Episódio Não Revisado
Londres de Trevas
:: Terceira Temporada ::
Episódio LX
Spiritum:
O Reino das Sombras
“TECNOMANTE! NÓS PRECISAMOS SAIR DAQUI AGORA!!!”
A voz do lobisomem ainda ecoava em sua mente. Todo seu corpo estava dolorido. Mas ele parecia estar bem. Estava vivo. James não se lembrava direito do que havia acontecido. Apenas de uma coisa. A explosão do prédio da Jupiter’s Corp. Logo em seguida, suas lembranças eram apenas um maremoto de eventos desconexos. O lobisomem que o arrastou para algum lugar. A terrível sensação de estar dentro de um furacão. O desespero de ver tudo a sua volta desfazer e ruir.
Demônios. Ele se lembrava dos espíritos devoradores que se aproveitaram da situação para atacar qualquer coisa que estivesse vagando a esmo no meio do turbilhão. Ele se lembra de seus rostos com sorrisos de tubarão prontos para devorá-lo. A dor e o temor por sua vida. James nada conseguia fazer além de ser carregado pelas correntezas furiosas.
Mas no fim, ele estava bem. Seu corpo estava inteiro. Suas pernas e braços lhe obedeciam normalmente. O jeito era se levantar e tentar responder uma pergunta inquietante: Onde diabos ele estava?!?
Domingo, 25 de Junho de 2028. Hora Desconhecida.
Em algum lugar dos Reinos Espirituais.
Londres – Inglaterra.
A primeira impressão, James pensou que poderia estar em um planeta alienígena. Entretanto, detalhes sutis como placas de sinalização e cartazes de propaganda indicaram que ele ainda estava em Londres. Porém, uma Londres assustadoramente bizarra.
Suas construções eram um emaranhado disforme de alvenaria e aço. Julgando onde possivelmente ele estava, muitas das construções nem deveriam estar ali e/ou não tinham aquelas dimensões. Alguns prédios estavam três vezes maiores que os originais, parecendo gigantescos Titãs em meio a civilização. Outros, no entanto, eram bem menores, como na época em que foram construídos, como se nunca tivessem sido reformados. A maioria, por sinal, parecia insubstancial como fantasmas.
As ruas não eram diferentes. Iguais aos prédios e construções, muitas das ruas eram quase invisíveis, talvez nem existissem. James percebeu que as ruas menos movimentadas, aquelas que poucos carros entram ou exclusiva para pedestres, eram completamente fantasmas neste mundo. Por outro lado, as ruas e calçadas mais movimentadas eram como feridas profundas e sangrentas na cidade. Como foi dito, James percebeu que estava em Londres por causa das placas de sinalização, e foram justamente estas que o indicaram em que local da cidade ele estava: A City, o centro financeiro da capital britânica. Talvez fosse apenas impressão, ou o simples fato dele estar em outro mundo, mas o fato era que o Centro de Londres estava assustadoramente macabro. A cada passo que James se aventurava, mais sombrio ficava o lugar, criando aquela incomoda sensação de aflição e medo, como se algo ou alguém fosse atacá-lo a qualquer momento. James se lembrou da mesma sensação que tinha quando andava num bairro perigoso altas horas da madrugada. Entretanto, ali naquele momento, não era apenas paranóia da sua cabeça. O próprio lugar fazia questão de aparentar ser perigoso e assustador.
E havia outro detalhe estranho: não havia pessoas à vista. Por todos os lados, seja nas ruas ou nos prédios, tudo estava tenebrosamente vazio, como se cidade inteira tivesse sido evacuada (“na melhor das hipóteses”, pensou positivamente). Por mais que a cidade deixasse evidente os reflexos da passagem da humanidade, não importasse para onde James fosse, ele não encontrava ninguém.
Olhando para o céu desolado, foi então que ele percebeu que não havia qualquer luz natural, como Sol ou Lua, a não ser estranhas estrelas moviam-se pelo céu discretamente. Foi nesse instante que um estranho som surgiu ao longe.
Vinha da mesma direção de onde provavelmente seria o prédio da Jupiter’s Corp. O som aumentava a cada segundo e lembrava perfeitamente o bater de asas de um enxame de gafanhotos. James deu dois passados para trás, em seguida bateu em retirada quando avistou uma nuvem negra vindo em sua direção.
Suas pernas corriam o máximo que podiam alcançar, e independente de seu estado físico, ele correria o quanto fosse para fugir daquela ameaça trevosa. Primeiro ele passou por um cruzamento. Depois, seguindo pela mão dos carros, atravessou um quarteirão inteiro, tendo um enorme prédio à sua direita. Quando sentia que logo iria ser pego, James quebrou rapidamente pra sua direita, entrando em uma rua quase etérea de uma única via. Pensando que a melhor forma de escapar seria se esconder, foi então que o agente iluminado avistou que logo na esquina do enorme prédio havia uma entrada para estacionamento. James não pensou duas vezes e entrou no subsolo do edifício.
Se do lado de fora tudo parecia assustador, que dirá um estacionamento escuro e vazio. O medo no rosto de James era evidente e por isso, ele preferiu, mesmo sendo arriscado, ficar próximo da entrada onde a pouca luz ainda adentrava. O estranho som agudo da nuvem finalmente chegou com toda potencia na área onde James se encontrava. Agora com mais clareza, ele pode identificar o que era aquela nuvem ameaçadora. O bater frenético de asas de couro, os grunhidos e sons guturais de vozes afobadas, o tilintar de lâminas de diversos tipos… sem dúvida nenhuma, para um homem vivido como James, aquela nuvem nada mais era que o avanço de uma horda demoníaca.
Fechar os olhos era apenas um convite ao passado. Na época em que esteve no meio de uma guerra entre anjos e demônios. Quando Oxford fora invadida por centenas de milhares de demônios causando muitas mortes e destruições. O som era o mesmo. A situação era a mesma. James novamente se escondia para não ser vítima de seres bestiais e insanos.
A Horda enfim passou. Depois de eternos minutos, finalmente o silêncio voltou a imperar no mundo dos espíritos. Apenas a respiração de James era escutada. Até seu coração voltou a bater normalmente. O perigo havia passado. Era hora de retornar para o lado de fora e tentar descobrir um jeito de voltar ao mundo real.
[Soundtrack: Let’s Go Hunting – Christopher Lennertz]
Um susto!
Um estranho barulho ecoou nas profundezas obscuras do estacionamento.
— Quem está ai?!?
James se arrepiou dos pés à cabeça. Seja lá o que fosse, era melhor ele sair dali o quanto antes. Se possível, às pressas. Um passo pra trás, girou os calcanhares e logo disparou para o lado de fora.
Inútil.
A saída estava bloqueada. Um monstro havia surgido diante de James.
— Aaaaaaaahhh!!! – gritou apavorado caindo no chão.
A criatura tinha prováveis dois metros de altura. Seu corpo era como uma colcha de retalhos, formados por pedaços de couro costurados com carne humana exposta. Algumas bandagens sujas o enfaixavam, mas não evitavam expor as partes mais grotescas. Seu rosto provavelmente era deformado, terrivelmente queimado, ocultado apenas por uma máscara de caveira. No que poderia ser chamado de boca, havia apenas um orifício coberto de dentes pontiagudos e irregulares. Tufos de cabelo espalhavam-se por sua cabeça, também cheia de costuras visíveis feridas purulentas. Seus braços eram desproporcionais. O da direita lembrava uma pata de aranha. O da esquerda era longo, magro e empunhava um facão de quarenta centímetros completamente sujo de sangue. Os olhos vermelhos e vidrados que cintilavam por debaixo da mascara estavam completamente focados em James.
O iluminado tentou se arrastar para longe. A criatura movia-se lentamente, poderia ser uma vantagem. Caso não fosse a estranha escuridão sem fim daquele estacionamento. “Que estacionamento?”, percebeu. Não era mais um estacionamento. Era apenas um enorme e vazio lugar, parcialmente obliterado de luz. Apenas na entrada havia luz. Pouca luz. E nesse momento, encurralado e desesperado, a saída parecia estar incrivelmente distante. E mesmo que tentasse fugir, a criatura estava entre eles.
Não havia fuga. Não havia saída. James apenas se arrastava pelo chão afastando-se do monstro, e em conseqüência, afastando-se cada vez mais da luz da saída. Adentrando ainda mais nas trevas.
— socorro… SOCORRO!!! ALGUÉM ME AJUDE!!!
A criatura continuou a avançar.
— SOCORRO!!!
James continuou a se aprofundar cada vez mais na escuridão.
— ALGUÉM!!! AJUDE-ME!!!
O monstro parecia estar se deliciando com o desespero de James, pois quanto mais ele gritava, mais forte e tenebroso ele ficava. A situação piorou quando a fuga de James terminou em uma parede. Não tinha mais para onde fugir. A saída, sua única referencia luminosa, agora não passava de um ponto luminoso. Além disso, apenas os olhos vermelhos da criatura cintilava na escuridão. Vermelhos cheios de ódio e sede de sangue. A única reação de James foi fechar seus olhos e esconder a cabeça entre as pernas.
Um furioso ROSNADO estrondou pela escuridão. Segundos depois, o som de carne rasgada se misturou aos sons guturais da criatura. Algum tipo de cão feroz pareceu ter atacado violentamente o monstro. Suas presas conseguiam destroçar tudo que tocavam. De repente, algo muito peludo agarrou James e o carregou para fora daquele lugar. Alguns segundos depois, agora do lado de fora, parecia que o jovem havia acordado de um terrível pesadelo. Diante dele, estava um homem muito alto, distintamente musculoso, e bastante peludo. Apesar de estar praticamente irreconhecível, James conseguiu lembrar quem era aquele que o salvara:
— Arthur?!
— Simrrr! Fiwrr-que arr-qui!! – respondeu o lobisomem com uma certa dificuldade em falar naquela forma quase-humana. O rosnado animalesco truncava suas palavras.
O lobisomem rapidamente retornou ao estacionamento para ajudar o companheiro, mas aparentemente não foi necessário. Antes de chegar no final da descida do subsolo, a carcaça destroçada do monstro foi jogada para fora e logo atrás surgiu, o que para James pareceu ser, outro monstro. Com quase três metros de altura, incrivelmente musculoso, a criatura parecia uma mistura de um lobo incrivelmente furioso com corpo humanóide. A forma final e animalesca dos lobisomens. Como um animal vitorioso, o lobisomem uivou com todas as suas forças, exibindo com orgulho suas feridas e o corpo coberto de sangue do inimigo.
*****
Depois que o espanto passou e que seus dois colegas lupinos voltaram às suas formas hominídeas, James enfim pode respirar com calma e dialogar com mais clareza. Nesse exato momento os três estavam no alto de um edifício observando o mundo ao seu redor.
— Afinal de contas, que lugar é esse? – questionou James olhando para as brumas que ocultavam a bizarra cidade logo abaixo.
— Spiritum, o Reino das Sombras. – respondeu Arthur categórico. – Este é o mundo espiritual.
— Mundo espiritual? Como isso é possível?!? Nós morremos?!?
— Não. Estamos perfeitamente vivos. Apenas atravessamos a película.
James obviamente já ouvira falar do mundo espiritual, afinal também fazia parte da Ordem do Graal, uma das sociedades místicas do Arcanorum. Entretanto, diferente das outras cabalas, ele era um alquimista e não lidava com esses assuntos “extraterrenos”.
— Foi assim que conseguimos escapar da explosão.
— Sim.
— Como vocês…
Já mostrando uma certa antipatia pelas perguntas insistentes de James, Slayer, o feroz lobisomem que derrotou a criatura, respondeu disparado:
— Nós salvamos o seu rabo duas vezes, então pare de fazer perguntas idiotas!
Obviamente, com aquela resposta ríspida, James se calou. Aproximou-se do parapeito e de lá ficou observando a cidade. Num ponto não muito distante uma nuvem negra formava-se gradativamente. Isso o fez lembrar da Horda demoníaca que o atacou minutos atrás.
— Por que demônios estão correndo soltos por aqui?
— Aquilo não são demônios. – respondeu Arthur se aproximando. Mesmo sendo um lobisomem como Slayer, ele parecia ser bem diferente. Seu corpo era magricela, usava roupas carcomidas, e tinha um cabelo preto bem liso e escorrido que ia até os ombros. Seu rosto pálido e ossudo observava com olhos fundos a nuvem negra que se formava quarteirões de distancia dali.
— Estamos no Reino das Sombras, lar dos espíritos. – explicou. – Aqui é o reflexo do mundo real, entretanto numa “freqüência” ou “dimensão” espiritual diferente. Você quando atravessou a película pode perceber que estava em um mundo diferente, porém intimamente ligado ao mundo material de onde veio. Apesar de não parecer, este mundo é tão real quanto você o mundo físico, apesar de ter características diferentes.
— E habitantes diferentes. – completou Slayer na dele, mas prestando atenção na conversa.
— Exato. Tal como a Terra é o mundo dos homens, Spiritum é o mundo dos espíritos. Entretanto, um não vive sem o outro. Para o mundo espiritual existir ele precisa do mundo material, e vice-versa. Tal como o corpo e alma.
— Então o que me atacou naquela garagem era um espírito.
— Sim. Um espírito peculiar, por assim dizer. Desculpe dizer isto, mas você foi absurdamente burro em se esconder em um local escuro e deserto em pleno reino espiritual.
— Um imbecil. – completou Slayer.
— Ok, rapazes! Como se eu fosse saber que dentro daquele lugar tinha um monstro psicopata.
— Usou as palavras certas. Monstro Psicopata. Era isso o que aquela criatura era. Tal como corpo define a alma, o mundo material afeta consideravelmente o mundo espiritual. Tudo aquilo que os humanos fazem podem ser refletidos aqui. Principalmente suas emoções mais fortes. Um local de meditação e paz refletirá no mundo espiritual um lugar tranqüilo. Um local movimentado como o centro da cidade revelará um mundo estressante e caótico. E, obviamente, um local onde ocorreu algum tipo de assassinato irá refletir aqui um local assustador e tenebroso.
“O que você viu naquele estacionamento foi apenas um reflexo real do que aconteceu no mundo real. Aquele era um espírito da dor e da violência personificada. Provavelmente, naquele estacionamento no mundo real, algum humano deve estar cometendo assassinatos inescrupulosos, se aproveitando da escuridão do lugar e do isolamento de suas vítimas. Foi isso que você sentiu lá, não foi? Escuridão e solidão.”
— Como se não houvesse ninguém no mundo pra escutar meus gritos de socorro. – balbuciou James ainda trêmulo ao se lembrar.
— Sim. Você está agora em Spiritum e pode ter certeza que aqui pode ser tão terrível quanto o mundo real.
Meditando um pouco, James ficou assimilando tudo aquilo que o lobisomem Arthur havia lhe dito. Havia muitas dúvidas ainda, mas ele não sabia se ainda tinha chance de fazê-las.
— Matt e Phill disseram que a ajuda de vocês era imprescindível nesta missão. Inicialmente pensei que fosse por causa dos lobisomens nefandos que fossemos encontrar, mas pelo visto acho que existem outras razões.
— Sim. – respondeu Arthur taciturno. – Quando nosso ancião nos convocou ele informou que tínhamos uma perigosa missão em Londres relacionada à espíritos umbralinos. Seu parceiro Matthew também estava ciente disso e deve ter contado à vocês.
— Ele disse que algo de muito ruim estava acontecendo no prédio da Jupiter’s Corp e que estava correlacionada à forças malignas. Talvez as mesmas que estão causando a morte dos anciões do Arcanorum.
— Você está certo. Após a morte de nosso ancião tornou-se nosso dever de honra desvendar esse caso e por fim nessa história. É por isso que fomos escolhidos a dedo por Philox no inicio.
— “A dedo?”
— Sim. Em nossa tribo, Slayer é um dos melhores caçadores de espíritos, personificando a força e a fúria de seu ancestral, o lobo Fenrir.
— Aquele da mitologia nórdica?
— Sim. Você não precisa se preocupar com ele. Ele é grosseiro e respondão, mas sua cabeça é focada apenas em espíritos. Ele é um viciado.
— Viciado é você, filho da p***!!! – gritou Slayer ao escutar os comentários.
— Depois temos o Rocky. Ele estava com você, não é?
— Sim. Cadê ele? Será que ele…
— Morreu? Duvido muito. Aquele vira-lata do asfalto é mais difícil de morrer do que uma barata. Ele foi escolhido pra essa missão por que era o melhor de nós quando se tratava de cidades e tecnologias. Precisávamos de alguém que fosse um intermediário entre vocês, tecnomantes, e a gente. Além disso, ele é o melhor batedor e espião de nossa tribo, sabendo usar com maestria os equipamentos humanos em conjunto com as habilidades lupinas.
— Por isso você acha que ele não morreu.
— Sim. Aquele cara é muito esperto pra morrer numa simples explosão.
— E você?
— Eu sou aquele que é o cérebro da operação. Sou o único de nossa tribo que entende e estuda os malditos espíritos nefandicos e suas áreas umbrais. Sou conhecido entre os nossos como um mestre das sombras, por ser o que melhor entende dos reinos espirituais. Estou nesta missão justamente porque Philox, aquele arrogante lobo branco, finalmente reconheceu meus talentos e conhecimentos, afirmando que minha presença nesta missão seria imprescindível. Sou o único que pode saber e estudar o que diabos está acontecendo nesta cidade.
— Um estudioso da arte das trevas. Provavelmente o mais suscetível à corrupção do mal. – comentou James, mesmo sabendo que suas palavras eram perigosas e que poderiam custar-lhe a vida. Entretanto, ele ganhou em sua posta ao perceber que Slayer, o outro lobisomem, compartilhava da mesma opinião que ele e provavelmente não deixará que Arthur fizesse alguma coisa. Apesar do rápido momento de tensão, Arthur mostrou-se incrivelmente tranqüilo, mesmo para um lobisomem.
— Sim. Mas eu tenho uma opinião contrária à de vocês. Todos vocês almejam e lutam pra combater o Mal que se enraizou nesse mundo. Dedicam suas vidas, tentam dia após dia encontrar meios de trazer a paz a este mundo que está literalmente caminhado para a total decadência. Tudo isso parece sem sentido para mim. O mal não pode ser derrotado num combate direto. Ele só pode ser enfrentado em seu interior e isso significa que é preciso entrar em suas profundezas antes de ser capaz de causar qualquer mudança duradoura.
“Eu sei que meus companheiros de matilha me acham louco. Na verdade, toda a tribo de lobisomens me acham louco. Mas eu sei que existem alguns que pensam como eu e, louco ou não, o dia em que terei que mergulhar nas profundezas do Mal se aproxima.”
“As coisas que eu vejo nas profundezas do Abismo obviamente me assustam. Mas eu não vejo outra alternativa a não ser enfrentá-las para poder corrigir as terríveis coisas que estão erradas em nosso mundo. Até que esse dia chegue, como o próprio Philox sabia, todos vocês podem contar com minha inteira dedicação ao grupo. Por que, acima de tudo, eu ainda sou um Lobisomem.”
As palavras de Arthur foram facilmente entendidas por James, mas não aceitas como verdade. Ele, obviamente, pensava o contrário. Mas James entendia perfeitamente a mente do lobisomem, afinal ele tinha um amigo que pensava na da mesma maneira. Desde o começo James sabia que Matthew só havia entrado pros Iluminados por uma razão específica: combater o Mal. E para ele, tal idealismo apenas seria conseguido se o Mal fosse derrotado pela raiz, mesmo que pra isso ele tivesse que mergulhar de cabeça para encontrá-la. E nos últimos dias a situação do amigo foi cada vez mais se agravando justamente por causa da morte de Spark, que foi uma vítima das artimanhas do “Mal” que ronda a cidade.
Talvez fosse justamente por isso que James não desconfiava de Arthur. Ele sabia que pessoas como ele e Matthew eram sem sombra de dúvidas as mais dedicadas aos companheiros e amigos, podendo até mesmo arriscar suas vidas em nome deles. Mas, tal como ele faz com Matthew, ele agora precisará gerenciar esses lobisomens em seus ideais, colocando-os naquilo que eles melhor sabem fazer, mas trabalhando como uma equipe. James então entendeu a sabedoria de Philox ao escolher membros de sua tribo tão distintos um do outro e por que os confiou aos iluminados.
— Arthur. Acho que é chegado o dia de sua grande tarefa.
— É o que estou pensando agora.
— Entretanto, como você bem sabe, nós precisamos de você. Na verdade, todos nós somos necessários nessa missão. A força de Slayer, a sagacidade de Rocky e, principalmente, a sua sabedoria. Precisamos unir nossas forças pra enfrentar esse Mal que está entranhado nesta cidade.
Slayer, agora mais calmo, aproximou-se de James e questionou:
— E como pretende fazer isso, Tecnomante?
— Primeiro precisamos saber com o quê estamos lidando. Até agora apenas nos referimos ao inimigo genericamente como “O Mal” sem saber sua identidade verdadeira e quais são seus planos. Mas nós sabemos que ele existe. Sabemos que está agindo. E sabemos também que não será boa coisa o que ele planeja. Enfim, terei que dar meu voto ao Arthur, concordando que nesse momento precisaremos nos infiltrar no campo inimigo para saber o que ele planeja e antecipar nossa reação.
— E como faremos isso? – questionou Slayer já se empolgando.
— Simples. Terminando o que começamos. Viemos até o centro pra invadir a Jupiter’s Corp e desvendar os segredos obscuros que se escondiam naquele prédio. Agora que estamos no Mundo Espiritual, observando claramente o que aquele prédio reflete aqui, acredito que não há duvidas por onde iremos começar.
— Acho que estou começando a gostar da idéia! – comentou slayer imaginando que voltará a caçar espíritos nefandos.
— Porém, não podemos fazer isso de qualquer maneira. A própria forma que invadimos a Jupiters foi um tanto precipitada. – argumentou James. – Como disse, precisamos conhecer o inimigo primeiro, pra depois atacar.
— Se infiltrar como espiões, você quer dizer. – disse Arthur.
— Exato. E é por isso que preciso que agora vocês me dêem todas as informações sobre Spiritum, os seres que aqui habitam e esse tal de “Umbral” que mencionou. Eu preciso saber de tudo. Nos mínimos detalhes. Só assim poderei pensar na melhor estratégia para agirmos. Isso, é claro… se vocês ainda pretendem me ajudar.
Nesse instante os dois lobisomens se entreolharam e Slayer foi o primeiro a responder com firmeza:
— Isso era o que nosso ancião desejava. Nada mais importa.
Feliz em saber que conseguiu bons aliados, James sentou-se no chão, pediu pra que eles fizessem o mesmo. Dentro de uma roda de conversa, Arthur foi o primeiro a começar a explicar detalhadamente como se estruturava o Mundo Espiritual e seus habitantes e, principalmente, o que os aguardavam. Foi durante essa explicação que uma boa surpresa ocorreu entre eles.
Surgindo praticamente do nada, o terceiro e último lobisomem de Philox, Rocky, se juntou ao grupo deixando evidente que também sobreviveu à explosão.
— E ae, galera! Tudo em cima? – cumprimentou Rocky.
— Por onde você andou, vira-lata do asfalto?!? – questionou Arthur seriamente.
— Caaalma! Vocês acham que foi fácil escapar do Turbilhão? Nem sei como é que o tecnomante saiu com vida!
— Turbilhão? – intrigou-se James. – Vocês estão falando daquele tornado que nos tragou pós-explosão?
— Exatamente. – disse Slayer. – Aquilo é na verdade uma reação tempestuosa do mundo espiritual que ocorre quando algo de muito grave acontece no mundo material.
— Tipo a explosão da bomba atômica, o Tsunami na China, ou o 11 de Setembro. – exemplificou Rocky juntando-se à roda. – A Explosão do prédio obviamente acarretou um Turbilhão repentino aqui em Spiritum.
— E por que eu senti como se tivesse sendo dilacerado por diabretes quando fui lançado no olho do Turbilhão?! – questionou James.
— Puts! Acho que tínhamos esquecido deste “detalhe”! – disse Rocky.
— Que detalhe?
— É verdade. – concordou Arthur. – Ele pode ser um tecnocrata, mas ainda é um mago.
— Como assim?! Eu não sou um mago, sou um alquimis…
Sem responder suas alegações e dúvidas, o lobisomem Arthur se aproximou de repente de James e com uma de suas afiadas garras rasgou a pele do rapaz. Instintivamente, James iria se opor, mas logo percebeu que foi segurado com força por Slayer, para que não fugisse.
Foi tudo bem rápido, mas a dor de ter o peito sendo rasgado por uma garra lupina afiada não foi nada boa. Com o peito coberto do próprio sangue, depois que a dor passou, James se afastou dos três lobisomens em fúria:
— POR QUE FIZERAM ISSO?!?
— Pro seu próprio bem. – respondeu Arthur.
— Sim, sim. – concordou Rocky balançando a cabeça.
— MEU BEM?!?
— Antes de gritar, olhe o que fiz.
Tirando a mão do peito, James enfim pode ver o que tinha feito. Era um tipo de símbolo estranho, possivelmente uma grafia lupina, que possivelmente tinha algum significado místico.
— Isso daí é um Selo de Proteção. Apliquei em ti um rito de proteção contra espíritos maliciosos.
— Mas pra que isso?!?
— Não sabemos ainda o porquê disso, mas nos últimos tempos todo e qualquer mago que tenta se aventurar em Spiritum está sendo brutalmente atacado por espíritos maliciosos. Eles os atacam principalmente em busca de sua essência primordial, mas muitas vezes levam o mago à morte. E não é só aqui. Ouvimos relatos de que até no norte da Rússia alguns magos estão sofrendo problemas quando atravessam a Película.
— Mas eu não sou um mago!
— Certo. E nós não somos lobisomens! Chame-se como quiser: Alquimista, tecnomante, iluminado, ou a porra que for! Você é um Místico. Possui a Iluminação, a Gnose, e isso o torna alvo perfeito pra esses espíritos!
Mesmo depois de ter entendido, James ainda estava relutante:
— Poderia pelo menos ter perguntado antes de fazer.
— Até parece que você ia deixar. – comentou Rocky.
— Deixa de choro e vamos terminar logo com isso! – repreendeu Slayer já demonstrando cansaço de ficar parado sentado.
Relutante, e usando o que lhe restava de roupa para estancar o sangue, James reuniu-se com o grupo novamente. No momento sua mente trabalhava num ritmo frenético e, como únicos aliados, teria que contar com a ajuda desses três lobisomens, mesmo essa idéia ser um completo atestado de suicídio. Teria que James mostrar valer por que era considerado o cérebro da Sociedade de Prometeu.
*****
Umbral. Uma pequena área de Spiritum formada apenas pelas forma-pensamento mais vis, mesquinhas e cruéis da raça humana. Ódio, guerra, miséria e o egoísmo, são regiões onde os piores sentimentos da humanidade afloram e estão sempre permeando as cidades e os grandes centros urbanos. Seus habitantes são espíritos da pior espécime, pouco desenvolvidos, formados apenas de conceitos negativos, que vagam por essas regiões como vermes atrás de um desavisado para sugar-lhe a sua energia vital. Parasitas que se alimentam do sofrimento alheio e maculam o mundo real como uma chaga.
James tinha estado apenas uma vez em sua vida dentro de uma Região Umbral. Foi quando fez uma visita à maior penitenciária sobrenatural da Grã-Bretanha, a Black Hill. Ele se lembrava perfeitamente de seu mestre da Ordem do Graal lhe alertar sobre os perigos que iria se submeter ao entrar em Black Hill. Lá, o maior problema não eram os penitenciários formados pelos mais perigosos inimigos da sociedade, e sim os carcereiros que os mantinham presos. Esses sim eram uma ameaça. Andavam livremente pelos corredores do presídio, esses Espíritos Umbralinos eram a única forma de manter os presos dentro de suas selas, morrendo e definhando, enquanto se alimentavam de suas vidas.
Mas Black Hill não era a única prisão umbral do país. Se multiplicando como uma praga, várias regiões umbrais estão sendo formadas por toda a Grã-Bretanha, principalmente em Londres. E dentro de cada uma dessas áreas umbralinas uma Fortaleza das Trevas é erguida, tendo em seu comando um dos espíritos mais perigosos e temidos daqueles que estudam o Reino das Sombras: os Lordes das Trevas.
De acordo com Arthur, existem exatamente Sete grandes Lordes das Trevas no país e cada um deles gerencia as outras áreas umbralinas menores. Acredita-se de que o número sete não seja apenas uma simples coincidência. Arthur tinha suas suspeitas de que esses sete Lordes das Trevas são nada menos do que a personificação espiritual dos Sete Demônios dos Pecados Capitais: Inveja, Ganância, Luxúria, Gula, Orgulho, Preguiça e Ira. E era em direção a uma dessas Fortalezas que James e seus companheiros lobisomens se dirigiram. O objetivo era claro: desfazer essa mácula no mundo espiritual. Porém, tal missão deveria ter uma razão mais clara, do que simplesmente matar, pilhar e destruir.
James estava convicto de que tudo isto fazia parte de um grande plano mirabolante projetado por “alguém” que vem “arquitetando” algo que já se estende durante anos. Sua primeira pista começa com as teorias de Matthew dias atrás na última reunião da Prometeu. Ele havia mencionado alguns pontos de “forte ressonância negativa” em alguns pontos da cidade. E que, ao ligar esses pontos, formava-se um enorme círculo de magia. Um desses pontos, obviamente, ficava no prédio da Jupiter’s Corp, e por isso eles iniciaram um assalto à corporação.
A missão deles era “tentar descobrir o que estava acontecendo naquele prédio”. Agora, podendo ver por outra perspectiva, James entendeu enfim “O Que” estava acontecendo. Agora ele precisava saber o “Porquê”. Por que uma área antes considerada normal e tranquila no mundo real se tornou uma Região Umbral no mundo espiritual. O que quer que estivesse sendo arquitetado por trás das cortinas, James teria que descobrir.
A qualquer custo…
Sendo trazido arrastado pelo frio mármore, James é jogado no chão com violência:
— Milorde! – exclamou um dos guardas espirituais que trouxe James. – Encontramos este humano nas redondezas.
Iluminado levantou os olhos discretamente. Diante dele, sentado em uma poltrona feita de ossos humanos, estava ninguém menos que um dos Lordes das Trevas. Era complicado especificar exatamente qual deles ele seria, entretanto ele parecia ser alguém bastante arrogante, pois olhava para James com desprezo e nariz empinado.
— Se trata de um mago? – questionou o Lorde.
— Não. – respondeu seu servo guarda. – É apenas um humano.
Desconfiado, o Lorde se levantou de seu trono e foi até James. Parando diante dele, fez com que a cabeça de seu prisioneiro fosse levantada a fim de ver melhor sua face:
— Como pode então um simples humano chegar até aqui?
Nesse momento, um alarme de emergência soou e outro guarda, que vinha apressado, adentrou no salão real trazendo possivelmente más noticias:
— MILORDE!!! ESTAMOS SENDO ATACADOS POR TRÊS LOBISOMENS ENFURECIDOS!!!
Sabendo da ameaça, o Lorde das Trevas ignorou James e logo tomou uma atitude:
— Quero todos os mais poderosos espíritos defendendo nossa Fortaleza! Convoque os Pesadelos!
— SIM, mestre! – ecoou uníssono as vozes dos espíritos presentes.
— E principalmente… Tragam esses lobisomens vivos.
— Milorde, e o que eu faço com esse humano?
— Nada. – respondeu mostrando-se indiferente com a presença do iluminado. - Tranquem-no numa das celas. Infelizmente nosso Senhor não permite a morte de humanos.
“Senhor?!?”, intrigou-se James.
— Entretanto… - continuou o Lorde lançando um olhar sádico. – Não posso garantir que ele venha a sobreviver em nossos “aposentos”.
Sendo levantado bruscamente, James foi sendo arrastado à força pelos guardas. Para trás ficou apenas a risadinha sarcástica do Lorde das Trevas. James ainda tentou relancear um olhar para trás, mas infelizmente não teve tempo. Em seu trajeto, ele percebeu com temor que estava sendo carregado para profundezas mais obscuras daquela fortaleza.
Por uma força descomunal, James foi arremessado dentro da cela como um boneco de pano. Aqueles que o jogaram, riram da situação patética em que ele se encontrava. Pela primeira vez então, James pode olhar com mais clareza para os guardas. Eram, em primeira impressão, homens fardados comuns, igualmente como os carcereiros dos presídios de segurança máxima. Entretanto, alguns detalhes evidentes deixavam claro que eles não eram humanos comuns.
Um deles tinha, no lado esquerdo da caixa craniana, um imenso rombo provavelmente causado por uma arma de fogo de grosso calibre. Certamente foi morte instantânea, entretanto parece que sua alma foi requisitada para servir aqui. Seu modo de agir, sua forma de falar e tratar com os prisioneiros, mostravam que possivelmente ele não fora muito diferente em vida. Possivelmente, deduziu James, ele tenha sido assassinado por um prisioneiro enraivecido. Ou simplesmente morreu de forma estúpida à ponto de sua alma se tornar um espírito obcessor.
O mesmo valia para o seu colega. Entretanto, o da direta não deixava claro como sua alma se tornara carcereiro de um Fortaleza das Trevas. Isso até ele dar as costas para James. Uma dúzia de facas estava cravada em suas costas, deixando claro como ele encontrou a morte em vida. Possivelmente seu assassinato foi causado por apenas uma faca, entretanto, como o próprio Arthur explicou, em Spiritum tudo é apenas reflexo daquilo que aconteceu no mundo real. Então, se morreu por doze facadas, doze facas estarão cravadas em suas costas.
Divagações à parte, restou para James agora apenas ficar naquela cela até que seus companheiros lupinos cumprissem com o plano original. Talvez eles não demorassem muito, mas até lá a única coisa que ele tinha pra fazer agora era esperar.
Escorando-se em uma das paredes, James sentou-se no chão e começou a observar detalhadamente a cela. Ela tinha provavelmente o tamanho de um quarto comum, quatro por seis metros, com o pé direito de três metros. Suas paredes eram feitas simplesmente de tijolos e cimento, todas cobertas por manchas, rachaduras ou danificações causadas pelos seus antigos prisioneiros. No lado leste estava a entrada fechada por grades de ferro comum. À oeste uma pequena janela de ½ metro quadrado, também gradeada, possivelmente mostrava o lado de fora. Curioso, James se levantou para verificar. Entretanto, tal foi sua decepção ao descobrir que nem mesmo na ponta dos pés ele conseguia ver o lado de fora. Pelo menos, pensou ele, ele poderia se entreter vendo o que acontecia do lado de dentro da prisão.
Isso até ele descobrir que não havia mais entrada nenhuma.
Desesperado, James foi até a parede onde certamente deveria haver a porta gradeada, entretanto não havia nada lá a não ser a continuação da parede de cimento. Respirando mais rápido e aflito, James escorou as costas na parede e deu uma olhada ampla na cela. Não havia nada. Nem a janela estava mais lá. Em seu lugar ficou uma lâmpada antiga pendurada por um fio. Era a única fonte de luz do aposento.
James estava preso. Isso estava tão claro que ele poderia até enlouquecer. Várias coisas começaram a surgir em sua mente. Como o fato de um local 100% lacrado não ser abafado e ainda ter oxigênio respirável. Foi então que o inteligente iluminado teve suas questões postas à baixo quando se lembrou que não estava no mundo real. Ele nem mesmo tinha certeza se realmente estava respirando. A questão é: ele estava preso. Literalmente preso. E, certamente não teria como sair dali. Não até seus planos começarem andar.
Ele não podia enlouquecer. Não agora. Certamente o destino da humanidade dependia do sucesso de sua missão. Desde o inicio James estava ciente dos riscos em ser capturado pelos espíritos do umbral. Não poderia de maneira alguma fraquejar agora. Seu verdadeiro sacrifício pela humanidade estava apenas começando…
*****
[Soundtrack: A Looking In View – Alice in Chains]
Segundo dia.
Seu sono foi interrompido quando fortes rosnados se juntaram ao silencio do aposento. Pareciam os rosnados de Slayer. Aparentemente ele também fora capturado. Mas não foi preso junto com James. Sua cela continuava sem entrada e sem saída. O plano estava correndo normalmente.
O jeito foi voltar a dormir.
Quarto dia.
Era claro que em sua atual condição, James não precisava se alimentar. Ele já teria morrido de fome se fosse o caso. Entretanto, ele desejava loucamente por um pouco de comida. Mastigar algo.
Um pedaço de carne.
Um pão quentinho.
Ou apenas uma maçã…
Sétimo dia.
Pra combater o tédio, James tentou concertar seu computador portátil, o PHDA, que pra sua sorte foi a única coisa que veio consigo. Mas era complicado. O aparelho estava seriamente danificado. Ele iria precisar de umas ferramentas especiais que, obviamente, não teria ali. Pelo menos era um objeto de entretenimento divertido.
Mesmo quebrado.
Décimo quinto dia.
Dorme.
Levanta.
Anda.
Volta a deitar-se no chão.
Pensa um pouco na vida.
“Será que a Keira está bem?”
Vigésimo dia.
— Tem alguém ai?!? – gritou batendo na parede. – Eu preciso sair um pouco! Eu estou passando mal!! Alguém fale comigo!!!
“Por favor…”
Trigésimo primeiro dia.
— Quanto tempo já se passou?
— Será que irei ficar preso aqui pra sempre??
— Como pode uma cela fechada ter uma lâmpada que nunca apaga???
— Estou falando sozinho como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Hein?
— O que disse?
Quadragésimo quinto dia.
“AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!”
— ME TIREM DAQUI!!! ME TIREM DAQUI!!! ISSO DAQUI É DESUMANO!!! SEUS MONSTROS FILHOS DA PUTA!!! ME TIREM DAQUI!!! ME TIREM DAQUI!!! ME TIREM DAQUI!!! ME TIREM DAQUI!!!
“AAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH”
Sexagésimo dia.
Sentado tremendo. Seus cabelos cresceram. Estavam totalmente amaranhados. Sua barba também estava quase fechando. Abraçado com as pernas, James balançava pra frente e para trás. Seus olhos fundos estavam pretos.
Ele não agüentava mais dormir…
Sexagésimo nono dia.
“Eu preciso por a mente em atividade…”
“Se pelo menos eu tivesse algo que eu pudesse usar pra escrever…”
Olhando pra si mesmo, idéias surgiram.
“Sangue não dá. Precisaria de muito.”
O pequeno computador já estava totalmente estilhaçado no canto.
“Eu posso criar um pedaço de giz…”
“Sim… giz é uma boa…”
“Sulfato de cálcio…”
“Se eu usar algo no qual possa transmutar em giz…”
“Mas o que?”
Ele olhou para o próprio pé esquerdo.
“Ossos… Grande quantidade de cálcio…”
Com um pedaço de metal do aparelho, James segurou firme sobre o dedo mínimo do pé direito. Suas lágrimas começavam a cair. Ele iria se mutilar. Ele poderia morrer de hemorragia. Ele morreria se não tivesse nada pra fazê-lo se distrair.
— Sacrifícios pela humanidade… - olhos cobertos de lágrimas.
“ AAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!”
Septuagésimo dia.
Ele ainda tremia. Suava frio. O chão estava manchado de sangue. Seu sangue. Seu dedo estava jogado num canto. Ele já tinha conseguido o que queria, mas… como ele faria agora para transformar seu dedo num pedaço de giz?
Mágica?
Septuagésimo primeiro dia.
— EU NÃO SOU UM MAGO!!!
“Mas alguma coisa você iria fazer quando cortou o próprio dedo”.
— EU NÃO SEI FAZER MAGIA!!!
“Mas vocês não sabem fazer aquela tal de ‘ciência iluminada’?”
— EU SOU UM BIÓLOGO!!!
“Mas você sabe como fazer, não sabe?!”
— CALE A BOCA!!! CALE A BOCA!!!
Septuagésimo segundo dia.
Ele ainda não tinha percebido.
Estava com muita ansiedade pra pensar à respeito.
Mesmo cru era bom voltar a mastigar alguma coisa.
Mesmo que fosse seu próprio dedo decepado.
Septuagésimo terceiro dia.
Com o sangue James desenhou um círculo no chão.
“Por dentro do círculo a energia primordial carregada neste mundo irá se concentrar.”
Cálculos bioquímicos preenchiam a fórmula.
“O giz é simplesmente um sulfato de cálcio. Entretanto, transformar este osso em um pedaço de giz não será tão fácil. O sulfato SO4 é um composto comum em alguns glicosaminosglicanos como condroitin sulfato e dermatan sulfato presentes em cartilagens e ossos. O Cálcio é muito distribuído no corpo, mas, principalmente, é depositado nos ossos na forma cristalina associado ao fosfato chamado hidroxiapatita. Seria relativamente simples pela química substituir o sulfato pelo fosfato transformando ossos fortes e resistentes em um giz fraco e quebradiço. Entretanto eu precisarei roubar sulfatações de algum lugar, principalmente dos glicosaminos e transferi-las para o cálcio da hidroxiapatida expelindo o fosfato e assim transmutando este singelo osso em um pedaço de giz.”
Pensando mais um pouco, James fez outro circulo de sangue, agora ligado ao primeiro, onde nele apenas escreveu algumas fórmulas químicas. Em seguida ele começou a juntar bastante saliva na boca. Depois de alguns segundos, James derramou a saliva reunida no centro do círculo.
“Dentre os componentes orgânicos da saliva, destaca-se as enzimas microbianas. A hialuronidase hidrolisa os mucopeptídeos, como o ácido hialurônico, produzindo ácido glicurônico, ácido acético, e, por sua vez, a glicosamina. Se eu remover todos os componentes químicos desta saliva deixando apenas a glicosamina, poderei conseguir a sulfatação que tanto preciso.”
Ao redor do círculo James foi desenhando com cuidado cada uma das substâncias orgânicas e inorgânicas que compõe a composição química da saliva, até restar apenas o SO4.
“Preciso de mais sangue. O sangue será o condutor onde existe como agente tamponante de pH.”
Novamente buscando o pedaço de lâmina, James fechou os olhos e cortou a palma de sua mão. Com o sangue, fez uma ligação entre a saliva e o pedaço de osso. Enfim, seu experimento estava completo, restando apenas concluí-lo.
Olhando fixamente para o circulo desenhado, os cálculos químicos, e o pedaço de osso, sua mente pareceu ter parado.
— Preciso de energia.
Seus olhos foram de encontro imediato com a lâmpada acima dele. Levantando-se, James agarrou com força o fio da lâmpada e começou a puxar. Poderia ela estar bem presa a algum tipo de rede elétrica. Ou não. Nada ali era normal.
Depois de um pouco de esforço o fio começou a responder à força de James. Pouco a pouco ele trazia a lâmpada até os círculos desenhados no chão. Quando finalmente alcançou, teve que agir por puro instinto.
Removeu a lâmpada do bocal.
A suprema escuridão cobriu o aposento.
Em seguida encostou o bocal no circulo.
Um brilho repentino.
O barulho de energia sendo gerada.
Seus olhos brilharam na escuridão.
Depois de alguns momentos, a lâmpada retornou ao bocal iluminando o aposento.
Estava feito o seu pedaço de giz.
James começou a tremer. Ele havia conseguido! Ele conseguiu transmutar uma matéria em outra sem ajuda de aparelhos! Foi incrível! Foi fantástico! Ele nem se lembrava mais do que tinha feito para conseguir tal feito.
Mas, depois de alguns segundos observando o pedaço de giz, ele entristeceu. Pior. Entrou em completa depressão:
— Eu arranquei meu dedo por um pedaço de giz???
Levantando-se, ele foi até o outro lado do aposento. Olhando para trás, o giz o encarava inocentemente.
— Se pelo menos tivesse transmutado numa coxinha de galinha…
Octogésimo oitavo dia.
A parede havia se tornado tudo para ele. Seu bloco de notas, seu diário pessoal, seu caderno de pesquisas… Tudo que lhe vinha em mente, ele escrevia na parede. Ele também desenhava. Fazia tempo que James não desenhava.
O anel dourado em sua mão esquerda o fazia lembrar que havia alguém lhe esperando. Que existia alguém que estava muito preocupada com ele. Só Deus sabia o quanto ele estava com saudades dela. Em momento algum o rosto angelical de Keira lhe fugiu da memória.
Ele começou a desenhá-la diversas vezes. O rosto dela cobria praticamente tudo. Agora, ele terminava um em tamanho real. Em meio a tudo isso, seus cálculos matemáticos preenchiam o espaço vazio. Suas anotações o faziam lembrar-se do porque ele estava ali. De repente, algo estranho aconteceu.
Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a fadiga. Ou simplesmente a loucura tomando de conta. O que quer que fosse, ele tinha se pego escrevendo numa língua completamente desconhecida para ele. Não foi muito. Foram apenas rabiscos que pareciam marcas feitas por garras. Riscos sem qualquer significado lógico. Decididamente, ele estava ficando louco.
Nonagésimo dia.
Mais de quinze dias haviam se passado e James nem notava a passagem do tempo. Na verdade, ele já havia perdido algumas noções de realidade, como por exemplo, duas coisas estranhas que haviam acontecido e ele não tinha percebido.
Primeiro, o fio da lâmpada que ele trouxe até o chão retornou ao seu lugar de origem, como se nunca tivesse sido tirada dali. Segundo, e não menos estranho, era que após quinze dias ele ainda estava usando o mesmo pedaço de giz que criou.
Deitado no chão, não havia mais um espaço em branco pra ele poder escrever. Cada centímetro quadrado daquela cela estava rabiscado. Seus estavam secos por causa do pó de giz. Seus olhos estavam focados no teto, onde também haviam rabiscos dele. Não tinha mais canto nenhum para escrever. O jeito era apagar algumas coisas. Mas…
— Como foi que eu escrevi e desenhei no teto???
Nonagésimo quinto dia.
James estava com sede. O pó de giz estava ressecando sua garganta. Ele então desenhou um copo na parede.
Com um copo de vidro na mão ele agora precisava de água. James desenhou então uma torneira.
Da torneira, água limpa saiu. Sua sede foi enfim saciada. No chão ele colocou o copo já usado.
Depois de andar um pouco pela cela, James parou pra pensar. Então ele procurou pelo copo. Não estava mais ali. Havia apenas um desenho de um copo desenhado no chão.
Nonagésimo sétimo dia.
Várias ferramentas de ciência iluminada estavam espalhadas no chão. Chaves de fenda de adamantium, martelo de platina, chapas de lítio esterilizadas, um soldador de nanotecnologia, fios, parafusos, vidros de cristal…
Em poucas horas de trabalho o PHDA de James estava funcionando novamente. A energia ainda estava fraca, na reserva, mas deu pra carregar o suficiente pra três dias usando a corrente elétrica da lâmpada.
Agora que seu microcomputador estava concertado James pensou no que iria fazer. Ele tinha muitas coisas importantes pra fazer com aquele aparelho, entretanto, ele preferiu começar o uso vendo sites de vídeos pornográficos na internet.
Ele não sabia que em Spiritum tinha sinal de internet…
Centésimo Décimo Oitavo dia.
James caminhava pela base secreta da Sociedade de Prometeu. Todas as luzes estavam apagadas. Apenas os computadores em stand-by iluminavam o local. Ele não tinha pressa. Entretanto, sentia que algo lhe chamava pra algum lugar. Chamava para lhe mostrar algo. E James caminhava até esse lugar.
Perto do fim do corredor escuro, uma porta estava aberta. A luz do aposento indicava o seu destino. Ao parar diante da porta o cenário mudou. Agora ele estava no meio de um campo aberto. Era de noite, chovia muito, e fazia muito frio. James não sabia exatamente para onde ir, até que escutou o barulho de uma escavação.
Logo atrás dele havia onze túmulos, um do lado do outro em fileira. Curioso, James se aproximou dos túmulos e leu o havia escrito na primeira lápide: “Vincent Vaugh”. Seguindo os olhos até o final da fila, um homem cavava a décima segunda cova. James precisava saber quem era aquele homem, então seguiu em sua direção.
Entretanto, antes de passar pela terceira lápide, uma pessoa o parou. Certamente era uma pessoa que James conhecia muito bem, sua bela esposa Keira:
— Você tem certeza mesmo que quer seguir por esse caminho?
— Sim.
— Você não é obrigado a fazer isso!
— Não, não sou. Mas eu quero fazer algo pra ajudar. Não consigo ficar tranquilo enquanto pessoas morrem ao meu redor, sabendo que eu tenho condição de ajudá-las.
Keira sorriu e o beijou:
— É por isso que eu te amo.
— Eu também te amo.
E Keira deixou James passar.
Seguindo sua caminhada, antes de chegar à quarta cova, novamente uma pessoa apareceu na sua frente. Desta vez, era seu amigo e companheiro iluminado Spark. A primeira reação de James foi de surpresa, entretanto agiu normalmente:
— Não se preocupe, meu amigo. Aconteça o que acontecer, vai dar tudo certo!
— Eu queria lhe pedir desculpas pelo que aconteceu. Sinto-me culpado por tê-lo deixado sozinho.
— Não se preocupe com isso! Apenas siga em frente. Tenha fé e coragem!
— Obrigado, Spark.
— Eu sempre o considerarei um grande amigo, James!
— Eu também.
Após um forte abraço, James seguiu em frente. Seus passos eram calmos, mas mesmo sem pressa, ele mantinha os olhos fixos no homem que estava cavando. Talvez ele tivesse todas as respostas para as suas dúvidas. Novamente James foi parado no trajeto entre a quinta e a décima lápide. Desta vez era um homem que ele não o conhecia pessoalmente, mas sabia de quem se tratava. Era o detetive encarregado oficialmente das investigações dos assassinatos, Erick Russell:
— Este é um caminho muito perigoso, James. Tenha certeza absoluta do que está fazendo.
— Eu tenho. É por isso que estou aqui.
— Certo. Então tome cuidado.
— Obrigado.
James continuou seu caminho. Agora estava cada vez mais claro quem era o coveiro. James o reconhecia, entretanto a chuva era tão forte que impedia que o identificasse.
— Ei, você! Por que está fazendo esta cova?
Imediatamente o homem parou e respondeu a pergunta:
— Por que eu ainda tenho mais um trabalho pra fazer.
— Quem é você?
Desta vez, ao invés de responder, o coveiro voltou a cavar. Mesmo prestando atenção no que o coveiro estava fazendo, James não prestou atenção em detalhes estranhos que estavam ocorrendo, como por exemplo, o fato de não ser terra o que o coveiro tirava com a pá e sim dados multifacetados. Em pouco tempo tudo ao redor da nova cova estava cheio de dados, e todos da mesma cor: roxos perolados com letras douradas.
Foi então que uma quarta pessoa surgiu ao lado de James. Mesmo aparecendo de repente, para ele pareceu normal. Essa pessoa buscou um punhado de dados do chão e em seguida mostrou para James. Ele olhou para os dados primeiro antes de reconhecer quem era a pessoa:
— Está vendo? A resposta está aqui.
— Mas, Nick… O que esses dados querem dizer?
— Olhe para eles.
James olhou com atenção para os cinco dados na mão de Nick. Mesmo sabendo que dados eram feitos com números, os dados na mão de Nick eram diferentes. Haviam letras no lugar de números. Em cada dado, uma letra repetia-se por todas as faces. Eram as letras: “E”, “R”, “I”, “O” e “L”.
— Eriol?
— Sim. Veja! – e Nick apontou para o coveiro.
Agora o coveiro não estava mais sozinho. Um homem de terno e sobretudo longo o chicoteava com bastante força obrigado-o a cavar mais e mais. Mesmo gritando de dor e sentindo-se exausto, o coveiro continuava o seu trabalho. James estava sentindo-se mal com aquela cena. Mas nada foi pior do que finalmente reconhecer a face do coveiro. O susto foi tão grande que ele acordou do sonho exclamando por um nome:
— PHILL!!!
Centésimo quadragésimo dia.
Abrindo a carceragem, após mais de cem dias, os dois guardas umbrais no mínimo esperavam que o humano capturado estivesse morto. Estavam ansiosos pra de que forma ele tinha morrido. Mas, tal foi a surpresa quando viram que ele estava vivo. Deitado ao relento no canto da cela, James parecia um mendigo enquanto dormia. Tal visão irritou incrivelmente os guardas. “Era pra ele estar morto!!!”. Furiosos, pegaram James pelo braço acordando subitamente.
A primeira reação de James foi a de um bicho sendo atacado. Instinto de preservação. O inteligente e civilizado Biólogo não conseguia mais distinguir o real do imaginário e acreditava que os guardas eram apenas um pesadelo. Isso até ele ser levado à força para fora da cela.
Quando saiu da cela o qual ficou preso por tanto tempo, James mudou completamente. Pela primeira vez sentiu-se livre. Ele até voltou a olhar para a cela, mas um sentimento estranho de medo e ódio se misturaram dentro dele fazendo-o querer nunca mais voltar lá. Mas nada foi mais estranhou ou bizarro do que ver as paredes limpas. Era como se nunca James tivesse criado um pedaço de giz e escrito naquelas paredes por tanto tempo. Talvez seja uma verdade que James teria que considerar: a possibilidade de ter alcançado seus limites de sanidade chegando a enlouquecer seriamente.
Nesse momento ele rezava que pra os danos mentais não fossem permanentes.
Enquanto era levado pelos guardas, James pode se ver por um breve momento em um espelho. O susto repetindo de não reconhecer a pessoa atrás do espelho talvez fosse normal. Sua barba estava bem fechada, com quase três dedos de comprimento. Seu cabelo também estava bastante grande. Não tão longos como os de Danyael, porém estavam muito maiores do que ele costumava deixar. Além disso, estavam muito mal-tratados. Apesar da aparência, o iluminado percebeu algo que certamente não mudou: seu olhar. Continuava tão vivo e cheio de vontade de descobrir todo aquele problema o quanto antes.
O plano estava correndo normalmente.
Voltando ao salão principal da Fortaleza, James foi colocado ao lado de mais três homens. O salão estava lotado de espíritos. Parecia ser algum tipo de confraternização ou reunião coletiva. Seus olhos exaustos tentaram se erguer, mas estava incrivelmente difícil. O jeito foi se limitar a altura de seus ombros. Ao seu lado estava um homem pálido, raquítico, muito barbado e tão fatigado quanto James. Ele demorou alguns instantes observando o homem, até que seus olhos se encontraram. A surpresa foi imediata:
— Ssslayeer… - balbuciou James.
O lobisomem não conseguia falar. Apenas confirmou com a cabeça. Era evidente o que tinha acontecido. Slayer, e possivelmente os outros lobisomens, também haviam ficado presos naquele quarto vazio sem porta ou janelas. Todos passaram pelos mesmos traumas e privações. James imaginava a qual nível de loucura e insanidade esses ferozes lobisomens devem ter enfrentado. Mas ele não teve tempo pra divagações. Assim que trocou olhares com Slayer, o Lorde das Trevas entrou no recinto.
Todos os espíritos do salão gritaram e vibraram com a chegada do Lorde. Para James, eles mais pareceram com chimpanzés vibrando com a chegada do líder. Ele até pensou em tentar levantar a cabeça, mas preferiu continuar agachado. Talvez fosse melhor primeiro escutar o que o Lorde tinha pra dizer pra seus ávidos súditos.
— Meus miseráveis e detestáveis escravos! – exclamou o lorde no inicio de seu discurso. Mesmo ofendendo os espíritos, pareceu que ele os tinha elogiado pela vibração. – Trago boas noticias para todos nós, MAS não serei eu que irei passá-las à vocês. Gostaria de que vocês saudassem com muito fervor o nosso magnânimo e onipotente Senhor… Eriol VonBranagh.
Os olhos de James imediatamente se arregalaram. Até parecia que tinha levado um tiro no meio da testa pelo tamanho do espanto que estava esculpido em sua face. E, mesmo que estivesse com o corpo incrivelmente exausto, ele juntou todas as gramas de força que ainda lhe restavam para levantar a cabeça e olhar diretamente para aquilo que parecia ser inconcebível.
Entretanto, era a mais pura realidade.
— Caros amigos espíritos. Faltam exatamente cinqüenta dias para que os nossos sonhos se tornem realidade. Vim aqui hoje especialmente pra dizê-los que continuem com o trabalho e que nesta jornada tão difícil a recompensa será satisfatória. Hoje o mundo sangra com a morte dos grandes mestres, mas em pouco tempo tudo isso irá mudar! – Eriol fez uma pausa pra fechar os olhos e respirar. Em seguida concluiu seu rápido discurso. – É por isso que eu conto com o trabalho de todos vocês. Obrigado.
Ovacionado por uma salva de palmas, Eriol agradeceu cordialmente e fez menção de se retirar. Entretanto, alguma coisa o fez parar. Ele sentia algo de estranho no meio daquela multidão.
— É ele, não tenho sombra de duvidas, mas… - balbuciou James enquanto operava o seu PHDA discretamente. – Por que meu PHDA detecta a presença da Light Sword nele?
Com um rápido movimento da mão esquerda, Eriol afastou todos os espíritos criando um buraco no salão, deixando à vista James e os lobisomens. Obviamente James imaginou que boa coisa não iria acontecer, entretanto ele estava tão fraco e exausto que seria impossível sair dali de onde estava.
— Quem são vocês? – perguntou Eriol ainda não reconhecendo James.
Quando o Diácono fez menção de que iria até eles, o lobisomem Arthur pressentiu um terrível perigo e viu que não havia outra saída a não ser contra-atacar. Com os oleosos cabelos negros sobre a face Arthur encarou Slayer. Nenhuma palavra foi dita entre eles. Apenas o instinto os guiava.
Fazendo surgir uma força sobrenatural entre eles, os três lobisomens se transformaram imediatamente nas gigantescas formas homem-lobo. Slayer assim que se transformou agarrou James. Ao mesmo tempo, Rocky partiu pra cima dos espíritos potencialmente mais perigosos abrindo caminho para Slayer. Por último, dando total cobertura aos companheiros, Arthur se transformou em um enorme lobo negro hominídeo avançando sem qualquer temor na direção de Eriol. O mago ainda tentou se proteger, mas o lobisomem havia sido mais rápido, e com suas garras afiadas destrinchou a face de Eriol. Com a força do golpe o Diácono foi arremessado além do palanque.
Obviamente o Lorde das Trevas não ficou parado. Após reunir uma grande quantidade de energia espiritual, o Lorde lançou sobre Arthur o que poderia ser descrito como uma “onda de energia das trevas”. O lobisomem foi pego em cheio, entretanto, nem de longe foi derrubado. Caindo com as quatro patas no chão, o imenso lobisomem de três metros sacou magicamente uma enorme adaga deita com osso ancestral, e com ela, retalhou em questão de segundos o Lorde das Trevas.
James ainda estava nos braços de Slayer, este que por sua vez tentava arduamente encontrar uma saída espiritual daquela fortaleza. O iluminado observou todo o combate de Arthur e por um segundo sentiu que a vitória era deles. Até que de repente, algo terrível aconteceu.
De alguma forma Arthur havia sido atacado pelas costas e começou a cair lentamente mudando de forma até virar humano. Atrás dele estava Eriol empunhando uma arma de fogo prateada.
— NÃÃÃOOO!!! ARTHUR!!! – gritou James, mas já era tarde. Seu amigo lobisomem negro já estava no chão agora e seu corpo se transformava lentamente em matéria espiritual.
Nesse exato momento Slayer finalmente havia conseguido abrir um portal de saída da Fortaleza e a atravessou sem olhar para trás, seguido por Rocky. Inconformado, James berrava pelo nome do lobisomem que por um momento ele considerou um amigo.
O portal se fechou e agora James transitava pela Película retornando ao mundo real. Ele tinha conseguido grandes informações, mas o preço cobrado por ela havia sido alto demais. James não aceitava o fato de que, desde que aceitara a missão de descobrir quem era o Assassino de Grão-Mestres, apenas com morte era possível conseguir informações. Ele não aceitava isso hoje e não aceitaria nunca.
*****
Domingo, 19 de Novembro de 2028. 16h00min.
St. Thomas Hospital.
Londres – Inglaterra.
— E foi isso que ele disse: “Faltam 50 dias para que nossos sonhos se tornem realidade”. Claro que agora devem estar faltando 43 dias… seja lá para o que for.
James ainda estava internado no hospital após sua fuga do mundo espiritual, entretanto assim que teve condições, passou tudo que aconteceu para seus companheiros da Prometeus.
— Mas o que irá acontecer no final desse prazo? – questionou Keira, que mantinha-se o tempo todo ao lado de James segurando sua mão.
— Eu acabei de fazer as contas, se James não tiver se confundido, “50 dias após o dia de sua fuga” cai exatamente no dia 31 de Dezembro.
— Dia 31? – intrigou James. – O que irá acontecer de importante nesta data?
— Aaahh… É uma pergunta difícil. Muita coisa irá acontecer pra sabermos exatamente o que o “Inominável” queria dizer com isso.
— Dá uma olha superficial pelo menos.
— Bom… - James pegou seu computador portátil e começou a pesquisar na Rede privada dos Iluminados. – Cara… no mês de Dezembro vai acontecer muita coisa no mundo, mas no dia 31só as festas de réveillon e o Eclipse da lua.
— Ei, ei, ei… O que foi que você disse?
— Eclipse da lua?
— É isto!
— O que um eclipse tem haver com os planos diabólicos do Dr. Inominável?
— Matthew… Você faltou as aulas de geografia?
— Algumas…
— Eu acabo de passar 140 dias numa prisão que ficava numa região do mundo espiritual chamado “Umbral”. Você sabe como se chama a região escura que fica entre a Terra e Lua durante um eclipse?
— “Umbra”. – balbuciou Keira quase como se lesse a mente do marido.
— Ele pretende mergulhar o mundo nas trevas. – afirmou James soturno deixando todos ali presentes assustados.
— Mas… isso não faz sentido! – disse Keira. – Por que ele faria isso?!?
— Ora! Por que sim! – respondeu Matthew. – O cara é do mal e tem um plano maligno pra dominar o mundo. Esse é o roteiro de todo bom vilão!
— Não, Matt. Isso não está certo! – replicou a jovem. – Estamos falando do homem que sozinho salvou Oxford antes que fosse dizimada por demônios. Como pode ele de repente se transformar num vilão assassino megalomaníaco?!?
— Sei lá! Keira… Já se passaram cinco anos desde aqueles eventos em Oxford. Muita coisa aconteceu de lá pra cá. As coisas mudam. Pessoas mudam. Nós mesmos mudamos! Quem iria imaginar que hoje nós três seríamos membros oficiais de uma organização secreta? Talvez, não sei, o velhote tenha mudado de idéia e encontrado algum tipo de razão bizarra pra fazer isso!
— Mas podemos estar apenas sendo precipitados!
— Não, Keira. Não estamos. – respondeu James. – Eu estava lá. Eu o vi discursando para uma platéia cheia de espíritos obcessores e com um Lorde das Trevas o chamando de “Senhor”. Não adianta ficarmos agora tentando descobrir a verdade. É impossível no momento. O que temos que fazer agora é evitar que algo terrível aconteça no dia 31 de Dezembro. Temos pouco mais de um mês pra bolar um plano de contra-ataque. Não podemos deixá-lo fazer seja lá o que for o que ele pretende fazer.
— Sim, mas por onde iremos começar?
— Ora… começaremos pela nossa principal testemunha envolvida nessa história. Aquele que durante o ano fez exatamente tudo que o Inominável mandou e certamente continua fazendo até agora.
— Ah, merda… - queixou-se Matthew. – E eu aqui rezando pra não ter que rever a cara daquele filho da puta.
— Não tem como evitarmos isso, principalmente agora que sabemos de “quase” toda a verdade. Nós temos que achar e interrogar o Phillipp O’Connor.
O silêncio instalou-se entre eles e ficou até que Matthew sentisse incomodado e se retirasse do quarto, fazendo sinal que mais tarde viria visitá-los. Após isso, James escorregou de volta pra cama onde iria buscar o repouso merecido. Mas seu sono ainda não estava completamente tranqüilo. As lembranças dos 140 dias naquela cela vazia ainda o atormentavam todas as noites. Quando estava acordado e tentava se lembrar daqueles dias, ele não sabia direito separar o que foi real e o que foi apenas imaginação.
— James…
— Diz, amor.
— Como foi que você cortou o seu dedo?
Aquelas palavras rapidamente o fizeram perder o cansaço. Erguendo-se na cama ele levantou o pé direito. Era fato. Seu dedo mínimo estava decepado.
— O que foi, James?!?
— Nada… eu apenas… eu pensava que…
— Você pensava que…?
— Pensei que tivesse sido apenas um sonho.
*****
Sede do Arcanorum. 17h00min.
Entrando no escritório de seu patrão, Michelle veio trazendo algumas papeladas importantes para o Diácono dar uma olhada e assinar. Entretanto, acostumada em sempre ser cordialmente saudada quando entrava no escritório, a jovem secretária achou estranho o Sr. Eriol estar tão calado em sua poltrona observando um pequeno pedaço de giz.
— Sr. Eriol. Eu trouxe algumas das petições das sociedades secretas para o senhor dar uma conferida.
— E do que se trata essas petições, Srta. Sloane?
— Bem… a maioria é um pedido de dissociação do Arcanorum, senhor.
— Entendo. Pode deixar em cima da mesa, por favor.
— Certo. – atendendo a ordem, Michelle deixou a papelada sobre a mesa, entretanto sua curiosidade já beirava às estrelas pra poder se segurar: — Senhor, desculpe se for intromissão de minha parte, mas… Por que o senhor está tão intrigado com esse pedaço de giz?
Esboçando um sorriso, Eriol parou de encarar o objeto e olhou amistosamente para a jovem:
— Não é um simples pedaço de giz, minha cara amiga. Este giz foi feito com um preciso ingrediente que nunca se desfaz, o tornando um giz com uma longa expectativa de vida.
— E que ingrediente é esse?
Novamente esboçando um sorriso, Eriol respondeu:
— Vida humana.
— !!!
— Não se preocupe. Ninguém morreu pra fazer esse simples pedaço de giz. Porém, que o fez entregou um “pedaço de si” pra fazê-lo, que o acabou ligando à este giz.
— Aaahh… entendi. E foi o senhor que fez?
— Não, minha amiga. Mesmo sabendo exatamente os procedimentos pra se fazer tal talismã, eu não iria fazer um objeto que possivelmente poderia servir como arma contra mim um dia.
— Ah, sim! Realmente é bastante inteligente o senhor. Bom, vou indo. Até daqui à pouco.
— Até mais ver!
Assim que Michelle se retirou, Eriol baixou a intensidade da luz ambiente e voltou a ficar meditando sobre o inocente pedaço de giz:
— James Terrier Donovani. Você é um jovem muito, mas muito corajoso.
Dito isso, Eriol guardou o giz dentro de seu terno.
To be continued…