Atenção: Episódio não revisado.

 

Se você pudesse ter qualquer coisa que desejasse, o que seria? Para um mago é praticamente possível realizar qualquer desejo, entretanto, para tudo existem limites.

Isso me lembra uma vez que estava assistindo um desenho animado com meu afilhado. No desenho o poderoso Gênio da Lâmpada diz àquele que o conjurou que seus poderes eram ilimitados e que poderia realizar qualquer desejo de seu amo, a não ser duas coisas: Fazer alguém amar outra pessoa contra sua vontade e trazer os mortos de volta à vida.

Nesse momento o desenho ficou pouco claro nessas questões. Meu afilhado, esperto como sempre foi, logo me veio perguntar: “Tio Eriol, por que não se pode pedir pra outra pessoa te amar?”. Eu imediatamente respondi, achando essa resposta bem simples: “Por que isso vai contra o Livre-Arbítrio, Dany.”

Claro que ele questionou mais sobre o que era o Livre-Arbítrio. Ainda infante, em seus poucos 6 anos, entender algo complexo como o Livre-Arbítrio seria pedir demais. Mas estava bem claro o que o desenho queria passar: Não se pode tirar de ninguém o direito de decidir os próprios rumos de sua vida, nem muito menos obrigá-la a fazer algo que ela não quer. Eu que vivi durante séculos com minh’alma vendida ao Diabo, sei muito bem o que é não ter qualquer liberdade ou vontade.

Tudo muito bem explicado até agora, porém…

“Tio Eriol… Por que não se pode ressuscitar as pessoas mortas?”

Realmente… o que o desenho queria dizer com isso? Afinal, não havia muitos problemas em ressuscitar os mortos, a não ser os valores éticos, morais e, principalmente, religiosos. Porém isso tudo era muito relativo.

Jesus ressuscitou os mortos. Então ele seria antiético ou só porque ele era o Filho de Deus ele tinha esse direito? Afinal, o que dita o que é certo e errado nesse caso?

Você tem um amigo, um irmão, ou até mesmo um amante que, por brutalidade do destino, ao sair da faculdade é abordado por um bandido que, pra saciar seu desejo por drogas, resolve assaltá-lo e assassinando-o logo em seguida. Onde está a justiça nesse caso? O que esse rapaz fez para merecer uma morte tão rápida e cruel? O que o faz ser diferente de Lázaro, que recebeu a dádiva da ressurreição?

Então olhamos pelo lado do assassino. Todo assassino tem consciência do que está fazendo. Eu tenho mais de seiscentos anos e conheço a humanidade muito bem pra dizer que não existe assassino demente, que agiu de forma “lunática” ou por que estava de “porre” por causa do efeito de alguma droga. Naquele milésimo de segundo em que ele aponta a arma para a vítima ele sabe exatamente o que está fazendo, e mesmo assim faz. Então eu pergunto: alguém como esse homem merece a chance de ressurreição?

De acordo com os Espíritas ele irá sim ter que reencarnar para poder pagar por seus pecados e tentar alcançar a Ascensão. Mas e o garoto? Ele teve sua vida terminada brutalmente por alguém pouco evoluído e, ao chegar aos Céus (ou Outro Lado, ou Inferno, ou seja lá como você quiser interpretar) descobre-se que ele não precisa mais reencarnar, por que seu papel nesta vida já foi cumprida. Mas, e como fica aquela mãe que perdeu seu filho? Como ficam as pessoas que o amavam? Será que ele não fazia parte de seus destinos e, por causa de sua morte, suas vidas mudaram completamente? E quem é esse que decide se ele reencarna ou não?

Onde entra o Livre-Arbítrio nessa questão?

Por que podemos ter o que quisermos, entretanto não podemos decidir que futuro nós queremos ter? E se o futuro que a mãe desse menino assassinado queria não fosse tê-lo ao seu lado até a hora de sua morte? Vê-lo se formar, casar, ter filhos, comprar sua casa, ser bem sucedido na carreira… Se ela tem o Livre-Arbitrio, aquela lei máxima no qual você pode decidir o que quiser de sua vida, por que ela não pode ter seu filho de volta?

Como ficaria o Gênio da Lâmpada nesse caso? Ela não está pedindo pro filho morrer ou ressuscitar, apenas gostaria que ele estivesse ao seu lado até o final de seus dias. O Gênio certamente iria encontrar alguma solução, e qualquer uma delas iria influenciar nos destinos da vítima, de sua mãe e do assassino.

Nessa hora eu apenas disse para meu pequeno afilhado: “Não se pode ressuscitar pessoas por que Deus não gosta.”. Sendo de família religiosa, o pequeno Danyael compreendeu bem as minhas palavras. Porém, elas não passaram de balela sem fundamento para mim.

Naquela fria noite londrina, após colocar o pequeno Dany para dormir, fui até o terraço e observei o céu. Por milagre, era uma noite bem estrelada e com poucas nuvens. Eu ergui minha mão direita até os céus, até a enorme lua prateada, tentando de alguma forma alcançar aquilo que era impossível para qualquer pessoa: Tentar alcançar os Céus.

“O quanto eu já vivi, meu Deus?”

Eu já vi impérios caírem. Revoluções mudarem o mundo. Duas guerras mundiais, fora outras milhares de pequenas guerras. Das Cruzadas até o Iraque, já presenciei todos os tipos de atrocidades que se possa imaginar. Eu já me isolei do mundo. Fiquei anos preso dentro de um quarto onde não me importava com o que acontecia no exterior. Sai de minha clausura pra descobrir que o mundo e as pessoas não mudaram nem um pouco.

A ganância, o ódio, a inveja, a prepotência, a arrogância, o desrespeito, a falsidade, a mentira, entre outros, continuavam tão presentes na humanidade quanto eram na minha época. E, bem diferente de meus amigos anciões vampiros, como mago eu ainda sou humano. Eu ainda posso sentir e interagir com os humanos normalmente, entretanto eu não me sinto, a muito tempo, parte deles.

Então eu fechei meu punho. Senti toda a vibração daquele ato reverberar por todo meu corpo exigindo que eu tomasse alguma atitude. Não em prol da humanidade, por que esta já está em divida comigo há muito tempo. Quero fazer algo por mim. Por minha vida. Pela minha felicidade.

E para isso eu teria que, provavelmente, fazer muita coisa. Mudar o mundo e os destinos das pessoas, tal como o Gênio da Lâmpada faria no caso da mãe que perdera o filho. Certamente muita coisa será sacrificada no caminho. Mas eu estou disposto a buscar por isso.

Em minhas mãos eu tenho o Poder.

Eu apenas preciso querer.

E eu quero.

 

 

Londres de Trevas

:: Terceira Temporada::

 

Episódio LXI

Poder nas Mãos. Olhos Para os Céus.

 

 

[Soundtrack: One is all, All is one – Akira Senju]

 

Data e Hora desconhecidas.

Em Algum lugar do Plano Astral.

 

— Amor, eu não estou te entendendo. Por que você está fazendo tudo isso?

 

A voz do espírito reencarnado de Louise ecoava no vazio branco onde ela e Eriol se encontravam. Eriol olhava para o nada, como se estivesse distante e pensativo, mas a verdade era que ele queria evitar olhar diretamente para sua amada.

— Louise, você não irá me entender. Ninguém irá.

— Pelo menos tente me fazer entender.

Louise caminhou até onde Eriol estava a passos calmos. Suas mãos espirituais buscaram a dele, como uma esposa faria com um marido. Em seguida buscou os olhos vazios de Eriol ligando aos seus. Por um momento o tempo havia parado. Não precisava de muitas palavras para um entender a dor do outro. Eles eram almas gêmeas. Foram predestinados a ficarem juntos muito antes de nascerem. Entretanto, apesar do destino de ficarem juntos, eles vem passando muitos anos separados.

E isso, vem os destruindo por dentro.

— Louise, meu amor. – Eriol não agüentou segurar a lágrima que brotava no canto de seus olhos. — Venho vivendo uma vida muito triste e solitária. Você sabe que não sou um imortal qualquer. Quando tinha minha alma vendida ao Satanás, por algum motivo eu era apático a isso. Entretanto, tudo mudou desde então. Minha alma fora liberta pelos Anjos e eu recebi uma nova vida. Eu sou imensamente grato aos Céus e aos meus amigos por essa dádiva, mas nem tudo são flores.

“Receber uma segunda chance, uma segunda vida, trouxe uma série de problemas para mim. Problemas esses que eu vinha ignorando até então, por causa de minha alma penhorada, e que agora não há como evitar. Problemas que venho carregando em minha alma durante 668 anos de existência e que agora, de tão acumuladas que estão, explodiram feito uma bomba nuclear em meu ser.”

— E que problemas são esses, Eriol?

— Minhas emoções. – Eriol novamente derramou uma lágrima. Seus olhos não conseguiam mais fitar os olhos de Louise. Ele olhava para os pés etéreos da jovem enquanto seu coração comprimia-se profundamente em seu peito. — Eu não agüento mais sentir essa dor. Eu não sou um imortal comum, Louise.

— Você já disse isso.

— Vampiros amam, mas são frios e bestiais por dentro. Anjos e Demônios vivem num tempo diferente do nosso. Por nascerem imortais para eles a infância, por exemplo, pode durar séculos, ou até milênios. E o mesmo vale para outros seres sobrenaturais… Até mesmo Magos que vivem durante muitos anos acabam deixando até de serem humanos pra se tornarem criaturas apáticas à condição Humana.

“Mas eu não sou mais assim.”

“Por ter tido a chance de voltar à vida numa espécie de Segunda Chance, isso acarretou uma série de problemas existenciais dentro de mim. Eu me sinto hoje, literalmente, um velho 600 anos preso dentro de um corpo de um jovem de 29 anos. Ou um jovem de 29 anos com a sabedoria e a angustia de um velho de 600 anos. Não consigo mais encontrar nada na vida que se encaixe com a minha vida. Ou que apenas me dê razões e sentidos para viver.”

“Apesar de conviver sempre ao redor de outros imortais, eu me sinto diferente deles. Eu não sou um imortal. Sou apenas um homem mortal que, simplesmente, viveu 668 anos e agora toda essa vida está pensando em minhas costas. Todas as alegrias, tristezas, solidões, desafetos, saudades… tudo se acumulando aqui dentro e que agora eu não consigo mais suportar.”

“O pior é que as dores que venho guardando durante todos esses séculos, agora simplesmente resolveram me julgar impiedosamente. Eu não consigo mais suportar isso. Eu não agüento mais ver as pessoas que conheço morrerem de velhice ao meu redor. Não agüento mais ter que suportar o desprezo de meu único filho. Não agüento mais ter que observar os mais jovens cometerem os mesmos erros repetidamente e não poder fazer nada. Eu não agüento mais ter que suportar outras noites de solidão pensando em você.”

“Eu não agüento…”

[Soundtrack: Desolation – Akira Senju]

Compartilhando a dor de seu amado, Louise tenta consolá-lo com um abraço.

— Amor… por que você não tenta me reconquistar?

— Por que você não está viva.

— Como não? Eu reencarnei nesta vida exatamente pra te rever. Você acha mesmo que tudo que aconteceu até agora foi coincidência?

— É claro que não. Mas a Srta. Michelle Sloane não é você, Louise.

— Como não? Eu reencarnei. Eu sou a Michelle. A Michelle sou eu.

— Não… você sabe que não é. – respondeu Eriol friamente virando o rosto e se afastando de Louise.

— Eriol. Você está certo. Você não é como os outros imortais.

Eriol não se virou. Esperou Louise terminar a frase pacientemente:

— Os outros imortais, como os vampiros, trapaceiam com a Morte. Mas esse não é o seu caso.

— Não? – questionou intrigado. – E fazer um pacto com o diabo não é um jeito de trapacear a morte?

— Não. Você não está driblando a morte. Você está fugindo dela. É isso que você está fazendo todo esse tempo.

— Fugindo da morte? Isso é ridículo, Louise.

— Eriol, você sabe muito bem pra que servem as reencarnações. Caso você tenha falhado ou deixado algo inacabado nesta vida, você retorna em outra vida para cumprir com seu destino. Mas você evita isso. Você evita a própria evolução de sua alma.

— E você quer que eu morra? Que eu retorne ao mundo real e dê um tiro em minha testa?

— É claro que não.

— Então…

— Apenas pare de tentar fugir da morte como vem fazendo nos últimos tempos.

— Não posso. Melhor, não irei.

— Eriol.

— Não, Louise. Eu não irei me submeter a essas leis que regem este universo só por que Ele quer.

— Do que você está falando, Eriol? Você está sendo blasfemador?

— Blasfêmia, herege, arrogante… chame como quiser. Eu apenas não aceitarei isso.

— Isso o que? Eriol, o que você está planejando?

Seriamente, Eriol fitou novamente os olhos de Louise e respondeu a pergunta:

— Ao invés de morrer, reencarnar e perder tudo aquilo que sou hoje. Toda a minha vida e meu conhecimento, eu irei te trazer de volta à vida.

Louise recebeu aquelas palavras incrédula. Por um momento ela ficou sem ter o que dizer. Porém a razão rapidamente retornou tornando tudo aquilo irônico para ela:

— Mas isso é impossível. Eu reencarnei. Já voltei à vida. Não dá pra fazer isso.

— Eu sei.

A resposta de Eriol surtiu tão simples e seca que fez Louise sentir-se mal:

— Eriol… você está me assustando. Você está planejando alguma coisa contra a Michelle?

— O que?!? Não!! Nunca!! Eu nunca faria nada contra vocês.

— Então… explique o que você quis dizer com “trazer-me de volta a vida”.

— Louise. Por que temos que reencarnar?

Por um segundo ela ficou acuada, mas logo tirou a resposta da ponta da língua:

— Para evoluirmos.

— Isso é ilógico. Se quando morremos perdemos qualquer ligação com a vida anterior e quando voltamos não nos lembramos de nada, como pode haver evolução ai?

— Eriol… Você melhor do que ninguém sabe a resposta. O corpo é apenas uma casca. Um receptáculo. O conhecimento e a evolução estão na alma.

— E por que não podemos tentar evoluir numa única vida?

— Por que tem vezes que é impossível. A vida do ser humano é muito curta pra viver todas as experiências possíveis.

— E quem ditou essas regras?

— Eriol… você está novamente blasfemando…

— Responda a minha pergunta.

— Ora… Quem “ditou as regras” foi Ele, o Criador do Universo, Aquele que deu origem a Vida: Deus!

Eriol escutou as palavras de Louise sem retrucar. Entretanto, ele se afastou e ficou pensativo por alguns instantes. De repente Eriol simplesmente sorriu:

— Você disse… “Criador do Universo”?

— Sim…

— Então o que você acha disso…

[Soundtrack: Laws of Alchemy – Akira Senju]

Eriol levantou a palma da mão direita na direção de Louise e, logo em seguida, o inacreditável aconteceu. Primeiro uma fagulha de luz explodiu gerando outras bilhares de pequenas estrelas brilhantes. Uma onda de gases e nuvens começaram um rodopio vertiginoso entre os dedos do arquimago e entre elas outros espirais de estrelas foram se formando. À medida em que iam crescendo tudo ao redor ia esfriando gradativamente. Tão logo, no centro da palma da mão de Eriol, pulsava uma luz quase infinita. Eriol havia criado algo que até então Louise acreditava que somente Deus fosse capaz de fazer…

— Você sabe o que é isso?

— Isto é…

— Sim. Um Universo.

Imediatamente Louise se afastou de Eriol incrédula:

— Isso não é possível!

— Isto é o que você está vendo. Bilhares de estrelas e corpos celestes agora rodopiam entre meus dedos.

— V-você… v-você é capaz… capaz de criar… o universo?!?

— A humanidade sempre foi presa por grilhões. Grilhões que a impedia de serem mais do que são. É claro que muitos homens conseguem se superar. Conheço jovens que, graças as suas persistências e força de vontade conseguiram realizar grandes proezas. Mas mesmo assim… mesmo com o Despertar pra verdadeira Magia… Dificilmente algum homem ou mulher conseguirá ir além do que a Natureza permite.

“Mas eu sou diferente. Como você disse: eu fugi da morte. E graças a isso meu conhecimento sobre as Ferramentas que regem este Universo vão além do que você possa imaginar.”

“Então eu lhe pergunto: Por que a humanidade é proibida de evoluir? Por que esse seu Deus decidiu que simplesmente nós deveríamos ficar presos a esta eterna roda de reencarnações sem termos a chance real de evoluir?”

— Eriol… eu… eu não acredito no que você está me falando…

— Responda-me com sinceridade: O que torna esse Deus tão importante a ponto dele decidir sobre nosso Livre-Arbítrio?

— Eu não sei…

— Apenas responda minha pergunta, Louise.

— Eriol… Deus é Tudo. Tudo é Deus! Ele deu origem à vida!

E com o fechar de seu punho, Eriol deu fim à pequena galáxia que estava na palma de sua mão.

— Sim… A Vida.

O Arquimago voltou a ficar pensativo e então continuou seu raciocínio anterior:

— A humanidade sempre esteve presa por grilhões. Com o Despertar, o homem consegue quebrar muitos deles, mas não todos. Eu consegui quebrar todos, com exceção de um.

— Um?

— Sim. O Segredo da Vida.

— Mas você é capaz de criar galáxias na palma de suas mãos, como pode não conseguir criar uma vida?

— Você fala como se fosse simples. Uma Galáxia não passa de um punhado de matéria e antimatéria em pura evolução. Átomos, elétrons, quarts e todos os quase-infinitos elementos químicos juntando-se e formando Estrelas e Planetas. Não há nada demais nisso. Agora a Vida é completamente diferente.

“Eu posso criar agora um corpo humano. Com suas faculdades orgânicas em perfeito estado. Posso lhe dar uma mente própria. Posso até imbuí-lo com um espírito. Mas existe uma coisa que eu não conseguirei dar a esse homúnculo: Vida.”

“Parece simples ou idiota isso. Eu sou capaz de criar estrelas maiores que nosso Sol, mas sou incapaz de dar o ‘brilho dos olhos’ a uma criatura. Sou capaz de reproduzir magicamente um óvulo sendo fecundado por um espermatozóide e, inclusive, esperar nove meses para o nascimento. Mas apesar disso, a criança nunca será igual às outras. Ela não terá animo pra viver. Ela não terá criatividade. Ela não terá qualquer tipo de personalidade. Em resumo: ela não terá alma.”

“E pensando por esse lado… Se eu não consigo criar uma vida, é certo que eu também não consigo ressuscitar alguém do sono da morte. Então eu me pergunto: Por que existe este Tabu? Por que de tudo que existe no Universo apenas isto é vetado? Onde está a razão nisso?”

“Aliás, o que torna Ele tão diferente de mim ou de você? O que nos garante que esse ser que você chama Deus não passa de um homem tolo também capaz de criar o Universo na palma de sua mão?”

— Eriol… você está… você está se comparando a Deus?

— Isso não é uma comparação.

Louise não queria mais ouvir nenhuma palavra de Eriol. Afastou-se dele, deu as costas e ficou calada por um longo tempo. Eriol sabia que seria difícil dialogar. Louise sempre foi uma mulher de Fé e por isso tudo aquilo a estava incomodando profundamente. Porém, ao contrário do que ele pensava, veio dela a iniciativa de quebrar o silêncio:

— Eriol.

— Diga.

— O que você pretende com tudo isso?

— Eu já respondi. Pretendo ressuscitá-la.

— Mas isso é impossível! Além da minha antiga encarnação ter morrido a muitos e muitos anos atrás, eu já reencarnei numa nova vida. Não tem como você me ressuscitar!

— Não da forma que você pensa. Quando eu descobrir o segredo da vida, enfim conseguirei tudo que desejo.

— Mas como você pretende fazer isso?! Eu ainda não entendi…

Eriol parou para pensar um pouco antes de responder. Após encontrar as palavras certas, com olhar penetrante e voz de convicção, ele enfim revelou qual será seu verdadeiro plano:

— Construirei uma escada que irá para além das nuvens; Subirei a Montanha Mais Alta; Baterei com as minhas próprias mãos no Portão do Reino de Deus, e só assim, conseguirei encontrar as respostas que tanto procuro. Mas para isso eu tenho que esperar pelo momento perfeito.

“No final deste ano a Roda dos Mundos irá girar. Nesse momento todo o Universo estará em movimento, as engrenagens do Grande Motor estarão frágeis e assim conseguirei atravessar todos os Planos de Existência.”

— Mas… Isso não será perigoso?

— Tudo na vida envolve riscos. É por isso que preparei tudo com bastante cuidado.

— E o porquê dos assassinatos dos Grão-Mestres de Londres?

— Para a realização deste ritual eu precisarei inicialmente realizar outro feitiço, de purificação da alma. Um ritual conhecido como Ars Goétia. Criado pelo Mago Salomão, a Goétia é um ritual no qual o magista consegue se libertar de todos os seus aspectos mais sombrios recalcados em sua psique. Para que eu possa andar no Jardim do Éden sem ser repelido de lá, precisarei estar com minha alma pura, libertando todos os meus demônios interiores.

“Entretanto isso não será fácil. Primeiro que pra fazer um ritual Goético precisarei de um círculo de invocação muito maior do que o usual – afinal, sou um imortal com mais de 600 anos de idade, e isso certamente faz a diferença. Porém eu encontrei uma solução.”

“Apesar de Elohim ter eliminado em 2003 o ritual invocado por Voormas sobre a cidade de Londres, o circulo criado por ele, mais precisamente o Pentagrama com quilômetros de extensão, ainda está presente nas ondas místicas da cidade, mesmo que inativo. E claro, com um pentagrama desse tamanho certamente eu conseguirei realizar o Ritual da Goétia em mim.”

— E onde entra os assassinatos?

“É ai onde mora o problema. Tal como aconteceu em Oxford no dia da invasão demoníaca, se eu tentar realizar um ritual de proporções tão gigantescas acabarei sendo destruído pelo Choque de Retorno criado pela minha magia. Como não estou disposto a contar com sorte eu precisarei de algumas Pedras das Almas.”

— Pedras do que?!?

— As Pedras da Alma são artefatos criados a partir da Prima Matéria vital dos seres sobrenaturais, a Quintessência. Existem Pedras também de humanos, mas as de criaturas sobrenaturais são mais poderosas. E será com elas que eu irei construir o maior Santuário do mundo. Dentro do Círculo ficarei totalmente imune as Leis Universais que regem a magia e só assim poderei realizar meu ritual sem medo de ser chicoteado pelo Choque de Retorno.

— Mas… por que eu sinto que há algo a mais nessa história?

— Sim, existe sim. Infelizmente não conseguirei o Poder necessário para o ritual apenas com o meu Poder. Eu terei que fazer mais sacrifícios para isso.

— Eriol!!! O que você pretende fazer?!?

— Se caso você pensou em Sacrifícios Humanos, pensou errado. Você me conhece, sabe que não sou disso. Entretanto, precisarei sim realizar sacrifícios e meus alvos serão os Espíritos da Umbra.

— Os Espíritos?

— Sim. Junto com os seres sobrenaturais, essas criaturas são as que mais possuem em seus Corpos a energia necessária pra realização deste ritual. Seus corpus efêmeros são constituídos da mesma matéria que constitui todo o universo imaterial conhecido como Spiritum. Então, se eu desejo criar uma escada que atravesse vários Reinos e me leve até o Éden, precisarei de toda essa matéria disponível. É claro que, certamente isso não será de agrado deles, mas como são apenas Espíritos umbráticos, não farão falta nenhuma.

— E eles estão te seguindo cegamente, acreditando em você.

— Sim. Fazê-los acreditar que eu era um Lorde das Trevas foi deveras fácil. Hoje possuo quase todos os bolsões umbráticos da região sob meu controle.

— Ouvir isso me dá medo. Mas… você disse que pra ir até os Céus você terá que expurgar seus demônios interiores. Isso certamente é uma linguagem figurada, não é?

[Soundtrack: Necronomicon – Nox Arcana]

— Infelizmente não, minha amada. – Eriol encarou Louise com olhar extremamente sério. Louise recuou um pouco e não teve vergonha de ser franca:

— Você está me dando medo.

— Eu percebi. Minhas sinceras desculpas.

— Aceitas. Mas, eu gostaria que me explicasse direito isso.

— A morte dos Grão-Mestres e a guerrilha que está ocorrendo entre as sociedades não será nada comparado ao que está por vir. De acordo com o sistema da Ars Goétia, o magista deverá invocar uma das 72 entidades que são, nada mais nada menos, do que arquétipos de sua subconsciência. Depois que vierem à tona, o mago terá que absorver e equilibrar essas forças ocultas e sombrias de sua psique.

— Setenta e duas Entidades? Você se refere aos 72 anjos cabalísticos?

— Não, minha amada. Infelizmente a Chave Menor de Salomão passa longe de fazer referencias angelicais. A Goetia contém a descrição de 72 demônios e traz em maneira muito vívida a descrição do aspecto desses demônios, que são chamados através das evocações, apresentando seus nomes e classes ao interno da hierarquia infernal e as legiões de espíritos que controlam.

— Meu Senhor Jesus…

— Entretanto, é ai onde mora o perigo. Um feiticeiro comum, como Aleister Crowley, apenas consegue invocar um demônio de classe inferior ou razoavelmente alta. Nada muito significativo. Entretanto, comigo não será tão simples. Como eu disse antes, eu venho carregando uma carga emocional muito grande em meus 668 anos de existência. Se a Goetia libera um dos 72 demônios que representarão o arquétipo de minha subconsciência, imagine então que tipo de demônio poderá ser liberado. Um Duque? Um Rei? Um Imperador? Ou será algo além da imaginação humana?

— Eriol… eu não acredito que você pretende fazer isso… mesmo sabendo dos riscos…

— Eu não tenho escolha. Aliás está tudo preparado. Finalmente os 9 Escolhidos Portadores das Armas Celestiais estão se reunindo. Com a ajuda deles, conseguirei derrotar meus próprios demônios, e assim, minha estrada para os Céus estará liberada.

Sentindo-se confusa, perdida e com uma terrível sensação ruim em seu coração, Louise não consegue acreditar que aquilo tudo que Eriol disse poderia ser verdade. Assim como ela, muitos aqueles que descobriram que ele era o mandante dos assassinatos acreditaram que ele possivelmente tinha algum tipo de plano altruísta, como sempre foi de seu caráter. Mas nunca, em momento algum, ele imaginaria que os verdadeiros planos de sua alma gêmea fossem movidos única e exclusivamente por egoísmo.

— Eriol… - ela para. – Eriol… eu… — Louise ainda tentava se encontrar em tamanha confusão. – Eu… eu não posso permitir isso.

— Como?

— Eriol… isso está errado. Você literalmente está querendo alcançar seus objetivos, não se importando com os meios que irá tomar! Você não pode fazer isso!

— Mas eu estou fazer isso por você.

— Não. Não é por mim, e você sabe disso. Você está fazendo isso apenas por você.

Eriol escutou as palavras de Louise sentindo-se levemente ofendido. Porém, ignorou. Em seguida, levantou um sorriso:

— Louise… Você sabe por que eu te contei isso, não é?

— Por que você sabe que quando eu retornar da viagem astral, de volta ao corpo de Michelle, eu não me lembrarei de nada do que conversamos. Pelo menos, a Michelle não lembrará.

— Exatamente.

— Mas amor, por favor, escute-me. Você sabe que está errado! Você possivelmente colocará em risco a vida de milhões de pessoas apenas pra satisfazer um desejo puramente egoísta!

— Eu cansei desta vida, Louise. Porém, não desisti dela ainda. Como falei, resta apenas um grilhão que me prende a este Mundo Inferior. Assim que eu libertá-lo; assim que eu conseguir alcançar o máximo da iluminação humana, eu poderei descansar em paz. Até lá, ainda tem muito caminho pela frente.

— Você sabe que talvez essa seja sua jornada final.

— Sim. Sei disso claramente. Os Mestres Ascensionados deixaram isso bem claro quando conversei com eles pela ultima vez.

— Eriol…

— Sim?

— Eu… sinceramente… não tenho mais nada a dizer.

— Você quer voltar?

— Sim. Acho melhor.

— Então está certo.

Eriol ainda tentou buscar a mão de Louise para uma despedida rotineira, porém ela se afastou. Estava claro que tudo aquilo não havia ficado muito bem

— Por favor… me leve de volta.

— Tudo bem.

Eriol retirou de seu bolso um amuleto. Era através dele que ele conseguia manter por tanto tempo uma conversa espiritual com a alma reencarnada de Louise. Ele apenas precisava dizer as palavras corretas para que o encanto terminasse, porém ele tinha mais uma coisa a dizer:

— Louise… acredite em mim. Aconteça o que acontecer vai dar tudo certo.

Baixando a cabeça em direção oposta, Louise respondeu:

— Eu não sei de nada, Eriol…

Ao encerrar a conversa, Eriol olhou para o amuleto e encerrou o ritual. Imediatamente a alma de Louise se desfez como areia soprada ao vento, voltando imediatamente ao seu corpo que adormecia calmamente no mundo material.

Eriol ainda ficou um tempo a mais no bolsão espiritual pensando em tudo aquilo que disse e, principalmente, o que ouviu. Certamente nada iria impedi-lo de seguir em frente, porém ele não conseguia deixar de levar em consideração muitas das palavras de sua amada. Ele também esperava que tudo aconteceu hoje entre os dois possa ser superado um dia. Até lá, ele tinha um plano pra dar prosseguimento…

 

******

 

[Soundtrack: A Place Where You Belong – Bullet for My Valentine]

 

Segunda-Feira, 20 de Novembro de 2028. 04h00min.

Sede do Arcanorum.

Londres, Inglaterra.

 

— Desculpe-me pelo atraso. – disse Eriol assim que entrou no salão de reuniões.

 

O local estava vazio. Comparado a como era na época das grandes reuniões que varavam a madrugada, era até perturbador ver o Arcanorum tão vazio. Após a morte de Julien Rieger não sobrara mais ninguém, a não ser os últimos Diáconos remanescentes.

Andreas estava sentado em sua cadeira. Mesmo com a chegada de Eriol, não fez qualquer movimento. Em suas túnicas gregas, o Grão-Mestre da Ordem de Cronos sabia que não restava mais nada. Cedo ou tarde esse momento iria chegar. Ele só não acreditava que seria nas mãos de seu próprio amigo…

— Andreas?

— Eriol. Vamos terminar logo com isso.

Eriol frisou as sobrancelhas. Ele não esperava que Andreas agisse daquela forma.

— Andreas…

— Eriol, não há nada mais para dialogar. Eu não sei quais são seus planos, mas eu acredito que certamente eles não irão te levar a lugar nenhum.

Eriol escutou calado. O silencio prosseguiu por uma infinidade de minutos, até que o Diácono da Ordem de Salomão tomou uma postura extremamente séria e soturna:

— Infelizmente, meu amigo, você está enganado.

Eriol esticou a mão direita em direção a Andreas e em seguida lançou um poderoso feitiço. A magia de Eriol havia atingindo em cheio o Padrão efêmero do Diácono drenando-lhe toda sua energia vital. Os gritos de dor e agonia de Andreas ecoaram pelos corredores vazios do Arcanorum.

Ninguém poderia ouvi-lo.

Ninguém poderia ajudá-lo.

Quando Eriol terminou, Andreas explodiu em chamas espirituais dando um fim eterno a sua existência imortal. Do que restou do grande Diácono que presidiu a cadeira do Arcanorum londrino durante séculos foi apenas uma pequena pedra, de 10 centímetros mais ou menos, de cor azul esmerada, que pulsava um brilho quase vivo.

— Os Dez sacrifícios estão completos.

Segurando a pedra com força, Eriol olhou em volta e pensou em tudo que aconteceu até agora e o que ainda está por vir:

— Após uma longa espera, finalmente o último arco desta história começou.

 

 

To be continued…