Episódio não revisado

 

Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio LVIII

A História por trás da História – Parte 2

 

 

 

 

Oito meses atrás…

 

Quinta-Feira, 30 de Março de 2028. 04h00min.

Paradísia Night Club.

Londres – Inglaterra.

 

— Você fez o que?!?

Sentado desesperançado numa das cadeiras do escritório gerencial da boate Paradísia, Phillipp escutava seu melhor amigo e dono da boate, Danyael, gritar com ele:

— Eu não… eu não consigo repetir…

— Eu não acredito, Phillipp!!

— Cara, eu não tive escolha, ‘tá legal?!?

— Não teve escolha?! Phillipp você é o Portador da Pedra Primordial, uma das mais poderosas Light Arms da Cidade de Prata, como você pode dizer que não teve escolha?!?

— E você queria que eu fizesse o que com a Pedra Primordial?!?

— Sei lá! Qualquer coisa. Podia fazer o Nin Soo falar.

— Ele não sabe…

— Ele O QUÊ???

— A questão não é ele. E sim o Grão-Mestre dele lá na China. O Meio-Dragão Sin-Fang.

— Então que fosse lá para China tratar o assunto com ele!

— O que você acha que eu estava fazendo nesses quatro meses, Danyael?? Brincando?!? Eu tentei tudo, ‘tá legal! Imaginei que haveria alguma coisa nas antigas escrituras da Aldeia, fui no Arcanorum, fui na China tentar conversar com Sin-Fang, eu fui até pra Cidade de Prata pedir ajuda aos seus amigos Arcanjos!!! Ninguém sabia como me ajudar. Era algo inesperado, pois a ultima vez que talvez algo parecido tenha acontecido foi a Bilhões de anos atrás, muito antes de se quer Lúcifer se rebelar contra os anjos!!!

— Mas… e a Pedra?!?

— Ela não tem todos esses “poderes” que você imagina, Danyael. A Pedra Primordial é mais sutil. Ela não é uma lâmpada mágica que realiza meus desejos. Se bem que…

— O que? Fale!

— Tem um jeito sim de evitar que toda a minha família e amigos morram no Dia Prometido.

— Tem? Como? – questionou Danyael sentando-se ao lado de Phillipp.

— Transformando-nos em simples humanos. Eu poderia usar o poder da Pedra Primordial pra transmutar nossos corpos sobrenaturais em corpos humanos normais.

— Mas isso…

— Eu não posso fazer isso. – disse Phillipp já com os olhos marejados. – Muitos de meu povo prefeririam morrer a ter que se tornarem “meros” humanos. Somos Dragões, somos orgulhosos, acho que até a Léia não ia querer isso.

— Falando nela… e ai? Encontrou ela?

— Sim.

— E ai?

— E ai nada. Ela fez exatamente aquilo que disse que ia fazer. Transferiu o curso dela pra Cambrigde, está morando lá numa república estudantil, e parece que conseguiu um emprego como garçonete num pub da cidade.

— Mas você não falou com ela?

— Não. Não tive coragem. Cara… ela deve me odiar. O pior que muita coisa que ela disse na carta eu realmente tinha dito antes.

— As mulheres adoram nos jogar na cara coisa que dizemos de cabeça-quente.

— Pior que não foi “de cabeça-quente”. As coisas que eu havia dito foram logo no inicio de nosso casamento, pouco depois daquela invasão em Oxford.

— Mas isso foi a Cinco Anos atrás! Ela é tão rancorosa assim?!

— Não é rancor. É memória. Nós Meio-Dragões temos memória eidética. Somos capazes de se lembrar de coisas até a nossa tenra infância. E pros meio-dragões do sexo feminino a situação é ainda pior! A Léia tem praticamente o Google dentro do cérebro!

— Nossa…

Um silêncio se instalou entre eles enquanto os dois pensavam na situação. Foi nesse momento que Danyael pensou mais um pouco e percebeu a gravidade da situação:

— Vincent Vaugh?

— Hã?

— Você matou Vincent Vaugh?!

— Vamos voltar pra isso?

— Cara… você não tem a menor idéia do que fez, não é??

— Mais ou menos… sei que o cara era importante… Diácono e tal, não é?!

— Vincent Vaugh não apenas era o Diácono do Arcanorum como também ele era Grão-Mestre de uma das maiores e mais poderosas sociedades secretas do país: a Golden Dawn. Não apenas 70% dos magos e feiticeiros do Arcanorum fazem parte desta sociedade, como também milhares de pessoas mundanas também fazem parte dela em seus Círculos mais externos. Nelas você pode incluir banqueiros, parlamentares, diplomatas, médicos, policiais, professores, juízes, advogados, policiais, estudantes… enfim! Quase todas as esferas da sociedade podem ser encontradas dentro da Golden Dawn!

— Ok, Danyael. Eu já disse. Era Ele ou a minha esposa e família!

— Mas não se pode fazer esse tipo de comparação, homem! Salvar uma vida em detrimento de outra?!

— Eu sei!!! Foi exatamente isso que eu disse para o meu irmão Evan, mas ele me pressionou: ou eu aceitava ou ele mesmo fazia o serviço.

— Certo, sem querer tomar partido, mas por que você não deixou que ele fizesse isso?!

— Você está louco?! Você não conhece o Evan! Ele é do tipo de cara que não tem um pingo de discernimento sobre o que é certo ou errado de se fazer com relações externas. É o típico Draconiano: Primeiro a minha sobrevivência, o resto que se vire! Se eu deixasse que ele fizesse isso, ele não ia conseguir nada a não ser uma guerra do Arcanorum contra a nossa raça.

— E você acha que isso não poderá acontecer tendo você assumido a responsabilidade?

— Eu estou tentando agir da forma mais secreta possível. Antes mesmo de entrar na casa da vítima eu me precavi com todos os tipos de defesas que pude imaginar. A principal delas, é claro, a Máscara de Jack.

— O que?

— É um artefato mágico antigo. Foi usado pelo próprio Jack, Estripador. É uma mascara que esconde sua identidade de toda ou qualquer magia, incluindo a Magia do Tempo de Vislumbrar o Passado.

— É uma das magias preferidas da Polícia do Arcanorum. Mas você tem certeza que isso funcionará?

— 99% de certeza.

— Cara… - Danyael se afastou e com a mão na cabeça fica meditando sobre os fatos. Ele foi até sua mesa onde, sobre ela, estava a sua Light Sword. – Afinal de contas… por que veio até aqui? Apenas pra se confessar para mim? Eu não posso fazer nada por você. Mesmo! Eu tenho uma ligação muito íntima com a Cabala de Anjos de Londres e por isso não posso tomar partido de nada que acontece no mundo sobrenatural.

— Eu não sei, Danyael… Pra falar a verdade eu não tinha pra onde ir. Estou vagando pela cidade há horas sem rumo com minhas mãos sujas de sangue. E ainda tem um monte de coisa pra fazer hoje…

— O que, por exemplo?

— Hoje é a final da corrida X-treme e eu preciso ganhar essa corrida.

— Por quê?

— A grana. Eu preciso mandar a grana pra Léia. Ela tá precisando. Além disso, quero quitar todas as minhas dívidas.

— Orgulho draconiano?

— Sim. Pode-se dizer que sim.

— Eu entendo. Mas sinceramente eu não sei como lhe ajudar, meu amigo. Acho que agora você está sozinho nessa empreitada.

Os dois se entreolharam por alguns instantes e de repente Danyael cruzou o olhar de Phillipp para a Light Sword e depois voltou para ele:

— Phill… só uma pergunta… Como você matou o Vincent?

— Com uma arma.

— Que arma, se o Vincent, assim como muitos Arquimagos, usam rotinas mágicas que os protege contra armas de fogo?

Sendo pego de surpresa e ficando bastante envergonhado, Phillipp desviou o olhar evitando encarar o amigo.

— EU NÃO ACREDITO!!! Você usou a Pedra Primordial?!?

— Eu não tive escolha…

— Você USOU a Pedra Primordial?!? – questionou Danyael novamente, agora buscando o amigo pelo colarinho – RESPONDE, PHILL!!!

— Ss-sim…

Soltado-o com força Danyael estava incrédulo:

— Eu não acredito que você fez isso!!! Você é um dos Escolhidos da Cidade de Prata… Um daqueles que irá ajudar a humanidade a passar pelos desafios do novo milênio… e você usa o maior símbolo de sua responsabilidade, a ferramenta que foi forjada pelas mãos de Deus pra cometer um ASSASSINATO?!?

— Dany…

— Porra de “Dany” coisa nenhuma!!! Você passou dos limites, Phill!!!

— Cara, estamos falando sobre a sobrevivência de toda a minha raça!

— Mas você não pode fazer isso!!! É anti-ético e uma blasfêmia!

— Blasfêmia?!? Então me responde, Sr. Perfeito. O que você faria se soubesse que daqui a um ano todos os demônios e descendentes de demônios fossem morrer e sua Esposa está nesse barco? MELHOR! O QUE VOCÊ FARIA SE SOUBESSE QUE TODOS OS ANJOS TAMBÉM FOSSE MORRER DAQUI A UM ANO?!? O QUE VOCÊ FARIA???

— Isso não justifica…

— NÃO JUSTIFICA?!? EU VOU LHE DIZER O QUE JUSTIFICA! ESTOU LITERALMENTE HÁ QUATRO MESES TENTANDO ENCONTRAR ALTERNATIVAS PRA EVITAR ISSO. JÁ VIAJEI PRA CHINA DIVERSAS VEZES. JÁ ATÉ USEI O PODER DA PEDRA PRIMORDIAL PRA IR ATÉ O PASSADO MAIS LONGÍNQUO QUANDO A RODA DOS MUNDOS GIROU PELA ULTIMA VEZ. E SABE QUAL FOI O RESULTADO DISSO TUDO??? NADA!!!

Se afastando pra se recompor a explosão de raiva, Phillipp precisou tomar um copo d’água pra se acalmar. Novamente ele retoma a conversa desta vez em baixo tom:

— Nada, Danyael. Nada conseguia me mostrar uma saída pra sobrevivência de minha raça. E sabe o que é pior? Nin Soo Yan não está mentindo. O Meio-Dragão chinês realmente conseguiu se livrar dessa maldição. Conversei com o Deus Dragão Oriental pessoalmente e ele afirmou que seu filho realmente havia encontrado uma solução. Entretanto até ele não sabia que tipo de solução era essa.

— Com certeza foi algo mágico.

— E você ainda dúvida? É claro que foi um ritual que ele fez. Só que eu não tenho tempo sobrando pra buscar fórmulas de rituais agora. Não posso me dar ao luxo de tentar fazer Pepsi enquanto alguém me oferece a receita da Coca-Cola.

— Eu entendo…

Já mais calmo, Danyael deu a volta pela mesa e se sentou em sua poltrona. Nesse momento ele ficou pensando em várias coisas e uma delas era a o fato do Phillipp ter usado a Pedra Primordial.

— Você não podia ter usado a Pedra…

— Danyael…

— Calma. Deixe-me terminar. A Pedra realmente foi uma ótima alternativa. Ela é uma das armas mais poderosas do universo, pode tomar a forma que você desejar e ainda por cima quase não deixará rastros…

— Eu sei…

— Mas eu disse “quase”. Você se esqueceu de um detalhe, meu amigo. A ressonância do poder da Pedra quando é utilizada!

— Não Danyael. É impossível perceber isso! Os únicos que poderiam descobrir seriam os outros portadores, e aqui em Londres só tem você!

— Não, meu caro. Você está se esquecendo de mais uma pessoa.

— Quem?

— Sebastian.

— Sebastian?! O Portador da Dark Sword?

— Ele tem uma arma que é literalmente a sombra da minha. Os mesmos poderes e fraquezas. Isso significa que, assim que ele sair da prisão ele poderá testemunhar contra você.

— Sair da prisão?! Como assim???

— Meu tio me avisou ontem que “mexeu uns pauzinhos” pra tirar o Sebastian da prisão. Parece que ele vai receber a liberdade hoje do assassinato que cometeu 5 anos atrás em Oxford.

— Caramba!!! Eu não tinha pensando nisso!!!

— Tenha calma. Estou pensando nisso tudo. Aliás, to pensando em mais problemas ainda.

— Como assim?

— Tudo bem que, usando o poder da Light Sword agora pra nos dar privacidade TOTAL em nossa conversa, onde nem os Serafins do Castelo de Júpiter sabem o que estamos conversando, não posso evitar de sair daqui ciente dos fatos.

— Sim, você sabe… Você pretende me entregar?!?

— Não, homem. Se acalma!

— Então…?

— Então que, mesmo sendo o Portador da Light Sword você bem sabe que sou um cara normal como qualquer outro. Então, qualquer arcanjo ou arquimago que quiser ler a minha mente, se não estiver ciente, eu não terei como evitar.

— E ai…?

— E ai que eu terei que apagar a minha mente aqui. É certeza que o meu tio Eriol irá ler minha mente. Ele faz isso quase que inconsciente, desde que eu era moleque! E é obvio que eu não tenho “poderes” pra competir com ele.

— Então… mesmo te contando tudo…

— Sim, eu não posso te ajudar mesmo! Por que assim eu não estaria te ajudando e sim te prejudicando.

— Entendo. E com relação ao Sebastian? O que eu faço? Eu mal conheço ele! Num dá pra chegar pra ele e pedir que ele não me dedurar.

— Na verdade não vamos fazer nada por enquanto. Estou achando que o Sebastian não se tocou de nada esta madrugada. Se nem eu percebi o poder da Pedra sendo usada, que dirá ele que é mais tapado que uma porta.

— Mesmo assim… é muito arriscado. Não seria uma boa eu ir vê-lo?

— Pra que?

— Sei lá! De repente pra poder descobrir o que ele sabe.

— É… pode ser. Saindo da prisão provavelmente ele não terá pra onde ir a não ser a casa dos pais.

— Vou atrás pra saber onde fica.

— E tem mais uma coisa. Acho que eu tenho que ficar com sua Pedra.

— Como assim?!?

— Pensa comigo: a verdade é, tirando eu e você, ninguém em Londres sabe que existe mais de dois Escolhidos na cidade. Eles me conhecem por causa do que aconteceu em Oxford, mas você…

— Entendo. Mas o que isso tem haver?

— Tem haver que to me oferecendo em lhe dar cobertura, meu amigo. Ok, agora que estamos aqui discutindo isso não posso negar que virei cúmplice também!

— Mas você irá apagar sua memória! Como você vai esconder a Pedra se nem sabe por que está escondendo ela?

— Se esqueceu do poder de “Comando Mental”? Apagarei minha mente, entretanto deixarei uma mensagem subliminar pra que eu esconda a pedra num lugar seguro à prova de curiosos.

— E você tem um lugar assim?

— Mais ou menos. Lá no meu apartamento tem um assoalho solto no qual eu escondo meus pornôs. Sabe como é… Lilith é muito ciumenta e odeia que eu veja pornô. Daí eu escondo lá.

— Ok. Você quer esconder a minha Pedra Primordial junto com suas revistas de sacanagem?

— Bom… pensei em usar a Light Sword também pra criar umas runas de proteção, mas se você se incomoda…

— Tudo bem. Faz como quiser. – e Phillipp colocou a pedra sobre a mesa. Danyael logo buscou e a guardou dentro de uma caixa de chumbo que tinha em uma gaveta. – Eu só não entendo que diferença isso irá fazer.

— Eu tenho provas de que não saí da Paradísia a madrugada toda. Provas materiais e sobrenaturais. Além das câmeras de vigilância e dos meus funcionários, tem também o poder de meu santuário ativado todo vez que estou na Paradísia.

— A boate é seu santuário?

— É claro! Até parece que vou deixar alguma coisa acontecer aqui dentro sem minha ciência. É uma prova mais do que concreta pra qualquer investigador de que eu não saí daqui. Então… mesmo que no futuro me acusem de ter matado o Vincent, será uma acusação sem fundamentos.

— E com a Pedra Primordial contigo…

— Ninguém vai suspeitar que tenho comigo duas Light Arms. Nem o próprio Sebastian. Mesmo se ele tentar me rastrear vai sentir uma única ressonância sem saber distinguir a Espada da Pedra. Certamente achará que é só a Espada.

— Entendi. Danyael, eu…

— Não precisa dizer nada. Somos amigos, não somos? Aliás, somos mais do que isso. Somos aliados de guerra. É pra isso que sobrevivemos: Pra proteger um ao outro. – Danyael se calou e em seguida se levantou indo até Phillipp. Nesse momento os olhos de Phillipp já estavam lavados em lágrimas. Com a mão direita de Danyael sobre seu ombro, Phillipp conseguiu tirar forças pra se recompor:

— Eu vou indo nessa.

— Certo.

— Danyael, eu…

— Tudo bem. Só vou logo adiantando, meu amigo. No momento em que você passar por aquela porta, você estará novamente sozinho. Eu apagarei as minhas memórias e nunca mais vou me lembrar desta nossa conversa.

— Certo. Tudo bem. Eu acho que consigo me virar sozinho.

— Eu espero que sim.

— Obrigado.

— Não há de que.

 

*****

 

New North Road - Londres. 16h10min.

 

Phillipp passou o resto da manhã trancado em seu apartamento pensando em tudo que havia acontecido nesta madrugada. As palavras de Danyael ainda ecoavam em sua mente como se o próprio estivesse ao seu lado todo o tempo. Ainda por cima ele teve que tirar umas duas horas livres pra poder revisar seu carro pra última corrida definitiva do ano. Apesar de tudo, sua vida não podia parar.

Seus amigos ainda não desconfiaram de nada. Se bem que para Flávius perceber alguma coisa que não seja relacionado a ele tem que ser algo bem aberto e gritante. Seu medo mesmo eram com seus amigos da Sociedade de Prometeu. Já fazia uns dias que eles não se reuniam e certamente nos próximos dias haveria uma reunião pra por em pauta o assassinato de Vincent Vaugh.

“Vou ter que ganhar o Oscar duas vezes pra eles não desconfiarem, principalmente Keira.”, pensou preocupado.

Mas agora não era hora de pensar nisso. É sofrer por antecedência. Agora era hora de fazer aquilo que Danyael havia sugerido para ele: conversar com o Portador da Dark Sword. Sinceramente, Phillipp não tinha a menor idéia do que conversar com Sebastian. Eles mal se conheciam. Nos tempos da faculdade eles não tiveram se quer a oportunidade de se conhecer. No máximo, se verem na pensão estudantil de vez enquanto. Mas ele precisava fazer isso. Danyael estava certo: de todos nesta cidade, o único que poderia por tudo a perder era Sebastian. Talvez uma conversa franca ajudasse.

A casa aonde possivelmente Sebastian viria depois de sair da prisão ficava em um bairro residencial de Londres. Um conjunto residencial, rua pouco movimentada, crianças chegando da escola, lugar ideal para uma família buscar uma lar para morar. De acordo com os arquivos que Phillipp pesquisou, antes de ir para Oxford, e depois pra prisão, Sebastian morava com os pais nesta residência. Entretanto, justamente por causa do que aconteceu naquele ano, os pais dele tiveram que ser remanejados por proteção do Arcanorum pra evitar que algum grupo inimigo quisesse fazer algum mal à família do Portador da Dark Sword. Phillipp concordou com a atitude do Arcanorum. Certamente, ao longo de sua vida, Sebastian iria coletar um numero significativo de inimigos, e isso certamente iria por em perigo seus pais e irmãos.

Olhando ao redor, Phillipp certificou de que ninguém o estava vendo. Sua certeza disso beirava o absoluto, graças a um aparelho dos Iluminados que o tornava imperceptível para os mundanos. Um campo de energia cobria todo seu corpo e assim, ele ficava virtualmente invisível ao campo sensorial de qualquer pessoa. Aproximando-se da casa, ele percebeu pelos vasos de plantas que a muito ninguém vinha ao lugar. Certamente a porta estaria trancada. Utilizando-se de seus poderes elétricos, Phillipp agachou levemente e tocou o chão com os dedos. Sentindo a força do campo magnético da Terra ele se aproveitou dessa energia pra desaparecer completamente no solo e reaparecer alguns metros à frente, já dentro da casa. Um teleporte simples utilizando-se apenas do fluxo energético do planeta.

A casa estava vazia. Era evidente que a anos ninguém vinha aqui. Sobre os móveis, toalhas brancas impediam que a poeira os degradasse. Phillipp caminhou pela casa. Passando pela cozinha ele seguiu direto para os quartos. Eram três dormitórios. Uma suíte e dois comuns. No primeiro havia uma beliche. Uma escrivaninha intocada  e vários pôsteres de bandas pela parede. Certamente aquele era o quarto de Sebastian.

O seguinte era um quarto comum de solteiro. Pela penteadeira Phillipp julgou que fosse o quarto da irmã de Sebastian. Entretanto havia algo de muito estranho naquele quarto. Phillipp não se sentia bem em estar lá. O lugar era completamente escuro com grossas cortinas pretas que permitiam que apenas um singelo e solitário feixe de luz adentrasse. Era o cômodo mais frio da casa e sem dúvida o mais estranho. Phillipp seguiu até a penteadeira. Abriu uma gaveta. E outra. Não encontrou nada. Desistindo ele se virou decidido em aguardar na sala.

Um susto rapidamente o tirou de órbita. No canto do quarto, onde terminava o feixe de luz do sol, uma horrenda imagem de demônios contorcia-se diante da luz. Por um momento Phillipp pensou em descarregar uma rajada elétrica sobre a imagem até percebeu, após o susto, que não passava de uma simples estátua. Uma horrorosa estátua.

Curioso, Phillipp entendeu que toda aquela energia sombria era emanada daquela estátua. Talvez não fosse um objeto comum. Sem tocar nela, Phillipp passou a mão sobre ela tentando sentir a energia que emanava dela. Estava claro. Aquilo não era uma estátua comum. Era um Fetiche. Um recipiente de algum tipo de espírito. Um espírito devastador, destrutivo e devorador. Phillipp sentiu uma forte energia entrópica rodeando o lugar. Certamente havia algo de estranho na família de Sebastian.

Levantado-se, Phillipp resolveu enfim voltar pra sala. Entretanto algo incomodou sua mão direita. Estava coçando. Deveria ser algum tipo de resquício de ressonância que impregnou sua mão quando ele analisou a estátua. Mas não havia com o que se preocupar. Era só a mão em água corrente que logo isso sairia. Na cozinha, Phillipp abriu a torneira.

Alguns segundos se passaram até que, no exato instante em que fechou a torneira, ele escutou um barulho vindo da porta de entrada. Aproximando-se lentamente, ele verificou primeiro de quem se tratava. Já era noite. As luzes da vizinhança pouco iluminavam o local. Mas era claro que não se tratava de Sebastian. Pior. Quem quer que fosse, estava intencionado a arrombar a porta.

Phillipp se posicionou atrás da porta com sua arma em punho. A porta foi aberta com barulho estranho, como se o trinco tivesse sido girado de uma só vez. O invasor foi entrando. Pegando-o desprevenido, Phillipp o nocauteou com uma coronhada em sua nuca.

 

*****

 

[Flashback: Episódio 2]

 

A dor estava latejante. A pancada havia sido dada com precisão profissional, levando-o a desmaiar em questão de segundos. Nick queria entender o porque de ter sido atacado. Abrindo os olhos cautelosamente, ele sentiu medo. Um medo que ele já conhecia de longa data e que como antes ele não tinha controle sobre a situação.

Nick tinha medo de morrer.

— Acordou?

O homem que possivelmente lhe atacou engatilhou uma pistola.

— Quem é você?

— Ninguém que você precisa saber.

Nick era repórter. Sua profissão de certa forma exigia que ele fosse uma pessoa bastante sociável, que lembrasse de nomes e rostos com clareza. E esse dom agora estava lhe alarmando. Nick já escutara a voz desse homem…

— Irá me matar?

— Infelizmente. Era pra ser um serviço sem mortes desnecessárias, no entanto…

— Significa que em seu serviço existem mortes “necessárias”?

— Ai você já está querendo saber demais.

Agora era certeza! Ele já escutara a voz desse homem. E ele se lembrava perfeitamente onde e quando foi: Oxford, nos tempos da faculdade.

No entanto ele não recordava o principal: Quem era esse cara?

— Desculpe, chapa. Ossos do ofício.

A arma fora apontada.

Seu dedo estava pronto para atirar.

Atirar agora.

Nick levantou a cabeça e olhou diretamente para os olhos de seu oponente: Não deixaria ser morto tão facilmente!

E seus olhos brilharam em tons de espectros roxos alaranjados e em seguida uma força sobrenatural socou o agressor tão violentamente que este foi parar do outro lado da sala, perto da janela oeste.

— Maldito! Não contava que você fosse sobrenatural!

“Droga” – Pensou Nick. – “Ele usa um gorro!”

Num momento de distração, Nick foi atingindo em cheio por uma rajada elétrica vinda diretamente dos dedos do inimigo. Essa Nick não resistiu. Seu grito de agonia ecoou praticamente por toda a rua e numa eternidade de três segundos o jovem repórter estava no chão virtualmente morto, ferido gravemente.

Vendo que a situação estava sobre controle, o assassino se recompôs do ataque anterior e em seguida foi caminhando até o jovem desfalecido no chão lhe apontando novamente sua arma. Seria o ponto final nesse equivoco todo.

Usando talvez sua última grama de Força de Vontade, Nick Polansk ignorou toda a sua dor e em seguida disparou novamente sua Projeção de Força Psíquica fazendo seu inimigo desta vez voar através da janela e cair no gramado ao lado da casa de Sebastian.

Esta foi talvez sua última ação antes de cair novamente desacordado.

 

*****

 

Não era pra ter sido assim. Mas Phillipp estava desesperado. Ele sabia quem era o rapaz. Nick Polansk, jornalista e amigo de Sebastian. Era apenas pra ele nocauteá-lo e depois apagar sua mente com sua arma. Certo, sua arma podia parecer que iria matá-lo, mas sem dúvida não era essa a intenção. Uma arma Iluminada podia fazer muito mais coisas do que simplesmente atirar pra matar. Como não tinha mais como apagar da mente dele o encontro dos dois, o máximo que ele podia fazer é apagar os traços de sua identidade.

Phillipp se machucou ao ser rebatido duas vezes pela telecinésia de Nick. Entretanto, ele estava absurdamente preocupado com o garoto. Teria ele exagerado ao lhe dar um choque? Era apenas pra fazê-lo ficar desacordado, mas parece que talvez ele tenha passado do limite.

Voltando até a casa, Phillipp verifica se Nick está vivo. Confirmado. Porém seus sinais vitais estavam baixos. Phillipp buscou então em um de seus bolsos um pequeno estojo onde ele guardava diversos tipos de pílulas. Uma delas, de cor verde, ajudaria o jovem rapaz a agüentar até a ambulância chegar.

Levantando-se, Phillipp percebeu que deveria ir embora. Além de estar atrasado pra corrida, logo todo o lugar estaria rodeado de paramédicos, policiais e curiosos. Entretanto, ele pensou seriamente no por que Nick estaria ali. Como membro da Sociedade de Prometeu, Phillipp estava seguindo os passos de Nick e sua noiva Tawnee depois que esta havia se metido numa encrenca na Jupiter’s Corp.

“Enfim… não tem mais por que eu ficar aqui.”, pensou. — Desculpe pelo mal-entendido, Nick. – disse, em seguida se retirando da casa.

 

*****

 

[Flashback: Episódio 2]

 

Lentamente, um Nissan azul foi diminuindo a velocidade e parando no encostamento da auto-estrada. Levando a mão até as têmporas, Phillipp O’Connor tentou acalmar a mente perturbada antes de seguir em frente. Precisava estar calmo,sua vida estaria em risco se tiver preocupado com outros assuntos. Era muito importante para Phillipp chegar até o local combinado preparado, pois esta noite será uma das mais importantes de sua vida.

O jovem decendente de Dragões voltou a ligar o carro, mas antes de acelerar, baixou o para-sol e observou a foto de uma pessoa que a muito lhe fazia sofrer:

“Léia…”

Seu pensamento foi longe agora, no momento exato em que eles se casaram no Vale do Dente de Dragão há cinco anos atrás. Talvez aquele tenha sido um dos momentos mais felizes na vida de Phillipp. Talvez tenha sido um dos mais tristes também.

Eles haviam vivido dias bons, para não dizer maravilhosos juntos, no entanto também eram dias frios e distantes. Os dois gostavam muito um do outro. Talvez até se amassem de verdade. O problema era se esse amor era um amor de casal.

Criados desde pequenos juntos, após se casarem talvez tenham percebido que o amor entre eles não passava de um amor fraternal como entre irmãos.

E talvez era isso que mais doía em Phillipp…

Mas agora era hora de esquecer o passado e seguir em frente, pois estavam lhe esperando.

A corrida já estava começando.

 

*****

 

Horas depois, após toda a festa de congratulação e agradecimentos formais, Phillipp encontrava-se sozinho, no terraço do prédio observando luminosa cidade logo abaixo. Levando a mão ao bolso o jovem buscou o cheque de um milhão de euros que havia recebido e ficou mirando-o tentando buscar razões e motivos para aquilo “valer” alguma coisa.

“Leia…”

Esse nome não saía de sua cabeça.

— Pra onde você foi, garota? – disse com a voz deprimente enquanto mergulhava suas lágrimas no horizonte infinito de sua melancolia.

— Pra um milionário, você não parece tão feliz…

— Hm? Ah! Oi, Michelle.

— Algum problema, moço? – perguntou a moça escorando-se no para-peito ao lado de Phillipp.

— Pensando na vida.

— Sei…

— …

— Olha, não estou querendo me meter, mas… já faz uns meses que você anda meio… “estranho”. Desculpe, eu juro que não estou querendo xeretar a sua vida, mas é difícil não notar isso estando às vezes no mesmo apartamento.

— O Flávius falou alguma coisa pra você?

— O Flávius?!? Há! Mais fácil uma bomba atômica cair em Londres do que ele perceber alguma coisa! Não, meu amigo. Fui eu mesma que notei isso.

— Bom… Eu estou com problemas sim.

— Quer desabafar?

— Pode ser, mas… vou logo adiantando que não há nada que se possa fazer.

— O que é?

— É a Léia. Nós discutimos.

— Mas… discutiram sério?

— Faz quase 5 meses que não nos falamos.

— Nossa! Mas você já a procurou? Já tentou conversar?

— Sim. E não. Procurei, encontrei ela, mas não conversamos.

— Por quê?!

— Por que eu não tive coragem de falar com ela.

— Mas faz cinco meses!! Fale com ela, Phill!!

— Não dá mais. Ela sumiu de vez agora.

— Como assim?

— Acho que ela descobriu que eu sabia onde ela estava e se mudou novamente. Agora não tenho a menor idéia de onde ela está.

— Mas não deve ser tão difícil assim achá-la!

— Não? Ela é um Meio-Dragão assim como eu, Michelle. Se ela quiser se deslocar pro outro lado do mundo é só “bater as asas”.

— E vocês voam?!?

— Hm? Sim, sim. Voamos. Mas é só se nos transformamos em “meio-dragões” no sentido literal da palavra.

— Nossa! Deve ser… fascinante!

— É… Enfim. Agora já era, Michelle. Acho que a perdi pra sempre.

— Perdeu não! Honey, me escute… Sei que nessas horas é muito difícil aceitar palavras ou pensamentos positivos, mas a verdade é que, se o sentimento entre vocês dois é verdadeiro, então vocês não “se perderam”. Você a ama?

— Sim… - Phillipp pensou que iria pensar antes de responder, mas a resposta escapuliu sorrateira entre seus dentes. — Sim. Eu a amo. – Então Phillipp não resistiu e caiu em lágrimas.

Sensibilizada, Michelle o abraçou. Os soluços de Phillipp se juntavam as suas palavras rocas que mal conseguiam se tornar entendíveis. Michelle apenas conseguia entender as palavras “amo muito”, “culpa” e “perdão”.

E eles ficaram assim até que Phillipp conseguisse se recompor.

— Eu preciso ir. – disse Phillipp enxugando os olhos.

— Tudo bem. Qualquer coisa, você sabe como me encontrar.

— Certo.

Os dois trocaram um beijo na bochecha e se despediram. Phillipp seguiu por entre os convidados da festa quase como um fantasma e saiu sem falar com ninguém. Entretanto, haviam pessoas que perceberam sua ausência:

— Amor, você viu o Phill? – perguntou Flávius se aproximando de sua namorada Michelle.

— Sim, eu vi. Ele foi embora.

— Ora, mas por quê?!?

— Aff, Flávius! Você não tem mesmo qualquer senso de empatia!

— Por quê?

— Deixa pra lá! Vou pra minha casa. Amanhã conversamos.

— Eu te levo.

— Não, deixa. Eu vim com o meu carro, esqueceu?

— Mas por que você tá indo assim tão cedo? Aconteceu alguma coisa?

— Não. Não aconteceu nada. Eu só estou cansada. Hoje foi um dia muito estressante no trabalho e amanhã terei que acordar bem cedo pra ajudar o Sr. VonBranagh com os problemas do Arcanorum. Então, é melhor eu ir.

— Certo. Amanhã eu te ligo.

— ‘Tá certo. Beijos.

Após se despedirem com um rápido beijo na boca, Michelle se retirou. Flávius ficou parado observado-a realmente sem entender o que realmente estava acontecendo. “O Phill estava certo…”, pensou. “Não tenho o menor jeito de lidar com as mulheres!”. Raramente Flávius parava um pouco pra pensar seriamente sobre seu relacionamento, mas esse momento durou pouco. Logo ele virou o copo de cerveja que tinha em mãos e se juntou ao grupo de amigos das corridas no qual ficava conversando alto, trocando piadas e tirando com a cara dos outros.

 

*****

 

[Flashback: Episódio 3]

 

Sede do Arcanorum. 01h00min.

 

Longe da vista de qualquer pessoa, dois homens caminhavam até o local previamente combinado. Um deles era Nin Soo Yan, Gão-Mestre da Sociedade dos Mandarins em Londres, Conselheiro do Arcanorum e empresário de renome no mundo mundano. E tanto status nesse momento estava sendo um perigo ele ter um encontro suspeito a essa hora da madrugada com outro homem de origem desconhecida tendo que retornar a Assembléia.

— Nin Soo Yan. Você me chamou e aqui estou. Agora sejamos breves, pois as pessoas poderão sentir minha falta.

— Só te chamei pra congratulá-lo pelo seu feito. E que tenho outro serviço pra você.

— De jeito nenhum, Nin Soo! Está tudo acabado entre nós. Você já conseguiu armar seu circo aqui no Arcanorum com a morte de Vincent e eu já não lhe devo mais nada!

— E quem é você pra discutir quando isto terminará?! Você só deixará de trabalhar para mim quando eu assim quiser. Até lá continuará fazendo alguns serviços para mim.

— Seu verme oriental filho da mãe!

— É isso mesmo… Quero vê-lo bem comportado, pois o próximo serviço irá cobrar de você muito mais profissionalismo do que foi com Vincent. Escute bem com atenção. Daqui a 5 horas, você irá se encontrar com um de meus ilustres aliados. Poderia ser agora, entretanto ele está ocupado, assim como eu, com essa Assembléia do Arcanorum.

— Ocupado com a Assembléia?!? Você está querendo me dizer que não tem só você como cobra traidora dentro do Arcanorum???

— Cuide de sua vida, meu caro. Agora vá embora, antes que alguém nos veja conversando.

— Certo. Mas onde será o local de encontro?

— Não se preocupe com isso. Meu aliado irá entrar em contato contigo. Agora vá.

Sem demora, Phillipp deu meia volta e foi embora, desaparecendo tão rápido quanto havia chegado. Entretanto, foi Nin Soo Yan girar os calcanhares pra ele dar de cara com ninguém menos do que Derek Johannes, Conselheiro do Arcanorum e Grão-Mestre dos Satanistas.

— Johannes!

— Surpreso em me ver, Conselheiro?

— Você apenas me assustou. Acho melhor entrarmos, estamos atrasados. – desconversou Nin Soo já seguindo em direção à entrada da mansão.

— Quem era aquele homem com quem conversava? – questionou Derek de soslaio.

Nin Soo parou. Em seguida respondeu seriamente sem tremer a voz:

— Ninguém importante. Só um de meus empregados.

— Empregados? E que tipo de trabalho é o dele pra chamar o patrão de cobra traidora?

Nin Soo se virou e encarou Derek olho no olho. Era um momento tenso. Os dois não eram inimigos, mas também não eram aliados.

— Certamente ele agiu de fora de conduta.

— A quem estamos enganando aqui, Nin Soo? Seja o que for, eu quero estar dentro.

— Não sei do que você está falando, Conselheiro. Se me der licença…

Nesse momento, Derek o segurou pelo braço:

— Você acha que poderá se safar desta sozinho, Nin Soo?

Imediatamente Nin Soo reagiu, confrontando Derek:

— Para o seu próprio bem, é melhor não se meter nos meus assuntos, Johannes!

— E o que você irá fazer? Mandar um moleque vir me matar?

— Você não sabe o que está falando… - sibilou Nin Soo baixo e ameaçador, como uma cobra venenosa.

— É você que não sabe onde está se metendo, Mandarim. – replicou. – Você acha que a morte de Vincent foi um golpe de sorte, mas preste bem atenção: Você só fez exatamente o que nós queríamos que você fizesse!!

Nesse instante, os dois magos pressentiram a presença de alguém, que de alguma forma burlou as rotinas mágicas de sigilo, e os estava vigiando. Imediatamente eles encerraram a conversa e voltaram para a mansão à passos largos. Derek ia atrás, observando a nuca de Nin Soo.

Sendo ultrapassada por Nin Soo, Stephanie imediatamente foi falar com seu namorado, que imediatamente levantou um sorriso e a cumprimentou:

— Algum problema, Stephie?

— Estava procurando por você. ‘Tá atrasado 10 minutos para reunião.

— Estou ciente. Mas tive que dar uma rápida saída.

— O que você fazia lá fora conversando com Nin Soo Yan?

— Então estava me vigiando, anjinha?

— Não… - respondeu encabulada. — Apenas fiquei dando umas mil voltas pela área quando vi você e Nin Soo conversando.

— Somos Conselheiros. Temos que às vezes conversar em particular.

— Na rua e escondidos? Que tipo de conversa era essa?!?

— Uma conversa que infelizmente não poderei compartilhar com a senhorita! – disse Derek calmamente mostrando-se ávido a acabar com aquela conversa desnecessária, para ele.

— Derek Johannes…

— Amor… Confie em mim! Não era nada! Só saímos porque está impossível conversar em particular aqui no Arcanorum hoje. Tem bisbilhoteiros em todos os cantos desta mansão.

— ‘Tá certo… Então vamos logo lá pra dentro antes que o tio Eriol lhe dê um chá de sermão.

— Ele não pode me dar sermão… sou Conselheiro.

— Mas em mim pode! Vamos logo!

E passando o braço por dentro do braço de Derek, Stephanie baixou a cabeça em seu ombro e rezou para que ele não estivesse lhe enganando. Mas no fundo, ela sabia que estava.

 

*****

 

St. Loo Avenue – Londres. 06h00min.

 

Seus sonhos ainda remontavam os acontecimentos mais recentes. Phillipp sonhou com todas as pessoas que lhe rodearam nos últimos tempos: Léia, Evan, Nin Soo, Os Deuses Ancestrais, Danyael e Vincent Vaugh. Todos iam e vinham falando várias coisas, sem qualquer nexo. Phillipp remontava em sua cabeça cada momento passado, mas ao mesmo tempo tudo era transformado em um novo cenário. Seu sonho começou a se tornar um pesadelo quando de repente foi acordado com o som de uma campainha vindo de seu computador.

Sua respiração ainda estava ligeira, com o coração acompanhando-a ainda mais rápido. Levantado-se da cama, ele foi até o seu notebook ver do que se tratava aquela campainha.

Ao perceber que o software secreto usado apenas pelos Iluminados era a fonte daquele som, Phillipp se recompôs imaginando que certamente era um de seus amigos da Sociedade de Prometeu lhe chamando. Depois da Assembléia no Arcanorum, era fato que Matt e James iriam convocar uma reunião. Entretanto, para seu espanto, não se tratava de nada disso.

Era, talvez, pior.

Na barra de tarefas do sistema operacional de seu notebook um ícone piscava em laranja indicando que alguém desejava falar com ele, e este alguém era ninguém menos que seu superior na sociedade dos Iluminados. Clicando no ícone, uma janela se abriu com uma mensagem avisando-o do pedido de web-teleporte. Phillipp conectou em seu notebook um pequeno aparelho hexagonal do tamanho de sua mão e apontou a lente que ficava no centro do aparelho para um local vazio de seu quarto. Em seguida ele clicou em “Aceitar”, na janela do software.

Em poucos segundos uma barra de download surgiu informando quantos “por centos” faltavam pra concluir a operação. Em poucos minutos, o aparelho piscou e logo em seguida lançou vários raios de luz no meio do quarto. Esses raios inicialmente pareciam não ter lógica alguma, até eles começarem a ter o tamanho de uma forma humanóide. Após o longo som de ondas magnéticas, um homem surgiu em meio à feixes de luzes sendo completamente teletransportado de onde quer que ele estivesse antes diretamente para o quarto de Phillipp.

Assim que ele se materializou por completo, Phillipp se levantou da cadeira para cumprimentá-lo, porém formalmente, como um soldado disciplinado:

— Senhor! É uma honra revê-lo novamente, Almirante Washington!

— Eu digo o mesmo, Tenente. À vontade!

— Obrigado. – relaxando os ombros, Phillipp manteve-se de pé, entretanto não conseguiu evitar de questionar a presença de seu superior ali em sua residência: — Senhor, eu poderia saber por que devo a honra de sua presença aqui em meu quarto?

Sem tirar os olhos de Phillipp, o Almirante levantou um leve sorriso como se aquela pergunta tivesse sido piada:

— O Conselheiro Nin Soo Yan não lhe avisou sobre a minha visita?

Imediatamente o chão sob os pés de Phillipp desabou. Ele não conseguiu evitar que suas pupilas dilatassem com a total surpresa em saber que o “Aliado” que Nin Soo comentara era ninguém menos do que o representante máximo dos Iluminados no Reino Unido: Dorje Washington.

— E-eu…

— Poupe-me, por favor, de seu “estou chocado”. Vamos discutir logo os detalhes de sua nova missão.

 

*****

 

Base Secreta da Sociedade de Prometeu. 07h20min.

 

— Ele pediu pra você fazer o que?!? – exclamou Keira.

— Eu estou chocado… - balbuciou James.

— Particularmente eu não estou surpreso. – comentou Spark.

— Nem eu. – disse Matthew sério. – Mas continue, Phillipp.

Era complicado explicar para os amigos como tudo realmente se sucedeu em seu encontro com Dorje Washington. Entretanto, apenas o fato dele ser também um agente iluminado já era uma desculpa razoavelmente boa para evitar outros questionamentos.

— Caras… vocês sabem que a Tawnee se meteu numa encrenca muito foda quando fez aquela reportagem na Jupiter’s Corp. Agora eles resolveram apagá-la.

— Não podemos deixar eles fazerem isso!!! A Taw é minha amiga! – exclamou Keira.

— Nós sabemos disso, Keira. – respondeu Matthew. – A Tawnee e o Nick também são nossos amigos. Mas essa história é a maior descoberta que tivemos nos últimos meses!

— Como assim? – questionou Phill.

— Pensem comigo. Desde o ano passado nós vínhamos desconfiando da Júpiter. Sabíamos que lá era também sede de uma das bases iluminadas, entretanto muita coisa estranha estava acontecendo lá. E mesmo Spark e eu sendo agentes operativos graduados, eles não nos deixavam ter acesso às suas rotinas. O Capitão Müller sempre desconfiou que o Almirante Washington tivesse envolvido em alguma rede conspiratória pra derrubar o Arcanorum. Agora, isto está claro!

— Claro? Ainda estou nas escuras. – disse Phillipp.

— Phill… finalmente o Almirante mostrou as garras. Ele não escolheu você por que te achou uma gracinha. Ele te escolheu por que é o único agente capacitado não-graduado disponível no país. Sem ofensas, Keira.

— Tudo bem. O Phill realmente é bom!

— Não apenas é bom, que como de praxe, não irá questionar ou desacatar qualquer ordem vinda de um Almirante.

— E um Comandante ou Capitão podem desacatar uma ordem? – questionou Phill. Spark se ofereceu para responder:

— Desacatar não, mas temos o direito de questionar. Somos oficiais de comando, precisamos ter o direito de saber o que está acontecendo e do por que da ordem.

— Entendo. Isso é verdade, mas… Por que se dar ao trabalho de seqüestrar uma jornalista intrometida e no lugar dela colocar um Clone?

— Não sei. – respondeu Matthew sinceramente. – Mas eu acredito que o alvo deles não é a Tawnee.

— E quem é?

— A única pessoa realmente importante para o Almirante (e seja lá quem for seus aliados) aqui em Londres, e que neste exato momento está hospedado na casa de Nick e Tawnee: Sebastian West.

— O Portador da Dark Sword.

— Exatamente. Pra mim não é nenhum espanto se um dos planos do Almirante for exatamente vigiar Sebastian e, de alguma forma, corrompe-lo para o lado dos Iluminados.

— Então… Você acha que eu devo aceitar essa missão?

— Acho não. Você deve aceitar. Ordens são ordens.

— Mas e a Tawnee? Você sabe que eu tenho que entregar a verdadeira diretamente pro Almirante. O que será dela?!? Nós não podemos deixar que eles façam alguma mal a ela! Eu nunca irei me perdoar se acontecer…

— Calma, Phill… - interrompeu Matthew. Estava evidente o nervosismo de Phillipp, mas eles se quer suspeitavam os reais motivos de seu estado emocional abalado. – Não iremos deixar que nada de mal aconteça com a Taw. Eu não irei. Vamos fazer o seguinte… Como não temos como sobrepor as ordens do Almirante sem que ele de alguma forma nos desmascare, vamos agir dentro dos planos dele. – Matthew se levantou da mesa de reunião e foi até a tela do monitor principal. Lá acionou o teclado holográfico onde abriu um arquivo. – Este é o nano-espião 3000. É uma das engenhocas mais modernas de espionagem inventadas até agora. Ainda não foi testada, porém esta será uma oportunidade perfeita para isso. Enfim… o que é isso? É um nanorobô de ultima geração totalmente controlável daqui da base. Com memória interna de 5 Terabytes e processador de 100.5GHz ele é capaz de ver, ouvir e gravar qualquer coisa no qual seu hospedeiro estará vivenciando.

“Claro que vocês vão me perguntar: mas como um nanorobô será capaz de visualizar alguma coisa. Ele, em sua essência, age como um vírus no hospedeiro. Não são as lentes do robô, nem os microfones dele que irão gravar alguma coisa. Serão os próprios olhos e ouvidos da vítima. Ele se instala exatamente no cérebro dela, de forma inofensiva, e nos dará total e completa informação de tudo que precisemos saber. Seremos como Anjos da Guarda vigiando a Tawnee de perto.”

— Impressionante. – comentou James.

— É por isso que você tem que aceitar esta missão. Faça o que ele manda e nós cuidamos do resto, ok?

— ‘Tá certo. – mais confiante, Phillipp se levantou de sua cadeira pronto pra ir. Matthew logo se aproximou dele trazendo uma seringa.

— Aqui está o nanorobô. Você só precisará aplicar nela. Depois que ele entrar na corrente sangüínea ele usará a própria energia corporal da Tawnee pra se ativar. Depois nós cuidaremos de tudo daqui.

— Ok.

Com a mão no ombro do amigo, Matthew lhe mandou um sorriso:

— Não se preocupe, brother. Vai dar tudo certo!

— Certo.

 

*****

[Flashback: Episódio 4]

 

Covent Garden. 08h40min.

 

— É estranho você falar que tinha internet dentro da cadeia. Quando a gente pensa numa prisão a primeira coisa que vem em mente é um isolamento total da sociedade. Como você se sentiu com esse privilégio?

— Isso é uma entrevista?

— Não! Curiosidade!

— Ah ‘tá! Bom… é como você disse, Taw… Me sinto realmente privilegiado e extremamente agradecido ao senhor Eriol pela confiança.

— O professor realmente é uma pessoa generosa e muito boa.

— É… é por isso que hoje dedicarei minha vida a ajudá-lo no que for preciso, nem que seja pra ser seu guarda-costas usando a Dark.

— Você trata essa espada como se fosse um bichinho de estimação!

— E não é?

— He-he-he! – olhando em direção contrária de Sebastian algo chamou a atenção de Tawnee. – Ei, Sebastian… Eu vou logo ali no banheiro. Você me espera aqui?

— Claro.

— Volto bem rapidinho! – disse a jovem lançando uma piscadela.

 

Atravessando a tumultuada de pessoas que iam e vinham do Covent Garden Market, Tawnee se encontra com Phillipp. Ele o aguardava entre a multidão, discretamente, observando-a atentamente. Claro que foi necessário utilizar-se de um procedimento cientifico-iluminado para chamar a atenção dela, evitando Sebastian o máximo possível.

— Phill! Que surpresa!! Foi você que me chamou?!

— Sim.

— Estranho… tive certeza de não ter escutado nada, mas a sensação de que alguém havia me chamado foi enorme! Por um acaso você usou um de seus poderes?

— Mais ou menos. – sem ter mais o que dizer e já sem tempo, Phillipp agiu logo: — Taw… eu preciso que você me acompanhe. – apontando para os olhos da menina uma estranha caneta, Phillipp ativou o dispositivo de Alteração de Memória. A misteriosa caneta emitiu um rápido flash deixando a jovem completamente “desligada” do mundo ao redor e obedecendo a toda e qualquer ordem dele.

Fazendo ela o acompanhar, Phillipp entrou em contato imediatamente com os agentes que estavam sob ordens de Dorje:

— Podem mandar a marionete. Missão realizada com sucesso.

 

— Vamos pegar o ônibus? Logo vai dar nove horas e eu tenho que preparar o almoço. Nick deve ainda estar dormindo, o meu bebê. – disse Tawnee, chegando do nada por trás de Sebastian,  fazendo de imediato o sinal pro ônibus vermelho.

 

Observando-os de longe, Phillipp levou a verdadeira Tawnee para o carro preto dos agentes de Dorge que estava estacionado a poucos quarteirões do Market. Discretamente ele aplicou a seringa que Matthew havia lhe dado e logo depois deixou que a jovem fosse levada por eles. Neste exato momento, seu telefone celular tocou. Não muito surpreso, era Dorje na linha:

— Parabéns, Tenente. Fez um excelente trabalho.

— Obrigado.

— Agora, pra terminar o serviço, eu preciso que você ative o programa de interatividade cerebral da marionete pra que ela possa funcionar perfeitamente.

— Certo. – concordou Phillipp buscando outro dispositivo em seu bolso. Era menor que uma caneta só que mais grosso, com apenas um botão na extremidade. Phillipp apontou o aparelho discretamente em direção ao ônibus e pressionou o botão.

 

Naquele mesmo segundo o ônibus explodiu.

 

To be continued…