Londres de Trevas
:: Terceira Temporada ::
Episódio LIX
A História por trás da História – Parte 3
Oito meses atrás…
Quinta-Feira, 30 de Março de 2028. 12h30min.
St. Loo Avenue – Kensington.
Londres, Inglaterra.
A sensação de culpa o corroia feito ácido. Dezenas de vidas inocentes, vitimadas por mero capricho de Mestres Secretos. E ele… um simples peão usado como instrumento. O pior de tudo é que Phillipp fez de tudo pra evitar que as coisas “ficassem piores”. Principalmente quando discutiu com Evan pra evitar que este fizesse alguma burrada.
Que ironia… Acabou que ele fez uma “burrada” tão pior quanto se podia imaginar…
Em seu quarto, Phillipp estava sentado no pé de sua cama de cabeça baixa. Ele já tentara dormir incontáveis vezes, mas mesmo com o corpo pedindo por descanso, sua mente não conseguia cair no sono. As memórias do que aconteceu esta madrugada no apartamento do Diácono. O som ensurdecedor do ônibus explodindo. O grito desesperado de centenas de pessoas no Convent Garden. Não havia como dormir com tanto “barulho” em sua cabeça. Sua consciência não conseguia se calar…
Numa ultima tentativa de tirar um cochilo, Phillipp é chamado na porta de seu quarto:
— Phill.
— Entre, Flávius.
— Dormindo?
— Não. Só deitado. Alguma problema?
— Estamos sem nada pra almoçar, pensei em ir comer lá na casa do Dany. Quer vir?
— Ah… não sei.
— Vamos lá, cara! Deixa de preguiça! Aproveitamos e bebemos umas cervejas e assistimos o futebol com o Dany.
Decididamente Phillipp não estava a fim de sair de casa hoje. Mas, fora o fato de que ele não pode dar bandeira, talvez ele conseguisse conversar com o Danyael. Seria bom trocar idéia com um amigo menos cabeça-oca do que o Flávius:
— Certo… Deixe-me só botar uma calça.
— Vou descendo. Te espero no carro.
— Ok.
*****
Ilchester Place, Kensington. 13h30min.
Lilith acabara de chegar em casa extremamente cansada e logo de imediato procurou por seu noivo. Ao entrar no apartamento encontrou na sala Flávius, primo de Danyael, e um amigo de ambos, Phillipp assistindo televisão.
— Oi meninos.
— Olá, Lilith! - respondeu Flávius ainda concentrado na televisão.
— Senhorita… - cumprimentou Phillipp cordialmente.
— Cadê o Dany?
Imediatamente os dois apontaram o dedo para a televisão. Fechando o semblante em preocupação, Lilith sentou-se no sofá e aumentou o volume da televisão para entender melhor o tal “caos” que estava ocorrendo.
— Assim que esse desastre aconteceu o Danyael e a irmã dele saíram voando até lá para ajudar os feridos. – informou Phillipp.
— Entendo… O que realmente aconteceu?
— Bom… Não sei dizer bem, mas parece que foi um desastre sobrenatural.
— Um desastre sobrenatural ainda dentro do prazo de 6 horas de paz do Arcanorum?
— Pra tu ver…
Levantando-se imediatamente, Lilith tomou uma decisão:
— Vou lá.
— Mas, Lilith… - intrometeu-se Flávius. - Talvez o Dany não goste que você vá. Já deve ter muitas pessoas por lá.
— Não importa, eu vou… <aahh>… - levando a mão até a boca do estômago Lilith sente um mal estar repentino. Imediatamente os dois rapazes se levantaram para ajudá-la:
— Lilith! - exclamou Flávius. - Você está bem?
— Quer um copo d'água, senhorita?
— Sim meninos, eu estou bem… - disse a jovem respirando fundo e se recompondo. – Acho que realmente não estou disposta a sair agora. Vou me deitar.
— Quer ajuda com suas coisas? - perguntou Phil automaticamente prestativo.
— Não, não. Obrigada! Apenas devo estar cansada. Obrigada novamente.
Lilith se retirou e foi direto para seu quarto, onde se trancou. Flávius e Phillipp entreolharam-se, mas nada puderam fazer a não ser achar estranho aquilo:
— Estranho. Lilith é um demônio, não? Dificilmente ficaria doente! – comentou Phillipp.
— A cara… deve ser essas coisas de mulheres! – respondeu o amigo sem muita vontade de dar continuidade no assunto, voltando pro sofá e trocando de canal.
— Você e seu “toque de ternura”. – zombou Phillipp. – Ela é uma pessoa sobrenatural. Não teria problemas como cólicas ou dores de cabeça. Aliás ela me pareceu estar enjoada… - de repente uma ficha caiu pra Phillip: — Será que ela tá grávida?!?
— Sério!?! – exclamou Flávius tendo sua atenção chamada agora. – Que massa!!!
— Cala a boca!!! Se a Lilith não quis nos contar é por que ela tem os motivos dela! Então vamos fingir que não sabemos de nada!
— Mas ela está grávida?!?
— Não sei!! Só suspeitei! Aff, calma! Por que essa euforia?!
— Por que se ela realmente estiver grávida, eu irei ganhar o bolão que fizemos em nossa família.
— Bolão?! Você e seus familiares fizeram um bolão de apostas pra saber quando a Lilith ia engravidar?!?
— É claro! Quem começou a idéia foi a Stephanie, que já tava achando muito estranho esse relacionamento de mais de cinco anos dos dois, regado de muito sexo pecaminoso entre um anjo e uma demônio, e nada de filho. Daí meu pai iniciou o banco de apostas. Eu apostei pra inicio desse ano!!!
— Que família estranha essa sua…
— Tinha que ver meu pai ano passado desesperado praticamente forçando o Dany e a Lilith a considerarem ter um filho. “Se possível, antes de Dezembro”. Hahahaha!!!
Com olhar de perfil, Phillipp tenta entender onde está a piada:
— Continua afirmando: sua família é estranha.
*****
Base Secreta da Sociedade de Prometeu. 20h00min.
Todos os computadores estavam desligados. As luzes mantinham-se em baixa luminosidade. A nuvem de preocupação e seriedade havia se instalado por toda a base. Na sala de Projetos & Pesquisas, Matthew, Spark, James, Keira e Phillipp tentavam de alguma forma entender o que estava acontecendo na cidade:
— Certamente a morte de Vincent foi planejada e arquitetada por um dos membros do Conselho do Arcanorum. – argumentou Spark.
— Isso nós também desconfiamos, Spark. – respondeu Matthew. – Mas a questão é: por quê?
— Desestruturar a sociedade sobrenatural de Londres e da Grã-Bretanha? – sugestionou Phillipp.
— Sim… - concordou James. – Essa é com certeza uma das opções mais favoráveis. Venhamos comigo: Se matamos um dos Diáconos, o poder do Arcanorum começará a se concentrar em um grupo de sociedades homogêneas, que no caso seriam a Ordem de Salomão, do Diácono VonBranagh, e a Ordem de Cronos, a sociedade do Diácono Andreas. As duas, em suas estruturas, tem quase as mesmas bases filosóficas e políticas.
— Com certeza, mas… Eu não acredito que o Sr. VonBranagh seria autor de um assassinato. – argumentou Keira.
— Eu também concordo com Keira. – disse Spark. – Eu já tive grande intimidade com a família do Danyael Kimble e, certamente, seu padrinho nunca estaria envolvido em um caso como esse.
— E ainda tem isso… – complementou Phillipp. – Por causa da Light Sword, não existe família com maior status sócio-político na sociedade sobrenatural do que os Kimbles. Além disso, um dos parentes mais notórios é nada menos que Diácono do Conselho do Arcanorum, em resumo… é completamente ilógico pensar que o Diácono VonBranagh teria razões políticas em assassinar o colega Vincent Vaugh.
— Sim, com certeza. – disse James. – Mas e se tiver sido motivos pessoais? Vocês se lembram, cinco anos atrás, meses antes da Invasão em Oxford, que houve uma Assembléia no Arcanorum pra decidir quais seriam as medidas à serem tomadas com relação aos acontecimentos daquela época e o Diácono Eriol solicitou formalmente que tivesse autonomia independente sobre a região e foi negado duramente pelo Diácono Vaugh? E, durante essa mesma reunião, Vincent Vaugh solicitou a votação de Impeachment do Diácono Eriol sob a acusação de que este estava agindo de forma prejudicial aos interesses do Conselho?
— Sim, eu me lembro. – disse Phillipp.
— Eu, se quer, fazia parte da sociedade sobrenatural nessa época. – disse Matthew.
— Eu também. – acompanhou Spark.
— Mas James, - continuou Phillipp, pois era o único que conhecia e se lembrava desse fato. – naquela ocasião o Diácono VonBranagh havia ganho a votação, numa decisão final espantosa do Conselheiro Derek Johannes.
— Sim, com certeza. – afirmou James. – Porém, alguém aqui garante que pode não ter surgido um certo tipo de rivalidade entre esses dois grupos? Qualquer líder se sentiria ofendido se algum colega de mesmo nível hierárquico quisesse derrubá-lo de seu cargo.
— Eu sei. Mas não dá pra afirmar isso. Dizer que houve rivalidade ou até mesmo hostilidades pós-reunião está no campo de privacidade dos envolvidos. E além do mais, não foi uma Assembléia extraordinária. Só compareceu o número mínimo de Conselheiros Grão-Mestres na reunião. Isso só mostra que, pro Conselho, essa votação não passou de uma marolinha.
— Sim, eu sei. Mas Phillipp, você que tem memória sobrenatural, você consegue se lembrar exatamente quais conselheiros tomaram parte dos Diáconos envolvidos?
— Sim, claro. Perfeitamente. Nin Soo Yan e Julien Rieger foram à favor do Impeachment. Já Kravinoth, Andreas e Derek Johannes foram contra, dando por fim a votação.
— Interessante… - comentou Keira. – Sempre pensei que o Conselheiro Rieger era aliado do Sr. VonBranagh. Afinal, eles são Grão-Mestres de sociedades irmãs.
— O fato não é esse. – comentou Phillipp. – O Conselheiro Rieger realmente estava certo. Não dava pro Diácono Eriol participar dos eventos em Oxford. Como alto-representante da sociedade sobrenatural do país, tomar partido de um dos lados numa guerra sobrenatural era arriscado.
— Sim, o Phill está certo. – informou Matthew. – Mesmo que a ajuda dele tenha sido fundamental, isso causou um verdadeiro problema nas relações para com os demônios do Inferno.
— Ah… nem me fale! Ano passado tivemos aqueles problemas com a Irmandade de Tenebras e, mesmo sendo Iluminados, eles nos trataram como aliados do Arkanorum. – complementou Spark.
— Sim, mas voltando a situação… - interrompeu James. – Mesmo que a ajuda do Diácono tenha sido vital pra hoje nós e todos os habitantes de Oxford estarmos vivos, a atitude dele certamente dividiu o Arcanorum. Para alguns suas decisões se tornaram questionáveis, a partir do fato de que ele é capaz de por questões pessoais à frente dos problemas profissionais.
— Mas ele não colocou questões pessoais em primeiro lugar! – disse Keira. – Ele ajudou toda uma população. Não foi por causa, exclusivamente, que seus familiares moravam em Oxford.
— Não, Keira… James está certo. – explicou Phillipp. – Naquela época o Diácono já estava indo à Oxford tentar resolver os problemas que o Danyael tinha se metido. Lembre-se que o principal motivo da invasão foi por que um anjo havia se metido em assuntos dos demônios.
— E por causa disso, - complementou James. – como Diácono, o Eriol nunca poderia ter se metido. Isso, com certeza vai contra a primeira diretriz do Conselho: “Não interferir em assuntos políticos, culturais e religiosos de outras raças e sociedades”. Naquele tempo pode não ter acarretado nenhum problema à curto prazo, mas se formos pensar à longo prazo…
— Eu entendi isso, James, mas a questão é: se formos ver por esse ponto de vista, o primeiro a ser assassinado não deveria ter sido o Diácono Vaugh e sim o próprio Diácono VonBranagh. – argumentou Matthew.
— E quem garante que ele não será o próximo?
Depois dessa questão, a sala inteira ficou calada. Phillipp, entretanto, talvez fosse o único que tivesse tendo pensamentos contrários dos amigos. É óbvio que ele não sabe exatamente do por que Nin Soo Yan querer assassinar Vincent, visto que, baseado no raciocínio de James, ele estava do lado do Diácono. Entretanto, era óbvio que possivelmente o Conselheiro mandarim iria querer continuar rolando cabeças no Arcanorum, e certamente, o próximo seria o Diácono Eriol.
Mas, isso seria impossível de se fazer para um meio-dragão como Phillipp. Assassinar o maior arquimago do mundo? Seria o mesmo que desafiar um dos Anciões draconianos que vivem Reinos Supernos. Vincent foi golpe de sorte. Nin Soo sabia exatamente o dia e a hora que o Diácono estaria indefeso e precisando da tal poção de juventude dele. O ataque foi direto no Calcanhar de Aquiles do falecido Diácono. Já o Eriol… que tipo de fraqueza ele teria? E Phillipp realmente teria coragem de matar alguém tão querido por todos à sua volta?
— Temos que avisar o Diácono. – disse Matthew.
— Avisar? – questionou Keira. – Como? Iremos revelar a nossa existência?
— Não. Iremos mandar mensagens anônimas e ao mesmo tempo ajudá-lo indiretamente.
— Parece que o Diácono depositou toda sua confiança nas investigações em um único homem. – comentou Spark.
— Sim, eu estou sabendo. Parece que é um dos agentes particulares da Ordem de Salomão do Diácono VonBranagh. Seu nome é… - Matthew parou alguns segundos pra conferir a papelada que estava em suas mãos. — …“Erick Russell”. Então… podemos fazer da seguinte forma. Como já estamos envolvidos com os acontecimentos e ainda estamos investigando em segundo plano o seqüestro da Tawnee, iremos trabalhar como agentes ocultos, enviando mensagens secretas e criptografadas pra algumas das pessoas mais importantes e vitais. Concordam?
— Mas Matthew… - questionou James. – Mas enviar mensagens ocultas ao irá de alguma forma revelar nossa existência, mesmo que indiretamente?
— Sim, mas ao mesmo tempo precisamos proteger esta cidade, e para isso precisamos proteger as pessoas mais importantes dela, que no caso são os Diáconos. Se o Diácono VonBranagh vier a ser morto, certamente esta cidade vai entrar num caos sem precedentes. Algo de níveis alarmantes.
— Uma terra sem-lei. – disse Phillipp.
— Exato. Vale ressaltar qual é a nossa missão quando entramos pros Iluminados. – e todos responderam em uníssono: — “Servir e Proteger a Humanidade”. Vamos separar as investigações em grupos. James e Keira, vocês ficaram com a missão de vigiar o Detetive Russell. Vocês também ficarão com a tarefa de distribuir anonimamente as mensagens da “SdP”.
— Certo. – concordou James.
— Spark, você continuará com as investigações sobre os assassinatos. Certamente você irá trocar informações com o James e a Keira, afinal eles estarão vigiando o Detetive Russell.
— Por mim ‘tá ótimo.
— Phill, eu tenho uma missão mais complicada pra você. Eu preciso que você não faça nada.
— Hã?
— Sendo bem direto, quero usá-lo como isca pro Almirante. Como ele acha que você é o único iluminado operante na cidade (acreditando que Spark e Eu estamos nos Estados Unidos) ele certamente irá te convocar pra outras tarefas.
— Mas Matt…
— Eu sei cara. Eu peço desculpas por isso, mas é nossa única forma de poder por as mãos no Almirante e, quissá, ver se ele tem alguma ligação com as assassinatos. Sei que o risco é grande, mas…
— Matt… eu não quero mais matar ninguém…
Nesse exato momento, Matthew foi rebatido por uma confissão extremamente sincera, de um pobre homem que infelizmente sujou suas mãos com sangue de inocentes.
O silencio que se instalou na sala pesava toneladas. Desde que a reunião começou todos estavam tentando evitar falar sobre isso, mas era inevitável. A verdade era: eles sabiam dos riscos quando aceitaram receber as ordens o Almirante. Todos eles concordaram que, pra proteger a amiga, um de seus agentes teria que realizar a missão. A sensação de “mãos sujas de sangue” não estava apenas me Phillipp, mas em todos os integrantes da Sociedade de Prometeu. Principalmente com Matthew.
O líder da sociedade. O oficial iluminado mais graduado de todos. Aquele que tinha a palavra-final, carregava em si todo o peso da culpa, muito mais do que com Phillipp. Ele sentia-se culpado pelo incidente. Culpado por ter envolvido seus amigos (e subordinados) nisso. Culpado por não ter sido eficiente o bastante pra evitar que aquilo acontecesse. O mundo pesava de tal forma em seus ombros que ele não resistiu e sentou na poltrona mais próxima. Este era o fardo do líder. Arcar com todas as suas decisões, estivessem elas certas ou erradas.
— Phill… me perdoe. Por favor, ignore o que eu falei. Volte pra casa. Eu vou lhe dispensar de suas tarefas por hora.
Se fosse o Phillipp que todos conhecem certamente ele iria repudiar a idéia de ficar parado enquanto seus amigos trabalhavam, mas ele concordava que precisava urgente de um descanso, entretanto…
— Sim, mas… eu não sei se isso será o suficiente pra eu apagar de minha mente os gritos e lágrimas das pessoas que perderam seus entes queridos naquela explosão.
Novamente o silêncio se impôs, mas antes que Matthew, sem saber como, tomasse algum tipo de decisão, Spark se adiantou:
— Se quiser, você poderá ficar aqui na base, apenas controlando as operações.
— Tudo bem. Pode ser. Pessoal… - então Phillipp se levantou. — Eu vou dar uma saída, se me permitem.
Matthew respondeu rapidamente:
— Com certeza. Pode ficar à vontade.
— Obrigado, Matt.
De cabeça levemente baixa e olhar vazio, Phillipp se retirou da sala de reuniões deixando os amigos preocupados.
Estava cada vez mais difícil para Phillipp suportar aquela situação. Tudo aquilo que ele acreditava, tudo aquilo pelo qual ele lutava, simplesmente entravam em choque com sua atual situação. Ele não queria ter que dar as costas aos amigos agora, mas infelizmente ele mal conseguia suportar todos os seus problemas, que dirá outros. O jeito foi aceitar a sugestão de Matthew e se ausentar um pouco. Pelo menos até por esse fim de semana.
*****
Domingo, 02 de Abril de 2028. 13h00min.
St. Loo Avenue.
O longo sono da manhã de domingo logo se esvaía enquanto Phillipp abria seus olhos por de baixo dos travesseiros. O que o jovem ainda não tinha percebido era que seu quarto estava estranhamente mais escuro que o normal.
Alguém tinha fechado as janelas.
Trancado a porta.
Desligado o telefone.
E estava sentado diante dele na poltrona.
Agindo por impulso, Phillipp sentou-se imediatamente na cama empunhando a pistola que guardava por de baixo dos travesseiros. Com a arma apontada para a cabeça do invasor, Phill nem percebeu ainda quem era a pessoa por debaixo das sombras:
— Quem é você?
— É assim que trata os amigos, Sr. O'Connor?
— Você. - sussurrou reconhecendo logo o homem diante dele. – Você não é meu amigo. O que faz aqui em meu quarto? O que quer? Eu não lhe devo mais nada!
— Isso é o que você se engana, caro meio-dragão. Você não me deve dinheiro. Deve gratidão. Não se esqueça que fui o único que lhe estendeu a mão quando todos lhe deram as costas.
— Ninguém me deu as costas. Apenas não podiam me ajudar.
— Oh, que meigo. E você acreditou? Faça-me o favor… Era óbvio que ninguém ia ajudar um marginal que havia se metido numa encrenca e agora estava esmolando uma ajuda. Sejamos amigos: você tem certeza que está em posição de me contrariar?
— O que você quer? - sussurrou Phill baixando a arma desanimado.
— Agora sim estamos falando a mesma língua. Preste bem a atenção no que vou lhe dizer: Há poucos dias um grupo de grande destaque financeiro se instalou em Londres e para meu descontentamento eles querem comprar as ações majoritárias do Lloyd's que estão à leilão. Sua missão é bem simples. Quero que vá até o hotel Great Eastern, na Liverpool Street, onde eles estão instalados e deixe em qualquer canto do quarto do sócio majoritário este singelo artefato.
Pegando uma simples caneta tinteiro estilo Mont Blanc das mãos de seu contratador, Phill examinou curioso a peça e em seguida questionou:
— E o que esta caneta irá fazer?
— Apenas faça o que mandei. É uma tarefa simples, rápida e sem perigo de erros.
— Você sabe que não escolho qualquer tipo de trabalho. Acima de tudo está minha dignidade.
— Hmmm… Bonitas palavras… para um Super-herói americano! Você não tem escolha, meu rapaz. Ou faz esse trabalho ou talvez essa seja a última vez que deita nessa confortável cama… Ou quem sabe não terá mais com "quem" se preocupar a noite.
As palavras do contratador tiveram o mesmo efeito que um tiro no meio da testa de Phill:
— FILHO DA PUTA!!! SE TENTAR ENCONSTAR UM DEDO NEL--
— Meu tempo com você se esgotou. - disse atropelando as palavras furiosas de Phill. – Antes que eu me esqueça: Essa missão tem um prazo. Você tem até o nascer do sol de amanhã para deixar a encomenda. Se falhar, você já sabe quais serão as conseqüências…
— EI, ESPERE!!! – e antes mesmo que pudesse se levantar por completo da cama, o contratador de Phill desapareceu envolto por uma nuvem negra - como se tivesse sido tragado pelas sombras.
Desanimado, abatido, sem vontade de fazer qualquer coisa, Phillipp apenas voltou a se deitar e ficou observando com olhos distantes a misteriosa caneta que ele deveria deixar num dos quartos do Hotel Great Eastern. Naquele momento lembranças de um tempo não muito distante lhe veio em mente. Um tempo onde a vida era mais simples, principalmente quando vista ao pé de uma antiga árvore escocesa.
Um tempo que não volta mais…
Pessoas que hoje são apenas lembranças…
*****
Hotel Great Eastern – Londres. 00h50min.
A visita de Nin Soo Yan havia irritado Phillipp profundamente. Ele não queria ter que fazer isso. Não tinha por que ele continuar matando pessoas inocentes. Mas, ele estava sem escolha. Se não fizesse o que Nin Soo mandara, certamente o Grão-Mestre Mandarim iria denunciá-lo para o Arcanorum e por fim, colocar toda uma sociedade sobrenatural contra sua família Draconiana. Ele estava nas mãos do maldito e não conseguia encontrar meios de sair dessa enrascada.
Chegar e entrar no hotel sem ser percebido foi deveras fácil. Primeiro Phillipp buscou um aparato hipertecnológico em formato de cinto que lhe proporcionou ficar “invisível” aos olhos das pessoas comuns. Não verdadeiramente invisível, mas o aparelho fazia com que a presença dele não chamasse a atenção de ninguém. Além disso, ele precisou novamente usar a “Máscara de Jack”: um dispositivo portátil tecnomágico que impede que feitiços de Tempo ou de Busca sejam usados contra ele depois.
Após ir até a recepção, Phillipp simplesmente ficou do lado da recepcionista com seu netbook aberto copiando todos os dados do servidor. Obviamente, tanto ela quanto o hóspede ignoravam a presença dele. Depois de conseguir as informações, Phillipp seguiu para os elevadores de serviço, onde ele poderia acessar qualquer andar do hotel de forma discreta e sem chamar atenção. Enquanto o elevador seguia para a suíte máster, Phillipp verificava os dados do tal empresário que Nin Soo Yan queria que fosse eliminado.
Ele mencionou que a vítima é um sócio-majoritário de um grande grupo de negócios. Nin Soo Yan, como todo bom empresário sem escrúpulos, resolveu acertar seus problemas da pior maneira possível. Era nesse momento que a consciência de Phillipp pesava. Afinal… ele estava simplesmente sendo usado pra realizar tal imundice. Teria ele hoje cara para encarar as pessoas que ama? Era melhor nem pensar nisso, se não, certamente, ele voltaria atrás. Foi quando a porta do elevador se abriu que finalmente ele conseguiu encontrar o nome do sócio-majoritário que Nin Soo queria morto:
“Derek Johannes”.
Ver aquele nome escrito nas planilhas de cadastros de hóspedes na tela fria de seu netbook congelou sua espinha e o fez perder a força nas pernas. Ao sair do elevador, Phillipp se encontrava numa sala privativa somente para funcionários, no qual a outra porta levava para o corredor principal dos quartos. Sob paredes brancas e iluminação fraca, Phillipp escorregou no canto desta sala até sentar-se no chão sem saber o que fazer.
Ele não podia matar Derek Johannes! Isso seria um novo assassinato dentro do Arcanorum… e pior! Dentro do prazo do “Acordo de Paz” pré, durante e pós uma Assembléia geral do Conselho. Tal ato não apenas iria desencadear um caos na sociedade sobrenatural, como também iria exatamente afirmar aquilo que James e a Sociedade de Prometeu desconfia: que haverá outros assassinatos dentro do Arcanorum.
Nin Soo está louco! Não, pior! Ele está querendo acabar com o Arcanorum. Certamente é algum plano maligno pra que a Sociedade dos Mandarins dominem a capital britânica. Certamente isso é mais do que uma simples jogada política. É algo que os magos chineses vem remoendo nos últimos séculos devido a ocupação de Hong Kong pelos ingleses depois da 2ª Guerra Mundial.
Havia relatos que o Arcanorum inglês não apenas ajudou na Segunda Guerra, como também havia dizimado cabalas inteiras durante a guerra. A própria Sociedade dos Mandarins é na verdade uma fraternidade com a união de todas as cabalas remanescentes numa só. E, um homem como Nin Soo, que já ultrapassava um século de vida, certamente o ódio dos ingleses ainda estava vivo em suas memórias e em seu coração.
Mas ele, não poderia fazer isso. Ele não poderia ser usado como instrumento de vingança de um mago chinês bicentenário matando cada um dos líderes da principal ordem sobrenatural do país. Se hoje já tem milhares de agentes e detetives em seu encalço por causa de um assassinato, que dirá dois! Só que, em contra partida, Nin Soo Yan tinha a faca e o queijo na mão contra ele. Não apenas obtinha o segredo pra salvar toda sua raça, como também poderia fazer algum mal à sua esposa, que, por estar sumida, Phillipp não tinha como poder protegê-la. Será que a única solução seria pedir ajuda aos seus amigos e arcar com as conseqüências de seus atos até agora?
Foi então que seu destino pareceu ter tomado outro rumo.
A porta do corredor de funcionários do hotel se abriu. E dela, um homem bastante conhecido por Phillipp surgiu diante dele. Dando-lhe um susto e fazendo-o se levantar imediatamente, Phillipp ficou sem saber o que fazer diante de Eriol VonBranagh:
— D-Diácono!!!
Sem alterar o semblante, Eriol pediu apenas falou poucas palavras:
— Acompanhe-me, Sr. O’Connor.
Sem saber o que fazer, Phillipp não viu alternativa a não ser acompanhá-lo.
Seguindo pelo corredor pequeno corredor dos quartos Máster do hotel, Eriol se dirige a um deles e em seguida abriu a porta educadamente pedindo pra que Phillipp entrasse.
O quarto máster do hotel era um dos mais luxuosos da cidade. Sala de estar aconchegante, com sofás, bar, televisão de plasma, uma excelente vista para a cidade. Mas apesar da elegância, apenas alguns abajures estavam acesos. A sensação de mistério e suspense numa sala em penumbra invadia os nervos de Phillipp que literalmente não sabia o que fazer.
Eriol, após fechar a porta, solicitou que Phillipp se acomodasse em um dos sofás e em seguida foi em direção à sacada do aposento. Observando a cidade com olhar distante, e ciente que seu convidado não tirava os olhos dele, Eriol baixou a cabeça e fechou lentamente as portas e janelas. Com um simples movimento da mão, as cortinas obedeceram ao seu feitiço e se fecharam sozinhas. Quando o quarto enfim mergulhou em total privacidade, o mago retornou sua atenção ao convidado.
Nervoso e bastante tenso, Phillipp tentou se explicar:
— Excelentíssimo, eu posso explicar perfeitamente o que aconteceu.
Ignorando as palavras vãs de Phillipp, Eriol se pronunciou em baixo tom:
— Eu sei o que você fez, Phillipp O’Connor.
O coração de Phillipp foi parar na garganta. Seu espanto e desespero havia chegado a tal nível que ele mal conseguia se manter calmo onde estava sentado. Suas mãos suaram, seus olhos piscavam, seu desconforto era evidente. Não tinha mais o que fazer. Seu plano havia ido por água à baixo.
Mas… como ele sabia?
Ou melhor… O que ele sabia?
— E-eu… eu não sei o que…
— Eu sei que foi você que matou o Diácono Vaugh.
— Eu não sei do que está falando.
— Você entrou na casa dele, arrombou seu cofre, roubou a poção vital pra ele, e em seguida lhe deu um tiro na testa.
— Você não tem provas…
— Eu não preciso de provas. Eu vi com meus próprios olhos.
— Eu não sei do que está falando.
— A Máscara de Jack realmente é um dos artefatos mágicos mais incríveis que existem, mas infelizmente ele é ineficaz diante de meus poderes.
— Você mentiu na Assembléia. Disse que não sabia a identidade do assassino.
— Exatamente. E fiz isso consciente.
— Por quê?
— Por que eu sei que não fizera isso por vontade própria. Agora Phillipp, por favor, conte-me o que está acontecendo. E por favor, não me esconda nada.
A sala de estar do hotel pareceu ter se tornado o local mais silencioso e frio de toda a cidade. Não havia sons da rua, do vento, nem das pessoas que circulavam pelas ruas em plena hora do rush. Até o som da respiração e do batimento de seus corações estava cessado. Apenas dois pares de olhos se embatiam tensos.
Foi após eternos e sufocantes segundos, que enfim Phillipp resolveu falar. E ele não apenas falou. Ele desabafou. Contou tudo. Tudo que havia acontecido nos últimos meses. Nos últimos dias. Nas últimas horas. Falou nomes. Lugares. Conversas. Em certo ponto ele omitiu, obviamente, a existência de sua cabala secreta de Iluminados, a Sociedade de Prometeu, mas pra sua surpresa, até isso o Diácono estava um passo à sua frente:
— Eu sei da existência de sua sociedade secreta e que você e seus amigos de Oxford são na verdade Agentes Iluminados que agem aqui em Londres secretamente tanto do Arcanorum, quanto dos próprios Iluminados.
Simplesmente não havia como esconder segredos daquele homem! Em dado momento Phillipp sentiu como estivesse se confessando perante a um Deus onisciente e onipotente. O homem diante dele nem de longe parecia aquele professor de sorriso sincero dos tempos da faculdade ou aquele sábio e politicamente correto Diácono do Arcanorum. Aos olhos de Phillipp, Eriol parecia ser mais do que um simples humano. Mais até do que um simples mago. Ele emanava uma clara e evidente aura de divindade que somente quando Phillipp visitou os Deuses Ancestrais que ele presenciou algo parecido.
“Seria Eriol um avatar de algum Deus na Terra?”
“Não, isso é impossível”, pensou imediatamente. Ele podia sentir isso, mas a verdade era que, se observasse bem o Eriol não passava de um humano comum, entretanto, com enormes poderes à sua disposição. E não era por menos… Dizem que ele possui mais de 600 anos e que havia dedicado quase todos esses séculos de existência à magia. Era evidente que ele já tinha alcançado o que os estudiosos chamavam de “Existência Perfeita”.
“Então… seria Eriol um Ser Perfeito?”
— Entendo tudo que falaste para mim. – disse Eriol assim que percebeu que Phillipp terminou suas explicações. – Mas ainda sim… tenho que dizer que não concordo com suas decisões.
— Senhor… perdoe-me a indelicadeza, mas você não sabe o que é ser um Meio-Dragão. O que é carregar milênios de tradições nas veias. Se eu não fizesse o trabalho, outros iriam fazer. Eu pelo menos decidi arcar com toda a responsabilidade e fazer tudo sozinho às escuras do que deixar que meus irmãos fizessem e levantassem uma guerra desnecessária entre nossa raça e a sua Fraternidade sobrenatural.
— Não, Phillipp O’Connor. Você não fez isso por causa de suas Tradições. Fez fez isso por causa de sua imaturidade.
— Como?!?
— Você fez o que fez apenas por que estava com medo. Medo de ser julgado por sua Família. Medo de fracassar diante de seus Deuses. Medo por perder sua amada esposa. E apenas aceitou fazer tudo “Às escondidas” por que também tem medo de perder seus amigos e ser abandonado por eles. Seu medo era tão grande que isso o impossibilitou de pensar racionalmente um minuto se quer. Você não pensou no que esse assassinato poderia causar na sociedade sobrenatural de nosso país, nem muito menos pensou se isso fazia parte de algum plano sórdido de um honconguês vingativo em dominar nosso país.
— Você sabe que ele pretende atacar o país?
— Sim, eu sei. E sei também que o Grão-Mestre, e porta-voz, dos Iluminados estadunidenses o está apoiando.
— Mas se você sabe disso tudo, por que não faz nada?
— Por que simplesmente não chegou a hora de agir.
— Você é onisciente, Eriol VonBranagh?
— Não. Mas sou quase isso.
Por um segundo Phillipp não soube se ficaria surpreso ou apavorado. A idéia de Eriol ser um avatar estava cada vez ficando mais real…
— Eu não sou onisciente, entretanto… Quando alguém, em qualquer lugar do mundo, pronuncia o meu nome, referindo-se à minha pessoa, eu estarei ciente desta conversa. É um ritual mágico poderosíssimo, que somente arquimagos conseguem realizá-lo. Daí, usando-se de outro feitiço básico de mesma esfera de influência, sou capaz de dar atenção àquele pessoa ou grupo de pessoas que estão falando de mim.
— Então… É assim que você ficou sabendo de nossa sociedade secreta.
— Exatamente. Há poucos dias atrás vocês tiveram uma reunião, estou certo? Assim que vocês mencionaram meu nome, eu foquei minha atenção em vocês. E devo ser sincero em falar que fiquei bastante contente e grato com a atitude de vocês em me proteger, mas posso deixar bem claro que o próximo alvo de Nin Soo nem de longe será eu.
— Claro. É o Sr. Johannes.
— Também não será. Você não irá terminar este serviço.
— Mas, senhor… Você não entendeu?!? Ele está ameaçando contar tudo e jogar minha raça na lama!!!
— Uma encrenca que você mesmo se meteu por livre e espontânea vontade.
— Eu sei, mas…
— Está vendo? É aquilo que falei, Phillipp… o Medo lhe domina. Não o deixa pensar racionalmente um minuto se quer.
— Mas mestre… - “Espere!”, pensou Phillipp. — Senhor VonBranagh… o senhor é um Arquimago extremamente sábio, então… Você saberia como salvar a minha raça da extinção?
Aquela pergunta pareceu, por alguns segundos, não ter resposta, ou simplesmente ser débil o bastante pra ser feita. Entretanto, foi com um sorriso que Eriol acabou com as dúvidas de Phillipp:
— Está vendo? Se tivesse por algum momento pensado com clareza, e não ter deixado se levar por seus medos e emoções, poderia ter chegado a essa questão antes. Sim, eu sei.
O “sim” de Eriol pareceu ter preenchido toda a existência de Phillipp de alegria e euforia. Entretanto, tão rápido veio a alegria, ela se foi quando ele se lembrou de tudo que ele fez pra chegar até aqui. Naquele momento ele se sentia um idiota. Era óbvio que o arquimago mais velho e sábio do mundo poderia saber como salvar a sua raça. Foi exatamente o que Eriol lhe falou: agiu por medo e por emoção e simplesmente se esqueceu completamente de agir com a razão.
Impossível foi para Phillipp segurar as lágrimas. E como uma criança tentando pedir conselho e ajuda a um avô caridoso, Phillipp depositou todas as suas esperanças na sabedoria de Eriol:
— P-por favor, mestre. Me ajude… Me ajude a sair disso…
Tal como age com seus afilhados, Eriol se levantou colocou a mão direita sobre o ombro de Phillipp e tentou buscar as palavras certas que pudesse dizer:
— Eu irei te ajudar, Phill. Mas primeiro, você tem que escutar bem o que tenho a lhe dizer.
Dando toda a atenção do mundo aquilo que o Diácono iria lhe dizer, Phillipp se recompôs parando de chorar:
— Primeiro: eu tenho sim uma solução que pode ajudar a sua raça. Entretanto, nem tudo são flores. Não é e nunca será fácil a forma de ajudá-los.
— C-como assim?
— Você não tem a menor idéia de como o Meio-dragão chinês conseguiu a evitar a extinção do sangue, não é?
— Sim.
— Ele simplesmente assassinou mais de 100 mil pessoas na China pra produzir o ingrediente necessário para o ritual.
— I-ingrediente necessário?!? Você quer dizer… vidas humanas?!?
— Não. O que vocês chamam de “vidas humanas” nós, estudiosos místicos, chamamos de Quintessência. Todos os seres vivos possuem uma energia pulsante dentro de seus corpos. Os chineses chama isto de “Chi”, a energia vital de todas as coisas. “O Chi surge da matéria e a matéria surge do Chi”. E, com esta energia, ele foi capaz de transmutar seu Ser transformando-se hoje no que chamamos de “Criatura Sobrenatural Terrestre”, apenas: “Terrestre”.
“Deixe-me ser mais claro. Em um determinado momento nos estudos filosóficos e metafísicos da magia descobrimos que todas as energias sobrenaturais do mundo provém de algum lugar, que por sinal, não é a Terra. “Como assim?” Num exemplo prático, você sabe que seus poderes draconianos são oriundos dos Reinos Supernos, onde vocês, Meio-Dragões canalizam as energias destes reinos pra realizar suas proezas em nosso mundo.’
‘Do mesmo modo estão os Anjos e os Demônios. Tanto um, quanto o outro, precisam canalizar as energias extraterrenas para realizar todos os seus poderes e alguns até mesmo pra viver!’
‘E nesse bolo incluem-se quase 99% dos seres sobrenaturais. Os Vampiros, que precisam da “Maldição Vampírica” em seus sangues pra existirem, os Lobisomens que canalizam seus poderes das deusas da Lua e da Terra e, principalmente, os Magos, que através de seus espíritos-guias, canalizam toda as energias cósmicas do mundo pra alterar a realidade.’
‘Nesse caso, apenas 1% desses seres sobrenaturais não precisam importar energias de lugar nenhum, a não ser de si mesmo, pra conseguir realizar seus poderes. E eles são conhecidos como Feiticeiros e Psíquicos. Ou, tecnicamente falando: Criaturas Sobrenaturais Terrestres’.
‘Os Feiticeiros e os Psíquicos são, em sua essência, seres humanos comuns, aqueles que definitivamente nasceram e continuam ligados à este mundo e de alguma forma conseguem canalizar a energia da própria Terra ou de si mesmo pra realizar proezas sobrenaturais. Sim, é de conhecimento geral que seus poderes são incrivelmente fracos, ou então, limitados. Mas graças a isso, é evidente que quando a Roda dos Mundos girar eles serão os únicos que não serão afetados. E foi através desse conhecimento que o Meio-Dragão Chinês Sin-Fang preparou seu ritual.’
‘Sinceramente eu já tinha ouvido falar disso. De seres sobrenaturais tentando se tornar terrestres para aplacar as maldições e mazelas que enfrentam por serem “extraterrenos”. Mas eu nunca tinha visto algo parecido, a não ser em artigos alquímicos, como os do estudioso Nicolas Flamel, o criador da Pedra Filosofal. Foi graças a este ritual que Sin-Fang conseguiu se tornar um Meio-Dragão Terrestre e, certamente, burlando as leis cósmicas da Roda dos Mundos.’
‘Quando fiquei sabendo desse ritual, busquei informações sobre ele e, eu lhe garanto, posso reproduzi-lo com perfeição. Entretanto… o custo para ser realizado é muito alto. A verdade é: você quis evitar um derramamento de sangue desnecessário, entretanto os fins inevitavelmente o levariam a mais derramamento ainda. Estaria você disposto a realizá-los?”
Phillipp estava estupefato. Mesmo assim, sua mente draconiana conseguiu gravar cada ponto e vírgula que Eriol havia dito e assim ele tentava, de alguma forma, argumentar alternativas:
— Você falou em Quitessência.
— Sim.
— Seria o mesmo que a “Energia Primordial” que nós Meio-Dragões coletamos em Nodos?
— Sim. Mas, nem mesmo juntando todos os maiores Nodos do mundo, conseguiríamos juntar a quantidade de Quintessência necessária pra salvar toda a sua a sua raça.
— Então… é impossível.
Nesse momento, Eriol se distanciou de Phillipp e caminhou até a sacada do hotel. Com vos soturna, Eriol propôs uma nova solução:
— Existe em nosso mundo uma fonte de Quintessência bastante abundante.
— Sério?!? Qual???
Eriol caminhou até Phillipp, desta vez sem olhar diretamente em seus olhos. Em seguida, ele esticou a mão:
— Cadê a arma que você usou para assassinar Vincent Vaugh?
— Não está mais comigo…
— Não era uma arma comum, certo?
— Não…
— O que você usou pra matar Vincent?
Respirando fundo, Phillipp respondeu:
— Eu… usei uma Arma da Luz.
— Uma… - por um segundo Eriol não conseguiu entender, até que de repente: — Espere… Você está falando das Light Arms? Iguais a Light Sword do Danyael?
— Sim. Eu também sou um dos escolhidos.
— Inacreditável. Não esperava por isso… E onde ela está? Contigo?
— Não. Depois de usá-la eu a escondi. Mas, senhor… Onde o senhor quer chegar?? O que a minha arma tem haver com isso??
— Dê-me sua mão, Phillipp…
O Meio-Dragão esticou a mão direita e Eriol a buscou segurando forte. Em seguida o arquimago fechou os olhos, e como se estivesse num profundo estado de meditação, ele passou a encontrar as misteriosas respostas as suas dúvidas:
— Sim… como imaginei. A Light Arm nunca iria armazenar em si mesma um tipo de quintessência com esta ressonância.
— Como assim?
— No dia que você assassinou Vincent Vaugh, toda a quintessência abundante que habitava o corpo do arquimago se desprendeu dele na hora de sua morte indo direto para o receptáculo de energia mais próximo, no caso… você.
“O certo deveria ser sua arma, entretanto ela imediatamente negou. Acabou restando pra você absorver toda aquela energia.”
— Mas eu não senti nada…
— Não? Você não se sentiu com o corpo mais “pesado” nos últimos dias?
— Sim, mas… pensava que era apenas peso na consciência.
Eriol voltou a se concentrar e logo em seguida Phillipp sentiu como se uma grande energia estivesse se remoendo dentro dele. Segundos depois toda essa energia começou a sair de seu corpo de forma frenética indo direto para frasco de vidro que Eriol havia colocado ao lado da mão de Phillipp. Um frasco que possivelmente tinha uns 300ml ficou completamente cheio com a quintessência que saia do corpo de Phillipp.
No final, Eriol tampou o frasco com uma rolha e entregou nas mãos de Phillipp. O líquido interno não parecia ser nem líquido e nem gasoso. Tinha cor azul cristal e parecia pulsar como sangue em artérias.
— I-isto é…
— É a quintessência do falecido Vaugh. Isso por que retirei de seu corpo apenas 20% do que estava armazenado.
— 20%!?! Mas como eu não sinto tanto poder em mim???
— Por que você é uma criatura sobrenatural bastante evoluída. Por ser um Meio-Dragão de 1ª Geração, já está acostumado a carregar em seu Padrão quantidades exorbitantes de quintessência.
— Então… - levantou Philipp estupefato olhando para o conteúdo do frasco. — Criaturas sobrenaturais possuem muita quintessência em seus corpos.
— Além da conta. Eu mesmo, não nego, seria uma grande fonte de material para o seu ritual.
— Mas… - e Phillipp esticou o vidro para Eriol. — Eu não posso fazer esse ritual…
— Phillipp… Você está mesmo negando a salvação de toda a sua raça?
— Mas… eu… eu não tenho coragem de fazer esse tipo de coisa… Salvar pessoas em detrimento da vida de outras…
Eriol buscou o frasco e em seguida guardou em seu bolso.
— Fazemos assim… Faça o que achar melhor. Se mudar de idéia, me procure.
— C-como assim, Senhor VonBranagh?!? O senhor concorda com esse ritual?!? Você é o principal juiz do Arcanorum! Certamente, o que o senhor deveria fazer agora era…
— Era?
— Era me prender… pelo crime que cometi.
— Meu jovem… digamos que… depois de quase 600 anos de vida, eu concordo que este mundo já passou muito tempo sendo escravo ou rebanho de criaturas alienígenas que se acham no direito de fazer isso. Acho que já é chegada a hora de devolver este mundo aos seus verdadeiros donos.
Phillipp nada disse depois. Apenas baixou a cabeça e voltou sua atenção para a sacada fechada do hotel.
*****
[Soundtrack: I am the Highway – Audioslave]
Southwark. 03h00min.
Andando sem rumo através das ruas frias de Londres, pela primeira vez Phillipp sentiu o real peso da responsabilidade para com seu povo. Por um momento ele pensou em como os antigos reis sentiam-se antes de uma guerra. Ou o que passava na cabeça daqueles que eram jogados no meio de um campo de batalha onde não havia opções: se não matasse o inimigo, você seria morto por ele.
Era assim que Phillipp se sentia.
Era matar ou morrer.
E olhar para madrugada de uma das maiores cidades do mundo, uma cidade que nunca dormia, o fazia ter a plena certeza que estava em um campo de batalha. Não havia escolhas pra ele. E o pior… ele pressentia que certamente nada disso terminaria bem. Pelo menos, não para ele. Era quase certeza que, em algum momento desta jornada, ele iria encontrar a morte e não haveria como fugir dela.
Certamente, em algum momento, ele seria julgado. E não seria depois da morte. Seria ainda em vida. Ele seria julgado tanto por suas ações anteriores, como qualquer ação que decidisse tomar. E no final, restaria apenas o resultado de suas ações.
Então… pra que fugir dela? Pra que desistir agora sem ao menos ter tentado lutar. Por que esperar que a Roda dos Mundos girasse em definitivo se no final ele encontraria a morte do mesmo jeito? E pior, não fazer nada seria condenar as pessoas que ele mais amava também à morte. Aquelas pessoas humildes de uma vila abandonada no meio da Escócia. Pessoas boas, que vivem cada dia e cada momento de suas vidas na paz, sem fazer mal a ninguém. Por que condená-las à morte se havia uma alternativa de evitar isso?
Agora as palavras de Eriol começaram a fazer mais sentido para ele.
A questão não era decidir quem vivia ou quem morria. A questão era: “A sobrevivência do mais forte”. E esse era lema de sua raça durante milênios de existência. Certamente os antigos Dragões não pensariam duas vezes antes de matar outra raça para conseguir a própria sobrevivência. E ele não precisava se rebaixar ao nível de Sin-Fang. E foi exatamente isso que Eriol lhe mostrou. Mostrou uma alternativa. Uma chance de agir em prol de seus valores e ideais. Agir à favor de sua família e amigos e não por causa de uma moralidade e costumes questionável decidida pela sociedade atual.
Por mais que isso fosse errado. Por mais que isso seja nojento ou desprezível. Por mais que ele perca a consideração, a amizade, e o amor de todos que o cerca, ele não poderia ficar parado.
Não. Ele não poderia.
E essa seria sua escolha.
Sua única e fatídica decisão.
Não teria mais como voltar atrás…
Buscando seu celular, um número memorizado foi discado, em seguida ele esperou ser atendido:
<— Eriol VonBranagh.>
— Senhor VonBranagh. Eu já decidi. O que eu preciso fazer pra conseguir toda a quintessência necessária pro ritual?
*****
Southwark Station. 03h30min.
Phillipp havia escutado perfeitamente as instruções de Eriol. Entretanto, seu ódio por Nin Soo Yan superou toda sua racionalidade. Ele sabia que deveria “dar um tempo”. Que deveria deixar a poeira da morte de Vincent Vaugh baixar, mas… era impossível agüentar ter que escutar mais uma vez aquele chinês lhe subornando.
Ele já sabia que Derek não estava morto. E provavelmente estava bufando de ódio. Este era o local de encontro depois que sua missão estivesse concluída, entretanto… Phillipp pretendia fazer com que este lugar se tornasse o túmulo de Nin Soo Yan.
“Eriol está certo!”, pensou Phillipp friamente. Que mal fará a humanidade a morte de um bruxo chinês? Que ainda por cima tem planos malignos pra esta cidade. Ele estará fazendo um bem pra população!
Por precaução, Phillipp aproveitou e buscou em seu carro alguns equipamentos iluminados pra esta missão. Certamente, a Máscara de Jack seria ativada novamente. Mais que isso! Ele também irá usar um aparelho bastante usado pelos agentes iluminados: o “Cerco de Proteção Contra Atenção Alheia”. É um simples aparelho que lembra aqueles alarmes de segurança que ficam presos em paredes. Sua função seria, no caso, impedir que qualquer pessoa mundana viesse para a estação. Um aparelho bem útil pra evitar qualquer tipo de “testemunhas”. Além disso, como sendo perito em Tecnomágica Temporal, desta vez Phillipp trouxe consigo o seu equipamento pessoal iluminado: um PhDA focado apenas em rotinas de Tempo. Com ele, Phillipp não apenas conseguiria manipular o Tempo, como por exemplo: paralisá-lo, como também seria capaz de ver se existe algum curioso “viajante temporal” pela área. Certamente era melhor estar preparado pra qualquer coisa.
Phillipp conferiu o relógio. Eram quase 4 da manhã. Logo o metrô que vinha da estação London Brigde chegaria. Foi então que ele resolveu consultar seu PhDA pra saber se algum detetive sobrenatural iria usar rotinas de Tempo para investigar o local.
Confirmado.
Antes mesmo de chegar na plataforma da estação, ele percebeu que os agentes Templários, a polícia do Arcanorum, havia utilizado rotinas de Tempo pra investigar. Se eles estavam fazendo isso, era por que seu plano de matar hoje Nin Soo Yan daria certo. Entretanto, ele sabia que, mesmo usando a Máscara de Jack, seria difícil entrar na plataforma sem ser percebido. Foi então que uma idéia lhe surgiu em mente.
Vendo um mendigo dormindo nas escadas da estação, Phillipp consegue trocar com ele seus trapos por alguns trocados e assim, disfarçadamente, se dirigir até a plataforma onde estavam os detetives temporais.
Era óbvio que eles o haviam percebido. Mas o ignoraram Phillipp deitou perto da escada e com uma garrafa de cachaça deitou e fingiu dormir. Ver os detetives templários pelo PhDA era o mesmo que ver imagens de fantasmas sendo colocadas sobre a imagem real da Estação. Phillipp pensou que eles demorariam mais, entretanto eles logo desapareceram. Quando pensou que estaria sozinho novamente, foi que veio uma surpresa. Um novo grupo de viajantes temporais surgiu e seu PhDA os detectou. E eram ninguém menos que: Nick, Tawnee e o detetive Erick Russell.
Por um segundo Phillipp teve que conter a exaltação por ver que Tawnee, no futuro, ficaria bem. O triste era saber que em breve eles iriam investigar os assassinatos. Não havia mais dúvidas, certamente seu plano em eliminar Nin Soo daria certo, e possivelmente, tão cedo ele seria pego.
O metrô se aproximava. Um forte barulho de raios e trovões era evidentemente escutado ao longe. Phillipp pensou por um momento recuar, com medo que fosse algo ameaçador, até que ele escutou, através de seu aparelho, a voz de Nick e Erick conversando:
“<— Meu Deus!!! - exclamou Nick. – Que barulho é esse?!?>”
“<— É o momento em que a vampiresa Anne Hanover transforma Sebastian em vampiro. Lembram-se? Houve trovões, relâmpagos e um prenuncio de uma terrível tempestade. Uma forte ressonância negativa avançou por toda a cidade e foi sentida por todos os seres sobrenaturais e pessoas sensitivas. Foi um momento que até os anjos tiveram pena dos humanos.>”
“<— Tinha que ser o Sebastian… - ironizou Nick. – Até pra fazer cagada ele faz de forma apoteótica! Vejam! O metrô chegou!>”
“Então era ‘apenas’ o Sebastian”, pensou Phillipp. Mas pela conversa, parecia que independente do que acontecesse, algo iria acontecer naquela estação. Quando o metrô parou, Phillipp percebeu que uma mensagem havia acabado de chegar em seu PhDA. Seria alguém da Prometeu se comunicando? “Que péssima hora pra receber recados!”, pensou. Mas, em meio aos trapos imundos de seu disfarce, Phillipp viu que o remetente da mensagem era, de ninguém menos, do que ele mesmo:
“Deixe um D20 perdido”.
A mensagem era apenas isso. Ele não entendeu, mas achou estranho isso. Era de conhecimento de todos que Phillipp sempre carregou em consigo na carteira um dado multifacetado de 20 faces, como recordação. Era um dado perolado roxo, com números em dourado. Mas… “Por que ele deveria deixar um dado perdido?”.
Não havia tempo mais pra isso. O metrô já estava parado. Phillipp se levantou. Sem seguida, o maquinista correu desesperado com medo dos raios e fogos pirotécnicos causados pela Dark Sword. “Melhor assim.”, pensou. “Mal sabia ele que mais “shows elétricos” estavam reservados pra esta noite.”, sorriu ao começar a fazer seus dedos gerarem uma pequena eletricidade. Foi então que ele entrou no vagão onde estava Nin Soo Yan. Pra sua surpresa, o bruxo não estava sozinho…
[Soundtrack: Mortal Sin – Fullmetal Alchemist Brotherhood OST]
Nin Soo estava sentado em uma das cadeiras laterais enquanto, diante dele, estava ninguém menos que Derek Johannes. Os dois certamente acharam estranho a chegada de um mendigo com quase 1,90 de altura entrar no vagão olhando para eles. Phillipp jogou os trapos no chão e revelou sua identidade:
— PHILLIPP!!! – exclamou Nin Soo. — VOCÊ ME TRAIU!!!
— Como?!?
— Derek acaba de me contar que você revelou o nosso plano para ele!!! Maldito!!! Você está acabado, moleque!!! Vou arruinar toda sua vida e de toda a sua raça!!!
Phillipp, sem responder, olhou para Derek intrigado. Derek logo se adiantou:
— Eu estou também sabendo mais do que pensa, rapaz. E estou aqui também pra impedir que faça uma besteira. Não é isso que o nosso “Mestre” quer.
— Não se meta nos meus assuntos, Derek. – disse Phillipp lançando uma rajada elétrica em Derek derrubando-o imediatamente. – Agora o papo é só entre nós, Nin Soo.
O bruxo chinês logo se levantou e encarou Phillipp olho no olho:
— Quem você pensa que é em querer me encarar, britânico nojento. Você não pode fazer nada contra mim.
— Não?
— Você se esqueceu de nosso trato? Apenas EU posso lhe ajudar. Somente EU sei como salvar a sua raça. Seria uma verdadeira tolice matar sua única fonte de salvação. – disse levantando um sorriso. Mas logo esse sorriso entortou quando Phillipp lhe replicou seriamente:
— Você se tornou inútil para mim.
— C-como assim?!?
— Eu já consegui a informação necessária pra realizar o mesmo ritual de transmutação que seu mestre Sin-Fang usou. Realmente devo agradecê-lo por ter sido verdadeiro quando disse que tinha o conhecimento para salvar minha espécie. Entretanto… Você nunca deveria ter me subestimado.
Já sentindo as pernas tremerem, Nin Soo sabia que não haveria mais conversa ali entre eles. Ele sabia perfeitamente que havia passado dos limites com o Meio-Dragão e que ele não teria outra chance a não ser lutar por sua vida contra ele. Mas Nin Soo sentia que isso seria fácil. Phillipp, mesmo sendo um Meio-Dragão, era apenas um moleque se comparado aos poderes e a sabedoria de um Aruimago secular como Nin Soo Yan. Aquele duelo seria fácil.
Sendo o primeiro a agir, Nin Soo lançou um feitiço rápido de bolas de fogo que se multiplicaram como símbolos em Mandarim. Em uma pessoa comum certamente aquelas bolas de fogo teriam sido o suficiente para haver uma total carbonização. Mas Phillipp era superior àquilo. Nin Soo não sabia, mas ele havia ignorado dois fatos: Primeiro que Phillipp não era um Meio-Dragão comum. Ele descendia direto dos Deuses Dragões como sendo de Primeira Geração. Seu corpo, agora metamorfosiado em Kingu, sua feroz e magnífica transformação em Homem-Dragão, era incrivelmente poderosa.
E o segundo fato que Nin Soo havia ignorado: Phillipp ainda continha quase 70% de toda quintessência de Vincent Vaugh ainda com ele. Seu poder estava extremamente elevado.
Com toda sua fúria, Phillipp ergueu os dois braços, ignorou as chamas e em seguida lançou sobre Nin Soo Yan todo seu poder dos relâmpagos herdados de seus ancestrais draconianos. A fúria do dragão tomou por completo todo o vagão e até se estendeu para os restantes. A voltagem de seus relâmpagos era tão incrível que Nin Soo simplesmente não conseguiu se quer gritar. Seu corpo explodia em chamas até que, quando terminou, ele caiu completamente torrado com a cabeça em chamas.
Estava terminado. E Phillipp não se arrependeu nem um pouco.
Foi então, lembrando de sua conversa com Eriol horas atrás, que Phillipp prestou mais atenção nas ondulações energéticas do lugar. O corpo de Nin Soo Yan agora liberava uma pequena gama de quintessência que, se não encontrasse algum outro lugar pra se prender, iria simplesmente se dispersar. Phillip, agora retornando pra sua forma humana normal, esticou sua mão e sugou toda essa energia para dentro de si.
Sim… agora Phillipp estava entendendo o que Eriol havia falando. Sentindo aquela imensa energia vibrando dentro de seu corpo ele entendeu que, melhor do que matar centenas de milhares de inocentes, um único Ser Sobrenatural era uma grande fonte de energia pra concretizar seu ritual.
— Certamente, conseguirei salvar meu povo.
Saindo do vagão, Phillipp é parado por Derek que estava de pé e havia assistido tudo de camarote:
— Aonde pensa que vai, garoto?
— Nem tente me impedir, Johannes. Ou terá o mesmo destino que Nin Soo!
Foi durante esse diálogo que algo chamou a atenção de Phillipp. Uma mulher havia saído do vagão que estava logo atrás do dele.
E não era uma mulher qualquer.
Ele sabia exatamente quem era.
Era a Princesa da sociedade vampírica de Londres: Anne Hanover.
Phillipp sentiu que ali era o momento perfeito pra dar inicio a sua Cruzada. Paralisando o Tempo e Espaço com seu PhDA, Phillipp foi caminhando lentamente até chegar onde a Princesa estava. Ele olhou para Erick e tomou um susto: o policial e amigo de Nick estava apontando sua arma deliberadamente para a princesa e, do lado dele, estava ninguém menos do que o Familiar de Eriol: Spinel. Certamente o Diácono o havia enviado para lhe impedir.
Phillipp então olhou para Sebastian. Este estava inconsciente, mas estava vivo. E na direção da mira da arma de Erick estava ninguém menos que a Princesa Hanover. Era o momento ideal. Ele mataria a princesa e, sem que ninguém soubesse, a culpa cairia sobre Erick, mas… como sendo fiel escoteiro de Eriol, certamente ele não iria sofrer qualquer penalização.
O Meio-Dragão então se concentrou. Chamou por sua Light Arm, estivesse onde ela estivesse, e quando ela surgiu imediatamente a transformou em uma Magnum Desert Eagle prateada com entalhes em ouro. Essa era a única arma no universo que seria capaz de matar aquela princesa com apenas um tiro.
E foi o que ele fez.
A bala havia perfurado perfeitamente o crânio dela, mas como o Tempo estava paralisado, ela ainda não sofrera a sua Morte Final. Sem seguida, preocupado com o detetive, Phillipp mexeu o braço dele para que, se ele resolvesse atirar, que pelo menos não acertasse a princesa. Futuramente seria um bom argumento encontrar seu projétil perdido pela estação, provando assim sua inocência.
Quando tudo parecia terminado, Phillipp foi surpreendido:
— Você não pode fugir de mim, garoto! Eu já sei de seu crime! Por que você está fazendo isso?!?
Era Derek. E ele simplesmente estava ignorando completamente o efeito paralisante temporal de Phillipp.
Com seu tempo se esgotando e precisando sair dali imediatamente, antes que a estação ficasse cheia de pessoas, Phillipp resolveu fugir:
— ESPERE!!! – gritou Derek
Enquanto corria, Phillipp sentiu que deveria seguir conselho de sua mensagem. Por que, ele não sabia, mas talvez tivesse alguma lógica no futuro. Foi buscando rapidamente seu pequeno dado multifacetado do bolso que ele largou propositalmente, fazendo a pequena peça sair quicando pelas escadas até chegar na plataforma e, em seguida, cair nos trilhos.
Quando percebeu que Derek estava em seu encalço, Phillipp usou sua única forma de se livrar de seu perseguidor: a curiosidade das testemunhas. Assim que desligou o efeito paralisante temporal, Derek foi surpreendido por Erick e Spinel:
— Derek?!? – exclamou Spinel indo até ele. Erick foi logo atrás, mesmo preocupado com as cinzas da princesa.
Derek estava estranho, não agia com sua calma e frieza como de costume, e ao ser abordado por Spinel tomou um susto e foi logo se afastando:
— O que está fazendo aqui?!? – perguntou Spinel. – Você está bem, Derek?!?
Ao olhar para o lado, para dentro do vagão onde Derek havia saído e o maquinista fugido, Erick tem outro assombro:
— Spinel… veja.
Deitado em meio a uma poça de sangue, com seu corpo totalmente fuzilado por raio, estava Nin Soo Yan, visivelmente morto.
To be continued…