Episódio não revisado

 

Londres de Trevas

:: Terceira Temporada ::

 

Episódio LXII

Santos e Pecadores

 

 

 

 

Segunda-Feira, 20 de Novembro de 2028. 20h00min. (GMT +8)

Em algum lugar da China.

 

Sob uma clara lua cheia, em campos abertos sem qualquer sinal de civilização por perto, duas estrelas cadentes de brilho carmesim caíram do céu causando grande espanto no rebanho de ovelhas. Uma breve nuvem de fumaça e poeira ergueu-se no local da queda e, no âmago da cratera gerada, dois simples homens iam surgindo gradativamente.

O pastor, assustado com o barulho e a algazarra de suas ovelhas, veio correndo tentar saber o que estava acontecendo, quando imediatamente caiu para trás em total assombro. Para ele, aqueles homens pareciam dois seres de outro planeta. Um irradiava uma aura azul perene e tranquila. O outro emanava uma luz escarlate forte bastante agressiva e intensa. Imediatamente ele fugiu acreditando piamente de que se tratava de um anjo e um demônio duelando em seus campos o destino da humanidade.

Talvez não fosse tão longe da verdade.

— Que lugar é este que você nos trouxe, Portador da Dark Sword?!? – questionou Krisztián László, o Portador do Instrumento Musical.

— A um lugar onde o sol não me incomodasse. – respondeu Sebastian. Em alguns pontos de seu corpo era possível se ver algumas feridas por queimaduras cicatrizarem a longos passos.

— Entendo. Estamos em algum lugar do mundo onde já é noite. – comentou Krisztián entendendo a condição vampírica de Sebastian. — Entretanto… eu imaginava que vampiros virassem cinzas assim que a luz solar encostasse seus corpos. Não foi bem o seu caso.

— Eu sou diferente dos outros vampiros. A Dark não permitiu que todas as maldições vampíricas caíssem sobre mim.

— E estando aqui… você acredita mesmo que poderá me derrotar?

— E você acredita mesmo que essa sua harpinha é párea para minha espada.

— Você apenas me subestima, garoto.

— Digo o mesmo pra você.

Sem qualquer anúncio de iniciativa, Krisztián foi o primeiro a agir tocando algumas notas de sua harpa. Sebastian pensou que novamente ele usaria aquela técnica que golpeava sua alma com uma melodia doce. Entretanto, foi totalmente o contrário. De alguma forma, o Portador da Luz solidificou o ar gerando construtos em formas de lanças e espadas que avançaram velozes em direção de Sebastian. O Portador das Trevas apenas teve tempo de bloquear alguns dos construtos para em seguida se esquivar para longe.

Krisztián não parou. Com o toque de mais alguns acordes, outros construtos de ar eram formados. Desta vez correntes vinham de todos os lados cercando Sebastian até que, sem sorte, acabou sendo agarrado por elas. Com uma poderosa força psíquica, Krisztián conseguia controlar as correntes de ar com maestria a ponto de obrigar Sebastian a ter que largar a sua espada.

— Aaaaaahhhhh!!! – exclamou Sebastian de dor.

Esboçando um sorriso, Krisztián não deixou seu comentário passar:

— Agora irei ensiná-lo a ter mais respeito àqueles que seguem a Luz, criatura das trevas.

Usando ainda mais sua força psíquica, Krisztián agora estrangulava Sebastian sem piedade. O Portador da Dark só então percebeu que seu adversário nem de longe seria igual ao Danyael nos tempos de Oxford.

Ele teria que encontrar outros meios para derrotá-lo…

 

*****

 

Regency Street, Londres. 12h10min.

 

— Eu… eu não posso acreditar… o Eriol?!?

 

O questionamento estarrecido da esposa de John Kimble ecoou pela sala de estar solitário. Ainda custava para Gabriela acreditar no que April, a Portadora do Oráculo da Luz, havia revelado. A jovem não apenas contou tudo o que sabia sobre o que havia acontecido na casa do Danyael, como também revelou que Eriol vonBranagh era o mandante dos assassinatos que estavam acorrendo em Londres.

Na sala de estar do apartamento que um dia foi de John, ele, Gabriela, e o pequeno Andrew que dormia no colo da avó, escutaram atentamente tudo o que April falava. O mais impressionante disso tudo não foi apenas o fato de descobrir que Eriol era o mandante, e sim que eles haviam sido manipulados por ele durante todos esses meses.

John, que estava calado desde o inicio da conversa. Mais do que isso, ele estava diferente, e somente sua esposa percebeu isso. De alguma forma ele não aparentava ser ele mesmo:

— No fundo, eu desconfiava disso.

— Como assim, querido? – questionou Gabriela.

— Vou revelar algo aqui. Desde o assassinato de Kravinoth eu venho investigando também os assassinatos. Inicialmente eu pensei em não me meter, porém certo dia recebi uma vista muito estranha de alguém que me informou estar por dentro das investigações. Seu nome era Dan Viper.

 

6 meses atrás…

 

Num velho bar na Irlanda, Dan Viper aguardava a chegada de seu convidado. John entrou no bar com postura firme, sem um pouco deixar ser intimidado pelo local. Ao ver seu anfitrião sentado ao fundo do bar, John se aproximou puxando uma cadeira.

— Espero que realmente o que você disse no telefone seja importante. E principalmente: verdade.

— Não se preocupe, Sr. Kimble. Eu não durmo no ponto. Se lhe chamei aqui, é por que o assunto é sério.

— E por que logo aqui, na Irlanda?

— Por que não dá pra termos uma conversa particular em lugar nenhum de Londres, muito menos em Nova York, onde você mora. Dadas as circunstâncias de nosso assunto e do que estamos lidando, não apenas as paredes têm ouvidos, como um bairro inteiro pode ter.

— Entendo.

— Mas antes de começarmos a conversa, gostaria de pontuar algumas coisas em nossa conversa.

— Pode dizer.

— Primeiro: em hipótese nenhuma mencione o nome ou sobrenome de seu compadre Diácono.

— Mas isso é rid…

— Se quer mesmo escutar o que eu tenho a dizer, peço que faça isso.

— Ainda acho isso ridículo. Mas continue.

— E segundo: eu sei que você tem poderes inimagináveis…

— Que não estão mais ao meu alcance, por decisão minha.

— Disso eu não sabia. Mas, mesmo assim dá pra fazer o que lhe irei pedir: tudo que for conversado aqui eu gostaria que você deixasse armazenado não em sua memória, sim em sua alma.

— Do que você está falando?

— Você é um feiticeiro e também é um anjo reencarnado, assim como eu. Sabe perfeitamente o que estou falando. Uma criatura é formada de três unidades: Corpo, Mente e Espírito. Isso é o básico, porém nós dois somos diferentes. Nossas almas se uniram a um Espírito extremamente elevado quando nascemos, nos tornando Nephalins, os meio-anjos.

— Sim. É a Lei da Vida. Toda criatura nasce com uma alma única. Porém os anjos que por alguma razão não podem mais voltar aos Céus acabam ficando presos na Terra reencarnando em corpos humanos para poderem viver.

— Exatamente. Por isso, pra evitar que de alguma forma sua mente seja vasculhada, gostaria que tudo que conversássemos aqui fosse diretamente pras memórias de seu outro “Eu”, o anjo. Assim será impossível vasculharem sua mente ou adulterá-las.

— Entendo. Farei isso sim, Dan Viper, entretanto… deixarei bem claro que se algo acontecer aqui, e/ou o que você tiver pra me falar não passar de baboseira, juro que não deixarei um assassino de aluguel passar em branco diante de mim.

Dan Viper esboçou um sorriso. Não de deboche, mas também não levou a sério o que John havia dito.

— Relaxa. Como eu disse… eu não dou ponto sem nó.

Demorou apenas alguns segundos. John fechou os olhos e solicitou que Elohim despertasse de seu sono. Quando o Arcanjo veio à tona, ele não entendeu bem o que estava acontecendo, porém confiou em seu hospedeiro e, principalmente, não o tirou do “controle do volante” da consciência. Apenas sentou no banco do passageiro:

— Pronto. Elohim e eu somos todo ouvidos.

— Bem… por onde eu começo…

— Explicando o que você quis dizer no seu telefonema. “O que tenho pra lhe dizer envolve tanto os assassinatos dos Grão-Mestres em Londres quanto seus familiares.”. Você indiretamente envolveu minha família nesses assassinatos. Agora eu quero explicações.

— Infelizmente, o que tenho pra lhe contar não será de seu agrado. Mas está certo, começarei do inicio. Exatamente no dia em que Vincent Vaugh foi encontrado morto em seu apartamento. Naquele dia eu estava exatamente neste lugar, e havia recebido um estranho telefonema de um homem que queria me contratar pra investigar o assassinato. Esse homem era ninguém menos do que seu compadre diácono, seu melhor amigo.

 

***

 

— Então ele me falou tudo. Falou que investigou a fundo cada um dos assassinatos. Disse que estava seguindo pistas bem fortes sobre a identidade do assassino. Entretanto, a verdade por trás da verdade era a identidade daquele que estava arquitetando tudo…

 

***

 

— Impossível! – John havia dado um tapa na mesa onde foi capaz de atrair a atenção de quase todos do bar. Só após alguns minutos, depois que o povo percebeu que não estava acontecendo “nada demais”, que a conversa retornou ao seu rumo, desta vez com John falando mais calmamente:

— Você só pode ter cometido algum engano. O Eri--

— NÃO FALE O NOME DELE! – exclamou Dan Viper calando John imediatamente.

— …

— Eu demorei, obviamente, pra descobrir isso. Mas, graças a minha herança angelical e um pouco de minha esperteza, descobri que ele possui um feitiço ativo conhecido como “Onipresença”.

— A simples menção do nome faz com que ele saiba por quem, onde e porque foi mencionado.

— Sim. Eu conheço. Quase todos os Arcanjos possuem esse ritual.

— Por isso mesmo… não mencione o nome dele. Mas voltando ao assunto… com que base você faz uma acusação dessas?!?

— Eu já te passei tudo o que sei, Sr. Kimble. Aqui nesta pasta estão minhas principais fontes de investigação. Foi um grupo de Iluminados que me passaram muitas dessas evidências. Claro que nem eles sabiam quem era o real Mandante, porém muitas destas provas ficaram mais claras quando você preenche as lacunas em branco com o nome do seu amigo.

“Você é um investigador também. Considerado um dos melhores no ramo de investigação sobrenatural. Eu não preciso convencê-lo de nada. Apenas deixo em suas mãos estas evidências. Tire por si só suas próprias conclusões.”

Dan Viper empurrou sobre a mesa uma pasta azul de plástico. John não questionou nada e apenas buscou a pasta. Preferiu não abrir ainda. Pelo menos não naquele lugar. Mas até aquele momento era impossível acreditar em qualquer palavra vinda daquele homem. Suas entranhas se contorciam só de estar conversando diante de um assassino de aluguel, entretanto… Esta não seria a primeira vez eu John fazia negócios com pessoas do tipo de Dan Viper.

 

***

 

— E depois daquele dia nunca mais voltei a falar novamente com ele. – John encerrou sua história, mas suas ouvintes sentiam que tinha mais coisa pra escutar. Mais do que isso. As duas, principalmente Gabriela, começaram a perceber que John Kimble estava agindo e falando de forma estranha, como se não fosse ele mesmo.

Sim, Gabriela começava a suspeitar que, desde o inicio da conversa, não era mais seu marido John que estava com elas na sala, e sim: Elohim, o alter-ego angelical de John.

— Depois daquele dia, comecei a investigar mais a fundo os assassinatos. Porém tinha que fazer isso de longe, afinal, depois do que ocorreu em 2005, eu não posso mais pisar em Londres por muito tempo. Então, somente com a ajuda de meu amigo Edward Muller, que nos últimos anos vem agindo como agente duplo dentro dos Iluminados, que consegui reunir provas suficientes que, sendo ou não o Eriol o mandante dos assassinatos, somente alguém do alto escalão do Arcanorum poderia estar armando tudo isso. Foi então que resolvi vir à Londres tirar minhas conclusões. Como vim na intenção de encontrar o Eriol, tive uma surpresa quando o encontrei…

 

***

 

Cinco meses atrás… [Flashback: Episódios 42 e 43]

 

Assim que chegou na Inglaterra John usou seu ritual de teletransporte para encontrar Eriol, onde quer que ele estivesse. Entretanto, tal foi sua surpresa em encontrá-lo bem distante da capital, em Colchester, perto de um asilo abandonado. Naquele momento Eriol estava terminando de conversar pelo celular com alguém:

— (…)O Arcanorum não é um lugar seguro, VonBranagh. Como suspeitamos que o assassino está agindo à mando de alguém de dentro, realizar a reunião num local comum e de fácil acesso não será uma boa idéia. […] Certamente o melhor lugar será na Jupiters Corp. Lá, pelo menos, ninguém irá suspeitar e Dorje Washington poderá garantir nossa segurança. […]Eu agradeço pela sua atenção.

Foi nesse exato momento que Eriol observou que John havia acabado de aparecer diante dele e que, possivelmente, tenha escutado sua conversa pelo telefone.

— Terei que desligar agora. Acabei de descobrir que estou ocupado. […] Em breve. […] Passar bem.

Desligando o celular, Eriol esboçou um sorriso e foi cumprimentar o velho amigo:

— John! Que baita surpresa encontrá-lo por aqui! O que o trás à Inglaterra tão de repente?

John manteve-se bastante sério. Além dele estar com muitas coisas entaladas na garganta, a cena que ele acabara de presenciar não estava lhe cheirando muito bem…

— Eriol…

— Sim?

— Você conhece outra pessoa que se chama “VonBranagh”?

— Não, claro que não. Sou o último de minha família.

— Então… Eu ouvi direito ou você chamou a pessoa do outro lado da linha de “VonBranagh”?

— Acho que você deve ter se confundido, meu caro amigo. Sei que estou velho, mas não estou caduco o suficiente pra confundir o nome de outra pessoa com o meu!

— E a outra pessoa do outro lado da linha… Ela deve ser alguém do Arcanorum, não é? Afinal você estava falando sobre assuntos bastante importantes.

Quando John começou a pressionar, Eriol sentiu que não iria conseguir contornar a situação ou muito menos enganá-lo:

— John… aonde você quer chegar?

— Você sabe que pode enganar qualquer um, não é? Pode querer enganar seus colegas arquimagos, toda a sociedade sobrenatural, o Espírito que guarda a Sede do Arcanorum… mas a mim, você não engana.

— E… onde estou querendo enganá-lo?

— Você estava realmente ligando pra você mesmo?

— Isso é ridículo, John. Como eu poderia ligar e conversar comigo mesmo?!

— Eu já falei, Eriol… Não tente me fazer de idiota, por que estou longe disso. Eu sei muito bem que você tem o costume de telefonar pra você mesmo no futuro, usando magias temporais. Você cansou de fazer isso na minha frente!

O clima entre os dois havia ficado tão tenso que simplesmente o silêncio foi a única coisa que imperava entre eles. Eriol andou um pouco em meio-círculo pensativo, enquanto John não tirava os olhos dele esperando uma resposta.

— Acho que você deve já estar desconfiando de alguma coisa.

— Eu não estou desconfiando, Eriol. Estou com 99% de certeza do que está acontecendo. E o pior… eu até sei os motivos! Eu só gostaria de saber uma coisa: “Por quê?”.

— Ora… Por quê? Você sabe o porquê.

— Mas você não está feliz com a vida que tem? Você recebeu uma segunda chance dada por Miguel. Uma segunda vida. Por que você ainda corre atrás disso?!

— Você nunca via me entender, John.

— Não, não irei. Nunca irei entender porque meu melhor amigo se tornou um assassino.

— Eu sempre fui um assassino, John. Não se esqueça que no inicio da minha juventude eu fazia parte de uma Cabala de magos assassinos.

— Você está se referindo a um Eriol de 600 anos atrás. Eu estou falando do atual.

— O antigo e o atual sempre foram a mesma pessoa.

— Eu não acredito nisso… Com que propósito?!?

Eriol então decidiu não responder mais nada. Aquela conversa já estava indo longe demais para ele. Olhando fixamente nos olhos de John, ele decidiu fazer aquilo que gostaria ter evitado:

— Você vai apagar minha mente? – questionou John ao ver as pupilas de Eriol começarem a emanar uma luminescência azul.

— Sim.

— Vamos… faça isso. Faça isso e eu lhe garanto: eu ainda vou me lembrar de tudo. E quando eu me lembrar, pode ter certeza que eu estarei muito, mas muito puto contigo.

 

***

 

— E então, ele apagou a minha mente. – concluiu John para Gabriela e April.

Mas uma pergunta estranha surgiu na mente da jovem April. E ela não se segurou em perguntar:

— Mas… se ele teve sucesso em apaga a sua mente, Sr. Kimble, como você está se lembrando de tudo?

— Porque simplesmente eu segui o conselho daquele assassino de aluguel chamado Dan Viper. Eriol pode ser poderoso. Pode estar planejando algo que vai além da concepção humana. Mas ele ainda está longe de conseguir apagar a mente de um Arcanjo, como Elohim.

Quando John terminou April estava um pouco confusa. Ela sabia, graças ao seu Oráculo, que no passado John havia unido seu corpo, mente e espírito com um arcanjo conhecido como Elohim. Entretanto, ela nunca imaginou que os dois podiam agir como pessoas diferentes. Era como se agora John tivesse uma dupla personalidade. Para Gabriela, que havia conhecido os dois, estava bem clara a diferença. Ela olhava para o homem diante dela e via Elohim. Já no espelho que o refletia ela via seu marido, em segundo plano, apenas como observador.

— E o que nós poderemos fazer? – questionou Gabriela.

— Agora… primeiro encontrar um local seguro pro pequeno Andrew. Eu duvido muito que o Eriol pretenda fazer alguma coisa contra a criança, mas tem os anjos da Cidade de Prata que estão colocando a cabeça dele à prêmio.

— Sim…

— E depois disso, é tentar encontrar uma razão pra tudo isso. Tentar descobrir os verdadeiros planos dele.

De repente, April deu um pequeno grito de espanto e logo alertou:

— Gente!!! Nós estamos mencionando o nome dele à horas!!! Ele provavelmente…

— Sim, sim. – acalmou John. – Ele já sabe de toda nossa conversa. Na verdade, ele está a poucos instantes de chegar…

Os três escutaram o barulho do elevador chegando no hall de entrada. Em seguida, uma chave destrancou a porta principal e não demorou muito para Eriol VonBranagh estar entre eles na sala de estar. Esboçando o velho sorriso bondoso, o arquimago cumprimentou a todos:

— Acredito que já estavam me esperando. Olá, Elohim.

— Olá, Eriol.

 

*****

 

Data e Hora indefinida.

Cidade de Prata.

 

Danyael sabia da existência das escadas que levavam à entrada da Cidade de Prata, porém ele nunca imaginou que um dia ele precisaria ter que subi-las. Para Phillipp tudo aquilo era surpreendente. O simples fato de estar no mundo superior a Terra já era inacreditável. Tudo ali parecia mais limpo, mais puro, com as cores mais vivas, o céu mais limpo. Cada detalhe de sua caminhada estava sendo gravado com precisão em sua memória.

— Estranho. – comentou Phillipp.

— O que? – questionou Danyael assim que subiu os primeiros degraus da escada de mármore branco que levava até os portões do Céu.

— O primeiro degrau. Ele parece estar enterrado no chão…

— Como se a escada tivesse emergido do solo?

— Sim.

— Mas é isso mesmo. O primeiro degrau não é propriamente o primeiro, e sim a metade do caminho.

— Como assim?

— Essa escadaria na verdade começa lá embaixo, nos Reinos Inferiores. E, por trás da Roda dos Mundos, ela vem subindo até chegar aqui.

— Incrível. E essa escada passa pela Terra?

— Sim, passa. Sabe a famosa “Luz” que as pessoas vêem quando estão entre a vida e a morte? Uma luz perene, no alto, no fim do horizonte.

— Sim, sim.

— Então. Essa luz nada mais é do que a personificação desta escada.

— Entendo… E ela termina aqui, na Cidade de Prata?

— Não sei… - Danyael então olha para o final da escadaria, que se esconde por meio de nuvens. — Eu acredito que sim.

— Hm…

— Então, vamos?

— Nós temos que subir tudo mesmo a pé?

— A pé?! E nossas asas estão quebradas?

— Ah, sim. Eu pensei que fosse proibido subir as escadas voando.

— Vamos então.

Danyael e Phillipp novamente ergueram suas asas angelicais e draconianas respectivamente. Cruzando a escadaria mais rápidos que o vento, enfim conseguiram ver ao longe a entrada da capital dos anjos. De repente Phillipp não conseguiu se continuar e parou ao ter a visão tão imponente pela vastidão do portão que guardava a entrada da capital dos anjos.

Muitos, mas muitos metros antes de chegar até a entrada propriamente dita já era possível de se ver os mais de 400 metros de altura do Portão principal da Cidade de Prata reluzindo em puro ouro e prata. Um sensação de insignificância abate a qualquer um visualize aquele monumento. O portão era formado por duas gigantescas colunas, de estilo jônico, porém ricamente detalhado com alto-relevos que lembravam ramos de flores. Em sua cabeceira uma fachada triangular, porém quase impossível de detalhar de tão longe que estava da linha de visão. O Portão parecia rasgar a abóbada celeste em sua sublime magnificência.

— Q-qual é o t-tamanho d-disso?!?

— Dizem que tem mais de 400 metros. É pequeno.

— PEQUENO?!?

— Sim. Você ainda não viu as edificações que existem dentro de cada um dos 10 Distritos que compõe a Cidade de Prata.

— Dez distritos?

— Sim. A Cidade de Prata é muito mais do que simples nuvenzinhas com anjinhos rechonchudos tocando harpas o dia todo. Nós estamos em um mundo como qualquer outro, porém Superior a qualquer mundo que exista no Universo onde a Terra existe. Não é fácil explicar, mas a própria Cidade de Prata não é uma cidade propriamente dita. Ela é composta por 10 mundos, nos quais chamamos de Distritos, e cada uma delas representa um dos Sephiroth da Kabbalah.

“A Cidade de Prata funciona como um grande Sistema Solar, só que no formato fiel da Kabbalah. Cada um desses distritos tem seus próprios príncipes regentes, que são ninguém menos que os Nove Príncipes Cabalísticos: Gabriel, Miguel, Haniel, Rafael, Azrael, Tsadkiel, Tsaphkiel, Raziel e Metraton. E cada regente tem seus prefeitos, os 72 anjos cabalísticos, que guardam os territórios de cada Distrito.”

— Mas… se são 10 Mundos e apenas 9 Príncipes, e o distrito que restou?

— Ah sim… Esse é Malkuth, o primeiro distrito, reservado apenas a humanidade.

— Então a Humanidade realmente tem seu “pedacinho” no Céu.

— Sim.

— E esse Portão? Quando atravessarmos, onde iremos parar?

— Não existe bem “leis físicas” aqui na Cidade de Prata. Ao abrir o Portão, diferente do mundo material não iremos parar exatamente no “primeiro distrito”. Na verdade, os Dez Distritos estão interligados por forças muito além de nossa compreensão onde o Tempo e Espaço são extremamente indefinidos. E por causa disso, depende muito aonde iremos parar ao abrir esse Portão. Podemos parar em qualquer Distrito, sendo que meu objetivo agora é chegar até o Conselho de Júpiter que fica em Hesed, lar dos anjos Dominações.

— Lar? Significa que cada anjo tem, tipo, uma nacionalidade?

— Sim. Por eu ter nascido na Terra, sou praticamente uma exceção de todos, pois nasci no Firmamento, o 10º Distrito, Malkuth. Porém, meu padrinho, o Arcanjo Miguel, durante minha adolescência me levou até cada um dos 9 Distritos para encontrar aquele no qual eu seria… digamos… batizado, já eu não podia ser batizado no Reino dos Homens. Hoje sou, por batismo, um Anjo Principado, do Distrito de Netzach.

— E como iremos então chegar ao tal Conselho de Júpiter? Vamos bater na porta? “Knock-knock-knockin’ on heaven’s door”?

 

[Soundtrack: Knockin’ on Heaven’s Door – Guns n’ Roses]

 

— Bem… - olhou Danyael desanimado para o imenso portão. — Antigamente eu tinha passe livre pra entrar na Cidade de Prata e podia ir para qualquer Distrito sem passar pelo Portão. Agora, eu sinceramente, não sei o que fazer. Acho que teremos sim que bater na porta.

O silêncio entre eles ficou pairando por alguns instantes até que Danyael resolveu dar prosseguimento em sua subida até o hall de entrada do Portão. Durante o vôo Danyael começou a se lembrar de tudo que aconteceu até agora, como se um filme de sua vida estivesse passando lentamente diante de seus olhos.

A época em que havia brigado com seu pai e saído de casa para morar sozinho. Sua busca incansável pelo seu amor proibido. Sua tentativa de se provar como sendo digno de ser anjo ao enfrentar os Alastores. A Guerra que culminou por causa de seus atos. A descoberta de seu verdadeiro destino como Portador da Light Sword. A cruzada que passou todo esse ano na busca em se tornar arcanjo. Sua viagem para o futuro imperfeito. Ter a chance de ter conhecido seu próprio filho adulto muito antes dele ter nascido. A morte de sua esposa.

E agora…

Ele voava diretamente contra a tudo aquilo que ele havia planejado para ele mesmo pro futuro. Tudo aquilo que ele aspirava. Seus sonhos e desejos. Tudo agora se chocava como dois trens em um mesmo trilho a cada degrau que ele se aproximava da Cidade que o havia, literalmente, proibido de entrar.

Mas Danyael voava confiante. Sabia que a cada degrau que subia ele encontraria, de alguma forma, uma solução para o futuro de seu filho, de sua família, e principalmente, dele mesmo. Mesmo que isso significasse perder suas asas e cair dessas escadas tal como Lúcifer um dia caiu. Não havia como, e nem ele queria, poder voltar atrás. Agora era a hora de amadurecer e arcar com todas as suas decisões.

Percebendo que estava se aproximando dos últimos degraus, o peito de Danyael apertou forte com ansiedade do que lhe aguardava. Ele se sentiu tão nervoso que precisou subir, pelo menos os dez últimos degraus, a pé para poder respirar com calma e ter a coragem suficiente de encarar a entrada de suas decisões. Ele agora iria invadir a Cidade que um dia o acolheu e lhe deu uma razão para sua existência nessa vida. O motivo de seu orgulho e honra. Quando seu pé enfim alcançou o último degrau seu corpo congelou por completo. Phillipp, que vinha logo atrás não entendeu a repentina parada de Danyael até que ele visualizou aquilo que fez seu amigo parar.

Diante do Portão Principal havia um pelotão de anjos armados e usando armaduras celestes simplesmente aguardando a chegada deles. E na frente desse pelotão, comandando a tropa, estava ninguém menos que um dos Príncipes dos Distritos da Cidade de Prata: seu mentor, padrinho e, principalmente, amigo, o Arcanjo Miguel.

Só agora, olho a olho com Miguel, que Danyael sentiu, verdadeiramente, medo pelo que ele estava fazendo.

[]

 

*****

[Soundtrack: Saints and Sinners – Godsmack]

 

Em algum lugar da China. 20h10min. (GMT +8)

 

Sebastian começava a sentir que perderia os sentidos a qualquer momento. Seu corpo era esmagado por tentáculos feitos de ar enrijecido criados pela música de László.  Se ele não agisse logo, certamente ele seria morto por ele.

— Espero que encontre paz em sua Morte Final, vampiro portador da Dark Sword.

As palavras de Krisztián tinham o dom de irritar Sebastian ainda mais. Mas, o que ele poderia fazer? Seu raciocínio começara a ficar mais lento do que o normal “Isso sim é um grande problema”, diria Nick se caso estive ali do lado dele.

“Nick…? Sim!!!”, exclamou Sebastian. “Eu tive uma idéia!”

Olhando fixamente para sua espada caída no chão, Sebastian tentou criar um elo mental entre ele e sua arma. Quando sentiu que os poderes da Dark Sword ainda estavam com ele, seu sangue vampírico borbulhou freneticamente até ele buscar um poder que, mesmo que ninguém o tivesse ensinado, era possível ser acessado por qualquer vampiro: O Controle das Sombras.

Como lâminas afiadas, dezenas de construtos sombrios avançaram contra Krisztián violentamente cortando-lhe agravadamente. O Portador do Instrumento Musical teve que parar imediatamente de controlar seu ataque contra Sebastian para se defender com seus construtos de ar.

No chão, livre da prisão feita por seu inimigo, Sebastian não parou o ataque. Consecutivamente ia atacando usando todas as sombras disponíveis ao seu redor. Era graças à luz da lua cheia que Sebastian tinha todo o poder necessário para contra-atacar seu adversário. Ele ainda aproveitou e buscou sua espada que estava caída sobre a grama.

Krisztián defendia-se o máximo que podia. As lâminas feitas de sombras vinham de todos os lados e parecia não se cansar. E se não bastasse isso, Sebastian ainda veio para cima dele atacando violentamente com a Dark Sword. Krisztián precisou novamente transformar seu instrumento em uma flauta dourada para se defender. Uma explosão de ar e energia expandiu-se rapidamente no encontro das duas armas. Pressentindo sua evidente desvantagem, Krisztián reuniu todo o poder aéreo que havia criado e criou uma bolha de ar tão densa que, além de forçar Sebastian se afastar, ele ainda se lançou aos céus num vôo fenomenal.

Olhando de baixo, Sebastian não se intimidou:

— Você não é o único que pode voar.

Segurando com firmeza o cabo de sua poderosa espada, Sebastian também reuniu em seus pés todas as sombras ao se redor. Como uma catapulta, o Portador lançou-se aos céus em direção ao inimigo sendo acompanhado por uma onda de sombras animadas em forma de lâminas. Krisztián segurou firme sua flauta e também reuniu o máximo de ventos em fúria para contra-atacar.

Quando os dois poderes se chocaram, uma grande explosão ocorreu, porém apenas o som foi possível de se distinguir. Caindo em queda livre, tanto Sebastian quanto Krisztián quase perderam a consciência e mesmo bastante feridos, conseguiram reunir forças para evitar uma aterrissagem violenta.

Sebastian era vampiro, estava conseguindo manter-se de pé no combate mesmo após ter sido transpassado por diversos projéteis feitos de ar. Já Krisztián não estava em boas condições. Caído no chão com o corpo todo cortado, por pouco as sombras não pegaram sua jugular. Estava impossível para ele continuar esse combate.

E nesse exato momento, sob a luz da lua cheia, surgiu Sebastian com seus olhos homicidas brilhando a cor da Dark Sword em sua mão.

— A-acabe logo c-com isso…

— Eu não que te matar. – disse Sebastian. – Porém… eu acho que você não vai deixar o filho do Danyael em paz, estou certo?

— S-são as ordens de Deus. E-eu sou um s-servo de Deus.

— Ordens de Deus? Matar uma bebê inocente são ordens de Deus?!?

— E-eu não preciso lhe dar… s-satisfações… criatura das trevas.

— Realmente… homens como você não farão falta nenhuma nesse mundo.

— E-e quem é você… para me julgar? Um homem que aceitou de coração as trevas da Light Sword. Você não passa de um… pecador… maldito… que causou apenas dor e sofrimento a todos aqueles que se aproximaram de você. Que até cinco anos atrás era uma marionete de Deuses do Abismo, causando destruição e morte em Oxford apenas por que seus desejos mais egoístas e luxuriosos não haviam sido saciados. Quem… Quem é você para me julgar, Sebastian West.

— Sim. Eu fui e sou tudo isso que você disse. Realmente as pessoas ao meu redor só encontraram dor e sofrimento. – imediatamente Sebastian recorda de seus amigos Nick, Erick e Tawnee e tudo que passaram no inicio. — Eu mesmo criei um inferno em minha própria vida. Mas… — novamente Sebastian se recorda de seus amigos e dos momentos bons que passaram. – Se nenhuma lição pode ser aprendida sem que venha acompanhada de dor, eu digo: eu irei superar essa dor. Eu irei erguer meu punho aos céus apenas para manter meus sonhos vivos. Por que eu descobri que não preciso da opinião de você, da sociedade, ou até mesmo de Deus para continuar a viver. Eu tenho meus amigos, e isso é tudo o que importa para mim. Sei que possuo uma parte santo e duas pecador, porém a ultima parte continua na linha.

— Eu cuspo em sua amizade… Vamos… termine logo com isso!

— Se é isso que você deseja…

 

[Soundtrack: Fifth Laboratory – Akira Senju]

 

“PAREM!”

 

Uma voz sombria e ameaçadora retumbou por toda a planície como se fosse a voz de Deus, ou do diabo, parando Sebastian imediatamente. Imediatamente uma sombra cinza cobriu todo o lugar removendo todo e qualquer vestígio de sinal de vida. Tudo estava completamente cinza, como se fosse um filme antigo em preto e branco. Aliás, nem tudo estava sem cor. O sangue de Krisztián que escorria em sua face ficara nítido num vermelho vivo, sendo a única cor que se podia ver.

Arrepiado, e sentindo-se acuado por tamanho poder sombrio, Sebastian largou de mão em matar Krisztián e se preparou para enfrentar esse inesperado inimigo. Sebastian não tinha mais funções corporais involuntárias, como se tremer, mas pela primeira vez desde que se tornou um vampiro, ele sentia um medo verdadeiro.

— Quem é você?!? – exclamou Sebastian.

E surgindo das sombras, usando um longo vestido negro, uma menina oriental veio até eles. Ela certamente era a causadora de toda essa ressonância sombria. Suas feições eram tão frias que a menina não parecia esboçar qualquer tipo de emoção. Mais do que isso. Ela fazia com que Sebastian e Krisztián estivessem literalmente à sua mercê.

— Vocês não devem se matar. Ainda não é a hora.

— Q-quem é… você?!? – questionou Sebastian ainda temeroso.

— Eu sou aquela que representa o poder do Príncipe Azrael na Terra. Sou a Portadora da Sombra da Morte, meu nome é Yuko Hitomi.

 

 

 

To be continued…