posso sim ver o futuro. Na verdade é mais um “vislumbre” do que uma visão propriamente dita. Além de ser três vezes mais difícil do que ver o passado. Opa… chegamos.
— Em que dia estamos?
— Três de Abril deste ano. São exatamente Seis da manhã.
— Esse foi o dia em que a Princesa Vampira e Nin Soo foram assassinados.
— Exatamente. Estávamos todos ainda muito casados. Sebastian tinha acabado se tornar vampiro e ficou sob guarda de Kravinoth. Eu tinha ido pro Hospital ficar com a Tawnee, enquanto Erick foi imediatamente pra sua residência investigar. Me lembro que nesse dia ele falou que antes de ser atacado pelos vampiros ele tinha se esbarrado com alguns segredos obscuros do Arcanorum.
— Entendo. Vamos ver se são tão obscuros assim…
Há poucos minutos atrás, Erick havia chegado em casa e não se demorou em ir logo ao computador pesquisar sobre o Arcano. Utilizando a senha e o login de acesso que o Diácono lhe oferecera, o detetive pela primeira vez na vida pode acessar o banco de dados do Arcanorum. (…)
— Interessante. – pontuou Julien. — Ele usou o login e a senha secreta do Diácono.
— Sim. Foi o próprio que lhe oferecera.
— Então ele realmente estava (e está) usando várias pessoas. Primeiro ele contratou um mercenário e depois ajudou um investigador. Tudo pra poder despistar qualquer desconfiança sobre ele.
— É verdade.
Primeiramente, Erick começou pela sociedade do Arcano. De acordo com o banco de dados essa sociedade era dedicada única e exclusivamente na coleta de informações sobre o sobrenatural, incluindo principalmente vampiros, anjos e demônios. Sua fundação tinha origens e outra sociedade secreta conhecida como Rosacruz.
— Nunca ouvi falar desse tal “Arcano”. – comentou Julien se aproximando das pesquisas do Erick. – Informações sobre o sobrenatural? Que ridículo! Com uma Fraternidade como o Arcanorum tal sociedade é totalmente desnecessária, vide que já temos todos os dados sobre as criaturas sobrenaturais.
— Mas não podia ser um tipo de “organização especializada”?
— Não. Sou Conselheiro do Arcanorum, acima de mim só os Diáconos. Além disso sou o chefe da divisão policial. Tenho conhecimento completo de todas as Cabalas filiadas ao Arcanorum e nunca, em toda minha vida, ouvi falar sobre esse tal de Arcano.
— E a Rosacruz?
— Ai já é outra história. Essa é uma das Cabalas grandes e fortes afiliadas. Mesmo não tendo nenhum Conselheiro ou Diácono dentro do Conselho, a palavra deles sempre foi de grande peso, principalmente aqui em Londres.
— Por quê?
Durante a Guerra das Rosas, ou Guerra das Duas Rosas, que foi uma série de longas e intermitentes guerras civis dinásticas pelo trono da Inglaterra, ocorridas ao longo de trinta anos entre famílias rivais, os York (os Rosas Brancas) e os Lancaster (os Rosas Vermelhas), um dos membros respeitáveis da Rosacruz (que por sinal era da família Lancaster), após sofrer uma terrível experiência de vida e morte ocasionada por um vampiro faminto, resolveu criar uma sociedade à parte da Rosacruz que se dedicasse principalmente ao estudo teórico e aprofundado sobre os seres sobrenaturais e suas influências no mundo mundano conhecida como Arcano.
— Veja bem. A Guerra das Rosas foi uma guerra mais religiosa do que política. A Rosacruz é uma das sociedades que mais defendem a crença do “Sagrado Feminino”.
— Você está falando daquela historia da esposa de Jesus Cristo, Maria Madalena, e do Santo Graal?
— Exatamente.
— Pensei que eram os Templários que defendiam essa crença.
— Sim e não. Infelizmente isso faz parte de assuntos secretos de minha Ordem. Mas o que posso dizer é que, esta guerra em particular era uma guerra mais religiosa, pois essas duas famílias brigavam pelo direito de proteger o Santo Graal. Por fazerem parte da história desse país, essa Sociedade tem um grande peso no Arcanorum, estão entendendo?
— Sim.
— Então, por esta razão, seria praticamente impossível surgir uma cabala dissidente da Rosacruz sem conhecimento do Arcanorum.
— Eu entendo. Mas e se essa cabala for tão secreta que nem a própria Rosacruz conhecesse?
— Daí estaríamos falando de uma Conspiração.
Atualmente o Arcano pouco tem influência no Arcanorum. Não tinha representatividade junto ao conselho devido ao Decreto-lei que proibia a formação de sociedades caçadoras em Londres. Antes do Decreto-lei a base principal ficava em Londres, sendo que existem outros capítulos nos Estados Unidos, na França e no Brasil.
— Isso é uma loucura! O Decreto-lei existe, mas como nunca existiu essa sociedade como pode a mesma “ter pouca influência no Arcanorum”?
— Erick está lendo isso nos arquivos particulares do Diácono. Será que não são informações sigilosas? “Apenas pra Diáconos”?
— Sim, podem ser sim. Mas ainda sim é um absurdo. Ou será que na verdade esses documentos que o Sr Russell está lendo são justamente o que o Inominável queria que ele lesse?
— Pode ser. Se tratando do Inominável, não duvido nada.
Agora, o que Erick não entende é quais os motivos de Derek ter feito parte da sociedade. Principalmente em graus tão elevados.
— Derek faz parte dessa Sociedade?!? Como assim??
— Erick tinha comentado sobre isso, mas não entrou em detalhes.
— Tem algo de errado nisso. Se esse tal de Arcano é tão secreto como foi que o Sr Russell conseguiu tais informações?
— Roubamos arquivos lá numa base secreta militar no Pólo Norte.
— Base secreta militar?
— Sim. Você nãos e lembra de nosso testemunho na Assembléia?
— Sim, lembro. Você mencionou que tinha sido seqüestrado por Mandarins disfarçados de Iluminados.
— Exatamente. Foi lá que o Erick encontrou aquelas pastas ali. – apontou Nick pra mesa do escritório de Erick. Tentando pega-las, Julien se esqueceu que apenas podia “ver” o passado.
— Ah, droga. Não dá pra pegar.
— É apenas uma Visão do Passado!
— Ei… o que é aquilo? – perguntou Julien apontando para a estante de Erick onde haviam alguns fracos de vidro contendo um líquido brilhante azul claro.
— Aaahh… Eu sei o que são… Peraí que vou me lembrar do nome deles… Bor… Dor… Vor… Sor… Sorvo!!! São Sorvos!
— Sorvos?!? Armazenados nessa quantidade?!?
— Sim, sim.
— Como ele conseguiu isso?!?
— Na verdade nós roubamos lá da mesma base secreta. E tinha muito mais de onde pegamos.
— MUITO MAIS?!?
O espanto de Julien chamou a atenção de Nick. Ele sabia que aqueles tais de Sorvos eram coisas raras e valiosas para magos, só não imaginava que fossem tão especiais.
— Por favor, Sr Rieger… eu estou um pouco perdido aqui. Por que seu espanto?
— Você sabe o que são Sorvos, não?
— Sim… É a Energia Primordial em estado material, seja ela líquida, sólida ou gasosa.
— Exatamente. Sabe onde pode se conseguir Sorvos?
— Não.
— Em Nodos.
— Ah, isso eu sei o que é! São pontos especiais da Terra onde a Energia Primordial se concentra com mais intensidade.
— Exatamente. Então, os Sorvos são originados desses pontos especiais. Entretanto, pra produzir um sorvo é necessário um acumulo grande de Energia Primordial, até que ela se condense e ganhe forma. Entretanto, pegando, por exemplo, Nodos gigantes como o Stonehenge, o máximo de energia que é possível acumular lá é do tamanho de uma pedrinha menor que a unha de meu dedo. O maior Sorvo que eu já vi na minha vida foi um mago que fez acumulando energia de vários nodos pelo mundo e mesmo assim ele tinha o tamanho de uma pedrinha que cabia na palma de minha mão.
— Mas então, como…
— É o que eu estou querendo saber! Dentro desse frasco deve ter mais ou menos 300mls de Sorvo em estado líquido. E são dois frascos!
— E ainda tinha mais lá!
— Meu jovem, acho que teremos que investigar mais pra trás. Eu preciso ir até essa Base secreta.
— Opa… esse é um problema!
— Por quê?
— Por que como o próprio nome diz ela é “secreta”! Eu não sei onde fica. Só sei que é no norte.
— Mas então como você chegou lá?
— Eu fui seqüestrado, esqueceu?
— E como voltou?
— Foi o gato falante do Sr… - nesse momento Nick congelou. Será que poderia haver alguma ligação?
— “Gato Falante”? Você está falando do Familiar do Inominável?
— O próprio. Sr Rieger, será que o Inominável…
— Tem algo haver com essa história? Aposto mil libras nisso!
— Pois então eu irei apostar o dobro por que foi ele mesmo que mandou a gente ir até a Jupiter’s Corp e quando chegamos lá fomos seqüestrados.
— Uma armadilha.
— É o que parece.
De repente as imagens do passado começaram a ficar turvas.
— O que está acontecendo?
— Ah, droga! É que tem um certo limite de tempo que posso ficar usando esse poder. Além disso só com a ajuda de minha esposa.
— Ela é psiônica também?
— Não era. Mas depois de umas experiências acabou se tornando.
— Experiências?
— sim. Depois eu conto.
— Certo. Mas além disso eu estou com uma dúvida. Estava dentro daquela pasta a informação de que o Derek Johannes era membro do tal Arcano?
— Hm… não. O Erick descobriu isso por outro meio.
— Como?
— O Diácono contou pra ele.
— O Inominável? Faz sentido…
— Não. Não esse Diácono. O outro!
— O outro?!? Você está falando do Andreas?!
— Sim. Foi ele que contou pro Erick.
— Meu Santo Deus… Se isso for uma conspiração ela está envolvendo o alto escalão do Arcanorum.
— Espere ai! Você está querendo dizer que possivelmente o outro Diácono seja cúmplice do Inominável?
— E por que não? E tal fato faz mais sentido partindo da idéia da origem desse tal Arcano.
— Como assim?
— Você sabe qual é o sobrenome do Diácono Andreas?
— Não. Nunca ouvi falar!
— Eu sei que não. Esse é um dos segredos que somente a cúpula superior do Arcanorum conhece. Seu nome verdadeiro é Andreas Lancaster.
— “Um dos membros respeitáveis da Rosacruz (que por sinal era da família Lancaster), após sofrer uma terrível experiência de vida e morte ocasionada por um vampiro faminto, resolveu criar uma sociedade à parte da Rosacruz”. Então é por isso que ele é um fantasma…
— “Experiência de vida e morte”. Na verdade ele morreu e retornou como um Fantasma Holográfico. Graças ao seu amplo conhecimento em Magia da Luz, Andreas conseguiu fixar sua alma num Espectro de Luz que ele criou de si mesmo.
— Então o que o Erick falou faz mais sentido ainda. “Não confie em ninguém”. – foi nesse momento que Nick olhou sem querer com desconfiança para Julien lembrando-se de que esse “aliado” também fazia parte do Alto Escalão do Arcanorum.
— Você pode ficar despreocupado. Eu não estou envolvido em conspiração. Pelo menos não nessa.
— Como posso ter certeza?
— Eu juro em nome de Deus. E como Templário, pode ter certeza que eu não uso o nome de Deus em vão.
Nick e Julien ficaram trocando olhares até que os poderes temporais se dissipassem por completo. Quando retornaram, Sebastian os aguardava. No entanto, pra surpresa dos dois, Sebastian estava acompanhado.
— Temos visita, pessoal. – informou Sebastian.
Os dois estranhos ainda estavam no corredor do apartamento esperando pelo retorno de Nick e Julien. Sem pressa, um deles deu um passo à frente e revelou sua identidade. Nick logo o reconheceu:
— Matt?
— E ai, Nick! – cumprimentou Matthew esticando a mão direita. Nick retribuiu o cumprimento, porém estava totalmente confuso.
— O que você está fazendo aqui? Keira! Você também está aqui? O que vocês…?
— Nick e Sr Rieger… nós precisamos conversar.
*****
Sentados no chão do apartamento vazio, Nick, Sebastian e Julien Rieger escutaram tudo o que Matthew e Keira tinham pra lhes dizer. Isso, sem guardar nenhum segredo.
— Então foram vocês que me enviaram aquele e-mail meses atrás! – exclamou Sebastian.
— Então são vocês a misteriosa cabala conhecida como “Sociedade de Prometeu”. – afirmou Rieger.
Depois de tanto tempo guardando segredo era até estranho pra Matthew e Keira escutar aquelas palavras.
— Sim, pessoal. Somos nós. – respondeu Matthew.
— Mas vocês são Iluminados.
— Também. Mas somos uma divisão secreta dentro dos Iluminados. Nem o Almirante Washington sabe de nossa existência.
— Com exceção do Matthew, que ele sabe que é um Agente, o resto de nós somos totalmente desconhecidos. – explicou Keira.
— Sim. Apenas Spark e eu somos Agentes Iluminados publicamente conhecidos.
— Mas que bizarro! – exclamou Nick. — Isso daqui parece aquela famosa boneca russa: a cada boneca que se abre revela-se outra dentro dela.
— “Cada sombra só faz esconder outras sombras”. – disse Julien sério. – É isto que está escrito em Latim no brasão do Arcanorum.
— E pode ter certeza que Londres está cheia de sombras. – comentou Matthew. Nesse momento, aproveitando o breve silencio, o agente iluminado buscou um de seus aparelhos de tecnologia avançada e colocou no chão, pra que todos pudessem ver.
Após ligá-lo, o aparelho revelou um holograma tridimensional da cidade de Londres. Em seguida, diversos pontos foram demarcados por asterísticos vermelhos.
— Esses são os locais onde se encontram quase todas as Cabalas associadas ao Arcanorum. – comentou Julien.
— Muito Perspicaz, Sr Rieger.
— A Jupiter’s Corp também a sede de uma Cabala? – questionou Nick observando que um dos asterísticos apontava pra onde o prédio ficava.
— Sim. – respondeu Matthew. – Era onde ficava a base de operações dos Iluminados em Londres.
— Mas não eram os Mandarins que estavam lá? Quando invadimos…
— Eu sei. Na verdade, até uns meses atrás nós não sabíamos como os Mandarins invadiram uma de nossas Bases. Desde então eu entrei numa investigação minuciosa até saber que lá na Jupiters estava sendo realizadas experiências suspeitas. Que experimentos, nós ainda não sabemos. No dia em que combinamos de invadir o prédio infelizmente coincidiu com a explosão. Entretanto, como único sobrevivente daquele incidente, descobri certas coisas importantes.
— O que? – questionou Nick ansioso.
— Tanto o Mandante dos assassinatos quanto o Assassino não estão operando sozinhos. Estamos certos que possa existir uma conspiração dentro do Arcanorum.
— Isso nós já estamos sabendo.
— Como.
Antes de responder, Nick cruzou o olhar com Julien afirmando que iria contar. Não demorou muito. Nick começou contado desde que escutou as palavras post-mortem de Erick até os últimos instantes atrás quando voltava do passado descobrindo fortes evidencias sobre tal conspiração.
Matthew e Keira poderiam ter ficado espantados, mas não ficaram. Talvez por causa da suspeita que eles já tinham, descobrir que possivelmente aja uma cabala secreta dentro do próprio Arcanorum não era de grande espanto.
— Vocês disseram que encontraram recipientes com Energia Primordial em estoque na tal base secreta no norte. Será que é possível que esta base ainda esteja lá?
— Não sei. Acho que sim, mas… - tão logo Nick lançou um olhar acusador na direção de Sebastian. — Nosso caro amigo ali fez questão de, na época, destruir quase toda base com um canhão e sua querida Dark.
— Wow! Qualé, Nick! Eu salvei seu traseiro naquela época! Não vem me culpar agora não!!!
— Tudo bem. Pode deixar. – disse Matthew.
— Mas por que vocês querem saber sobre isso?
— Como podem ver nesse mapa, esses asteristicos não apenas apontam pras cabalas do Arcanorum, como também mostram locais de grande concentração de quintessência. Pra ser mais exato, esse locais são na verdade pequenos nodos. Acredito que possivelmente uma certa facção corrupta dos Iluminados estivesse trabalhando com os Mandarins na época e com isso esteja planejando algo de proporções gigantescas. Tal como foi a vinte cinco anos atrás, na invasão de Voormas.
— Invasão de Voormas? – questionou Nick.
Julien foi o primeiro a responder:
— Há vinte cinco anos atrás Londres foi brutalmente atacada por um terrível terrorista sobrenatural. Seu nome era Voormas. Ele não apenas sitiou a cidade como também transformou todos em zumbis. Ainda por cima tinha um plano bem audacioso de lançar um vírus esmagador sobre o planeta que eliminaria toda a raça humana em poucos dias. Mas obviamente isso não aconteceu de fato. Londres foi salva e o anjo conhecido como Elohim reverteu tudo. É por isso que hoje em dia ninguém se lembra disso. Além do mais, isso faz parte de assuntos internos do Arcanorum, como vocês ficaram sabendo disso, agentes iluminados?
— Durante anos trabalhamos pra coletar o máximo possível de informações sobre o Arcanorum e o Mundo Sobrenatural. Trabalhamos como uma milícia nas sombras pra evitar mais desastres como este que está acontecendo agora em Londres.
Julien obviamente não havia gostado nada daquela historia de “milícia”. Ele era o responsável pela segurança de Londres e não um casal de moleques. Entretanto, vide a atual situação, ele relevou.
— Certo. – chamou Nick a atenção de todos. – Sabemos que possivelmente desde o primeiro assassinato estamos no meio de uma grande conspiração. Provavelmente um golpe de estado formado pela mais alta cúpula do Arcanorum.
— Sem querer te interromper, mas já te interrompendo… - disse Keira. — Vocês já sabem quem é o Mandante?
— Sim, já sabemos. E vocês?
— Também.
— Será que é a mesma pessoa que pensamos ser?
— O maior mago da atualidade e nosso antigo professor da faculdade.
— Sim. É ele mesmo. Como vocês descobriram?
— Mesmo com o Dany querendo nos convencer que estávamos errados, quando voltamos do futuro alternativo e caímos nas investigações, nossas suspeitas estavam cada vez mais solidas, até ficarem 99% certas.
— Então, Keira, pode completar mais 1% ai porquê o Mandante é sim esse homem. E só pra ressaltar: não mencione o nome dele.
— Isso nós já sabemos. – comentou Matthew. – Durante nossas investigações procuramos saber como ele descobriu a localização de nossa base secreta. Foi um espanto quando descobrimos o lance sobre pronunciar o nome dele.
— Bom… continuando, juntando o conhecimento de todo aqui descobrimos que de alguma forma um grande ritual está prestes a ser realizado aqui em Londres onde o resultado ainda é um mistério.
— Não temos como contactar ninguém pra nos ajudar? – comentou Sebastian.
— Tirando Danyael e você, acho que não. Isso que eu estou com minhas duvidas sobre o Danyael Kimble.
— Que dúvidas, Nick? – questionou Matthew.
— Possivelmente ele seja o assassino.
— Impossível! – exclamou Matthew. — Eu sei bem das evidencias contra ele, mas não é ele. Tenho minhas provas.
— Que provas?
— Um exame de DNA.
— E esse exame é seguro?
Nesse momento Matthew e Keira trocaram olhares. Certamente aquele era um assunto delicado de se tratar.
Sem obter resposta, Nick voltou a olhar pro mapa. Se levantou, ficou analisando cuidadosamente aqueles asteristicos que no final formavam um enorme pentagrama sobre a cidade. Sua mente vagava em diversos pensamentos e teorias, mas por não entender nada sobre magia era difícil pensar que aquilo seria outra coisa senão magia negra em grande escala. Além do mais, tinha uma coisa que confirmava essa teoria dos agentes prometéicos: pra um ritual dessa escala seria necessária uma grande reserva de energia primordial. Então, talvez seja por isso que os Iluminados (ou Mandarins, ou Arcanos, ou seja lá quem fosse) estivesse armazenando aquele estoque. Isso também explicaria o envolvimento do Exército Britânico. Como o Diácono tem influência até no Parlamento (mesmo que discretamente) não seria difícil pra ele conseguir ajuda do exército.
Caminhando pelo apartamento, Nick parou diante da janela da sala. Era estranho, pois ele nunca tinha reparado que ali tinha uma janela. “Ah, sim!”, pensou ele. “Ali era onde ficava o quadro de redes de conspiração do Erick.”. Foi uma lembrança boa recordar do primeiro dia em que ele entrou naquele apartamento e viu aquele bizarro quadro.
Imediatamente seu semblante ficou sério.
Sério até começar a soar frio.
Seus olhos escureceram e sua memória foi nitidamente pra sete meses atrás…
[Soundtrack: New Wars Come Up – Saint Seiya O.S.T. VI]
Caminhando até a parede principal da sala, Nick vagou os olhos pelo enorme quadro branco (iguais aqueles de colégios e Faculdades) onde havia anotações que apontavam uma enorme rede de intrigas, que envolvia tanto o mundo sobrenatural quanto o mundano. Ligando sociedades secretas com empresas multinacionais, serviços públicos sendo controlados por algum tipo de ser sobrenatural e por ai vai.
E piorava ainda mais.
Havia fotos, depoimentos, anotações investigativas que mostraram que Erick passara um bom tempo investigando a fundo o mundo secreto por trás do mundo mundano. Mas, quando Nick começava a se interessar por alguns assuntos ele se esbarrava em coisas absurdas como a influência de um taxista da área metropolitana com toda a sociedade vampírica de Londres.
— Surpreso? - perguntou Erick amigavelmente posicionando-se ao lado de Nick observando o quadro também. — Já estou acostumado com esse tipo de reação das minhas visitas. Nenhuma “convidada” minha consegue se concentrar em nossa noite sem ficar abismada com minhas investigações.
— Mas é difícil mesmo não ficar surpreso. Só não entendo o porquê de algumas ligações nessa sua rede. Você interligou uma banda jovem de pop-rock com… - e Nick seguiu com os olhos a linha vermelha até outro ponto do quadro. - …o fim do mundo?!
— Sim. - afirmou Erick sorrindo.
Com a mão sobre o rosto, Nick olhou para trás exatamente onde Julien Rieger estava. O Grão-Mestre estava parado. De costas para ele. Sentado tranquilamente no chão. Ele havia confiado nele. Ele havia contado tudo para ele. Eles estavam sozinhos com ele…
— Sr Rieger.
— Sim? – perguntou o Grão-Mestre virando-se calmamente.
— Então seu filho é vocalista de uma banda de rock.
— Sim. Por quê?
Nesse instante Julien se levantou. Calmamente ele foi direcionando seus olhos até o encontro dos de Nick. O jovem jornalista estava estático. Suas pernas não se mexiam. Sua língua estava presa. Seus olhos tremiam, mas não conseguiam se desviar de Julien.
— Algum problema, Sr Polansk?
O tom de voz de Julien havia mudado radicalmente agora. Estava mais fria. Mais séria. E, por que não, sarcástica.
— Se… Sebas… Sebastian… Sebastian!!!
— Não adianta. – respondeu Julien agora olhando pro Portador da Dark Sword. – Ele agora está sobre meu controle.
— C-Como assim?!?
— O maior erro dele foi ter se tornado um vampiro. Como Templário conheço todos os artifícios de se paralisar alguém da raça dele.
Foi então que Nick reparou que uma estaca de madeira maciça estava cravada no peito de Sebastian. Sua única proteção, seu único socorro, estava agora empalado bem diante dele. Foi então que ele tentou olhar para Matthew e Keira.
Paralisados.
— São meros humanos. – respondeu Julien. – Um simples feitiço e logo a mente deles fica de stand-by.
— Como você… Como você descobriu sobre mim?
— Há! Você achava mesmo que poderia enganar uma Cabala composta por homens com mais de um século de idade?!? Você achava mesmo que poderia enganar um Grão-Mestre Templário? Obviamente quando o Mestre VonBranagh assassinou o detetive maluquinho ele logo se lembrou que provavelmente você também saberia de alguma coisa e que futuramente seria uma ameaça.
— Então por que vocês não me mataram antes?
— Nós precisávamos descobrir exatamente o que você sabia. Mas você estava certo. Seus poderes psíquicos conseguem se camuflar perante aos nossos poderes. Obrigado por nos alertar sobre isso! Tomaremos precauções no futuro!
— Precauções?
— Sim. Como é difícil encontrar aqueles que tem poderes psíquicos, resolvemos que a única saída fosse eliminar todos eles, começando por você.
Julien sacou lentamente sua pistola de dentro do casaco. A arma já estava apontada na direção de Nick. Não tinha pra onde ele ir. Não tinha como ele contra-atacar. Seu corpo não respondia seu desespero. Sua mente precisava se concentrar, mas nunca conseguiria se concentrar naquele momento. Aquele era o seu fim. O mesmo fim que levou seu amigo Erick. Aquele parecia ser o destino todos aqueles que cruzavam o caminho dos poderosos. O som da pistola sendo engatilhada. Em poucos segundos Nick nunca mais veria o sol nascer de novo. Nunca mais poderia realizar seus sonhos em se tornar um jornalista famoso dono de uma emissora de tevê. Nunca mais veria Tawnee novamente. “Tawnee!!!”. Seu coração apertou quando lembrou que possivelmente ela seria a próxima. Julien não tinha mais o que esperar. Aquele seria o fim daquele jornalista intrometido.
Um estrondoso som cobriu o apartamento.
Não foi um tiro.
Foi a porta do apartamento sendo arrombada.
Sem seguida, uma imponente mão ergueu-se na direção de Julien e dela um poderoso trovão irrompeu-se.
O ataque foi tão fulminante que Nick jurou ter visto o esqueleto de Rieger brilhar nos milésimos de segundos em que foi eletrocutado. Quando terminou, não restaram nada do Templário a não ser o cadáver carbonizado. O forte odor de carne queimada precipitou-se imediatamente, entretanto nada espantava mais quanto a revelação de quem havia salvado a vida de Nick.
— Você está bem, Nick?
“Aquela voz…”, lembrou. “É a mesma voz daquele dia…”
— Quem é você?
— Ninguém que você precisa saber.
Nick era repórter. Sua profissão de certa forma exigia que ele fosse uma pessoa bastante sociável, que lembrasse de nomes e rostos com clareza. E esse dom agora estava lhe alarmando. Nick já escutara a voz desse homem…
— Irá me matar?
— Infelizmente. Era pra ser um serviço sem mortes desnecessárias, no entanto…
— Significa que em seu serviço existem mortes “necessárias”?
— Ai você já está querendo saber demais.
Agora era certeza! Ele já escutara a voz desse homem. E ele se lembrava perfeitamente onde e quando foi: Oxford, nos tempos da faculdade. No entanto ele não recordava o principal: Quem era esse cara?
— Desculpe, chapa. Ossos do ofício.
Voltando pra realidade, o estranho questionou novamente:
— Você está bem, Nick?
Mas o jornalista precisava por pra fora tudo aquilo que estava pra explodir dentro de sua cabeça:
— Foi você que me atacou naquele dia na antiga casa do Sebastian.
— Hã… bem… sim.
— Usou até a mesma técnica. Choque elétrico.
— Também.
— Porém plantou pistas falsas pra que Erick e eu encontrássemos depois, como foi o caso daqueles dedais especiais.
— Bem perspicaz, você.
— E era você que estava no metrô naquele dia.
— Naquele dia?
— Matou Nin Soo Yan usando a mesma técnica. Choque Elétrico.
— …
— E depois, ao sair do vagão, terminou sua missão assassinando a Princesa Anne Hanover.
— …
— Talvez eu não tivesse desconfiado de você antes por que desde aquele dia na casa de Sebastian nós não nos esbarramos mais! Não… Nos esbarramos sim. Na festa no apartamento do James e da Keira. Mas, acho que eu estava tão bêbado que se quer poderia ter notado isso.
De cabeça baixa, ocultando sua cabeça com um gorro, ele chorou:
— E-Eu apenas tive que escolher. Era matar ou perder a minha mulher. Eu não tive opção.
Apontando-lhe o dedo indicador, Nick esbravejou em plenos pulmões:
— VOCÊ É O ASSASSINO DE ANCIÕES… PHILLIPP O’CONNOR!!!
*****
[Soundtrack: Brother – Alice in Chains]
Sábado, 04 de Novembro de 2028. 14h00min.
Cemitério de Highgate.
Londres – Inglaterra.
O frio começava a apertar na capital inglesa. Mas nem por isso, Nick deixaria de vir até este local. Exatas três semanas atrás, toda sua vida mudou. Junto com Tawnee ele saiu do país, usa identidade falsa e hoje vive sombras. Ele se preocupa, e muito, com o destino desta cidade, mas ele não podia fazer nada. Estava fora de seu alcance. O máximo que ele pode fazer foi cumprir com sua promessa. Uma promessa feita entre amigos. Melhores amigos.
Nick se arriscou a vir à Londres especialmente para fazer isto.
Erick R. K. Russell
05/06/2000 - 25/06/2028
— Obrigado. Muito obrigado por tudo, meu amigo.
Deixando um buquê de flores sobre o tumulo, Nick fez uma prece. Rezou, do fundo de seu coração, que onde quer que seu amigo estivesse, fosse qual for a nova vida que estivesse tendo, que ele fosse muito feliz. Tão feliz quanto na época em que se conheceram. Era isso que ele desejava.
Ao dar meia-volta o jornalista teve uma surpresa. Alguém lhe observava do alto da ladeira. Por um segundo, por causa de seus cabelos, ele pensou que fosse a alma de Erick. Mas era outra pessoa. Totalmente diferente.
Nick caminhou até ele. Não por que quisesse conversar, mas porque a saída ficava naquela direção. Mesmo assim o visitante puxou assunto. Ele precisava desabafar. Desde aquele dia ele não conseguia dormir em paz.
— Me perdoe.
— Não foi sua culpa. Não foi você quem o matou.
— Eu sei. Mas me sinto envolvido. Por favor, me perdoe.
— Você não precisa pedir perdão a mim. – Nick se virou e olhou para os ombros de Phillipp. – Primeiro perdoe a si mesmo.
Em lágrimas, Phillipp ali ficou.
Olhando para os céus ele buscava forças pra fazer aquilo que Nick lhe aconselhara.
Mas parecia ser algo impossível para ele…
To be continued…