Episódio não revisado.
Sob esta terra maculada pela sombria treva,
meu corpo foi sepultado.
Entregue ao oblívio, com a terra sobre meu corpo,
destinado a novamente ser terra.
Mas em meu âmago, sinto um desejo sangrar.
Devorando minhas entranhas,
segurando-me neste mundo,
Um desejo que me impede de descansar.
Justiça cega.
Chuva que molha o virgem solo mortuário,
enclausurado dentro deste frio útero,
uma parte de mim, fragmentado pelo pecado,
não por que assim Deus quis,
mas por causa do homem e seu orgulho.
E minha alma não descansa,
sem o alívio do sofrimento da vida,
reverbera minha dor.
Aguilhoado na agonia,
Mil noites cairão, e eu continuarei aqui,
remoendo a minha morte,
a justiça feita antes que tardia.
Oh dor.
Eu, que obtinha o Poder,
trazer à verdade aquilo que era uma mentira,
poderia fazer chover rãs e colheitas apodrecer.
Hoje, dentro de um buraco,
feito e pago por mim em vida,
sei que não posso ser salvo.
Mas a justiça há de ser feita.
Não hoje.
Não amanhã.
Não por mim.
Mas cega ela não continuará.
Nem que eu precise,
sem nervos, sem músculos e sem ossos,
sem vida,
erguer-me deste túmulo,
levantado apenas pelas lágrimas esquecidas,
colocarei o meu coração na balança de Maat,
e trarei a luz a esta terra fustigada pelas trevas.
Sei que sofrerei no final.
Mas esta história está quase no fim.
Então agüentarei firme,
frio e despedaçado,
enquanto ainda tiver forças para viver
apenas por aqueles que deixei no caminho.
Londres de Trevas
:: Terceira Temporada ::
Episódio LXIII
A Ressurreição
Segunda-Feira, 20 de Novembro de 2028. 18h00min.
Residencial geriátrico St. Edwiges.
Londres – Inglaterra.
Edward Muller inicialmente veio até o hospital como médico. Mas ele, como nenhum outro, sabia que coincidências não existiam. Poderia parecer estranho, mas até parece que foram as forças cósmicas que fizeram seu telefone tocar pouco após o almoço para que ele comparecesse àquele residencial geriátrico.
Seu papel em Londres havia se tornado ambíguo desde que ele topara, alguns anos atrás, entrar para a Ordem dos Iluminados. Para um estudioso do oculto, mestre nas magias ancestrais, era um paradoxo acreditar que ele possivelmente largaria tudo em prol da visão científica do mundo.
Não, muito pelo contrário. A sua entrada para os Iluminados apenas esclareceu ainda mais as suas dúvidas. Muita coisa havia se perdido no decorrer dos séculos e das guerras místicas. Nos tempos egípcios, a ciência e a magia caminhavam juntas, e não separadas como nos dias atuais. Sua Ordem arcana ofereceu tudo que poderia lhe oferecer, mas restavam lacunas vazias que apenas os Iluminados poderiam oferecer.
Talvez tenha sido por isso que ele fora escolhido. Não havia ninguém nestas terras melhor para entender o que havia acontecido naquela manhã, naquele local, melhor do que ele.
— Apenas me conte o que você viu.
Suas palavras foram demasiadamente calorosas para acalmar os ânimos aflitos da doutora diante dele. Seu nome era Carla, tinha residências e pós-graduações em tratamento geriátrico, um exemplo de um profissional dedicado. Mas nada, em seus quase vinte anos de carreira, ela viu algo como hoje.
— Ele estava lá… - respondeu trêmula. – Perto da cama… segurando a mão de sua mãe.
— Ele quem, Dr.ª Carla?
Ela titubeou por alguns instantes. Olhou nos olhos de Edward e não acreditava que aquele colega médico iria acreditar nela.
— Por favor, doutora. Acredite em mim. Independente do que você falar, eu irei acreditar na senhora.
— E-eu… eu vi… Eu vi o falecido filho da Srª Russell de pé diante dela.
Nesse instante a mente de Edward começou a funcionar como uma máquina. Fantasma? Anjo? Demônio? O que poderia ter feito a imagem a do falecido Detetive Erick Russell aparecer no quarto de sua mãe. Poderia ele, em espírito, apenas estar acompanhando a alma de sua mãe, que também falecera esta manhã? Mas se for, por que Edward não sentira a presença de resíduos espirituais no Residencial quando entrou? Sim, aquele local estava por demais esterilizado de qualquer atividade espiritual ou fantasmagórica.
Mesmo assim, não poderia ser uma hipótese a ser descartada. Na verdade, qualquer hipótese não poderá ser descartada.
— Doutora, eu acredito piamente em você, mas antes eu preciso que você me leve até o quarto da falecida Srª Russell.
— E-eu? Não posso pedir que um enfermeiro lhe acompanhe?
Certamente ela estava por demais abalada com seu choque com o sobrenatural. Talvez seja melhor mesmo deixá-la ir.
— Sim, pode. Mas mesmo assim, muito obrigado pelo seu depoimento.
Os dois se levantaram da mesa onde conversavam, fizeram uma rápida despedida e assim que a doutora deu as costas ela deixou um pensamento alto fugir por seus lábios:
— Eu já estou muito velha para esse tipo de trabalho…
*****
Quarto 402, Residencial Geriátrico. 18h30min.
Era certo. A força sobrenatural que passou por ali era poderosa. Não havia sinais de atividade demoníaca, porém sua ressonância era muito diferente da dos anjos. Seria algo diferente? Algo novo e inexplicável? Edward continuou sua investigação concentrando-se em qualquer detalhe que pudesse levá-lo a uma pista eficiente.
Bastou alguns minutos, quando seus olhos clínicos o levaram até janela. Perto dela, no chão, algo estranho foi encontrado: uma flor de Lótus Azul. E não era uma flor qualquer, era uma flor especial, que nascia apenas nas águas do Rio Nilo. Olhando em volta, nenhum vaso de flores foi encontrado. O que aquilo poderia significar?
De qualquer forma, Edward estava ciente de que aquilo, fosse o que fosse, ira ajudá-lo a encontrar respostas para o que aconteceu. Ele apenas precisaria de um pouco mais de privacidade e, claro, alguns utensílios que somente seriam encontrados em seu apartamento. Mas antes de ir, ele precisava fazer mais uma coisa.
Buscando um PHDA em seu bolso, Edward começou a gravar a ressonância deixada naquele quarto pela criatura sobrenatural. Aquilo sem dúvida era a magia aliada a ciência. Quando ele precisasse novamente estudar aquela ressonância voltar ao quarto não seria mais necessário.
Tudo feito, agora ele precisaria apenas dar inicio a segunda etapa da investigação.
*****
Bexley, Grande Londres. 20h20min.
— Você veio parar muito longe… Erick Russell.
A voz de Edward ficou alguns segundos perdida no ar até que o homem que estava parado diante dele reagisse. Seu olhar era completamente fora do comum. Edward nunca havia se encontrado pessoalmente com o detetive em vida, mas sem dúvida nenhuma ele estava completamente diferente agora.
Seu corpo estava completamente imundo. Muita areia e lama se misturavam a algumas raízes e folhas que se espalhavam por todo seu corpo. Se não fosse pela farda carcomida, ele talvez estaria nu e nem se importaria. Certamente aquele homem acabara de sair de sua cova, de dentro para fora, tal como Edward, somente agora, suspeitava. E aquele símbolo que ele sustenta sobre seu peito, bem na altura do coração. Uma Ankh. Não havia mais dúvidas, aquele homem havia Ressuscitado.
Imediatamente Edward Muller se ajoelhou diante de Erick:
— Forças ocultas me trouxeram até você.
Erick olhou para ele impassível, com um incrível ar de superioridade:
<— Você é um fiel?>
Imediatamente Edward se arrepiou. Aquele home diante dele falava em língua egípcia antiga fluente. Nessa hora ele precisou urgente buscar seu tradutor universal, acoplado em seu PHDA, para poder ter um diálogo no mínimo decente:
<— Sim. Você veio em missão?>
<— Certamente. A alma deste mortal estava fragmentada e rogava por ajuda. Eu escutei suas súplicas e resolvi ajudá-lo. Um grande mal está para acontecer em breve.>
<— E… quem é você?>
<— Sou um dos 42 Juízes de Maat: Ari-em-ab-f. Sou a Verdade que julga aqueles que tentam impedir o Fluxo Natural das Águas. Mais conhecido como: Ankh.> [N. d. A: Pronuncia-se: Anak]
“Meu Deus…”, pensou Edward consigo. Sem dúvida nenhuma aquilo estava muito além do que ele poderia ter suspeitado. Um dos 42 Juízes de Maat? E aqui, em carne e osso? Mas… o que o trouxe até aqui?
< — Meu senhor. Perdoe minha ignorância, mas… Por que o senhor está aqui, no Mundo Mortal e como mortal?>
< — Como eu disse. Um grande mal está para acontecer. O Fluxo natural do universo será desafiado. Forças carregadas de soberba e arrogância tentaram roubar o trono de Rá. Eu sou o Juiz que julga estes atos. Eu sou aquele que deverá impedir isso. É por isso que estou aqui. E sua ajuda, fiel, será de extrema importância.>
< — Farei tudo que estiver ao meu alcance.>
< — Eu ainda não estou completo. Em poucas horas perderei todo o Sekhem possuo para manter este corpo de pé e me tornarei pó. Para que isto não ocorra preciso que me leve até a Teia da Fé.>
< — Você quer que eu leve até o Egito?>
< — Leve-me até o Templo de Osíris. Lá eu poderei terminar o Ritual de Ressurreição, e enfim, caminhar por esta terra. Faça isso, e serás eternamente gratificado.>
< — Sim, meu senhor.>
[Soundtrack: Fade Away – Breaking Benjamin]
O Juiz Ankh encerrou a conversa dando mais uma olhada para a cidade que clamou por sua vinda. Sim… um grande mal está prestes a acontecer. Talvez seja por isso que o Mundo dos Mortos estava tão eufórico. Espíritos decadentes lutam miseravelmente para conseguir um espaço no apoteótico evento que virá. E possivelmente, mesmo diante de um cataclismo sem precedentes, ele estará sozinho.
Mas a alma na qual ele se fundiu era forte e resistente. O Juiz nunca conheceu um mortal tão determinado quanto ele. Não havia dúvidas agora de sua missão.
Osíris despertou.
Um fiel foi prontamente colocado em seu caminho.
Aqueles que violam os princípios da Justiça e do Equilíbrio serão Julgados.
Nem a Morte será capaz de aplacar o Juízo Final.
To be continued…