Episódio não revisado

 

Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio LXI

Sem Descanso Para Os Impuros

 

 

 

 

[Soundtrack: Landing in London – 3 Doors Down]

 

Danyael acordou sorrindo. Ainda sem abrir os olhos ele tateou o outro lado da cama. O travesseiro solitário lhe fez lembrar que era apenas um sonho. Ele fez questão de demorar em despertar. Não tinha por que ele se levantar e se esquecer do sonho que lhe fez lembrá-la. O sorriso. A voz. O cheiro. Tudo isso ainda era bem vívido nas memórias de Danyael. Se ele mantivesse os olhos ainda fechados poderia substituir os edredons frios pela cálida pele de sua falecida esposa.

Mas se ele não se levantasse da cama sozinho a vida o obrigaria a fazer. O choro de Andrew ecoava pela casa chamando pela única pessoa que poderia ajudá-lo. Foi então que Danyael abriu os olhos. Olhar para o quarto e constatar que estava sozinho era sempre seu primeiro desafio de todas as manhãs. Ele poderia chorar. Mas não vai. Ele já chorou durante esses quatro meses o suficiente pra se esquecer de como era estar feliz. Seus olhos procuraram o relógio no criado-mudo. Eram mais de sete da manhã. Cedo demais pros seus padrões, entretanto, atualmente era melhor ficar acordado do que delirando em sonhos surreais. Suas pernas giraram na cama e finalmente estava de pé.

[]

 

Segunda-Feira, 20 de Novembro de 2028. 07h15min.

Ilchester Place.

Londres – Inglaterra.

[Faltam 42 dias para o Eclipse]

 

Seguindo apenas o som do choro de seu filho de quatro meses, Danyael se dirigiu até o quarto, entretanto estranhou que o pequeno Andrew não estivesse lá. Ele chorava de outro canto do apartamento. Da cozinha, pra ser mais exato. Como anjo ele sabia que seu filho não corria nenhum perigo. Mas como pai, ele sabia que seu filho estava novamente sendo mimado por seus avós.

Não deu outra.

— Só podia ser vocês dois… - resmungou enquanto sentava-se na mesa de café da manhã preparada por sua mãe.

— Filho, não podemos deixá-lo sozinho criando de um bebê! Somos seus pais. Sua família. – disse Gabriela enquanto dava de mamar ao pequeno Andrew. – E além do mais, ele ainda está em fase de amamentação.

— Eu sei. Mas ainda tenho o estoque do leite na geladeira.

— Mas nada se compara à experiência do bebê poder se alimentar direto do seio materno.

Tal comentário fez com que Danyael olhasse sério para sua mãe. “Como se ele não soubesse disso”.

— Ah! – assustou-se Gabriela levando a mão até os lábios. — Dany, eu não tive a intenção…

— Tudo bem, mãe. Eu entendi.

Calado até o momento, John baixou o jornal que estava lendo e voltou a tomar uma xícara de café.

— Você foi para a Paradísia ontem?

— Sim, por quê?

— Nada. Apenas percebi que você não dormiu absolutamente nada. Seu carro ainda estava com o motor quente quando chegamos.

— Nem sei que horas eu cheguei.

— Filho… Sua mãe e eu estamos preocupados contigo e com essa vida que está levando. Você já se olhou no espelho? Há quanto tempo você não faz a barba e apara esse seus cabelos?

— Pai… - suspirou Danyael já entediado com esse papo.

— Você tá parecendo o Chuck Norris depois de uma ressaca!

— Ah, pai… vai procurar outro pra perturbar! Falando nisso… Cadê a Stephanie? Ela tinha ficado de conta do Andrew até eu chegar do trabalho.

— Ela saiu assim que chegamos. Disse que tinha assuntos pra resolver.

— Que assuntos?

— Ao que parece, Derek deixou o Hellfire Night Club para ela em testamento.

— Era só o que me faltava…

— Não vejo mal algum nisso, Dany.

— Eu sei pai. Esquece o que eu disse. Mas… sei lá! Será que Stephanie não está sofrendo o suficiente pro Derek fazer isso com ela?

Nesse momento John estranhou as palavras de seu primogênito e questionou:

— Como é?

Foi quando pensou em responder que o interfone do apartamento cortou a conversa. Gabriela aproveitou que estava de pé amamentando e foi até lá atender.

— Sim? (…) Tudo bem, diga. (…). Ele está sim. Quem quer falar com ele?(…) Só um minutinho. – Deixando o gancho de lado Gabriela chamou a atenção de Danyael. – Dany, tem uma moça chamada April querendo falar contigo.

— April?? – Danyael pensou um pouco. Ele nunca tinha ouvido falar nesse nome até que de repente uma velha recordação lhe fisgou na memória: — Será?!? Não pode ser!!! Pergunte o nome completo dela e de onde ela veio, mãe.

— Certo… Sr. Thomas? Pergunte a moça por gentileza o nome completo dela e de onde ela veio. – segundos de espera e logo veio a resposta: — (…) Sim, certo. Dany, ela se chama April Peterson e veio da Austrália!

— Mande-a subir! – disse Danyael convicto levantando-se da mesa.

Achando tudo aquilo muito estranho, John foi atrás de Danyael que agora estava andando de um lado para o outro na sala.

— Dany, quem é essa garota?!?

— Se for exatamente a pessoa que estou pensando que é, você não vai acreditar!

— Diga logo.

— Lembra de quando eu portei a Light Sword pela primeira vez?

— Claro! Isso foi tão marcante na minha vida quanto o seu nascimento! O que é que tem?

— Então… Naquele dia, assim que terminou a guerra em Oxford, fui convidado a ir até o Sétimo Céu, além do Conselho de Júpiter, conversar pessoalmente com ninguém menos do que Metraton. Foi durante essa conversa que ele me falou sobre meu destino e o destino da humanidade nas próximas décadas.

— Sim, sim. Estou lembrado. Ele falou que você teria uma missão muito importante, pois você era o Escolhido dos Céus à ser o representante da Cidade de Prata quando a Roda dos Mundos girar e a Terra perder completamente a conexão com os mundos Supernos.

— Sim, sim. Exatamente isso. Só que tem mais, e ao que parece, tanto eu quanto você nos esquecemos de alguns detalhes. Então… Quando Metraton falou que eu era o Escolhido ele também disse que havia…

Neste exato momento Danyael é interrompido com o toque da campainha. A visita inesperada havia chegado. O anjo foi o primeiro a dar a iniciativa de recepcionar. Ao abrir a porta, Danyael teve uma surpresa. Ele não esperava que a moça fosse ser tão nova…

— Olá, Danyael! – cumprimentou a jovem menina de cabelos castanhos que aparentava ter entre 14 a 16 anos de idade, a julgar pela sua altura e porte físico.

— Olá… “April”, não é isso?

— Sim, esse é o meu nome, Portador da Light Sword.

Mesmo muito curioso, Danyael manteve a etiqueta e a convidou para entrar. A menina parecia estar bastante eufórica, pois olhava para o apartamento e as pessoas ao seu redor com os olhos brilhando de excitação.

— Bem… April. – puxou Danyael a atenção. – Só por curiosidade, você é realmente quem eu penso que seja quem é?!?

— Sim, sim! Sou eu mesmo!! Eu também sou uma Escolhida.

John e Gabriela, que até então estavam boiando no assunto, não conseguiram evitar que seus queixos caíssem.

— Entendo. Só por curiosidade, qual é sua Light Arm?

— He! Não é uma “arma”. Na verdade só você e o Portador da Light Shield possuem armas “propriamente ditas”. Eu sou a Portadora do Oráculo do Destino.

Pra provar o que estava dizendo, a jovem April mostrou na palma de sua mão um pequeno tabuleiro de madeira que carregava como colar em seu pescoço. Danyael imediatamente o reconheceu como sendo um objeto de igual poder e valor que sua Light Sword.

 

*****

[Soundtrack: Stairway To Heaven – Led Zeppelin (Versão em Harpa)]

 

Budapeste, Hungria. 07h40min.

 

O som da harpa enchia a antiga catedral de vida. O gelo pintava em óleo o cenário branco do lado de fora. Dentro, a música aquecia o coração de qualquer ser vivo. Quadros com cenas bíblicas preenchiam as paredes do aposento. Sentado humildemente em um banco, ele tocava sua harpa enquanto purificava seus pensamentos e sua alma. Aqueles que o observavam vieram bastante ansiosos pra tratar um assunto de extrema importância, entretanto, o som da harpa os acalmou. Ficaram lá calados observando até que o mestre trovador terminasse.

— Krisztián?

— Em que posso ajudá-la, Ângela?

— Precisamos de sua ajuda. Em nome do Conselho Prateado, viemos pedir sua colaboração.

— Qual o demônio desta vez?

— Não. Não é um demônio. É um anjo.

— Um traidor? Um Caído?

— Sim e não. Ele é considerado um traidor atualmente, porém não foi sentenciado com a expulsão.

— E quem é este anjo?

— Você já deve ter ouvido falar dele. Ele é o Principado Danyael.

— Danyael Kimble, o Portador da Espada?

— Ele mesmo.

— Entendo agora o porquê de vocês virem pedir minha ajuda. – tocando um “sol” Krisztián se levantou. – Se é um é um pedido direto dos Céus eu irei atender com fé e orgulho. Ângela, a partir de agora o Escolhido Krisztián László está à sua inteira disposição.

 

*****

 

Cidade de Prata. Cinco anos atrás…

 

— O que poucos sabiam (ou quase ninguém, a não ser os mais antigos anjos da Cidade) era que cada um dos nove anjos Protetore havia recebido do próprio Pai artefatos celestiais forjados com suas próprias mãos divinas e criadoras. A cada um dos Arcanjos Protetore foi entregue uma arma, que fizesse jus à sua imagem, e a eles foi delegado o poder de representar a Vontade do Criador na Cidade de Prata. Foi dividido da seguinte maneira:

“Ao Príncipe Arcanjo, Miguel, foi entregue uma Espada Suprema, que tem o poder de refletir a Justiça e o Poder divino.”

“Ao Príncipe Guardião Haniel, que em sua guarda estão as nações e civilizações, foi entregue o Escudo Supremo, uma versão contrária da Espada.”

“Ao Príncipe trovador Tsaphkiel foi entregue a maior chave dos mistérios universais, O Instrumento Musical. Com ele as ordens divinas poderiam ser passadas independente do idioma ou da nação.”

 “Ao Príncipe encarregado de levar as Leis Divinas, Tsadkiel ficou encarregado das Chaves do Universo, um poderoso artefato que lhe permite ser praticamente onipresente em toda a Criação.”

“Ao Príncipe guardião da humanidade, Gabriel, a Pedra Primordial lhe foi entregue.”

“Ao Príncipe da Sabedoria Divina, Haziel, lhe foi entregue o Oráculo do Destino. Todos os segredos do Inicio ao Fim da Criação, ali estavam guardados.”

“Ao Príncipe regulamentador das Leis da Natureza, Azrael, foi entregue a mais obscura e tenebrosa arma, porem uma das mais importantes: A Sombra da Morte.”

“Ao Príncipe da Vida, encarregado de operar milagres e de levar a vontade de Deus a toda Criação, foi entregue o Sopro da Vida.”

“Por fim, sobrou para mim o mais simples, porém não menos importante. Ao Príncipe de todos Anjos ficou encarregado o Livro da Criação. Todo o conhecimento do universo. Tudo aquilo que rege as leis dos mundos e submundos. Toda a explicação da grande maquina que movimento a Criação, está dentro deste Livro.”

“E foi assim que cada um dos Arcanjos Generais receberam o título de Príncipes”.

— Então não existe apenas um escolhido. – questionou o jovem Danyael recém chegado da guerra santa em Oxford.

— Exatamente. Como eu havia dito, cada um dos Príncipes ficou a cargo de escolher os futuros Escolhidos e a eles entregar seu artefato. Por todo o mundo, vários pais estão agora criando ou educando, ou até nem tiveram, aquele que um dia será o representante dos Príncipes da Cidade de Prata na Terra. E essa jornada começou muito tempo atrás, muito antes de você nascer, e hoje os escolhidos, assim como você, já devem estar, ou cientes, ou desconfiados que vieram a esse mundo com um propósito ainda maior. Espalhados em cidades como Londres, Nova Iorque, Edimburgo, Budapeste, Tóquio, Rio de Janeiro, Jerusalém, entre outras, os escolhidos tem a missão de, num futuro próximo, reunir outros escolhidos que formarão a Cabala Angelical dos novos tempos.

— Eu sou o único que sabe disso até o momento?

— Não. – sorriu Metatron – Alguns escolhidos já estão cientes de seu destino já há algum tempo. Mas atualmente, você é o calouro dentre eles.

 

Tempo atual.

 

— E foi exatamente isso que Metraton disse para mim sobre o meu destino. – Explicou Danyael sob os olhares curiosos de seus pais com a chegada de April. – Eu sempre soube da existência deles, mas nós nunca nos reunimos oficialmente. Até hoje só tenho contato com um, o Escolhido de Edimburgo.

— Sim, sim. – confirmou April. — É difícil mesmo marcar um encontro com todos nós. Muitos são quase incomunicáveis, como o menino de Uganda. Eu mesma só conheço a Yuko, do Japão, por que ela mora perto e a Julie, de Nova York, por que é rica e foi me visitar.

— Eu me lembro do nome delas… Elas são portadoras de quais armas?

— A Julie tem o antagonista de sua Espada, o Escudo Supremo. Já a Yuko tem o mais legal de todos, na minha opinião, A Sombra da Morte.

— Eu sempre tive dúvidas sobre esse. O que ele é? Um capuz ou um manto?

— Não. Na verdade é uma sombra mesmo! É como se fosse uma aura, só que intangível. E só é visível quando ela deixa ver. Quando isso acontece, a sombra toma a forma que ela quiser, geralmente a uma cópia sombria dela. É fantástico!!!

— E ela tem o poder sobre a vida e a morte.

— Mais ou menos isso. Ela também sabe exatamente quando, onde e como uma pessoa vai morrer. Ela pode matar qualquer pessoa, desde que ela a tenha visto ou simplesmente conheça o seu nome. Ela também pode salvar uma pessoa, tipo, alterando como e quando a mesma irá morrer. Enfim… ela é superpoderosa!

— E isso só se restringe aos humanos?

— Certamente não! Ela pode matar qualquer ser vivo que foi criado nesta Existência, desde vírus até arcanjos, sem exceção.

— Acredito que ela não possa matar… por exemplo… “Deus”.

— Como eu disse… “qualquer ser vivo desta existência”.

— Entendo. – nesse momento Danyael não conseguiu deixar de pensar na causa de seu luto. – April… será que a Sombra da Morte seria capaz de trazer os mortos à vida?

— Se refere à Lilith?

— Como você…

— Eu sou a portadora do Oráculo, esqueceu? Eu sempre sei de tudo! – sorriu. – Não, Danyael, não pode. Não apenas pelo fato que Lilith assinou e concordou com a sua própria morte, é Lei Universal que os mortos não podem voltar à vida. Essa é uma das leis que regem o Segredo da Vida.

— Sim, mas…

— Danyael. Você já sabia disso! Eu sei que você usou recentemente a Light Sword pra tentar trazer sua esposa à vida. Quase causou uma Crise de Infinitas Terras criando várias linhas do tempo alternativas.

— Mas não criei!

— Eu sei, amore! Mas por favor… por seu próprio bem, não faça isso consigo mesmo. Chorar pelos mortos apenas deixa-os mais tristes.

— Eu sei…

— Você é um anjo. Pode ir e voltar do Mundo dos Espíritos, por que ainda não foi lá conversar com ela?

— Eu… - nesse momento Danyael deu as costas e sentou-se no sofá. Sua mãe até tentou se levantar pra acudi-lo, mas John a impediu. Nessas horas era preciso um homem encarar seus próprios medos sozinhos. – Eu não tive coragem. Eu… Eu não vou agüentar vê-la como uma alma. Principalmente por que… Não será ela! Será a alma evoluída que nesta vida encarnou como Lilith Lorrimore Daemon. Ela terá as lembranças da Lilith, poderá ter também a fisionomia da Lilith, mas… não será a Lilith. Por que a Lilith… a minha Lilith… ela… ela…

Agachando perto do colega, April se solidarizou:

— Eu sei, honey. Eu sei. – então ela o abraçou.

Danyael tentou não chorar. Aliás, ele logo se afastou do abraço e olhou nos olhos de April. Ele ainda estava surpreso com a jovialidade da pequena Escolhida:

— É incrivelmente paradoxal a Escolhida do Oráculo ter cara de colegial.

Nesse momento pareceu que Danyael havia tocado na ferida de April. Seu olhar entristeceu e sua cabeça logo encarou os pés. Com a voz embargada ela explicou:

— Eu tenho 23 anos… Eu sei que sou baixinha e magrinha…

Envergonhado e terrivelmente desconcertado por ter, sem querer, ofendido a jovem, Danyael tentou se desculpar:

— A… eh… eu…, April, desculpe! Foi mal, sério! Eu não sabia que você… É por que você chegou… E eu ti vi só de relance… e… eu… sabe…

— E percebeu que tenho cara de menina do ensino fundamental…

— Nããããão!!! Não foi isso… quer dizer… Você não é baixinha! Você tem a altura certa pra uma mulher!

— Eu não entro no carrinho bate-bate de graça por causa de 1cm. – comentou ela quase chorando.

— Ok! Desculpa! Sério! Não foi minha intenção! E você não é magrinha…

— Eu peso 45 quilos. Sou mais leve que uma mochila de acampamento…

— Bem… mas… tipo… você não parece… sabe… ‘cê ‘tá inteiraça! Além de ser linda, ter olhos chamativos, cabelos perfeitos…

De repente, como mudando da noite para o dia, April levantou um sorriso sapeca:

— Tudo bem! Eu só estou fazendo drama! Foi legal vê-lo desconcertado! Há-há!

Danyael estava chocado. Aquela guria tinha conseguido quebrar seu gelo. Buscando pelos pais, descobriu que estes estavam se abrindo de tanto rir. Levantando-se, coçando a cabeça e indo buscar o pequeno Andrew no colo de sua mãe, o anjo questionou o óbvio:

— Sim, April… Por que você cruzou meio mundo pra me ver? Até agora você não disse nada à respeito.

— É verdade! – sorriu a garota envergonhada. – Bom… na verdade queria tratar esse assunto em particular…

Antes mesmo que Danyael pedisse, John e Gabriela se levantaram:

— Nós imaginávamos que seria mesmo algo em particular. – disse John. – Sua mãe e eu iremos até o mercado comprar algumas coisas pro almoço. Fiquem à vontade!

— Obrigado, pai.

— Obrigada, Elohim! – agradeceu April. Porém chamar John por esse nome chamou a atenção de todos. – O que foi? Falei alguma besteira? O senhor não é o avatar do anjo Elohim?

— Sim, sou… porém ninguém sabe, a não ser minha família.

— Ah… Desculpe! É que eu sou a Portadora do Oráculo! Sou meio “sabichona”, se é que me entendem!  Desculpe se causei algum desconforto.

— Não, tudo bem. É de se esperar isso mesmo. Então… vamos indo. Até mais!

Danyael se despediu com um aceno da cabeça e April deu “tchauzinhos” alegres. Assim que a porta se fechou, Danyael, que estava com o pequeno Andrew no colo, se dirigiu até o quarto do bebê. April o acompanhou.

— Então, April… Qual o problema?

— Eu é que te pergunto, Dany! (Posso te chamar de Dany?)

— (Pode.) Como assim? Eu não estou sabendo de nada!

— Como não está? E os assassinatos?

— Ah sim… mas ninguém ainda descobriu quem é o assassino e eu mesmo desisti de tentar ajudar, afinal tenho meus próprios problemas pra resolver.

— Como assim “ninguém” descobriu?!? – exclamou April, que no instante seguinte levou a mão até a boca, pois quase acordou o Andrew. – Dany… Você sabe quem é o assassino desde o primeiro assassinato!!!

Aquela noticia atingiu Danyael como um tapa na cara:

— Como assim?!? O que você está querendo dizer com isso, April?

— Eu não estou “querendo dizer” nada. Apenas estou falando o que eu descobri com o Oráculo. Deixe-me explicar melhor, mas por favor, vamos sair do quarto do bebê antes que eu o acorde!

— Ah, sim… claro!

— Mas antes… - April se aproximou do berço e olhou para o pequeno infante que adormecia como um anjinho: — Ele é tããããããoooo linduuu!!! – comentou April segurando as bochechas com as mãos balançando o corpo.

— Vamos?

— Vamos!

De volta pra sala, sentados no sofá:

— Ok, explique tudo desde o inicio.

— Certo… Você sabe o que vai acontecer dia 31 de Dezembro, não sabe?

— Fora o réveillon, não sei de nada!

— Será um dia muito importante na história da humanidade. É uma data que a muitos séculos está sendo aguardada. Será o dia em que toda a humanidade vai dar um passo à diante na evolução humana.

— Como assim?

— De tempos em tempos, mais precisamente de milênios em milênios, a humanidade passa por evoluções. É algo natural, afinal estaríamos todos ainda na Idade da Pedra se isso não acontecesse. Mas, em pleno século 21, esta evolução será uma das mais significativas. Será a primeira vez na história que a humanidade deixará de ser tão ignorante com relação ao Sobrenatural e, por ventura, possivelmente será a primeira vez onde poderemos unificar os Dois Mundos.

— Espere… Deixe eu ver se entendi direito… Você está dizendo que depois do dia 31 de Dezembro toda a humanidade ficará sabendo da existência dos seres sobrenaturais? Dos anjos, demônios, vampiros, magias e sociedades secretas?!?

— Mais ou menos, Dany. Obviamente não é algo assim tããoo rápido. É como foi no inicio do século, com a chegada da globalização. Até o final da década de 90 os povos eram extremamente separados uns dos outros e, putz, ver um filme americano lá na Austrália levava meses! Hoje sabemos que não é mais assim. Podemos viajar pelo mundo inteiro e sempre manter contato com nossos familiares.

— Claro! Com a ajuda da internet.

— Não apenas por causa disso, Dany. A humanidade evoluiu. Viu o quanto era necessário uma globalização, onde fatos que ocorrem do outro lado do globo podem sim fazer a diferença na vida de cada um.

— Entendo.

— E como nessa ocasião a evolução ocorreu tranquilamente, sem nenhum alarde. O mesmo acontecerá no Dia 31. Entretanto, a evolução que está pra ocorrer será muito mais significativa do que o fato de podermos ver animes do dia seguinte que sai no Japão. Você já ouviu falar algo sobre “o Despertar”?

— Sim, já. Meu tio e meu filho do futuro me explicaram algo a respeito. Parece que algumas pessoas especiais conseguem alcançar um estado evoluído da alma humana onde elas despertam pra magia e são capazes de moldar o mundo às suas vontades com muito mais facilidade e proeza do que os feiticeiros comuns.

— Sim, sim. É “quase” isso. Essa na verdade é uma visão unilateral do verdadeiro sentido do “Despertar”. A verdade é que, o Despertar nada mais é, em poucas palavras, o momento em que uma pessoa descobre o Sobrenatural e passa a aceitá-lo como parte da Realidade. Como assim. Uma pessoa hoje é transformada em vampiro. Após o trauma da transformação, ela é forçada a enxergar o mundo ao seu redor com outros olhos. Isso também é uma forma de Despertar. Outro exemplo são aquelas pessoas comuns que tem contatos reais com o sobrenatural: viram fantasmas, bruxos, anjos, demônios… e de alguma forma a mente delas não enlouqueceu e sim aceitou aquilo como parte do mundo que ela vive.

— Espere… Você está querendo dizer que qualquer contato entre um mundano e o sobrenatural pode ser considerado um Despertar?

— Não é “qualquer contato”. Voltamos ao exemplo de nossa vampiresa. Ela foi transformada em vampiro e é evidente pra ela que ela mudou. O mundo mudou. E isso, obviamente, muda para sempre a vida desta vampiresa. Essas pessoas que tiveram um Primeiro Contato, talvez, no passar dos dias elas comecem a procurar à respeito. Tentar de alguma forma entrar neste mundo sombrio. Daí nasceram as Sociedades Secretas e as Ordens Místicas.

“Dependendo da pessoa, ela pode ter vários tipos de “despertares”. Podem virar magos, vampiros, lobisomens, feiticeiros, psíquicos… Em resumo, apenas o destino dirá o que acontecerá na vida daquela pessoa quando seus olhos abriram realmente para a verdade. Quando o conto de fadas se torna real.”

— Nossa… vendo por este ângulo eu começo a entender meus amigos e companheiros.

— Como assim?

— Bom… praticamente todos que eu conheço do tempo da faculdade, que por sinal são do tempo da Guerra Santa em Oxford, “despertaram” para o sobrenatural. Matt, James, Keira, e Spark se tornaram Agentes Iluminados. Nick e Tawnee desenvolveram um tipo de poder único conhecido como “psiquísmo”. Daí temos os meus amigos mais “despertos” como o Sebastian, o Phill e meu primo Flávius. Agora que você comentou… Todos que eu conheço se enquadram nesse estereótipo que você comentou. Após um choque com o sobrenatural a vida de todos mudaram.

— Sim. É exatamente isso que estou explicando. Agora, imagine isso em escala global.

— Espere aí! Você está dizendo que no dia 31 de Dezembro haverá um Despertar em massa?!?

— Mais ou menos. Só que mais pra mais, do que pra menos. Essa será uma das etapas mais importantes da evolução humana: a aceitação do sobrenatural como algo real e não como algo fantasioso ou derivado de crendices religiosas. Será algo tão importantes que coisas consideradas triviais como a consideração para com o próximo e a ajuda aos necessitados se tornaram rotineiras. Isso, em pouco tempo, irá refletir na sociedade que irá minguar as divergências religiosas, os conflitos políticos e principalmente as questões mais preocupantes da atualidade como a fome, a miséria, as guerras e o degradação da natureza.

— Isso será incrível!

— Sim… você disse tudo. “Isso será”!

— Como assim? Não haverá mais o Dia do Despertar?

— Não se a situação política/sobrenatural de Londres continuar desse jeito!

— Você se refere aos assassinatos.

— Exatamente. Há poucos minutos atrás você mencionou que todos que você conheceu em Oxford na época da universidade se tornaram de alguma forma ligados à sociedade sobrenatural, não é isso?

— Sim.

— Isso se refletiu não apenas no seu círculo de amigos, e sim na sociedade como um todo. Estamos falando das dezenas de milhares de pessoas que naquele dia da guerra Despertaram para o sobrenatural. Por causa desses jovens, hoje Londres é uma das cidades mais populosas de despertos e, sem dúvida, no futuro, Londres está marcada pra ser a capital da união entre os mundanos e os sobrenaturais. Isso, sem duvida nenhuma, por causa da ajuda primordial do Arcanorum da cidade e seu Diácono.

— O Tio Eriol terá um papel importante nessa história.

— Sim, terá sim. E possivelmente ele já sabe disse há bastante tempo.

— E o que esses assassinatos estão influenciando negativamente?

— Esse é o motivo d’eu ter vindo te ver. Aparentemente, pode parecer que nenhum segredo está guardado para mim, graças ao poder do Oráculo. Mas não é verdade. O futuro ainda é algo incerto. Nele existem várias variantes e diversos “caminhos” diferentes. Eu posso prever o que irá acontecer se algo específico for acontecer como, por exemplo, o Dia do Despertar. Mas não posso categoricamente afirmar que isso irá acontecer. E foi nessa minha pesquisa que comecei a ver os diversos fatores divergentes que impedirão esse dia e um deles, o mais importante, está intimamente ligado aos assassinatos.

“Ao que parece, esses anciões não eram pra ter sido assassinados. Eles, de alguma forma, tinham um papel importante. Não sei qual. Mas a morte deles está fazendo as correntezas do Futuro seguirem para outra direção, bem distante do Dia do Despertar.”

— Mas April… Pelo que eu entendi, o Dia do Despertar será algo natural, imutável, influenciado pelo girar da Roda dos Mundos, não é?

— Sim, tudo indica que sim. Como Metraton nos contou, estamos vivendo um período de mudanças cósmicas, como a rotação da Roda dos Mundos. Logo o Inferno se tornará um “mundo” propriamente dito e a Terra perderá totalmente a ligação com os Reinos Supernos. Certamente esse tipo de evento cósmico está influenciando a chegada do Dia do Despertar, porém… Eu não sei como, ou por que, mas esses assassinatos estão criando um conflito ai. De acordo com uma das sessões de previsões que tive, se o último ancião morrer em Londres, o dia do Despertar (sabe lá Deus como) não irá acontecer!

— Você disse no inicio que “eu sei o que está acontecendo” e que “eu sei quem é o assassino”. Como você pode afirmar isso?

— Por que eu consultei o Oráculo antes de vir, não é? Só que consultei o passado. Ah, Dany… É complicado explicar, tipo… O oráculo, como qualquer outro oráculo, não fala de forma aberta e explicita. Na verdade ele se comunica comigo através de imagens e não por linguagens conhecidas pelo homem. Eu apenas vejo o que ele quer que eu veja. Eu vi, em minha consulta, que você já sabia quem era o assassino. Que até conversou com ele e o ajudou, seja lá por qual razão que fosse. Eu não fiquei chocada com a cena por que vi que você estava fazendo isso pensando num bem maior e queria apenas ajudar. Porém você estava completamente perturbado com essa idéia.

— Eu não me lembro de nada disso!!!

— Será que na verdade não querem que você se lembre?

Danyael certamente aceitou aquilo como uma possibilidade. Ele vivia num mundo sobrenatural onde poderes mentais capazes de apagar a memória das pessoas eram tão comuns quanto se podia imaginar.

— Sim. Certamente não tem como discutir contigo. Se você disse que eu sei, é por que Eu Sei! Preciso descobrir como e por que perdi minhas memórias.

— Obviamente eu posso te ajudar, com os poderes do oráculo.

— Pensei em usar a Light.

— Em você mesmo? Mais fácil ter ajuda, não?

— Sim, sim. Vamos começar por que já estou ficando perturbado.

Ao se levantar, April logo buscou seu oráculo que, pelo que Danyael percebeu, ela o escondia em forma de colar. Diante do Portador da Espada, a jovem não conseguiu se conter em observar como ele era bonito. Ela já tinha percebido isso antes, mas agora, bem próxima de Danyael enquanto este estava sentado na poltrona, ela reparou bem nos detalhes fisionômicos de seu rosto. Mas logo afastou esses pensamentos de lado e se concentrou em sua tarefa.

— Irei fazer uma varredura em suas memórias em busca de algum buraco. Se encontrar, irei imediatamente tentar recuperar a memória apagada. Isso, se isto for possível. Temos que levar em consideração que o agressor tenha sido perfeito em sua manipulação mental.

— Eu acho difícil. Quando alguém tenta fazer algo desse tipo certamente deixa algum tipo de seqüela.

— Sim. É mais fácil esconder as memórias do que apagá-las. Então… vamos começar.

April manteve o Oráculo diante de Danyael enquanto concentrava-se. Por sua vez, o anjo ajudou a jovem também se concentrando, deixando sua mente bem aberta. Não demorou muito para que Danyael tivesse um “flash” de memória antiga surgindo em sua mente…

 

Oito meses atrás…

Entrando silenciosamente no apartamento, Danyael fez de tudo para não fazer barulho – inclusive levitou para não pisar no chão. No entanto fora inútil ultrapassar a preocupação de Lilith com a demora do marido:

— Cinco horas da manhã.

Vendo a noiva sentada no sofá sendo iluminada apenas pelo abajur, Danyael desceu levemente e tentou se explicar antes que sua enciumada Lilith pensasse coisas erradas:

— Posso explicar tudo.

— Então explique.

— Fiquei na Paradísia até tarde e depois, como estava sem sono, resolvi sair por ai pra esticar as asas.

— Esticar as asas?

— Hum-rum. – afirmou.

 

Danyael não se conteve em sentir o coração apertar em reviver esta cena. Entretanto, ele não entendeu por que esse momento surgiu em sua mente durante a sondagem de April.

 

— Certo. – encerrou a conversa apagando a luz do abajur. Passando ao lado de Danyael Lilith disse suas últimas palavras: — Boa noite, então.

— Eu vou já me deitar. – ficando no vácuo, ele ainda tentou a última esperança: — Boa noite! – inútil. Lilith estava chateada com ele e amanhã ele teria que aguentar a cara feia dela até Deus sabe quando.

— Ai, Deus…

Para dormir sem estresse, Danyael foi até a cozinha onde pegou uma garrafa de Whisky 20 anos e colocou uma dose no copo apenas para molhar a garganta. Em seguida, ele verificou se a casa “voltou a dormir” e foi até a lavanderia esconder num local secreto um objeto de tamanho médio embrulhado dentro de um pano que estava guardado em seu casaco.

Agindo estranhamente, Danyael voltou a cozinha onde largou o copo sobre a pia e seguiu diretamente para seu quarto onde tentaria dormir em paz, mesmo com tantos problemas em mente.

 

“Um objeto?”, intrigou-se. “Que objeto?!?”. Danyael não estava se lembrando de ter agido daquela maneira. Pra falar a verdade ele nem entendeu por que ele agiu daquela maneira. O que ele estava escondendo de Lilith?? Ele não tinha realmente ido para a Paradísia naquela noite?!?

— Dany. – chamou April ainda de olhos fechados. Parecia que os dois conversavam em um cômodo escuro.

— Diga.

— Sei que isso poderá ser ofensivo, mas juro que não será esta minha intenção.

— Tudo bem.

— Você acha que é o assassino?

Naquele momento, Danyael não conseguiu deixar de pensar à respeito. Ele se ofenderia sim antes, mas agora… E se ele realmente for o assassino?

— Não sei. É bem capaz.

— Achei outra memória.

 

 

Sete meses atrás…

Já fazia algumas semanas que Danyael não era convocado pelo arcanjo Redael para continuar com suas missões. Isso o preocupava muito, mas tais pensamentos não eram nada em comparação ao segredo que ele guardava. Um segredo que era bem maior do que ele. Que afeta não apenas a sua vida, como a de todos os habitantes desta cidade.

Novamente ele repetiu a mesma cena de um mês atrás: chegando tarde em casa, altamente perturbado e evitando o máximo se encontrar com qualquer pessoa no caminho.

Entrando em seu apartamento, Danyael tentou usar seus sentidos aguçados de anjo para caminhar pelo apartamento escuro. Indo até dispensa da cozinha, levantou uma tábua falsa do sinteco e guardou um objeto de tamanho médio, aparentemente pesado e embrulhado em um pano ali dentro. Fechando o esconderijo, Danyael ficou ainda alguns segundos ali parado meditando sobre o que estava fazendo.

 

— MAS QUE DIABOS!!! – exclamou Danyael cortando o elo mental.

 

Se levantando possesso e caminhando à passos largos, Danyael foi até a dispensa da cozinha e abriu o tal compartimento secreto que por duas vezes ele escondeu algo sinistro ali. Como sua memória estava fresca, Danyael foi direto até a tábua falsa e levantou. Sua surpresa veio acompanhado com um frio na espinha.

Lá estava o tal objeto. Embrulhado cuidadosamente num pano de algodão cinza, lá estava ele cheio de poeira como se há meses ninguém tivesse mexido. April estava logo atrás dele observando.

— Vai pegar?

— Vou. Mas antes… Gostaria que você fosse testemunha de minhas palavras.

— Certo.

— Se eu for o assassino de anciões eu irei me entregar para o Arcanorum, confessando meus crimes lembrando deles ou não. Entretanto, se eu resistir, gostaria que você me levasse de qualquer maneira.

— Certo, mas… Será bem difícil! Estamos falando do Portador da Espada Suprema.

— Sim. Por isso eu deixarei a Light Sword contigo.

Danyael se levantou e buscou sua espada nas costas. Após o brilho e a tatuagem se transformar em uma suntuosa espada dourada, Danyael entregou a arma nas mãos de April.

A jovem até se sentiu desconfortável. Ela já tinha conhecido outras relíquias da luz, mas nenhuma era tão poderosa e imponente como a Light Sword. Ela emanava uma aura única de poder supremo e presença magistral. Após alguns segundos observando a espada, April voltou à realidade:

— E se você à tomar de minha mão?

— Coloque-a nas suas costas.

Sem entender, mas obedecendo, April levantou a gigantesca espada e a levou até suas costas. Depois de um brilho, a espada desapareceu de sua mão.

— Ela agora está guardada. Se eu por algum motivo ficar possuído, você usa os poderes de seu oráculo. Acredito que diante dele eu não terei chance nenhuma.

— Sim, mas… eu nunca usei meu oráculo pra ferir alguém!

— Apenas me coloque pra dormir!

— Ah! ‘Tá certo, então.

— Está pronta?

— Sim.

Mesmo sentindo um certo desconforto, os dois firmaram um pacto apenas com a troca de olhares. Danyael então retornou até a dispensa e lá buscou o objeto que estava escondido. Tinha era pouco menor que seu punho, porém mais leve e arredondada. Removendo o pano com cuidado, Danyael então pode ver o que era. Para a surpresa de Danyael e April, ambos sabiam o que era aquele objeto.

— Essa é a Pedra Primordial!! – exclamou April.

— Sim, mas… o que ela está fazendo aqui?!?

— Você deveria perguntar o dono dela!

— Sim, mas… o que isto significa? Por que ela está aqui? Será que sou cúmplice dos assassinatos e não estou sabendo?!?

— Talvez…

— Talvez? Você tem o Light Oracle em suas mãos!

— He! – sorriu. – É verdade!

Porém, antes que pudessem fazer qualquer coisa, algo chamou a atenção dos dois. Não era algo considerado normal. Era algo que somente eles, os Escolhidos, poderiam perceber. Imediatamente Danyael lembrou-se de Andrew e correu até o quarto. Fosse o que fosse, o anjo queria se certificar que nada aconteceria com seu filho.

Andrew estava bem. Acordado, olhando para os brinquedos pendurados no berço, sem imaginar a preocupação de seu pai com ele. Danyael o tomou e seus braços e em seguida escutou a porta da principal da casa se abrir. Eles tinham visitas, e pela sua intuição, não vieram com boas intenções.

— Dany! – chamou April da sala. – Parece que temos visitas…

Danyael veio caminhando lentamente carregando seu filho nos braços. Seu ar de desconfiança aumentava a cada passo que dava em direção à sala. E sua intuição se confirmou quando três visitas lhe deram a honra desta surpresa.

Dois eram homens. Um usava um terno impecável, era calvo e tinha cabelos brancos na nuca. Aparentava ser de meia-idade. O outro era bem mais novo, por volta de seus vinte e cinco anos e estava trajando uma batina preta de peito único, lembrando um padre anglicano. Dos dois, Danyael só reconheceu o mais velho, afinal era um anjo como ele. Entretanto, o que mais irritou foi a presença da terceira visita. Se não fosse por ela, Danyael não estaria agora sentindo um frio na barriga de preocupação.

Ângela estava de volta. Já fazia alguns meses que eles haviam se encontrado e da última vez a anjo da Casa dos Captare esteve na Terra ela tentou matar Lilith ainda grávida sob ordens de evitar o nascimento de Andrew. “E agora, o que ela pretende?”, pensou Danyael. Ele estava em desvantagem por ter um bebê em seus braços, mas se por um acaso eles vieram atrás de encrenca…

— Olá, Danyael. – cumprimentou o clérigo. – É um prazer conhecer o Portador da Espada.

— Nós nos conhecemos?

— Não pessoalmente. Eu me chamo Krisztián László.

April foi a primeira a demonstrar seu espanto:

— O Portador do Instrumento!

— Sim, minha filha. Você está ciente disso?

— Eu me chamo April Peterson.

Mesmo não tendo sido tão enérgico quanto April. Krisztián também demonstrou espanto ao escutar o nome de April. Era claro que ele a reconheceu.

— Srta. Peterson… A Portadora do Oráculo.

— Sim.

Krisztián demorou alguns segundos observando April, deixando-a até encabulada, até ele tecer seu comentário:

— Eu imaginava que você fosse mais velha. (e mais alta).

— Como é?!?

— Ok… - cortou Danyael secamente. – O que vocês querem em minha residência?

Ângela foi a primeira a dar um passo à frente. Seu olhar ferino cruzava com os de Danyael prontos pra dar o bote. Sentindo-se ameaçado, Danyael cruzou rapidamente o olhar com April na esperança que ela lesse sua mente.

— Você sabe bem por que viemos aqui, não é?

— É mesmo? Pois não me lembro. Refresque minha memória.

— Dany, Dany, Dany… Você sabe que és atualmente considerado um traidor na Cidade de prata, não? Que mesmo sendo o Escolhido por Miguel pra portar a Light Sword, muitos anjos clamam que suas asas sejam cortadas! E agora… quem diria! Está prestes à se tornar um dos Reis do Inferno. Garotinho mal! O que você irá dizer em sua defesa? “Melhor reinar no Inferno…”

— Não. Não pretendo plagiar meu futuro sócio. Na verdade, deve fazer bem uns seis meses que não piso na Cidade de Prata. Se estou tão “popular” assim, por que não leva umas fotos minhas pro povo brincar de Atirar Dardos?

— Acho que você não entendeu a situação aqui, meu caro Principado. Seu nome está na lista negra da Cidade de Prata. Seu filho está sentenciado à julgamento perante o Conselho. Você não tem a menor idéia de sua condição aqui.

— Olhe bem na minha cara e veja se me importo.

Fazendo uma veia do pescoço pulsar de ódio, Ângela engrossou o tom:

— VOCÊ É UM TRAIDOR!!!

— Dobre sua língua antes de me chamar de traidor, sua cadela! Eu já salvei esse mundo o suficiente pra ele estar em débito comigo! Então não me venha com esse papo de que a Cidade de Prata ‘tá querendo minhas asas, porque eu estou pouco me fudendo!!!

— Veja lá como fala, meu rapaz! – anunciou Krisztián se metendo na discussão. – Você é um anjo e como tal tem seus deveres e obrigações.

— Quero ver quem vai ser aquele que vai me fazer entregar o meu filho pra Cidade de Prata.

— Isso é uma blasfêmia! São ordens divinas!

— Ordens divinas?! Deixe me explicar uma coisa, meu caro padre… A Cidade de Prata é formada por habitantes tão livres de pensamento quanto os humanos na Terra. A própria Captare ai nem sabe me responder se foi mesmo Deus que a enviou aqui. Ela só está cumprindo ordens! A pergunta de 1 milhão de libras é: Ordens de quem?

— Isso não te interessa! – rosnou Ângela.

Nesse exato momento, Andrew começou a chorar. Danyael deu dois passos pra trás e o balançou entre os braços para acalmá-lo. O clima estava muito tenso e todos ali estavam a ponto de cometer uma besteira:

— Eu só vou pedir uma vez, Principado Danyael: Dei-me a criança. – ordenou Ângela com a mão direita esticada.

O sangue de Danyael subiu até a cabeça naquela hora. E quando estava prestes a explodir ele se lembrou claramente das palavras de sua falecida esposa meses atrás quando esta revelou que estava grávida: “É possível que muitas cabalas de anjos sejam contrárias a esse nascimento e venham a caçá-lo. Isso não é uma surpresa, já que como disse antes, aqueles anjos que tentaram isso antes perderam as asas. Agora eu lhe pergunto: vai levantar a sua espada contra sua própria raça?”

— Lilith… - murmurou pra si. – Eu juro que irei manter a minha promessa.

Virando-se seriamente, Danyael segurou firme seu filho com uma mão e com a outra levantou o dedo médio enunciando suas últimas palavras para Ângela e sua trupe:

— Vão para o inferno!!!

De repente um selo enoquiano surgiu no piso da sala brilhando com grande intensidade. Sentindo como se tivessem sendo queimados os três visitantes não-convidados desapareceram numa explosão de luz que durou menos de um segundo. April que observou tudo de perto estava chocada:

— O que aconteceu?!?

— Esta é minha casa. Meu santuário. Quem não é bem vindo aqui eu posso expulsar sem o menor problema. – explicou Danyael o repentino ritual que acontecera na casa. – Mas infelizmente isso será pouco pra detê-los, principalmente quando se trata de um Portador de uma Light Arm.

— E o que você irá fazer?!?

— Tem muita coisa pra eu fazer agora, mas no momento eu preciso proteger meu filho. April, por favor, pode me devolver a Espada?

— Ah, claro! – levando a mão até as costas April fez a Light Sword surgir. Em seguida ela a entregou nas mãos de Danyael.

— Pronto. Agora me sinto mais seguro. April… você acha que Krisztián irá querer me enfrentar?

— Não sei! Eu não o conheço. Foi a primeira vez que eu o vi! Mas ele me pareceu ser daqueles tipos de “clérigos fanáticos” que não escuta nada a não ser as “ordens divinas”.

— Há! Ordens divinas… sei! Bem capaz de ser uma daqueles Nimbus filhos da mãe que tão querendo conspirar contra mim.

— Nimbus?

— Uma das Casas Celestiais. Devido uns problemas que meu pai teve no passado com um deles, agora todos estão de birra conosco.

— Entendo. E ai? Como vai proteger o pequeno Andrew?

— Sinceramente? Não sei. A primeira opção seria meus pais, mas eles não são páreos para o Krisztián.

— É verdade. Tem que ser alguém do mesmo nível.

— Tem meu tio… Mas infelizmente…

— O que foi?

— Nada. Eu apenas me lembrei durante todo esse estresse quem foi que apagou minha mente e por quê!

— Não entendi, mas tudo bem. Tem alguma outra opção?

— Pensei no Portador da Pedra Primordial. Ele é meu melhor amigo, mas…

— Ele não é de confiança?

— Não, pelo contrário! Eu confiaria minha vida com ele. O problema é que…

— é que…

— Não é nada! Acho que ele é a melhor pessoa pra cuidar do Andrew. Vou vê-lo imediatamente.

— Mas Dany… uma coisa que não entendi… Por que você precisa que alguém cuide do seu filho? O que você pretende fazer?

— Depois que eu tiver certeza que meu filho está seguro eu irei resolver esse problema com a Cidade de Prata. Já me cansei disso!

— Você vai peitar os Arcanjos?

— Não vou peitar ninguém. Só to cansado de que ficarem enviando “garotos de recados” pra falar comigo. Se querem tanto me ver, então irei diretamente até eles.

— Entendi. Mas Dany… tem uma coisa que gostaria de te contar.

— O que?

— Você sabe o que acontece quando duas Light Arms entram em conflito?

— Não. O que?

— Não acontece nada! Elas se anulam. Digamos que elas não brigam entre si.

— Então como é que a Ângela queria que o Krisztián botasse bronca aqui?

— Possivelmente por que nem o Krisz sabe disso!

— Então meu plano de deixar o Andrew com meu amigo foi pro brejo. E agora? Como eu irei pra Cidade de Prata tranqüilo?

— Ora… Você se esqueceu quem tem o Oráculo aqui?!?

— Verdade! Você pode fazer isso pra mim?

— Nem precisava pedir!

April sentou-se no chão e retirou seu colar que novamente se transformou em um enorme tabuleiro de madeira envernizada. No centro do tabuleiro uma bola de cristal brilhava e dentro parecia que galáxias e estrelas movimentavam-se lentamente. Danyael observava tudo calado. April se concentrou e logo levou a mão até a bola de cristal. Seus olhos imediatamente mudaram de cor ficando completamente brancos e brilhantes. A jovem parecia estar possuída e Danyael sentiu até um calafrio com medo que algo desse errado.

Não demorou muito e April voltou ao normal.

— Pronto.

— Já?

— Já!

— E ai?!

— Deixe ele com seus pais.

— Mas…

— Não se preocupe! Vai dar tudo certo!

— Espere… e a Light Arm do Krisztián?! Como meus pais irão se defender dele?? E ainda tem a Ângela que é um pé no saco!

— Na verdade, seus pais vão cuidar bem do pequeno Andrew. Já o Krisztián e a tal anja vão ser cuidados por outra pessoa…

Nesse exato momento a campainha toca. Sendo pego no susto, Danyael deixou o bebê com April e foi atender a porta. Pra sua surpresa diante dele estava a última pessoa que ele pensou que estaria ali naquele momento, e naquele horário:

— Sebastian?!?

— Danyael! Que inferno tá acontecendo aqui?!? Mal comecei meu sono da manhã e fui acordado sentindo a presença de QUATRO Light Swords na cidade! Faltei morrer de novo dentro do meu caixão… - Sebastian então percebeu que Danyael não estava sozinho. Ignorando Danyael, Sebastian foi até April pra cumprimentá-la — Olá, prazer. Meu nome é Sebatian West e o seu?

— April Peterson. Muito prazer em te conhecer pessoalmente, Sr. West!

— Hmm… vejo que histórias sobre mim já andaram rodando por ai…

— Sim, sim. Algumas delas! – sorriu April.

Foi observando o jeito maroto de Sebastian que Danyael entendeu a previsão de April. Aconteça o que acontecer, vai dar tudo certo.

 

*****

 

Victoria Park, Londres. 10h30min.

 

Caminhando pelo parque solitário, Phillipp tentava apagar por alguns momentos de sua cabeça tudo que vinha acontecendo nos últimos meses. Ele observava as árvores secas. As flores que só brotavam no inverno. Uma ou outra pessoa que vinha até a praça pra malhar. Era seu breve momento no paraíso que ele tentava aproveitar cada segundo, pois logo teria que voltar ao inferno que se tornara a sua vida.

— Podemos conversar?

A voz de Danyael surgiu de repente por trás de Phillipp. Mesmo assim, ainda falta muito pra que o meio-dragão se assustasse com isso.

— Claro!

Caminhando lado a lado, os dois amigos seguiram até um banco próximo se sentaram-se. Danyael ficou do lado esquerdo do Phillipp. Este por sua vez escorou-se sobre suas coxas observando a paisagem sem qualquer foco. Certamente o silencio entre eles estava bastante incomodo. Danyael olhou pra o rosto de Phillipp e em seguida tirou do bolso de seu casaco algo para lhe entregar:

— Acho que isto aqui lhe pertence.

Phillipp se virou e buscou o objeto. Era uma pedra de cor avermelhada que lembrava um rubi mal lapidado. Em seu interior uma chama azulada queimava misticamente.

— A Pedra Primordial. – disse Danyael. – De todas as Light Arms esta é sem dúvida a mais misteriosa, e por que não dizer a mais poderosa. Eu particularmente não sei do que ela é capaz, entretanto, dizem que esta pedra pode ser a matéria que criou todo o nosso universo.

— …

— Então eu lhe pergunto, Phill… sendo você o Portador de um item tão valioso e inestimável, por que está fazendo isso?

Antes de responder, Phillipp segurou com força a pedra. De repente ela começou a se liquefazer, tornando-se um tipo de líquido vivo que respondia às emoções de Phillipp. Sobre a palma de seu escolhido, a pedra deixara de ter a forma literal de uma pedra pra se tornar um emaranhado de dutos e nós que se moviam constantemente.

— Se eu pudesse voltar atrás… - disse Phillipp com voz baixa.

— Mas você pode voltar atrás!

— Não com “ele” me vigiando.

— Não precisa usar metáforas pra falar comigo, Phill. – Danyael então se recostou no banco e olhou pro céu. – Eu já sei de tudo.

— Alguém te contou?

— Não… Eu descobri sozinho. Foi logo depois do assassinato do Kravinoth.

— Naquele tempo você ainda sabia que eu era o assassino. De repente parece que você se esqueceu completamente! Como foi que você ficou tão realístico quando discutiu com o Matt no enterro do Spark?

— Antes d’eu lhe responder, só fazer um comentário… Seu filho da puta, você matou o Spark!!!

— Não foi minha intenção! Ele que se meteu na frente! Foi um acidente!

— Espere ai… ‘tá me dizendo que o Spark deu a vida dele por alguém que ele mal conhecia?

— …

— Responde, Phill!

— Eu não sei o que aconteceu naquela hora. Eu estava sangrando. Sei que apontei a arma na direção do Philox, mas… O Spark de repente apareceu no meio…

— Foi bom mesmo terem apagado minha memória antes da morte do Philox, por que se não, no dia que discuti com Matt no cemitério, ia ter muita roupa suja pra ser lavada naquele cemitério.

— Dany… me perdoe…

— Não.

A resposta de Danyael foi tão seca e verdadeira que Phillipp quase chorou.

— Você não merece perdão pelo que fez com Spark e com todos os anciões. Principalmente por que você sabia desde o inicio que a morte deles iria influenciar no futuro da humanidade.

— …

— Sabia que você possivelmente condenou toda a humanidade a continuar estacionada em seu grau de evolução?

Então Danyael se levantou, fazendo menção de que iria embora. Phillipp, que mesmos em ter o que dizer, ficou olhando pras costas de Danyael pensativo.

— E você? Por que veio aqui me ver? Apenas pra me entregar a Pedra?

— Não… vim aqui também por outro motivo. Entretanto… - e Danyael virou-se pra olhar Phillipp bem nos olhos. – Ainda estou revendo se irei mesmo fazer isso…

— …

— …

— Sua mente foi apagada?

— Sim… Meu tio apagou minha memória. Na época, obviamente, assim que descobri que ele era o mandante fui falar com ele. Hoje descobri que ele não tinha feito isso apenas comigo, mas com todos que possivelmente estavam a um passo de descobrir a verdade, começando pelo James e a Keira, meses atrás. Só que o cerco lá em casa se fechou ao redor dele daí ele apagou a mente de praticamente todo mundo, inclusive a minha.

— Ele então vem manipulando todo mundo desde então.

— Sim. Principalmente a mim. Ele sabia que, por exemplo, o Sebastian ia perceber a presença de outras Light Arms na cidade, então pra esconder sua Pedra era melhor que ficasse comigo, já que o poder ativo da Light Sword camufla o poder passivo da Pedra.

— Entretanto, agora que mexi nela seu tio já deve saber que ela está em minhas mãos novamente.

— Certamente. Entretanto… o que mais me intriga nisso tudo é o que meu Tio Spinel me contou no futuro alternativo.

— O que foi?

 

“— E lembre-se Danyael… Independente de quais sejam as ações de seu Tio Eriol, ele nunca teve a intenção de fazer o mal.”

 

— Como ele sabia o que tava acontecendo aqui?!? Você não disse que o Futuro que você foi parar era de uma Linha do Tempo alternativa e que os eventos que estão acontecendo hoje não aconteceram lá?

— Sim, eu disse. Mas ele falou isso durante transe mental. Ele tava muito mal da cabeça. Tinha enlouquecido. Daí eu acho que ele deve ter lido minha memória e percebido que tinha sido manipulada. Daí ele comentou isso, mesmo sem saber com detalhes o que estava realmente acontecendo.

— Entendo…

— Phill…

— Fala…

— Quer ir comigo pra Cidade de Prata?

— Eu? Por quê? Como assim?

— Eu preciso resolver uns problemas lá e eu gostaria que você fosse comigo.

— Faz anos que não vou lá. Só fui uma vez aliais, quando conversei com Gabriel… Mas você quer mesmo que “eu” vá contigo?

— Eu não te perdoei pelo que fez com Spark. Você perdeu toda a minha consideração e respeito. Entretanto… eu ainda confio em você, essa que é a verdade. Hoje me peguei pensando em deixá-lo de guarda do meu filho, enquanto ia pra Cidade de Prata.

— De guarda do seu filho?!? Dany, eu…

— Não diga nada. Amizade é algo estranho de se entender. Podemos brigar, ficar sem se falar, até mesmo nos odiar! Mas a verdade é que mesmo quando tentamos, não conseguimos excluir completamente de nossas vidas pessoas que foram muito importantes para nós. Eu sei que você já está vivendo um inferno na sua vida e que realmente não teve a intenção de matar o Spark. Por isso não cabe a mim piorar mais a sua situação, velho! Então? Vai querer vir ou não?

Phillipp talvez precisasse pensar um pouco, mas ele resolveu não pensar. Depois de tudo que Danyael fez por ele nos últimos tempos, sua divida de gratidão pra com o amigo era absurda. Phillipp tinha decidido que, independente do que acontecesse, ele faria de tudo pra ajudar o Danyael no que ele precisasse. Fosse o que fosse.

Realmente, amizade é algo estranho de se entender…

— Ok, vamos lá.

— Legal. Fico agradecido.

— Não fique. Sou eu que tenho que te agradecer!

— Pronto?

— Pronto.

Danyael encostou a mão em Phillipp e os dois sumiram em uma incandescente luz branca ascendente.

 

 

*****

 

Ilchester Place, Londres. 11h10min.

 

Seguindo pela calçada onde ficava a residência de Danyael, John, Gabriela, April e Sebastian andavam à largos passos para chegar até o carro de John, que estava estacionado. Gabriela carregava no neto no colo e John seguia na frente dos dois. April e Sebastian faziam a retaguarda.

— Sr. West. – chamou April.

— Pode me chamar de Sebastian.

— Certo. Sebastian, você não é um vampiro?

— Sim, sou. Por quê?

— Como é que tá andando em plena luz do dia?

— Com o poder da Dark.

— E você consegue inibir uma das maldições vampíricas com o poder da sua espada?

— Sim. Mas o sol nem é problema! Pior é estar tentando ficar acordado.

— Ah, sim… Vampiros têm dificuldade em ficarem acordados pela manhã, não é?

— Muito!

Assim que John abriu a porta do carro que os “convidados indesejados” de Danyael apareceram. Sebastian logo tomou à dianteira. Empunhando uma harpa dourada, Krisztián também seguiu passos à frente para encarar o portador da Dark Sword:

— Saia do caminho, Filho de Draculea!

Sebastian continuou onde estava encarando-o sério. Ele parecia estar pronto pra enfrentar qualquer coisa, inclusive inimigos que nem eram dele. Mas antes, ele precisou tirar uma dúvida pertinente com April:

— Do que ele me chamou?!?

— De filho do Drácula.

— Ah, tá!

— Sebastian! Cuide do portador da light arm. Eu darei a retaguarda. – disse John Kimble se juntando aos dois. Ele sabia dos riscos que estava correndo, mas preferiu ficar e lutar a ter que deixar nas mãos de dois jovens problemas que nem eram deles.

— Por mim tudo bem… Mas quem vai cuidar do bebê?

— Eu protejo a Sra. Kimble e o bebê! – afirmou April.

— E seu oráculo serve pra ser usado numa briga? – questionou Sebastian.

— Não sei… é o que iremos descobrir.

— Jogue ele como um bumerangue. Talvez funcione!

— Engraçadinho…

A conversa logo foi cortada pela risada abafada e sarcástica de Krisztián:

— Apenas eu serei necessário pra derrubar os três. Ângela e Lauviah vão se prontificar de levar o bebê.

— Só se for por cima do meu cadáver. – respondeu John.

— Eu não mato. Mas pode ter certeza que passarei por cima de vocês.

Krisztián foi o primeiro a agir. Na verdade, ninguém esperava que o primeiro ataque do adversário viesse apenas de uma nota tocada em sua harpa. Foi apenas necessário tocar um “sol” pra que John, Sebastian e April sentissem seus corpos diferentes. Em seguida, Krisztián iniciou uma longa e doce melodia. O poder da música era tão sublime que o céu nublado se abriu, as arvores ficaram mais verdes e vivas, e os pássaros cantarolaram em conjunto. Até aqueles que não eram alvos da música, como Gabriela e o bebê, sentiram-se anestesiados e reconfortados com o som da harpa de Krisztián. Entretanto, nem de longe era isso que John, Sebastian e April sentiam.

De alguma forma a música penetrava em suas almas e os corroia por dentro. Eles sentiam-se absurdamente hereges e a música era agia como se fosse a purificação divina queimando cada um de seus pecados. John lembrava-se de cada vez que levantou sua arma para matar alguém. Das vezes que foi absurdamente egoísta com relação aos outros. Das várias pessoas que fez sofrer quando usava seus punhos pra se defender. Do ódio gerando ódio. Em brasas ardentes, a alma de John crepitava em cada pecado que surgia.

Em Sebastian a situação era ainda pior. Não bastava o fato de ser o Portador da Dark Sword, toda sua herança adquirida com a maldição vampírica o fazia arder no fogo divino. Sebastian olhava para os céus e via claramente sete suntuosos arcanjos lançando sobre ele toda sua fúria celeste. Certamente se a tortura continuasse, restariam apenas as cinzas do que um dia foi o Portador da Dark Sword. Ele não poderia se permitir a isso!

 

[Soundtrack: No Rest For The Wicked – Godsmack]

 

Erguendo-se sobre o vale da morte, com as mãos e pés em chamas e o corpo se desfazendo, Sebastian levou a mão esquerda até as costas e dela conjurou sua única salvação. Quando a espada das trevas se fez presente houve um grande choque de poderes. Tanto a terra quanto o céu sentiram as vibrações paradoxais da luz e das trevas se chocando. A música de Krisztián já não tinha mais o mesmo efeito. Mesmo tentando duelar em pé de  igualdade, havia uma verdade que não podia mais ser evitada: Krisztián nunca enfrentou um inimigo como Sebastian.

Imediatamente o choque de poderes foi cancelado. Cada um dos lados estava exausto, entretanto Sebastian mostrava-se disposto a continuar de pé. O Problema mesmo estava no maldito Sol e sua maldita maldição. Só agora Sebastian não via mais utilidade nenhuma em ser vampiro.

— Maldito, Ser das Trevas! – Esbravejou Krisztían. – Vou transformá-lo em cinzas!!!

— Vem pros pau então, fodão! – desafiou Sebastian.

Transformando sua harpa em duas baquetas de tambor, Krisztián se preparou para a violenta investida se Sebastian. Quando a Dark Sword veio em sua direção, o Escolhido da Hungria fez um movimento rápido como se tivesse batido em um tambor invisível na frente do adversário. Deixando todos estupefatos, inclusive Sebastian, a Dark Dword foi bloqueada por um escudo invisível e em seguida, novamente fazendo movimentos de bateria, Kristián lançou feitiços que simplesmente explodia tudo ao redor de Sebastian.

Sendo arremessado a vários metros de distancia, o rapaz não se deu por vencido. Segurando firme o cabo de sua espada, Sebastian lançou um feixe de luz vermelho que, como uma lamina afiada, saiu cortando tudo que encostava. Tão rápido quanto o ataque de Sebastian foi o bloqueio de Krisztián que deu uma batida dupla em seu “tambor” levantando uma muralha invencível de luz. Quando os poderes se dissiparam, foi a vez de Krizstián ser pegue desprevenido: Sebastian havia desaparecido.

Devido os segundos perdidos procurando pelo adversário, Krisztián não conseguiu evitar ser pegue de surpresa por um “mata-leão” de Sebastian:

— O-o que pensa que está fazendo?!? – exclamou Krisztián.

— Mudando a arena de combate.

Num ofuscante brilho vermelho, Sebastian e Krisztián desapareceram bem diante dos olhos de John, April e companhia.

[]

— Pra onde será que eles foram?!? – questionou April pasma.

— Sebastian mencionou que ia mudar de “arena”. Talvez ele estivesse preocupado por estar lutando com o cara em plena cidade.

— Nossa! Não sabia que o Portador da Dark Sword era tão bonzinho…

— Nem eu. – comentou John já se virando pra encarar Ângela. Certamente John sabia que a Captare desconfiava do verdadeiro potencial de John. Na verdade, ele tinha certeza que ela não iria peitá-lo de frente, vide que como reencarnação do Arcanjo Elohim, seria um desrespeito da parte dela fazer isso. Não é a toa que ela confiou tudo aos serviços de Krisztián, entretanto, ela não contava que fosse o Sebastian que iria enfrentá-lo.

Muito boa a jogada de Danyael!

— E então, Ângela? Ainda vai vir pegar o meu neto?

Mesmo com o orgulho ferido, a anjo não teve alternativa a não ser recuar:

— Isso ainda terminou… - disse, desaparecendo junto com seu assecla num feixe de luz.

Demorou ainda alguns minutos até os ânimos se acalmarem e John, Gabriela e April respirarem aliviados. Apesar de toda agitação, o pequeno Andrew ainda mantinha-se calmo cochilando no colo da avó:

— E agora, John? O que iremos fazer? – questionou Gabriela.

— Só nos resta mesmo proteger a criança e esperar o retorno do Dany. Da Cidade de Prata.

— Estou preocupada…

— Com ele? Não fique, ele sabe se cuidar!

— Não… é como tudo. Com ele, conosco, com nossa família…

— É verdade… temos que saber onde está Stephanie e depois irmos direto onde o Eriol está. Com certeza será mais seguro estar com ele.

Foi nesse momento que April se intrometeu na conversa:

— Desculpe me intrometer, mas… vocês também não estão sabendo?

— Sabendo o que? – questionou John.

— Sobre a verdade por trás do tal Diácono conhecido como Eriol VonBranagh.

Sentindo um terrível mal-estar John manteve seu questionamento:

— Como assim?! Onde você está querendo chegar??

— Bom… não seria bom vocês ficarem sabendo através de mim, mas… devido as circunstancias, acho melhor vocês estarem cientes logo!

April precisou apenas de alguns minutos da atenção de John e Gabriela pra por abaixo toda a vida do casal e aquilo que eles acreditavam. Para John principalmente era difícil de acreditar, mas lá no fundo ele sentia que, de alguma forma, ele já sabia disso…

 

*****

 

Paradísia. Hora desconhecida.

 

Após alguns minutos atravessando as dimensões que separavam a Terra dos reinos Supernos, finalmente Danyael e Phillipp chegam ao seu destino. Para Phillipp tudo aquilo era novo e pela visão do local ali poderia ser a tal Cidade de Prata. Um campo verde sem fim. Céu azul com auroras boreais serpenteando as nuvens. Pequenas fadinhas de luz surgindo aqui e acolá. Parecia ser mesmo o paraíso, até Danyael logo cortar suas especulações:

— Que merda!

— O que foi, Danyael?

— Nos proibiram de entrar na Cidade de Prata.

— E nós não estamos na Cidade de Prata?

— Não. Estamos em Paradísia.

— Onde?

— O mundo superno no qual reside a Cidade de Prata. – então Danyael aprontou para as montanhas no final do horizonte. – Lá é a Cidade de Prata.

— Paramos bem longe então!

— Sim. Paramos. Parece que vamos ter que ir até lá a pé.

— A pé? Não podemos nem ir voando?

— E você voa?

— Tem muita coisa que você não sabe sobre mim!

Concentrando por alguns minutos, Phillipp rugiu um pouco e de repente fez surgir em suas costas enormes asas draconianas de cor azul-marinho. Chocado e bastante surpreso, Danyael teve que concordar:

— Realmente não sei nada sobre você! Ok, então. Vamos voando.

Levantando vôo, os dois amigos cruzaram o campo e seguiram até a Cidade que lhes proibiu a entrada. “Provavelmente será bastante difícil chegar até o castelo de Júpiter”, pensou Danyael preocupado. “Mas, esse é o único jeito de por um fim nessa história!”

 

*****

 

Residencial Geriátrico Stª Edwiges - Londres. 12h00min.

 

Durante anos, a Dra. Carla Patrick manteve aquele lugar sempre em excelentes condições para manter a qualidade de vida de seus velhinhos que não tinham para onde ir. Abandonados pela família ou pela própria condição de vida, Carla sentia que tinha o dever de ajudá-los no que fosse preciso. Nos últimos meses no entanto, uma paciente em particular lhe fazia dedicar todo o seu tempo disponível para ajudá-la.

Era uma senhora já de meia idade que sofria de um incurável Mal de Alzheimer. Atualmente seu estado estava tão crítico que ela mal se lembrava de quem era ou de qualquer fato de sua vida. Bem aos poucos a doença fazia a pobre mulher mergulhar cada vez mais nas trevas do esquecimento. Entretanto, uma única lembrança a fazia se sentir ainda viva. A senhora sabia que tinha um filho e esse filho se chamava Erick.

Mas Carla sabia que infelizmente Erick nunca mais voltaria a ver sua pobre mãe novamente. Notificada pelo departamento de recursos humanos da Scotland Yard sobre o falecimento do policial, Carla sabia que pra’quela senhora não restou mais nada a não ser a pensão que seu filho deixou para ela ainda em vida. Era muito triste para Carla pensar que existia alguém tão sozinha assim no mundo. Pelo menos, ela não estaria abandonada.

Abrindo a porta do quarto trazendo consigo uma bandeja de almoço, Carla foi logo abrindo um sorriso:

— Bom dia, Sra. Russell! Veja o que trouxe hoje pro almo… - de repente seu rosto petrificou e suas mãos não conseguiram mais ter força pra sustentar a pesada bandeja. Sua reação foi imediata: — AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!

Saindo correndo do quarto, Carla não quis olhar para trás para não perder o que lhe restava de sanidade.

No quarto, a pobre senhora doente não conseguia se lembrar de nada de sua vida. Apenas uma coisa ela tinha como certeza: “Eu tenho um filho”. Quando uma firme mão masculina segurou sua frágil mão, ela teve sua única certeza confirmada:

— Meu filho… - sorriu.

E na escuridão ele respondeu:

— Você já pode descansar em paz.

Fechando os olhos lentamente, a Sra. Russell finalmente encontrou a paz que tanto buscava. Colocando a mão da senhora letamente sobre seu corpo frio, o homem se levantou e convicto olhou a distante cidade enevoada pela janela:

— É chegada a hora. O fim está próximo.

Disse, sumindo repentinamente num feixe de luz branca.

 

 

***Fim do Quarto Arco***

 

 

 

To be continued…