Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio LX

A História por trás da História – Parte Final

 

 

 

 

Oito meses atrás...

 

Segunda-Feira, 03 de Abril de 2028. 04h38min.

Blackfriars Road – Southwark.

Londres, Inglaterra.

 

Fugir da estação foi deveras fácil. Aquele aparato tecnomágico que repelia as pessoas tinha sido de grande utilidade. Phillipp buscou todos os aparelhos o mais rápido possível, inclusive sua valise que estava escondida, para em seguida seguir correndo pela avenida que cortava a estação. Realmente tudo havia dado certo. Em seu corpo estava armazenado uma quantidade exorbitante de quintessência, conseguida com a morte de Nin Soo Yan e da Princesa Vampira, e ele precisava descarregar isso o quanto antes.

“Que coincidência!”, pensou Phillipp. A princesa vampira estar logo na mesma hora e lugar que Nin Soo estava. “A Sorte está do meu lado hoje!”.

Após pegar uma boa distancia da estação, algo em torno de uns dez quarteirões, Phillipp parou de correr. Diante do cruzamento da Blackfriars com a Webber Street, se aproximou de uma daquelas máquinas de jornais e sobre ela colocou uma garrafa metálica de mais ou menos 30 cm, que estava guardada em sua valise.

Aquela não era, obviamente, uma garrafa comum. Ao abrir a tampa havia diversos mecanismos eletrônicos em seu interior. Fiações elétricas muito além de nossa tecnologia atual que piscavam em diversas cores. Aquilo era na verdade um recipiente de “Energia Primordial” (o nome dado à quintessência pelos Iluminados) feito com a hipertecnologia iluminada e que agora seria de grande utilidade.

Phillipp levou a garrafa até sua boca, como se fosse “beber” algo. Em seguida, involuntariamente, a quintessência em excesso armazenada em seu corpo passou para dentro da garrafa.

O liquido azul cristal saía calmamente de seus lábios e quando o recipiente encheu, Phillip o tampou imediatamente. Espantado, ele observou a garrafa:

— Se com apenas dois seres sobrenaturais anciões eu consegui essa quantidade exorbitante de quintessência, então…

Seus pensamentos agora começaram a enxergar claramente a possibilidade de salvação de toda sua espécie. Da Léia, mesmo brigada com ele, podendo ter a chance de continuar viva. Que milênios de cultura possam durar ainda mais outros milênios. Entretanto, por um segundo ele refletiu sobre o fato de que: pra isso acontecer, pessoas terão que morrer para que esse sonho se realize.

“Mas… o que fazer”, pensou Phillipp seriamente. “É a vida da minha família e das pessoas que amo que estão em jogo. E por mais que eu entregue todo o controle da sociedade sobrenatural nas mãos do VonBranagh, aqueles que irão morrer com certeza não farão falta nenhuma.”

Foi quando guardou a garrafa de volta na valise, que algo imediatamente chamou a atenção de Phillipp. Seus instintos primitivos começaram a aflorar e aquele arrepio de que algo de ruim iria lhe acontecer o tomava por completo. A Blackfriars estava deserta e as dezenas de árvores enfileiradas na calçada, deixavam a rua ainda mais sombria e apavorante. Por um segundo pareceu que o tempo havia parado. No momento em que as árvores agitaram-se com o vento, um ataque feroz banhou a Blackfriars em sangue.

[Soundtrack: Creepy Ambience Combat – Vampire Bloodlines]

Garras e rosnados inundaram tudo aquilo que Phillipp podia ver e ouvir. Com a fúria em que foi atacado, pouco dava pra saber a quantidade de seus agressores. Guiando-se por instintos e técnicas de combate, o meio-dragão ainda conseguiu, depois de muito esforço, por dois no chão e se desvencilhar de um terceiro.

O sangue escorreu por sua face deixando claro que aquilo não era brincadeira. Phillipp não sabia qual era a identidade de seus atacantes, mas certamente eles pretendiam levar a cabeça de Phillipp com eles.

Não demorou para o meio-dragão deixar-se dominar por seus instintos primitivos. Quando a fúria draconiana ferveu o sangue dentro de suas veias, seu corpo reagiu imediatamente iniciando assim sua transformação.

Seu coração batia ao som de trovões. Em sua mente, tambores retumbavam no ritmo de sua fúria. A visão enevoava apagando completamente seus sentidos com o mundo real. Todo seu corpo começou a arder em brasas. A sensação era de estar sendo lançado numa fogueira e a cada gota de ódio e agonia, sua pele era rasgada violentamente sendo trocada por uma camada coreácea em tom azul.

Numa questão de segundos seu corpo dobrou de tamanho. Asas de couro rebentaram-se de suas costas tão grandes quanto ele. Todo seu corpo tremia. Uma imensa eletricidade era gerada e expelia-se com violência por todo perímetro. Um de seus misteriosos agressores foi pulverizado por uma dessas descargas elétricas. Os outros, que haviam sido afastados, cuidavam-se para também não serem atingidos.

No fim, com quase três metros de altura, Phillipp pareceu ter terminado sua transformação. Sua face agora apresentava nitidamente o semblante de um dragão. Seus inimigos certamente não contavam com essa transformação, por isso recuavam, entretanto não fugiam. Mas foi apenas com um único rosnado que Phillipp deixou claro que eles o haviam enfurecido.

Com a visão rubra e os pensamentos caóticos, o meio-dragão não raciocinou muito no que iria fazer. Matar seus agressores parecia ser a única alternativa disponível no momento. O combate reiniciou.

Uma forte corrente elétrica rodeava Phillipp com agressividade. Aproximar-se dele não parecia ser uma boa alternativa, porém mesmo com essa proteção o meio-dragão avançou sem piedade contra um deles.

Suas garras de dragão foram capazes de causar uma destruição significativa no asfalto, porém ele não tinha conseguido atingir nenhum inimigo. Phillipp não esperava, mas um de seus agressores era capaz de se mover incrivelmente veloz. Phillipp rosnou. Era preciso muito mais do que garras para pegar aqueles dois.

Se um movimentava-se ligeiro, o outro parecia uma máquina de combate. De forma sobrenatural, um dos agressores simplesmente havia conseguido força suficiente para avançar contra Phillipp com tudo e derrubá-lo no chão com um único murro. O meio-dragão não estava em condições de raciocinar direito, porém escutou o deboche do inimigo com clareza:

— Você não é o primeiro metamorfo que nós enfrentamos. E nem será o último!

Foi nesse momento que Phillipp reconheceu a identidade de seus agressores:

— Vampiros…

O combate reiniciou. Os dois vampiros realmente não se intimidavam com a desenvoltura do oponente. Phillipp agora tinha o dobro do tamanho e força comparado as de seus oponentes, porém os dois conseguiam manter o briga em pé de igualdade. “Não eram vampiros quaisquer”, pensou. Ele teria que ser mais ardil se quisesse sair vivo dali.

O primeiro a atacar foi o vampiro veloz. Seus movimentos eram tão velozes que ele era apenas um borrão aos olhos do meio-dragão. E por causa disso, Phillipp não conseguiu evitar ser ferido várias vezes por garras extremamente afiadas. Seu sangue respingou novamente pela rua, mas Phillip não pretendia deixar isso por menos. Quando percebeu que era sua vez de atacar, o meio-dragão acumulou todas as suas forças sobrenaturais em suas mãos e em seguida lançou um raio que seria capaz de demolir um prédio de tamanha força. Esse vampiro poderia ser rápido, mas certamente não era mais rápido que a luz!

E foi exatamente o que aconteceu. O vampiro foi imediatamente atingindo pela corrente elétrica gerada e Phillipp deu como certo a sua destruição total. Mas tal foi a surpresa do meio-dragão que, o mesmo raio que pulverizou Nin Soo Yan não havia surtido qualquer efeito no vampiro. Se não bastasse sua velocidade sobrenatural, ao que parecia ele também possuía uma poderosa resiliência. Mais do que isso! Ele parecia estar guardando algum tipo de carta na manga.

Ainda com as correntes elétricas de Phillipp serpenteando seu corpo, o vampiro começou a concentrar toda essa energia em suas mãos, e tal como Phillipp fez, devolveu a descarga elétrica toda (se não maior) potência de volta para seu criador.

Por esta Phillipp não esperava e o golpe foi, sem dúvida, super efetivo. Lançado pela porrada do raio a mais de 10 metros de distância, Phillipp bateu com força na fachada de um prédio e em seguida caiu desfalecido no chão. Ele até tinha forças pra continuar caso não fosse o segundo ataque que lhe pegara desprevenido. O outro vampiro, o de força sobrenatural, aplicou um murro tão forte na cabeça de Phillipp que parecia que ele havia sido atingido por um imenso bloco de concreto. Agora não teve mais jeito. Sua fatídica derrota veio assim que sua consciência apagou por completo na calçada da Blackfriars Road.

Por essa Phillipp não esperava.

 

*****

 

Sede do Arcanorum. 04h50min.

 

Para ele, lançar seus olhos a qualquer lugar da cidade era trabalho de criança. Eriol não apenas observou tudo que aconteceu esta madrugada a quilômetros de distância em seu escritório no Arcanorum, como também influenciou os eventos com ajuda de sua poderosa magia. Obviamente Phillipp não iria conseguir fazer todo o trabalho sozinho. Seria necessário alguém dando-lhe total cobertura em suas ações. E esse alguém tinha que ser um arquimago.

Com seu imenso poder, Eriol conseguiu evitar que, num raio de 1 quilometro nenhum Mundano ou Ser sobrenatural se intrometesse nos eventos ocorridos na Southwark Station. E graças a isso Phillipp pode enfrentar os lacaios de Anne Hanover sem preocupações com Segredo Sobrenatural. Eriol também poderia ter ajudado Phillipp de alguma forma a derrotar aqueles vampiros, porém ele não poderia interferir nas correntes do destino.

Eriol não apenas era capaz de observar as ondas do Tempo com precisão como também tinha o poder de alterá-la. E atento a tudo que ocorreu esta madrugada, ele tinha ciência de que se tratava de um Evento Temporal Extraordinário e que suas conseqüências iriam ter fortes reflexos no futuro.

Mas tudo estava ocorrendo tal como ele planejara. Certamente, quando o Dia certo chegar, seu sonho finalmente iria se realizar. Ele esperou por muito, mas muito tempo por esse momento, e finalmente ele conseguia vislumbrá-lo com confiança.

E nada, e nem ninguém, iria impedi-lo.

Nesse exato momento, alguém bate à porta de seus escritório. Ele já sabia quem era, afinal ele escutou eles falarem que viriam até ele pedir por assistência. Levantando-se de sua cadeira, Eriol abriu a porta e dela surgiram Erick, Nick e um Sebastian inconsciente recém transformado em vampiro:

— Mestre! – disse Erick. – Você não acreditará no que aconteceu!

— Meu deus o que aconteceu com Sebastian?! O que foi que aconteceu?

— Resumindo… Sebastian foi transformado por Anne Hanover em vampiro. Nin Soo Yan está morto e, de algum modo, eu assassinei acidentalmente a Princesa vampira.

— O que?!? – fingiu Eriol espanto. – Vamos, deixem-no aqui nesta cadeira. Agora me contem o que aconteceu…

 

*****

 

Lugar Desconhecido. Hora desconhecida.

 

— Vamos desmembrá-lo!

— Não… Vamos beber todo seu poderoso sangue até ele secar!

— Não importa o que iremos fazer… Vamos fazê-lo sofrer!

 

As vozes o despertaram do fundo de seu subconsciente o trazendo de volta a razão. Sua cabeça latejava de dor. Ao abrir os olhos ele percebeu que havia algo de estranho no mundo. Pior. Não era com mundo. Era com ele! Aqueles vampiros que o atacaram por algum motivo o mantiveram ainda vivo. E ainda por cima o deixaram pendurado de cabeça pra baixo em algum lugar escuro e extremamente frio.

— Maldito… acordou, foi? – questionou zombeteiro um dos vampiros dando-lhe uma marretada logo em seguida. — Se não bastasse ser um maldito metamorfo ainda por cima é um Agente Iluminado!

Phillipp não disse nada. Porém indagou-se como aquele vampiro ficou sabendo que ele era um agente iluminado. Foi então que ele percebeu que um bando de vampiros estava revirando sua valise e mexendo em seus apetrechos tecnomágicos. Dentre eles, a garrafa onde estava guardada seu tesouro inestimável:

— T-tirem suas m-mãos disso daí… - gaguejou Phillipp. — Ou irão… se… arrepender!

As palavras de Phillipp apenas arrancaram risadas de deboche dos vampiros.

— Você não está em posição pra fazer ameaças… dragãozinho. – disse um dos vampiros.

Aos poucos Phillipp estava se irritando. Mas realmente ele estava numa posição extremamente desfavorável. O lugar era bem escuro, quase um breu, caso não fosse as poucas velas acesas. Ali parecia ser algum um tipo de porão onde não era possível nem escutar os sons externos. Não haviam brechas ou formas de sair dali sem ter que sair na porrada com mais de uma dúzia de vampiros. Enquanto Phillipp pensava numa maneira de fugir, um dos vampiros veio até ele pra conversar. Pela educação e postura da voz, aparentava ser o líder deles:

— Responda-me, Iluminado. Por que você assassinou a Princesa Hanover?

— Isso não é da sua conta.

— Mas é claro que é. Afinal você matou um das maiores líderes de nossa raça nesta cidade.

— E que diferença faria eu lhe contar? Você não irá me deixar sair daqui vivo de qualquer jeito.

— Talvez você se engane. – respondeu o vampiro agora aproximando-se mais do rosto de Phillipp. – Caso não saiba, eu só tenho a ganhar com a morte dela.

— É mesmo… eu me esqueci que vocês vampiros são uma corja de cobras traiçoeiras. Realmente “uma menos” não fará falta nenhuma.

— Bem… o termo “cobra” não se adequaria bem ao meu clã… “Bruxo” seria o termo mais adequado.

Phillipp captou essa indireta e logo desconfiou de quem se tratava o homem com quem conversava:

— Acredito que você seja Nathaniel Thornham, o líder dos vampiros feiticeiros de Londres.

— Vejo que minha reputação me precede.

— Sim. Principalmente por que, depois da princesa, você será o próximo da minha lista.

Tais palavras apenas fizeram o sangue de Nathaniel ferver. Porém ele não perdeu a postura. Buscando Phillipp pelos cabelos, ele o trouxe até sua fronte e o fitou olho no olho:

— Não brinque comigo, Iluminado. Não se esqueça que comparado a mim, você não é nada. Posso destruir sua vida e toda sua linhagem com apenas o estalar de meus dedos?

— “Todo a minha linhagem?”. Você não está sendo um pouco equivocado? Lembre-se de que minha linhagem, sozinha, foi capaz de destruir uma Legião de Demônios inteira no passado. Por fim num bando de vampiros não seria qualquer problema.

— Por que você assassinou a Princesa Hanover? – questionou Nathaniel mudando de assunto.

— Por que ela chutou o meu cachorro. – ironizou Phillipp.

Entretanto, em meio a bate-bocas e ironias, Phillipp estava querendo ganhar tempo. Poucos sabiam, mas seus poderes não se limitavam a apenas criar correntes elétricas do nada. Ele possuía “sentidos especiais” capazes de lhe proporcionar percepções sobrenaturais de toda e qualquer corrente elétrica ao seu redor. Ele estava quase conseguindo o que queria… Só precisava ganhar tempo.

— Parece que eu terei que ser mais persuasivo contigo. – ameaçou Nathaniel enquanto entrelaçava os dedos. – Vamos ver o que há dentro desta sua cabeça.

 O nervosismo tomou conta de Phillipp. Ele sabia que poderia resistir aos poderes de dominação mental de Nathaniel por um tempo, porém dificilmente iria agüentar por muito tempo. Ele precisava ser agir. E rápido.

Enquanto Nathaniel se aproximava dele com os olhos misticamente possuídos por uma aura azul, Phillipp percorria mentalmente toda a rede elétrica do lugar com seus sentidos sobrenaturais e, graças a isso, ele finalmente descobriu onde se encontrava em Londres – um bairro, um tanto afastado, bem próximo da velha Londres, onde a maioria das edificações tinha séculos de idade. Foi nesse momento que ele conseguiu encontrar um gerador de energia, que por sinal, ficava no sótão, bem próximo a ele.

Com os olhos sendo fixados nos de Nathaniel, Phillipp Não pensou duas vezes: era hora do tudo ou nada.

— Vamos lá, Iluminado. Conte-me tudo o que sabe.

Arrogante, Phillipp respondeu:

— Sim. Contarei tudo. Começando que como Dragão, um dos meus principais ataques é cuspir eletricidade!

Enchendo a boca de correntes elétricas, Phillipp cuspiu um gigantesco trovão que atingira à queima roupa Nathaniel e logo em seguida acertou o gerador dando-lhe um curto-circuito fulminante fazendo-o explodir.

 

*****

 

[Flashback: Episódio 15]

 

Capela da Rosa Negra. 06h05min.

 

Sebastian estava aflito, mas não demonstrava. Há poucos minutos atrás ele deixara a sede do Arcanorum e a segurança do escritório de Eriol VonBranagh para acompanhar Kravinoth, seu mais novo Ancião, no qual lhe deve obediência de acordo com as leis vampíricas. De acordo com Eriol, Kravinoth era a pessoa mais indicada a ajudá-lo nesse momento e que ele não deveria ter receio ou medo.

A viagem foi rápida pelas ruas de uma Londres que estava prestes a amanhecer. Kravinoth nada falara pelo caminho e tão logo quando chegara em seu destino, apenas mandou Sebastian descer do carro e entrar imediatamente numa estranha loja de antiquários. Esta era a sede da Sociedade da Rosa Negra, a Sociedade dos Vampiros de Londres. E Sebastian estava realmente aflito a cada passo que entrava naquela loja.

Sozinhos, Kravinoth apenas foi até o balcão e com o movimento de sua mão fez, sobrenaturalmente, as grossas janelas se fecharem. Em seguida, numa leve penumbra, virou-se sério e frio para o jovem e caminhou até ele não tirando os olhos dele dos seus:

— A-algum problema, K-Kravinoth…? – perguntou Sebastian ficando agora nitidamente aflito.

— Dê-me a espada.

— Como?

— Dê-me a espada, Sebastian. – ordenou o ancião agora com os olhos brilhando num tom azul safira. Possuído pela dominação do poderoso vampiro, Sebastian desembainhou a Dark Sword.

Naquele momento a sede da Rosa Negra explodiu em chamas.

 

*****

 

[Flashback: Episódio 54]

 

Sábado, 21 de Outubro de 2028. 05h15min.

Brunel Road.

Londres, Inglaterra.

 

— E foi assim que aconteceu…

 

Sob o teto da antiga residência do detetive Erick Russell, Nick, Sebastian, Matthew e Keira escutaram atônitos tudo que Phillipp contou para eles. Havia um misto de espanto e nervosismo em todos. Não havia como esconder suas reações perante a tantas revelações.

O primeiro a se indignar e se levantar da cadeira completamente possesso foi Sebastian. Para todos, uma reação inconveniente pra ocasião, porém ele tinha suas razões:

— Então… esse tempo todo, eu apenas servi de laranja?!? Você fazia as suas burradas e eu pagava o pato?? É isso!?!

— Bem… Eu tentei o máximo possível minimizar as coisas. Mas Sebastian, eu juro pra você que, tanto no dia do ônibus quanto na capela dos vampiros eu não tinha a menor idéia que você estava lá. As duas vezes pareceu extrema coincidência você estar presente exatamente no local onde aconteceria as explosões!

— Mesmo assim!!! Eu passei todos esses meses tendo que aturar vampiros e os diabos me acusando de tudo, sem eu ter feito absolutamente NADA!

— Eu sei… mas…

— “Mas” NADA!! Estou cansado disso! Só por que eu sou o portador da Dark Sword tudo tem que ser culpa minha na porra desta cidade? Eu não posso fazer nada que: “lá vai o Sebastian! Deve estar aprontando alguma coisa!” ou “Aposto que foi ele que matou fulano-de-tal! Claro que é ele! Só ele tem o poder pra tal e a burrice pra fazer uma coisa dessas”. Eu to cansado disso!!! CANSADO!!!

Extremamente furioso, principalmente agora que se tornou um vampiro e seus instintos bestiais estão à flor da pele, Sebastian seguiu em direção à porta pretendendo ir embora. Porém ele parou e fez apenas uma pergunta:

— Nick.

— Eu.

— Pretende ficar?

— Bom… - Nick olhou para Phillipp, mas sabia que não havia mais nada o que perguntar. — Eu irei contigo. Tenho uma esposa que está me aguardando em casa preocupada. – levantando-se… — Até qualquer dia, Matt. Keira, a Tawnee aguarda uma visita sua qualquer dia.

— Fala pra ela que assim que as coisas melhorarem e o James for encontrado eu ligarei para ela.

— Certo. Então… - Nick não pretendia falar nada com Phillipp, porém… — Quanto a você, meu chapa… Você tomou suas próprias decisões e assumiu os riscos. Se é nisso que você acredita. Se acha que é dessa maneira que se faz o mundo, então não há nada que possamos fazer por você. Por hora… eu estou completamente satisfeito por ter conseguido realizar o trabalho de meu amigo que infelizmente morreu tentando encontrar a verdade. Agora tanto a alma dele quanto a minha consciência poderão descansar em paz. Porém… eu não sei quais são os planos do “Você sabe quem”, mas se por um acaso ele pretender fazer alguma coisa que ponha em risco a vida das pessoas que eu amo e considero muito, pode ter certeza que eu não ficarei parado. Mesmo que meu inimigo seja um trilhão de vezes mais poderoso do que eu.

— Certo. – disse Phillipp sem ter o que dizer.

— E isso vale pra você também.

Terminando o que tinha pra dizer, Nick seguiu Sebastian e os dois saíram pela porta sem qualquer despedida ou olhar para trás.

Quando o apartamento voltou a ficar silencioso, Matthew e Keira voltaram sua atenção para Phillipp. E, por parte de Matthew, não como ouvintes e sim como interrogadores:

— Eu escutei com atenção cada ponto e vírgula que você disse. Entretanto… Ainda não consigo entender uma única coisa… Por que você matou o Spark?

— Eu não…

Antes de Phillipp terminar suas desculpas, Matthew deu um murro na mesa o interrompendo:

— VOCÊ MENTIU PARA NÓS! VOCÊ NOS ENGANOU!! NOS FEZ DE BABACAS ESSE TEMPO TODO!!! NÃO ME VENHA COM AS SUAS DESCULPAS! EU QUERO A VERDADE!! POR QUE VOCÊ MATOU O SPARK, PHILLIPP?!?

Phillipp sentiu-se tão pressionado por Matthew que não conseguiu formular nada que pudesse se explicar. Com outro murro na mesa, Matthew exigiu uma resposta imediata:

— RESPONDA PHILLIPP!!!

— Eu não tenho o que dizer.

— Você matou um cara que te chamava de amigo. Que daria a vida por ti. E você não tem nada pra dizer?

— E você acha que eu não sei disso? – respondeu Phillipp com os olhos marejados.

O clima estava tão tenso e pesado que o silêncio foi a única coisa que restou entre eles. Sentindo-se mal, Keira precisou fazer algumas perguntas:

— V-você disse que após esse dia você começou a seguir as ordens do… “você sabe quem” à risca. Porém existem algumas pontas soltas.

— Sim?

— Por que no dia em que Stephanie foi sequestrada, véspera do meu aniversário, “Você sabe quem” veio até a minha casa e apagou a minha mente e a de James? Qual era a intenção dele?

— Naquele dia, vocês iam descobrir tudo…

— Como assim?

— Mas como sempre… como sendo um Mestre do Tempo, ele evitou que isso acontecesse antes do tempo. Ele fez a mesma coisa no dia seguinte em que fui falar com o Danyael.

— Dia seguinte? – questionou Keira.

— Sim. Na época ele era a única pessoa que eu conhecia que poderia me ajudar de alguma forma. Agora que os vampiros estavam atrás de mim… Entretanto, “Você sabe quem” descobriu o que eu ia fazer e me impediu de dizer qualquer coisa muito antes de se quer eu ter um diálogo com o Danyael…

 

[Seis Meses Atrás…]

 

Segunda-Feira, 03 de Abril de 2028. 08h45min.

Paradísia Night Club.

Londres – Inglaterra.

 

— Eu sei por que você veio até aqui, Phillipp. – disse Eriol que estava diante de Phillipp na porta da casa noturna de Danyael Kimble.

— Eu… apenas vim conversar com um amigo.

— Não… Você veio pedir ajuda à ele. Você pretende contar tudo, inclusive nossos acordos.

— Como você…

— Phillipp… eu apenas preciso fechar os olhos pra que as janelas do tempo/espaço se abram para mim. Acabo de vir da Capela de Kravinoth, no qual esta explodiu em chamas misteriosamente. Não precisei pensar muito pra ligar o ocorrido a você.

— Sim, VonBranagh! Eu acabo de ser caçado por 5 dúzias de vampiros e todos estão sabendo que eu… você sabe.

— Sim eu sei.

— E pior! Eu acabo de matar o líder dos vampiros feiticeiros deles. E pela forma que o matei certamente vão ligar todos os assassinatos à mim. Eu não sei o que fazer.

— E você veio aqui falar com Danyael acreditando que ele pudesse lhe ajudar.

— Claro.

— Não, ele não poderá.

— Por quê?

— Por que eu apaguei a mente dele. Eu também sei da conversa que vocês tiveram dias atrás. Ele pretendia apagar a própria mente pra poder mentir com veracidade, entretanto ele vacilou naquele dia. Precisei “ajudá-lo” nisso.

— Então… estou perdendo meu tempo aqui.

— Não, não está. De acordo com as correntes do destino, este é o seu momento de ouro. Seus amigos Iluminados não desconfiam de você. Agora você precisa que Danyael também não desconfie. Assim, você irá falar com ele. Entretanto, irá conversar sobre outro assunto.

— Que assunto? Eu nem imagino o que poderei falar com ele!

— Seja criativo.

— E olha o meu estado!!! Como irei convencê-lo de que não tenho nada haver com essas explosões estando todo sujo, rasgado e sangrando?

Com um simples estalar dos dedos Eriol resolveu todos esses “problemas” físicos de Phillipp. A roupa havia ficado limpa e nova. As feridas cicatrizaram. E por fim, toda a sujeira desapareceu. Simplesmente pareceu que Phillipp havia acabado de sair de casa.

Mesmo impressionado ele mal teve tempo de dizer qualquer coisa:

— Dei-me a garrafa. Ficarei com ela.

— Certo… - E Phillipp entregou para Eriol a garrafa que continha a quintessência de suas vítimas.

— Agora vá. E tome cuidado com o que vai dizer.

Deixando Phillipp sozinho na calçada do Paradísia, Eriol retornou à sua limosine e ordenou ao motorista que seguisse seu caminho de volta para sua casa.

Phillipp respirou fundo. Eriol disse que aquele era um momento de ouro. E ele nunca errava. Então não poderia haver dúvidas agora. Phillipp precisava seguir à risca o que ele mandava.

 

***

 

[Flashback: Episódio 16]

 

Paradísia Night Club, Piccadilly. 09h00min.

 

— Entre. – convidou Danyael assim que porta de seu escritório foi batida.

Despojado, com roupas bem joviais e estampadas, Phillipp O’Connor entrou no escritório levando tudo na timidez. Com um olhar verdadeiro, viu o amigo de faculdade e o cumprimentou:

— E ai, Danyael.

— Diga lá, Phill! O que faz por aqui plena segunda?? – Danyael e Phillipp apertaram as mãos, mesmo separados pela mesa do escritório.

— Ah… eu vim conversar.

— Certo… - disse Danyael com olhar vazio já imaginando que poderia ser algo sério. Mantendo-se de pé, o dono da boate deu a volta pela sua mesa e foi até seu bar particular e buscou dois copos de uísque.

(…)

 

*****

 

— Entendo. – disse Keira escutando atentamente tudo que Phillipp havia dito. — Então parece que ele é quase um Semi-Deus, capaz de ver e saber tudo que acontece no Passado, Presente e Futuro com um simples piscar de olhos.

— Exatamente.

— Então ele já deve estar sabendo que nós descobrimos que você sabe.

— Bom… eu acho. Durante esses meses eu comecei a estudar sobre os arquimagos. Não existe muita coisa sobre esse assunto, justamente por são raros os arquimagos que existem no mundo. Eu precisei estudar a arquimestria básica e depois elevar esses estudos ao quadrado pra poder imaginar como seriam os poderes de “Você sabem quem”.

— E como são os poderes dele?

— São grandes. Não sei o quanto, mas são bem grandes. Ele é capaz de prever o futuro mais longínquo? Botar uma metrópole inteira pra dormir? Transformar o dia em noite? Fazer a Lua se chocar com a Terra? Apagar o sol? Sinceramente eu não sei. Só sei que ele é bastante poderoso. Entretanto…

Mesmo boquiabertos Matthew e Keira se espantaram com o “entretanto” de Phillip:

— …Ele ainda é um mortal.

— Não. – negou Matthew. – Ele é imortal. Ele tem mais de Seiscentos anos!

— Não mais. Andei conversando com alguns dos familiares de Danyael, principalmente com Flávius e eu descobri que há alguns anos atrás ele sacrificou sua imortalidade para receber a redenção divina. Foram os próprios Arcanjos que deram isso a ele. Hoje, mesmo com aquela cara jovial, ele está envelhecendo. Só que em ritmo normal à sua condição física que havia ficado em estase durante todos esses séculos.

— Mas e daí se ele é mortal ou não? Ele ainda tem o poder dos deuses em suas mãos! – argumentou Matthew.

— Porém ele não tem um corpo que suporte tal poder. Em resumo… Mesmo que ele tenha um grande poder, ele agora é limitado pelas condições humanas. O cérebro dele não é mais como antigamente. Ele provavelmente se esquece de muita coisa de seu passado. Tem fadiga. Precisa dormir, comer, fazer sexo. Enfim, suprir todas as necessidades humanas. Então, baseado nisso, ele é incapaz de, por exemplo, ser onipresente e onisciente.

— Não entendi…? – questionou Keira.

— O que Phillipp quis dizer é que o cérebro dele, mesmo até mais inteligente e desenvolvido, não agüenta tamanho poder. Ele não consegue ficar 24 horas por dia ligado em tudo que acontece no Espaço/Tempo ao seu redor.

— Exato. Ele precisa querer prever o Futuro pra saber o que irá acontecer.

— Então… se ele não sabe que nos encontramos aqui…

— Ele não sabe de nada. Mas… é como eu disse antes: eu acho que ele não sabe do que aconteceu hoje. Se por um acaso ele tiver usado sua “visão futura” hoje, principalmente em cima de mim, certamente ele já deve saber. Se não…

— Vamos ter que contar com a sorte.

— Sim.

— Mas… você ainda não nos explicou. – interrompeu Keira. — Por que ele apagou a minha mente?

— Bom… naquele dia…

 

[Seis Meses Atrás…]

 

Domingo, 09 de abril de 2028. 01h40min.

Earls Court Road.

Londres – Inglaterra.

 

Correndo pelo corredor do prédio de James e Keira, Phillipp e Spark chegam momentos após Stephanie ter sido seqüestrada. O apartamente estava em um caos total e James e Keira tentavam arrumá-lo até perceberem a chegada dos amigos.

— Vocês estão bem? – questionou Spark.

— Sim, sim. – disse James. – Só a Keira que está um tanto dolorida.

— Mas vai passar. Obrigada por terem vindo.

— Será que é bom continuarmos aqui? Não seria melhor irmos para um lugar mais seguro? – questionou Spark preocupado.

— Sim, mas tenho que aguardar a chegada do Diácono Eriol VonBranagh.

— O Diácono em pessoa está vindo pra cá? – questionou Phillipp intrigado.

— Claro! Estamos falando do seqüestro da afilhada dele. – respondeu James.

— Entendo. Mas afinal de contas, o que aconteceu aqui?!? – perguntou Phillipp observando mais atentamente o apartamento semi-destruído.

— Não sei… - respondeu Keira. – Simplesmente, Stephanie e eu estávamos arrumando os preparativos pra minha festa de aniversário quando de repente fomos atacadas por ninjas!

— Ninjas?!? – perguntou Spark com tom de sarcasmo.

— Sim, ninjas! E se Stephy não soubesse lutar Kung-Fu ela teria sido levada sem problemas. Ela lutou até o fim!

— Então ela deve estar em grande perigo! – afirmou Spark. – Temos que ir ajudá-la imediatamente!

— Acho melhor não. – disse James.

— Por quê? – questionou Spark incrédulo.

— Por que minutos antes de vocês chegarem o Conselheiro Derek Johannes esteve aqui, fez todo o seu interrogatório e em seguida saiu dizendo que ia resolver esse assunto pessoalmente e sozinho.

— Eu entendo que estamos falando da namorada dele, mas… O que eu não estou conseguindo entender é o que realmente aconteceu aqui. – argumentou Spark. – Keira disse que vocês foram atacadas por… “Ninjas”?!

— Devem ser membros da Irmandade dos Mandarins. – disse Phillipp.

— Sim, Phillipp está certo. – concordou James. – Se pensarmos bem, eles acabaram de perder seu Grão-Mestre e o principal suspeito é ninguém menos do que Conselheiro Johannes. Sequestrar Stephanie talvez seja uma forma…

— …de atingir o invencível Derek Johannes. – completou Spark o raciocínio.

— Mas essa história ainda ‘tá muita estranha pro meu gosto.

— Como assim, James?

— Por que diabos Derek assassinaria Nin Soo Yan? E principalmente… O que ele iria ganhar com isso? Isso que não estou nem ligando ele ao primeiro assassinato que seria mais sem lógica ainda! Matar Vincent Vaugh não levaria a nada. A próxima votação pra Diácono vai demorar e matá-lo apenas deixaria o acento dele vago.

— Ou… - completou Keira o raciocínio do marido. — O poder de toda uma cidade nas mãos de um único homem.

— O que você está querendo dizer com isso, Keira? – questionou Phillipp agora intrigado e interessado no assunto.

— Ora… isso é obvio. A próxima eleição irá demorar bastante. Com a morte dos dois principais membros da oposição, restará apenas eliminar mais alguns Grão-Mestres para que todo o poder do Arcanorum recaia em apenas um homem.

— Mas ele não faria isso! – disse Phillipp espontaneamente. Quando parou pra pensar direito no que disse, percebeu que possivelmente pode ter se comprometido.

O pior era que James era mais vivo do que uma águia:

— Como assim “ele”, Phillipp? De quem você está falando?

— Hã? Não… Eu pensei que vocês estivessem falando do diácono!

— Não. As suposições de Keira, como você bem percebeu, não tinham uma pessoa definida, mesmo por que não há como culpar ninguém no momento. Poderia tanto ser um Diácono como um Conselheiro.

— S-sim, eu sei. – Phillipp sem querer começou a suar frio e sentir-se acuado. — É que eu não prestei muita atenção e achei que vocês estivessem falando do Diácono VonBranagh.

Agora foi a vez de Spark desconfiar:

— Por que você fala tanto no Diácono VonBranagh, Phillipp? Você tem alguma desconfiança nele?

— N-não! Calma pessoal… Eu só acho… digo, achei que… a Keira tava falando dele.

— Mas eu nem citei nomes e cargos! – disse Keira.

— E-eu sei… mas…

— Phillipp… - chamou James agora agindo seriamente. – Você está sabendo de alguma coisa que ainda não nos contou?

Agora Phillipp estava completamente acuado, jogado contra à parede pelos amigos. Não adiantava mais tentar mentir. James era um especialista em perceber se uma pessoa estava mentindo ou não. E pra agravar, ainda tinha a intuição de Keira que sempre beirou a paranormalidade. Não tinha mais o que fazer… Era contar ou ter que mentir descaradamente e ter seus melhores amigos atrás dele feito coiotes no deserto sedentos pela verdade.

 

Phillipp realmente havia posto tudo a perder…

 

…Se caso isso tudo não passasse de uma simples visão de um arquimago capaz de ver tudo que acontecerá no Futuro apenas fechando seus olhos brevemente:

 

— Eriol? Podemos seguir a diante? – questionou Spinel, o gato familiar de Eriol, que estava aos seus pés aguardando seu mestre voltar do trase.

— Sim. Podemos.

— Meditando?

Visão Futura.

O que você viu?

Nada demais. Apenas que foi melhor termos chegado rapidamente aqui.

E o que iremos fazer aqui? Stephanie foi sequestada. Não seria melhor ir ajudar o Derek?

Não será necessário. Vai tudo dar certo. Agora, aqui, é mais importante. Precisaremos apagar as mentes desse casal.

Apagar a mente deles? Isso será vital?

Extremamente.

— Então vamos.

 

***

 

[Flashback: Episódio 27]

 

Earls Court Road. 01h35min.

 

Eriol e Spinel haviam acabado de chegar à residência de James. Sendo cordialmente atendidos, James pensara que o seu antigo professor universitário estivesse nervoso e preocupado. Mas tal foi sua surpresa a calma que o Diácono recebeu a noticia do ocorrido.

“O que estava acontecendo?”, indagou-se. Em que mundo esses Grão-Mestres viviam onde o seqüestro de um ente querido era tratado como se fosse a coisa mais normal do mundo?

— Derek já esteve aqui, correto James?

— Sim, professor. Ele fez algumas perguntas e logo saiu.

— Entendo. Então não há nada que possamos fazer agora. Derek se encarregará de tudo. Entretanto, sua jovem esposa está bem?

— Sim, claro! Ela apenas está descansando.

James estava abismado. Mesmo sempre apoiando o Diácono, ele não acreditava que Eriol estivesse tão livre de preocupações e deixando tudo nas mãos de Derek Johannes – que por sinal era o principal suspeito dos assassinatos dos Grão-Mestres.

Sem tirar os olhos de Eriol, James o observava passear estranhamente os olhos pelo aposento, como se o arquimago estivesse vendo coisas que a visão mundana de James não podiam ver. Já Spinel, seu Familiar, estava sentado como um gato preto comportado sobre a poltrona sem tirar um segundo se quer os olhos de James – algo que já o estava incomodando.

— Então é isso, James. – disse Eriol tranquilamente mostrando-se pronto pra ser acompanhado até a porta.

De repente ele fez uma pausa.

— Esqueceu algo, professor?

— James… Gostaria apenas que me perdoa-se por isso.

— Perdoar…???

Inocente e sem se perceber que já estava envolto por uma energia transcendental, James foi tragado pelo poder mágico de Eriol que se manifestou em breves segundos num lampejo azul-céu, intenso e vibrante. Com os olhos fitando o horizonte, James estava totalmente sobre domínio do poderoso arquimago:

Esquecerás de tudo que acontecera aqui esta noite. Sua casa está neste estado por que quase foi assaltada, mas a segurança da rua chegou a tempo e já prendeu os assaltantes. Sua esposa foi levemente agredida e possivelmente estará em estado de choque nos próximos dias com medo de assaltos. Não houve nada mais além do que eu te disse essa noite. Quanto a Stephanie, ela tinha ido embora minutos antes do assalto. Esquecerás também a visita de Derek, de Spinel e a minha, voltando a sua vida normal.

Fazendo a faxina nas Memórias do rapaz, Eriol o deixou lá parado na sala até que pudesse sair da casa. Naquele momento, Spinel vinha do quarto de casal em sua forma humana sorrindo maliciosamente.

— Fez tudo direito, Spinel?

— Sim, ela não se lembrará de nada.

— E por que o sorriso?

— Deixei um presente pro garanhão ai! – batendo no ombro de um James aéreo, Spinel sorriu: — Espero que tenha bastante fôlego, rapaz porque a mulher ‘tá pegando fogo lá dentro! Se eu fosse você ia correndo lá!

— Vamos?

Voltando a sua forma felina Spinel respondeu seguindo na frente:

— Hehehe! Claro!

Fechando a porta, Eriol apenas estalou os dedos e no mesmo instante James (e Keira lá dentro do quarto) voltaram à razão sem se lembrar de absolutamente nada…

 

*****

 

— Daí o resto vocês já sabem. – continuou Phillipp. — Quando chegamos lá vocês nos disseram que tudo não passou de um assalto e que seria melhor instalar proteções tecnomágicas melhores em seu apartamento.

Keira estava boquiaberta. Ela sabia que a sua memória e a de James havia sido alterada de alguma forma, apenas não sabia como, por que e, principalmente, por quem.

— Naquele dia certamente iríamos saber dos seus segredinhos sujos, não é? – questionou Matthew.

— Pelo que o “Você sabe quem” me disse depois, parece que sim.

— Então é isso… nossas vidas estão completamente nas mãos de um filho da puta maldito incrivelmente poderoso. Não podemos nem pensar em fazer qualquer coisa que ele será capaz de prever e evitar com antecedência.

— Basicamente… é isso mesmo. – respondeu Phillipp com tom derrotado. – É por isso que depois de um tempo eu comecei a desistir de tentar lutar contra ele. Comecei até mesmo a desistir de mim mesmo.

— O que eu não entendi até agora é: qual a relação do Biltre com essa história toda? – indagou Keira cismada. — Lembro-me que na época esse bicho causou um verdadeiro rebuliço na cidade, pois suspeitavam que não existisse nenhum assassino e sim um devorador de criaturas sobrenaturais à solta.

— Tudo armação Dele. – respondeu Phillipp categórico.

— Impossível. – retrucou Matthew. – Você, melhor do que ninguém, sabe que o Biltre é criação de gene-engenharia dos Iluminados. Como pode o Von… digo, “Você sabe quem”, teria acesso a essa criatura?

— Você se esqueceu do que aconteceu no dia do Assalto à Jupiter’s Corp?

— Não. Você estava acatando as ordens do Almirante Dorje Washington. Até agora estou com aquilo entalado na garganta. O que diabos aconteceu naquela noite?!?

— Antes de chegar até nesse caso, primeiro o que deve estar acontecendo… Sim, “o que deve”, por que eu, por incrível que pareça, também não estou à par de tudo. Enfim, eu suspeito é que exista uma sociedade secreta dentro do Arcanorum. Uma sociedade composta apenas por alguns membros do Conselho.

— Por que você desconfia disso?

— Por que eu percebi certa vez que algumas pessoas do Arcanorum estavam cientes do que estava acontecendo, porém mantinham-se caladas deixando o circo pegar fogo.

— E você sabe mais ou menos quem são?

— Sim. São aqueles que, por curiosidade, não estavam na lista de futuros assassinatos que “Você sabe quem” me entregou.

— Você tinha uma lista?!?

— Sim.

— Então você realmente é um Serial Killer!

— Obrigado por pôr mais um prego no meu caixão.

— Enfim… desembucha logo quem são eles.

— Bom, primeiramente (e meio que óbvio dado as circunstancias), Derek Johannes.

— Realmente é óbvio…

— Depois o Diácono Andreas.

— O melhor amigo de “Você sabe quem”.

— Daí tínhamos o Dorje e o Julien Rieger.

— Mas esses dois morreram. Pelo menos um deles foi fritado algumas horas atrás bem diante de nossos olhos…

— Pois é! O nome dos dois apareceu apenas no final. E foi o próprio “arquiteto” que mandou eu realizar as ações.

— Mas mesmo assim… ainda tem milhões de coisas mal-explicadas! Como pode você saber quem serão os próximos da lista, isso incluindo um de seus melhores amigos, o lobisomem Philox, e mesmo assim dar continuidade ao processo?

— Bom… depois de Nin Soo eu deveria dar um tempo. O biltre ajudou bastante em dispersar as atenções dos investigadores, inclusive a de vocês. Lembra que no dia do aniversário da Keira vocês dois haviam ido até Hoenburgh verificar o caso de um Biltre solto? Aquilo tudo foi perfeito.

“Ok, eu sei que parece sacanagem eu falar sobre como foi vantajoso pra mim vocês serem enganados e enrolados. Mas… Na época eu precisava de segurança e até então eu achava que “Você sabe quem” tinha tudo sob controle, e que seus planos não iriam prejudicar ninguém, isso até chegar o dia em que o Kravinoth seria a bola da vez.”

— Naquele dia, você estava sob ordens de vigiar o Dorje Washington, pois todos nós acreditávamos que ele seria o próximo, por causa da morte de Nin Soo. – disse Matthew. – Como foi que você conseguiu estar em dois lugares ao mesmo tempo? Afinal o edifício que Dorje estava ficava à quilômetros de distancia do hotel onde Kravinoth estava hospedado.

— Eu usei aquele dispositivo de teletransporte.

— Dispositivo… - por um momento Matthew teve um branco não recordando até que, num lampejo de memória, recordou do dia em que ele e Spark estavam fugindo dos Lobisomens das trevas na Jupiter’s Corp. Naquele dia, pela primeira vez na sua vida, ele usou o dispositivo de teletransporte, recém construído pelos laboratórios dos Iluminados e ainda em fase de testes. — Eu não acredito! Seu maldito! Como você teve acesso a essas tecnologias se apenas Spark e eu temos a autorização de solicitar?

— Esqueceu da “amizade” inicial do Dorje com o “Você sabe quem”?

— Merda… Como foi que eu não desconfiei do envolvimento do Dorje com o mandante dos assassinatos? Isso estava evidente desde o começo… Naquele dia em que fomos resgatar a Tawnee, fora o fato da presença dos Mandarins, era claro que tudo aquilo tinha ligações tanto da alta cúpula dos Iluminados e do Arcanorum. Era só preciso somar 2 mais 2 e pronto!

Matthew imediatamente se levantou indignado e foi até a cozinha do apartamento do falecido Erick. Keira e Phillipp nada disseram, apenas ficaram calados pensativos. Mas, foi assim que Matthew entrou na cozinha e se lembrou que lá dentro estava o corpo de Julien Rieger, foi que ele retornou pra sala:

— E o que iremos fazer com aquele presunto de ouro lá dentro?

Phillipp olhou discretamente para a porta da cozinha e respondeu:

— O Dispositivo de Bioestase irá funcionar perfeitamente até que eu ligue pro interessado que eu cumpri com minha parte.

Ao dizer tais palavras como se um assassinato não passasse de um serviço como outro qualquer, isso trouxe à Keira e Matthew uma sensação mutua de desgosto com Phillipp. Entretanto, não teve como evitar uma pergunta um tanto polêmica:

— Como você se sente realizando esses “serviços extra-curriculares”? – questionou Keira.

— Como eu me sinto?

[Soundtrack: A Thousand Faces – Creed]

Sinceramente, ele não esperava por aquele tipo de pergunta. Como responder aos seus melhores amigos como ele se sentia em assassinar pessoas indiscriminadamente? Como responder que durante esse ano que passou muito sangue já lavou suas mãos e, deste sangue, já escorreu até o sangue de amigos e mentores? Como responder que, no dia em que ele resolveu largar tudo, ele foi duramente forçado a continuar. Forçado a continuar com o trabalho sujo que, àquela altura do campeonato, só beneficiava apenas uma pessoa.

Como responder que, mais do que tudo em sua vida, sua maior vergonha era ter que olhar nos olhos daqueles que ele amava e, obviamente, mentir. Mentir, principalmente quando, essas pessoas estavam sendo verdadeiras e honestas com ele. Phillipp era obrigado a olhar para trás…

 

[Cinco Meses Atrás…]

 

Domingo, 07 de Maio de 2028. 14h00min.

St. Loo Avenue.

Londres, Inglaterra.

 

Phillip estava sem reação.  Campainha havia acabado de ser tocada e apenas ele estava em casa. A essa altura poderia ser qualquer pessoa, até mesmo Deus em pessoa querendo que ele confessasse seus pecados. Porém, não era Deus e nem ninguém, a não ser a última pessoa do universo que ele queria ver naquele momento. A única pessoa que ele não tinha notícias à meses e que agora surge diante dele e, pelas condições físicas, trazendo alguma surpresa.

— Léia!

— Oi, Phill.

[]

Seu coração estava apertado. Seu sangue fervendo de nervosismo. Naquele momento até a etiqueta lhe fugiu da cabeça:

— Eu posso entrar? – questionou a moça.

— Hã? Claro! Claro!! Por favor, entre! Você quer alguma coisa? Está com frio? Deseja um copo de capuccino? Sente-se, por favor.

 — Phillipp… - interrompeu Léia, ainda de costas, sem olhar pra Phillipp. Ela parecia tão nervosa quanto ele e não podia mais suportar a noticia que trazia consigo. Agora era a hora de contar aquilo que ela vem escondendo à meses. Virando-se, ela olha diretamente nos olhos de Phillipp e diz: — Eu estou grávida.

Phillipp nada disse.

— Phill, pelo amor dos deuses, diz alguma coisa…

— E-Eu… - ele literalmente estava sem ter o que dizer.

Em poucas palavras Léia havia conseguido colocar o mundo de Phillipp completamente a baixo. Se antes ele pensava em coisas como salvar a sua raça e a mulher que amava, independentemente do que viesse acontecer com ele. Porém, em menos de um segundo, tudo mudou. E mudou pra pior.

— Certo, Phill… se você não tem o que dizer, então é melhor eu ir. Se quiser falar comigo estou neste telefone e endereço. – e Léia vai até o bloco de anotações que ficava ao lado do telefone. Mas antes de se quer pegá-lo, Phillipp se adiantou e a buscou pela mão.

— E-eu… não tenho… digo… não sei o que dizer, porém… eu sei que tem algo que eu já deveria ter feito há muito tempo. – Phillip então se ajoelha e de dentro do bolso de seu casaco retira uma pequena caixa preta. Ao abrir, revelou uma belíssima aliança forjada em puro ouro e no formato de dois dragões que, entre suas bocas, carregavam um diamante perfeitamente lapidado.

Phillipp então disse as únicas palavras que sucediam tal ato:

— Léia. Você quer se casar comigo?

Agora foi a vez de Léia ficar sem ter o que falar. Mesmo sem ter a intenção de querer casar quando veio contar sobre a gravidez, ela no fundo sabia que este era o momento que ela tanto aguardava. Ali ela tinha apenas duas escolhas: ou dizia sim e colocava fim em meses de angustia e sofrimento ou dizia não, e mantinha-se fiel a tudo que ela havia dito meses atrás quando decidiu em viver szinha. Ela pensou pouco e logo respondeu:

— Sim, eu aceito.

Phillipp então se levantou, colocou a aliança no dedo dela e em seguida a beijou.

O beijo talvez tenha sido rápido. Porém, para eles, pareceu ter durado horas. Fazia tempo, muito tempo que os dois não tinham um contato daquele nível com outra pessoa. Foram fieis, mesmo separados. Mesmo pensando que, possivelmente, nunca mais voltariam a ficar juntos. Seus corpos pareciam ser um só quando abraçaram-se. Talvez fosse isso o que as pessoas chamavam de almas gêmeas. Por que, pra Léia e Phillipp, a vida não havia sentido se não fosse estarem juntos.

— Promete que nada, nem ninguém irá nos separar? – perguntou Léia.

— Sim. Eu prometo.

 

*****

 

— Eu não sabia que vocês estavam noivos. – comentou Keira.

— Eu nem sabia que vocês estavam juntos esses anos todos! – disse Matthew.

— Sim… ninguém sabia. E o noivado seguiu da mesma forma. Mas… isso só piorou a situação.

— Como assim?

— Com o decorrer do mês eu comecei a viver a minha vida como nunca antes tinha vivido. E mais. Teve um dia que eu tive que contar para Léia, que agora era a pessoa que eu mais confiava no mundo, sobre o que Evan e eu conversamos com os Deuses Ancestrais. Obviamente ela ficou chocada, abatida, mas eu reverti aquilo mostrando que havia uma possibilidade de nos salvarmos da extinção final.

— Você contou tudo para ela?!? – questionou Keira tensa.

— Não. Não tudo. Eu falei a verdade. Porém… omiti algumas coisas.

— Seu trabalhinho sujo, por exemplo. – alfinetou Matthew.

— Sim, Matt. Ela ficou como eu: eufórica no inicio e depois cabisbaixa. Falei pra ela que o ritual que Sin-Fang usou na China simplesmente usava vidas humanas como ingrediente principal. Ela se desesperou, pois pensou que nosso filho nunca viesse a nascer. Porém eu a acalmei dizendo que não era certeza morremos. Havia uma possibilidade ínfima de ficarmos vivos, porém sem nossos poderes. E que todos nós iríamos começar a envelhecer normalmente, como mortais comuns.

— E ela?

— Ah… a resposta dela era a esperada de qualquer um da família Vermelha dela: Se for pra morrer, que seja pra morrer com honra. Se for pra viver, que seja pra viver uma vida digna. Em resumo, sujar as mãos de sangue inocente estava extremamente longe dos planos dela.

— Pois é, não é? – ironizou Matthew.

Ignorando, Phillipp continuou:

— Daí, depois de um mês perfeito com a Léia, ele veio atrás de mim pra falar de meu “próximo trabalho”. Foi então que eu percebi que, a vida que eu estava levando entrava diretamente em paradoxo com a vida que Léia pensava que teria comigo (e que eu gostaria de ter com ela).

“Foi então que decidi me exilar por alguns dias…”

 

[Flashback: Episódio 42]

 

Sexta-feira, 16 de Junho de 2028. 17h00min.

Severalls Asylum.

Colchester – Inglaterra.

 

(…)

Assim que ele entrou, como já estava sendo anunciado pelas nuvens escuras e fechadas, um relâmpago rasgou os céus do hospital iluminando por breves segundos aquele aposento decadente. Revelando nesses breves segundos algo que chamou a atenção do visitante: o solitário homem agachado  no canto mais escuro do aposento.

Ele era digno de pena. Com as mãos sobre a cabeça, era inevitável perceber que ele estava sofrendo. Que sua alma era tão decadente e abandonada quanto aquele lugar. Que mesmo fazendo frio, ele não se preocupava de estar usando apenas uma calça jeans surrada e um par de sapatos baratos. Nada o perturbava. Nada, além de sua própria consciência. A consciência pesada, ímpia e psicótica de um verdadeiro assassino.

(…)

— Nunca pensei que o encontraria nessas condições.

— Deixe-me sozinho.

— Não posso. Sabe que não posso. Você tem um trabalho a cumprir.

— Eu não vou mais trabalhar pra você.

Um sorriso simples e o visitante se aproximou um pouco mais, sem sair das sombras. Por instinto, o assassino recuou alguns centímetros, agarrando-se forte em suas próprias pernas. Parecia um animal acuado por um predador.

— Você não está em posição de negociação, meu caro. Ou faz o que eu mando, ou você sabe quais serão as conseqüências.

Mas mesmo acuado, o extinto de sobrevivência é maior, principalmente quando vê que seu ninho está em perigo:

— Você está louco?!? ELA ESTÁ GRÁVIDA!!! Tenha um pingo de compaixão!!!

— E eu tenho… Tanto tenho que é justamente por ela estar grávida que nós temos que fazer isso. O futuro inteiro de uma geração depende de nós.

— Eu não vou… eu não posso fazer isso… é contra os meus princípios! É contra tudo aquilo que eu venho fazendo todos esses anos!

— Você não tem escolha nenhuma aqui, meu rapaz. Ou você faz o que eu mando, ou terá que arcar com as conseqüências!

As lágrimas limpavam a sujeira sobre a face do assassino, mas não limpavam a sua alma, a sua honra e sua dignidade.

— Eu já estou cansado disso! Primeiro Nin Soo e agora você… Eu não agüento mais… eu não agüento… eu não… agüento… mais…

Sua mente parecia um campo de guerra. Por muito tempo ele se considerava a pessoa mais sã que podia existir, mas agora… Ele não conseguia pensar. Ele não conseguia raciocinar. As únicas coisas que lhe viam em mente eram os rostos aflitos de suas vítimas. Independente do que elas fossem, independente do mal que elas venham ter cometido, ele não era um assassino.

Não… não era certo o que ele estava fazendo.

Ele era o Escolhido. Ele tinha uma missão a cumprir nesta vida. Como pode ele ter se deixado levar por essa onda insana em que se meteu? Como pode, alguém que foi criado como ele foi, que teve uma educação exemplar podia ter chegado aonde chegou.

Hoje ele não tem coragem nem de olhar nos olhos de seus pais, que dirá nos olhos dela. O que ela ia pensar… O que ela ia fazer quando descobrisse a verdade? O que aquele homem, que antes ele já até admirou e hoje ele tem repugnância, pretendia fazer com ela?

— Infelizmente meu tempo é muito curto para ser perdido em lágrimas de crocodilo.

— Filho de uma…

— Certo, vamos logo terminar com isso. Ainda faltam muitos nomes de nossa para serem apagados, e nosso tempo é curto. Sabes muito bem que não podemos chegar até o final do ano sem ter eliminado todos os Grão-Mestres do Arcanorum. Por isso, já que você passou as últimas sete semanas apenas brincando e fugindo de seu dever, nosso próximo passo será um pouco mais “direto”, se é que me entende.

Engolindo seco, o pobre assassino manipulado questionou:

— C-como assim…?

— Você terá que eliminar alguns coelhos com uma cajadada só.

— Você acha que é assim tão fácil?

— Com minha ajuda e com seu poder… com certeza que sim.

— Seu louco.

— É… a idade faz isso com a gente. Tornamo-nos um pouco menos flexíveis. Mas você não pode ficar ai deitado escondido neste asilo abandonado. As pessoas em Londres logo vão perguntar por você! Esqueceu-se da imagem que terá que manter depois que tudo isso acabar?

E nessa hora, com aquelas palavras, novamente veio em mente a imagem de sua amada, que agora estava carregando uma vida inocente em seu ventre.

— E-eu não posso… fazer isso… Eu fiz uma promessa… eu não posso mais…

— Vou repetir novamente e pela última vez: Você não está em posição de contra-argumentar comigo, meu rapaz. Faça o que estou lhe mandando e eu lhe dou a minha palavra de que nada de mal acontecerá contigo, com ela, ou com o bebê.

— E QUEM É VOCÊ PRA VIR COM ALGUM TIPO DE PROMESSA???

— EU SOU AQUELE QUE FOI O ÚNICO QUE LHE ESTENDEU A MÃO QUANDO VOCÊ MAIS PRECISOU!!! AQUELE QUE LHE DEU UMA DIREÇÃO PRA SEGUIR NESTA VIDA!!!

— ISSO NÃO JUSTIFICA EU TER QUE ME TRANSFORMAR NUM HOMICIDA SOCIOPATA APENAS PRA PAGAR MINHAS DÍVIDAS CONTIGO!!!

— Você não é um assassino sociopata… - olhando em direção a janela, dando um fim naquela gritaria, o visitante percebeu que começara a chover forte do lado de fora (e dentro também). – Você não tem a menor idéia do que é um homicida sociopata.

As palavras soturnas do visitante haviam por um momento gelado a alma do assassino. Com certeza havia um abismo que separava os dois e era desse abismo que o visitante se aproveitava para torturá-lo ainda mais. Levando a mão esquerda suja e lamacenta até seu rosto, o assassino então percebeu que não havia como fugir daquele jogo em que se metera.

Agora que as peças já estavam sobre o tabuleiro, ele teria que ir até o fim.

— Certo…

— Como?

— Eu farei o que você manda.

— Finalmente você encontrou a razão, meu jovem.

— Não tenho escolha, tenho?

(…)

 

******

 

— Então você me pergunta como eu me sinto? – disse Phillipp encarando uma Keira sem palavras. — Eu lhe direi: Eu me sinto usado. Eu me sinto traído. Eu me sinto indigno. Eu me considero a pior pessoa que existe na Terra, não pelo que eu fiz com os Grão-Mestres; Não por “apenas” ter assassinado acidentalmente meu melhor amigo; E sim por ter, ainda estar enganando a pessoa mais importante da minha vida. E pior! Por estar enganando ela sabendo que ela confia em mim e no meu caráter sem qualquer pingo de dúvida.

“E além disso tudo, o pior: eu ainda sou o Escolhido dos Anjos para guiar a humanidade ao novo futuro. Fui escolhido pelo próprio Arcanjo Gabriel para carregar a arma mais poderosa do universo. Como vocês acham que eu me sinto?”

“Sim. É isso mesmo. Não existem palavras pra descrever como eu me sinto e muito menos como foram esses últimos meses para mim. Ter que enterrar um amigo. Ter que fazer meu líder, meu exemplo, acreditar que sou um traidor comparsa de Dorje Washington. Assistir de camarote um detetive inocente descobrir toda a verdade e logo depois ser assassinado porque sabia demais.”

“Enquanto isso… Toda a cidade pega fogo ao meu redor. Vampiros, Magos, Lobisomens e todo o tipo de criatura sobrenatural estão por ai guerreando nas ruas. Isso tudo por que eu comecei isso. Eu incitei o caos e agora… Não há mais como voltar. Você quer saber como eu me sinto? Eu me sinto um monstro.”

Novamente eternos minutos de silêncio imperou entre eles. Até, num rompante de raiva e indignação, alguém esmurra a mesa. Mas para a surpresa de todos, não se trata de Matthew:

— MALDITO!!! – exclamou Keira.

Talvez esta tenha sido a primeira vez que Phillipp e Matthew presenciam a amiga ficar alterada. Uma menina de coração bom e que sempre teve um temperamento sereno, de repente mostra que lá fundo guardava uma mulher bastante convicta e, principalmente, furiosa com aquela situação.

— Nós sempre o apoiamos. Sempre veneramos seus atos de bondade e heroísmo. Sua história de vida é até hoje contada para as crianças. E, de repente, descobrimos que tudo isso não passou de uma grande farsa. Tudo… Simplesmente tudo era pura falsidade. Ele não pensa em ninguém. Ele não é e nunca foi altruísta. Ele é um maldito. Um homem nojento e sem escrúpulos que simplesmente se aproveita das situações e as coloca ao seu favor. Que manipula a vida de todos desta cidade e, enquanto pensamos que ele está lá no topo pra nos proteger, a verdade é que ele está lá nos controlando com punhos de ferro. Não, Phillipp… Você não é um monstro.  O monstro aqui é aquele que está agora lá em seu trono no Arcanorum planejando sabe lá Deus o quê quando todos os Grão-Mestres forem assassinados. Você não é um monstro, Phill… Você é simplesmente um homem. Um homem que acerta; que falha; que não nasceu sabendo de tudo; que teima; e principalmente: um homem que ama. E é este amor que o diferencia dos monstros como aquele homem.

As palavras de Keira reverberaram pela alma de Phillipp de forma surpreendente. Ele não esperava aquela reação dela, nem muito menos que ela o perdoa-se. Não, ela não o perdoou. Ela apenas sabe que, mais do que todos, ele foi uma vítima. Que, mesmo nos momentos vis onde ele pensou que estava fazendo o certo, no fundo ele sabia que estava errado. Mas Phillipp precisava escutar aquilo. Precisava escutar que, independente de suas origens sobrenaturais, ele era tão humano quanto qualquer homem deste planeta. Ele era um Meio-Dragão. Mesmo que, em fúria, ele se transforme em um enorme monstro alado, em suas veias ainda correm o sangue mortal dos homens o que o torna humano em diversos momentos. Sim. Ele precisava escutar aquilo e se lembrar de suas falhas e imperfeições carregadas em seu sangue humano.

— Você mencionou o momento em que me fez acreditar que era um traidor. — disse Matthew quebrando o silêncio de enterro entre eles. – Poderia me dizer o que aconteceu depois que, sabe lá como, você me enviou para o Futuro Alternativo. E mais… Também quero saber por que diabos você e Ele enviaram Keira e eu para um Futuro alternativo.

— Se você parar pra pensar um pouco saberá a resposta. Você sabe quem é um Arquimestre nos Caminhos Arcanos do Tempo. Ele com certeza é capaz de saber que existe uma linha de tempo alternativa. E, sabendo disso, certo dia ele chegou pra mim e disse que eu precisava ajudá-lo em uma tarefa à parte. E que se tratava de uma tarefa de conseqüências cósmicas.

“Após me passar um estranho objeto, no qual ele denominou simplesmente de ‘Amuleto do Tempo’ ele explicou que, quando chegasse a hora certa, eu precisaria enviar você, Matt, para um Futuro distante. Um Futuro Alternativo. E que você era uma peça fundamental nessa viagem do tempo. Que, se você não fizesse essa viagem, o Tempo em que vivemos simplesmente deixaria de existir.”

— Certo, certo. Isso realmente deu pra perceber assim que voltamos. Mas… e o Dorje? Ele não era um dos membros do clubinho secreto do Você sabe quem?

— Não. Nunca foi. Na verdade nem eu sabia que o Jupiter’s Corp iria explodir. Naquele dia minhas ordens eram bem simples: Matar Dorje e fugir do prédio antes das zero hora e Vinte e cinco minutos.

— Então por que naquele exato momento você resolveu me enviar para o futuro?

— Por que eu fui avisado. “Ele” me avisou que eu saberia qual seria o momento certo para te enviar pro futuro. Que seria um momento de vida ou morte e que, enviá-lo pra uma viagem no tempo, seria a única alternativa que eu teria.

— Puta merda… que Filho da mãe! Ele realmente sabe de tudo!!! E o Dorje? Com certeza ele percebeu que você não tinha me matado naquela hora.

— Sim. Mas como as minhas ordens eram de matá-lo…

 

[Quatro Meses Atrás…]

 

Domingo, 25 de Junho de 2028. 00h00min.

Sede da Jupiter’s Corp.

Londres – Inglaterra.

 

— O que foi que você fez? – questionou Dorje ao ver Matthew simplesmente desaparecer após o disparo da arma laser de Phillipp.

— Eu o pulverizei.

— Não tente me enganar, Tenente. Eu sou muito mais experiente com armas iluminadas do que você imagina! Sei muito bem como uma pessoa morre é pulverizada por uma de nossas armas. Você pode ter feito qualquer coisa com o Comandante Ferris, mas não o pulverizou. Isso eu tenho certeza.

Frio e de cabeça baixa, Phillipp respirou fundo.

— Então você tem certeza de tudo… - disse Phillipp soturnamente. Enquanto isso ele carregava a sua arma até o nível mais mortal.

— Que cara é essa? O que você pretende, Tenente??

— Você é o próximo, Dorje.

— IMPOSSÍVEL!!! ELE DISSE PRA MIM QUE SOU UM DOS ESCOLHIDOS DELE!!!

— Pois ouviu errado. Adeus, Dorje.

Num movimento rápido, Phillipp disparou um único tiro em Dorje. O tiro laser da arma havia sido tão fulminante que o tórax de Dorje simplesmente foi atravessado voando sangue e tripas por toda a parede.

Terminado o serviço, Phillipp escutou perfeitamente em seu rádio que James estava à caminho. Ele verificou a hora. Erma quase 00:15. Ele precisava sair do prédio urgentemente. Porém, resolveu plantar umas provas falsas para o PHDA de James. Assim que terminou, usou o aparelho de teletransporte para sumir daquele prédio.

Foi logo em seguida que James e os lobisomens, Slayer e Rocky, entraram na sala.

 

*****

 

— E os dados? – questionou Matthew. — O que eles significavam?

— Até aquele momento eu não sabia. Simplesmente, antes de cada morte, eu recebia uma estranha mensagem, de mim mesmo, só que do Futuro, dizendo pra eu deixar um dado específico na cena do crime.

“É obvio que isso era algo ridículo de se fazer, vide que eu estava me auto-incriminando. Porém a situação mudou quando eu percebi qual era a data que vinham as mensagens.”

— E que data era?

— O dia em que o detetive Erick foi assassinado.

“Eu vi aquela cena de camarote. Estava num dos prédios vizinhos da Júpiter, e percebi que, Você sabe quem, estava no terraço de um outro prédio junto com o detetive. Observei e escutei tudo com um de nossos binóculos. Foi lamentável o que aconteceu, porém eu entendi tudo.”

“Eu precisava plantar aquelas pistas. Por mais que fosse impossível pensar em detê-lo, fossem quais fossem seus planos, alguém precisaria buscar a justiça. E foi o que observamos os rapazes Erick, Nick e Sebastian fazerem, não foi?”

“Daí eu olhei novamente meu celular pra ver as mensagens e percebi que, exatamente naquele dia e naquela hora eu iria mandar as mensagens pra mim mesmo. E foi o que eu fiz. Usando aquele nosso aparelho que manipula o Tempo, toda vez que eu ia enviar uma mensagem, colocava o Celular numa bolha temporal correspondente ao dia que a mensagem deveria ser enviada.”

“Quando terminei senti um certo alívio. Não pela morte do Erick. Mas que pelo menos alguém iria buscar a justiça. Eu sabia que, mesmo que eu fosse julgado, não iria sozinho.”

— Você o incriminou até do assassinato de Vincent Vaugh.

— E por que não? Ele foi cúmplice em manter aquilo em segredo, sabendo perfeitamente de quem se tratava o assassino e o mandante.

— E agora, Phillipp? O que você irá fazer? – questionou Keira.

— Como assim?

— Bom… agora que nós sabemos de tudo, você sabe que iremos fazer alguma coisa.

— A Keira está certa, Phillipp. Pode não ser hoje. Pode não ser nem amanhã. Mas um dia iremos agir. E pode ter certeza que o seu rabo vai estar na nossa mira.

Phillipp então se levantou da mesa. Olhando para a janela da sala não pensou muito. Respondeu logo a primeira coisa que lhe veio em mente:

— Você podem fazer o que quiser. Eu só lhes peço uma coisa… Se realmente esse ritual poderá salvar a mulher que eu amo e o meu filho, e toda a minha raça, por favor, deixem que eu o termine.

— E falta mais alguém para ser assassinado?

— De acordo com a lista sim. Porém eu acho que não preciso mais de Quintessência. Acho que tenho o suficiente.

— Realmente. Fora aqueles que encontramos naquela base secreta dos Mandarins no Ártico você ainda possui os que coletou com os assassinatos. Mas… Se ainda tem nomes na lista com certeza ele vai atrás de você.

— Eu sei disso.

— Bom, sinceramente eu nem quero saber quem será o próximo da sua lista, por que eu sou idiota o suficiente pra tentar impedi-lo. Então… - fazendo menção de que iria embora. – Eu espero que você realmente consiga ter sucesso com esse ritual.

Keira aproveitou e se levantou acompanhando Matthew.

— Eu também espero que você consiga, Phill.

Keira foi a primeira a sair sem se despedir. Ela ainda estava muito magoada para desejar qualquer “até logo” para Phillipp. Já Matthew não conseguiu sair sem dar sua última palavra:

— E mais uma coisa. Você está dispensado da Sociedade de Prometeu. Como não temos mais uma base, então você nem precisa se preocupar com suas coisas. Mas mesmo sendo seu superior, eu não tenho autonomia em lhe dispensar dos Iluminados também, entretanto falarei com o nosso Capitão sobre o caso.

Engasgado com noticia Phillipp respondeu cabisbaixo:

— C-certo.

— E quanto a mim, em particular. Eu quero que apague o meu nome de sua agenda. E nunca… nunca mais me procure.

— T-tudo bem.

— Dê meus votos de saúde pra Léia e seu filho.

Terminando, Matthew fechou a porta deixando Phillipp sozinho no apartamento, que agora era simplesmente uma Cena do Crime. Como de praxe ele precisaria ajeitar o cadáver, sugar toda sua quintessência e, por fim, ligar para Eriol VonBranagh relatando que tudo havia dado certo.

Mas antes de fazer isso ele precisava pensar. Pensar mais e mais, como vem fazendo durante todos esses meses. Matthew saiu e o excluiu de sua vida. Todos que sabem dessa história fazem isso. Com certeza Léia não deixará de fazer o mesmo.

A verdade era que Phillipp, há muito tempo atrás, já havia excluído a si mesmo.

 

*****

 

[Soundtrack: My World –Three Doors Down]

 

HOJE

 

Segunda-Feira, 20 de Novembro de 2028. 10h40min.

Victoria Park.

Londres – Inglaterra.

[Faltam 42 dias para o Eclipse]

 

(…)

— Quer ir comigo pra Cidade de Prata?

— Eu? Por quê? Como assim?

— Eu preciso resolver uns problemas lá e eu gostaria que você fosse comigo.

— Faz anos que não vou lá. Só fui uma vez aliais, quando conversei com Gabriel… Mas você quer mesmo que “eu” vá contigo?

— Eu não te perdoei pelo que fez com Spark. Você perdeu toda a minha consideração e respeito. Entretanto… eu ainda confio em você, essa que é a verdade. Hoje me peguei pensando em deixá-lo de guarda do meu filho, enquanto ia pra Cidade de Prata.

— De guarda do seu filho?!? Dany, eu…

— Não diga nada. Amizade é algo estranho de se entender. Podemos brigar, ficar sem se falar, até mesmo nos odiar! Mas a verdade é que mesmo quando tentamos, não conseguimos excluir completamente de nossas vidas pessoas que foram muito importantes para nós. Eu sei que você já está vivendo um inferno na sua vida e que realmente não teve a intenção de matar o Spark. Por isso não cabe a mim piorar mais a sua situação, velho! Então? Vai querer vir ou não?

Phillipp talvez precisasse pensar um pouco, mas ele resolveu não pensar. Depois de tudo que Danyael fez por ele nos últimos tempos, sua divida de gratidão pra com o amigo era absurda. Phillipp tinha decidido que, independente do que acontecesse, ele faria de tudo pra ajudar o Danyael no que ele precisasse. Fosse o que fosse.

Realmente, amizade é algo estranho de se entender…

— Ok, vamos lá.

— Legal. Fico agradecido.

— Não fique. Sou eu que tenho que te agradecer!

— Pronto?

— Pronto.

Danyael encostou a mão em Phillipp e os dois sumiram em uma incandescente luz branca ascendente.

 

To be continued…