[Soundtrack: Celtic Spirit – Blind Guardian]

 

O sopro gelado dos ventos sacudia as copas das árvores anunciando o nascer de um novo dia. Por cima da imensidão esmeralda, o sol surgia lentamente, com raios bem fracos, numa tímida luz alaranjada. Pelos céus alguns passarinhos começavam a piar e outros voavam pelo amanhecer quebrando o escuro silêncio da noite. Enquanto a luz da manhã se aproximava, um imenso vale cercado inteiramente por montanhas ia surgindo revelando um local de grande beleza e paz. Por várias de gerações, aquele vale vinha sendo o local sagrado para aqueles que cultuavam tradições milenares que vinham de antes do surgimento do Homem na Terra.

Por muitos séculos aquele foi um lugar de paz e tranqüilidade. Mas também houve os tempos de guerra. Tempos de atrocidades que quase sempre eram perpetrados por invasores inescrupulosos que buscam destruir e saquear os segredos enterrados naquele vale. E não faz muito tempo que algo desse nível aconteceu.

Seguindo pela estreita trilha de terra batida, marcas desta terrível guerra ainda podiam ser avistadas em algumas árvores. No ar o cheiro forte de enxofre ainda se mantinha presente apenas pros olfatos mais apurados. Na terra, marcas de pegadas e formavam sulcos que guiavam o visitante até a clareira mais próxima. No fim da trilha, o símbolo da guerra vencida. Emitindo um brilho metálico avermelhado, um enorme machado estava cravado chão dando as boas vindas àqueles que ali chegavam ao Vale dos Dragões.

Depois de muito tempo, finalmente Phillipp voltava para casa.

 

 

 

 

Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio LVII

A História por trás da História – Parte 1

 

 

 

 

1 Ano Atrás…

 

Domingo, 14 de Novembro de 2027. 06h00min.

Vale dos Dragões.

Escócia – Reino Unido.

 

— Reyna! Reyna! Venha ver quem chegou!!! – exclamou o marceneiro para a esposa.

— Qual o motivo da gritaria, Saud? – indagou a mulher que surgiu na janela da casa de madeira. — Pelos Deuses! – exclamou a camponesa. – Ele voltou!!!

Phillipp sempre se sentia acanhado quando voltava a sua terra natal. Todos na vila o admiravam muito e sempre que chegava era aquela balburdia. Em poucos instantes, todos na vila ficaram sabendo da chegada do visitante. Após alguns abraços e cumprimentos, Phillipp novamente sentia-se em casa.

Nada havia mudado. Parecia que haviam congelado aquela vila no tempo, estando ela eternamente no século XII. As casas de madeira circundavam uma pequena praça no qual havia uma fonte. Muitos da vila já estavam acordados, começando mais um dia de trabalho. O cultivo da terra e a criação de animais era o trabalho mais comum, mas alguns dos habitantes se aperfeiçoaram em outras tarefas como a produção de tecidos e jóias para serem vendidos nas cidades próximas. Ninguém na região conhecia a existência daquela vila, entretanto por vez ou outra tinham contato com seus habitantes. Pouquíssimos são aqueles, como Phillipp, que deixou a vila pra viver no Mundo dos Homens.

— Meu jovem, Phillipp! – exclamou o velho Saud, membro do clã dos Dragões Brancos, enquanto apertava a mão de Phillipp. – A quanto tempo não vem nos visitar!

— Sim… já tem um tempinho. Mas é que eu tenho tido alguns problemas.

— Ah, sim… Léia nos contou que andava muito ocupado na cidade dos humanos. Mas não se preocupe! – sorriu o velho homem. – Aqui em casa você poderá procurar pela paz espiritual que tanto anseia.

— Sim. Falando em Léia, onde ela está?

— Bom… não sei… Reyna! Você sabe onde está Léia?

— Claro que sei, homem! Ela foi até o bosque buscar frutas pro café da manhã. Por que não vai lá encontrar ela, Phill?

— Sim. Eu irei.

Phillipp até se sentiu bem em rever seus amigos e familiares, entretanto, ninguém chamou mais a sua atenção do que o homem que surgira entre os aldeões. Vindo de uma das casas, um homem de longos cabelos negros amarrados numa liga teve sua atenção chamada quando percebeu o alvoroço do lado de fora. Seus olhos imediatamente se encontraram com os de Phillipp. Sob um mar de silêncio, Phillipp e seu antigo rival ficaram diante um do outro.

— Quanto tempo. – disse o homem soturnamente.

— Sim. Quatro anos, pra ser mais exato.

— O que o trás aqui depois de tanto tempo, Phillipp?

— Eu acho que você já deve saber, Evan.

Evan McGooken. Assim como Phillipp, ele também era um descendente de primeira geração de um dos deuses Dragões. Em seu sangue percorria a linhagem dos necromânticos Dragões Negros que eram, desde tempos imemoriais, rivais dos Dragões Azuis, a linhagem de Phillipp.

— Sim. É verdade. – respondeu categórico. – Eu só não esperava vê-lo aqui.

— Pensou mesmo que eu havia dado as costas à minha Família?

— E você deu? – questionou em tom de desafio.

— Aff, Evan… Eu não irei iniciar uma discussão infantil contigo. Irei procurar por minha esposa e em seguida espero vê-lo no Santuário.

— Após o meio-dia.

— Eu conheço a liturgia, Evan. – se afastando, Phillipp foi caminhando na direção oposta. – Até mais! – despediu-se com um simples aceno.

Phillipp gostaria muito que sua relação com Evan mudasse, mas infelizmente, mesmo com o passar do tempo, certas coisas não mudam. E ele tinha certeza, mesmo sem olhar pra trás, que os olhos de Evan estavam cravados em suas costas.

Mas logo esse estresse havia ficado para trás. Voltar a caminhar pelos bosques do vale dos Dragões era sem dúvida uma viagem no tempo para Phillipp. Ele podia facilmente se ver com 9 anos de idade correndo por entre essas árvores enquanto Léia e Evan o seguiam. Cada árvore uma lembrança. Cada flor um toque da infância. Mas certamente, nada se comparava a beleza natural que ele encontrou apenas quando atingiu a maturidade.

Debaixo das fortes e geladas águas da cachoeira, Léia tomava seu banho matinal. Completamente nua, a jovem passava as mãos entre seus longos cabelos rubros, enquanto seu corpo levemente se enrijecia com a gélida água. Phillipp poderia ficar ali observando-a quanto tempo fosse necessário, entretanto preferiu mudar de estratégia.

Enquanto caminhava, as peças de seu vestuário iam sendo deixados para trás. Quando mergulhou o primeiro dedo na água, ele não acreditava que estivesse tão fria. Uns 13°c.? Ou menos. Mas se aquele era o desafio…

A cada passo a sensação térmica de Phillipp ia abaixando arrepiando todo seu corpo. Mas, quando finalmente chegou perto de amada, a água misteriosamente começou a ficar mais quente até alcançar uma temperatura extremamente agradável. Ela já sabia da presença dele, porém nada fez pra impedir que fortes braços a envolvessem por trás da cachoeira. Ao som ensurdecedor da cachoeira, marido e mulher trocavam beijos e caricias esquecendo-se do mundo ao redor.

 

*****

 

— Eu não imaginava que você estivesse aqui… nós tínhamos combinado…

— Eu sei, Phillipp. Mas eu precisava voltar à aldeia. Precisava ver minha família.

— Eu entendo. Podia ter me avisado…

— Desculpe. Mas você estava tão ocupado lá com seus problemas…

— É… eu sei. Eu que lhe peço desculpas.

— Tudo bem. – sorriu Léia enquanto deitava sua cabeça nos peitos do marido.

Deitados em concha numa cama de casal, Phillipp e Léia tentavam de alguma forma solucionar esse casamento conturbado dos dois. Inicialmente o dois foram casados por obrigação. Ainda era prática comum na Aldeia dos draconianos os casamentos arranjados pelas famílias. Isso era considerado tanto uma tradição, como uma forma de evitar casamentos com estrangeiros pra evitar principalmente a miscigenação.

Mas, mesmo nascidos e criados numa cultura assim, Phillipp e Léia sempre tiveram as mentes mais abertas e sabiam que “mesmo casados” não poderiam obrigar um a gostar do outro. Assim que terminou sua faculdade, Phillipp combinou com Léia em mantê-la sempre segura, estando ela livre para seguir a vida que quisesse tal como ele, que largou a vida da aldeia pra se tornar engenheiro no mundo dos homens.

Entretanto, não foi bem assim que as coisas aconteceram. Inicialmente os dois pensavam que “por serem amigos” seria impossível terem qualquer tipo de relacionamento. Mas, eles eram casados, e a situação favoreceu a vários tipos “momentos” complicados, principalmente quando se tratava de sexo. Inconscientemente tanto um quanto o outro se sentiam impossibilitados de “trair” o parceiro, mesmo que isso tivesse dentro do “acordo” que eles fizeram após o casamento forçado. Tal tensão acabou resultando naquilo que eles, como ex-melhores amigos, nunca pensaram que um dia iriam fazer: sexo.

Mas, ao contrário do que poderia se imaginar, o dia seguinte não foi tão ruim. Na verdade, nem houve um dia seguinte, afinal eles mal saíram da cama… Parecia estranho antes? Parecia uma idéia desconfortável? Constrangedora? Mas a verdade era que a sensação que eles sentiram foi de: “por que nunca fizemos isso antes?”.

Os anos que se seguiram foram exatamente o que se esperava de um casal recém-apaixonado. Mesmo “oficialmente” casados, eles agiam a princípio como namorados. Encontros casuais, namoros pelos bancos da praça, cinemas, café, almoços, jantares, motéis. Era tudo aquilo que eles nunca tiveram e com uma pessoa no qual valia a pena desfrutar tudo aquilo. Para um casal oriundo de raízes medievais, tudo aquilo era uma grande descoberta e uma aventura.

Entretanto Phillipp não podia se manter preso ainda à ninguém. Pelo menos era o que ele achava. Estava ele em seu último ano na faculdade, ainda tinha seus problemas em se colocar na vida como profissional recém-formado e, além disso, ele se afiliou junto com os amigos na sociedade dos Iluminados, nos Estados Unidos. Eram muitas coisas importantes na vida de um homem pra se resolver, mas acima de tudo isso ele tinha seus pensamentos voltados na primeira pessoa que realmente havia mexido com seus sentimentos.

— Amor… - chama Léia com a voz doce enquanto mexia com os cabelos do peito de Phillipp com o dedo.

— Diz, linda. – atendeu o rapaz ainda de olhos fechados.

— Eu estava pensando… que tipo… sei lá… a gente podia ficar juntos e tal…

— “Ficar juntos”? Como assim? – questionou Phill na maior inocência.

— Aaaahh… ‘cê sabe… podíamos oficializar o nosso relacionamento… Isso se o que você sente por mim for o mesmo que eu sinto por você.

— Claro que é a mesma coisa que eu sinto. Mas… eu continuo sem entender, Léia. “Oficializar”? Mas nós já somos casados!

— Eu seeei que somos casados… aqui na aldeia… mas eu ‘tô falando de algo mais… mudar um pouco a forma que “estamos” vivendo hoje…

— Como assim? – questionou Phill verdadeiramente sem entender. – Você não está gostando da forma que estamos vivendo hoje?

— Não! Não é isso!! Eu estou adorando estar aqui com você!

— Então! Eu também estou. Você está feliz. Eu estou feliz. Nossas famílias estão felizes. Nossa aldeia está feliz. Todo o Mundo está feliz. Pra quê mudar?

— Eu sei, amor. – pontuou Léia diminuindo um pouco a doçura de suas palavras. – O que eu estou querendo dizer é que nós podíamos oficializar melhor nosso casamento. Podíamos começar a morar juntos e tal…

— Mas pra quê oficializar o nosso casamento e nós já somos casados de fato e de direito.

— Eu sei, Phillipp. O que estou querendo dizer é que eu queria, tipo assim… Noivar… ter Chá de Panela… chamar os amigos… usar um vestido… ter uma Lua de Mel… essas coisas!

— Aaahh, Léia! Deixa disso… É besteira essas coisas!

Acendendo brasas em seus olhos, Léia imediatamente se levantou da cama e deixou Phillipp sem entender a atitude dela. De costas a jovem agora fala num tom sério, levemente ameaçador:

— Deixe eu ver se eu entendi direito. Você está dizendo que o nosso casamento é uma… “besteira”?

Sentindo-se como se tivesse com uma arma apontada na cabeça, Phillipp receou no que poderia responder. Mas sob os olhos esmagadores de Léia, ou ele falava alguma ou ela comeria seu fígado vivo:

— Aaaa… Não?

— Então o que você quer dizer com “besteiras”?

— Léia… tenha calma… por favor.

— Eu estou calma!!! Agora responda a minha pergunta. O que você quer dizer com “besteira”? Nosso casamento é uma besteira? Consumar nosso casamento como marido e mulher é uma besteira pra você? Termos uma lua de mel, morarmos juntos, constituir família, é uma besteira pra você?

— Não…! O que eu estou querendo dizer é que eu acho bes… que eu acho desnecessário fazer isso tudo, afinal nós já somos casados… E além do mais, estamos vivendo tão bem os últimos anos que não vejo por que mudar!

Novamente Léia muda de postura. Agora ela leva as mãos até o rosto incrédula:

— Ah! – suspirou. – Pelas chamas de Draco, eu não acredito no que estou escutando… Você está querendo dizer que prefere continuar do jeito que está. É isso??

— Sim. Não está bom pra você?

— Se está bom pra mim? Se está bom para mim?!? NÃO, NÃO ESTÁ BOM PARA MIM!!!

Léia então saiu do quarto batendo a porta. Phillipp imediatamente foi atrás enquanto vestia a cueca.

— Léia, por favor…

— Você não tem um pingo de consideração comigo?!?

— Léia! O que é isso? É claro que eu tenho consideração por você! Eu te amo!

— Ama?

— Amo.

— Se ama mesmo, então me responda: o que o casamento significa pra você?

Desta vez Léia conseguiu deixar Phillipp desconcertado. Por um milionésimo de segundo ele ficou literalmente sem ter o que responder, afinal ele nunca tinha pensando nisso antes. E ele precisava responder logo:

— Ele… representa muito para mim! Você sabe disso!

— Representa…? – questionou Léia agora braços cruzados e olhando Phillipp de cabeça erguida. – Representa, o quê?

— Representa… aah… - as mãos de Phillipp agora suavam. – Representa o quanto eu sou comprometido com uma mulher!

— É isso que ele representa pra você.

— Sim…?

— Só isso? Não representa mais nada!?

— Bem… não sei… o que ele representa pra você?

— Pra mim? Eu vou te responder o que o casamento representa pra mim. Ele representa o comprometimento entre duas pessoas. A celebração um namoro através de um relacionamento sério. Uma forma de declarar para o mundo o amor que duas pessoas sentem uma pela outra. É isto que o casamento representa para mim.

— Sim, Léia. Mas nós já somos casados… não somos?

— Sim, nós somos. Aqui, nesta maldita vila! Você não tem um pingo de vontade de mostrar pros seus amigos e colegas o quanto você é “comprometido com uma mulher”?

— Ah… bem… É que todos já sabem!

Quem sabe, Phillipp??

— Ah… Todo mundo! O Flávius…

— Fora o seu parceiro de apartamento.

— Ah… O pessoal da Prometeu sabe! Eles são meus melhores amigos!

— Eles sabem como? Por que você contou?

— …

— Sim, Phillipp, eles sabem por que EU contei!!!

— Sim, Léia… Você precisa fazer todo esse estardalhaço só por que eu não conto pra ninguém que sou casado?!

Foi nesse instante que Phillipp gostaria de poder entrar dentro de uma máquina do tempo e voltar alguns segundos atrás.

— C-como é? O que você disse??

— Não é isso que você está pensando…

— Você não conta pra ninguém que é casado?

— A-ah… - seu desconcerto era tão visível que irritava Léia. – Não é o que você está pensando…

— POR QUE VOCÊ NÃO CONTA PRA NINGUÉM QUE É CASADO?!?

— B-bem… é que… pra todos os efeitos… nós estamos namorado… e tal…

— Phillipp.

— E também… por que os caras que são solteiros têm mais prestígio… nos… rachas.

— Oh meu deus! Você continua tão imaturo quanto antes!! Eu pensando que você tinha mudado. Eu pensando que você tinha se tornado um homem… Você continua o mesmo vagabundo de sempre!!!

Como da água para o vinho, Phillipp mudou completamente sua postura emocional:

— Vagabundo? VAGABUNDO?!? Você tem alguma idéia do que você está FALANDO, Léia?!? Eu estou tendo que me HUMILHAR no estágio não-remunerado por que é obrigatório. Estou me MATANDO de tanto estudar pra terminar a MALDITA monografia pra um professor “filho de uma boa mãe” que não aprova nada do que eu faço. Estou devendo praticamente A ALMA pro Flávius na pensão de tanto dinheiro que tive que pedir emprestado. E ainda tem o MALDITO japonês que tá me devendo quase 3 mil euros só de projetos de sistemas elétricos nos quais ELE que é o PROFISSIONAL é incapaz de fazer sozinho, e você vem dizer pra mim que eu sou VA-GA-BUN-DO?!?

— Ah, tadinho… Estou em lágrimas por você. Quem vê até acredita… Vê se te enxerga, homem! Você fica se lamentado ai da sua “pobre e triste vida” enquanto sua mãe aqui da aldeia se mata de trabalhar todos os dias pra lhe mandar dinheiro! E o que VOCÊ faz com todo o dinheiro que ganha, HÃ?

— Ah… eu não acredito que vamos começar essa discussão de novo…

— VAMOS SIM! Você fica falando ai da sua pobre vida de universitário e esquece-se de mencionar que todo e qualquer dinheiro que cai na sua mão você TORRA NA PORCARIA DAS CORRIDAS!!!

Phillipp deu as costas e foi até o quarto começar a se vestir. Léia manteve a discussão em alto tom atrás dele:

— Você fica ai se fazendo de VÍTIMA, mas a verdade é que não consegue ficar um minuto sem o seu MALDITO vício!!!

— Não é vício.

— NÃO?!? Você falou agora que está devendo “a alma” pro Flávius de tanto dinheiro emprestado que pediu. Responda-me, Phillipp: Que tipo de empréstimo é esse que você pede pra ele?!?

— Não é da sua conta…

— Ah, claro. Sou sua esposa e não mereço saber o que você faz com seu dinheiro. Mas NÃO se preocupe! Não precisa ser um Dragão Dourado pra saber o que tipo de empréstimos são esses!! VOCÊ FICA GASTANDO COM AQUELE SEU MALDITO CARRO!!!

— Léia, CHEGA!!! EU JÁ ESTOU CANSADO DAS MESMAS DISCUSSÕES!!! VOCÊ SEMPRE VEM COM A MESMA LADAINHA… AS MESMAS RECLAMAÇÕES… JÁ DEU NO SACO!!!

— AH! DEU NO SACO?!? ENTÃO POR QUE VOCÊ NÃO SE SEPARA LOGO DE MIM PRA FICAR LIVRE DE MIM?!?

Furioso Phillipp fica olho a olho com Léia apontando-lhe o dedo:

— Você SABE que eu não VOU fazer isso.

— NÃO VAI? E POR QUE NÃO VAI?!? VOCÊ NÃO TEM MESMO QUALQUER CONSIDERAÇÃO PARA COM O NOSSO RELACIONAMENTO!! VOCÊ ACHA UMA BESTEIRA!!!

— EU NÃO DISSE ISSO!!! EU DISSE QUE ACHO BESTEIRA QUERER SE CASAR ESTANDO CASADOS!!! ISSO SERIA UM PLEONASMO!!!

De repente Léia começa a chorar. Afastando-se de Phill a moça vai até a sala onde se debulha em lágrimas sentada no sofá.

— Léia… por favor… não faça isso…

— Você não tem um pingo de consideração pelo que eu sinto… Eu me sinto uma bosta de mulher neste casamento…

Ajoelhando-se diante dela, Phillipp tenta dialogar:

— Como assim…? Pelo amor de nossos ancestrais, do que você está falando?

— Eu estou falando de consideração, Phill. De comprometimento. De amor. Você não entendeu ainda? Nosso casamento não foi algo natural. Fomos forçadamente casados por que nossas famílias assim o quiseram. Não tivemos nem a chance de ter escolhas.

— Mas mesmo assim… veja pelo lado bom! Nós nos casamos obrigados, mas gostamos um do outro.

— Pois não é isso que parece! – disse convicta se levantando e ficando longe dele. – Eu estou casada a 5 anos com um cara que eu só vejo nos finais de semana! Todos os dias eu tenho que dormir sozinha preocupada se você está bem. Se você está em casa. Se você está pensando em mim.

— É claro que eu estou pensando em você!

— Como é que você quer que eu acredite nisso se você continua agindo feito um adolescente que fica só se aproveitando do melhor dos dois mundos?

— Eu não…

— Você adora ser solteiro, ter sua liberdade, seu dinheiro, suas corridas, mas ao mesmo tempo quer ter aquela mulher sempre te esperando de braços abertos debaixo dos edredons.

— Eu…

— Tanto que isso é verdade que você mal consegue responder o que esse casamento significa pra você!

— Eu já respondi!

— Respondeu? Pra mim aquilo não foi uma resposta!! Foi uma desculpa!!!

— Desculpa?!? Ah, ok. Desculpe se não pude dar a resposta correta! Mas vem cá. Até parece que você está bem convicta do que esse casamento representa pra ti.

— O que você está querendo dizer com isso?

— Não sei… Talvez um tal de “Yuri” possa lhe responder!

— Oh Meu Deus!!! Você ainda ‘tá com ISSO na cabeça?!? Quantas vezes eu vou ter que repetir que o Yuri é só um COLEGA do trabalho?!?

Desviando o olhar e mantendo a birra, Phillipp retrucou:

— Um colega que fica dando caronas para casa… pagando almoços… jantares… eu sei BEM que tipo de “coleguinha” ele é.

— Se eu pelo menos tivesse um MARIDO DE VERDADE pra me buscar no trabalho e me levar pra jantar, eu não teria que ficar procurando por um estepe.

Explodindo como um vulcão no meio da sala, Phillipp perde completamente a calma:

— COMO ASSIM, LÉIA O’CONNOR?!?

— Foi exatamente o que você escutou. – respondeu face a face sem temer a fúria do marido.

— VOCÊ ESTÁ ME TRAINDO???

— Pense o que você quiser…

RESPONDA, LÉIA!!! VOCÊ ESTÁ ME TRAINDO?!?

— Não. Não estou. Mas deveria!

— Ah, “deveria”?

— Sim, DEVERIA!

— Então faça o que VOCÊ QUISER!!! - Dando as costas, Phillipp saiu da casa batendo a porta com força.

 

“Que belo fim de semana”, pensou Phillipp furioso. Se não bastassem os problemas do cotidiano e da misteriosa convocação dos Anciões, ele ainda tinha que discutir com Léia. Andando pela vila ele não pode deixar de notar que todos olhavam para ele disfarçadamente. Claro, aquilo era uma vila pouco maior que um condomínio fechado em Londres, mas eles não podiam se meter. Léia e ele eram casados e discussões deveriam fazer parte do “pacote”.

“O que mais que ela quer?!”, questionou-se repetidamente enquanto se dirigia até uma das chácaras vizinhas. “Se casar de novo? Continuo achando uma besteira!”. Phillipp estava indiscutivelmente insuportável, até pra ele mesmo. Caminhava entre os aldeões sem responder os “bom dias” e pouco se importava se estavam achando ele um mal-educado. Ainda faltava algumas horas até seu encontro com Evan e até lá ele tinha que arranjar alguma coisa pra fazer, já que Léia “fez o favor” de estragar o seu dia.

— Bom dia, Sr. Jeromann. – cumprimentou Phillipp assim que entrou na chácara da família dos Dragões verdes.

— Bom dia, Phill! O que o trás aqui? – retribuiu o senhor que aparentava ter meia-idade enquanto trabalhava na enorme horta.

— Estou querendo arranjar algo pra fazer. Como o senhor sempre meu deu “alguma coisa pra fazer” na minha infância, pensei que poderia…

— Claro, claro! Eu realmente estou precisando de ajuda. Desde que meu filho montou a loja em Edimburgo pra vender nossos produtos de fazenda, o trabalho aqui ficou um tanto puxado.

— E por que o senhor não chama alguém da vila pra te ajudar?

— Até parece que temos muitos jovens em nossa vila!

Realmente Phillipp teve que considerar esse fato. Por serem descendentes de uma raça de criaturas sobrenaturais fantásticas, os Draconianos tinham uma estimativa de vida três vezes maior do que a de um ser humano normal. O próprio ancião da vila, que passa todo o seu tempo apenas meditando no santuário tinha nada menos que 500 anos de vida. Até o Senhor Jeromann, patriarca da família dos Dragões verdes já estava alcançando seus 300 anos e em todo esse tempo ele só teve um filho, Driak, que pelo que Phillipp se lembra o “rapaz” tinha por volta de 100 a 120 anos.

Certamente os mais novos da vila eram Phillipp, Léia e Evan. Foram os primeiros a nascer nesta geração e muito por causa da vontade dos Deuses e não dos próprios aldeões. Phillipp e Evan disputariam entre si o cargo de “Escolhido dos Deuses”, enquanto Léia seria a esposa de quem vencesse. Tudo perfeitamente planejado e arquitetado. O fato de ter filhos e constituir família pra uma raça semi-imortal era, de certo modo, considerado “trivialidade”. Talvez fosse esse o principal motivo que fez Phillipp sair da aldeia quando era mais novo. Até hoje ele se lembra da pressão que sofria por ser o futuro Escolhido dos Deuses.

— É verdade. Então? Onde posso começar?

— Ô meu filho… eu gostaria muito que você fosse levar comida pros wyverns.

— O senhor ainda cria esses bichos de Arcádia aqui na Terra?

— Sim. E não vejo problemas. Sempre criamos criaturas arcadianas neste Mundo.

— Sim, eu sei. Mas desde que os Deuses Dragões foram embora deste mundo, essas criaturas também foram.

— Eu sei disso. Realmente está difícil criá-las num mundo onde o Conformismo humano sufoca a vida de criaturas como nós.

— É… eu sei como é.

— E ainda dizem por ai que existe um grupo de humanos no Novo Mundo que deseja o extermínio de todas as criaturas sobrenaturais. Sabe o que isso significa, Phill?

— O que?

— Que os tempos de paz estão aos poucos ficando pra trás. Logo chegará o dia em que estas terras terão que ser lavadas em sangue novamente, e não será por invasores presunçosos como foram os demônios. Serão os malditos humanos, que como sempre ingratos, irão ignorar os anos de paz que tivemos com eles pra entrar numa guerra insensata e egoísta.

— É verdade… bom… eu vou lá dar a comida pros Wyverns.

— Vai lá filho! E cuidado com eles!

— Não se preocupe! Já estou sabendo me proteger melhor do que antes!

— Você já passou pela sua Primeira Transformação?

— Sim. Já sim.

— Que bom! E como foi?

— Foi estranho… doloroso… MUITO doloroso…

— Você se acostuma.

— É… ‘tô ligado. Mas foi muito bom no final. Ver-me meio-Dragão, meio-humanóide é bastante… incrível? Nem sei como descrever!

— Ah… é incrível mesmo! Mas você tem que saber se controlar agora. Ficar na forma Kingu provoca uma alta instabilidade emocional.

— É… eu percebi! Realmente é complicado ficar “controlado” quando se está meio-selvagem.

— Mas lembre-se: esta é a sua verdadeira natureza. Você nunca pode ignorar ou fugir dela.

— Sim, Sr. Jeromann. Eu me lembrarei disso. - assim que terminou de falar os dois escutaram ao longe um guincho alto e grave vindo do terreno logo atrás da chácara. – Acho que é o Wyvern chamando pelo garçom.

— Com certeza! Vai lá, meu filho.

Phillipp enfim se retirou para poder começar seu trabalho. Entretanto, mesmo com a ajuda do Sr. Jeromann em conversar sobre outros assuntos, sua cabeça ainda estava lá na aldeia focado em Léia. Mesmo fazendo esforço ele não conseguia deixar de pensar nela. Da mesma forma que ele não conseguia deixar pensar na discussão. Cada palavra proferida estava viva e bem nítida em sua memória que até parecia que Léia estava dentro de sua cabeça falando e gritando.

Enfim, pelo menos trabalhando na chácara ajudando o Sr. Jeromann poderia se focar em outras atividades e parar um pouco de pensar no assunto. “Foi uma boa mesmo ter vindo até aqui”, pensou enquanto jogava os pedaços de carne para os famintos Wyverns, “Eu teria explodido de raiva se não tivesse nada pra fazer…”. Conferindo o relógio, suspirou: “Ainda faltam cinco horas até meu encontro com Evan no santuário…”.

 

*****

 

[Soundtrack: The Awakening – Immediate Music]

 

Após alguns quilômetros de caminhada pelo vale, avistava-se a montanha mais importante do vale: a Dente de Dragão. Com quilômetros de extensão, a montanha se erguia imponente com o sopé esverdeado que ia sendo substituído pelo marrom seco das rochas, com algumas capas de gelo. O mais interessante era que a montanha tinha uma formação gêmea ao norte que juntas formavam um vale no topo da colina formado por raras vegetações e longas camadas de neve.

O santuário que Phillipp e Evan se dirigiam ficava justamente neste vale entre as montanhas. Dizia-se as lendas que foi ali que a mãe de todos os Dragões, Tiamat, formou seu ninho dando origem às 10 Raças de Dragões, que por sua vez, originou as Famílias de Meio-dragões. Então é lá onde se encontra o santuário erguido pelos primeiros ancestrais draconianos em veneração aos deuses que um dia caminharam sobre a Terra.

Após uma longa trilha de subida, uma drástica queda de temperatura, finalmente os dois Escolhidos chegam até a entrada do templo. Um pátio todo feito de pedras recepcionava os visitantes que vinham pelas escadarias ao sul. Estatuas de antigos Dragões lendários espalhavam-se ao redor do pátio ornamentados com tochas de chamas inextinguíveis. Cada estátua representava uma das raças de dragões. Quando passou pela estátua que representava a sua família, Phillipp sentiu um leve arrepio. Os dragões do trovão eram tão imponentes e ferozes quanto os vermelhos do fogo.

— Dragões do Fogo… - murmurou assim que viu a estátua do Dragão Vermelho. Aquela era a família de Léia. “Certamente há uma boa explicação pra cabeça-quente dela!”, comentou em pensamentos e percebendo que não tirava a esposa da cabeça.

— Enfim chegamos. – disse Evan.

Diante de um grande portal, os dois Escolhidos de 1ª Geração aguardavam o momento certo para entrar. Primeiro, havia uma certa liturgia à ser exercida. Ao lado do portão havia um pilar de concreto onde, sobre ele, estava uma adaga. Como estava mais próxima de Phillipp, ele se prontificou em buscá-la.

Segurando firme o cabo da adaga, Phillipp murmurou algumas palavras no idioma original dos dragões e em seguida cortou seu braço lentamente. Com o próprio sangue escorrendo pela lâmina, Phillipp derramou algumas gotas sobre o tapete de entrada do templo. Em seguida, ele passou a adaga para Evan.

Seu amigo fez o mesmo que ele e no final devolveu a adaga ao seu local de origem. Não demorou muito para os portões do templo abrirem. Lentamente, os dez metros de portas de pedra iam se revelando um suntuoso salão iluminado por chamas eternas iguais as do pátio. Enquanto entravam, Phillipp recordava que fazia bastante tempo que ele não vinha a este templo e que, tal como da ultima vez, era extremamente fantástico e assustador estar naquele lugar.

Um imponente salão, com pelo menos 30 metros de extensão e 15 de altura, se estendia diante de Phillipp e Evan.  Dez gigantescos pilares dourados sustentavam a abóboda do teto e em cada um deles, pequenos dragões que lembravam gárgulas seguravam tochas. Gravuras em alto relevo contavam pelas paredes toda a história da Família. Eram histórias de batalha, poder, supremacia, orgulho, e, principalmente, riqueza. Não era preciso ser muito esperto pra perceber que todas as paredes, teto e pilares eram feitos em puro ouro, que ostentava com orgulho a enorme riqueza da Família dos dragões.

Ao final do salão, uma câmara octogonal de com 9 metros de diâmetro circundava uma fonte rasa com uma mística água em seu interior. A água formava ondas concêntricas sem qualquer agente externo para criá-las. Ao se aproximarem da fonte, Phillipp e Evan se ajoelharam diante dela.

— Deuses Anciões. – iniciou Evan. – Atendemos o seu chamado e aqui estamos.

Não demorou muito e logo a fonte reagiu as palavras de Evan. As ondas começaram a ficar mais turbulentas e de repente a câmara octogonal fez surgir um circulo de fogo incandescente. Cinco serpentes de fogo brotaram do circulo e ergueram-se até o centro da fonte onde se encontram e formaram uma chama ainda maior. Desta chama surgiu a imagem de um imenso e assustador Dragão com 10 cabeças.

Com uma voz multifacetada, variando em vozes masculinas, femininas e rosnados, a personificação dos 10 Deuses Dragões enunciou a sua presença:

SAUDAÇÕES, MINHAS CRIANÇAS. A PRESENÇA DE VOCÊS ERA PREVISTA E AGUARDADA.

— Por que nos convocou, Grandes Deuses? – questionou Evan.

EIS QUE É CHEGADO O TEMPO DA PARTILHA. NOSSOS SANGUES E NOSSAS HERANÇAS NÃO MAIS SERÃO UNOS. O TEMPO EM QUE OS GENITORES TERÃO QUE ABANDONAR SUAS CRIAS.

Imediatamente, Phillipp e Evan trocaram olhares espantados. Eles sabiam exatamente o que significavam as palavras dos deuses.

Desde que nasceram, Phillipp e Evan tinham um destino predeterminado. Eles foram concebidos nos tempos modernos diretamente dos deuses Dragões, tornando-se assim meio-dragões de 1ª geração e os únicos herdeiros da raça. Léia, por sua vez, foi concebida de pais legitimamente da Família dos Dragões Vermelhos, e seu destino era ser a esposa de um dos Escolhidos. Aquele que o poder necessário para carregar a responsabilidade de toda uma raça, seria o Patriarca dos Dragões em nosso mundo.

Entretanto, nada disso foi feito sem uma razão específica. Séculos atrás foi previsto que em uma determinada época de nossa geração, a “Grande Máquina” que liga os mundos Supernos, Mundanos e Inferiores irá se mover provocando um grande cataclismo cósmico. Por causa disso, e a preocupação feroz do que poderia acontecer com uma raça tão intrinsecamente ligada ao mundo supernal que foram procuradas diversas soluções para esse problema e um deles foi a criação de novos membros de 1ª Geração. E seu principal dever seria, além de encontrar alternativas pra sobrevivência da espécie, serem o sustento vital da herança draconiana que corria entre suas veias.

— Grandes Deuses. Que dia será esse? Já estamos próximos? – questionou Phillipp.

SIM. OS GRANDES PODERES QUE MOLDAM A RODA DOS MUNDOS ESTÃO PRESTES A AGIR. DAQUI A 1 CICLO ANUAL TERRESTRE, QUANDO A TERRA SOBREPOR-SE A LUZ DO SOL NA LUA, O DIA PROMETIDO ENFIM ESTARÁ SOBRE NÓS.

— “Quando a Terra sobrepor-se a luz do sol”? – questionou-se Evan.

— Durante um Eclipse Lunar. – respondeu Phillipp. – Significa que um evento cósmico irá marcar a chegada do Dia Prometido. Interessante.

Sem prestar atenção ao que eles diziam, os Grandes Deuses se pronunciaram:

ATENTAI A GRAVIDADE DA SITUAÇÃO, JOVENS ESCOLHIDOS. NÓS NÃO SABEMOS O QUE PODERÁ ACONTECER NO TEMPO DA PARTILHA, MAS CERTAMENTE ISSO TERÁ CONSEQUÊNCIAS AGRAVANTES À SUA ESPÉCIE.

— Que tipo de conseqüências, Grandes Deuses?

CONSEQUENCIAS FATAIS. A EXTINÇÃO DE TODA UMA ESPÉCIME.

A notícia os atingiu como um raio sob suas cabeças. Eles, até então, sabiam que o que os Deuses chamavam de “Dia da Partilha” seria o dia em que os Deuses teriam que abandonar para sempre seus filhos na Terra, afinal os Mundos Supernos e Mundanos não teriam mais nenhuma conexão. Eles tinham ciência de que esse dia seria terrivelmente drástico pra sua raça, mas não imaginavam que seria tão terrível. Nunca que passou pela cabeça de Phillipp e Evan que quando o Dia da Partilha chegasse suas famílias, parentes e amigos, e certamente eles também, iriam morrer.

— Faz sentido… - murmurou Phillipp.

— Como assim?

— Evan. Nossa raça é intimamente ligada aos Deuses. Poderes místicos correm em nossas veias através de um canal direto com o Mundo Supernal. Possivelmente, e talvez seja isso que os Grandes Deuses queriam dizer, que quando esse canal for cortado, nós talvez venhamos a… adoecer? Seria esse o termo correto? Enfim… o fato é que quando esse dia chegar todos nós talvez não consigamos sobreviver a ele.

— Iremos… morrer?

— Não sei. – voltando para imagem dos Dragões Phillipp questionou: — DEUSES! Será que não há uma forma de evitarmos isso?

É POR ESSA RAZÃO QUE VÓS FOSTES ESCOLHIDOS. NÓS NÃO SABEMOS COMO SE DARÁ O FUTURO DE NOSSOS FILHOS. A VIDÊNCIA DO FUTURO ESTÁ NUBLADA EM RAZÃO DAS ALTERAÇÕES COSMICAS.

Deve haver alguma coisa… algum jeito de… evitar que isso aconteça conosco! – questionou Phillipp já se mostrando aflito.

EIS QUE, NO CORRER DA AREIA DO TEMPO APÓS O PRESENTE MOMENTO, O GIRAR DAS PÁS DO DESTINO ESTARÁ EM VOSSAS ESCOLHAS E DECISÕES. QUE A GRAÇA E A FORTUNA VOS GUIEM EM TÃO INCERTO CAMINHO, SANGUE DO NOSSO SANGUE.

Dita suas palavras, os Grandes Deuses desapareceram num rápido redemoinho de chamas que pouco a pouco foi se extinguindo até o templo ficar novamente silencioso. A fonte mística enfim se acalmou, voltando a produzir suas místicas ondas concêntricas.

Phillipp e Evan estavam ainda em estado de choque. Não foi de espantar que os dois precisassem ficar alguns minutos parados no mesmo lugar. Suas mãos suavam. Seus pensamentos zapeavam em suas cabeças a mais de mil. A sensação que eles tinham era igual a de um enfermo que acabara de receber a noticia de quanto tempo de vida ainda lhe restava. Pior. Se fosse uma noticia referente apenas a eles… mas não era. Envolvia todos aqueles que eles amavam e conheciam. Um... apenas um ano e toda uma cultura, um povo, uma civilização ia se extinguir por completo e até então não havia nada que se pudesse fazer.

— Evan…

— Fale.

— Me perdoe. Você estava certo. Eu devia ter sido mais comprometido com meus deveres de nossa família.

— Tudo bem, Phill. Confesso que eu também falhei com nossa família. – as palavras sinceras e humildes de Evan fez com que Phillipp o olhasse de jeito diferente. – Não vou mentir que desde que descobri que você seria o escolhido pra ser o líder e… também… se casaria com a Léia, eu… eu passei a viver uma vida apenas baseada em raiva e inveja de você e de nossa família. Mas agora… Agora, num momento desses, como eu percebo o tempo que perdi com isso! Eu que lhe peço perdão, Phill.

— Evan… eu não apenas te perdôo, meu irmão, como também te entendo perfeitamente. Principalmente por que você estava certo. No fundo, no fundo mesmo, eu não queria ser “o Escolhido dos Deuses”. Eu não queria ter que carregar esse fardo, nem muito menos ter minha vida ditada muito antes d’eu nascer. Se você vivia uma vida de raiva e inveja, por outro lado eu vivia uma vida de inteiro egoísmo e frustração. Eu sempre soube que não era igual aos humanos, e que tão pouco poderia ter uma vida igual a deles. Hoje me preocupo em fazer uma faculdade, mas a verdade é que minha vida e minha natureza é bem diferente da deles. E mesmo assim eu venho insistindo constantemente nesse erro esquecendo-me completamente do que é realmente valioso na vida. – por um segundo Phillipp parou seu raciocínio pra se lembrar de algo totalmente diferente, porém intrinsecamente ligado ao assunto: — Eu preciso conversar com a Léia.

— Você acha certo informamos a vila sobre o que escutamos aqui?

— Eu não sei. Eu acho que sim. Por quê?

— Por quê… tirando os mais antigos, como o ancião Balasar de 4ª geração, o resto da aldeia não deve nem imaginar o que está prestes a acontecer. Muitos mesmo se perguntam por que os Deuses decidiram que deveria nascer duas crianças de 1ª Geração nos tempos atuais! Eu não sei, mas acho que seria bom poupá-los de uma notícia tão…

— Eu entendi… você está certo. Eu estava pensando nisso também. Eu não sei se tenho coragem de contar isso pra Léia.

— Mas ela é sua esposa. Talvez…

— Eu sei… mas ela e eu estamos passando por certos… probleminhas.

— Ah, isso logo passa! Logo vocês farão as pazes novamente.

— ‘Cê acha?

— Claro, Phill! Ok… sei que não sou a pessoa mais indicada pra dar palpites no seu casamento, mas… a verdade é que a Léia é e sempre foi louca por ti. Eu acho muito difícil ela não voltar a fazer as pazes contigo.

— Certo… obrigado, Evan.

— Não há de que. – levantando-se do chão, Evan fez sinal de que era hora de voltar. – Certo. Vamos embora. Acho que já tivemos toda nossa dose de “consagração” suficiente por hoje!

— Sim, vamos.

Saindo do templo calados, a sensação que os dois sentiam era de que como teria sido melhor se eles nunca tivessem vindo. Apesar de tudo…

 

*****

 

— Léia!? Léia!? LÉIA!!!

 

Phillipp já havia dado três voltas dentro de casa e nada de encontrar sua esposa. Foi quando pensou em desistir e esperar ela voltar que ele reparou que havia uma carta escrita à mão sob a penteadeira dela.

 

[Soundtrack: L’Aurora – Eros Ramazzotti]

 

“Phillipp,

 

‘Desde que eu nasci eu sempre soube qual seria o meu destino. Sabia que estava sendo criada para no futuro ser a esposa do futuro patriarca de nossa aldeia. De meus deveres como futura matriarca. De todas as obrigações que eu teria como sendo a braço direito de meu marido.

‘Enfim…

‘Desde pequena eu venho sendo criada pra ser uma Esposa ideal. A Mulher ideal. A Amante ideal. E, só os Grandes Deuses sabem o quanto eu tinha medo disso. Do medo que tinha de largar minha família, minha casa, minha vida, por causa de um homem que eu nem conhecia.

‘Mas então, mais tarde, eu descobri que você é que seria meu futuro marido. O meu amigo de infância. Que sempre esteve do meu lado, em todos os momentos. Nos momentos alegres em que corríamos pelos bosques brincando, como nos momentos tristes e difíceis. Que seria aquele que sempre foi bom para mim. Sempre me olhou com um sorriso no rosto. Você não sabe o quão nervosa fiquei em descobrir que era você.

‘Mas o que estou falando aqui são coisas de vários anos atrás. De muito antes de nosso casamento. Sim, eu já sabia do nosso casamento muito antes da menina virar mulher. Enquanto via você sonhando com o mundo moderno, eu ficava em casa me imaginando como seria o meu vestido, minha festa, quem eu chamaria pra ser minha dama de honra, de quantos andares teria o nosso bolo.

‘Mas infelizmente…

‘Não foi assim que aconteceu.

‘Naquela época eu não sabia que você não sabia.

‘Não sabia que você estava apavorado com o fato do casamento e que, de certa forma, não queria se casar comigo.

‘Eu sei. Você me via como amiga. Nunca imaginou que um dia podíamos ter algo tão sério. E principalmente que você gostava de mim, mas não da mesma forma. Essas foram as suas palavras. “Fui pego de surpresa com esse lance de casamento”. Nós havíamos dado um “tempo” pra você pensar. Pensar se “gostava” de mim.

‘Phillipp, vamos ser sinceros um com o outro… você nunca gostou de verdade de mim. Você mesmo disse isso naquele carro. Que me via como uma amiga, não como sua mulher.

‘E… eu acho que… se não há uma ligação de igual valor entre as duas partes num casal, eu acho que não devemos levar adiante esse casamento. Sei que, se caso nos separarmos eu serei vista como a “abandonada pelo marido” pelo nosso povo pra todo o sempre, mas eu não me importo. Eu prefiro que isso aconteça de que te obrigar a gostar de mim. Te obrigar a ter uma vida que você não quer ter.

‘Então… por isso, e por tudo que vivemos até agora, eu acho melhor não nos vermos mais. Eu estou indo embora. Vou voltar a morar sozinha…

‘Certamente eu irei me mudar de Oxford. Talvez transfira meu curso pra outra universidade. London, Cambridge, eu não sei… Eu só sei que… não dá mais pra ficarmos juntos novamente.

‘Não dá…

‘Me desculpe, por favor.

‘Me desculpe por ainda te amar.

 

Léia.”

 

Segurando o pedaço de papel, Phillipp ficou sem reação. Sua mente não conseguia processar direito aquelas palavras. Ele precisou reler a carta de novo. Parecia que ele mesmo não queria acreditar. Mas, por mais que ele negasse, a verdade estava ali bem diante de seus olhos. Seu coração estava apertando pouco a pouco.

Como uma nuvem fria e cinza, toda sua vida ia perdendo as cores de sua existência. Sonhos e alegrias compartilhadas agora arrancadas de seu coração, Phillipp perdia completamente seu chão. Seu corpo prendia-se na cadeira e sua mente sentia-se como se pudesse voltar no tempo. Voltar até horas atrás quando poderia ter evitado tudo isso.

“Não… isso não pode estar acontecendo…”. Poderia ele agora correr atrás de daquilo que foi perdido? Poder concertar o que foi quebrado? “Não… não pode terminar assim…”. Ele precisava se levantar. Precisava correr atrás dela. Não deixá-la sair de sua vida. “Não assim.”.

E foi o que ele fez. Descalço, Phillipp correu por toda a vila à procura de Léia. De porta em porta. De canto a conto. Não havia qualquer sinal dela. As pessoas o olhavam sem entender. Tentavam ajudá-lo sem saber o que acontecia. Mas, não importava quantas pessoas estivessem ao seu redor, naquele momento ele sentia-se completamente sozinho no mundo.

E isso o fez perceber o quanto sua esposa era importante para ele.

 

*****

 

Sexta-feira, 19 de Novembro de 2027. 16h00min.

Pensão Le Fey.

Oxford – Inglaterra.

 

— Já faz quase uma semana que eu não tenho notícias de Léia. – explicou Phillipp para James e Keira enquanto conversavam sozinhos no refeitório da pensão.

— Tenha calma, Phill… Eu tenho certeza de que isso vai passar. A Léia só precisa de um tempo… Um tempo pra pensar. – consolou Keira acariciando as costas do amigo.

— E se não passar? – questionou Phill já com os olhos marejados de lágrimas. — E se ela realmente tiver querendo se separar de mim? O que é que eu vou fazer?

— Calma, Phill. – disse James. – ‘Cê já tentou procurá-la por outros meios? Pelos amigos, pela república onde ela morava… ou simplesmente pelo número dela?

— O celular dela vive desligado. Ela se mudou de Oxford logo na segunda e não deixou qualquer endereço para contato.

— Mas ela fez isso muito rápido… como que vocês não se encontraram?

— Eu fiquei preso lá na aldeia até segunda de tarde! Eu sabia que se eu tivesse vindo imediatamente eu ia conseguir falar com ela, mas eu não consegui!

— Tenha calma, irmãozinho. Keira e eu vamos ajudá-lo a procurá-la. Vamos ver o que podemos conseguir com a ajuda dos computadores da Prometeu.

— Eu pensei em fazer isso esta semana, mas… achei que estaria indo contra as regras usar a Rede dos Iluminados para assuntos pessoais.

— Sim, sim… é contra as regras, mas… Eu vou tentar conversar com o Matt pra ver se ele libera.

— Pô, galera… vocês são formidáveis!

— Tudo bem, Phill! – confortou Keira. – Somos seus amigos e estamos aqui pra isso.

— Muito obrigado.

— Bom… sem querer mudar de assunto bruscamente, mas já mudando… Como anda a sua monografia? – perguntou James preocupado.

— Uma merda! Eu tinha só essa semana pra entregar o rascunho pro professor. Só que foi impossível pensar em monografia esta semana…

— Eu entendo… Mas… falta muito pra terminar?

— Não! Está tudo quase pronto. Eu só preciso revisar, mudar algumas coisas e imprimir. Não é muita coisa pra se fazer já que está tudo feito, só que ao mesmo tempo é foda ter que revisar quase 200 páginas no estado que estou.

— Se quiser eu posso te ajudar.

— Ajudar? James, você é biólogo! Como vai me ajudar em Sistemas Elétricos de Alto Desempenho em Motores com Núcleo de Plasma?

— Eh… - sorriu James constrangido coçando a nuca. – Posso ajudar na gramática!

— He! Valeu meu amigo, mas não precisa fazer isso não. Eu já conversei com o professor e consegui adiar pra semana que vem.

— ‘Tá certo, então… mas qualquer coisa… alguma ajuda na gramática, pode contar comigo!

— Obrigado. – nesse exato momento o celular de Phillipp tocou informando a chegada de uma mensagem. – Ah, droga…

— O que foi? – perguntou James.

— É o Flávius. Ele está me lembrando da corrida que teremos hoje.

— E vai ter uma corrida hoje??

— Sim, mas é algo particular. Só pros apostadores veteranos.

— E certamente isso incluí…

— Sim. Nin Soo vai estar lá.

— Essa seria uma boa chance da gente ficar na cola dele!

— Ele já está ficando doido com as mensagens criptografadas que estamos enviando pra ele. – comentou Keira.

— Não só ele. O Diácono Vincent Vaugh também está aloprando. – complementou James. – Parece que está tudo saindo como planejamos. Mas, é melhor discutirmos isso na base.

— Com certeza. – afirmou Phill. Sem seguida ele conferiu a hora em seu celular e se levantou. – Pessoal, eu tenho que ir. Já que terei uma corrida hoje, tenho poucas horas pra revisar o carro.

— Tudo bem.

— Vocês vão ver a corrida hoje?

— Não podemos… Teremos reunião de discípulos lá no Graal essa noite. – respondeu James.

— E o senhor alquimista aqui não quer perder as aulas de decomposição da matéria orgânica com o professor Flamel. – comentou Keira.

— Nicolas Flamel, o maior alquimista do mundo, é mestre na ordem do Graal? – questionou Phillipp.

— Não. É o tatatataraneto dele. Edmund Flamel.

— Mas é claro que eu não posso perder! – exclamou James. – Eu sou biólogo! Não há nada no mundo que me dá mais tesão do estudar bioquímica! – observando o olhar de Keira, James logo se concertou: — Depois de você, é claro, meu amor!

— Ok… vou indo nessa!

— Até mais, Phill! – despediu-se Keira e James

 

*****

 

A corrida havia seguido sem muitos problemas. Pela terceira vez seguida o primo de Danyael Kimble, Flávius, ganhou a corrida com uma larga vantagem. Phillipp, que até então era um excelente piloto, amargou a sétima colocação, onde por pouco não ficara em último. Era evidente que Phillipp não estava conseguindo se concentrar na corrida. No pub onde os corredores e fã da corrida se reuniam para comemorar, Phillipp preferiu ficar isolado nos fundos, acompanhado apenas de uma long neck.

— Problemas, Sr. O’Connor?

Ao levantar a cabeça pra ver quem havia chagado, Phillipp sentiu seu estomago se embrulhar.

— Algumas, Sr. Yan. Mas… eu já tenho amigos pra desabafar meus problemas.

— “Todos” eles?

— Como assim?

— Você já contou para os seus amigos que dentro de um ano você e toda sua espécie irá morrer? – disse tomando mais um gole de seu uísque.

Imediatamente aquilo chamou a atenção de Phillipp o fez se levantar da cadeira. Encarando Nin Soo Yan diretamente nos olhos:

— O que você quer dizer com isso, Nin Soo Yan?

— Acalme-se… sente-se, por favor.

Mesmo com o sangue faltando ferver, Phillipp puxou a cadeira e sentou. Demorou alguns segundos até um dos dois se pronunciar. Veio de Nin Soo a iniciativa:

— Seu desempenho na corrida foi péssimo.

— É mesmo?

— Eu sei que esta está sendo a temporada do Flávius VonBranagh, mas você nunca foi um péssimo corredor. Sua média é segundo, terceiro, no máximo quinto. Agora, sétimo?!

— Ok, Nin Soo… Vai direto ao ponto. Aonde você quer chegar?

— Tudo bem. Como você já deve ter percebido, eu sei de seu “pequeno” probleminha.

— Como você ficou sabendo disso? Só existem duas pessoas que estão sabendo disso e uma delas sou eu.

— Pode ficar tranqüilo. Seu confidente não te dedurou. Por um acaso você se esqueceu da família?

— Como é?

— Vou ser mais claro… Você se esqueceu de seus “primos”.

— Primos? Do que você está falan… Oh meu deus! Não me diga que você é…

— Não, não! Eu não! Mas sim, eu tenho longos contatos com seus primos, os Meio-Dragões Chineses.

— Inacreditável. Os Dragões Chineses?!? Eu pensei que eles estivessem…

— Extintos? Não meu caro. Estão bem vivos. Ou melhor dizendo… Ele está bem vivo.

— Só existe 1 meio-dragão chinês?

— Em todo o universo. E pra sua informação, ele é um dos Grão-Mestres de nossa Ordem dos Mandarins.

— Ok. Então você está sabendo que meu traseiro tá na reta até o final do ano. Se era isso que você queria me dizer, pode ir--

— Calma, parceiro. Eu não vim aqui para ironizar sua triste e miserável vida. Vim aqui propor um acordo.

— Um… acordo?

— Sim. – Nin Soo tomou mais um gole de sua bebida. Quando o copo vazio assentou-se sobre a mesa, o mago oriental continuou. – Nosso Grão-Mestre já encontrou a solução para o seu probleminha cósmico.

Neste exato momento o peito de Phillipp doeu. Seria verdade? Seria real? Então existia mesmo uma forma de salvar toda sua espécie e sua esposa de um destino fatal?

— Se você queria minha atenção, agora tem.

— Sim, eu sei que tenho. Mas escute bem o que tenho pra lhe falar: Corridas dão dinheiro. Drogas dão dinheiro. Armas dão dinheiro. Mas nada é mais valioso do que a Informação.

— Diga-me o preço.

Nin Soo sorriu.

— Infelizmente meu caro, eu não sei bem se você está realmente disposto à pagar o meu valor.

— Fale logo, Nin Soo. Qual é o valor.

— Não se trata de dinheiro, meu caro. Estamos falando de vidas aqui.

— O que?

— Serei mais claro. Estou falando sobre assassinatos.

Nesse momento o mundo de Phillipp perdeu todo o firmamento. Sentado em sua cadeira ele não conseguiu pensar em nada. Talvez estivesse pensando. Pensando em como contaria para Léia que tanto ela quanto toda a família dela não ia estar viva para ver o réveillon de 2029.

— Ok, meu garoto. Acho que já conversamos muito pra uma noite. Fazemos o seguinte. Este é o endereço de meu escritório e o meu telefone. – disse entregando um cartão. – Caso estiver interessado, você sabe onde me encontrar.

Buscando o cartão e olhando para ele como se fosse um pedaço de ouro, Phillipp ainda estava sem voz pra dizer qualquer coisa. Sem perceber, o meio-dragão estava sozinho novamente em sua mesa e apenas sua long neck fazia-lhe companhia.

Era muito difícil para Phillipp pensar numa coisa dessas. Primeiro ele precisava conversar com Evan. Mas ainda sim não estava certo ele se quer cogitar uma coisa dessas. Assassinato?! “Oh meu deus!”, falaria Keira. “Você está louco?!?”, gritaria Matthew. E com certeza eles estariam certos. Phillipp poderia ser qualquer coisa: um jovem imaturo, um péssimo marido, ou até mesmo um péssimo amigo, mas nunca, nunca, um assassino.

Definitivamente, ele precisava conversar com Evan.

 

*****

 

No dia seguinte, perto do pôr-do-sol, Phillipp aguardava a chegada de Evan num dos campos de plantações desérticos que havia pelas estradas da Inglaterra. Vindo pelos céus como um enorme corvo agourento, Evan pousou bem diante de Phillipp atendendo ao seu chamado. Assim que suas enormes asas negras foram devidamente guardadas em sua metamorfose parcial, o Meio-Dragão se pronunciou.

— Você me chamou e aqui estou.

— Você não tem o menor respeito com as leis do Arcanorum sobre o segredo do sobrenatural.

— Primeiro, nós estamos num campo no meio do nada. E segundo, as leis são pros magos e não para nós.

— Esqueça. Tenho um assunto pra tratar contigo. É sobre o que aquilo que os Grandes Deuses falaram para nós no Templo. Eu acho que tenho uma solução.

— Você já está sabendo?!?

— O que? Como assim?

— Estou falando do meio-dragão chinês. Você já está sabendo que ele conseguiu solucionar o problema?

— Meu deus! Então é verdade?!?

— Eu não sei. Depois que você foi embora eu conversei com o ancião Balasar sobre o problema e ele começou a nos ajudar em segredo. Perto do fim da semana o ancião me conta que conversou com o último meio-dragão oriental através do Plano Astral e o tal de Sin-Fang confirmou que havia encontrado a solução.

— E ai?

— “E ai” nada! O maldito disse que não se importava conosco e que não iria compartilhar a informação.

— Filho da…

— Foi o que eu disse também.

— Que merda! – exclamou Phillipp se afastando de Evan e andando em círculos.

— Qual o problema, Phill?

— Vou te explicar. Ontem à noite um mago da Ordem dos Mandarins veio falar comigo.

— Sim…

— Ele disse que sabia do por que do meu estresse atual e citou imediatamente o nosso problema com o Dia Prometido.

— E…

— E, que aquele filho da puta dos olhos puxados disse que, em sua sociedade secreta, um dos Grão-Mestres é ninguém menos que esse tal de Sin-Fang. E, que ele sabe como nos ajudar. Porém, há um preço.

— Que preço?! É ouro? Dinheiro? Poder?

— Assassinato.

— O que?!

— Sim, foi exatamente assim que fiquei!

— Só isso?!?

Sentindo como se tivesse levado um choque paradoxal, Phillipp precisou escutar novamente as palavras de seu amigo:

— O que?

— É só isso que esse humano quer? Que você mate alguém pra ele?

— E você acha isso “pouco”?!? – questionou boquiaberto.

— Phill, estamos falando de uma raça inteira prestes a ser dizimada! Não me venha com esse seu “toque de humanidade” agora! Se ele quer isso como pagamento, então faça!

— Eu não vou matar ninguém!

— Phillipp, não estamos aqui discutindo sobre moralidade, ou o que é certo ou errado, estamos falando de vidas aqui!

— Sim, eu SEI disso! E exatamente por causa DISSO que eu não vou matar NINGUÉM!!

Você prefere ver toda sua família e amigos morrerem só por que não quer sujar suas PRECIOSAS mãos de sangue?!?

— NÃO É ASSIM QUE FUNCIONAM AS COISAS, EVAN! ESTAMOS FALANDO DE ASSASSINATO!! DE SALVAR UMA VIDA EM DETRIMENTO DE OUTRA!!!

UMA VIDA NÃO, PHILLIPP!!! CENTENAS DE VIDAS, INCLUSIVE A DE SUA MULHER!!!

Agora Phillipp ficou desarmado. Ele até conseguiria discutir com Evan à altura se caso não tivesse envolvido a Léia no meio. Seu coração faltou parar naquele momento. Ele não conseguia pensar. Ele não conseguia respirar. O que estava acontecendo com ele? Ele se pegou por um segundo pensando em aceitar a proposta de Nin Soo. “Não, não… isso está errado!!”, como pode um agente iluminado como ele que jurou Servir a Humanidade poderia pensar numa coisa dessas?!?

Mas, independente do conflito interno que ele estivesse, Evan não teve paciência em esperar. Tomando sua forma “Kingu”, uma criatura bestial mais de dois metros de altura, cabeça de dragão, corpo humanóide coberto de escamas negras, e asas e cauda de dragão, Evan agarrou Phillipp pelo colarinho e vociferou:

Phillipp… Se você não fizer isso, eu mesmo farei!!! Não estou disposto à morrer junto com minha família por causa de uma garoto mimado como VOCÊ!

Phillipp sentiu seu sangue ferver nas veias. Ele estava disposto a também se transformar em Kingu, entretanto seu auto-controle foi maior e ao invés de ter um confronto sem motivo com Evan, preferiu dá-lhe uma descarga elétrica para afastar os dois.

— EVAN!!! ESCUTE-ME!!! Eu não vou fazer nada precipitadamente! Me dê uns dias pra pensar. Eu vou considerar os fatos.

Voltando a sua forma humanóide, Evan pareceu estar mais calmo:

— E você ainda quer pensar?

— Sim, Evan. Fazemos assim. Eu irei conversar com Nin Soo. Cara, você não conhece o tipo de pessoa que é Nin Soo Yan! Então, deixe-me conversar com ele primeiro. Se realmente eu não tiver disposto… eu… eu falo contigo. ‘Tá bom assim?

— Estarei aguardando. – disse Evan rangendo os dentes.

Sem qualquer tipo de despedidas, o meio-dragão negro ergueu suas asas e foi embora sumindo entre as nuvens tão rápido quanto o pensamento.

Sozinho no meio daquela plantação, Phillipp ficou observando Evan desaparecer enquanto sua vida tomava um rumo completamente caótico. Primeiro fica sabendo que toda sua raça iria morrer. Depois sua esposa o abandona. E agora isso. Sem nada pra fazer, ele resolve buscar seu celular e ligar para o número gravado no cartão que Nin Soo Yan lhe dera.

Phillipp não sabia, mas neste exato momento ele estava mudando para sempre o seu destino e de toda uma nação.

 

*****

 [Soundtrack: Your Decision – Alice in Chains]

 

Quinta-feira, 30 de Março de 2028. 02h10min.

Mansell Street.

Londres - Inglaterra.

 

— O que quer? – gemeu Vincent. — Darei tudo que quiser, mas, por favor, dê-me a poção. Eu estou… morrendo…

— Esse é o propósito.

— !!!

Ofegante e com o peito sendo comprimido de medo, Vincent arregalou os olhos rubros e começou a pensar desesperadamente numa forma de conseguir contornar a situação. Buscando forças no âmago de seus poderes mágicos o velho mago levantou-se inusitadamente e de forma sobrenatural como se tivesse voado para cima do invasor.

Mas este fora mais rápido. E num piscar de olhos deu fim a vida de Vincent com um tiro entre olhos.

 

Acabou.

 

Todo o sofrimento de Vincent havia ficado para trás. Mas esta não foi a forma que ele quis que terminasse. Em poucos segundos, seu corpo começou a se reduzir a cinzas, juntamente com suas roupas e pertences. Juntamente com a bala, única evidência clara de assassinato. Friamente, o assassino guardou a arma do crime dentro da calça e em seguida se retirou do aposento. Antes de sair, virou-se para as cinzas de Vincent:

 

— Era eu ou você, Diácono. – abaixando a cabeça chorou. — Mas eu escolhi por ela.

 

Saindo silenciosamente, Phillipp terminou ali o seu trabalho.

 

 

 

To be continued…